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| Dona Iracema, acometida por Diabete, enfrentou a doença com sofrimento, mas sem perder o amor a vida, sem perder o amor dos filhos e parentes, e assim, abençoada pelo amor da família caminhou até quando o corpo resistiu. |
Ontem, recebi com profundo pesar
a notícia do falecimento da Senhora Iracema Elisa de Carvalho, aos 85 anos. Ela
foi uma das vozes mais generosas que ouvi ao longo das minhas atividades de
História Oral, desenvolvidas no município de Nísia Floresta a partir de 1992. Dona Iracema
pertenceu a uma geração que testemunhou – ainda que de forma involuntária –
décadas de movimentação em torno do conjunto histórico de Nísia Floresta,
situado exatamente em frente à sua residência. Embora fosse a pessoa que zelava daquele espaço. Essa proximidade geográfica fez
dela e de seus familiares testemunhas oculares por excelência; os guardiões
silenciosos de um espaço cujas memórias herdaram também de seus pais.
Como sempre faço questão de
ressalvar, o mapeamento etnográfico que realizei em Nísia Floresta buscou
apreender a densidade cultural daquela comunidade sob a ótica de seus próprios
habitantes. Através de conversas informais e espontâneas, sem a rigidez
protocolar de uma entrevista de gabinete, pude inventariar o grau de
apropriação local sobre a biografia de Nísia Floresta, bem como salvaguardar
manifestações multifacetadas da cultura material e imaterial da região.
Evidentemente, cada tema ocupou seu devido lugar: investiguei a religiosidade,
o folclore, as lendas, as curiosidades locais, as práticas da culinária típica,
o universo do lúdico infantil tradicional e a perpetuação de costumes e
tradições que definem a singularidade identitária dos nisiaflorestenses.
Quando iniciei minhas incursões
de campo, elegi como prioridade dialogar com os mais idosos. Movia-me a
urgência de que a finitude da vida não levasse consigo os testamentos orais
daquela geração. Para mim, perder um idoso sem registrar suas memórias equivale
a queimar os mais preciosos livros de história, peças unicas que a arqueologia
jamais redescobrirá. Afinal, a Inteligência Artificial ainda não foi capaz de
conceber um dispositivo que extraia do cranio de um falecido o saber acumulado
ao longo de toda uma vida.

Dona Iracema
zelava do conjunto histórico de Nísia Floresta e era relativamente jovem quando
a conheci, em 1992; tinha 51 anos, era mais nova do que sou hoje. Contudo,
habitavam aquela casa parentes mais velhos e, considerando que o sepultamento
de Nísia Floresta havia ocorrido 37 anos antes, aquele nucleo familiar
representava umafonte inestimável de informação. Dali, extraí relatos
interessantes por meio de indagações estruturadas, mas nenhuma delas foi mais
importante do que um dado fornecido por Dona Iracema, capaz de desfazer uma
mentira cuja origem desconheço e que, por razões igualmente ignoradas, ao invés de ser absorvida pelo imaginário popular, gerou revolta nos nisisflorestenses, conforme veremos abaixo.
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| Sobrinhas da Dona Iracema brincando próximas ao conjunto histórico de Nísia Floresta há quase 40 anos. |
Normalmente, as perguntas que eu fazia para os nativos variavam conforme certas peculiaridades, conforme o caso dela, que, para mim, era a "guardiã daquele espaço". E a ela eu perguntei: A senhora
se lembra do dia da chegada dos restos mortais em 1954? Como era o terreno ou o
espaço em frente à sua casa antes da construção desse monumento?
Na época
do sepultamento, as pessoas da comunidade já conheciam a história de Nísia Floresta
ou a senhora e suas vizinhas aprenderam mais sobre ela por causa do monumento?
Como é a
rotina da senhora morando exatamente em frente ao túmulo de uma figura
histórica tão importante? Quem são as pessoas que a senhora
costuma ver visitando este local no dia a dia? Ao longo
desses 37 anos, a senhora se lembra de o monumento ter passado por momentos de
abandono ou por reformas importantes? Existe alguma tradição, homenagem ou
celebração feita pelas mulheres ou pela comunidade aqui em frente ao túmulo em
datas específicas? Para a senhora, a mudança do nome
da cidade de Papary para Nísia Floresta mudou o seu orgulho de morar aqui?
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| Exemplar de túmulo antigo no Rio Grande do Sul, cujas correntes são um recurso ornamental amplamente empregado na arquitetura cemiterial. |
Como folclorista nato, eu não
poderia deixar de explorar as fronteiras do imaginário popular. Perguntei-lhe
se pudesse escolher uma história ou
caso curioso que aconteceu aqui em frente a este monumento nestes anos todos,
qual seria? E como se trata de um túmulo às margens de uma estrada e
levando em conta a imaginação fértil das pessoas, perguntei também se ela já ouviu
alguma história de ‘malassombro’ relacionada ao túmulo de Nísia Floresta? A
indagação despertou risos imediatos. Dona Iracema confessou que, embora brincasse
que morar ali parecia viver dentro de um cemitério, lidava com aquilo com
naturalidade absoluta, sentenciando com sabedoria popular: “Os mortos não
mexem com ninguém. Quem faz mal aos outros são os vivos”. Nenhum de seus
familiares jamais presenciara qualquer manifestação sobrenatural ali. Confesso que - obviamente sem imaginar que, no futuro, alguém pudesse criar uma história de malassombro envolvendo a figura de Nísia Floresta -, jamais supus que o malassombro criado pudesse ser exatamente sobre ela.
