ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sábado, 12 de outubro de 2013

DATA TRÍADE... SIGNOS INFINITOS


Hoje, 12 de outubro, evocamos três signos distintos e especiais no rol das datas comemorativas: Nossa Senhora Aparecida – Criança - Nísia Floresta Brasileira Augusta.
Quando se delibera uma data comemorativa, fica implícita a necessidade de se destacar algo em favor de deferência. Soam, então, por excelência, questionamentos como:
1) Quem é a tríade?
2) Qual a relação dela conosco?
3) Quais os objetivos concretos quando nos reportamos a alguém, ou a algo, nesse sentido?
Seria desinteligente a quem escreve responder tais perguntas de bate-pronto.
As respostas cabem a quem lê. Cabem a todos e a todas. Cabe a você!
Existem respostas que jamais devem ser feitas em forma de respostas, e sim, de perguntas. Assim, passam a ter uma carga de significação superior.
Urge, então, a necessidade natural de se perguntar para as perguntas acima:
1)      Que razões você nos dá, dona Tríade, para que eu saiba quem é você?
2)      Como posso me relacionar com você, se você pode ou não ter relação comigo?
3)      Quais objetivos concretos eu também teria para me reportar a você?
A confusão está feita!
A primeira homenageada é NOSSA SENHORA APARECIDA, um dos nomes de Maria, para os católicos. O que ela tem a ver comigo?  
Maria, a esposa de José! A Mãe de Jesus?
Ah! É óbvio! Ela tem tudo a ver com cada cristão. Se somos cristão não podemos deixar de evocar a Mãe de Jesus, aquela que foi escolhida pela pureza e pela fé no Pai Celestial. Deixar de lado Maria é ignorar uma parte complementar da essência do cristianismo.
Se devo, por alguma razão não evocá-la, devo, no mínimo, respeitar a sua Santa História. Jamais chutar sua imagem, mesmo que uma simples peça de gesso usada para recordá-la.
E aos que respeitam Maria, nesse caso, sob o nome de Nossa Senhora Aparecida cabem perguntas também: O respeito atribuído a ela é semelhante ao respeito atribuído ao próximo?
Os que se autodenominam católicos, que amam Maria, são generosos? São éticos? Vão a Igreja pela fé? Respeitam a vida alheia? Perseguem? São ateus disfarçados em busca de conveniências político/eleitoreiras? Cultuam Maria na mais plena acepção da fé? São verdadeiramente honestos? Desviam verbas públicas e querem pousar de solenes? Pensam realmente no bem comum? Promovem a justiça e a caridade? Se doam, na medida do possível, às coisas da Igreja?
Os que se envolvem com o cotidiano das igrejas, nas condições de autoridades religiosas, leigos e fiéis – que não precisam ser perfeitos obviamente – mas que não devem ser hipócritas – ouvem a Palavra de Deus e depois vão se deliciar com cachaça e música com letras que dizem que toda mulher é p. todo homem é bêbado?
Que sentido teria participar dos mistérios de Deus, dentro de um Templo Santo, tendo estado junto ao Santíssimo, tendo recebido a Hóstia Sagrada, e meia hora depois promovido o alcoolismo (que é caminho para as drogas e a prostituição) na porta das Igrejas, como ocorre com algumas, em nome de uma incompreendida tradição?
Vi, numa cidade que fica aproximadamente há uns 30 km’s daqui, jovens trôpegos, urinando na porta da Igreja Católica e outros fazendo sexo nos becos durante festa de padroeiro (a), sem se importar com quem estivesse passando. A tendência dessas “tradições” é tomar uma dimensão em massa, trazendo muito, muito dinheiro. Dinheiro da miséria humana. Dinheiro da hipocrisia.
Como posso me proclamar católico, devoto de algum (a) santo (a) – ou evangélico – se teatralizo um personagem social – que na calada dos bastidores priziacas – dou vazão à cartilha do filho de chocadeira?
Nossa Senhora Aparecida, a qual cultuo e respeito, o que a Senhora pensa sobre isso? Responda-me!
Retomando o segundo signo: A CRIANÇA. Adoro as crianças. Vivi momentos fantásticos junto a elas, enquanto professor e gestor escolar. É uma das minhas preocupações na condição, não diria meramente de educador, mas de pessoas humana.
Um dia uma criança me cutucou e disse, na Augusto Severo: “diretor, a sua meia está furada!” Tenho caixas de cartas que recebi de crianças dessa escola e da EMYP, me declarando amor e respeito, Acho que é isso que faz com que os educadores se animem mais na missão de educar.
Uma cidade só vai para frente através da educação. Nada mais. Ela é o caminho para tudo. Um profissional que teve educação plena, com certeza será um agente transformador.
Tudo começa quando criança – no alicerce – é como uma casa bem feita a partir do baldrame. Quem fere a moral de uma criança fere a essência do amor e da pureza. Quem alicia uma criança mata grande parte da energia que elas carregam dentro de si para se tornarem homens e mulheres de bem. Todos os esforços possíveis e impossíveis devem ser empreendidos a favor das crianças.
O último signo: NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sou suspeito de escrever. Costumo dizer que quando a gente passa a ter domínio sobre um tema, ou forte relação sobre um lugar, isso toma uma dimensão muito forte e passa a nos guiar.
Exemplo maior foi ontem, quando a professora a ex-governadora e atual vice-prefeita do Natal, Wilma de Faria, telefonou para mim e pediu que eu a substituísse num evento na Câmara Municipal de Nísia Floresta, mediante um imprevisto que ela teve. Eram 18:30 e tive que dar conta do destino.
Sobre os questionamentos, urgem as reflexões seguintes: Se Nísia Floresta pregou durante toda a sua existência nada mais que a justiça, a ética, a honestidade, a cidadania, o que ela diria, hoje, para aqueles que nasceram ou passaram o morar na cidade que recebeu o seu nome?
O que ela teria a dizer sobre a educação, principalmente das crianças?
O que ela diria sobre as contradições entre o que se prega e se acredita, seja nas Igrejas ou onde quer seja, e o que se vive concretamente?
Pergunta-se: Nísia Floresta era a dona da verdade? Quem escreve contra injustiças sociais é dono – ou dona – da verdade? Os que apelam pela Justiça do Estado, quando lhes fogem todas as forças que lhe são possíveis, são perigosos?
As pessoas que lutam a favor de um povo – se boas, calmas e educadas – devem ser interpretadas como “bois sonsos que arrombam as cercas” simplesmente por não se silenciarem?
Seria em vão conhecermos a verdade se ela não fosse o caminho da evolução de uma sociedade. Não podemos escutar balelas ditas em tom solene, como se elas (mentirosas) fossem a verdade. Até os próprios se auto-definem como raposas. Incrível!
Encerrando, acredito que nesse 12 de outubro, essa tríade aqui tratada, simboliza o caminho a ser seguido por todos. O caminho que nos leva à verdade das crianças. O caminho que – numa linguagem figurada – esteja coberto pelo manto de Nossa Senhora Aparecida Que ela cubra as nações do Mundo com justiça e progresso.
Precisamos caminhar pela obra de Nísia Floresta para entendermos que ela, que talvez seja entendida como a dona da verdade, foi somente dona de uma formação educacional sólida. Nada mais!
Quem conquista a educação plena conquista a maior das riquezas.
É por isso que a parcela má e corrupta da sociedade – que não é maioria – não quer que nossos filhos sejam ricos. É proibido para eles ser rico de educação. Quem tem essa riqueza corre risco de vida.
Vala-me Nossa Senhora Aparecida!





segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Timbó - Nísia Floresta - Rio Grande do Norte- onde nasceu a Campanha da Fraternidade (CF)


  O Rio Grande do Norte é pioneiro em diversos acontecimentos marcantes: a primeira feminista da América Latina, a primeira prefeita do Brasil, a primeira eleitora do Brasil, umas das primeiras deputadas estaduais do Brasil, uma das primeiras aviadoras do Brasil, o primeiro impeachment do Brasil e outros acontecimentos.

E Nísia Floresta - tão próxima de Natal, mas tão esquecida e ainda engatinhando - ironicamente é pioneira em fatos marcantes da história nacional e internacional. 
Um exemplo é a Campanha da Fraternidade, que nasceu em Nísia Floresta. A ideia foi germinada na "Casa das Freiras" (centro de Nísia Floresta) e concretizada no distrito do Timbó, na década de 60, sob os cuidados de Dom Eugênio Sales e sua equipe, fruto do famoso "Movimento de Natal".

Motivos não faltam para que todos os holofotes se voltem para esse aprazível lugarejo na ocasião das comemorações dos seus 50 anos. Quando as autoridades em nível local, estadual e nacional farão um criativo projeto de Turismo Religioso nessa localidade?

Desde que tomei conhecimento disso, em 1992, defendo a ideia de que o distrito do Timbó merece um grande monumento arquitetônico, ao estilo das obras singulares  de Gaudi. A estrada de acesso ao Timbó deveria ser pontuada de marcos que aludissem à religiosidade, mesclando o projeto com atrativos culturais. 

O Turismo Religioso projetaria o município de Nísia Floresta em nível nacional. Já imaginou um portal colossal num ponto estratégico de Timbó, onde pouse a frase "Sejam bem vindos ao Timbó. Aqui Nasceu a Campanha da Fraternidade no Brasil". O objetivo é marcar essa importante data e tornar uma referência no turismo local, atraindo recursos para o município. 

Sabemos que um povo não pode esperar apenas pela Prefeitura. Faz-se necessário criar meios de geração de renda, e esse monumento, atrelado a outras propostas, é um grande caminho para a sua economia. Quem sabe um dia alguém abra a mente para isso. Por enquanto, fica aqui a ideia.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

