ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sábado, 12 de setembro de 2026

MARIA CLARA, CASADA AOS 12 ANOS: A MULHER QUE PRECISOU EXISTIR EM UMA MENINA...


MARIA CLARA DE MAGALHÃES FONTOURA PEIXOTO, MINHA BISAVÓ

 

MARIA CLARA DE MAGALHÃES FONTOURA PEIXOTO, MINHA BISAVÓ

 

Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto (1861–1950) nasceu em Goianinha, no Rio Grande do Norte, e morreu em 1950, em Natal. Foi minha bisavó materna, mãe de José Gomes Peixoto (1889 – 1958), meu avô materno, e avó de minha mãe, Maria José Peixoto Freire (1932). Sua história se insere em uma antiga trama familiar que passa pelos Freire do Revoredo, pelos Ferreira da Silva, pelos Grillo, pelos Peixoto, pelos Magalhães Fontoura e pelos Belmiro, entre outros ramos que se entrelaçaram no Rio Grande do Norte ao longo do século XIX. Sua vida atravessou quase noventa anos e, por isso mesmo, acompanhou uma transformaçâo extraordinária do Brasil: nasceu ainda no Império de Pedro II, em uma sociedade escravista, viveu a Guerra do Paraguai, a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República, atravessou as primeiras décadas republicanas e chegou a um país que, quando morreu, em 1950, já era muito diferente daquele que conhecera na infância. Mas é por outro acontecimento, ocorrido quando ela tinha apenas doze anos, que sua história permanece particularmente viva na memória da família: em 1873, Maria Clara casou-se com Abel Gomes Peixoto (1845–1946), que tinha então 28 anos. Ela contava doze; ele, 28. Dezesseis anos os separavam em idade e, sobretudo, em experiência de vida. Para nós, hoje, a distância parece enorme. Uma menina de doze anos é inequivocamente uma criança ou, no máximo, uma pré-adolescente. No Brasil do século XIX, entretanto, as fronteiras entre infância, adolescência e idade adulta eram percebidas de maneira muito diferente, e o casamento precoce de meninas, embora não fosse uma experiência universal, fazia parte das possibilidades socialmente admitidas em determinados meios. O casamento era uma das instituições fundamentais da organização familiar, e a vida das mulheres estava profundamente condicionada pela família, pelo marido e pelo espaço doméstico. Isso ajuda a compreender o acontecimento, mas não o torna menos impressionante para quem, quase um século e meio depois, procura imaginar aquela menina diante da própria vida matrimonial.

 

Existe, entretanto, uma lembrança familiar que torna a história de Maria Clara mais complexa e, ao mesmo tempo, mais humana. Uma prima mais velha do que eu contou-me que Maria Clara, embora tivesse se casado praticamente na infância, não teria ido diretamente para a casa e para os poderes do marido. Segundo essa lembrança, ela teria permanecido inicialmente na casa de uma familiar, onde ficou até tomar mais corpo, isto é, até alcançar maior desenvolvimento físico e maturidade. Não sabemos precisar quanto tempo durou essa permanência, nem podemos afirmar documentalmente a idade exata que ela passou a viver plenamente a vida conjugal, mas não deve ter se demorado tanto quanto comparamos muitos casos semelhantes desse período. Ainda assim, a lembrança merece ser conservada, porque oferece uma perspectiva que nenhum registro de casamento poderia oferecer. Ela sugere que, mesmo dentro das pr´ticas daquele tempo, alguém próximo à família poderia ter reconhecido que uma menina de doze anos ainda era pequena demais para assumir imediatamente a vida de esposa. Há, além disso, uma curiosa impressão que permanece nas fotografias de Maria Clara já idosa: ela aparece como uma mulher miúda, de pequena compleição, enquanto Abel Gomes Peixoto (1845–1946) é um homem grande e fisicamente imponente. Evidentemente, não seria possível concluir, a partir de retratos da velhice, exatamente como era o corpo de Maria Clara ao se casar. Mas a imagem da mulher pequena, associada à lembrança de que, ainda menina, teria permanecido na casa de uma familiar até “tomar mais corpo”, permite uma reflexão que talvez seja mais importante do que qualquer certeza documental. Por trás da mulher que posteriormente conhecemos nas fotografias, existiu uma menina. E é essa menina que precisamos tentar enxergar quando lemos que, em 1873, ela se casou com um homem de 28 anos.

