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| Capa do livro, que, inclusive, o adquiri |
Em 1998, durante o lançamento do livro Ana Jansen, realizado no Centro de Convivência da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, e que participei, a escritora maranhense Rita Ribeiro revelou um fato curioso e revelador: sua obra havia provocado profundo desconforto em determinadas autoridades e em algumas famílias tradicionais do Maranhão. O motivo era simples. O livro resultava de extensa pesquisa documental e, ao reconstruir a trajetória de Ana Jansen, a autora precisou contextualizar personagens, acontecimentos e relações de poder de sua época.
Foi justamente nesse paciente trabalho de investigação que surgiram as contradições. À medida que examinava manuscritos antigos, correspondências, registros oficiais e documentos esquecidos em arquivos, Rita Ribeiro percebeu que muitas das figuras celebradas pela historiografia tradicional não correspondiam à imagem gloriosa construída ao longo das gerações. Aquilo que os livros apresentavam como verdade incontestável nem sempre encontrava sustentação nas fontes prim´rias.
Esse fenômeno está longe de ser excepcional. Pelo contrário, constitui uma das grandes preocupações da historiografia contemporânea. Desde as transformações promovidas pela Escola dos Annales, sobretudo a partir dasreflexões de Marc Bloch e Lucien Febvre, os historiadores passaram a compreender que a História não é um relato pronto e acabado, mas uma construção permanente, sujeita a revisões, questionamentos e novas interpretações. Mais tarde, autores como Jacques Le Goff, Pierre Nora, Roger Chartier e Carlo Ginzburg aprofundaram esse olhar crítico, demonstrando que a memória coletiva frequentemente produz mitos, silencios e distorções que acabam incorporados ao discurso histórico.
Ao exercer sua paleografia, Rita Ribeiro literalmente espanava a poeira acumulada sobre documentos fechados durante décadas ou mesmo séculos. E, como se despertassem de um longo sono, personagens esquecidos e histórias incômodas emergiam dos papéis amarelados. O resultado era perturbador: indivíduos retratados como heróis apareciam envolvidos em práticas condenáveis; figuras reverenciadas revelavam facetas autoritárias; homens considerados modelos de virtude surgiam associados a episódios pouco edificantes.
Ironicamente, muitos desses personagens continuavam eternizados em nomes de ruas, praças, escolas, bibliotecas, edifícios públicos, monumentos e instituições. Alguns davam nome até mesmo a importantes órgãos do Estado. Entretanto, os documentos revelavam trajetórias muito mais complexas do que aquelas transmitidas pela tradição oficial.
Naturalmente, a divulgação dessas descobertas provocou reações. Conforme relatou a própria autora, houve tentativas de dificultar ou desacreditar seu trabalho. Afinal, determinadas famílias sabiam que seus antepassados, transformados em “figuras notáveis” pela narrativa tradicional, poderiam ter suas máscaras removidas diante das evidências documentais.
O episódio vivido por Rita Ribeiro ilustra um fenômeno recorrente na História do Brasil. Ao longo dos séculos, inúmeros acontecimentos foram romantizados, embelezados, simplificados ou deliberadamente modificados. Muitas vezes isso ocorreu para agradar grupos dominantes, fortalecer interesses políticos, legitimar famílias influentes ou construir versões convenientes do passado.
A historiografia tradicional, sobretudo aquela produzida durante o século XIX e boa parte do século XX, valorizava grandes homens, feitos heroicos e narrativas patrióticas. Já a Nova História passou a investigar também os esquecidos, os anônimos, os marginalizados e os silenciados pelos documentos oficiais. Em vez de perguntar apenas quem governou, passou a perguntar quem foi excluído. Em vez de estudar apenas os vencedores, voltou-se também para os vencidos.
Por essa razão, muitos fatos foram recuperados e muitas versões precisaram ser revistas. A História deixou de ser exclusivamente a narrativa dos poderosos para tornar-se, gradualmente, uma investigação sobre as múltiplas experiências humanas. Durante muito tempo, quem escrevia a História eram os grupos que detinham o poder político, econômico e cultural. O povo comum raramente tinha acesso à escrita, à publicação ou aos meios de preservação documental. Consequentemente, os registros oficiais frequentemente refletiam os interesses das elites. Isso não significa que tudo fosse mentira, mas que a verdade aparecia misturada a exageros, omissões, engrandecimentos e conveniências.