FRAGMENTOS DA MEMÓRIA DO CURURU: SEVERINO GONÇALVES DA SILVA



Severino Gonçalves da Silva nasceu no dia 23 de março de 1923, no Cururu, povoado de Nísia Floresta, o qual, após a enchente passou a se chamar Campo de Santana.
Teve uma vida típica de menino de interior, regada a muitas brincadeiras e trabalhos domésticos orientados pelos pais.
Como ele vislumbrava um futuro diferente do deu seus pais, aos doze anos buscou a casa de um padrinho em Natal, Sebastião Marcolino, o qual o acolheu muito bem, mas com a morte da sua madrinha o garoto retornou para o Cururu.
O padrinho logo se casou novamente, teve pena do afilhado tão cheio de sonhos e o convidou para morar novamente com ele, o qual atendeu de pronto e ficou muito feliz. Mas decepcionou-se com a nova esposa do padrinho, pois era uma mulher extremamente autoritária, totalmente diferente da madrinha, a qual o tratava com a mesma doçura de uma mãe.
Certo dia, cansado de não se sentir à vontade como antes, fugiu decidido que a sua precocidade não seria empecilho para se dar bem na vida. Ele tinha uma opinião que era mais ou menos assim: “vou cuidar de mim e do meu destino, vou trabalhar no que aparecer pela frente, desde que seja coisa honesta. Não vou me incomodar se aparecer só serviço pesado, pois um dia eu vou vencer e vou ser feliz”.
Ainda menor conseguiu emprego numa salina, em Igapó, pois naquela época as leis não eram tão cidadãs como as atuais. O serviço era pesado. Ele começava às seis da manhã e terminava às dezoito horas, de segunda ao sábado. No domingo trabalhava na feira, fazendo frete com um carrinho de mão. Desse modo Severino não sabia o que era o descanso, exceto quando colocava a cabeça num travesseiro e dormia como uma pedra.
Eventualmente fazia uma visita à casa dos familiares em Cururu, pois os pais eram muito pobres e ele também queria ajudá-los como podia.
Em toda visita voltava triste e molhado com as lágrimas da mãe, a qual ficava preocupada, pensando onde morava, quem eram os amigos, se estava seguro, como organizava as roupas, a comida e essas coisas todas que só as mães pensam.
Em 1941, quando os norte-americanos ensaiavam os primeiros acordes de uma longa cantilena militar que se instalaria em Parnamirim, Severino deixou o emprego, convidado pelo primo Raimundo Alves a morar nessa que ainda não tinha foros de cidade e sequer de município. Só existiam tabuleiros de alecrim, dunas a se perder de vista e algumas choupanas de palha e taipa ao redor do que seria o Aeroporto Internacional Augusto Severo.
Na casa desse primo ele comeu o pão que o diabo amassou, mas nada era obstáculos para os seus sonhos, mesmo percebendo que naquela época só se davam bem – ou pelo menos era o que lhe parecia – aqueles que tinham origens lordes ou padrinho abastado.
Com seus próprios esforços conseguiu empregar-se na Base Aérea, fazendo serviços gerais. Sua dedicação e suas gentilezas eram tão grandes para com seus patrões, que em pouco tempo lhe melhoraram o salário e a função.
Em 1943 foi incluído no quadro de taifeiros da Aeronáutica. Logo fez cursos internos e foi designado para Fernando de Noronha, onde passou certo tempo. Dali saiu para o Rio de Janeiro, tendo permanecido um longo período. A capital federal lhe oportunizou muita coisa boa, muita experiência, cursos, mas seu coração era interiorano e ele nutria a vontade de retornar para Parnamirim, local que o deixaria mais próximo dos familiares do Cururu e dos amigos, além de poder ajudar os pais.
Apaixonado por esporte, fundou o Potiguar Esporte Clube em Parnamirim, tendo sido o tipo de cidadão exemplar, querido por todos.
O tempo passou e ele encerrou sua vida militar como terceiro sargento. E se sentia extremante feliz, pois, como dizia: “se eu tivesse ficado no Cururu não teria passado de um menino sentado numa canoa. Senti-me útil, servi a muitas pessoas. Sou um homem feliz”.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

O BRASIL CHORA...


SÃO OS NOSSOS POLÍTICOS HONESTOS E MORALISTAS

Revista Veja
Qual o motivo de optar pelo mais caro se a qualidade é a mesma? Seriam amigos?
Eles disseram que vão ressarcir a União, devolvendo o equivalente a uma passagem Natal/Rio de Janeiro de acordo com o número dos familiares envolvidos. Expertos e mafiosos... Se eles tivessem pago um frete exclusivo - num jatinho - de acordo com o preço atual de mercado, gastariam quase 70 mil cvada um (ou mais). Haja honestidade!!!!!

quinta-feira, 23 de maio de 2013

“HISTÓRIA DE HILTON ACIOLY – DE CURURU PARA O MUNDO: TRIO MARAYÁ O "LULA, LÁ"...

                                                                  Por Luis Carlos Freire - abril-2009

I – CURURU: O INÍCIO DE UM SONHO NO "JARDIM DO ÉDEN"

Trio Marayá nos primeiros anos de carreira
Todas as pessoas possuem histórias. Umas interessantes, extraordinárias, surpreendentes; outras simples e cativantes, mas com a sua devida importância. Algumas são tão dignas e gostosas de contar que jamais deveriam ficar sepultadas sob a poeira do esquecimento. 
 
É exatamente sacudindo o pó do tempo e abrindo as páginas de um livro esquecido, que emergirá uma história que serve de exemplo para muitos. Refiro-me ao músico e compositor nisia-florestense Hilton Acioly, nascido aos 4 de outubro de 1939, no antigo povoado de Cururu, conhecido até hoje como “Campo de Santana Velha”. Ele deixou um legado despercebido a muitos nisiaflorestenses, a começar pela história do Trio Marayá e por ser o autor do jingle "Lula, lá", verdadeiro hino do partido dos trabalhadores. Veja a letra:

Lula Lá (1989)

Passa o tempo e tanta gente a trabalhar/ De repente essa clareza pra votar/ Quem sempre foi sincero em confiar/Sem medo de ser feliz, quero ver chegar/ Lula lá, brilha uma estrela/ Lula lá, cresce a esperança/ Lula lá, o Brasil criança/ Na alegria de se abraçar/ Lula lá, com sinceridade/ Lula lá, com toda a certeza pra você/ Meu primeiro voto/ Pra fazer brilhar nossa estrela/ Lula lá, é a gente junto/ Lula lá, valeu a espera/ Lula lá, meu primeiro voto/ Pra fazer brilhar nossa estrela.
 