 

O casamento, portanto, não deve ser compreendido apenas como uma data – 1873 – nem como uma informação isolada sobre a vida de duas pessoas. Ele precisa ser colocado dentro do mundo em que Maria Clara nasceu. O Brasil daquele ano era uma monarquia, ainda profundamente rural, hierarquizada e escravista. A sociedade era organizada em torno de relações familiares, patrimoniais e de autoridade que hoje nos são estranhas, e as possibilidades de autonomia das mulheres eram muito menores do que aquelas que, gradualmente, seriam conquistadas nas décadas seguintes. O casamento podia significar a passagem quase imediata da tutela paterna para a autoridade do marido. Por isso, a lembrança de que Maria Clara não teria sido entregue imediatamente à casa do esposo, caso corresponda de fato ao que aconteceu, ganha um significado especial. Talvez tenha havido uma transição entre a menina e a mulher; talvez a família tenha entendido que, apesar do casamento celebrado, ela ainda precisava permanecer sob a proteção de uma mulher mais velha. Não temos como saber exatamente o que ocorreu. Mas a própria existência dessa lembrança familiar revela que a idade de Maria Clara era percebida como algo extraordinariamente precoce, mesmo dentro daquele contexto. E talvez seja justamente nesse ponto que a memória familiar consiga aproximar-se de uma verdade humana que os documentos, sozinhos, não registram.

 

Maria Clara e Abel tiveram uma família numerosa. Entre os filhos que chegaram à idade adulta ou ficaram registrados na memória familiar estão Maria Emília Gomes Peixoto (nascida em 1877), Enéas Gomes Peixoto (1887–1950), Joaquim Gomes Peixoto (nascido em 1888), Maria Amélia Gomes Peixoto (nascida em 1888), José Gomes Peixoto (1889–1958), Pedro Abel Peixoto (1895–1974) e Beliza Gomes Peixoto, cuja data de nascimento e morte não tenho estabelecida. José Gomes Peixoto (1889–1958), meu avô materno, foi o filho de Maria Clara através do qual sua história chegou diretamente à minha mãe, Maria José Peixoto Freire (1932). A existência dessa família numerosa acrescenta outra dimensão à imagem daquela menina de doze anos: a menina do casamento tornou-se mãe e, depois, avó, deixando atrás de si uma descendência que atravessaria o século XX. A história familiar conserva ainda a presença de Rosa Gomes Peixoto, filha de Abel com uma mulher escravizada que havia sido alforriada, fruto de uma relação de adultério. Rosa não deve ser confundida com os filhos de Maria Clara, mas sua existência também pertence à história daquele mesmo núcleo familiar e revela, de maneira particularmente dolorosa, como as relações pessoais estavam atravessadas pela escravidão e pelas profundas desigualdades sociais do Brasil oitocentista. Maria Clara, portanto, viveu dentro de uma sociedade em que casamento, família, propriedade, escravidão e autoridade estavam intimamente ligados. A história de sua casa não pode ser separada completamente da história do mundo social que a cercava.

 

É nesse contexto que a figura de Nísia Floresta aparece como um contraponto particularmente expressivo. Nísia Floresta Brasileira Augusta, nome literário de Dionísia Gonçalves Pinto (12 de outubro de 1810–24 de abril de 1885), era parente de Maria Clara por meio da família Freire do Revoredo: Antônia Clara Freire do Revoredo (1780–1855), mãe de Nísia, era irmã de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), antepassada de Maria Clara. Por essa linha, Maria Clara e Nísia pertenciam ao mesmo universo familiar, embora em diferentes gerações. A linhagem de Maria Clara passava ainda por Anna Francisca Ferreira da Silva (1793–?), filha de Francisca Clara, e por Manoel Joaquim Grillo (1790–?),com quem Anna Francisca se casou, chegando a Maria Jucunda Belmiro (1835–?), mãe de Maria Clara. O pai de Maria Clara foi o Capitão José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), filho de Manoel Thomaz Peixoto (1798–1869) e Claudina Maria Manuela de Castro (falecida em 1869). Assim, a história de Maria Clara reúne, em poucas gerações, famílias como Freire do Revoredo, Ferreira da Silva, Grillo, Peixoto, Castro, Belmiro e Magalhães Fontoura.

