ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Timbó: cheiros, cores, flores e venenos...

ÍNDIOS PESCANDO COM TIMBÓ MA AMAZÔNIA
TIMBÓ

Este breve estudo, escrito entre 1994-1995, é dedicado a dona "Nô" Bezerra (in memorian), a grande dama do Timbó, cuja memória está personificada na plasticidade desse bucólico lugarejo, sob as mais variadas nuanças. A dona "Nô", o meu carinho e meu respeito. 

Sempre achei curiosa a maneira como a História informa como os índios pescavam na velha Papari. O uso do timbó para tinguijar a água despertava-me o incessante interesse em saber que planta era essa. Em 1993 estive no Timbó pela primeira vez e fui recebido por dona Duó (in memorian). Mas, apesar de sua gentileza, ela nada sabia sobre a planta, inclusive me levou a um lugar e mostrou um exemplar. A ela o meu agradecimento.

Agradeço a João, irmão de Neves (in memorian), exímio "mateiro", profundo conhecedor da botânica local; o qual esmiúça a vegetação nisiaflorestense e as propriedades de cada espécie, com surpreendente sabedoria. Homem extraordinário, cujos ensinamentos me foram preciosos. 

Nomes populares como "timbó-bravo", "mata-porco" e "cipó-de-sapo", dentre outros, saídos do seu vasto conhecimento empírico, permitiu-me encontrar uma enormidade de espécies, conforme poderão ser vista abaixo. Os nomes a seguir foram pesquisados nas mais diversas biografias sobre árvores brasileiras. 
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Timbó de mata, timbó-rana (Derriselliptica) Heizer, 1986 (um dos inúmeros tipos do Timbó

Normalmente nos referimos aos povos indígenas como se eles não existissem mais. Sempre usamos os verbos no passado: eles tinguijavam as águas, eles fabricavam cerâmica; eles preparavam cauim etc. Mas não é bem assim. Os índios estão vivos em muitos lugares e ainda continuam pescando da mesma forma que faziam na antiga lagoa Papari, chamada por eles, naquela ápoca, de "Paraguaçu", que significa rio grande.

Infelizmente, em nossa região não há mais índios, exceto na cor da pele, nos oblíquo dos olhos de muitos nativos, enfim na fisionomia e em alguns usos e costumes. Em termos de Rio Grande do Norte, sabemos que existem os índios potiguaras na Baia da Traição, mas isso é assunto para outra hora.

ÍNDIOS TINGUIJANDO AS ÁGUAS DE UM RIO COM RAÍZES DE TIMBÓ

No estado do Amazonas os índios ainda usam o timbó para pescar, inclusive há estudos contra essa prática, considerada pela legislação como criminosa. Até mesmo índios mais conscientes são contra o uso do timbó, pois, segundo eles mesmos, a substância mata diversos animais aquáticos menores, além de fazerem mal à saúde dos próprios índios. Em contrapartida, há índios que defendem o uso do timbó na pesca.

Controvérsias a parte, timbó é um nome usado para designar a ampla variação das plantas da família das leguminosas e das sapindáceas. Em 1560 Jan Cart fez o primeiro registro sobre esse vegetal muito interessante da nossa flora. "Tim'bó" é uma palavra indígena, cujo significado em português é "mata". Também já foi escrita como "tîbo". Sua casca ou raízes são usadas para "tinguijar", pois sua seiva é tóxica para peixe, por isso usada para pescar. Dessa planta tira-se o alcalóide denominado "timboína" .

FLOR DO "CIPÓ-TIMBÓ"

Timbó é nome de cidade no Amazonas. Em Santa Catarina há o município de Timbó Grande, e no Pará, a cidade de Timboteua.
Em alguns lugares no estado de São Paulo é denominada "erva-de-rato". E por tal motivo usam em sentido figurado para se referir a situações de lassidão, moleza, entorpecimento dos membros. Há íncontáveis nomes dados ao timbó, pois é uma planta muito comum no Brasil e em outros países inclusive existe em forma de arbustos, árvores muito altas, árvores pequenas e ervas rasteiras. Algumas dão flores de variados tamanhos, formatos e cores.

AS PALAVRAS ACIMA SÃO DO ÍNDIO  IVONIO SOLON WAPICHANA, DA ETNIA WAPICHANA (RORAIMA).

Há um tipo, denominado "timbó-urucu" de compleição escandente (lanchocarpus nicou), das Guianas, de folhas com folíolos rígidos e coriáceos quando adultos, flores rubro-violáceas e vagens glabras e compridas Suas raízes são usadas para tinguijar e encerram a rotetona, empregada como inseticida. Rotenona é uma substância encontrada em plantas do gênero Lanchocarpus da família das leguminosas; cuja substância extraída de suas raízes entorpecem peixes, insetos. Também é usado como pesticida e especialmente na veterinária como ectoparasiticida e acaricida para felinos.



Existem estudos científicos em andamento que apontam que o "timbó-urucu" causa o "mal de Parkinson". Da mesma forma aqueles que tem os nomes: barcasco, cururuapé, nicou, timbó-macaquinho, timbó-vermelho, timbó-açu, timbó-carajuru, timbó-grande, timbó-vermelho; cipó (Lanchocarpus urucu). Esses são nativos do Amazonas; têm flores em espigas purpurinas e raízes avermelhadas.

Alguns estados denominam "entroviscar" o processo de entorpecer os peixes. A palavra é derivada de "trovisco" ( Daphane gnidium) da família das timeleáceas.

A ação de entorpecer os peixes ocorre de acordo com a substância desprendida pelo tipo da planta. Algumas soltam sumo, outros latex e outras uma espécie de leite. São reproduzidas de diversas formas, seja através do galho, sementes caídas da flores ou dos próprios frutos. Há tipos cuja madeira é tão resistente que são aplicados até na carpintaria.

