ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

MARCEL PROUST E O RIO GRANDE DO NORTE DE OTACÍLIO ALECRIM - POR TRÁS DA “PROVÍNCIA SUBMERSA” UMA GENIALIDADE SUBMERSA



OTACÍLIO ALECRIM
            Normalmente os estudantes universitários que, por paixão ou orientação docente, se interessam por algum personagem estrangeiro da história, literatura etc, iniciam um processo contínuo de leitura das obras do autor e tudo o que escreveram sobre ele. Os mais ilustrados vão logo atrás das obras originais para lê-las na língua materna do escritor. Dessa forma parecem sentir melhor a alma do autor.
            Nem sempre a universidade possui material teórico vasto sobre determinados temas, e isso dificulta o necessário aprofundamento. A solução é partir para as grandes universidades à cata do que for possível para copiar, tomar emprestado, ler, reler, enfim iniciar a construção do projeto. Diante disso há casos de universitários que empreendem verdadeira odisseia.
Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (um dos mais extraordinários escritores da literatura universal)
            Mas quando o objeto de estudos é o excepcional escritor francês Marcel Proust (Auteuil, 10 de Julho de 1871 — Paris, 18 de Novembro de 1922), todo estudante brasileiro, em especial os norte-riograndenses, têm uma fonte das mais ricas no seu próprio estado, e não sabe. Refiro-me a Otacílio Alecrim (1906-1968), uma dos maiores intelectuais potiguares e precursor (até o seu falecimento) no estudo da obra do citado escritor, inclusive autor de vários trabalhos sobre Proust.
            Prova da erudição e de o quanto Otacílio Alecrim estava adiantado em termos de novidades em literatura estrangeira de qualidade, é o fato de ele deter vasto conhecimento sobre a célebre obra proustiana A la recherche du temps perdu (Em busca do tempo perdido) quando seu autor era quase um ilustre desconhecido no Brasil. Um dos seus livros “Província Submersa”, verdadeiro primor literário, publicado em 1957, tem no próprio título uma aura proustiana. O autor exalava Proust. Não foi a toa que ele escreveu: 



Esse Proust – o das peregrinações ruskinianas em busca da Província perdida -  é sem dúvida o que sempre mais senti e por isso o que sempre mais admirei. Impressiona-me nele, quando o releio desse modo particular, qualquer coisa de indizível mas que me faz viver delícias de leitura até então não experimentadas. Ele aprofundou e poetizou um tema – o souvenier afetivo da infância na província – que na literatura do gênero haverá de sobreviver com o odor evocativo dos lilases de Illiers”.
            Antes dele existiu outro potiguar precursor na leitura da obra de Proust, Jayme Adour da Câmara. Mal havia saído do prelo La recherche du temps perdu e lá estava ele com a obra francesa debaixo dos braços, já lida e relida, dentre outras que sucederam. Ele dizia que Proust significa um divisor de águas, pois o romance moderno passou a ser outro depois dele. 
ALECRIM, TERCEIRO À DIREITA
Mas é importante destacar que este foi apenas um ferrenho leitor. Diferente de Alecrim, que além de estudar perquirir as obras de Proust, escrevia sobre elas e sobre o escritor, além de também ser escritor extraordinário com características próprias. Sem esquecer que foi um dos maiores especialistas na literatura francesa de sua época.
Otacílio Alecrim integrou um rol restrito de intelectuais brasileiros estudiosos das influências francesas no Direito Constitucional Brasileiro. Jurista, crítico literário, filósofo, conferencista, e profundo estudioso das ideias e das instituições do Brasil Império. Até hoje esse intelectual consta no rol dos grandes teóricos de Proust. Sua intelectualidade levou-o a ser eleito para a Sociedade dos Amigos  de Proust na França.
JOSÉ AUGUSTO BEZERRA DE MEDEIROS
Otacílio Alecrim tinha vocação política. Certa vez, seu amigo José Augusto Bezerra de Medeiros, governador do Rio Grande do Norte o convidou para ser seu chefe de gabinete. O jovem macaibense tinha sido um fiel defensor do político, inclusive discursado na campanha. Ele acalentava a vontade de seguir carreira política, mas decepciona-se com o amigo ilustre, que designa-o para ser professor no Colégio Atheneu. Esse gesto motivou-o a deixar o Rio Grande do Norte, onde voltou algumas vezes apenas em visita, ou quando convidado para conferenciar.
Ainda bem!

ESTUDOS PROUSTIANOS DO AUTOR

·         Proust. Correio da Manhã (SL), de 22 de agosto de 1948.
·         Museu de literatura Proustiana. C.M. (SL), de 12 de setembro de 1948.
·         Introdução à Bibliografia Proustiana. C. M. (SL), de 26 de setembro de 1948.
·         À Província de Combray. C.M. (SL), de 24 de outubro de 1948.
·         Sistemática da Bibliografia Proustiana. Revista Branca (Homenagem a Proust), nº 4, de 1º de dezembro de 1948.
·         Proust e a Província. Conferência lida na Academia Norte-Riograndense de Letras, Natal, 12 de dezembro de 1949.
·         Em busca da Província perdida. Edição especial da revista Nordeste, do Recife, nº 5; de 1º de dezembro de 1949, dedicada a Proust – o Romancista da Província.
·         Repertório de Estudos Proustianos. Revista Branca, nº 12, de 1º de agosto de 1950.
·         Raízes de Proust. Na proustiana brasileira, poliantéia editada pela revista Branca, 1950, por motivo do 25º aniversário da morte de Proust.
·         Técnica da Prosa Impressionista (O Estilo Artista de Proust), na revista Cultura, nº 6, 1954, editada pelo S.D. do Ministério da Educação.
·         Recriações da Memória Proustiana. Capítulos VI-X dos Ensaios de Literatura e Filosofia, Rio, 1955. Análise, pelo método comparativo, de fontes e influências no À la recherche du Temps Perdu.
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OBRAS DE OTACÍLIO ALECRIM:

- Tamatião,  Natal, tipografia Minerva - 1931 
- Fundamentos da Cultura Civil - 1933
- Fundamentos do Standard Jurídico - 1941
- Fundamentos do Seguro do estado - 1941
- Província Submersa - 1957
- Ideias as Instituições do Império
- O Sistema de Veto nos estados Unidos
- Ensaios de Literatura e Filosofia, Rio - 1955



 LUÍS CARLOS FREIRE – FEVEREIRO DE 2009

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Última morada - O dia de finados em Nísia Floresta (1994)

 

O cemitério de Nísia Floresta tem peculiaridades que o difere da maioria dos demais por esse Brasil afora. Nem por isso vem a ser exceção, mas é adorável a tônica que o conduz o dia de finados. É ver para crer!
 
Nas cidades antigas os cemitérios convivem abraçados com igrejas e praças. Isso não ocorre nas cidades modernas, as quais reservam área distanciada do centro. Ninguém quer ser vizinho de gente morta. Mas Nísia Floresta, pequena cidade interiorana do Rio Grande do Norte, as pessoas se habituam, desde pequenas, a enxergar o cemitério como o quintal da casa, o vizinho ou como fosse um simples monumento no meio do caminho. Transitam com tanta frequência de frente ao cemitério que ele fica “invisível”. Esquecem da mãe, do avô, do amigo que ali estão sepultados. Pense num local que ninguém morre de medo é o cemitério de Nísia Floresta!
 
