ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Temer diz que corrupção está sendo combatida

Ouvi, hoje, na CNN esta notícia. Lendo-a, agora, n'O Globo, restou-me a perplexidade. É simplesmente inacreditável. Eu enxergava Cunha como pai do cinismo, mas vi que há outros pais.
Coincidentemente, reli, ontem, o conto da onça que fingiu de morta para enganar a raposa. Achei a onça parecida com temer... 
E a raposa também...


“O Judiciário funciona regularmente, o Legislativo igualmente, o Executivo... O Ministério Público, não é? Que é quem cuida um pouco dessas ações. Eles funcionam regularmente, tanto que, na verdade quando há essas afirmações, elas são operadas. Eu, é claro, até no meu caso, você sabe que há manifestações e muitos outra, né. Mas esta matéria está no Judiciário e nós confiamos no Judiciário brasileiro. É claro que eu aqui diria que são inverdades absolutas, fruto talvez de uma certa, um certo desejo de dizer que o Brasil está nessa ou naquela posição em relação à corrupção, mas o fato é que a corrupção está sendo combatida e isto dá mais segurança aos nossos investidores, não é? Os investidores que forem para lá não vão ter preocupações com o fenômeno corruptor”, disse o presidente.

Aproveite para reler o conto, e fique esperto, no bom sentido, sobre os saqueadores dos cofres públicos. Pode ter um aí mesmo na sua cidade...
A raposa e a onça

Cansada de ser enganada pela raposa, a comadre onça planejou atraí-la à sua toca. Para isso, espalhou pela freguesia a notícia de que tinha morrido e deitou-se no meio da sua caverna, fingindo-se morta. A bicharada desconfiada, mas não contendo a curiosidade, vieram olhar o seu corpo. A raposa também veio, mas ressabiada como ela só, ficou a olhar de longe. E por trás de outros animais gritou:
— Minha avó, quando morreu, espirrou três vezes. Espirrar é o sinal verdadeiro da morte.
Comadre onça, para mostrar que estava morta de verdade, espirrou três vezes. Foi o que bastou para a raposa fugir, às gargalhadas.
Furiosa, a comadre onça resolveu apanhá-la ao beber água. Era época de seca no sertão e somente uma cacimba, ao pé duma serra, ainda tinha um pouco de água. Todos os animais da freguesia eram obrigados a beber ali. Então, a comadre onça se arranchou a beira da cacimba, e ficou à espera da esperta raposa, dia e noite.
Nunca em toda a sua vida a raposa curtiu tanta sede. Ao fim, porém, de três dias já não agüentava mais. Não havia outro jeito, tinha de ir beber na cacimba, mas não ia "dar mole" a comadre. Usando duma astúcia, procurou um cortiço de abelhas, furou-o e com o mel que dele escorreu untou todo o seu corpo. Depois, espojou-se num monte de folhas secas, que se pregaram aos seus pêlos e cobriram-na toda.
Por volta do entardecer foi à cacimba. A onça olhou-a bem e perguntou-lhe:
— Que bicho é você que eu não conheço, que eu nunca vi?
A raposa cinicamente respondeu:
— Sou o bicho folharal.
— Então pode beber.
A raposa desceu a rampa do bebedouro, meteu-se na água, sorvendo-a com delícia e a onça lá em cima, desconfiada, vendo-a beber demais, como quem tinha sede de vários dias, murmurou:
— Quanto tamanha sede, folharal!
Mas a raposa que se julgava muito esperta não pensou que a água iria amolecer o mel e, assim, folhas foram caindo às porções. Quando acabara de "matar a sede", a última folha caiu, e a comadre onça de imediato reconheceu a não muito esperta raposa. Pulou ferozmente sobre ela, mas a danada da raposa conseguiu fugir.


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Golandi, a lenda verdadeira


Há muitos e muitos anos apareceu em Papari - numa época remota, na qual se contavam os viventes desse rincão - um casal de índios do tronco tupi-guarani, fugido do massacre de Cunhaú. Ela, Jaciara, que significa “nascer da lua”; ele, Ubirajara, que significa “senhor da lança”. A região era uma selva de difícil acesso, cortada por um pequeno córrego de águas cristalinas e piscosas.
Como a mata era fechada, tornava difícil a locomoção, obrigando-os a fazer uma pequena clareira.
Nesse recôndito perdido e esquecido eles construíram uma pequena casa de taipa, aprendida com os portugueses que habitavam o lugar de origem.
A casa foi engenhosamente coberta com palhas de coqueiro entrançada, de modo a impedir a mínima infiltração. Arte típica dos ancestrais nativos. A floresta era permeada por animais selvagens, que poderiam atacá-los se permanecessem expostos principalmente à noite. A natureza era intocável, os bichos viviam em perfeito equilíbrio, mas era bom se proteger.
Ao redor da morada fizeram roça de milho, macaxeira, inhame, batata doce, fruta-pão, jerimum e ervas medicinais. A caça e a pesca eram abundantes. Desse modo viviam felizes e com fartura.
Com o passar do tempo eles tomaram coragem e avançaram um pouco mais nas matas desconhecidas, vislumbrando reconhecê-la melhor. Nesse empreendimento descobriram que moravam numa vasta extensão de mangue, e que o lugar era um labirinto de riachos e olhos d´água.
Conforme venciam as matas, perceberam alguns sinais humanos, ora nas estacas cortadas, ora nas veredas com rastos humanos. Aos poucos deram conta da existência de moradias, ora solitárias, ora associadas a outras. Até mesmo um acanhado povoado de três ou quatro casas foi encontrado.
Eles constataram que tais moradias pertenciam a mestiços, ora de índios com brancos, ora de índios com negros, ora de negros com brancos. Desse modo ficou mais fácil tentar estabelecer amizade.
Não demorou muito iniciaram contato, ora acanhado, ora com certa familiaridade, inclusive haviam outros fugitivos do massacre de Cunhaú nessas propriedades.
Eles também se arrancharam ali atraídos pelas riquezas naturais. Tudo era farto. Cambadas de caranguejos desfilavam nos quintais como formigueiros, forrando-os completamente. As águas eram infestadas de camarão pitu. Eles não valorizavam muito a caça de aves e quadrúpedes, como tatus, capivaras, antas, pacas, porcos do mato e outros bichos. Preferiam camarão com tubérculos, beijus e tapioca.
Os novos vizinhos perguntavam ao casal o nome do local onde moravam, mas eles não sabiam; apenas apontavam a direção e davam referências. Àquela época os índios usavam os tipos de solo, os rios, determinadas árvores, cipoais e acidentes geográficos para explicar a localização de alguma coisa.



