Foi justamente
pensando nisso que me lembrei de Nísia Floresta
Brasileira Augusta, uma mulher cuja grandeza intelectual jamais
conseguiu apagar nela aquilo que talvez tenha sido sua marca mais profunda: o
sentimento maternal.
Poucas mulheres da
história brasileira souberam amar com tamanha intensidade os seus familiares
como Nísia Floresta. Em suas obras, em suas cartas, em seus escritos
memorialísticos e até mesmo em suas observações sobre o mundo, percebe-se
constantemente um coração povoado de saudades, afetos e preocupações
familiares. A figura de sua mãe, Antônia Clara
Freire do Revoredo (Goianinha: 1780 - Rio de Janeiro: 1855), aparece em
sua trajetória como verdadeiro porto sentimental. Nísia jamais esqueceu as
referências maternas recebidas na infância. Dona Antônia Freire não era
alfabetizada, mas o que lhe faltava em instrução formal sobrava-lhe em
sabedoria prática, amor e proteção à filha. Foi ela quem transmitiu à futura
educadora noções essenciais de humanidade, sensibilidade e firmeza moral.
Mesmo vivendo
longos anos na Europa, distante do Brasil e dos familiares, Nísia carregava
consigo a memória amorosa da mãe, frequentemente evocada em seus escritos de
maneira delicada, respeitosa e profundamente emocionada. O mesmo ocorria em
relação ao pai, Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa,
assassinado tragicamente em 1828, quando Nísia tinha apenas dezoito anos de
idade e sua mãe quarenta e oito. A dor dessa perda atravessou toda a sua
existência. Ela jamais conseguiu apagar da alma o trauma da violência que
arrancou tão cedo a presença paterna do convívio familiar.
A maneira como Nísia
se referia ao pai - homem culto e profundamente empenhado na educação da filha
- revelava não apenas admiração, mas verdadeira reverência afetiva. Em suas
recordações, Dionísio surgia como homem digno, honrado, amoroso e culto, cuja
ausência marcou para sempre a estrutura emocional da família. Talvez exatamente
por haver conhecido tão cedo a dor da perda, Nísia tenha desenvolvido um
sentimento maternal ainda mais intenso e protetor. Isso se percebe claramente
em sua relação com o irmão caçula, Joaquim Pinto
Brasil (Papari: 1819 – Rio de Janeiro: 1875), nascido Joaquim Pinto
Lisboa e que posteriormente adotaria o sobrenome Brasil. Após o assassinato do
pai, Joaquim era apenas uma criança de nove anos de idade. Nísia praticamente
assumiu para si uma postura de segunda mãe e ela mesma declararia isso mais
tarde. Sentia-se responsável pelo menino órfão, como se precisasse dobrar o
amor familiar para compensar a ausência brutal do pai.
Depositou nele cuidado, zelo, orientação e
expectativas. Talvez por isso tenha sido tão profunda a decepção que sentiu
posteriormente quando ele, aos dezesseis anos de idade, decidiu por um
casamento precoce e inesperado. Não era simples frustração entre irmãos: era a
dor de alguém que havia amado maternalmente, preocupando-se sinceramente com o
futuro do irmão e da família.
Mais tarde, em
Opúsculo Humanitário, publicado em 1853, Nísia mencionaria que Joaquim Pinto Brasil
era “pai de sete filhos”. Contudo, anos depois, em Fragments d’un Ouvrage
Inédit: Notes Biographiques, lançado em 1878, ela esclareceria que o irmão
tivera, na verdade, onze filhos, referindo-se anteriormente apenas aos que
estavam vivos. Joaquim tornar-se-ia figura respeitada na Corte, destacando-se
como advogado, professor, filósofo e homem público, chegando inclusive a ocupar
a pasta provincial da Agricultura, Comércio e Obras Públicas no Rio de Janeiro.
A própria estrutura
familiar de Nísia revela uma história marcada por perdas, recomeços e afetos
profundos. Ela era filha do segundo casamento de Antônia Clara Freire do
Revoredo, que enviuvou muito jovem do português Antonio
Rodrigues Fernandes. Desse primeiro matrimônio nasceu Maria Isabel do Sacramento. Posteriormente,
Antônia casou-se com Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, união da qual nasceram
Maria Clara, Joaquim Pinto Brasil e Nísia Floresta. Maria Clara era chamada
carinhosamente por Nísia de “Chixi”, apelido familiar que revela a intimidade afetiva
existente entre as irmãs.
A própria vida
conjugal de Nísia foi marcada por episódios difíceis. Casou-se ainda
adolescente, aos treze anos de idade, com Manoel
Alexandre Seabra de Melo, união que durou menos de um ano.
Posteriormente, estabeleceu relação com Manuel
Augusto de Faria Rocha, homem que se tornaria grande companheiro, mas
que fatalmente morreria pouco tempo depois, em 1833, deixando Augusto Américo
recé-m nascido.
É especialmente na
relação com os filhos que o espírito maternal de Nísia Floresta alcança sua
dimensão mais comovente. Ela foi mãe de Lívia
Augusta de Faria Rocha (Recife: 1830 - França: 1912) e Augusto Américo de Faria Rocha (Porto Alegre:
1833 - Rio de Janeiro: 1889), aos quais dedicou amor incondicional. Em meio às
dificuldades da vida, às perseguições intelectuais, às viagens constantes e aos
desafios de uma mulher muito à frente de seu tempo, Nísia jamais abandonou o
sentimento de proteção e responsabilidade para com os filhos. Sua maternidade
não era apenas biológica; era profundamente moral, intelectual e espiritual.