Pois é, muitos ali parecem não ter medo de alma penada. Tem gente que fica no degrau do cemitério até altas horas, mastigando conversa. Umas até namorando. Dizem as línguas soltas que num tempo mais remoto foi visto gente fazendo gente sobre uma sepultura. Sem se importar com os miasmas e almas que, com certeza, ficaram ali, quietinhas, brechando! Não existe alegria maior que o dia de finados no cemitério de Nísia Floresta. Parece uma festa. Aliás, é uma festança. Dia em que as pessoas vão rezar, orar e reverenciar os seus familiares que partiram desta para outra melhor… ou pior!
 
É um fervilhado de gente pelas aleias que assusta. Dia de presentear os defuntos e prosear com eles e com os vivos. Os mortos recebem presentes em forma de coroas com flores de papel crepom, de plástico, de pano e os de melhor situação, levam-nas naturais. Uns ofertam terços, orações escritas em papel, vasos para colocar flores, imagens de santos, cartões de santos, velas etc. Não há falecido que não seja presenteado ao menos com um “souvenier”.
 
Até os mortos pobres são reverenciados no Cruzeiro, uma cruz bem grande no centro. Vela acendida ali se sabe que é para quem não recebe mais visita, pois os que ficaram já morreram também, além de toda a população almática do local. Impossível uma alma dizer “fui esquecida!”
 
Os comerciantes informais – nada bobos – instalam no lado de fora barracas para venda desses produtos e – nada desprevenidos – vendem caixas de fósforo e isqueiro. Outros, vendem lanches, afinal os vivos não comem velas. O átrio do cemitério vira a feira do Alecrim. “O mundo é dos mais vivos!” Nas próprias catacumbas é possível encontrar mortos que – quando vivos – vendiam burundangas ali na frente. De maneira que eles nem podem reclamar do vavavu. Certamente nunca imaginaram que um dia estariam mortinhos da Silva e seriam homenageados.
 
Antigamente, os padres celebravam duas missas na capelinha existente no centro do cemitério – construída em 1954. Uma de manhã. Outra à tarde. A multidão, prensada e "esbaforida", formava um só corpo. Os mais velhos se sentavam nos túmulos, devido ao desconforto do terreno, pois não existem mais aleias. Restou apenas a central.
 
Pois bem, a missa foi extinta, e os evangélicos - vivíssimos da Silva - perceberam! (Explico já, abaixo!). Outro desconforto do cemitério é o calor infernal promovido pelas velas acendidas uma seguida da outra. A nova no “catoco” da velha, numa sucessão interminável... e ali mesmo elas vão falecendo. Tem gente que acende de uma só vez as oito velas do pacote. As velas “morrem rapidinho”. 
 
O sol escaldante é fichinha para a fornalha infernal que se forma próxima do Cruzeiro. As amálgamas de parafina escorrem como rios entre os túmulos. Contam que já houve quem fizesse escândalo por pisar em tais riachos. Eles formam “represas” do líquido escaldante, fazendo inveja a Dante Aleghieri. Acredito que algumas almas – ao invés de se sentirem lisonjeadas pelas homenagens dos vivos - sentem no inferno no dia de finados. Aquela quentura toda, o mormaço de parafina misturado com cheiro de flores, dá ao local um hircismo que eu chamaria de 'cheiro de morte'. Cheiro esquisito!
 
Mas o leitor não pense que esse sem-fim de cera escorrendo vai pro lixo. Há muito menino por ali só pastoreando - a mando da mãe -, e mal os rios vão endurecendo dão-se nas vasilhas, pois servirão para encerar a casa. A meninada sai dali com latas e sacos cheios. Basta misturar com um pouquinho de querosene, esquentar e vira cera maravilhosa (contou-me alguém!).Vejam só que riqueza o cemitério de Nísia Floresta!
 
Lembro-me de ter visto uma família numa espécie de ritual interessantíssimo, em que alguns conversavam com o morto. Alguns entram e saem do local totalmente compenetrados, numa espécie de compunção. Cada qual com o seu morto. Algumas pessoas cismam de chorar um “choro de lobo em noite de lua cheia”. Uma ladainha esquisita. E nem sempre por morte recente. Uns dão esses espetáculos há muito tempo. Como fosse uma satisfação à sociedade. A dramatização serve para que “o povo” tenha certeza que a família sente falta do morto (mesmo que tenham sido “ruins feito o diabo” quando era vivo).
 
Normalmente os visitantes ficam ao lado do túmulo, sentados nele ou em pé, por horas a fio. Ali vão passando os amigos vivos e encetam conversas que abarcam todos os assuntos. Comadres, compadres que não se viam a certo tempo. Uma novidade! Lembram do morto, narram episódios vividos junto a ele, coisas que ele falava etc. Há um princípio de emoção e logo é dada uma guinada no contexto, surgindo conversas, risadas e gaitadas que dão na outra rua.
 
Antigos conhecidos que deixaram a cidade há anos se reencontram. Gente de Natal e outros lugares aparecem e fazem uma festa com os velhos conhecidos. A algazarra é tanta que a feira de São José de Mipibu vira uma contrição. Não faltam gargalhadas. Um ruge-ruge de gente se esbarrando uma na outra. Há horas que o ambiente chega ao ápice, lembrando mais uma coisa sem prumo. Creio que as almas mais recatadas e tímidas se incomodam, mas preferem ficar quietas, afinal é só aquele dia! 
 
À noite é a vez dos crentes – ou melhor – dos evangélicos. E não poderia ser diferente, afinal crente também morre e nem sempre vai para bom lugar - diga-se de passagem! Ali, em meio às pregações direcionadas aos que ainda não "bateram as botas", fluem reflexões sobre arrependimento, fim dos tempos e, como não são bobos, boas cantadas para aqueles que ainda “não aceitaram a Jesus” o fizerem ali mesmo. 
 
Suponho que as almas que em vida haviam aceitado o diabo, se mordem de arrependimento e... cá para nós... nem fazem questão, até porque é cada tipo de gente se proclamando “salva” que salva mesmo só a dinheirama no bolso. E nessa história saem dali com um rosário de novos convertidos. Vejam como o cemitério de Nísia Floresta é diferente!
 
Ironicamente, ao lado do cemitério fica a delegacia, cujos “cabra errado” são trancafiados e soltos a cada momento. Mas dentro do cemitério a história é outra. Quem for trancafiado numa cova dali não sai mais. Contou-me alguém que, certa vez, um bêbado levado aos pés do juiz o incomodou tanto com conversas altas e truncadas, que o magistrado lhe disse: "Meu senhor, cala a boca, senão eu mando lhe prender agora mesmo!" O infeliz, nas suas divagações etílicas, respondeu-lhe: "Mas eu me solto logo! Quero ver se eu prender o senhor. O senhor não sai mais nunca!". O juiz, perplexo com o “cabimento” disse-lhe: "quem o senhor pensa que é, seu cabra atrevido? O bêbado respondeu: "eu sou o coveiro da cidade!".
 
A galhofa no campo santo é grande! É gente saindo. É gente entrando. Mãe procurando filho. Namorado em busca da namorada. Gente paquerando. Grito de fulano chamando beltrano, menino gritando. Há momentos em que os visitantes até se esquecem dos seus mortos e dão mais atenção aos vivos. Enfim é uma festa! Tenham certeza que muitos aniversários e festanças com comes e bebes por aí perdem feio para o dia de finados em Nísia Floresta. (1994)
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Escrito em 1994, essa crônica pode estar desatualizada. Até porque um padre - amigo - disse-me, recentemente, que Nísia Floresta já não traz mais esses ares. Hoje, nos enterros, nas igrejas, no ‘Dia de Finados’ e etc as pessoas estão num planeta distante, transfigurado nos aparelhos celulares. Grande parte está mais preocupada com vaidades pessoais, auto-promoção, futilidades que correram para as redes sociais… Hoje, filhos que nem davam tanta atenção aos pais, se desmancham com postagens de lamentações e declarações de amor após a sua morte. Amor que muitas vezes nem existiu, ou não foi tão intenso como nos textos, mas que precisou-se apresentar-se dessa forma no Instagran ou Facebook, onde a aparência importa mais que o mundo real. Redes sociais são lugares de mostrar, de dizer, de contar que tudo está maravilhoso... É uma necessidade que se não acontecer, está-se excluído-se da sociedade. O "diário da vida" não pode ter lacunas... Dos frequentadores do cemitério do passado, muitos morreram. Mas a maioria migrou para esse novo mundo de fantasias.
                          