Certo dia Ubirajara disse a sua esposa que estava incomodado, pois se dera conta de que o lugar onde viviam não tinha nome. “As pessoas perguntam onde moramos, mas não temos resposta. Todos os lugares têm nome, menos o nosso”.
A esposa Jaciara concordou e disse:
- Ubirajara, olhe para essas matas. Veja que a cada passo que damos encontramos um pé de “IGWANA’NDI”. A nossa oca foi feita com madeira de igwana’ndi; a nossa mesa é de igwana’ndi; nossos tamboretes são de igwana’ndi; a porta de nossa casa é de igwana’ndi; o jirau que usamos para moquear é de igwana’ndi... até mesmo o remédio que nossos avós usam contra reumatismo é do igwana’ndi. Já temos o nome daqui. De agora em diante, quando alguém perguntar onde moramos, responderemos: moramos em igwana’ndi. Nome lindo! Não há outro melhor!
Os índios se respeitavam muito, inclusive a palavra da mulher tinha o mesmo peso da palavra masculina. E assim nasceu o nome do lugar que, mesmo antes do batismo já possuía ares de igwana’ndi por excelência.
E o tempo foi passando...
O casal teve filhos, os quais, depois de adultos, se casaram com outros nativos. Iguais a eles, outras pessoas se arrancharam em igwana’ndi. E o local foi tomando ares de um acanhado povoado.
Como Ubirajara era o índio pioneiro de Igwana’ndi e o mais idoso – contando cento e vinte e cinco anos – transmitiu a cada morador o ensinamento de plantar sementes de igwana’ndi toda vez que derrubassem um de seus pés, pois era a madeira mais apreciada em toda a região. E fizessem o mesmo com outras espécies. Explicou que a riqueza natural daquele lugar vinha da harmonia entre o homem e a natureza. "De onde se tira e não se põe, tudo se acaba", dizia.
Passados cem anos, quando não mais existiam sequer vestígios da existência do casal Ubirajara e Jaciara, os mais novos passaram a chamar o local de Guanandi. Muitos homens brancos chegaram ao local com suas famílias e novos costumes. A maioria dos nativos já não seguia mais os ensinamentos dos mais velhos. Abandonaram a tradição de replantar igwana’ndi. Os descendentes do casal Ubirajara e Jaciara a essa altura dos fatos já não conservavam quase nenhum costume indígena. De índios traziam apenas os traços fisionômicos  e  se esqueceram da tradição de preservar o igwana’ndi .
Mas, por incrível que pareça, Guanandi permanecia envolta numa floresta imponente, graças aos pássaros que se encarregavam instintivamente de reflorestá-la juntamente com os morcegos e macacos.
Era prática comum entre os senhores de engenho da região construir os assoalhos de suas casas grandes e senzalas com a madeira do guanandi, pois era de qualidade nobre e de alta resistência. Eventualmente saiam dois a três carros-de-bois gemendo nos estradões afora, transportando dezenas de toras dessa árvore.
Os construtores de navios mandavam buscar ali os mais belos exemplares dessa espécie. Mesmo assim as matas permaneciam portentosas, emoldurando o povoado, abraçando-o carinhosamente, como se dissessem: “somos superiores a vocês, homens... pagamos o mau que vocês nos fazem com o bem”.
Como dissemos anteriormente, o tempo não para...
Certo dia apareceu no povoado – que já possuía um belo arruado de casas e até mesmo uma capelinha. – um homem esquisito trajando roupas reais. O povoado parou. Os moradores correram se aglomerando num descampado central. O homem montava um imponente cavalo árabe. Com ele estava uma comitiva e algumas autoridades da Vila Imperial de Papari, as quais se drebuçavam em pitorescas cortesias e deferências. Era um representante do Imperador D. Pedro II. Houve o toque claudicante de corneta. Em seguida ele desenrolou uma espécie de pergaminho e o leu em voz alta:
- “Em nome de deus e de Sua Majestade Imperial D. Pedro II, informo a todos os moradores dessa localidade de Guanandi, que fica proibida a partir de hoje, a derrubada de árvores da espécie Guanandi. Ficam reservada para o Império Brasileiro, sob forte fiscalização, o uso exclusivo dessa árvore para a confecção de mastros e vergas de navios. Essa determinação provém da Lei de nº ... de 7 de janeiro de 1835, sancionada por Sua Majestade Imperial D. Pedro II. E ficam todos informados que os possíveis infratores serão presos e transferidos para a Corte de São Sebastião do Rio de Janeiro, e lá serão encerrados nas galés, onde trabalharão como escravos até a morte”.
 Após a espetaculosa anunciação, os homens reais deram meia volta e desapareceram nas veredas, engolidas pelos guanandis. Os nativos ficaram mudos, vendo-os sumir sem entender exatamente o que haviam acabado de contemplar. Alguns permaneceram extasiados, sob o choque emocional de terem ouvido a voz do representante do Imperador do Brasil. Outros comentaram durante meses o episódio, alegando ter sido o mais belo e notável acontecimento do local.
O tempo continuou passando exatamente como as águas do riacho local, que serpenteavam as matas até desaguar no Atlântico.
Carros e mais carros-de-bois saiam diariamente, abarrotados de troncos de guanandis, os quais eram embarcados em navios para São Sebastião do Rio de Janeiro, no Porto de João Lustau Navarro, em Pirangipepe. Alguns nativos diziam – a boca de siri – que as autoridades da Intendência da Vila Imperial de Papari faziam vistas grossas àquele massacre da mata, pois recebiam muitos contos de réis para fingir que não percebiam o exagero. Todos sabiam que era impossível tanta madeira se eram construídos poucos navios. Mas ali valia a "lei do silêncio". Era melhor ficar quieto, diziam os mais velhos. Havia até um ditado muito antigo que dizia assim: "em terra de sapos, de cócoras com eles".
Um estrangeiro que visitou Guanandi disse aos nativos que, na realidade toda aquela madeira viajava para Portugal, onde servia para construção de assoalhos dos palácios dos reis e pessoas lordes, e que extrapolavam as fronteiras lusitanas, estendendo-se para Espanha, Áustria e França. Lá era vendida a peso de ouro.
Essa, que foi oficialmente a primeira madeira de lei do Brasil, era usada na Europa para confecção de barcos, mastros de navios, vigas para construção civil, obras internas, assoalhos, marcenaria e carpintaria. O estrangeiro contou que toda a madeira usada para construir o Museu do Ipiranga, em São Paulo fora retirada das matas de Guanandi.
O tempo – teimoso – continuou passando como a brisa interminável.
A derrubada desenfreada e sem reposição dos guanandis começou a trazer sérias consequências ao lugar. Os pássaros, os macacos e os morcegos desapareceram nos estômagos dos nativos. Junto, foi-se o ciclo de reflorestamento natural. A ausência das raízes desse vegetal que umedecia e segurava a terra, afetou os mananciais, limitando os peixes e crustáceos. Os pitus entraram em extinção. Os animais grandes, como onças, raposas, caititus e capivaras sumiram como num encanto. O riacho, que antes cobria um adulto, tornou-se um fiapo de água.
Guanandi, de rico, tornou-se pobre. Até mesmo o próprio nome foi alterado novamente. Nessa fase era chamado de Golandi. Por mais inacreditável que pareça, não restou sequer um exemplar dessa espécie tão importante. Os próprios nativos desconheciam a árvore e o seu fruto.
Certa vez apareceu em Golandi um homem de uma região longínqua, conhecida como “Jardim do Éden do Brasil”. O lugar possui um dos biomas mais raros, ricos e belos do Mundo, e tem o nome de Pantanal.
Cheios de nostalgia, os nativos disseram a esse homem que, no passado, Golandi também era um paraíso.
Então o homem perguntou-lhes:
- E o que vocês fizeram?
                                                        Nov. 1995
.............................................................