Essas leituras me permitiram constatar que, além da infinidade de tipos dessa planta, há cheiros, flores, sumos, óleos, latex e leites diferentes. A própria planta possui uma compleição variada, que vai de uma frondosa árvores de 35 metros - inclusive algumas são cobiçadas por marceneiros - a um pequeno arbusto ou um pezinho acanhado de erva. Veja o exemplo abaixo e conheça suas diversas denominações de acordo com outros estados brasileiros. Creio que o leitor, igual a mim, se surpreenderá:

1) "piscídia erytrina" da subfamília das papilionoídeas, nativa da Martinica; possui flores brancas com pintas purpúreas e vagens lineares;

2) cipó timbó;

3) timbé (Ateléia glazioveana);

4) mata-porco (talísea stricta);

5) cipó-de-sapo (Araujia sericefera);

6) ginjeira-da-terra (Prunus sphaerocarpa); RS;

7) erva-de-rato-verdadeira (Psichotria marcgravii);

8) timbó-açu (Magônia pubscens) nativa do Brasil (Piauí, Ceará, Minas Gerais, Mato Grosso e Goiá) de casca lisa, folhas compostas, folhas muito fragrantes, frutos capsulares e sementes oleoginosas; assa-peixe, tangui, tingui, tingui-capeta (os frutos são usados como sabão, o mel de seu pólem é venenoso, as folhas são usadas para tinguijar), timbó da mata (Derrys guijanensis); timbó urucu ( lanchocarpus urucu);

9) timbó amarelo: cipó-timbó

10) timbó-boticário: timbó-do-campo (Tphrosia brevipes);

11) timbó-bravo: cipó-de-timbó (Serjania erecta);

12) timbó-caa: ajaré (Tephrosia nitens);

13) timbó-carajurú: timbó-urucu (Lanchocarpus urucu)

14) timbó-catinga: arbusto escandente (Lanchocarpus floribundus) subfamília papilionoídea, de folhas geralmente com sete folíolos ovadoblongos, acuminados e coriáceos, e flores violáceas; timborana, timbó-taturuaia, timbó-venenosos, timbó-vermelho (nativo da Amazônia, onde é cultivado e usado para tinguijar)

15) timbó-cipó: cururuapé (Paullinia Pinnata)

16) timbó da mata: trepadeira (Derris guianensis) nativa das Guianas e Amazônia, de flores brancas ou amareladas; timbó-açu, timbó-borana; fava-de-rosca (Enterolobiun Schomburgkii); barbatimão (Stryphnodendron guianense)

17) timbó-de-caiena (Tephrosia toxicaria), nativa da Amazônia, de flores amareladas com base rocha, em racemos, vargem curva com sementes venenosas, usada para tinguijar; anil branco, arnica-brava, tingui-de-caiena.

18) timbó-do-campo: arbusto (Tephrosia brevipes) nativo do Brasil, de ramos decumbentes, caule tomentoso, folíolos seríceos, flores axilares amarelo-escuras, timbó-boticário, cipó d'água (Sejania caracasana);

19) timbó-do-Rio-de-Janeiro: erva perene (Physalis heterophylla) da família das salonáceas, nativa da América do Norte, de folhas cordadas, flores maculadas e frutos ovais; é planta ictiológica; balãozinho, bate-testa;

20) timbó-grande: timbó-urucu (Lanchocarpus urucu);

21) timbó-macaquinho: timbó-urucu (Lanchocarpus nicou);

22) timbo-manso: dragão fedorento (Monstera Pertusa);

23) timbó-mirim: anileira (Indigofera lespezoides) 2 anileira verdadeira (Indigofera anil);

24) timbó-pau: árvore (Clathrotropis macrocarpa) nativa da Amazônia, de flores róseo-violáceas e vagens aésseis, revestidas de pelos curtos, cabari, timborana;

25) Timborana: arbusto ou árvore pequena (Lanchocarpus discolo) que ocorre no Brasi, de flores amarelas, róseas ou vermelho-escuras e vagens pubérulas; liana (Lanchocarpus negrensis) nativa das Guianas e Amazônia, de flores róseas e oblongas árvore (Machaeriun macrophyllum) Amazônia, com madeira usada para carpintaria e flores panículas;

26) timbó-pau (Clathrotropis macrocarpa); timbó-da-mata, timbó catinga (Lanchocarpus floribundus), subfamília mimosóidea; fava-de-rosca (Enterolobiun schomburgkii); barbatimão (Striphnodendron guianense);

27) timbó-taturaia: timbó-catinga (Lanchocarpus floribundus);

28) timbó-urucu; arbusto escandente (lanchocarpus nicou), das Guianas, de folhas com folíolos rígidos e coriáceos quando adultos, flores rubro-violáceas e vagens glabras e compridas, cujas raízes são usadas para tinguijar e encerram a rotetona, empregada como inseticida; barcasco, cururuapé, nicou, timbó-macaquinho, timbó-vermelho; cipó (Lanchocarpus urucu) da mesma família, nativo do Amazonas, de flores em espigas purpurinas e raízes avermelhadas que encerram a rotetona e outros princípios venenosos em ação inseticida; barbasco, timbó-açu, timbó-carajuru, timbó-grande, timbó-vermelho;

29) timboúva: árvore que atinge até 35 m (Enterolobiun timboúva); esse tipo é comum da Bahia ao Rio Grande do Sul; folhas bipenadas, flores em forma de uma orelha humana; as cascas e folhas são ictiotóxicas (sin. fava-de-vaca, jacaré, orelha-de-negro, orelha-de-preto, pau-de-sabão, sobreiro, tambor, tamboril, tambori, tamboriúva, tamburé, timbaúba, timbauva, timbuva, ximbó, ximbiúva, ximbúval); árvore pequena (Quellaja brasiliensis) família das rosáceas, nativa do Brasil, vai de São Paulo ao Rio Grande do Sul; possui folhas lanceoladas, flores em corimbos axilares, madeira útil para construção civil e casca adstringente, pau-de-sabão; árvore de até 9 m (Quillaja saponaria), da mesma família nativa da América do Sul, de folhas alternas e coriáceas, flores e alvas em corimbos e frutos compostos que contém saponina e produzem espuma abundante, casca do panamá; tupi: "timbo iwa" (árvore da espuma);

30) timbo-venenoso: timbó-catinga (Lanchocarpus Floribundus); timbó-vermelho: timbó-urucu (Lanchocarpus urucu, Lanchocarpus nicou); timbó-catinga (Lanchocarpus Floribundus);

31) timbozinho: timbó-pequeno; anileira (Indigofera lespedezóides);

32) Timbó-açu (Magonia pubescens)

33). timbó-de-Caiena (Tephrosia toxicária) Tinguy (1663); ingui-da-praia (Jacquinia arborea);

34) Euphórdia: é venenosa (latex)

35) Pixuá (Euphorbia perplus, Euphorbia chacarias)

36) Mata-porco (Talisia stricta)

37) Cipo-de-sapo (Araujia sericefera)

38) Vassourinha (Buddleia brachiata)

saponina (sapindus marginatus)

39) barbatimão: árvore pequena (S. Guianense) fava-de-paca, faveira, pachaco, timbaúba timbó-da-mata, timborana;

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AO REVISAR ESSE VELHO TEXTO, ENCONTREI A REPORTAGEM ABAIXO, RECENTE, E ACHEI IMPORTANTE INCLUÍ-LA AQUI.