QUINTAIS NORDESTINOS... EXTENSÕES DA ALMA


              Depois da cozinha e do quarto, o quintal parece o lugar mais aconchegante de uma casa de interior. É interessante considerar como quintal um conjunto de elementos, muitos deles imperceptíveis, que lhe dão uma tônica especial, onde podemos passar sucessivas horas agradáveis sem darmos conta.
            O quintal é extensão da casa, mas às vezes somos tão ligados a ele que podemos dizer, sem dúvida, que a casa é uma extensão do quintal. Mas o que tem um quintal e por que é tão atraente?
            Creio que, assim como os gatos, parte considerável da humanidade tem forte apego ao lar, com destaque ao quintal, por inúmeros motivos.  Esse espaço tem uma carga emocional emanada das inúmeras experiências ali vivenciadas, seja entre família ou amigos. É  espaço de lembranças, de conversas nas beiras de cerca com os vizinhos, das festas simplórias com amigos e familiares, normalmente regadas a uma “caninha”, cerveja, churrasco, feijoada ou simples almoço, enfim é um espaço de muito agradável.
            Existem muitos tipos de quintais. Nas cidades do interior normalmente são espaçosos, cercados com muros baixos ou varas em meio àquela ‘areiazinha branca’. Alguns nem cerca possuem. Costumam ter árvores frutíferas, predominando as mangueiras, os abacateiros, as tamarineiras, as jaqueiras, as laranjeiras, os sapotis, os limoeiros, as carambolas, enfim todo quintal tem uma variedade parecida de frutas. 

            
            Quase sempre o quintal possui uma lavanderia de roupa ou um “comodozinho” que abriga o fogão de lenha e “braseiros” que fazem as vezes de churrasqueiras. Normalmente tais peças são feitas de latas de dezoito litros, cortadas ao meio com tijolos em sua base e grade na parte superior. Outros são de barro. Todo quintal tem um jirau como se fosse uma mini-horta sempre ali à altura da mão, cheio de coentro, cebolinha e outras hortaliças viçosas.
            É quase regra que todo tipo de bugiganga se encontre nos grandes quintais. Comumente os nativos de interior não descartam certos objetos que se estragam. O resultado disso tudo é torná-lo uma espécie de depósito eterno, normalmente no fundão. Ali se acumulam bicicletas velhas, cadeiras, geladeiras, fogões à gás, latas, peças de carro, pedaços de carrinho de mão, camas e tantas quinquilharias que perdem a cor devido a sucessivos meses (e anos) expostos a chuva e sol.
E existe um apego a essas coisas aparentemente imprestáveis. Se alguém “der fim” a alguma peça, arruma confusão principalmente com os mais velhos, pois mesmo que não se saiba o que realmente existe ali (de tanta bugiganga), é para ficar guardado. “Quem sabe algum dia serve para alguma coisa” – diriam.
Quintal também é lugar de encontrar coisas antigas, que podem ser reaproveitadas pelos olhares mais doutos. Essas descobertas são observadas quando os mais velhos partem dessa para outra, e os mais novos “inventam” de fazer uma triagem. Nesses empreendimentos os “ferros-velhos” saem abarrotados de “burundangas”.
            Predominantemente os moradores de interior gostam muito de plantas que dão flor e ervas medicinais. Desse modo, logo na entrada da casa se encontram jardins desordenados que se estendem por todo o quintal. Latas e mais latas cheias de terra e adubo de gado fortalecem os “comigo-ninguém-pode”, as roseiras de todas as cores e variedades, samambaias dentre uma infinidade de flores cheias de nomes sentimentais: “beijinho”, “bom dia”, “boa noite”, “lágrimas de Maria”, “copo de leite” etc.
            Dividindo espaço com as plantas de jardinagem se destacam as plantas medicinais. Tem remédio para dor de cabeça, picada de inseto, febre, “dord’olho”, “ramo”, “empachamento”, gripe, cansaço, prisão de ventre, má digestão dentre os mais diversos sintomas.
            Os lugares interioranos, principalmente os de menor população ainda conservam galinheiros e um mini curral, onde são trazidas uma ou duas vacas para se alimentar e passar a noite. Logo de manhazinha, após a ordenha, os muares são levados para o pasto. Ainda é possível encontrar chiqueiros de porcos em quintais muito grandes, os quais ficam bem retirados devido ao cheiro desagradável. Não há quintal que não tenha um gato preguiçoso, espichado em lugar idolatrado em sombras escolhidas a dedo, ou melhor, a patas. Os cachorros não ficam atrás. Muitos adoram cavar um buraco para esfriar a barriga e ficar com o focinho na terra. Ali todos se entendem... gente e bicho!
            Todo quintal possui varal, normalmente colorido de roupa, mas nem sempre é feito de arame, pois as varas da cerca são excelentes para se pendurar pesadas redes, lençóis e calças. Cerca serve também de armário, guarda-roupa, varal etc. Por isso é possível ver alumínios, pano de prato, pano de chão dependurados nas pontas das varas.
            Ainda se vê muitos quintais com um puxadinho feito com diversidade incrível de materiais. Ali se abriga um aconchegante fogão à lenha, onde se preparam as comidas mais “pesadas” como o feijão e os doces. Normalmente a fumaça branquinha assinala que algo está sendo preparado no quintal da casa.
            Todo quintal tem sempre uma velhinha e um velhinho. Todo quintal tem aquela senhora caminhando para lá e para cá numa sucessão interminável de afazeres. Ora varrendo o chão com varas de mato, ora lavando roupa, ora queimando uma coivara de folhas secas, ora empurrando os meninos para o banheiro... E os maridos sempre no “cercado” ou em outro lugar de trabalho.
A meninada passa o dia em brincadeiras sem fim, dividindo espaço com cachorros, gatos, galinhas, papagaios e saguis, pois quintal é lugar de tudo e mais um pouco... fonte inesgotável de brincadeiras infantis. As águas que correm no rego da lavanderia se transformam em rios dividindo fazendas. A velha enxada faz os traçados das estradas. E os brinquedos fazem o resto. Nos quintais se misturam meninas e meninos até o momento que alguém lembra que é hora de alguma coisa... banho, escola, missa...
Diante de todos esses elementos que constituem um quintal, nota-se claramente a forte carga emocional emanada. Isso explica o apego a esse espaço de sociabilidade incomum. Objeto de desejo até para ficar à sós, ouvindo os pássaros cantando depois de se deitar numa rede dessas de vendedor das Casas Bahia. Quintal torna as pessoas dependentes... Isso parece torná-las mais humanas.
Nada paga a sombra deliciosa de uma mangueira, tendo debaixo uma família saboreando os comes e bebes de sua preferência, ou conversando conversas sem fim. Quintais são parte da gente... são extensões das nossas almas. LUÍS CARLOS FREIRE.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A TRANSFIGURAÇÃO DAS FESTAS JUNINAS E ELEMENTOS DO FOLCLORE BRASILEIRO SOB O CRIVO DO PODER PÚBLICO E ALGUMAS DOUTRINAS EVANGÉLICAS - UM ESTUDO DE CASO