Conheça algumas curiosidades sobre o Guanandi, a primeira madeira de lei do Brasil. Veja o texto em PDF: http://www.ibflorestas.org.br/news/arquivos/materialguanandi.pdf
Curiosidades: a árvore golandi também é conhecida como: olandi, olandim, galandim, gualande-carvalho, guanandi-carvalho, guanandi-cedro, landim, gulandê, gulandi. Na Amazônia chamam-na jacareúba. Em São Gonçalo do Amarante, RN, há um lugarejo denominado Gulandim, que, obviamente é um derivado.




Professor Pio


Acabei de ser informado sobre a morte do Professor Pio, vitimado por ataque cardíaco fulminante.
Dizem que "para ser bom, basta morrer". Mas isso não se aplica a esse educador que tinha toda a minha admiração e estima.
Falam que não existem pessoas insubstituíveis, mas quem substituirá aquele homem simples, que chegava e dizia: - “estás vendo aquele menino ali? Ele é tão interessado nas aulas, mas têm tanta dificuldade em aprender. Eu queria muito ajudá-lo, pois sei que ele só está precisando de um norte para pegar a coisa”...
Eram tantas observações. E somente pessoas de alma nobre são assim. Ele se preocupava com os alunos. Bastava encontrar um aluno com dificuldades e lá estava ele, perdendo o sono. Queria resolver. Ficava inquieto. Queria ajudar a todos.
Eu costumava lhe dizer: "sou o seu fã". Ele ria!
Sempre fiz questão de parabenizá-lo e dizer o quanto eu o admirava.
Era um homem cheio de ideias. Olhava as cenas e vinha compartilhar ideias...
Pois é, meu professor! Quem sabe foi por esse mar de preocupação com os alunos – com a fraca educação do nosso país – que o seu grande coração não conseguiu acompanhar as emoções.
A todos os seus familiares e amigos que enxergavam nele esse grande educador, aceitem o sentimento meu, de Gardênia e de Fídias.
Quem substituirá o professor Pio?