26/07/2014 13h30 - Atualizado em 26/07/2014 13h32

Planta tóxica pode ter matado 10 toneladas de peixes em rio no AC

Moradores denunciaram caso ao Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac).
'É daqui que tiramos a nossa comida', lamenta morador.

Água contaminada por 'timbó' pode ter causado morte dos peixes (Foto: Vanísia Nery/G1)
Uma planta tóxica, conhecida por 'timbó', pode ter causado a morte de ao menos dez toneladas de peixes, no Rio Campinas, em Cruzeiro do Sul (AC). O caso está sendo investigado pelo Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), após denúncia feita pela comunidade ribeirinha, na quinta-feira (24). Entre as espécies estão mandi, surubim, piau e bodó. A área contaminada chega a uma extensão de  aproximadamente 7 quilômetros.

Mais de 150 famílias de cinco comunidades diferentes residem ao longo do Rio Campinas, e dependem da pesca para sobrevivência, além de utilizarem também a água do rio para beber, tomar banho e nos afazeres domésticos. A situação preocupa os moradores.

“Esse rio é como se fosse nosso açougue, é daqui que tiramos a nossa comida. Nem as escolas não podem mais fazer merenda para as crianças porque toda água está contaminada dos peixes que estão podres no rio. O cheiro é muito forte”, lamentou o morador da localidade Raimundo Nonato Rodrigues da Silva, de 59 anos.

O sentimento é compartilhado pelo morador Luciano Silva Cunha, de 25 anos. “Uma situação como essa a gente só pensa na saúde dos nossos filhos e da nossa família. Aqui quando falta uma comida é só ir até o rio e pescar. Agora não sei como vai ser com o peixe todo morrendo”, diz.

De acordo com os moradores, a prática de esmagar e mergulhar a planta na água para matar os peixes é normalmente utilizada pelos índios da região, para facilitar a pesca. No entanto, a comunidade suspeita que, desta vez, exista o envolvimento de pessoas de outras comunidades no crime. 

Uma equipe do Imac foi na quinta-feira (24) até a comunidade, onde constatou a veracidade da denúncia. O gerente do órgão, em Cruzeiro do Sul, Isaac Ibernon, estima que o rio possa levar mais de 10 anos para se recuperar do dano.

“Esse veneno mata todos os peixes, do grande ao pequeno, são poucos que sobrevivem, normalmente os que estão acima do lugar do envenenamento. São mais de 10 anos para o rio se recuperar e voltar a ser uma fonte de alimentação. Só o tempo e a natureza para recuperar esse dano”, afirma.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

LIVRO: "ANTIGOS CARNAVAIS DA CIDADE DO NATAL" - DE GUTEMBERG COSTA

Reli, ontem, o livro do meu amigo e confrade Gutemberg Costa, da Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore. "ANTIGOS CARNAVAIS DA CIDADE DO NATAL -  VOLUME I  Eu havia feito a revisão do livro, mas quando você executa essa tarefa, nunca é igual a lê-lo com envolvimento na história, na qual se sente partícipe, além de descobrir e admirar as informações que lhe são inéditas.
É simplesmente uma riqueza, e pelo que sei sobre o Carnaval do Rio Grande do Norte, Gutemberg traz muitas informações inéditas. A obra é rica em ilustrações, pois ele compilou material reunido ao longo de muito tempo. É uma viagem dentro da história da folia momesca potiguar. 
Pela informação da capa "volume I - 1875/1945" fica no ar a ideia que vem outro por aí . Com certeza completamente inédito, pois muita coisa aconteceu após 1949. Parabéns, Gutemberg!

OBS. O livro encontra-se à venda nas bancas de Natal e em algumas livrarias.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A CUNHADA DO DR. ANTONIO DE SOUSA (POLICARPO FEITOSA)


Dona Maria das Dores Monteiro de Sousa

Depois de ter procurado - em vão - familiares do intelectual nisiaflorestense Dr. Antonio José de Melo e Sousa (1867-1955), ex-governador do Estado e exímio escritor, cuja história estudo há mais de 15 anos, eis que os bons ventos me enviam uma cunhada dessa insigne figura potiguar, sem que eu estivesse naquele momento imaginando. Foi o "por acaso" mais interessante da minha vida. Na realidade, quem a descobriu foi minha esposa, ao comentar com a referida senhora que eu estudava a obra do citado personagem.

Talvez o leitor pergunte “como pode estar viva a cunhada de um homem nascido há mais de cem anos? Se ele nasceu em 1867 e faleceu em 1955, há mais de meio século, quantos anos tem essa mulher?”. Mas não são apenas os mistérios da longevidade que explicam. Maria de Sousa nasceu 52 anos depois do cunhado famoso.

Descobrir d. Maria das Dores Monteiro de Sousa permitiu-me construir mais uma página inédita da história do Rio Grande do Norte, pois se trata da única cunhada viva de um dos mais intrigantes políticos da história potiguar. Tive a sorte de encontrar fotografias e até mesmo alguns pertences do mesmo.

O EX-GOVERNADOR E ESCRITOR ANTONIO JOSÉ DE MELO E SOUSA AO LADO DA MÃE, MARIA EMÍLIA  SEABRA DE MELO - OS LIVROS E A MÃE ERAM SUAS GRANDES PAIXÕES - FOTOGRAFIA FEITA NA SALA DA CASA GRANDE NO VALE DO CAPIÓ, NOS TEMPOS DE PAPARI.

Dona Maria das Dores Monteiro de Sousa nasceu em Macau no dia 29 de janeiro de 1929, contando atualmente com 88 anos. É admirável a lucidez e a destreza física dessa senhora, cuja idade não a fez arquejar em nenhum aspecto. É católica praticante, extrovertida. Tem uma tonalidade de voz alta, forte, fazendo jus ao jeito brincalhão e extrovertido do povo nordestino.

Sua história é exatamente assim... Em 1943 apareceu em Macau o marinheiro baiano Durval Alves Vieira. Ambos se apaixonaram e se casaram no ano seguinte. Ele com 23 anos. Ela com 15. Naquela época as pessoas casavam cedo exatamente como acontece hoje, mas os consorciados tinham responsabilidades incomparáveis às atuais. Os casamentos duravam a vida inteira, mesmo havendo incompatibilidade de gênios, pois separação tinha ares de crime; a mulher saia sempre como “indecorosa”. Mas não foi o caso dela, que alega ter sido muito feliz enquanto o casamento existiu.