Cururu, apesar de atualmente abandonado, devido à enchente de 1974 – cujos moradores foram removidos para a sua parte mais alta – ainda conserva as ruínas de um lugar aprazível, envolto por uma paisagem natural radiante. Matas de árvores frondosas, céspede que se perde de vista em meio às áreas cenagosas, envoltas por dunas alvas, pinceladas de arbustos, serpenteada por um rio perene, que há séculos é a fonte de sobrevivência de muitos nativos. 
 
O segundo disco com capa bastante comunicativa
 
Atualmente, apesar do progresso e tanta devastação, o lugar sobrevive quase intocado, permitindo o trânsito constante de pescadores com cordas de caranguejo, trazendo as suas puçás e varas de pescar atadas às bicicletas. Ainda se vê nas imediações casas de taipa cobertas de palha, carroças em vai-e-vem, lavadeiras de roupa às margens do rio piscoso, cheio de ariranhas e camarões, gado pastando e o chilrear infinito de pássaros.
Emoldurada nesse cenário bucólico ficava casa da família Acioly, e nela um menino que precocemente começou a rabiscar os seus pensamentos, transformando-os em músicas e poesias, sem perceber que ensaiava os primeiros passos que o projetaria para um estilo de vida completamente diferente.
Essas inspirações tinham como cúmplice o imenso quintal, pipocado de árvores frutíferas, cercado por caiçara e a típica fauna doméstica: gatos, cachorros, galinhas, perus, patos, guinés e a passarada diversa voejando numa árvore e n’outra.  Foi no meio dessa fartura tão comum às cidades interioranas que cresceu esse jovem altruísta e sonhador. E assim passava a vida, ou a vida passava por ali, cheia de calmaria e tranquilidade.


II – A BUSCA POR PARCEIROS QUE TAMBÉM SONHAVAM

Mas Hilton tinha sonhos, e sentia que mesmo vivendo num verdadeiro Éden, não seria feliz ali. Foi esse espírito de insatisfação que, a partir dos doze anos, deu início a uma série de peregrinações a Natal, buscando conhecer pessoas que tivessem ideais parecidos. Naquela época viajar de Cururu à Natal não era um desafio, era uma odisseia. E ele, tal qual Ulisses, peitava o que vinha à frente, e aos poucos conquistava os seus objetivos. 
 
Foi nessas empreitadas que dos seus treze aos catorze anos, conheceu outros sonhadores como ele. Os músicos potiguares Marconi Campos e Behring Leiros e com eles foi formaram o Trio Marajá, no ano de 1954, quando Getúlio Vargas ainda estava no poder.
 
Hilton dominava diversos instrumentos, mas durante a formação do trio, decidiram que ele ficaria com o afoxé. Marconi ficou com o violão e Behring com o tantã. Com pouco tempo de criação o trio passou a ser o que chamavam à época a “coqueluche”, ou seja, caiu no gosto dos natalenses. 
 
           Não sobrava um dia na semana em que eles não se exibissem em algum café, clube, bar, quintal de convidados, enfim o trio “pegou”.  Natal inteira parava para apreciá-los. Com o passar do tempo, como é comum, eles passaram a receber convites para exibições em diversas cidades vizinhas, além de outros estados. 
 
A fama do Trio Marayá chegou a um ponto que eles passaram a ser presença constante no Teatro Alberto Maranhão, além de receberem convites para animarem festas de grandes políticos da época. Um dos seus grandes admiradores era nada mais que o genial folclorista Câmara Cascudo. Foi ele que batizou o grupo com o nome "Trio Marayá".
 
 Nesse interim também passaram pela formação do trio os jovens músicos Antonio Brito, Jansen Leiros e Omir Onório, todos idealistas como Hilton e muito focados nos objetivos.

III – RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO

Em 1955, o trio estreou no programa da Sociedade Artística Estudantil, na Rádio Poti. Hilton tinha apenas quinze anos. Ao longo do tempo eles foram percebendo que o repertório que priorizavam não combinava com o nome do grupo. 
 
          Em 1956 eles participaram do congresso da União Nacional dos Estudantes, UNE, em Natal. Naquela época eles já revelavam uma técnica muito boa, e isso despertou no líder estudantil a ideia de convidá-los a ir ao Rio de Janeiro, pois os estudantes pretendiam criar um programa nos moldes do SAE. 
 
            Ao tomar conhecimento do convite, o professor Câmara Cascudo – que prestigiou o evento e já parecia prever o futuro brilhante dos daqueles adolescentes conterrâneos – aconselhou-os a mudar o nome para Trio Marayá, numa referência a uma palmeira típica do nordeste.
 