Até então, as demais famílias que
eu pesquisava compartilhavam da mesma visão; nunca, em quase três décadas de
estudo, emergiu qualquer narrativa que vinculasse Nísia Floresta a almas
penada. Surpreendeu-me, portanto, uma mat´ria publicada em 2005 pela revista
de circulação nacional Cláudia com tal informação.
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| Revista Cláudia, 2005. |
Embora louvável o espaço concedido à
escritora, o texto veiculava uma informação inusitada: afirmava que, no
imaginário de Nísia Floresta, as correntes de ferro que circundam o monumento
teriam sido instaladas para “impedir que a alma de Nísia saísse à noite
para atacar os vivos”. Vejam se isso não é um devaneio, considerando que almas, segundo a tradição milenar, transpõem paredes e não há barreira que as impeçam de atravessar, portanto acreditar nisso soa como falta de cognição. Obviamente foi isso que gerou revolta em muitos nisiaflorestenses.
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| Professor Jorge Januário de Carvalho. Mais de meio século dedicado ao zelo pela história e memória de Nísia Floresta |
A tese era hilária. Apresentei o
artigo ao professor Jorge Januário de Carvalho, que reagiu com indignação. Para
ele, tal afirmação subestimava o intelecto dos nisiaflorestenses; ele próprio,
aos 58 anos de idade, jamais ouvira semelhante absurdo. Voltei a campo e
consultei outros idosos, que receberam a história entre risadas e desmentidos.
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Sabemos que as correntes em
monumentos fúnebres possuem função estritamente ornamental ou de isolamento,
servindo para evitar que os vivos pisem sobre o jazigo, nunca para enclausurar
espíritos. Retornei a questionar Dona Iracema, então com 64 anos. Ela riu
novamente e reiterou o que me dissera no início dos anos 1990. Nem ela, nem
seus vizinhos, tampouco a família Paulino – cuja residência foi erguida
simultaneamente à construção do túmulo – jamais ouviram tal lenda. Divertidos,
os vizinhos até me disseram que estavam me dizendo aquilo para me “fazer medo”.
Enfim, aquilo não fazia parte da cultura de Nísia Floresta.
Ao longo de
todos esses anos, Dona Iracema jamais se furtou a colaborar com minhas
pesquisas. Sempre me recebeu com atenção, paciência e uma generosidade rara,
respondendo às minhas perguntas com espontaneidade e sinceridade, sem jamais
demonstrar qualquer incômodo diante da insistência própria do ofício do
pesquisador. Sua disposição em compartilhar lembranças, esclarecer dúvidas e
preservar aquilo que sabia transformou-a em uma colaboradora de valor
inestimável para o meu trabalho de História Oral.
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| Residência da família Paulino, construída simultaneamente ao túmulo de Nísia Floresta |
Grande parte da compreensão
que hoje possuímos sobre a memoria social do conjunto histórico de Nísia
Floresta, inegavelmente deve-se também à sua boa vontade em transmitir aquilo
que viveu e ouviu de seus familiares. Por isso, minha gratidão para com Dona
Iracema transcende o reconhecimento de um pesquisador: é a gratidão de quem
encontrou, em sua casa e em sua acolhida, uma das mais sólidas correntes de
ligação entre o passado e o presente.
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| Monumento em homenagem a Tavares de Lira, vendo-se as correntes que o revestem (Cais de Natal) |
Nos últimos anos, acometida pela diabetes, Dona Iracema enfrentou o doloroso sofrimento da amputação da perna direita. Contudo, o amparo e o amor de sua família foram o bálsamo que lhe suavizou as provações, dando-lhe forças para aceitar uma realidade que, infelizmente, não era apenas sua, mas compartilhada por tantos outros. Com serenidade e coragem, venceu as adversidades e alcançou a dádiva dos 85 anos de vida. Partiu em paz, cercada pelo carinho e pelo amor de todos os que lhe eram queridos.
Ao tomar conhecimento do
falecimento de Dona Iracema, essas memórias inundaram minhas recordações como
água corrente. Ela foi parte indissociável e afetiva da minha jornada pela
história de Nísia Floresta. Não poderia deixar de manifestar publicamente meu
agradecimento e minhas condolências aos seus familiares. Embora meu blog já
registre menções à sua importância, este tributo impõe-se como um dever de
gratidão.
Dona Iracema cuidou com zelo do
conjunto histórico de Nísia Floresta durante anos, fazendo-se merecedora do
respeito de todos nós. Ontem, ela transpôs as correntes definitivas da
existência, encerrando com dignidade sua missão terrena. À sua família, deixo
meu abraço fraterno e a minha eterna gratidão...
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Lúcia Elisa do Nascimento (In memorian): "A Menina do Vestido Roxo" riu bastante quando lhe perguntei se era verdade que a corrente no túmulo de Nísia era para evitar que ela saísse para assombrar as pessoas.
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