MARIA CLARA DE MAGALHÃES FONTOURA PEIXOTO, MINHA BISAVÓ
MARIA CLARA DE MAGALHÃES FONTOURA PEIXOTO, MINHA BISAVÓ
Maria Clara de Magalhães Fontoura
Peixoto (1861–1950) nasceu em Goianinha, no Rio Grande
do Norte, e morreu em 1950, em Natal. Foi minha bisavó
materna, mãe de José Gomes Peixoto (1889 – 1958), meu avô materno, e
avó de minha mãe, Maria José Peixoto Freire (1932). Sua
história se insere em uma antiga trama familiar que
passa pelos Freire do Revoredo, pelos Ferreira da Silva,
pelos Grillo, pelos Peixoto, pelos Magalhães Fontoura e pelos
Belmiro, entre outros ramos que se entrelaçaram no Rio Grande do
Norte ao longo do século XIX. Sua vida atravessou quase
noventa anos e, por isso mesmo, acompanhou uma transformaçâo
extraordinária do Brasil: nasceu ainda no Império de Pedro II,
em uma sociedade escravista, viveu a Guerra do Paraguai, a Abolição
da Escravatura e a Proclamação da República, atravessou as
primeiras décadas republicanas e chegou a um país que,
quando morreu, em 1950, já era muito diferente daquele
que conhecera na infância. Mas é por outro acontecimento, ocorrido quando
ela tinha apenas doze anos, que sua história permanece
particularmente viva na memória da família: em 1873, Maria
Clara casou-se com Abel Gomes Peixoto (1845–1946),
que tinha então 28 anos. Ela contava doze; ele, 28. Dezesseis
anos os separavam em idade e, sobretudo, em experiência de vida.
Para nós, hoje, a distância parece enorme. Uma menina de doze
anos é inequivocamente uma criança ou, no máximo, uma
pré-adolescente. No Brasil do século XIX, entretanto, as
fronteiras entre infância, adolescência e idade adulta eram
percebidas de maneira muito diferente, e o casamento precoce de
meninas, embora não fosse uma experiência universal, fazia parte
das possibilidades socialmente admitidas em determinados meios.
O casamento era uma das instituições fundamentais da organização
familiar, e a vida das mulheres estava profundamente
condicionada pela família, pelo marido e pelo espaço doméstico.
Isso ajuda a compreender o acontecimento, mas não o
torna menos impressionante para quem, quase um século e
meio depois, procura imaginar aquela menina diante da própria
vida matrimonial.
Existe, entretanto, uma lembrança familiar
que torna a história de Maria Clara mais complexa e, ao mesmo
tempo, mais humana. Uma prima mais velha do que eu contou-me
que Maria Clara, embora tivesse se casado praticamente na
infância, não teria ido diretamente para a casa e para os
poderes do marido. Segundo essa lembrança, ela teria permanecido
inicialmente na casa de uma familiar, onde ficou até
tomar mais corpo, isto é, até alcançar maior desenvolvimento
físico e maturidade. Não sabemos precisar quanto tempo durou
essa permanência, nem podemos afirmar documentalmente a idade
exata que ela passou a viver plenamente a vida conjugal, mas não
deve ter se demorado tanto quanto comparamos muitos casos semelhantes desse
período. Ainda assim, a lembrança merece ser conservada,
porque oferece uma perspectiva que nenhum registro de casamento
poderia oferecer. Ela sugere que, mesmo dentro das pr´ticas
daquele tempo, alguém próximo à família poderia ter reconhecido
que uma menina de doze anos ainda era pequena demais para
assumir imediatamente a vida de esposa. Há, além disso, uma
curiosa impressão que permanece nas fotografias de Maria Clara
já idosa: ela aparece como uma mulher miúda, de
pequena compleição, enquanto Abel Gomes Peixoto (1845–1946) é
um homem grande e fisicamente imponente. Evidentemente, não seria
possível concluir, a partir de retratos da velhice, exatamente
como era o corpo de Maria Clara ao se casar. Mas a imagem
da mulher pequena, associada à lembrança de que, ainda menina,
teria permanecido na casa de uma familiar até “tomar mais
corpo”, permite uma reflexão que talvez seja mais importante do
que qualquer certeza documental. Por trás da mulher que
posteriormente conhecemos nas fotografias, existiu uma menina. E é
essa menina que precisamos tentar enxergar quando lemos que,
em 1873, ela se casou com um homem de 28 anos.