 Os pais de cada integrante ficaram preocupados pela idade, mas os mesmos passaram-lhes muita confiança, e por isso receberam todo o apoio familiar. Assim que chegaram ao Rio de Janeiro, participaram de vários programas na Rádio Nacional, entre os quais, "Grande Show Brahma", "Paulo Gracindo" e “César de Alencar".
 
Exibiram-se em casas noturnas e foram convidados a assinar um contrato exclusivo no Restaurante "Cabeça Chata", cujo dono era Manezinho Araújo um cantor de emboladas já muito conhecido. Logo em seguida receberam convite para participarem da Rádio. 
 
        Um cantor cearense, vendo a qualidade do trabalho do trio, convidou-os para participarem instrumentalmente da gravação de um disco dele na gravadora Copacabana. Nesse dia estava presente Luiz Vieira, o qual exibia alguns programas na rádio e tinha amplo conhecimento no meio artístico, articulado com a mídia local. 
 
Ele encantou-se com o trabalho dos jovens e os convidou para se apresentarem no seu programa de rádio em São Paulo, apresentando-os imediatamente à equipe da TV Tupi, hoje extinta. 
 
Um detalhe: os jovens tinha objetivos... e atitude

IV – O TALENTO ADMIRÁVEL DE TRÊS JOVENS POTIGUARES

No programa de Luiz Vieira, na Rádio Record, interpretaram o corridinho "Maria Fulô", de Luiz Vieira e João do Vale, que depois foi gravado em LP pelo trio. Naquela época, mesmo tendo muita qualidade musical, os artistas eram submetidos a testes. 
 
Mas a estrela do Trio Marayá brilhava tanto que a aprovação veio logo no primeiro teste, e foram contratados pela Rádio e TV Record. 
 
Hilton Acioly sendo entrevistado por universitários
Na Rádio Record, passaram a apresentar o programa semanal "Música e poesia com o Trio Marayá", produzido por Luiz Vieira, além de participar de outros programas da emissora. , como por exemplo, “Trio Marayá e Você”, com produção de Nilton Travesso e Eduardo Moreira.
 
Em pouco tempo passaram a receber tantos convites para apresentações em São Paulo e no Rio de Janeiro que mal davam conta. Tornaram-se presenças constantes nos programas "Astros do disco", de Rendal Juliano, "Sucesso Arno", de Blota Jr., e "O fino da bossa", apresentado por Elis Regina, entre outros.
 
Mas como nem tudo sempre eram flores foram proibidos pelo Juizado de Menores a se apresentarem em ambientes fechados, pois ainda não tinham alcançado a maioridade. Nas apresentações em boates como "A Baiuca", "Star Dust", "Nick Bar", "Boite Oásis", "African", onde costumavam se apresentar, precisaram ficar do lado de fora, na calçada, durante os intervalos.
 
Em 1958, gravaram pela Odeon o primeiro disco, interpretando o mambo "Patrícia", de P. Prado e A. Bourget, e o samba "O rei do samba", de Hervê Cordovil e Vicente Leporace. Foi a partir dessa época que passaram a fazer excursões em várias capitais brasileiras. 
 
O segundo disco do grupo foi gravado em 1959, no qual cantaram as composições "Onde estará minha vida", de Segovia, Naranjo e Roman, em versão de Fred Jorge e “Meu tio”, de F. Barcellini, H. Contet e J. C. Carrière, com versão de também de Fred Jorge.

V – FAMA NA EUROPA

Foi justamente neste mesmo ano que surgiu um convite nada comum: representar o Brasil no "Festival da Juventude", em Viena, na Áustria, com tudo pago pelo referido país. O contrato rezava que eles ficariam durante dez dias em exibições, mas o encantamento dos austríacos diante das apresentações do grupo foi tamanho que acabaram ficando um ano.
 
A fama logo se espalhou para outros países e o grupo recebeu convite para se apresentar na mais famosa casa noturna de Barcelona, na Espanha, a boate El Cortijo. Logo em seguida apresentaram-se a convite, na Hungria, onde ocorreu um fato curioso. Os húngaros gostaram tanto que só deixaram o trio ir embora após gravarem um disco com músicas brasileiras, pelo selo Balaton. 
 
         O que foi atendido de pronto. Ainda na Hungria apresentarem-se diversas vezes na televisão, e assinaram contrato para apresentarem-se com a Filarmônica de Budapeste na maioria das cidades húngaras.
 
Após longo período nesse país, foram novamente convidados a se apresentar na Áustria e causaram emoção ao interpretarem a “Polca de Liechtensteiner”. “Nesse país fizeram shows nas mais famosas casas de espetáculo, como “Moulin Rouge”, “Maxim’s”, “Lido”, “Baden Cassino” e Éden Bar”, lugares onde se exibiam renomados artistas internacionais daquela época.

VI – CONTRATOS COM RENOMADAS GRAVADORAS NO BRASIL E PAÍSES VIZINHOS

Em 1960, de volta ao Brasil, gravaram mais um disco pela Odeon, no qual cantaram o fox "Um telegrama", de H. G. Segura e Nadir Perez, e o samba "Prova de carinho", de Adoniran Barbosa e Hervê Cordovil. 
 
Em 1961, foram contratados pela RCA Victor, gravando em seu primeiro disco a canção "O matador", de J. Bowers e I. Burgess e o bolero "Por pecadora", com versão de Fred Jorge. No mesmo ano gravaram o samba "Sambinha quadrado", de Marconi Campos e Hilton Acioly, e o bolero "Descansa, coração", de Arquimedes Messima.
 