 

E existe entre as histórias de Maria Clara e Nísia uma coincidência que chama a atenção: Nísia também se casou muito jovem. Em 1823, aos treze anos, apaixonou-se por Manuel Alexandre Seabra de Melo, proprietário de terras, e quis casar-se com ele, recebendo o apoio dos pais. Isso pode hoje parecer estranho, mas seus pais tinham uma mentalidade diferente da que predominava em seu meio e não se opuseram à escolha da filha. O casamento, entretanto, não durou sequer um ano. Quando Nísia retornou à casa dos pais, eles a acolheram normalmente, ao contrário da sociedade, que a censurou e a apedrejou moralmente. Mais tarde, em 1828, passou a viver com Manuel Augusto de Faria Rocha, então estudante de Direito, com quem teve dois filhos: Lívia Augusta de Faria Rocha, nascida em 1830, e Augusto Américo de Faria Rocha, nascido em 1833. Manuel Augusto morreu em 1833, aos 25 anos, deixando Nísia viúva e com os dois filhos pequenos. Sua vida tomou então um rumo excepcional para uma mulher do século XIX: tornou-se escritora, educadora e uma das mais importantes vozes brasileiras em defesa da educação feminina e da ampliação do lugar das mulheres na sociedade. Maria Clara e Nísia, portanto, tiveram uma experiência inicial semelhante – ambas se casaram ainda meninas –, mas suas vidas tomaram caminhos completamente diferentes. Uma tornou-se uma personagem pública da história intelectual brasileira; a outra permaneceu principalmente dentro da esfera familiar. Essa diferença não diminui Maria Clara. Ao contrário, ajuda a perceber que a história das mulheres do século XIX não pode ser contada apenas através das que escreveram livros ou participaram da vida pública. A grande maioria viveu no silêncio das casas, criou filhos, manteve famílias e deixou sua marca de uma forma que só muito mais tarde poderia ser percebida.

 

A casa onde Maria Clara nasceu acrescenta uma dimensão material a essa lembrança. A Fazenda Bigle, situada na região em que hoje se encontra o município de Lagoa de Pedras, conserva a casa associada à família e à infância de Maria Clara. Eu não sabia da existência dessa casa, nunca havia estado no local e tampouco imaginava que ela guardasse uma memória tão expressiva de nossa família. A descoberta foi, para mim, semelhante a uma descoberta arqueológica: de repente, aquilo que eu conhecia apenas por nomes e histórias dispersas parecia ganhar um lugar concreto, uma casa, paredes e um espaço físico onde viveram os meus antepassados. Embora eu soubesse desses membros da nossa família, a descoberta sobre essa casa é recente. Um primo, Valdo Fontoura, hoje com 83 anos, que mantém a fazenda, contou-me que a casa guarda uma enorme galeria de fotografias de nossos antepassados. Essa galeria tem, para mim, um significado especial, pois, sem dúvida, é como se as paredes dessa casa tivessem congelado o tempo. As paredes da antiga casa conservaram uma parte da família que os documentos oficiais não conseguiram transmitir e que eu jamais imaginara encontrar. Rostos, gerações, expressões, roupas e corpos tornam visível aquilo que, de outro modo, seria apenas uma sucessão de nomes e datas.

A tradição familiar atribui a construção da casa ao Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto (16 de setembro de 1841–18 de novembro de 1945), irmão do Capitão José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), pai de Maria Clara; portanto, tio dela. A tradição também associa a construção ou consolidação da casa ao retorno do Major da Guerra do Paraguai. É significativo que o livro Os Trocos de Goianinha, de Ormuz Barbalho Simonetti, registre Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, também conhecida como Maria Jucunda Belmiro (1835–?), mãe de Maria Clara, como “Mãe do Bigle”, enquanto José Thomaz de Magalhães Fontoura, meu trisavô, era conhecido como “Papai Velho”. Esses apelidos, preservados na memória escrita da região, dizem muito sobre a importância que ambos tiveram na vida daquela comunidade e sobre a permanência da Fazenda Bigle na mem´ria de Goianinha.

Os Troncos de Goianinha, 2008.