O casamento, portanto, não deve ser compreendido
apenas como uma data – 1873 – nem como uma informação isolada
sobre a vida de duas pessoas. Ele precisa ser
colocado dentro do mundo em que Maria Clara nasceu.
O Brasil daquele ano era uma monarquia, ainda profundamente rural,
hierarquizada e escravista. A sociedade era organizada em torno de
relações familiares, patrimoniais e de autoridade que hoje nos são
estranhas, e as possibilidades de autonomia das mulheres eram
muito menores do que aquelas que, gradualmente, seriam conquistadas
nas décadas seguintes. O casamento podia significar a passagem
quase imediata da tutela paterna para a autoridade do marido.
Por isso, a lembrança de que Maria Clara não teria sido
entregue imediatamente à casa do esposo, caso corresponda de
fato ao que aconteceu, ganha um significado especial. Talvez
tenha havido uma transição entre a menina e a mulher; talvez a
família tenha entendido que, apesar do casamento celebrado, ela
ainda precisava permanecer sob a proteção de uma mulher
mais velha. Não temos como saber exatamente o que ocorreu. Mas a
própria existência dessa lembrança familiar revela que a idade
de Maria Clara era percebida como algo extraordinariamente
precoce, mesmo dentro daquele contexto. E talvez seja justamente
nesse ponto que a memória familiar consiga aproximar-se
de uma verdade humana que os documentos, sozinhos, não registram.
Maria Clara e Abel tiveram uma família numerosa.
Entre os filhos que chegaram à idade adulta ou
ficaram registrados na memória familiar estão Maria Emília Gomes
Peixoto (nascida em 1877), Enéas Gomes Peixoto (1887–1950), Joaquim Gomes
Peixoto (nascido em 1888), Maria Amélia Gomes Peixoto (nascida
em 1888), José Gomes Peixoto (1889–1958), Pedro Abel Peixoto
(1895–1974) e Beliza Gomes Peixoto, cuja data de nascimento e
morte não tenho estabelecida. José Gomes Peixoto (1889–1958), meu avô materno,
foi o filho de Maria Clara através do qual sua
história chegou diretamente à minha mãe, Maria José Peixoto
Freire (1932). A existência dessa família numerosa acrescenta
outra dimensão à imagem daquela menina de doze anos: a
menina do casamento tornou-se mãe e, depois, avó, deixando atrás de
si uma descendência que atravessaria o século XX. A história familiar conserva ainda a presença de Rosa
Gomes Peixoto, filha de Abel com uma mulher escravizada que havia sido
alforriada, fruto de uma relação de adultério. Rosa não deve ser confundida com
os filhos de Maria Clara, mas sua existência também pertence à história daquele
mesmo núcleo familiar e revela, de maneira particularmente dolorosa, como as
relações pessoais estavam atravessadas pela escravidão e pelas profundas
desigualdades sociais do Brasil oitocentista. Maria Clara, portanto, viveu
dentro de uma sociedade em que casamento, família, propriedade, escravidão e
autoridade estavam intimamente ligados. A história de sua casa não pode ser
separada completamente da história do mundo social que a cercava.
É nesse contexto que a figura de Nísia
Floresta aparece como um contraponto particularmente expressivo.
Nísia Floresta Brasileira Augusta, nome literário de
Dionísia Gonçalves Pinto (12 de outubro de 1810–24 de abril
de 1885), era parente de Maria Clara por meio da família Freire
do Revoredo: Antônia Clara Freire do Revoredo (1780–1855), mãe
de Nísia, era irmã de Francisca Clara Freire do
Revoredo (1760–1840), antepassada de Maria Clara. Por essa linha,
Maria Clara e Nísia pertenciam ao mesmo universo familiar, embora em
diferentes gerações. A linhagem de Maria Clara passava ainda
por Anna Francisca Ferreira da Silva (1793–?), filha de
Francisca Clara, e por Manoel Joaquim Grillo (1790–?),com quem Anna
Francisca se casou, chegando a Maria Jucunda Belmiro (1835–?),
mãe de Maria Clara. O pai de Maria Clara foi o Capitão José
Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), filho de Manoel
Thomaz Peixoto (1798–1869) e Claudina Maria Manuela de Castro (falecida
em 1869). Assim, a história de Maria Clara reúne, em
poucas gerações, famílias como Freire do Revoredo, Ferreira da Silva,
Grillo, Peixoto, Castro, Belmiro e Magalhães Fontoura.