Ainda em 1961, foram convidados a se apresentarem no Uruguai, numa excursão que abrangeu Punta Del Leste, no Cassino “Miques”, e Montevidéu, na TV Canal 4. Em seguida assinaram contrato por três meses com a TV Canal 9, da Argentina, onde participaram do programa “Festival 62”, produzido e apresentado por Paloma Black. No mesmo ano gravaram o rock balada "Nena Nenita", de Joaquin Pietro e Juvenal Fernandes e o bolero "Pede", de A. Algueró, A. Guijarro e Teixeira Filho.
 
      Esse envolvimento no universo da música fez com que os integrantes do grupo conhecessem e convivessem com diversos artistas do rádio e da televisão. Hilton Acioly acabou tornando-se amigo de Geraldo Vandré, autor de “Para não dizer que não falei das flores”. 
 
      Com ele assinaria letras de diversas músicas, como “Ventania (de como um homem perdeu o seu cavalo e continuou andando”), 1967; “João e Maria”, frevo de 1967; além de “Guerrilheira”; Amor, amor; e “Plantador”, em 1968.
 
        Em 1966, no auge da ditadura militar, aconteceu um evento cultural marcante na história da arte musical brasileira, organizado pela TV Record, com o nome de II Festival de Música Popular Brasileira. 
 
         O evento, vigiado pelos militares, foi tenso, apesar do delírio dos expectadores. Os boinas-verdes sabiam que ali se concentravam artistas famosos e que os mesmos eram de esquerda. Ademais, a grande massa de expectadores era composta por jovens revoltados com o sistema político brasileiro.
 
Nesse clima participaram como instrumentistas da exibição de Jair Rodrigues, o qual concorreu com a famosa música "Disparada", de Geraldo Vandré, em parceria com Téo Barros, cujos arranjos eram de Hilton Acioly. O resultado foi brilhante, principalmente para Jair, o qual conquistou o primeiro lugar. 
 
A fama do Trio Marayá, decorrente da qualidade apurada do grupo, havia atraído a atenção de Jair Rodrigues, o qual vislumbrava um trabalho completo. Assim, acompanhado pelo trio, o artista sagrou-se campeão.
 
Essa exibição teve uma curiosidade, justamente por atrair ainda mais a atenção do júri e do público. O Trio Marayá, pela primeira vez na história da música, utilizou a “queixada de burro” como instrumento de percussão. 
 
A expressividade de Jair Rodrigues, carregada de gesticulação e a bela voz, somada à novidade instrumental levou as pessoas ao delírio. Isso pode ser confirmado nos arquivos ainda existentes na TV Record.
 
O Trio Marayá obteve façanhas que nem todo grande grupo conseguiu. Sabe-se que, dentre os sonhos de muitos instrumentistas é acompanhar ou fazer parceria com monstros da música. E eles foram escolhidos durante festivais internacionais a se apresentarem com nada menos que Nat King Cole, Ella Fitzgerald, Sammy Davis Jr., Rita Pavone, Sérgio Endrigo e Catherine Valente.


VII – NOVAMENTE NA EUROPA

Em 1968, foram laureados com Medalha de Ouro no Festival Internacional de Música da Bulgária, ocorrido em Sofia, onde representaram o Brasil. Na ocasião, conquistaram o primeiro lugar com a polêmica canção “Che”, de Marconi Campos e Geraldo Vandré.
 
         A referida composição não tinha letra e havia sido proibida pela censura no Brasil, durante o Regime Militar, pois entenderam que se tratava de uma homenagem ao guerrilheiro cubano, assassinado naquele ano e persona non grata dos militares.
 
           Perguntando para Hilton Acioly se era verdadeira a suposição dos militares, ele riu... A definição prefiro deixar para o leitor.
 
Geraldo Vandré pediu que Marconi Campos elaborasse uma letra para o referido instrumental, mas o mesmo não aceitou. Coisas da arte. Ele entendia que a beleza estava justamente no instrumental. Mas, para não desagradar o companheiro, fez outra música, com letra, inspirada em “Chê”.
 
Encerrado o festival permaneceram mais um período em Sófia, a convite de admiradores, apresentando-se em concorridos shows na capital búlgara. E dali para a França e a Itália. Em Paris ocorreu outro fato interessante, tal qual na Hungria. Eles só deixaram o país após gravar um disco pelo selo Barclay e em seguida participaram da revista musical "Tio samba", à convite da norte-americana Sonia Shaw, então diretora e produtora do programa juntamente com o maestro Bill Hithcock. 
 
O trio Marayá assinou contrato com as mais respeitáveis gravadoras, como a Philips, RGE, Chantecler, Som Maior, RCA Victor Sinter e Odeon. Naquela época os discos eram de vinil, inicialmente de 45 e 78 rotações por minuto, e tinham 25 cm de comprimento. O selo ficava exposto, tendo em vista que a capa era vazada no meio, em ambos os lados e não trazia nenhuma informação. Sequer a foto dos artistas. Eram padronizadas normalmente em tons pastéis. 
 
Posteriormente gravaram compacto, que era também uma opção dos artistas. Estes também eram de um vinil flexível, diferente do anterior que poderia quebrar a qualquer descuido, mas um pouquinho maior que os CD’s atuais. As capas passaram a vir com imagens e tinham entre duas a quatro músicas, depois passaram a gravar LP (long-player), cuja capa tinha trinta centímetros, e por último, em CD. 
 