A própria paisagem administrativa da região mudou várias vezes depois que Maria Clara nasceu, embora a terra, naturalmente, tenha permanecido no mesmo lugar. Na época de Maria Clara, a área pertencia a Goianinha. Com a criação do município de Santo Antônio, pelo Decreto nº 32, de 5 de julho de 1890, parte da região passou a integrar o novo município, desmembrado de Goianinha. No ano seguinte, porém, Santo Antônio foi extinto pelo Decreto nº 102, de 31 de março de 1891, e seu território voltou a ser anexado a Goianinha. A autonomia municipal foi restaurada em 8 de janeiro de 1892, pelo Decreto nº 6. Mais tarde, Santo Antônio passou a chamar-se Padre Miguelinho em 1943, recuperando o nome Santo Antônio em 1948. Finalmente, em 10 de maio de 1962, pela Lei Estadual nº 2.779, Lagoa de Pedras foi desmembrada de Santo Antônio e tornou-se município. Assim, a região da Fazenda Bigle, que no tempo de Maria Clara pertencia a Goianinha, passou pela circunscrição de Santo Antônio – com aquela breve reintegração a Goianinha entre 1891 e 1892 – e hoje integra o município de Lagoa de Pedras. Essa sucessão de nomes e limites municipais é, de certa forma, uma lembrança de que as fronteiras administrativas mudam muito mais rapidamente do que a memória das famílias e a permanência das casas.

Há, porém, uma lembrança ainda mais forte associada à Fazenda Bigle, porque ela nos obriga a olhar para a história de Maria Clara não apenas como a história de uma família, mas como parte da história da escravidão no Brasil. Valdo Fontoura contou-me que José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), pai de Maria Clara, quando residia na Fazenda Bigle, possuía dezenove pessoas escravizadas. Uma delas, ao morrer, teve uma capela erguida no local em sua homenagem. Essa pequena construção, até hoje preservada, representa uma das mais fortes materializações da memória daquele período, inclusive um de seus cuidadores é Toni Fontoura (irmão de Naldo Fontoura), padre na Bahia e que todo ano vem para organizar festejos no local. José Thomaz morreu em 1913, vinte e cinco anos depois da Abolição da Escravatura. Essa distância temporal é importante: ele pertenceu a uma geração que viveu diretamente a escravidão e, depois, passou ainda um quarto de século em uma sociedade formalmente livre. A morte de José Thomaz em 1913 mostra, de maneira muito concreta, que a memória da escravidão não está tão distante no tempo quanto às vezes imaginamos. Pessoas que possuíam escravizados chegaram a conviver por décadas com filhos, netos e bisnetos daqueles que haviam sido escravizados. A história de Maria Clara, portanto, estásituada exatamente nessa zona de transição entre dois Brasis: o Brasil escravista de sua infância e o Brasil pós-abolição de sua velhice.

A tradição familiar conta que Francisca Clara Freire do Revoredo, bisavó de Maria Jucunda Belmiro, possuía muitos escravizados. Desse modo, diante da informação transmitida por Valdo Fontoura sobre a existência de dezenove pessoas escravizadas na Fazenda Bigle durante o período em que José Thomaz de Magalhães Fontoura ali residiu, percebe-se que ele e Maria Jucunda representaram a última geração da família a manter escravizados naquela propriedade, onde viveu sua filha Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto, trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo.

É impossível não pensar que Maria Clara cresceu dentro desse mundo. Quando se casou, em 1873, a escravidão ainda era uma realidade legal no país e permaneceria assim por mais quinze anos. Quando seu pai, José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), morreu, em 1913, a escravidão já havia sido abolida havia 25 anos. Quando Maria Clara morreu, em 1950, haviam se passado 62 anos desde a Lei Áurea. Sua própria vida, portanto, cobre praticamente a passagem entre esses dois mundos. Ela nasceu em uma sociedade na qual pessoas podiam ser legalmente propriedade de outras pessoas e morreu em uma sociedade que já considerava a escravidão uma instituição pertencente ao passado. Mas esse passado não estava distante: estava nas fotografias, nas casas, nas histórias contadas pelos mais velhos, nos nomes das pessoas, nos lugares onde haviam vivido e morrido e, sobretudo, na própria memória familiar.