E existe entre as histórias de Maria Clara
e Nísia uma coincidência que chama a atenção: Nísia também se casou muito jovem.
Em 1823, aos treze anos, apaixonou-se por Manuel Alexandre Seabra de Melo,
proprietário de terras, e quis casar-se com ele, recebendo o apoio dos pais.
Isso pode hoje parecer estranho, mas seus pais tinham uma mentalidade diferente
da que predominava em seu meio e não se opuseram à escolha da filha. O
casamento, entretanto, não durou sequer um ano. Quando Nísia retornou à casa
dos pais, eles a acolheram normalmente, ao contrário da sociedade, que a
censurou e a apedrejou moralmente. Mais tarde, em 1828, passou a viver com
Manuel Augusto de Faria Rocha, então estudante de Direito, com quem teve dois
filhos: Lívia Augusta de Faria Rocha, nascida em 1830, e Augusto Américo de
Faria Rocha, nascido em 1833. Manuel Augusto morreu em 1833, aos 25 anos,
deixando Nísia viúva e com os dois filhos pequenos. Sua vida tomou então um
rumo excepcional para uma mulher do século XIX: tornou-se escritora, educadora
e uma das mais importantes vozes brasileiras em defesa da educação feminina e
da ampliação do lugar das mulheres na sociedade. Maria Clara e Nísia, portanto,
tiveram uma experiência inicial semelhante – ambas se casaram ainda meninas –,
mas suas vidas tomaram caminhos completamente diferentes. Uma tornou-se uma
personagem pública da história intelectual brasileira; a outra permaneceu
principalmente dentro da esfera familiar. Essa diferença não diminui Maria
Clara. Ao contrário, ajuda a perceber que a história das mulheres do século XIX
não pode ser contada apenas através das que escreveram livros ou participaram da
vida pública. A grande maioria viveu no silêncio das casas, criou filhos,
manteve famílias e deixou sua marca de uma forma que só muito mais tarde
poderia ser percebida.
A casa onde Maria Clara nasceu acrescenta uma dimensão
material a essa lembrança. A Fazenda Bigle, situada na região em que hoje se
encontra o município de Lagoa de Pedras, conserva a casa associada à família e
à infância de Maria Clara. Eu não sabia da existência dessa casa, nunca havia
estado no local e tampouco imaginava que ela guardasse uma memória tão
expressiva de nossa família. A descoberta foi, para mim, semelhante a uma
descoberta arqueológica: de repente, aquilo que eu conhecia apenas por nomes e
histórias dispersas parecia ganhar um lugar concreto, uma casa, paredes e um espaço
físico onde viveram os meus antepassados. Embora eu soubesse desses membros da
nossa família, a descoberta sobre essa casa é recente. Um primo, Valdo
Fontoura, hoje com 83 anos, que mantém a fazenda, contou-me que a casa guarda
uma enorme galeria de fotografias de nossos antepassados. Essa galeria tem,
para mim, um significado especial, pois, sem dúvida, é como se as paredes dessa
casa tivessem congelado o tempo. As paredes da antiga casa conservaram uma
parte da família que os documentos oficiais não conseguiram transmitir e que eu
jamais imaginara encontrar. Rostos, gerações, expressões, roupas e corpos
tornam visível aquilo que, de outro modo, seria apenas uma sucessão de nomes e
datas.
A tradição familiar atribui a construção da casa ao Major
Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto (16 de setembro de 1841–18 de novembro
de 1945), irmão do Capitão José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), pai
de Maria Clara; portanto, tio dela. A tradição também associa a construção ou
consolidação da casa ao retorno do Major da Guerra do Paraguai. É significativo
que o livro Os Trocos de Goianinha, de Ormuz Barbalho Simonetti,
registre Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, também conhecida como Maria
Jucunda Belmiro (1835–?), mãe de Maria Clara, como “Mãe do Bigle”, enquanto
José Thomaz de Magalhães Fontoura, meu trisavô, era conhecido como “Papai
Velho”. Esses apelidos, preservados na memória escrita da região, dizem muito
sobre a importância que ambos tiveram na vida daquela comunidade e sobre a
permanência da Fazenda Bigle na mem´ria de Goianinha.
![]() |
| Os Troncos de Goianinha, 2008. |
A
própria paisagem administrativa da região mudou várias vezes depois que Maria
Clara nasceu, embora a terra, naturalmente, tenha permanecido no mesmo lugar.