ASPECTO DE UMA FOGUEIRA NUM CLIMA PURAMENTE TRADICIONAL

Eventualmente ouvimos pesquisadores, estudiosos e até mesmo pessoas comuns lastimando o desaparecimento, a diluição e descaracterização de alguns elementos da cultura popular nordestina: festividades folclóricas, festas juninas e eventos similares. Esses insights ocorrem quando é observada a ausência, o desaparecimento ou substituição de certas manifestações folclóricas, como por exemplo, os grupos de forró pé de serra, os violeiros, as quadrilhas juninas, danças, a festa que deixou de acontecer em certo bairro, os hábitos de determinada comunidade, aquelas palavras faladas pelos mais velhos, alguns ditos populares, o vendedor de beiju, a mulher que fazia cestos, a ‘louceira’, a benzedeira... Muito das coisas nordestinas vem perdendo a sua cor.

Parte considerável da juventude vê as festividades juninas e os elementos folclóricos com certo desprezo, principalmente quando conservam intactas a sua originalidade. Casos desse tipo podem ser constatados dentro das próprias famílias onde pais ou avós participam de grupos folclóricos, mas os filhos não dão continuidade. Ao mesmo tempo, enquanto o pai ouve Luís Gonzaga, os netos ouvem Luan Santana.

Nota-se maior aceitação quando se trata de grupos parafolclóricos, certamente pela diluição de muitas de sua originalidade, a qual parece não exercer o mesmo encantamento do passado. A impressão que se dá é que a juventude está mais atraída pela plasticidade moderna aplicada aos folguedos, além de não demonstrar receptividade aos atores originais, os quais, normalmente são pessoas humildes, desprovidas de vaidades de modo geral. 

Há uma tendência da juventude em preferir essa moçada sertaneja do sudeste e centro-oeste, cujos artistas nordestinos são substituídos. É o que percebo. Pagam 1000 reais para a banda de forró local e 100 mil para o sertanejo. Isso é muito estranho. Uma instituição pública que gere as contratações de fora não pode achar isso normal, nem deixar gostos pessoais de funcionários despolitizados - ou até mesmo analfabetos de sua própria cultura decidir quem vem para as festas juninas ou não. Certa vez fiquei sem acreditar quando vi, em São José de Mipibu, Hebe Camargo, Zezé de Camargo e Luciano. É surreal. Não é proibido ser fã deles, mas não combina com o momento. E Hebe? Hebe é a essência da coisa caipira de São Paulo interiorano, amiga de Mazzaropi e cia ltda. Maravilhosos, mas tudo a ver com os paulistas.

Agora, no aspecto do Folclore, normalmente os grupos parafolclóricos são oriundos de instituições culturais organizadas, universidades e escolas, cuja maioria dos atores não descendem de brincantes originais de algum folguedo. Esses grupos, quase sempre, recriam a plasticidade com materiais modernos, que soam “agradáveis” aos olhos da juventude, em detrimento da rusticidade dos elementos usados por grupos originais. Essas constatações servem de termômetro, pois também revelam facetas de preconceito.

Acabamos de sintetizar uma observação sobre o modo como boa parte da juventude brasileira vem entendo e trabalhando a sua cultura, e como os órgãos públicos dos municípios e do estado vem agindo, no aspecto de trocar os artistas nordestinos (principalmente locais) por sertanejos do sudeste e centro oeste. Mas existe um fenômeno muito mais forte e que leva grupos folclóricos e elementos afins à extinção, como veremos adiante.

Muitos descendentes de brincantes de alguma manifestação folclórica sequer admitem ouvir falar da prática folclórica dos próprios parentes pelo fato de ter nascido num lar evangélico, ou ter aderido posteriormente alguma religião evangélica, outros, por entenderem-na como coisa antiquada, portanto ultrapassada.

As pessoas comuns - “povão” - que gostam de folclore - normalmente se comportam com certa nostalgia, buscando explicações para essa descaracterização, mas aqueles que lidam diretamente com alguma atividade folclórica, sabem que nas últimas décadas algumas religiões evangélicas vem promovendo a sua decadência gradual. As coisas do Nordeste sofrem forças contrárias oriundas de vários aspectos, como vemos. Umas são mais poderosas, outras menos, mas existe essa força que enfraquece as coisas nordestinas. Isso se piora ainda mais quando a coordenação de grupos folclóricos ou os próprios brincantes são aqueles que deixam a sua antiga religião – ou a sua não-religião – para abraçar doutrinas evangélicas. Por mais que se perceba a abnegação dos responsáveis por tais grupos, as dificuldades para a continuidade são muitas. É uma soma de fatores que trabalham contra as coisas do Nordeste.

É importante ressalvar que ao se fazer essa constatação não se quer condenar as religiões evangélicas que não toleram o folclore, mas registrar um fenômeno concreto promovido por elas. Isso é fato. A propósito sequer serão mencionadas as denominações religiosas mais fundamentalistas nesse sentido. Até porque como grande admirador das coisas do Folclore, conheço inúmeros brincantes que abandonaram os folguedos em que brincavam ou geriam, alegando que havia "aceitado Jesus". A partir daí passam a alegar que as coisas do Folclore são mundanas. Porém, o mais curioso e contraditório é que os próprios evangélicos, ao menor barulho na rua, são os primeiros a parecer para ver. Observa-se que é pecado praticar, mas não é pecado ver. Seria isso?

Pois bem, juntando o desprezo ou interferência equivocada por parte do poder público no trato com a cultura local com a questão religiosa  o resultado é gradual descaracterização da nordestinidade. Daqui a pouco as quadrilhas juninas vão ser sertanejas, ao som de Luan Santana, Michel Teló e por aí adiante. Daqui a pouco o São João do Nordeste vai ter no palco só artistas do eixo Sudeste/Centro-Oeste, e no  meio deles vão chamar, como convidado especial, Elba ramalho, ou seja, o mínimo vai ser reservado para o Nordeste.

O poder público, ao ignorar, ou desprezar intencionalmente, ou diminuir a presença das coisas do Nordestes em seus festejos, poderá até dizer que promoveu lazer a seu povo, mas esse mesmo poder público precisa saber que ele está sendo responsável pela degradação da cultura do seu próprio povo, e isso é um ato de corrupção. É aí que perguntamos: cadê os artistas? Cadê os protestos? Por que se calam? Cadê as pessoas comuns das cidades? Estão entrando na onda da descaracterização. Querem Elba ou Hebe? Querem Zezé ou Zezo? Ah! Esse é do brega! Mas foi só para rimar. Lembremos que ele é nordestino (antes ele!).

 Pois então, no tocante às manifestações folclóricas, as autoridades, alienadas e descompromissadas até podem dispersar os brincantes de folguedos folclóricos, podem até silenciar alguns, mas não expurgará neles o talento nem a possibilidade de uma revitalização a qualquer momento. Da mesma forma são as igrejas evangélicas, elas jamais destruirão as manifestações folclóricas do Nordeste, em especial, nem as manifestações culturais de matrizes africanas.