Também é significativo que todos os antepassados de Maria Clara, segundo a memória da família, estejam sepultados em Goianinha, inclusive sua avó, Francisca Clara Freire do Revoredo, enquanto ela própria repousa no Cemitério do Alecrim, em Natal. Existe aí uma espécie de deslocamento silencioso: os que vieram antes dela permaneceram ligados à terra de origem, enquanto Maria Clara, já pertencente a outra geração e a outro momento histórico, terminou seus dias em Natal. Goianinha guarda, assim, as raízes mais antigas de sua fam´lia; Natal guarda o lugar onde sua longa vida chegou ao fim. Entre esses dois pontos está a existência de uma mulher que nasceu numa fazenda, casou-se aos doze anos, teve uma família numerosa e viveu o suficiente para assistir à transformação quase completa do mundo em que havia nascido. Talvez seja esse o aspecto mais impressionante de sua história.

 

Ontem, dia 11 de setembro de 2026, conversando – por telefone – com minha mãe, ela disse que sua avó Maria Clara era muito reservada e polida. Só conversava o necessário, por isso alguns netos não se aproximavam muito dela. Quando pensamos em Maria Clara, é fácil deixar que a informação “casou-se aos doze anos” se transforme apenas em uma curiosidade familiar. Mas, quando procuramos imaginar a menina por trás dessa informação, tudo muda. Ela tinha doze anos quando se casou com um homem de 28. Talvez tenha permanecido inicialmente sob os cuidados de uma familiar; talvez tenha esperado até uns 14 anos para assumir efetivamente a vida conjugal. Não sabemos. Sabemos, porém, que aquela menina cresceu, tornou-se mulher, teve filhos e viveu até os 89 anos, que seu filho José nasceu em 1889, no mesmo ano em que o Brasil se tornou uma República, que seu pai morreu em 1913, quando a Abolição já pertencia a uma geração anterior. Sabemos que ela própria morreu em 1950, quando o país já havia passado por mudanças políticas, sociais e culturais que seriam inimagináveis para a menina de 1873. E sabemos que, por meio de seus filhos e netos, sua vida continuou.

 

É nesse sentido que a história de Maria Clara talvez possa ser compreendida como a história de uma mulher comum que viveu um tempo extraordinário. Ela não foi uma escritora como Nísia Floresta, não deixou uma obra intelectual conhecida, não ocupou um lugar de destaque na vida pública. Sua existência foi principalmente doméstica e familiar. Mas justamente por isso ela nos permite olhar para o século XIX de um ângulo diferente. Nísia nos mostra a mulher que rompeu com as expectativas de seu tempo e transformou a própria experiência em palavra pública. Maria Clara nos mostra a mulher que permaneceu dentro das estruturas de seu tempo e cuja história chegou até nós através das gerações, das fotografias, das casas e das lembranças contadas pelos mais velhos. Uma escreveu para o mundo; a outra permaneceu na memória de uma família. Mas as duas, pertencentes ao mesmo grande universo familiar e separadas por apenas algumas décadas, carregam em suas vidas uma mesma marca: a entrada precoce no casamento.

 

Talvez seja por isso que a lembrança de Maria Clara aos doze anos permaneça tão perturbadora e tão necessária. Não se trata de julgar uma mulher que viveu em outro século pelos critérios do presente, nem de transformar em normal aquilo que hoje reconhecemos como uma infância interrompida. Trata-se de tentar compreender. E compreender, neste caso, significa olhar para aquela menina dentro de sua época, sem esquecer aquilo que sabemos hoje sobre a infância e sobre a desigualdade entre homens e mulheres. Significa reconhecer que o casamento de 1873 foi possível porque existia uma sociedade que o admitia, mas também significa perceber, através da memória de que ela teria permanecido inicialmente na casa de uma familiar, que a própria família talvez tivesse consciência de sua pouca idade e de sua fragilidade. Entre o documento e a lembrança existe uma zona que não podemos preencher com certezas. É justamente ali que nasce a reflexão.