Uma das maiores provas
disso encontra-se em sua célebre obra Conselhos à Minha Filha, escrita
especialmente para Lívia Augusta por ocasião de seus doze anos de idade e
publicada em 1842. Trata-se talvez de um dos mais belos testemunhos de amor
maternal da literatura brasileira. O filho Augusto Américo lhe deu muitos
netos, prolongando a descendência familiar. Lívia Augusta, porém, encerrou a
existência em si mesma. Ficou viúva muito jovem, não teve filhos e jamais
voltou a casar.
Naquele pequeno
livro, Nísia não oferece apenas recomendações domésticas a uma filha
adolescente, a “Cerinha”, apelidada assim pelo irmão Joaquim, como
carinhosamente Nísia também a chamava. Ela entrega verdadeiro mapa ético para a
vida. Cada conselho parece escrito sob a típica preocupação materna. Há ali o
desejo sincero de preparar L´via para um mundo duro, desigual e frequentemente
cruel com as mulheres. N´sia desejava que a filha caminhasse pela estrada da
dignidade, da justiça, da honestidade, do respeito ao próximo e da educação
intelectual. Para ela, educar uma filha era formar uma consciência.
Existe algo
profundamente simbólico nesse gesto. Enquanto muitas jovens da época recebiam
vestidos, joias ou adornos sociais ao atingirem determinada idade, Nísia
resolveu presentear a filha com um livro de orientações morais e humanas. Era
como se dissesse silenciosamente que nenhum luxo, nenhuma joia ou riqueza
material teria valor superior à construção do caráter.
O espírito maternal
de Nísia também se manifestava em sua visão humanitária diante das dores do
mundo. Em sua obra O Brasil, ela relata, horrorizada, a realidade encontrada em
determinadas áreas rurais da França, onde crianças eram entregues a amas de leite
e cuidadoras improvisadas. O cenário descrito por ela é profundamente doloroso.
Nísia ficou chocada com a sujeira das casas, com a precariedade dos ambientes e
com o abandono ao qual muitas crianças eram submetidas.
Relata situações de
extrema negligência, nas quais mães biológicas - desnaturadas pelo egoísmo e
pela futilidade social - praticamente esqueciam os próprios filhos naquelas
propriedades miseráveis. O episódio mais terrível narrado por ela envolve uma
criança devorada por um porco diante do absoluto descaso em que vivia.
A indignação de
Nísia diante daquela realidade revela muito sobre sua concepção de maternidade.
Ela entendia que maternidade é instransferível. Para ela, o cuidado com a
infância era algo sagrado. A maternidade não poderia coexistir com abandono,
negligência ou indiferença. Seu horror não era apenas social; era profundamente
humano e maternal. Ela sofria ao perceber crianças privadas de carinho,
proteção e dignidade.
Essa mesma
sensibilidade aparece em diversas outras passagens de sua obra. Nísia sempre
demonstrou especial preocupação com a educação das meninas, com a formação
moral da juventude e com a construção de uma sociedade mais humana. Sua defesa
da educação feminina não nascia apenas de um ideal político ou intelectual.
Nascida também de uma percepção maternal do mundo, ela acreditava que mulheres
instruídas poderiam formar filhos melhores, famílias mais conscientes e uma
sociedade menos brutal. Talvez por isso sua escrita possua delicadeza que
atravessa o tempo. Mesmo quando combatia injustiças sociais, preconceitos ou
estruturas patriarcais, havia em suas palavras dimensão afetiva muito forte.
Era a voz de uma mulher que compreendia o sofrimento humano não apenas pela
razão, mas também pelo coração.
Hoje, enquanto tantas mães abraçam seus filhos,
recordo que Nísia Floresta Brasileira Augusta
permanece como forte expressão do sentimento maternal. Não apenas por ter
gerado filhos, mas porque transformou a maternidade em elevada forma de amor ao
próximo, proteção familiar e responsabilidade humana.
Hoje, lá nas terras
pantaneiras, para onde ela migrou minha mãe aguarda ligação telefônica de três
filhos que moram longe: uma filha no Oeste Paulista, outra na Mooca, em São
Paulo, e eu aqui, na terra onde ela e meu pai nasceram. Aguarda também o
telefonema de um neto que vive na Rússia e outro que mora na Irlanda. E nessa
espera - digo espera porque as mães estão sempre esperando ouvir filhos e netos
- compreendo ainda mais o valor dessas mulheres que sustentam silenciosamente a
memória das famílias.
Mulheres como
Antônia Clara. Mulheres como Nísia Floresta. Mulheres que envelhecem carregando
no coração o nome de cada filho, de cada neto, de cada ausência e de cada
saudade. Talvez seja exatamente isso a maternidade: um amor que jamais termina.
Um amor que atravessa oceanos, décadas e até mesmo a morte. Um amor como aquele
que Nísia Floresta guardou eternamente por sua mãe, por seu pai, por seus
filhos e por seus irmãos. Um amor tão grande que ainda hoje, mais de um século
após sua morte, continua emocionando aqueles que aprendem a conhecê-la.
E desse modo, saúdo minha mãe, e desse modo, saúdo Nísia Floresta e todas as mães do nosso querido Brasil!

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