Traficantes perseguem casas de Umbanda e Candoblé no Rio de Janeiro, "em nome de Jesus"

Nas últimas semanas alguns terreiros de Umbanda e Candomblé, no Rio de Janeiro vem sendo alvo de ataques e depredações. Num deles, conforme vídeos sugeridos na imagem acima, os traficantes justificam tal truculência “em nome de Jesus”.
Isso deve chamar a atenção de toda pessoa esclarecida, pois as filmagens revelam discursos bem construídos. Eles falam com uma retórica tipicamente pentecostal. A própria voz dos traficantes é parecida com as vozes que ouvimos em diversos programas  religiosos de determinadas igrejas. Tudo é envolvido numa áurea de cólera, julgando que as sacerdotisas são representantes de satanás e as peças sacras estão demonizadas.
Obviamente deve-se abominar tal truculência pelo olhar do respeito às religiões. O próprio Jesus Cristo, se estivesse aqui não faria isso. Mas, confessemos, o que mais nos choca é o discurso dos traficantes, os quais ordenaram, de armas nas mãos, que as sacerdotisas quebrassem as imagens e os objetos de seus rituais.
Isso é de uma monstruosidade inadmissível.
Vivemos um momento mundial no qual os muçulmanos fundamentalistas fazem exatamente igual, embora com outra roupagem. São intolerantes e atacam quem não se curva a Alá.
Nesse caso há uma espécie de exigência de que a pessoa se converta a alguma religião evangélica.
A internet também está cheia de notícias de ataques às imagens dos templos católicos, encabeçadas por pessoas de religiões diferentes.
Nota-se uma cadeia de influências. E tudo é muito parecido. Dá-se a impressão de que há igrejas patrocinando direta ou indiretamente tais ataques. Parece haver intenção de se monopolizar a fé nas favelas.
Sabemos que a maioria das igrejas – queira ou não – são verdadeiras “casas da moeda”. Então quanto mais monopólio, melhor. É mais dinheiro para a que tem culpa no cartório.
Não gosto muito da expressão "tolerância" para referir-se a tais fatos. Prefiro dizer que as fés devem ser respeitadas. A gente tolera aquilo que não gosta, e quem somos nós para não gostar da religião A ou B. Respeitar é suficiente.
Percebo que há algo muito complexo e escuso nesses ataques aos terreiros. Há um mix muito além do que a maioria pensa. Creio que os traficantes estão fundando igrejas para dar vazão às múltiplas políticas do crime. Quanto mais eles sufocarem as outras religiões, mais aumentará o seu poder de tráfico, de lavagem de dinheiro etc etc etc...
Motivos eles têm de sobra para levantar as asas: para onde olham veem bandidos. Bandidos juristas, bandidos nas Forças Armadas, bandidos nas Presidências, bandidos na Polícia Militar, bandidos no funcionalismo público, bandidos para todos os lugares com poucas exceções. Mesmo os honestos se tornam suspeitos, pois ninguém está mais acreditando em ninguém.

Continuo com esperança, mas está difícil.
Precisamos ensinar os nossos filhos a respeitarem as manifestações de fé de todos, sugerindo-lhes que se coloquem nos lugares de quem não faz mal a ninguém e sequer pode ter fé.
Essa discriminação às religiões de origem africana, se formos mais a fundo, também revela preconceito racial e preconceito contra as pessoas mais humildes. Não é regra, mas boa parte pertence a classe mais simples da sociedade. Há pessoas que, só de ouvir falar em Candomblé ou Umbanda, usam as palavras mais depreciativas. Outras, só por saber que uma igreja conserva imagens de santos, alimentam a intenção de quebrá-las.