 

Maria Clara morreu em 1950 e foi sepultada no Cemitério do Alecrim. Seus antepassados, que durante gerações permaneceram ligados a Goianinha, ficaram para trás, sob a terra onde aquela história familiar começou. A Fazenda Bigle continua como um lugar de memória, e a casa conserva, nas fotografias reunidas, os rostos de muitas das pessoas que vieram antes de nós. Talvez seja esse o melhor modo de recordar Maria Clara: não apenas como a mulher que se casou aos doze anos, mas como a menina que existiu antes daquele casamento e como a mulher que, depois dele, atravessou quase todo um século de história brasileira. Entre a menina de 1873 e a senhora de 1950 há uma vida inteira, uma vida que começou em Goianinha, passou pela Fazenda Bigle, pelo casamento com Abel Gomes Peixoto, pela maternidade e pela família, atravessou o fim da escravidão e do Império, acompanhou o nascimento da República e terminou em Natal. E é justamente porque hoje podemos olhar para trás, com a distância de várias gerações, que aquela menina de doze anos pode finalmente ser vista não apenas como um nome em uma família, mas como uma pessoa situada no seu tempo, com todas as circunstâncias, limitações, afetos e mistérios que a sua longa vida deixou para nós. E existe entre as histórias de Maria Clara e Nísia um contraste que sintetiza as tensões do próprio século XIX. Enquanto Nísia rompeu com as amarras de seu tempo, usou a voz literária para questionar a opressão patriarcal e defendeu o direito das mulheres à educação e à autonomia, Maria Clara viveu a realidade concreta e silenciosa dessas mesmas amarras, casando-se na infância e cumprindo o destino tradicional da maternidade e do espaço doméstico. Ainda assim, as duas trajetórias não se anulam; completam-se. Nísia Floresta escreveu sobre os direitos que Maria Clara, em sua miúda complexidade, buscou tatear quando a família decidiu que ela precisava 'tomar corpo' antes de ser inteiramente esposa. Olhar para ambas é compreender que a história das mulheres no Rio Grande do Norte fez-se tanto pelo grito público da intelectualidade quanto pela resistência silenciosa e íntima das meninas que, feito Maria Clara, guardaram sua própria humanidade em um mundo de homens grandes.

OBS. Qualquer diz desses, vou à Fazenda Bigle para registrá-la. Inclusive Naldo me disse que eles também guardam alguns bens pessoais que pertenceram ao Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto.

 

REFERÊNCIAS

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO RIO GRANDE DO NORTE. História legislativa dos municípios do Rio Grande do Norte. Natal: Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Norte.

CÂMARA MUNICIPAL DE LAGOA DE PEDRAS. História de Lagoa de Pedras. Lagoa de Pedras, RN: Câmara Municipal.

CÂMARA MUNICIPAL DE LAGOA DE PEDRAS. História do município. Lagoa de Pedras, RN: Câmara Municipal, 2026. Disponível em: https://camaradelagoadepedras.rn.gov.br. Acesso em: 12 ago. 2026.

DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: vida e obra. Natal: Editora Universitária/UFRN, 1995.

FLORESTA, Nísia. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. São Paulo: Cortez, 1989.

FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO. Nísia Floresta. Recife: Fundação Joaquim Nabuco.

FREIRE, Luís Carlos. O casamento do meu tio-bisavô, Alferes José Thomaz de Magalhães Fontoura e Dona Amélia Martins Pereira em 1893... Nísia Floresta por Luís Carlos Freire, 2026. Disponível em:

https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2026/08/o-casamento-do-meu-tio-bisavo-alferes.html. Acesso em: 12 set. 2026.

 

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Histórico do município de Santo Antônio, Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: IBGE, 2026. Disponível em: https://www.ibge.gov.br. Acesso em: 12 set. 2026.

 

PREFEITURA MUNICIPAL DE SANTO ANTÔNIO (RN). Histórico do município. Santo Antônio, RN: Prefeitura Municipal.

 

REGISTROS, fotografias e documentos familiares relativos a Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto (1861–1950), Abel Gomes Peixoto (1845–1946), José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), à Fazenda Bigle e aos seus descendentes. Acervo particular da família Fontoura Peixoto.

SIMONETTI, Ormuz Barbalho. Os trocos de Goianinha. Natal, RN: Offset Gráfica, 2008. 604 p.

TRADIÇÃO ORAL e depoimentos de familiares relativos à Fazenda Bigle, especialmente informações transmitidas por Valdo Fontoura. Acervo memorialístico familiar.

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