Para entender essa constatação é necessário ir a fundo e analisar quem são os cidadãos que protagonizam - ou protagonizavam - as festividades populares e qual o seu perfil. Seriam evangélicos, católicos, ateus, ricos, pobres, brancos, negros, índios, estrangeiros? ... Estariam os brincantes concentrados em áreas periféricas, nobres, no litoral, no interior do Brasil, nas capitais? ... Quem são os atores das manifestações mais significativas do folclore brasileiro? 
BRINCANTE DO "BUMBA-MEU-BOI" DE SÃO LUIZ - MA

Constata-se, facilmente, que não é possível encontrar evangélicos integrando ou coordenando grupos folclóricos, como o Boi-de-Reis, o Pastoril, a Lapinha, o Coco de Roda, o Bambelô etc. A maioria - se não toda - entende que a partir do momento que um cidadão adere alguma religião evangélica, “torna-se uma nova pessoa”, deixando de lado o que passa a chamar de “coisas mundanas”. Alguns são fundamentalistas e vão mais adiante, interpretando o folclore como “coisa do demônio”, haja vista o seu universo fantástico, lendário e mítico, no qual desfilam seres inumanos, capetas, bruxas, lobisomens... portanto “merecedores de desprezo” e dignos de serem combatidos.

Observe que esse fenômeno protagonizado pelos avangélicos interfere negativamente na cultura popular. Nesse aspecto, diante de exemplos de grupos folclóricos que recebem esse tratamento, destaca-se o drama “O Pirão-Bem-Mole”, da Comunidade do Porto, e um grupo de Pastoril, do distrito de Campo de Santana, os quais integram o universo folclórico do município de Nísia Floresta, Região Metropolitana de Natal, distando 36 Km, no estado do Rio Grande do Norte.

 O referido município, detentor de um patrimônio material e imaterial admiráveis, é exemplo clássico a engrossar o caldo da depredação. O Drama “Pirão Bem Mole” é encenado por uma dupla: dona Raimunda, atualmente com 97 anos, que apresentava o folguedo até dois anos passados, e Salete, de 63 anos. O drama exibido de forma cantada e dançada, conta a história de uma senhora de 200 anos (é isso mesmo: duzentos anos!), a qual, ignorando a avançada idade, diz ao filho que deseja se casar. O rapaz a reprova, considerando errada a sua atitude. A discussão entre mãe e filho perpassa toda a canção com enredo hilário, levando o público a gargalhadas.

O autor do presente estudo incentivou longamente a exibição do referido drama – que já esteve quase extinto antes de 1992 – tentando sensibilizar alguns filhos e netos a continuar a tradição, mas não logrou êxito, pois os seus descendentes de convívio diário tornaram-se evangélicos.

O AUTOR DO TEXTO E O GRUPO "PIRÃO-BEM-MOLE" (RAIMUNDA E SALETE)

A outra situação refere-se ao grupo de Pastoril, do distrito de Campo de Santana, que era coordenado pelo professor Gisaldo do Nascimento. A referida manifestação folclórica, formada por moças da localidade, alegrou durante vários anos as festividades locais, sofrendo lenta decadência que culminou com a sua dispersão.

O referido professor alegou que vários fatores colaboraram com o fim do grupo, sobressaindo-se o fato de algumas jovens terem se tornado evangélicas, outras, por proibição dos pais que se tornaram evangélicos e, por último, o desencantamento em virtude do encantamento promovido pelos modismos atuais, novos estilos musicais, enfim a mudança de pensamento da juventude sobre vários assuntos etc. O professor Gisaldo alegou que se esforçou para reunir o grupo por diversas vezes, mas os fatores negativos sobrepujaram a causa.

ESSE É UM "PASTORIL" DE OUTRO MUNICÍPIO, POIS NÃO ACHEI IMAGENS DO ACIMA CITADO - MAS ERA ALGO MUITO SEMELHANTE, PROTAGONIZADO POR MOÇAS E ADOLESCENTES

Após os dois exemplos acima, analisemos outro fenômeno. Pode parecer equívoco, mas o mesmo é motivado pelo Poder Público Municipal. Nesse caso vou recorrer ao município de Nísia Floresta, a 42 kms de Natal/RN. O fenômeno é nada mais que a mudança de uma data comemorativa, cujo evento principal é arrancado do seu contexto original e jogado num contexto absolutamente sem nexo.

Essa prática recebe o nome de “fora de época”, por exemplo, “Carnaval fora de época”, “São João fora de época” etc. Mas nesse caso nos ateremos ao contexto junino, especificamente em Nísia Floresta onde tal “modismo” foi adotado há pouco tempo.  O evento, no caso, é um dos mais originais do Nordeste brasileiro, com forte carga de tradições que se desenham pela musicalidade, as danças, os frutos de forró, a gastronomia do milho, os figurinos.

A cidade citada - Nísia Floresta - como não bastasse, mais uma vez protagoniza esse fenômeno. Nesse caso o advento do “fora de época” não é um grupo folclórico, mas um evento público tradicional, denominado originalmente de “São João do Interior”.

Criado em 1997, pelo poder público desse município, a referida festa se desencadeava justamente no mês nacionalmente junino. Iniciava-se no dia 12, data de Santo Antonio (o santo casamenteiro), e encerrava-se no dia 24 do mesmo mês, data de São João (batizador de Jesus), cuja deferência popular é ainda mais forte.

Nota-se que as festividades ocorriam no auge tradicional dos folguedos, considerando que mesmo depois de encerrada a festa promovida pela prefeitura, o clima junino continuava até o dia 29, data de São Pedro (o dono da chave do Céu), haja vista que as festas juninas, na realidade, compreendem o mês de junho apenas. Vinha até cantora de forró do Rio de Janeiro (vejam a ironia!) Estou me referindo a Soledade, uma artista nisiaflorestense que migrou para o Rio de Janeiro na década de 70, estudou música, sempre se apresentou no Centro de Tradições Nordestinas, em São Cristovão, enfim é uma forrozeira de ponta. Até no Faustão e no Fantástico já cantou.

Em 2005, a Prefeitura Municipal de Nísia Floresta, sob outra administração, mudou o nome do evento para “Festa do Balão” e o transferiu para o mês de setembro, período em que instituições públicas, pela lógica, se preparam para os festejos alusivos ao aniversário da Independência do Brasil, e não as festas juninas. Isso já não é bom, pois sai do clima junino. No ano passado a “Festa do Balão”, sob terceira administração, ocorreu nos dias 1, 2 e 3 de setembro. A única vantagem desse fora de época foi a ausência de coisas sertanejas do Sudeste e Centro Oeste. Menos mal.

CARTAZ DA "FESTA DO BALÃO" DE 2013

A referida festa - quando da sua origem - primava pela valorização de elementos puramente juninos, desde a decoração com as tradicionais bandeirinhas, à animação motivada por quadrilhas e grupos de forró “pé de serra”. Nas primeiras horas da noite apresentavam-se os grupos musicais do próprio município e cidades vizinhas.

Uma das atrações eventuais dessa festa, como já expus, era a cantora nisiaflorestense Maria da Soledade, a qual fez fama no Rio de Janeiro cantando forró. A artista chegou a se apresentar durante duas vezes no Programa do Faustão, na Rede Globo e até hoje anima grandes eventos na “cidade maravilhosa”, sendo presença constante nos palcos da famosa Feira de São Cristóvão. No auge da festa “São João no Interior” exibiam-se bandas atuais de forró para equilibrar os gostos, sem que a originalidade e os artistas da terra fossem relegados. 