A árvore de Cristo - Dostoievski


Sou romancista. O meu destino é estar sempre escrevendo histórias. Esta foi imaginada do princípio ao fim. Apesar do que bem poderia ter sucedido em qualquer parte, na véspera do Natal, numa grande cidade com um frio horrível.
O meu herói é um menino de muito poucos anos, talvez seis ou menos, ainda não bastante crescido para que desde já o façam mendigar. E’ provável contudo que em um ano ou dois o mandem estender a mão.
Certa manhã acorda num porão úmido e frio. Está envolto numa espécie de roupão sujo e treme. Sua respiração sai como um vapor branco; está sentado a um canto, em cima de uma mala; para se distrair, êle ativa de propósito o bafo da boca e se diverte com vê-lo escapar. Mas tem muita fome. Várias vezes já, desde a manhã, êle se aproximou do leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino como um crepe, onde está deitada a sua mãe. Por que razão estará ela ali? Terá vindo, provavelmente, com seu filho, de uma povoação distante e terá caído enferma. A proprietária do porão foi presa, há dois dias, e conduzida ao posto de polícia; hoje é dia de festa e os demais locatários saíram. Um desses maltrapilhos, contudo, está deitado, há vinte e quatro horas, inteiramente bêbedo, sem ter esperado pela festa. De um outro canto vêm lamentações de uma velha octogenária atacada de reumatismo. Essa anciã foi, noutros tempos, ama de leite em algum lugar; agora morre sozinha, queixa-se, geme,chama pelo menino que começa a recear a proximidade do canto onde ela estertora. Encontrou o que beber, no corredor, porém não pôde arranjar o menor resto de pão e, pela décima vez êle acaba de acordar a mãe. E’ que êle terminou por ganhar medo da escuridão; a noite já vai alta e ninguém acende fogo. Tateando, êle encontra o rosto da mãe e se surpreende de que ela não se mexa mais e se tenha tornado fria como a parede. O corpo está inerte. "Faz muito frio!" — pensa êle. Fica imóvel algum tempo, a mão no ombro da morta. Depois põe-se a soprar nos dedos para os aquecer e, encontrando o seu pequenino gorro sobre a cama, procura docemente a porta e sai do porão. Teria saído antes se não fosse o medo do grande cão que lá em cima, no patamar, à porta do vizinho, latiu durante todo o dia. Mas o cão já não está lá e eis a criança na rua.
—’ "Meu Deus! Que cidade!" Nunca vira nada de semelhante. Lá longe, de onde êle veio, a noite é bem mais negra e não há senão uma lanterna para toda uma rua; casinhas baixas de madeira, fechadas; na rua, logo que anoitece, ninguém; todo o mundo se fecha em casa; somente uma multidão de cães que uiva, na noite sombria; centenas, milhares de cães uivando e ladrando por toda a noite. Mas, em troca, havia calor! e tinha-se o que comer.
"Ah, meu Deus, como seria bom comer! Mas, que algazarra, que barulho! quanta luz e quanta gente! quantos cavalos e carruagens! E o frio, o frio! O corpo fatigado dos cavalos desprende uma fumaça fria, e os seus focinhos ardentes respiram um fumo branco; as ferraduras soam no calçamento, através da neve mole. E como todos se atropelam. . . Meu Deus! Como eu queria comer! um pedacinho de qualquer coisa. . . Isso me faz doer os dedos. . ."
Um polícia acaba de passar e virou o rosto para não ver o menino.
"Aqui está outra rua… oh! como é larga! Vão me esmagar aqui, decerto; como correm… e luz, luz! E isto, o que será? Oh! que grande vidraça! E atrás da vidraça, uma sala e, na sala, uma árvore que vai até o teto; é a árvore de Natal. . . e quantas luzes sob a árvore! papéis dourados e maçãs! e bonecas em toda a volta, e cavalinhos de pau. Há crianças na sala, bem vestidas, limpinhas; e riem e brincam e comem coisas. Eis uma menina que se põe a dançar com um rapazinho; como é linda, a menina! ouve-se a música através do vidro…"
O menino olha, admira, e já sorri; não sente mais dor, nem nos dedos nem nos pés; os dedos de sua mão ficaram inteiramente vermelhos; êle já não pode dobrá-los e sente dor quando os mexe. .. e de repente os dedos começam a doer; êle chora e se afasta. Percebe, por um outro vidro uma outra sala; e ainda árvore e bolos de toda espécie em cima da mesa; amêndoas vermelhas e amarelas. Quatro lindas senhoras estão sentadas e, quando alguém chega, dão-lhe um pedaço de bolo; a porta se abre a cada instante e entram senhores. O pequeno intrometeu-se, abriu bruscamente a porta e entrou.
Oh! que barulho fizeram ao vê-lo, que agitação. Logo uma senhora se levantou, meteu um kopek na mão e lhe abriu, ela mesma, a porta da rua. Como êle teve medo, o menino!
A moeda caiu-lhe das mãos e rolou no degrau da escada; ele não podia mais fechar os pequeninos dedos, de modo a segurar a moeda. O menino saiu correndo e caminhou rápido. Onde ia ele? não sabia. Gostaria bem de chorar, porém, tem medo demais. E corre, corre, soprando as mãos. E é tomado de tristeza: sente-se tão só, tão espantado! e, de repente, meu Deus! que será ainda? Uma multidão de pessoas ali, de pé, que admira. Numa vitrina, por trás do vidro, três bonecas lindas, vestidas de ricas roupinhas vermelhas e amarelas, exatamente como se fossem vivas! E o velhinho sentado que parece tocar um violoncelo. Há também dois outros, de pé, que tocam violino pequenino e balançam a cabeça em compasso. Olham uns para os outros e seus lábios se mexem: eles falam, de fato! Apenas não se ouve, por causa do vidro.
E o menino pensa, a princípio, que eles são vivos; quando compreende que são bonecos, põe-se a rir. Nunca êle viu bonecos semelhantes e nem imaginara que os houvesse assim. Ri, quase que tem vontade de chorar; mas. . . que ridículo chorar por causa de uns bonecos!
De súbito, êle se sente agarrado pela roupa; perto dele está um rapaz grande e mau, que lhe dá um soco na cabeça, lhe arranca o gorro e dá-lhe um pontapé.
Êle cai. Ao mesmo tempo, todo o mundo grita; êle fica, por um momento, rígido de horror. Depois se levanta de um pulo e corre, corre, corre, mete-se pela porta de uma cocheira e se esconde num pátio, por detrás de uma pilha de lenha.
"Aqui ninguém me vai encontrar; está bem escuro".
Põe-se de cócoras e se encolhe todo; em seu terror, êle mal pode respirar. Falta-lhe o ar, o ar. .. Mas de repente, que estranho! Sente um bem-estar; seus pés e mãos já não lhe causam mal algum e êle se sente quente como se estivesse perto do fogão e todo o seu corpo estremece. Ah! êle vai adormecer.
"Como é bom dormir aqui! Demorarei um pouco e depois irei ver as bonecas outra vez" «— pensa êle e sorri à idéia das bonecas. "Direitinho como se fossem vivas!. .
Depois êle ouve a canção de sua mãe. "Mamãe, eu durmo. . . ah! como é bom aqui para a gente dormir!"
Vem a minha casa, criança, vem ver a árvore de Natal, — murmura uma voz suave.
Êle pensou, a princípio, que era sua mãe; mas não, não era ela. Quem o chama, então? Êle não vê. Mas alguém se debruça sobre êle e o envolve na obscuridade; êle lhe estende a mão e. .. bruscamente .— Oh! que luz! Que árvore de Natal! Nunca sonhara com uma árvore assim tão linda! Nunca viu coisa semelhante!
Onde se acha êle agora? Tudo reluz, tudo brilha. E as bonecas em toda a volta. Não, bonecas não: são meninos e meninas, apenas são muito brilhantes. Eles rodam em volta dele, voam, abraçam-no, conduzem-no e êle próprio voa. Vê sua mãe que olha, sorrindo para êle alegremente.
—’ Mamãe! Mamãe! Oh como é bom estar aqui! -— grita o pequeno.
E novamente abraça os meninos e pensa em como gostaria de lhes contar a história das bonecas atrás da vitrina. Mas domina-o uma curiosidade.
— Quem são vocês, meninos? — pergunta êle.
— Nós somos os pequeninos que viemos ver a árvore de Cristo — respondem todos em coro.
E’ a ávore de Natal de Jesus. Em casa de Jesus, neste dia, há sempre uma árvore de Natal para todos os meninos e meninas que não têm suas próprias. . .
E êle soube que todos esses meninos e todas essas meninas eram crianças como ele; uns mortos de frio nas cestas em que os abandonaram, à porta dos funcionários de São Petesburgo; outros, mortos nas "izbas" sem ar dos Tchaukhnas; alguns mortos de fome no seio exausto de suas mães, durante a fome de Samara; outros envenenados pela infecção dos vagões de terceira classe. Todos estão aqui, agora; todos são anjos, agora, em casa de Jesus, que sorri, no meio deles, estendendo-lhes as mãos, abençoando-os, a eles e às pecadoras suas mães. ..
Porque também as mães dessas criancinhas estão lá, afastadas, e choram; cada uma reconhece seu filho ou sua filha e os meninos voam para elas, beijam-nas, enxugam suas lágrimas com as mãos pequeninas e lhes suplicam que não chorem, pois eles se sentem felizes ali. ..
E, embaixo, pela manhã, o porteiro encontrou o pequeno corpo do menino refugiado no pátio, enregelado atrás da pilha de lenha. Encontraram sua mãe também. Morrera antes dele e reviram-se os dois no céu, na casa do Senhor.
Por que engendrei eu esta história pueril, que produz um estranho efeito no livro de um escritor sério? Eu, que não havia prometido contar neste livro senão coisas verdadeiras, sucedidas!
Mas aí fica. . . De resto, bem poderia tudo isso ter acontecido realmente. . . Sobretudo a descoberta dos dois cadáveres!. . . Quanto à árvore de Natal, meu Deus! não sou eu romancista para inventar coisas como estas?
Fonte: Livro de Natal – Livraria Martins Editora. Ilustrações de R. Zamboni. Seleção e Notas de Araújo Nabuco, 1955.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Lenda de Oitizeiro - a terra dos pássaros