Na época de Maria Clara, a área pertencia a Goianinha. Com a criação do
município de Santo Antônio, pelo Decreto nº 32, de 5 de julho de 1890, parte da
região passou a integrar o novo município, desmembrado de Goianinha. No ano
seguinte, porém, Santo Antônio foi extinto pelo Decreto nº 102, de 31 de março
de 1891, e seu território voltou a ser anexado a Goianinha. A autonomia
municipal foi restaurada em 8 de janeiro de 1892, pelo Decreto nº 6. Mais
tarde, Santo Antônio passou a chamar-se Padre Miguelinho em 1943, recuperando o
nome Santo Antônio em 1948. Finalmente, em 10 de maio de 1962, pela Lei
Estadual nº 2.779, Lagoa de Pedras foi desmembrada de Santo Antônio e tornou-se
município. Assim, a região da Fazenda Bigle, que no tempo de Maria Clara
pertencia a Goianinha, passou pela circunscrição de Santo Antônio – com aquela
breve reintegração a Goianinha entre 1891 e 1892 – e hoje integra o município
de Lagoa de Pedras. Essa sucessão de nomes e limites municipais é, de certa
forma, uma lembrança de que as fronteiras administrativas mudam muito mais
rapidamente do que a memória das famílias e a permanência das casas.
Há, porém, uma lembrança ainda mais forte associada à
Fazenda Bigle, porque ela nos obriga a olhar para a história de Maria Clara não
apenas como a história de uma família, mas como parte da história da escravidão
no Brasil. Valdo Fontoura contou-me que José Thomaz de Magalhães Fontoura
(1829–1913), pai de Maria Clara, quando residia na Fazenda Bigle, possuía
dezenove pessoas escravizadas. Uma delas, ao morrer, teve uma capela erguida no
local em sua homenagem. Essa pequena construção, até hoje preservada,
representa uma das mais fortes materializações da memória daquele período,
inclusive um de seus cuidadores é Toni Fontoura (irmão de Naldo Fontoura),
padre na Bahia e que todo ano vem para organizar festejos no local. José Thomaz
morreu em 1913, vinte e cinco anos depois da Abolição da Escravatura. Essa
distância temporal é importante: ele pertenceu a uma geração que viveu
diretamente a escravidão e, depois, passou ainda um quarto de século em uma
sociedade formalmente livre. A morte de José Thomaz em 1913 mostra, de maneira
muito concreta, que a memória da escravidão não está tão distante no tempo
quanto às vezes imaginamos. Pessoas que possuíam escravizados chegaram a
conviver por décadas com filhos, netos e bisnetos daqueles que haviam sido
escravizados. A história de Maria Clara, portanto, estásituada exatamente nessa
zona de transição entre dois Brasis: o Brasil escravista de sua infância e o
Brasil pós-abolição de sua velhice.
A tradição familiar conta que Francisca
Clara Freire do Revoredo, bisavó de Maria Jucunda Belmiro, possuía muitos
escravizados. Desse modo, diante da informação transmitida por Valdo Fontoura
sobre a existência de dezenove pessoas escravizadas na Fazenda Bigle durante o
período em que José Thomaz de Magalhães Fontoura ali residiu, percebe-se que
ele e Maria Jucunda representaram a última geração da família a manter
escravizados naquela propriedade, onde viveu sua filha Maria Clara de Magalhães
Fontoura Peixoto, trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo.
É impossível não pensar que Maria Clara cresceu
dentro desse mundo. Quando se casou, em 1873, a
escravidão ainda era uma realidade legal no país e
permaneceria assim por mais quinze anos. Quando seu pai,
José Thomaz de Magalhães Fontoura (1829–1913), morreu, em 1913, a
escravidão já havia sido abolida havia 25 anos. Quando Maria
Clara morreu, em 1950, haviam se passado 62 anos desde a Lei
Áurea. Sua própria vida, portanto, cobre praticamente a passagem
entre esses dois mundos. Ela nasceu em uma sociedade na qual
pessoas podiam ser legalmente propriedade de outras pessoas e
morreu em uma sociedade que já considerava a escravidão uma
instituição pertencente ao passado. Mas esse passado não estava
distante: estava nas fotografias, nas casas, nas histórias contadas
pelos mais velhos, nos nomes das pessoas, nos lugares
onde haviam vivido e morrido e, sobretudo, na própria
memória familiar.