PREDOMINÂNCIA DO BALÃO

Irônico demais da parte da Prefeitura Municipal, pois um órgão que deveria promover e incentivar uma festa popular – no seu período original – muda a data – e furta-lhe as suas características originais meramente com intenções político-partidárias, considerando a aproximação do mês de eleição, quando a festa "junina" vira vitrine de caras e bocas e apertos de mão intencionais. É o que resta ao povo. Os políticos, salvas raríssimas exceções - não estão nem aí com descaracterização da essência da cultura nordestina. Eles querem voto, poder e confundir os cofres públicos com suas contas bancárias. Ao povo, circo e pão. Antes fosse, de fato, circo, literalmente falando (adoro circo!). 

Normalmente as pessoas criticam o governo, a prefeitura etc. Mas governo e prefeitura não é uma coisa que está lá em Marte. As pessoas precisam abolir essa ideia deturpada sobre estado e prefeitura. São os funcionários públicos, analfabetos de sua própria cultura, fãs de Zezé de Camargo e Luciano, Luan Santana, Michel Teló que entram em contato com  os empresários deles. Não é o estado nem a prefeitura que o fazem. As prefeituras e governos estão cheias de gente sem mínima condição intelectual de pensar as coisas com conhecimento de causa, com propriedade.

Mas, continuando as reflexões e voltando para o público evangélico que diz que festa folclórica é coisa do mundo, que pessoas salvas devem estar em ambientes que juntem outras pessoas salvas. Curiosamente, a referida festa ocorrida em Nísia Floresta, que pela lógica “mundana” não deveria contar com o público evangélico, pelo fato de os mesmos não enxergarem o evento com bons olhos, tem neles os grandes frequentadores e apreciadores, salvas raríssimas exceções. Nota-se nesse caso um fenômeno esdrúxulo, ou seja, os evangélicos não podem promover as “coisas profanas”, mas ironicamente podem prestigiá-las e admirá-las. Nas palavras de Karl Marx "A prática é uma e o discurso é outro".

Se toda pessoa pudesse assistir as festividades juninas em cada região do Brasil, constataria serem incomparáveis às do Nordeste. Enquanto nos estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, as festividades juninas nada lembram a beleza, originalidade e criatividade existentes unicamente no Nordeste - em plena Nísia Floresta, município nordestino bicentenário e repleto de riquezas folclóricas - o poder público local adere a um modelo equivocado de comemorar o São João.

Como não há nexo nessa transferência de data, resta-nos questionar o que motiva os governantes a fazê-la. Não é somente Nísia Floresta que faz isso. Citei-a como exemplo que vi. Há uma explicação, obviamente, mas não parece justa, pois não é ocasionada por fenômeno histórico ou algo convincente, mas, infelizmente, pelo lado destrutivo da política partidária.

O fenômeno de mudar as comemorações juninas de junho para setembro, mês da Independência, no qual ocorrem desfiles cívicos e eventos afins, permite ao povo a prática despercebida de matar a sua tradição original. Nota-se claramente o antagonismo dessas duas datas comemorativas e a notória incapacidade de fundi-las, até porque não há encantamento nem graça em associá-las. O advento do “fora de época”, ao atender a interesses políticos e econômicos equivocados, acaba significando uma prática inconsequente, cujos causadores não se importam em prejudicar as tradições folclóricas. Isso é corrupção.

A mudança pode até parecer algo insignificante por consistir apenas numa transferência de data, mas tal barganha traz fortes prejuízos para a cultura popular, haja vista que se transfere uma festa, mas não se transfere as suas simbologias. Move-se uma data mas não segue junto a magia das suas significações. O sentimento popular original, cheio de riquezas vai se definhando paulatinamente por não receber a deferência tradicional.

Municípios como Nísia Floresta, assim como outros municípios do Nordeste, trazem as festas juninas “no sangue”. Sabe-se, obviamente, que o povo não precisa de uma instituição pública para se sentir motivado a comemorar as Festas Juninas. Mas a partir do momento que as instituições públicas trocam os seus artistas por artistas sertanejos, transferem um evento típico de determinado momento para outro, aderem ao "fora de época", veem folguedso folclóricos se extinguindo por fatores religiosos ou falta de apoio,  ISSO SE CHAMA CORRUPÇÃO.

Esse ato corruptor e injusto pode passar despercebido aos que não têm olhos para a cultura ou não a valorizam, mas é dano sem precedentes. Isso é preocupante e precisa sofrer resistência e protesto. Tal mudança deseduca as novas gerações e lhes tira a oportunidade de vivenciar o encantamento promovido pelo seu contexto original. Seja quais forem as interferências nocivas aos elementos de uma cultura (religião, mudança de data dos eventos tradicionais - "fora de época" - poder público formado por pessoas ignorantes etc, nada justifica e nada deve ser perdoado. Essas instituições e pessoas são autoras de terrível corrupção. Elas ainda pagarão por isso. Não é possível que não!

Essa selvageria contra a cultura nordestina ocorre porque a nova geração absorve a nova proposta sem questionamentos, pois desconhece as suas características originais. Para a maioria da nova geração não é interessante contemplar o que ficou para trás, pois soa ultrapassado. No caso da festa junina, mesmo que seja transferida para julho, agosto ou setembro, a perda de sua essência é a mesma. Essa criançada e esses adolescentes que parecem sentir vergonha das coisas do Nordeste o fazem por causa dessa corrupção promovida pelas instituições públicas. Eles são vítimas. O erro está em não resistir. 

As crianças e os jovens se moldam naturalmente ao ambiente onde se desenvolvem e fortalecem os seus laços sociais e culturais. A partir do momento que estão nesse contínuo e equivocado processo, passam a entendê-lo como normal e obviamente irão perpetuá-lo aos seus filhos. Diante dessa transfiguração, percebe-se a perca sofrida pela cultura.

O mês de junho é uma riqueza, é um complexo de coisas do Nordeste: o forró, o baião, o xaxado, o xote, as comidas típicas de milho, as fogueiras, ruas enfumaçadas, as bombinhas, os cordões de bandeirolas, as promessas, as canções, as lamparinas penduradas nas janelas, as simpatias, as quadrilhas matutas e estilizadas, e um sem fim de coisas.


Essas manifestações espontâneas normalmente têm outros fatores que ampliam a alegria e a beleza do momento: as chuvas ligeiras, os milharais espalhados pela zona rural, as montanhas de milho transportadas em carroças e caminhões, despejadas nos comércios ou nas ruas, onde o as famosas “mão de milho” são vendidas incontinentes. Há quem diga que aguarda com ansiedade dois momentos imperdíveis do ano. O Natal, por seu mistério, e o mês de junho, por sua magia.

Diante do fenômeno de mudança de data, surge o questionamento: qual o motivo de se transferir uma festa junina para um período totalmente fora do seu contexto original? É exatamente nesse momento que detalharemos o aspecto da política partidária e seus vícios, citado anteriormente. A mudança de data visa única e exclusivamente atender os interesses políticos/partidários dos governantes, haja vista a proximidade com o mês das eleições que se dá em outubro. A festa, portanto, se transforma numa espécie de palanque eleitoral.

Observa-se que essa mudança visa tirar proveito na conquista dos eleitores, haja vista que uma parcela considerável entende a sua cidadania como “pão e circo”. É justamente nessa festa que desfila a representação do poder executivo, os vereadores, senadores, deputados e governador (a) - todos visando a reeleição. A festa sai do campo do folclore para o campo da politicagem, atingindo assim o seu tendencioso objetivo. E serão eles que se omitirão quando forem eleitos.

A festa, nesse caso, é usada como instrumento de promoção de candidatos a cargos políticos. É até compreensível tal encenação – à luz da ausência de uma educação crítica – não fosse a injustiça cometida contra um momento tão significativo da cultura popular.