Há muitos e muitos anos – no lado norte da lagoa Papari – existia uma densa floresta. As árvores eram tão altas que as nuvens acariciavam suas frondes. Era um vale exuberante e pleno de riquezas naturais. A fauna e a flora eram ricas e se completavam em perfeita harmonia. Os poucos viajantes que transitavam nessas matas levavam as mais belas lembranças e faziam questão de contá-las aos quatro cantos. Essa mata tinha uma curiosidade. Dentre tanta riqueza natural, sobrepujava uma infinidade de pássaros. As árvores e os céus eram coloridos de aves o dia inteiro.

Próximo dali existia uma aldeia comandada pelo cacique Ararê, que significa “protetor das aves”, índio sábio, bondoso e querido por todos. Ele costumava dizer: “matar um pássaro, é matar lentamente uma floresta”. Somente os índios sabiam os segredos dessas selvas, de suas veredas e seus atalhos.

https://br.pinterest.com/pin/525232375271295245/?lp=true
A tribo se servia dessa área para recolhimento de penas, inclusive algumas espécies tinham plumagens florescentes, que acendiam à noite; outras traziam o corpo tão brilhante que pareciam pequenos sóis bailando nos céus. Essas penas, que se espalhavam indiscriminadamente, iguais a folhas de árvores, eram usadas nos cocares, adereços corporais e nas flechas e petecas. Por onde andavam, pisavam nos montes. Eles não matavam os pássaros, e nem era necessário devido a profusão como as penugens plainavam dos céus.

Eventualmente os índios se arranchavam numa pequena clareira, onde existia um Pirajá. Ali passavam o dia em atividades. Traziam idosos e crianças e faziam disso um momento de descontração entre as famílias. A meninada brincava, se balançava nos galhos que sobraçavam o chão, banhavam-se e pescavam num pequeno riacho local, enquanto os mais velhos assavam peixe e beiju.



Nesse tempo não existia a lagoa. As crianças veneravam as tardes divertidas e nem viam o dia passar. Tudo era regado a uma orquestra infindável de pássaros, os quais trilavam alegres sinfonias, enchendo as matas de vida.  Silêncio era uma palavra desconhecida naquele vale sagrado, comparado ao Jardim do Éden.      
     