Em 1947 nasceu a primeira e única filha Djanira Alves Vieira, que viria a falecer em São Paulo em 1994, aos 47 anos. Logo após o nascimento de Djanira, eles foram morar no bairro Baixa do Sapateiro, na Bahia. Os familiares do marido eram adeptos ao Candomblé, sendo a maioria mãe e pai de santos. Católica fervorosa, estranhou profundamente os rituais que via no terreiro dos familiares do marido, afinal, se ainda hoje existe tanto preconceito contra essa bela religião, imagine há quase setenta anos.

Naquele estado eles permaneceram por quatro anos. Em 1950 Durval morreu em decorrência de um acidente em alto mar, deixando-a viúva aos 19 anos. Ela disse-me que “foi como perder o chão... fiquei se desnorteada... não sabia o que fazer...”. Os hábitos eram rigorosos e ela “guardou o luto” por três anos, usando apenas a cor preta e freqüentando regularmente as missas, sempre de véu negro. Desse modo, retornou a Natal. Com o passar do tempo foi se acostumando com a dor da perda e levando a vida com certa naturalidade, mas não pensava mais em se casar.

Naquela época o Carnaval ocorria exclusivamente em ambientes fechados, sendo o Teatro Carlos Gomes, depois mudado o nome para Alberto Maranhão o “point” da alta sociedade – com aura puramente familiar – com direito a “Rei-Momo”, “Arlequim”, “Colombina”, Pierrot”, muita “purpurina”, “confetes”, serpentina” e concurso de fantasias. Foi num desses bailes carnavalescos que ela conheceu Augusto César de Melo e Sousa, nascido em 1914, funcionário aposentado da Secretaria da Fazenda, irmão do ex-governador Dr. Antonio José de Melo e Sousa. Ela conta que estava acompanhada dos irmãos, pois naquela época "moça que ia desacompanhada aos lugares, mesmo familiares, não era bem vista". 

Augusto César, segundo contou-me, era muito simpático e não tirava os olhos por onde quer que ele fosse. Num dado momento ele se aproximou e perguntou se podia acompanhá-los naquela roda de conversa, sendo bem acolhido pelos irmãos dela. E logo começaram a conversar. "Ele fez muitas perguntas sobre mim, e eu sobre ele, pois percebi que estava interessado... e eu também tava", complementou, rindo.

Esse encontro ocorreu no dia 6 de fevereiro de 1955, justamente no ano em que o ex-governador havia falecido em Recife. Como se percebe, ela não conheceu o cunhado famoso, e sim a sua história. 

Augusto César falou muito sobre o irmão, admirado por toda a família. Explicou que Antonio de Sousa era muito centrado, culto, reservado, poliglota, não dado a conversas desnecessárias e seu hábito era a biblioteca ampla que conservava na sua "Quinta dos Cajuais", um amplo terreno que possuía no Tirol, centro de Natal. 

"Uinta dos Cajuais" (Granja do Dr. Antônio de Souza no Tirol).

Disse que em Papari ele possuiu uma vasta biblioteca no casarão do Vale do Capió, próximo do Engenho Pavilhão. Essa outra propriedade pertencia a Joaquim Januário de Carvalho, conforme confirmei pessoalmente com o Sr. Isac Newton de Carvalho (9.10.1940), filho de Lourival de Carvalho (1913 - in memorian), neto de Joaquim.

Maria Alice de Melo e Sousa (a direita) e Maria Isabel de Melo e Sousa (a esquerda), irmãs do Dr. Antônio de Sousa - fotografia feita no "Vale do Capió", nos tempos de Papari.


Nessa época os únicos irmãos vivos do ex-governador eram Augusto e Anísio de Melo e Sousa, que residiam próximos a ele. Dona Maria, viúvo, contava com 24 anos, e Augusto, também viúvo, tinha 40 anos e trazia 8 filhos. Era dezesseis anos mais velho que ela. A paixão foi imediata. Seis meses depois ambos foram “viver juntos”. 

Logo após a união nasceram os dois primeiros filhos do casal: Carlos Gutemberg (1955) e Ticiano (1955), mas morreram logo após o nascimento. O casamento no civil deu-se em 1955, no final do ano. Nesse mesmo ano eles foram morar na Fazenda Pajeú, em Barcelona, propriedade do irmão de Augusto, Sr. Anísio de Melo e Sousa. Nessa fazenda nasceu os filhos Margarida (1956), Ticiana (1957), Teresa Cristina (1958), Cirano (1959). 

Quando ela me falou sobre essa fazenda lembrei-me de uma das mais belas obras do Dr. Antonio de Sousa, denominada Gizinha”, na qual ela usa o pseudônimo de Policarpo Feitosa. A obra tem episódios vividos num sítio em Lajes. A obra é desconhecida em Nísia Floresta, mas há várias universidades de São Paulo e RS que a estudam, inclusive o intelectual Dr. Gemeinder o classifica como um dos escritores que produziu uma das mais importantes obras da literatura brasileira (nesse mesmo blog o leitor encontrará alguns textos que escrevi sobre ele e sua obra).


Em 5 de setembro de 1965 o casal retornou a Natal, e foram morar próximos à casa onde morava o irmão Anísio de Melo e Sousa, aposentado pela Secretaria Estadual de Saúde. Nos anos seguintes nasceriam, Marcílio (1960), Maria Luísa (1962), Maria Augusta (1963) e Normando (1966), somando-se 10 filhos. No total, Augusto teve 16 filhos, somando-se com os do primeiro casamento. Maria totalizou 11 filhos, da mesma forma.