DESFILE COMEMORATIVO AO DIA DA INDEPENDÊNCIA - CLIMA CONTRADITÓRIO COM FESTA JUNINA

Ninguém deve defender o engessamento da cultura. As coisas mudam, mas até isso é digno de reflexão. Mudar sem perder a essência. Essa é a questão. Por exemplo, trazendo a análise para as coisas do Folclore. Sabemos que alguns grupos folclóricos deixam de lado pequenos detalhes de suas brincadeiras folclóricas por motivo justo, mas resistem quase que intactos. O folguedo “Pau-Furado”, por exemplo, não usa mais o tronco de madeira tirado da mata, nem o couro de raposa para a percussão por razões de preservação do meio ambiente. Seu lugar foi ocupado pelo atabaque, ou usou-se um cano plástico, que é um instrumento industrializado, mas o efeito do som é o mesmo.

O referido folguedo originalmente usava lenha cortada nas matas para fazer uma fogueira que esquentava o ‘pau-furado’, tornando o som mais audível. Não havia preocupação com a preservação da natureza. Desse modo colaboravam com o desmatamento, inclusive de madeiras nobres. Hoje, o grupo se serve de madeira de árvores frutíferas que apresentam problemas - como cupins ou velhice - e exigem o corte.  

Existem manifestações que resistem há séculos intactas, outras, como o exemplo do “Pau-Furado”, necessitaram de pequenas mudanças feitas com racionalidade. Pesquisadores e folcloristas reconhecem a necessidade de interferências do tipo acima, desde que não cause danos e não descaracterize a essência.

FLAGRANTE DE UM GRUPO DE PAU FURADO

Essa linha de pensamento não apregoa que não devem ser valorizados os grupos totalmente descaracterizados, por exemplo, os grupos parafolclóricos ou as releituras, mas clama sobre a necessidade do devido cuidado com a originalidade daquilo que se quer promover como folclore tradicional. Muitos podem alegar que outros fatores devem ser responsabilizados pela descaracterização ou extinção de elementos da cultura popular, mas nenhum é mais forte que os casos acima analisados,.

Sabe-se que a mídia exerce um poder indescritível sobre a juventude, e não há como reverter isso, pois tal fenômeno não é inteiramente negativo. Informações de todo tipo chegam instantaneamente aos jovens. As músicas exercem um poder viral em todas as demais formas de comunicação. Junta-se a elas a questão da dança e da roupa (a moda). É exatamente a música, a dança e a roupa o ponto chave da questão. Os grupos folclóricos trabalham com música, dança e figurinos diversos, os quais destoam anos-luz do que se vê na mídia.

Tal modernidade encanta a juventude de forma admirável. É mais fácil ver meninas e meninos cantando, imitando e se propondo a dublar nas escolas e em ambientes promotores da cultura as artistas Beyonce, Lady Gaga, Shakira, Madonna etc, que usando a mesma energia para apresentar um “Pastoril”, uma “Lapinha”, um “Congo de Carçola”, nos quais as canções, as roupas e as danças soariam “bizarras” diante da sua formação educacional e cultural. E elas não podem ser apedrejadas por isso, pois são fruto do meio. Falta quem lhes eduque.

Pode-se afirmar, nesse caso, que o próprio povo acaba sendo promotor dessa descaracterização, até porque é maioria. Mas quando se constata que esse povo reflete a educação que recebe, e que nas escolas e nos ambientes culturais não se enaltece com ênfase as raízes populares, não se pode atribuir responsabilidade tão somente ao povo. Faz-se necessária, portanto, a reeducação na juventude. Urge aos governantes assumir concretamente a responsabilidade de preservar o seu patrimônio material e imaterial, construindo com a juventude o devido zelo, respeito e identificação. E esses governantes nunca devem abrir mão de comemorar as festividades culturais e folclóricas do seu povo, e de maneira certa. 

Quando as pessoas são educadas a conhecer e se identificar com as suas raízes, com certeza terão prazer em promovê-la. A salvação do Brasil está em sua cultura. Se ela morrer, morreremos. Agora fica a pergunta: e você, artista, produtor cultural, empresário de artista, educador, folclorista, gestor etc. O que você está fazendo para salvar a sua identidade? Ou você não tem?



terça-feira, 2 de setembro de 2014

CASO BERNARDO - O REFLEXO DE "PAIS" MONSTROS

Assisti a reportagem do “Caso Bernardo”, ontem, no Fantástico. Revoltante! Percebe-se claramente que o pai e a madrasta foram os causadores do seu comportamento agressivo. O fato de dois adultos trocarem juízo o tempo todo com a criança gerou um menino aparentemente violento. O que esperar de uma criança educada num lar infernal?
Todas as fotos divulgadas na mídia mostram uma criança que se socializava bem com todos. Por vezes alegre e feliz. Isso deixa claro que fora do lar ela se sentia bem. Creio que o seu comportamento “violento” era um grito de desespero e medo. Era a solução que ela encontrou para se defender do pai e da madrasta com fortes indícios de psicopatas. O garoto vivia diariamente acuado, tenso e numa pressão psicológica infernal.
Normalmente, madrastas e padrastos são pessoas estranhas (principalmente quando estas são crianças). É natural que sejam rejeitadas. O grande segredo está na conquista dos filhos alheios (até porque será formada uma nova família). Quem se propõe e se casar com pessoa que possui filhos, deve se preparar para formar uma nova família, aceitando-os e conquistando-os naturalmente. Há casos de madrastas do bem, mas essa assumiu mesmo a porção mostrada no clássico conto de Perrault.
Percebe-se que enteado e madrasta se rejeitavam. O inexplicável da questão é que ela, por ser adulta (e “ocupar” o lugar da mãe falecida), deveria buscar maneiras de conquistar a criança aos poucos. O garoto era carente em aspectos fundamentais para a sua formação. Um deles era a afetividade. Como se não bastasse, assistia o casal se desdobrar em carinho com o bebê, filho da madrasta com o pai. Para a mente de uma criança tão maltratada, isso era outro tipo de tortura.
O pai, médico e dono de clínica, a madrasta enfermeira. Ambos reuniam todas as condições possíveis para construir uma saudável família. Mas, pelo contrário, se uniram contra o ser mais frágil da família. O pai é tão pior quanto a madrasta, pois permitia e instigava o sofrimento do filho.
O comportamento da madrasta demonstra uma pessoa problemática e incapaz de assumir o filho não biológico. Faltou a ela sensibilidade para conquistar a criança cuja mãe biológica cometer o suicídio.
O pai provoca o filho de forma assustadora, acuando-o como uma fera atrás da presa. Sua voz traduz prazer em provoca-lo. Não dá para acreditar nem para compreender se não se tratasse de dois psicopatas. Num dado momento a gente se assusta com a atitude da criança, a qual pega uma faca e depois um facão e mostra como quisesse se defender. Nota-se pelo olhar, que o garoto revestiu-se desse “menino violento” para sobreviver na “selva perigosa” que era seu próprio lar, mas seu olhar pedia socorro.
O casal incita o garoto a morrer. Num dado momento o menino realmente pede para morrer. A madrasta fala com a criança com sarcasmo e deboche, xingando a mãe biológica e chamando-a de “vagabunda”. O garoto parece enlouquecer ao escutar ofensa a quem ele mais amava. Crueldade pura! A cena na qual ele se tranca num armário denota uma convivência infernal com o casal. Stress máximo. A criança vivia em constante desespero. A madrasta ameaça-o, dizendo “você não sabe do que eu sou capaz”. Justamente o lar era uma escola de violência e humilhação.
Pessoa equivocada pode achar que o garoto era mal ou tinha índole ruim. Quem sabe até supor tratar-se de um forte candidato a matar os pais no futuro (inclusive ouvi isso de alguém), mas tenha certeza que não! Ele era fruto do ambiente onde vivia. Estava sendo moldado pela estupidez de dois adultos que se satisfaziam de forma doentia. O que desse errado no futuro – acaso ele não fosse assassinado – seria consequência desse casal diabólico. Precisa inferno pior?
Mesmo que essa criança agisse assim por consequência de alguma patologia, jamais mereceria tal tratamento. Por ser sadio, pelo menos se defendeu o quanto pode. Infelizmente nada pode fazer quando a madrasta o dopou. Suponho que ela ainda tenha dito horrores em seu ouvido, quando ele entrava em estado de letargia e nada mais podia fazer.
Enquanto educador e pai, vejo tais pessoas como psicopatas. Senti muito a morte dessa criança. Sinto por saber que existem muitos Leonardo por esse Mundão de Deus, sofrendo nas mãos desses seres doentes, cruéis e covardes. Pais ou padrastos devem proteger os filhos – biológicos ou adotados – e não torturá-los ou matá-los.
Infeliz dessa criança que foi parar justamente nas mãos de psicopatas. Meus sentimentos aos seus familiares. Espero que haja justiça! LUIS CARLOS FREIRE