Além da fama em todo o Brasil, os discos do Trio Marayá foram divulgados em outros países da Europa, como Portugal, França e Itália, e em países da América do Sul, como Chile, Argentina e Uruguai. Curiosamente um dos seus maiores sucessos durante um período da carreira foi "Gauchinha bem querer", de Tito Madi, onde os vocalistas potiguares interpretaram com tanta perfeição que pensavam tratar-se de artistas gaúchos. Esse perfil, inexistente atualmente, era muito apreciado na época.

VIII – PRÊMIOS QUE SÓ OS GRANDES ARTISTAS CONQUISTAVAM

O Trio Marayá recebeu diversos prêmios. Em 1958, 1960, 1961, 1962 e 1963 recebeu o Prêmio Roquette-Pinto como Melhor Conjunto Vocal. Tratava-se de uma premiação muito cobiçada pelos artistas do rádio e da televisão.
 
       Isso fez com que os seus integrantes se tornassem verdadeiros mitos pelas grandes capitais brasileiras. Recebeu o troféu Campeões da Popularidade da TV Tupi, no programa Ayrton Rodrigues, três discos de ouro no programa “Astros do Disco”, da TV Record, a Taça de Honra ao Mérito do programa César de Alencar, diploma de Melhor Conjunto Vocal do Festival da Música Internacional na Bulgária.
 
 Receberam oito troféus de Melhores da Semana, o troféu Índio de Prata, como personalidade musical de 1967, além de receber diversas medalhas de honra ao mérito como grupo vocal/instrumental.
 
Logo em seguida o grupo passou a receber convites para participar de filmes no cinema. Dercy Gonçalves convidou-os para acompanhá-la no filme “Uma certa Lucrécia”, onde a mesma, então protagonista, cantava.
 
         Na sequência participaram da mesma forma nos filmes “O circo chegou à cidade”, com Walter Stuart; e “Quelé do Pajeú”, com orquestração de Marconi Campos.
 
O trio Marayá gravou a música Alvoroço no sertão, de Raymundo Evangelista e Aldair Soares; Segredo da Meia-noite, de Francisco Anísio e Hianto de Almeida; Mandei fazer um patuá, de Norberto Martins e Raymundo Olavo; Corre-corre, de Jacira Costa; Carrapicho, de Carlos Lyra e Behring Leiros; Moinho d´água, de Edson Franca e Chico Elion; Esperando e Sambinha quadrado, de Marconi Campos e Hilton Acioli.
 
Em 1970 o Trio Marayá gravou em compacto simples a música de “Prá que lagoa, se eu não tenho canoa”, escrita por Hilton Acioly e com arranjos de Marconi Campos, classificada em primeiro lugar, no terceiro Festival Universitário de Música Popular Brasileira.
 
A primeira música gravada por Gilberto Gil, “Prá que mentir”, foi acompanhada pelo Trio Marayá. No LP “Trio Marayá – boleros – com a participação de Renato de Oliveira e sua orquestra”, a capa do disco é ilustrada por uma fotografia da atriz norte-rio-grandense Rejane Medeiros.
 
Hilton Acioly participou como compositor dos LPs: 14 sucessos do 3º Festival de Música Popular Brasileira, Conjunto Flor da Terra, Canto Geral, MPB Compositores, Os Versáteis e o festival Uma mensagem em cada canção. 
 
           Assina com outros músicos letras como “Acertando o passo”, “Chama”, “Uma cidade”, “Dor de separar”, “Esperando”, “Esse mar vai dar na Bahia”, “Eu sou a América”, “Guerrilheira”, “João e Maria”, “Meu sertão (eu vou voltar)”, “Nosso lar”, “O plantador”, “Regresso”, “Sambinha quadrado”, “Se as flores falassem...” e “Ventania”.
 
Como instrumentista, o músico participou da gravação da música Companheira, de Geraldo Vandré, no LP Momento Universitário II. 
 
         Suas músicas, além de terem sido gravadas pelo trio ao qual ele foi um dos três fundadores e fez parte durante quarenta anos, foram gravadas por Rolando Boldrin, Geraldo Vandré, Maria Odete, Neyde Fraga e os Versáteis e, por último, pelo Grupo Sombra. Em 1979 fez todos os arranjos e a regência do álbum Eterno como a areia, de Diana Pequeno.

IX – NOITES QUENTES NO “VALE DO CAPIÓ”

Hilton sempre teve uma característica aparentemente incomum aos artistas: é extremamente discreto. Em todas as suas vindas ao município nunca proclamou a sua fama, nem quis ser recebido com homenagens. Ele tem estado eventualmente no município, é só é notado quando flagrado por algum conhecido de infância, cuja lembrança lhe é avivada por algum parente.
 
Hilton Acioly sempre veio a Natal para rever os familiares e fazer shows além de gravar programas na TV Universitária-UFRN. Da capital se abalava para Nísia Floresta, pois jamais esqueceu o pedacinho de terra, em especial do Cururu que tanto o inspirou. 
As lembranças paradisíacas de sua infância certamente ficaram emolduradas na sua memória.
 