Cinco anos depois de terem retornado a Natal, Augusto César morreu repentinamente no dia 18 de maio de 1970, aos 81 anos, em decorrência de complicações cardiovasculares. Maria de Sousa novamente ficou viúva aos 39 anos, numa convivência de 15 anos. Dentre todos os irmãos do ex-governador Dr. Antonio de Melo e Sousa, restou apenas Anísio, o qual faleceu três anos depois, em 1973. Foi o último de todos os irmãos a morrer. Teve 5 filhos (Mara, Marcos, Meire, Marcio e Mateus). Apenas dois deles moraram em Natal. Os demais viviam no Rio de Janeiro e lá morreram. Dentre os nove filhos vivos, dona Maria de Sousa mora com a única filha solteira, Ticiana e o neto Felipe, de 27 anos. Embora tendo ficado viúva em plena mocidade, nunca mais quis se casar. "Tá bom... já casei duas vezes, pra quê viver se casando?", disse, soltando gargalhadas,

AUGUSTO CÉSAR DE MELO E SOUZA, IRMÃO DO DR. ANTÔNIO DE SOUZA


Após ter o prazer de conhecer essa adorável senhora e sua filha, foi em sua casa que me deparei com um baú de histórias, fotografias inéditas e até mesmo objetos que pertenceram à família do Dr. Antonio de Sousa. Eu sempre quis saber o local onde ele havia sido velado, queria ter certeza da informação contida no livro "Menina Feia e Amarelinha", de Chicuta Nolasco Fernandes. A dúvida foi sanada quando D. Maria confirmou que o corpo do ex-governador realmente ficou na Associação dos Escoteiros, no bairro do Alecrim e está sepultado no cemitério do mesmo bairro. Falta apenas localizar o túmulo.


Documento raro que me foi presenteado pelo intelectual paulista, Dr. Erich Gemeider, em 1999.  É um discurso proferido por Antonio de Sousa para os formandos da Escola Normal de Mossoró, há exatos 92 anos. É belísimo. Somente uma mente tão brilhante seria capaz de reflexões tão atuais. Qualquer dia o transcreverei para postá-lo.

Sabe-se que a única fotografia do Dr. Antonio de Sousa é a que está exposta no Palácio do Governo e nos livros de história do Rio grande do Norte. Hoje, como quem entrou numa câmara egípcia e encontrou um tesouro, dou-me com fotografias e objetos guardados durante 60 anos. São fotografias do referido intelectual, da sua mãe, d. Maria Emília Seabra de Melo e Souza, seu irmão Augusto César, suas irmãs Maria Alice e Maria Isabel, conforme estão postadas neste texto.


Esse é o pequeno relato de uma página importante da história do Rio Grande do Norte. Quando sei que os objetos pessoais que pertenceram ao Dr. Antonio de Sousa fizeram parte dos famosos bailes ocorridos na casa grande no Vale do Capió, em Papari, conforme li em velhos documentos, confesso que sinto-me diante de um achado. Foi uma das maiores surpresas que já tive nesse universo de pesquisa. Experiência incomparável.


Talvez alguns não compreendam a razão desse alumbramento. Só quem sabe são os apaixonados por História e Memória. É sensação similar ao arqueólogo que vê diante de si o “Eldorado’ou a fantástica Atlântida tão procurada por Fawcet. Percebi que a poeira do tempo por pouco sepultou e impediu que fosse registrado, ‘scaneado’ e fotografado esse material que hoje é oferecido – em primeira mão – a você, leitor nisiaflorestense.

OBS. Nos próximos dias estarei postando aqui fotos desse pequeno acervo e outras informações anotadas e gravadas, pois só consegui registrar fotografias dela, pois a máquina descarregou no dia que a visitei.


domingo, 6 de novembro de 2016

BOA SORTE FÍDIAS... AGORA É CORRER ATRÁS DO PRÓXIMO PASSO... VOCÊ É CAPAZ!






SUGESTÃO ÀS ARQUIDIOCESES BRASILEIRAS PARA EVITAR A DESCARACTERIZAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO SACRO DO PAÍS

Padre Leandro, reitor do Santuário de Santo Antonio, em Goiás, mostra ponto onde escorreu água na pintura.

Diante da dilapidação e descaracterização de parte considerável das igrejas antigas brasileiras - fruto da falta de conhecimento sobre História da Arte, Arquitetura Antiga, enfim todo esse contexto sacro antigo (inclusive restaurações) faz-se necessário às autoridades eclesiásticas incluírem nos Seminários católicos disciplinas que abordem tais assuntos. Os futuros padres devem assumir as paróquias cientes do que vão encontrar ali, inclusive conhecedores das leis sobre Patrimônio Histórico Sacro. Faz-se necessária uma formação específica, afinal o lugar onde eles celebram é santo e pertence a todos. As gerações futuras precisam ter a garantia de que conhecerão tudo isso com a sua devida originalidade. E esse compromisso e responsabilidade pertence a nós.
Tenho certeza absoluta que se existisse essa formação, os próprios padres não estariam destruindo tanta coisa que jamais será trazida de volta. É óbvio que existe meia dúzia de sacerdotes que, por si próprios, buscam tais conhecimentos, mas, em contrapartida, a maioria entende que pode retirar um pedaço de mogno e jacarandá de alguma parte da igreja e jogar no lixo. Até mesmo esses restos precisam ser reaproveitados com outras finalidades. Quem lucra com isso são os donos das lojas de móveis de restos de demolições.
Sobre isso, cito um caso ocorrido na Igreja Matriz de Nísia Floresta, onde um padre mandou construir um nicho da parede da igreja matriz iniciada em 1735 e as pedras ficaram ao léu - pasmem - pedras de mais de trezentos anos. 
Em primeiro lugar jamais ele poderia ter descaracterizado a Igreja Matriz, cuja tentativa de construir outro nicho só foi abortada porque eu denunciei (do contrário outro crime teria sido cometido e hoje teríamos dois toscos elementos descaracterizando ainda mais a matriz. Várias pessoas correram para me avisar e imediatamente tomei as providências. Esse elemento, inclusive, deveria ser demolido e as pedras recolocadas no lugar. Se se quer exibir imagens de maneira protegida, faz-se um nicho de madeira de lei e o coloca no lugar. Mas como peça independente, sem danificar a arquitetura original.
Dia desses um amigo perguntou porque eu não procurava as autoridades da Matriz de Nossa Senhora do Ó para dar sugestões etc. Eu disse a ele que era a mesma coisa que eu procurar um professor e ensiná-lo a ensinar A-E-I-O-U às criancinhas. É inadmissível desconhecer um assunto que é obrigação. A televisão, os jornais, os livros, as redes sociais trazem matérias constantemente sobre isso. Até um bebê sabe disso, embora nem sempre é desconhecimento, e sim, truculência mesmo.
Todos os padres deveriam entender que a Missa é como o chão da Sarça Ardente. “Tire as sandálias, pois aqui é solo santo”, (Êxodo 3,5). A Missa é santa, por isso não admite enfeite. Ela não é uma árvore de natal, nem um bolo de aniversário. O Papa Bento XVI foi um dos grandes defensores dessa ideia, insistindo muito no zelo pela liturgia.
A Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó está pronta. Daqui para frente o único dever dos administradores é zelar, manter e restaurar (quando necessário), mas dentro da proposta original. As escolas tem papel fundamental nesse sentido, orientando os alunos a partir dos anos iniciais. Ao final do Ensino Fundamental as instituições de ensino devem ter como obrigação ter levado todos os alunos às igrejas antigas, construído conhecimentos pertinentes. Professores e pessoas versados no assunto tem papel fundamental na construção dessa reeducação. Do contrário o povo achará lindo pintar com tinta a óleo uma imagem do século XVI, ou consertar com esmalte de unha um detalhe do olho, ou quem sabe colocar um brinco comprado na feira e colocá-lo na orelha da Santa do século XVIII para ver se fica "engraçadinha"...