Também é significativo que todos os antepassados
de Maria Clara, segundo a memória da família, estejam sepultados
em Goianinha, inclusive sua avó, Francisca Clara Freire do Revoredo,
enquanto ela própria repousa no Cemitério do Alecrim, em Natal.
Existe aí uma espécie de deslocamento silencioso: os que
vieram antes dela permaneceram ligados à terra de origem,
enquanto Maria Clara, já pertencente a outra geração e
a outro momento histórico, terminou seus dias em Natal.
Goianinha guarda, assim, as raízes mais antigas de sua fam´lia;
Natal guarda o lugar onde sua longa vida chegou ao fim.
Entre esses dois pontos está a existência de uma mulher que
nasceu numa fazenda, casou-se aos doze anos, teve uma família numerosa
e viveu o suficiente para assistir à transformação quase
completa do mundo em que havia nascido. Talvez seja esse o
aspecto mais impressionante de sua história.
Ontem, dia 11 de setembro de 2026, conversando – por
telefone – com minha mãe, ela disse que sua avó Maria Clara era muito reservada
e polida. Só conversava o necessário, por isso alguns netos não se aproximavam
muito dela. Quando pensamos em Maria Clara, é fácil deixar que a
informação “casou-se aos doze anos” se transforme apenas
em uma curiosidade familiar. Mas, quando procuramos imaginar a
menina por trás dessa informação, tudo muda. Ela tinha
doze anos quando se casou com um homem de 28. Talvez tenha
permanecido inicialmente sob os cuidados de uma familiar; talvez
tenha esperado até uns 14 anos para assumir efetivamente a vida
conjugal. Não sabemos. Sabemos, porém, que aquela menina cresceu,
tornou-se mulher, teve filhos e viveu até os 89 anos,
que seu filho José nasceu em 1889, no mesmo ano em que o
Brasil se tornou uma República, que seu pai morreu em 1913,
quando a Abolição já pertencia a uma geração anterior. Sabemos
que ela própria morreu em 1950, quando o país já havia
passado por mudanças políticas, sociais e culturais que seriam
inimagináveis para a menina de 1873. E sabemos que, por
meio de seus filhos e netos, sua vida continuou.
É nesse sentido que a história de Maria
Clara talvez possa ser compreendida como a história de uma
mulher comum que viveu um tempo extraordinário. Ela não foi
uma escritora como Nísia Floresta, não deixou uma obra
intelectual conhecida, não ocupou um lugar de destaque na
vida pública. Sua existência foi principalmente doméstica e
familiar. Mas justamente por isso ela nos permite olhar
para o século XIX de um ângulo diferente. Nísia nos
mostra a mulher que rompeu com as expectativas de seu tempo
e transformou a própria experiência em palavra pública. Maria Clara
nos mostra a mulher que permaneceu dentro das estruturas
de seu tempo e cuja história chegou até nós através das
gerações, das fotografias, das casas e das lembranças contadas
pelos mais velhos. Uma escreveu para o mundo; a
outra permaneceu na memória de uma família. Mas as duas, pertencentes
ao mesmo grande universo familiar e separadas
por apenas algumas décadas, carregam em suas vidas uma
mesma marca: a entrada precoce no casamento.
Talvez seja por isso que a lembrança de
Maria Clara aos doze anos permaneça tão perturbadora e tão
necessária. Não se trata de julgar uma mulher que viveu em outro
século pelos critérios do presente, nem de transformar em normal
aquilo que hoje reconhecemos como uma infância interrompida.
Trata-se de tentar compreender. E compreender, neste caso, significa
olhar para aquela menina dentro de sua época, sem esquecer
aquilo que sabemos hoje sobre a infância e sobre a desigualdade entre
homens e mulheres. Significa reconhecer que o casamento de 1873
foi possível porque existia uma sociedade que o admitia,
mas também significa perceber, através da memória de que
ela teria permanecido inicialmente na casa de uma familiar, que
a própria família talvez tivesse consciência de sua pouca
idade e de sua fragilidade. Entre o documento e a
lembrança existe uma zona que não podemos preencher
com certezas. É justamente ali que nasce a reflexão.