Por isso a pesquisa histórica exige permanente confronto entre fontes, documentos e testemunhos. Nenhum documento fala sozinho. Nenhuma versão deve ser aceita sem questionamento. Como ensinava Marc Bloch, o historiador deve agir como um investigador que interroga os vestígios do passado. Apesar de toda a engenhosidade empregada na construção de determinadas narrativas, seus arquitetos frequentemente esqueceram um elemento fundamental: o tempo. O tempo transforma arquivos privados em documentos públicos. O tempo abre coleções antes inacessíveis. O tempo permite que novas gerações façam perguntas diferentes daquelas formuladas por seus antecessores.
Foi exatamente isso que aconteceu comigo.
Durante anos li textos e ouvi relatos sobre um cidadão apresentado como o primeiro intendente de uma determinada vila que posteriormente se transformou em município. Segundo a tradição local, ele teria governado durante quase meio s´culo e exercido papel exemplar na administração pública. Entretanto, ao consultar documentos primários, constatei que a realidade era muito diferente. Não havia sido o primeiro intendente, não governara durante tanto tempo e sua atuaçãoo política estava longe da imagem benevolente transmitida pela memória coletiva. Pelo contrário, surgiam indícios de práticas autoritárias e perseguições contra adversários e até mesmo uso de cartucheras para receber possíveis adversários políticos.
O resultado foi previsível. Certo dia encontrei um neto desse personagem histórico, pessoa que sempre me tratara com cordialidade. A partir do momento em que divulguei as descobertas documentais, passei a ser tratado como um estranho. Tornei-me, aos olhos dele, um inimigo. Não por ter inventado algo, mas por ter revelado o que os documentos mostravam.
Vivemos atualmente um período em que diversos países revisitam seus passados. Monumentos são questionados, homenagens são reavaliadas e antigas narrativas são submetidas ao escrutínio público. Em alguns lugares, estátuas foram derrubadas ou destruídas. Particularmente, considero mais produtivo contextualizar do que apagar. Um monumento pode permanecer onde está, desde que acompanhado de informações históricas corretas. O problema não é lembrar. O problema é lembrar errado.
As novas gerações precisam conhecer tanto as grandezas quanto as misérias do passado. Uma sociedade madura não constrói sua identidade apenas sobre heróis; constrói também sobre o reconhecimento dos erros, das injustiças e das contradições. Entretanto, esse novo olhar sobre a Hist´ria exige honestidade intelectual. Nem toda desconstrução é legítima. Nem toda denúncia é verdadeira. A revisão histórica precisa apoiar-se em evidências sólidas, documentos confiáveis e métodos rigorosos. Foi exatamente isso que Rita Ribeiro fez. Seu objetivo não era atacar famílias ou destruir reputações gratuitamente. Seu compromisso era com os fatos.
A História é feita dessas nuances. Às vezes as manipulações são grosseiras; outras vezes são sutis. Um exemplo frequentemente citado refere-se à divulgação da morte de Tancredo Neves, anunciada oficialmente em 21 de abril de 1985, mesma data dedicada a Tiradentes. A coincidência produzia forte efeito simbólico, aproximando duas figuras de grande relevância nacional. Independentemente das circunstâncias específicas daquele episódio, ele demonstra como datas símbolos e narrativas podem adquirir significados políticos e emocionais que ultrapassam os fatos em si.
Por isso, considero uma perda de tempo quando descendentes de personagens históricos se revoltam contra pesquisas fundamentadas. Os documentos permanecem. As fotografias permanecem. Os registros permanecem. As gerações passam; as fontes continuam. Mais cedo ou mais tarde surgirão novos pesquisadores, novas perguntas e novas interpretações. E, como aconteceu com Rita Ribeiro, as máscaras eventualmente cairão. Não por perseguição, mas porque a História, quando praticada com rigor e honestidade, possui uma extraordinária capacidade de aproximar-se da verdade possível.
Talvez essa seja uma das maiores lições da Nova História: compreender que o passado não pertence aos poderosos, aos governantes ou aos herdeiros de sobrenomes ilustres. O passado pertence à sociedade. E, por isso mesmo, deve permanecer permanentemente aberto à investigação, ao debate e à revisão crítica. 30.4.2023.

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