Justiça condena padre por destruição de piso de igreja tombada de Divino


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PATRIMÔNIO HISTÓRICO E CULTURAL
Justiça condena padre por destruição de piso de igreja tombada de Divino
05/11/2016 14h00
O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) condenou um pároco de Divino, município da Zona da Mata, pela retirada do piso hidráulico da Igreja Matriz do Divino Espírito Santo. Além do padre, a Paróquia Divino Espírito Santo e a Mitra Diocesana de Caratinga foram sentenciados e terão de pagar R$ 34 mil por danos morais coletivos. E para reparar o dano, eles terão ainda de contratar, em até 90 dias, projeto de restauração do piso. Depois de aprovado pelo Conselho Municipal de Defesa do Patrimônio Cultural de Divino (CMDPCD), as obras de recuperação deverão ficar prontas em 120 dias sob pena de multa diária de R$ 500.

O TJMG foi acionado pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) após a Justiça de primeira instância ter negado punição aos envolvidos no caso que ocorreu em 21 de fevereiro de 2011, pouco mais de um mês após o padre ter sido comunicado pelo CMDPCD sobre a aprovação do tombamento provisório do bem histórico do município. Na data em questão, moradores próximos da igreja informaram ao conselho que o pároco determinou a destruição do piso antigo do templo. A retirada teria começado às 4 horas da madrugada e, às 7 horas da manhã, todo o piso já estaria removido.

A Igreja Matriz de Divino é uma obra em estilo neogótico, inaugurada em 1944 no local onde havia uma capela erguida por desbravadores que iniciaram o povoamento da região, em 1833. Além de possuir 22 vitrais “de excelente qualidade técnica”, a igreja forma um conjunto paisagístico com a praça Genserico Nunes. Uma escadaria foi construída em 1960 para unir igreja e praça. Para o CMDPCD, o templo possui “imensa” importância para a comunidade local, sendo o maior patrimônio histórico e cultural da cidade.

Na época, a retirada dos pisos hidráulicos teve repercussão em vários veículos de comunicação locais e estaduais. Em uma das matérias, o titulo foi: “Padre e comunidade católica de Divino entram em divergência após decisão de trocar o piso da igreja”. Para os promotores de Justiça Marcos Paulo de Souza Miranda e Jackeliny Ferreira Rangel, autores da Ação Civil Pública (ACP), o templo, além do tombamento, era protegido por meio de inventário, o que, de acordo com a Constituição Federal, é um instrumento de preservação do patrimônio cultural brasileiro.

“O bem inventariado como patrimônio cultural submete-se a medidas restritivas de uso, tornando-se obrigatória a sua preservação e conservação para as presentes e as futuras gerações”, afirmaram os promotores de Justiça. Em outro trecho da ACP, eles afirmam que a conduta do pároco foi ilícita, pois a retirada do piso ocorreu em “ação clandestina, desprovida de qualquer sustentação legal”, cujo efeito foi “a descaracterização do aspecto original da igreja, um tempo com quase sete décadas de existência, protegido por meio de tombamento e de inventário'.
Ministério Público de Minas Gerais

http://www.defatoonline.com.br/noticias/ultimas/05-11-2016/justica-condena-padre-por-destruicao-de-piso-de-igreja-tombada-de-divino
OBSERVAÇÃO DO AUTOR DESTE BLOG: Certa vez um importante arquiteto, especialista em Patrimônio Histórico, disse-me que os grandes descaracterizadores das igrejas históricas são os próprios padres. Ele, inclusive, comentou que isso é inadmissível diante de tantos esclarecimentos sobre legislações pertinentes. O que percebo é que as Arquidioceses têm culpa nisso, pois o assunto deveria ser disciplina nos seminários. 

ESCLARECIMENTO SOBRE COMENTÁRIOS ANÔNIMOS

Assim como o presente blog informa logo acima, não publico comentários anônimos, inclusive eu não escrevo nada anonimamente. Entendo isso como desserviço. Anonimato tem certo sentido quando você testemunha tráfico de droga e outros crimes e liga para a polícia. Os recursos de internet oferecem várias opções (uma delas é "anônimo"), mas isso não significa que a pessoa que faz comentários possa não possa se identificar no corpo do texto que escreve, como sempre faço, inclusive forneço todos os meus dados. Repudio o anonimato. Se estamos falando de assunto sério, por que anonimato? Estou fazendo a presente observação porque recebi um comentário, mas mesmo assim, não publico para não perder o que para mim é fundamental: ASSUMIR O QUE ESCREVE. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Nossa Senhora do Ó diz "ai"!

PENSAR HOJE PARA NÃO SE ARREPENDER AMANHÃ
EM 2014, QUANDO PUBLIQUEI AQUI MESMO UM TEXTO MAIS OU MENOS PARECIDO, ALGUNS DISSERAM QUE NÃO ERA VERDADE  QUE A IGREJA ESTAVA SENDO DESTELHADA COM TODAS AS IMAGENS DENTRO, SOFRENDO RISCOS TOTAIS -  AS FOTOS FALAM POR SI - SE NÃO É O BASTANTE, AMPLIE E OLHE OS NICHOS, VEJA O QUE HÁ DENTRO. OBS. ESSA IMAGEM É DE 2014, QUANDO FOI DESTELHADA A MATRIZ. POSTEI-A COMO COMPROVAÇÃO DE QUE NESSE PERÍODO DESTELHARAM A MATRIZ COM TODO O ACERVO SACRO EM SEU INTERIOR.  
 