Certo dia apareceu um feiticeiro de uma região distante e desconhecida, atraído pela fama do lugar. Ele ficou encantado e dedicou um dia a observar a passarada. Embora não chegou a ver sequer um terço da avifauna, alegou nunca ter se deparado com bandos tão monumentais. Eram muitas espécies diferentes. Eram muitas cores brilhantes. Eram muitos cantares diferentes.

https://espacoastrologico.org/a-astronomia-e-a-astrologia-no-brasil-indigena/

            Naquele tempo as aves tinham significação e importância ainda mais preciosas. Valiam mais que o ouro. Os índios diziam que os pássaros faziam as florestas, pois espalhavam as sementes em todos os rincões, atraindo variados animais. Eles sabiam que as raízes das árvores seguravam a umidade e conservavam os rios e os mananciais locais. Os mais velhos contavam aos filhos e netos que os pássaros eram os “pais das florestas” e valiam mais que o ouro, portanto eles deveriam dar prosseguimento a tal ensinamento.

Na região de origem desse feiticeiro os índios matavam os pássaros por diversão, para se alimentar e para ornar suas indumentárias e materiais utilitários. Na floresta daqui não havia essa necessidade, pois milhares de penas se desprendiam deles naturalmente, suprindo a demenda que tinham.

            Quando esse feiticeiro apareceu e contou-lhes sobre o hábito deles, todos estranharam, dizendo que num lugar com tanta fartura de animais quadrúpedes e tão grandes – como os caititus, que eram porcos do mato – soava desnecessário matar animaizinhos tão pequenos, inofensivos, que só enchiam as matas de alegria e beleza.

O feiticeiro – matreiro – explicou que viera unicamente conhecer e apreciar as riquezas naturais. Ressaltou que todos os viajantes que passavam em seu lugar de origem contavam com deslumbramento o que viam aqui. Na cultura dos índios não existia a mentira, portanto eles acreditaram com naturalidade, nas palavras do estranho visitante.


http://ipevs.org.br/blog/?tag=aves

            Certa manhã o cacique Ararê entrou num trecho quase intransponível para retirar cipó “couro de sapo”, usado para prender feixes, carregar caça e fazer outras amarrações. Conforme foi vencendo lentamente o cipoal deparou-se com um cenário que o aterrorizou. Haviam milhares de gaiolas feitas de cipó, cheias de pássaros vivos. Ele não conseguia assimilar o significado daquilo, pois não conhecia a prisão, nem para eles, nem para os animais. Até mesmo os bichos domesticados viviam soltos na aldeia. Mas aquela incompreensão durou pouco. Após alguns passos viu índios estranhos transportando as gaiolas para umas caravelas aportadas no mar. Na realidade o feiticeiro estava a serviço dos portugueses. Ele trouxera centenas de índios e os escondera na pequena clareira para ajudá-lo nesse empreendimento.  

Após a desagradável surpresa, o cacique Ararê correu para a aldeia e contou o fato a seus irmãos, os quais ficaram decepcionados. No outro dia todos correram ao local e flagraram os índios estranhos, os quais não se trajavam como tais e falavam em português.



O cacique Ararê disse ao feiticeiro que eles estavam promovendo um desastre ambiental. Convidou-os a devolver os pássaros à natureza, sob pena de, em recusando, terem as caravelas invadidas para recolhimento das gaiolas. O feiticeiro se irritou e disse que não era possível atender o pedido, pois os europeus haviam dado à tribo deles muitos presentes como pagamento.

           O cacique Ararê perguntou-lhe se ele não sentia vergonha de roubar a “mãe-terra”. Para eles a terra era mãe de todas as coisas: mãe das águas, mãe das florestas, mãe da terra, mãe dos bichos e mãe dos índios. Muito irritado o feiticeiro não soube responder.

            Nesse exato momento ouviu-se um estouro. Todos se assustaram. Logo em seguida um cheiro esquisito impregnou a mata. Quando perceberam cacique Ararê estava morto, atravessado por uma coisa que eles sequer imaginavam o que era. Em segundos o seu corpo estava envolto num mar escarlate. Houve pânico, pois desconheciam as armas de fogo e nunca ouviram um barulho tão alto e seco. O máximo que escutavam era o trilar dos pássaros, o esturrar das onças, o guinchar dos macacos e o grazinar dos papagaios.

O restante daquele dia os índios estranhos dedicaram ao embarque das gaiolas. Levaram também muito sândalo, ébano, jacarandá e pau roxo, madeiras nobres e comuns na região. Como não encontraram resistência dos índios locais, ficaram à vontade para agir. Dizem que quando as pessoas se calam e não resistem diante das arbitrariedades, os maus vencem.
http://www.pm.ms.gov.br/pma-autua-fazendeiro-em-r-175-mil-por-exploracao-ilegal-de-madeira-protegida-por-lei-em-bonito/ 
 
As aves eram desacostumadas a ataques humanos, portanto não fugiam dos caçadores, conservando a mesma inocência dos índios daqui. A ganância dos europeus era tão descontrolada que naquele final de tarde encheram quarenta caravelas e partiram. Levaram, inclusive, todos os ovos encontrados nos ninhos para alimentá-los durante a longa viagem.