Maria Clara morreu em 1950 e foi sepultada no
Cemitério do Alecrim. Seus antepassados, que durante gerações
permaneceram ligados a Goianinha, ficaram para trás, sob a
terra onde aquela história familiar começou. A Fazenda
Bigle continua como um lugar de memória, e
a casa conserva, nas fotografias reunidas, os rostos
de muitas das pessoas que vieram antes de nós. Talvez
seja esse o melhor modo de recordar Maria Clara: não
apenas como a mulher que se casou aos doze anos,
mas como a menina que existiu antes daquele casamento
e como a mulher que, depois dele, atravessou quase todo um
século de história brasileira. Entre a menina de 1873 e a
senhora de 1950 há uma vida inteira, uma vida que começou
em Goianinha, passou pela Fazenda Bigle, pelo casamento com
Abel Gomes Peixoto, pela maternidade e pela família, atravessou o
fim da escravidão e do Império, acompanhou o nascimento
da República e terminou em Natal. E é justamente porque hoje
podemos olhar para trás, com a distância de várias gerações, que
aquela menina de doze anos pode finalmente ser vista não
apenas como um nome em uma família, mas como uma
pessoa situada no seu tempo, com todas as circunstâncias,
limitações, afetos e mistérios que a sua longa vida deixou para
nós. E existe entre as histórias de Maria Clara e Nísia um contraste que
sintetiza as tensões do próprio século XIX. Enquanto Nísia rompeu com as
amarras de seu tempo, usou a voz literária para questionar a opressão
patriarcal e defendeu o direito das mulheres à educação e à autonomia, Maria
Clara viveu a realidade concreta e silenciosa dessas mesmas amarras, casando-se
na infância e cumprindo o destino tradicional da maternidade e do espaço
doméstico. Ainda assim, as duas trajetórias não se anulam; completam-se. Nísia
Floresta escreveu sobre os direitos que Maria Clara, em sua miúda complexidade,
buscou tatear quando a família decidiu que ela precisava 'tomar corpo' antes de
ser inteiramente esposa. Olhar para ambas é compreender que a história das
mulheres no Rio Grande do Norte fez-se tanto pelo grito público da
intelectualidade quanto pela resistência silenciosa e íntima das meninas que,
feito Maria Clara, guardaram sua própria humanidade em um mundo de homens
grandes.
OBS. Qualquer diz desses, vou à
Fazenda Bigle para registrá-la. Inclusive Naldo me disse que eles também
guardam alguns bens pessoais que pertenceram ao Major Manoel Cornélio Barbosa
Cordeiro Peixoto.
REFERÊNCIAS
ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO RIO GRANDE DO NORTE. História
legislativa dos municípios do Rio Grande do Norte. Natal:
Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Norte.
CÂMARA MUNICIPAL DE LAGOA DE PEDRAS. História
de Lagoa de Pedras. Lagoa de Pedras, RN: Câmara Municipal.
CÂMARA MUNICIPAL DE LAGOA DE PEDRAS. História
do município. Lagoa de Pedras, RN: Câmara Municipal, 2026.
Disponível em: https://camaradelagoadepedras.rn.gov.br. Acesso em: 12 ago.
2026.
DUARTE, Constância Lima. Nísia
Floresta: vida e obra. Natal: Editora Universitária/UFRN, 1995.
FLORESTA, Nísia. Direitos das mulheres e injustiça
dos homens. São Paulo: Cortez, 1989.
FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO. Nísia
Floresta. Recife: Fundação Joaquim Nabuco.
FREIRE, Luís Carlos. O casamento do meu tio-bisavô,
Alferes José Thomaz de Magalhães Fontoura e Dona Amélia Martins
Pereira em 1893... Nísia Floresta por Luís Carlos Freire,
2026. Disponível em:
https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2026/08/o-casamento-do-meu-tio-bisavo-alferes.html.
Acesso em: 12 set. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA
(IBGE). Histórico do município de Santo Antônio,
Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: IBGE, 2026.
Disponível em: https://www.ibge.gov.br. Acesso em: 12 set. 2026.
PREFEITURA MUNICIPAL DE SANTO ANTÔNIO (RN). Histórico
do município. Santo Antônio, RN: Prefeitura Municipal.
REGISTROS, fotografias e documentos familiares relativos a
Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto (1861–1950), Abel
Gomes Peixoto (1845–1946), José Thomaz de Magalhães
Fontoura (1829–1913), à Fazenda Bigle e aos seus descendentes.
Acervo particular da família Fontoura Peixoto.
SIMONETTI, Ormuz Barbalho. Os
trocos de Goianinha. Natal, RN: Offset Gráfica, 2008.
604 p.
TRADIÇÃO ORAL e depoimentos de
familiares relativos à Fazenda Bigle, especialmente
informações transmitidas por Valdo Fontoura. Acervo
memorialístico familiar.


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