Ontem, algumas pessoas me telefonaram para informar-me sobre fatos ocorridos na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, em Nísia Floresta, os quais deixaram-me profundamente abalado. 
Antes, convém dizer que estive na Matriz no dia da eleição e constatei várias descaracterizações em sua "restauração", mas evitei interferir, pois, diante do contexto de dilapidação do patrimônio histórico brasileiro – associado à falta de conhecimento de diversas autoridades à frente dos ditos prédios históricos – somados à inércia do próprio povo (com raras exceções obviamente), pessoas iguais a mim são apedrejadas quando lançam luzes sobre esses imbróglios imperdoáveis. 
Seja como for, ontem não consegui fingir que não sabia. É intolerável. E também não me importo em externar a minha opinião. Não posso me comportar como os hipócritas que, às custas de interesses diferenciados, fazem vistas grossas ou até mesmo endossam tais truculências. Amanhã os meus bisnetos entenderão e agradecerão. Isso, sim, me importa. 
Soube que na missa do domingo passado foi exposto que serão construídos dois nichos na nave lateral para abrigar as imagens dos mártires de Uruaçú e Cunhaú. Mesmo sabendo que é inadmissível essa interferência arquitetônica, qual a relação dos tais mártires com Nísia Floresta?! 
É certo que são figuras históricas e cultuadas, mas não o ponto de se descaracterizar um exemplar raro da arquitetura sacra. Nada contra o culto aos personagens em questão, mas tudo contra o crime de se rasgar as paredes da Matriz para tamanho dano ao patrimônio histórico. 
Basta o nicho tosco que foi anexado às paredes do lado direito – verdadeiro crime à História da arte sacra do Rio Grande do Norte – que pela lógica deveria ser extirpado, inclusive percebo que andam mexendo na Matriz como quem mexe nos paralelepípedos da rua ou nas barracas da feira. Isso é inadmissível e as pessoas precisam se dar conta disso. Chega de inércia. 
Quando o assunto é dano ao patrimônio histórico, tanto faz retirar elementos (surrupiar, quebrar, danificar etc) quanto anexar novos elementos, interferindo na sua arquitetura original. É o caso da ideia absurda desse nicho (inclusive, onde estão as pedras de mais de 300 trezentos anos que retiraram das paredes para dar lugar arremedo de nicho do lado direito?). Espero que Fabiano as tenha guardado. Ou estão servindo de trempes para algum fogareiro? Viraram metralha? Viraram baldrame? Alicerces?
Percebi - pasmem - que mexeram nos dois grandes nichos - o do Bom Jesus dos Martírios e o de Nossa Senhora do Rosário, os quais ficam dispostos diante do altar-mor. Peça de extraordinária beleza e significado.  São exatamente as duas pontas, esculpidas de maneira que se curvava diante do Santíssimo, numa clara deferência. Certamente foi a maneira que os arquitetos e padres da época encontraram para assinalar que ali estava o supra-sumo celestial. Esse material está todo revestido em ouro (saibam os autores desse ato impensado). Teriam guardado os pedaços ou se transformou em lenha?
Confesso que não compreendo como a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, que com certeza tem um Conselho, não há quem busque os caminhos certos – em tempo hábil – para pensar os passos tomados nessa reforma/"restauraçção". Antes, quero ressaltar o meu respeito a todos, afinal nem sei quem são. Mas não há mais como tolerar essa sucessão de vezes que se colocam o carro antes dos bois. Antes de se construir um nicho, deve-se, primeiramente procurar o IPHAN e a Fundação José Augusto. Isso não foi feito em 2005. Quando deram conta o nicho estava sendo concluído. A melhor pessoa nesse caso é o especialista em obras desse tipo, Dr. Paulo Heider. É ele que dará o diagnóstico. O negócio não é FAZER NICHOS, mas SABER SE NICHOS PODEM SER FEITOS.
EM 2014, QUANDO PUBLIQUEI AQUI MESMO UM TEXTO MAIS OU MENOS PARECIDO, ALGUNS DISSERAM QUE NÃO ERA VERDADE  QUE A IGREJA ESTAVA SENDO DESTELHADA COM TODAS AS IMAGENS DENTRO, SOFRENDO RISCOS TOTAIS -  AS FOTOS FALAM POR SI - SE NÃO É O BASTANTE, AMPLIE E OLHE OS NICHOS, VEJA O QUE HÁ DENTRO.. OBS. ESSA IMAGEM É DE 2014, QUANDO FOI DESTELHADA A MATRIZ. POSTEI-A COMO COMPROVAÇÃO DE QUE NESSE PERÍODO DESTELHARAM A MATRIZ COM TODO O ACERVO SACRO EM SEU INTERIOR.
É inadmissível, em pleno século XXI, autoridades nos mais diversos ramos – e o próprio povo – (salvo raras exceções) não tratar com o devido respeito esse santuário sagrado por sua história e riquezas incalculáveis. Tenho testemunhado pessoas comuns e totalmente inexperientes, pululando pela Matriz com foros de ajudantes –, manuseando peças do acervo histórico dos séculos XVIII e XIX – e tudo mais – como quem manipula laranja na feira. Isso dói na alma. Incomoda. 
Recentemente eu fazia uma pesquisa em Alcaçuz e vi uma naveta em prata portuguesa na Capela daquela freguesia. Fiquei sem acreditar, reconhecendo-a imediatamente como acervo da Matriz de Nossa Senhora do Ó. Perguntei por que a peça estava ali. Disseram-me que fora emprestada para a Capela. Meu Deus do Céu! Isso não existe. Alguém já viu um grupo de estudantes tomar emprestada a espada que D. Pedro saudou o povo no dia da Independência para levar numa gincana escolar ? Impossível. Pois é mais ou menos isso.
Ao apurar o caso da naveta, soube que outros elementos de incalculável valor, pertencentes à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, estão sendo emprestados para outras capelas. Não pode. Até um bebê sabe disso. Até mesmo a custódia é manuseada para vários cantos sem que se deem conta do seu valor incalculável. 
Sinto falta de um RELICÁRIO EM OURO E PRATA PUROS e outras peças que eu via corriqueiramente, mas atualmente estão encantadas (ou surrupiadas?). 
Onde anda essa peça?  
O ASSUNTO É GRAVE E A ARQUIDIOCESE PRECISA RESOLVER ISSO - DO CONTRÁRIO COMUNICAREI AO MINISTÉRIO DA JUSTIÇA E MINISTÉRIO DA CULTURA PARA A DEVIDA PROVIDÊNCIA!