Apesar de o cotidiano de todos os integrantes do trio ter sido muito intenso, devido às constantes viagens, fazendo shows pelo país, eles escolheram a terra da garoa como morada definitiva, ali constituindo família.
 
Mas não pense que o município de Nísia Floresta nunca desfrutou dos encantos do Trio Marayá. O ex-prefeito Vicente Elízio, fã de carteirinha do trio, a ponto de possuir todos os discos do grupo àquela época, fazia-os tocar até as altas madrugadas na antiga vitrola, seja em sua casa, no centro da cidade, ou no engenho.
 
O ex-prefeito não tinha o perfil dessas pessoas festeiras que estão sempre promovendo eventos, mas, de maneira muito reservada, convidava eventualmente pessoas amigas e fazia uma espécie de baile no engenho. 
 
          Ali a madrugada se tornava uma criança, embalada pelas mais belas canções da música popular brasileira. Com o agravante de deliciosos goles da “Aguardente Potiguar”, fabricada ali mesmo, inclusive vendida em toda a região.
 
Nessas madrugadas “paparienses”, além das canções próprias do grupo, eles também ouviam Nelson Gonçalves, Francisco Alves, Vicente Celestino, dentre boleros e outras músicas levadas pelo minuano, adiando o sono de toda a vizinhança, até o amanhecer. Mas os discos do Trio Marayá não costumava descansar.

X – OUTROS SONHOS E O RITMO DA IDADE

Além do seu fascínio pela arte, Hilton Acioly acalentava desde o Cururu, o sonho de se formar em Geografia. Como era muito jovem e tinha se afastado dos estudos devido ao cotidiano dinâmico do trio, resolveu se organizar e se preparar para encarar mais um desafio. Foi com esse dinamismo que revezando entre a arte e os estudos formou-se pela Universidade Federal de São Paulo (USP).
 
Na década de 1975 o trio foi diminuindo a intensidade dos trabalhos, até porque passaram a ter outras prioridades, voltando-se mais às famílias e ao estudo. Assim passaram a se apresentar em diversos festivais de música universitária na época em que o componente Behring Leirois cursava a faculdade de Direito da Universidade Mackenzie em São Paulo. Depois passaram a se dedicar mais à produção de trilhas sonoras para filmes, jingles e comerciais. 
 
O amigo de décadas Marconi Campos, recém-formado em música, formou o quinteto "Sombra", em 1975, do qual faziam parte Faud Salomão, Suely Gondim Beto Carrera e Vânia Bastos. Em 1996, Marconi Campos juntou-se a Hilton Acioli Behring Leiros, Vera Campos, Flávio Augusto, Cintia Scola e Sandra Marina - para gravar o CD independente "Ação dos tempos", interpretando músicas nordestinas, entre as quais "Asa branca", de Luiz Gonzaga, e algumas especialmente de compositores norte-rio-grandenses, como "Moinho d'água", de Chico Elion, e "Capricho", de Carlos Lyra e Behring Leiros. Behring Leiros.
 
            Por sua vez, trabalhou como relações-públicas na área de divulgação da Rádio e Estúdio Ômega e também enveredou pela produção de jingles. Ao todo o grupo gravou 13 discos, entre os anos de 1956 a 1996, completando quarenta anos de atividades. Participaram como convidados em mais de trinta LP’s, inclusive juntamente com artistas como Gal Costa, Maria Bethânia e Caetano Veloso.
 
Mas nenhum deles parou por aí. Hilton até hoje é referência número um quando o assunto é “jingles”. Como disse no início, o músico é o autor de um dos mais famosos jingles brasileiros, composto para a campanha política de Lula, candidato do Partido dos Trabalhadores – PT, à presidência da República.
 
          O CD, denominado “O som da estrela do PT” possui nove músicas, sendo que as mais famosas e conhecidas são “Lula lá” e “Sem medo de ser feliz”. Quem é que não se recorda de uma música que diz assim: “lula, lá, brilha uma estrela Lula, lá”...  As demais músicas foram: “Uma cidade”, “Uma cidade (sinceridade e felicidade)”, “Clareia”, “Estrelas d’água”, “Eu de cá, você de lá”, “Numa canção” e “Vai lá e vê”.
 
Atualmente Hilton Acioly vive em São Paulo, aos 75 anos e conserva a mesma vivacidade do 'menino do Cururu'. É reconhecido por inúmeros artistas nacionais. Ele ainda compõe jingles e músicas para propagandas televisivas e também é professor. Isso mostra a sua garra e o espírito elevado de um homem especial, o qual não permite que a idade diminua a sua capacidade criativa e a vontade de trabalhar.
Com toda a certeza, se Hilton Acioly tivesse ficado no Cururu a história da música popular brasileira não teria uma página tão significativa.Essa é a história de um nisia-florestense quase totalmente desconhecido em sua própria terra, mas que em tempos anteriores abalou a música no Brasil e no mundo. Ele acreditou que sonhos podem se transformar em realidade.
 
Ele nasceu em meio à fartura. Não conheceu, como muitos nordestinos,  as agruras diversas da vida. Podia ter ficado e se tornado como muitos amigos de infância, os quais, já aposentados, cuidam de suas terras .Donos de uma vida pacata. Não, ele sonhou, se desprendeu do ninho e alçou voo altaneiro, e realmente fez história.
Para mim, essa é uma das histórias mais belas que já ouvi.