terça-feira, 29 de julho de 2014

ARIANO SUASSUNA: PILAR DA NOSSA BRASILIDADE

                                                                  OBRIGADO, MESTRE!

Sempre admirei Ariano Suassuna, antes mesmo de o “Auto da Compadecida” se tornar um clássico da TV brasileira. Não há como não tirar o chapéu para esse escritor genial, que, ao contrário do que alguns pensam, deixou vasta obra. Sua inteligência, seu bom humor, suas críticas, a maneira de se expressar, a voz, o sotaque... tudo isso lhe emprestava um contorno especial e prendia a atenção de quem assistia a suas palestras, suas “aulas espetáculo” e suas entrevistas. Tive o privilégio de assisti-lo por duas vezes. Bastava o homem falar que não tinha como não prestar atenção com admiração.
Atrás do criador de “Chicó” e “João Grilo” existia o criador de diversas personagens de grande significação para a brasilidade com ênfase à ‘nordestinidade’. Sua aparência, seu jeito aparentemente simplórios escondiam um filósofo que escrevia com a finalidade de instigar o homem ao pensar, sem poupar opiniões muitas vezes ácidas e incômodas a quem quer que fosse.
O “Auto da Compadecida”, por exemplo, carregado de humor, permite ao leitor (e telespectador) fazer sérias reflexões sobre diversos assuntos. Um deles é a hipocrisia de alguns religiosos.
Quando Ariano Suassuna publicou tal obra, teve problemas com a Igreja Católica pelo fato de mandar para o inferno justamente aqueles que, aparentemente, tinham lugar certo no céu – e mandar para o céu aqueles que, aparentemente, tinham lugar certo no inferno. Óbvio que ele precisou de ‘panos de fundo’ para ambientar sua criatividade, pois a forte carga de hipocrisia contida em muitos personagens é a mesma em pleno século XXI. E permanece obviamente em muitos religiosos, com exceções, independente de igrejas.
O paraibano radicado há décadas no Pernambuco é autor de ensaios, crônicas, artigos, romances, peças de teatro além de ter criado o “Movimento Armorial”, cuja proposta é interessantíssima. Em vida publicou 16 livros.
Alguns o criticam pelo fato de ele ser conservador e tradicionalista no que se refere às manifestações folclóricas e a Música Popular Brasileira. Não o vejo assim. É certo que vivemos num mundo globalizado e com influências instantâneas em tudo (moda, música, dança, linguagem, gestos etc), mas enquanto os demais países vivenciam tudo isso e preservam a sua própria cultura, nós, brasileiros, esquecemos da nossa, vivenciando apenas a cultura dos outros.
Tem muita gente que torce o nariz quando se fala de “Boi-de-Reis”, “Pastoril”, “Bambelô”, “Congada”, “Boi-de-Mamão”, Agnaldo Rayol, Maria Betânia, Caetano Velozo, Núbia Lafaiette, Nelson Gonçalves, Maysa etc etc etc. Ele nos levou a pensar que boa parte dos jovens brasileiros tem vergonha da sua brasilidade. O que não é novidade, mas quando um homem da sua dimensão atinge as massas e os ambientes mais acadêmicos com tal discurso, é ótimo. Grosso modo, era simplesmente isso o que Ariano Suassuna criticava de forma ácida.
Sobre boa parte do repertório da MPB (clássicos, bregas etc) ele não poupava ironias, levando as plateias ao delírio com colocações fantásticas, tipo “é uma esculhambação da mulesta”. Se ele dava uma exagerada em algumas opiniões sobre x ou y, é digno que o tenhamos relevado mediante tudo o que ele foi.
Até parece que ele queria que tudo tivesse parado no tempo, mas engana-se quem assim pensa. Ariano Suassuna criticava o fato de o Brasil negar a sua raiz e enaltecer o que veio de fora. Ele entendia que o Brasil deve valorizar o que veio de fora desde que tenha qualidade, mas sem que a “internacionalidade” sobrepuje a “brasilidade”. Esta deve estar em primeiro lugar.
Ariano Suassuna detonava o lixo colocado onde quer que seja. Ele fazia reflexões sérias e importantes sobre a linguagem chula, vulgar, pornográfica e sem nexo que chega ao povo através de diversas manifestações artísticas, alienando as pessoas ao invés de despertar nelas o espírito crítico. Ele dizia que “lixo não é arte”, “lixo não é música”, “lixo não é cultura”. Na concepção dele o “velho” deve caminhar junto com o “novo”, desde que esse “novo” seja algo que possa somar positivamente, e não enaltecer o lixo. O “velho” pode até sofrer mudanças, mas do tipo que você lerá abaixo.
Não há como evoluir sem sofrer mudanças - nem mesmo a arte - mas que as mudanças não interfiram na essência, nem agridam a estética. Era mais ou menos assim que ele pensava. E que boa parte de nós pensamos.
Dia desses eu conversava com uma pessoa sobre uma manifestação rara, ainda em voga em São José de Mipibu, chamada “Pau Furado”. No passado os brincantes se serviam de toras de uma madeira hoje em extinção, a qual era ‘ocada’. Essa peça fazia as vezes de um atabaque para batucar as canções. A pele era de raposa ou algo assim. A todo instante os dançantes esquentavam a pele de tal instrumento numa fogueira que faziam ao redor. Desse modo o som ficava mais audível.
Hoje, eles usam instrumentos musicais modernos, e nas raras vezes que fazem fogueiras, adquirem gravetos de mangueiras ou árvores frutíferas velhas, pois não se pode destruir as matas para fazer zabumbas ou fogueiras. E assim vai. Porém, a essência não morre, que são as canções, o bailado, a indumentária, a mesma alegria contagiante de séculos passados.
Ariano criticava a acanhada falta de políticas públicas em prol da cultura, principalmente em governos anteriores, a ausência de uma reeducação para a tal brasilidade a partir dos primeiros anos escolares etc.
Tenha certeza que esse genial intelectual era um dos pilares da nossa cultura, da nossa história, da nossa literatura, da nossa brasilidade.
Torço para que com a sua morte não se definhe o patrimônio que ele tanto defendeu, e que, com certeza, deve estar dentro de cada um de nós, aliás, ele próprio era um patrimônio monumental. LUIS CARLOS FREIRE.