A imagem européia de Nossa Senhora do Ó, restaurada em 1997 – sob os cuidados do padre João Batista Chaves da Rocha - está danificada - o mesmo ocorre com a "Nossa Senhora do Ó Pequena", conforme dizem os nativos - tais peças de simbologias e valores incalculáveis estão sendo manuseadas sem aquele cuidado esmerado que tinha Yayá Paiva, Sr. Bambão, Lorica e tantos outros católicos que escolhiam a dedo quem tirava, quem colocava de volta, quem carregava o andor, enfim até quem podia ajudar a limpar uma imagem ou objeto sacro. E estavam certos, pois se trata de uma peça do século XVIII. Não é uma boneca Barbie. Hoje a imagem não tem uma assessoria especializada para movimentá-la, retirando-a e recolocando-a em seu lugar de origem em situações extraordinárias, servindo-se de cuidados extremados. Tenham certeza que em breve se ouvirá dizer que a imagem original de Nossa Senhora do Ó caiu do andor ou esbarrou em algum fio, árvore, faixa ou outra coisa pelas ruas de Nísia Floresta. É inquestionável que essa imagem seja intocável, que jamais deixe o seu nicho original para tais atividade. Para que existe réplica? Para quê existe a "Nossa Senhora do Ó Pequena"? Quando ela cair no chão e ficar em cacos, se lembrarão de mim. Não é melhor pensar agora?
Dia desses eu entrei numa igreja e pensei estar num circo. Nunca vi tanta "risadagem", tanta brincadeira de meninos e meninas que pareciam tudo, mesmos estar à serviço da Igreja Matriz. De onde vem tanto desrespeito dessa geração?
Já não bastam os furtos feitos à essa igreja, seja por falsos sacerdotes, falsos beatos, falsos ajudantes que nas caladas da noite – falseando transportar alguma coisa corriqueira e sem valor – saquearam grande parte dos bens da Matriz ao longo dos anos. 
Que sociedade é essa que assiste a tudo isso e se cala?!!! Onde estão os católicos de Nísia Floresta?  Onde estão as pessoas esclarecidas – ou que se mostram tais – que assistem a dilapidação da história em silêncio? Confesso que estou estarrecido e chego a não acreditar a história afrontosa desse nicho. 
Só espero que o Padre João Batista tome conhecimento dessa história e interfira nessa possibilidade absurda que, só de ouvi-la, tira o sono de qualquer um.
A Igreja Matriz de Nísia Floresta possui o maior acervo sacro do Rio Grande do Norte. Se continuar como está, onde o próprio povo – com raras exceções – não lhe mostra desvelo algum, pode ter certeza que vai desaparecer muita coisa. E é bom lembrar que há ladrões observando também. E quando esses ladrões vierem cumprir o seu papel, nunca digam que não houve o alerta. Isso já ocorreu em Mipibu na década de 1980.
Já não basta uma Igreja Matriz desse nível estar sendo "restaurada" sem acompanhamento de especialistas, e sem as políticas de manuseio corretas de seus bens, vem-se propor a insana construção de nichos. É inadmissível. 
É muita vaidade e de certo modo, ingenuidade, entender isso como "deixar a marca". Que marca é essa? Só se for a marca da descaracterização do patrimônio histórico.
Em 2004 um grupo de meninos – inclusive coroinhas – assaram caju num vaso de bronze do século XIX, nos fundos do quintal da Matriz. Creio que alguns achem isso normal. Mas não é. Eu ainda os corrigi, guardei a peça e depois a mostrei ao Pe. Batista, inclusive foi restaurada. 
Falta das pessoas que estão adiante da Matriz, sejam leigas ou não, saber que tudo o que precisar que ser mexido, carece de cuidados extremados, minuciosos, pensados, deliberados etc. Tem coisas que precisam ser manuseadas a sete mãos, sob o aval de órgãos especializados. Não é de qualquer jeito.
Lembro-me, em 1997 quando o Padre João Batista propôs a reforma da imagem grande de Nossa Senhora do Ó. Vieram especialistas do Pernambuco e de Natal, tudo foi pensado com antecedência. A imagem saiu de Nísia Floresta escoltada pela Polícia Federal, pois é um patrimônio de valor incalculável, inclusive, nesse dia, quem a recebeu em São José de Mipibu foi Dom Heitor. Depois a imagem viajou para Cabo, Pernambuco (salvo engano). Mas foi exatamente assim. Tudo pensado, deliberado...
É torturante saber que as peças são tratadas dessa forma. Daqui a pouco se achará normal que o atual turíbulo sirva de fogareiro para assar cane em algum lugar. Só falta isso.
Faz-se necessário, com urgência, o Arcebispo de Natal formar um conselho para administrar e acompanhar reformas, restaurações de igrejas históricas, listando os bens pertencentes e acompanhando tudo isso de perto, inclusive suas restaurações, principalmente a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. 
Há necessidade de um inventário geral de todo o patrimônio da igreja, inclusive materiais retirados e provenientes de reforma. Nem esse material pode ser descartado sem o aval de um grande especialista. Esse Conselho deve ser constituído por integrantes de órgãos governamentais ligados ao patrimônio histórico (arquitetos, engenheiros civis, museólogos, historiadores e, obviamente padres versados no assunto na Arquidiocese).  
A propósito, urge reeducar a sociedade para ter consciência sobre o que de fato representa o patrimônio histórico da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, inclusive é um dos assuntos que mais escrevo no meu blog, aliás, trabalho isso desde 1992. 
Sempre procurei construir uma educação para o patrimônio histórico e a memória de modo que todos o enxerguem com olhos de pertencimento.
Se não existir um colegiado de peso, eleito pela Arquidiocese, que tenha poder para dizer o que pode e o que não pode fazer numa igreja histórica, em breve legaremos aos nossos netos um arremedo de Igreja Matriz. Também tenho convicção que algumas relíquias da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó não podem mais estar sendo manuseadas nem pelos próprios sacerdotes que por ela passam, pois são peças únicas, que além do risco de acidentes e danos irreversíveis, não podem estar tão à mostra devido "bandidos olheiros" que observam o que a igreja possui e onde é guardado. O que observo é que está tudo errado. ESSE MATERIAL TEM QUE SER PROTEGIDO COM A DEVIDA SEGURANÇA.
Diante disso tudo, quero avisar que estou encaminhando, na presente data, uma denúncia à Promotoria de Nísia Floresta, ao IPHAN de Natal, à Fundação José Augusto, à Diocese de Natal e, se não resolver vou para outras instâncias. É inadmissível que, diante da experiencia anterior não se tenham aprendido que o patrimônio da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó não pode ser tratado dessa forma. Quero apenas que o povo de Nísia Floresta se conscientize da gravidade do assunto. 
Tenho certeza que Nossa Senhora, ao invés de dizer Ó, está dizendo AI! 
Respeitosamente,

Luís Carlos Freire