Naquela mesma noite cinco índios corajosos retornaram ao local da morte do cacique e retiraram o seu corpo. No outro dia, bem cedo, o depositaram numa urna funerária, feita de barro e o sepultaram durante um ritual, aos cuidados do pajé “Enarê”, que em língua tupi significa “deus do rio”. Sob a cova depositaram penas de todas as cores. A floresta estava paralisada e muda, como se entendendo o triste acontecimento. Não se ouvia sequer as vozes de outras espécies animais. Fazia pena a desolação até mesmo de crianças e idosos. Eram tantas lágrimas que originaram uma gigantesca lagoa que cresceu lentamente, como magia, no sopé do morro.

http://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com.br/2013/12/a-pedra-encantada-da-lagoa-papari.html

            Seis dias após o enterro do cacique, o pajé Enarê teve um sonho. O Espírito da Mata apareceu-lhe e disse que no local do sepultamento do cacique Ararê nasceria uma linda e frondosa árvore, por nome de Oiti, que significa “massa espremida”. Ela seria responsável por repovoar toda a mata com novos pássaros. Explicou-lhe que eles não se preocupassem, pois o vale sagrado teria mais pássaros que antes, cuja lagoa que nascera das águas choradas pela tribo seria responsável para saciar a sede de todas aves e tudo o que tivesse vida naquelas imediações. E seria, ainda, a lagoa mais rica em peixes e crustáceos de toda a região. Ela se chamaria Paraguaçu, que em língua tupi significa “rio grande”.
 
            O Espírito da Mata fez um pedido especial: que a tribo aguardasse a floração, que aconteceria entre os meses de junho e agosto, e seriam brancas para simbolizar o surgimento de um novo tempo de amor entre a tribo; que os seus frutos surgiriam entre os meses de janeiro e março. O grande segredo dos frutos dessa nova espécie seria emanar um perfume mágico, responsável por atrair o maior número de pássaros, que também serviria de alimento para as aves e outras espécies da região, e que sua madeira serviria para a carpintaria. Orientou que cada índio se encarregasse de plantar uma semente anualmente, pois ela também seria responsável pela preservação da lagoa das lágrimas. O pajé ficou muito feliz e deu a notícia para a tribo. A alegria contagiou a todos. Houve três dias de festa com danças, competições esportivas e muita comida.

Oiti

            Após vinte dias germinou, enfim, o oiti. O tempo passou e tudo se cumpriu exatamente igual a profecia do Espírito da Mata. Se antes os índios pensavam ter uma floresta repleta de pássaros, se enganaram, pois o repovoamento da avifauna tornou-se infinitamente maior. Nunca se viu tantos pés de oitis. Os próprios pássaros se encarregaram de comer e espalhar as sementes. Nunca se viu uma tribo tão feliz.

Toda vez que alguém sente o cheiro delicioso de oiti, lembra o sonho que o pajé teve com o Espírito da Mata. E como o tempo não para, os anos continuaram passando. Homens brancos chegaram ao local e batizaram aquelas terras de Oitizeiro, para designar o lugar como floresta de oitis.
 
Tronco centenário de um oitizeiro
http://es.treknature.com/gallery/South_America/Brazil/photo135408.htm

Hoje, apesar de o homem branco permanecer causando danos às matas, o distrito de Oitizeiro ainda conserva a fama de “terra dos pássaros”. O lugar é símbolo de liberdade, pois os nativos não têm o hábito de engaiolar pássaros. A fama do cacique estendeu-se até hoje, a ponto de eles permanecerem fiéis às suas sábias palavras. A lagoa das lágrimas, que teve o seu nome mudado para Papari, que significa “rio encachoeirado”, apesar do assoreamento e do manejo irregular dos donos de viveiros, ainda guarda rara beleza, e produz peixes e crustáceos. Não há lugar em toda a região que tenha as espécies passarinheiras mais belas, coloridas e variadas. Tudo isso graças aos oitizeiros. 

 jan. 1996 - Copyright L. C. Freire
FIM

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------


Agora que você conhece a lenda, que tal saber um pouco mais sobre o oiti?

oiti (Licania tomentosa), também chamado goitioitizeiro e oiti-da-praia, é uma árvore da família Chrysobalanaceae que pode atingir entre oito e quinze metros de altura.
            Etimologia
"Oiti" e "goiti" vêm do tupi uï'tï: massa prensada.
Características
Espécie originária da Mata Atlântica, popular em Pernambuco é muito utilizada na arborização de várias cidades brasileiras do Nordeste e do Rio de Janeiro. O seu fruto é uma drupa elipsoide ou fusiforme, de casca enrugada marrom escuro quando madura, com cerca de doze a dezesseis centímetros de comprimento e com caroço volumoso e oblongo. A polpa é doce, pastosa, "areiada" feito uma pinha, enjoativa. Sua aparência externa não é das mais atraentes, muito pelo contrário e a polpa tem uma cor de ocre puxando para o amarelo fosco.

Fruto do oiti
Adicionar legenda

Ocorrência (lugares onde é mais comum)
Na floresta ombrófila densa de Pernambuco até o sul da Bahia e na arborização de cidades brasileiras.
Fenologia (floração e frutificação)
Floresce de junho a agosto. Seus frutos amadurecem entre janeiro e março. No Nordeste encontramos Frutos maduros de janeiro a agosto.
Usos (o que se faz com o seu fruto, suas folhas e madeira)
É muito usada na arborização urbana por sua copa frondosa, que dá ótima sombra. Seus frutos são muito apreciados pela fauna em geral. A sua madeira é de ótima qualidade para diversos usos, como postes, estacas, dormentes e construções civis. Seus frutos são comestíveis, com amêndoas ricas em óleo. Um aspecto notável desta espécie é sua reconhecida resistência aos poluentes urbanos.
Referências
FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.1 218
 
Fontes:
 
Lorenzi, Harri: Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas do Brasil, vol. 1. Instituto Plantarum, Nova Odessa, SP, 2002, 4a. edição. ISBN 85-86174-16-X
Para finalizar, que tal plantar uma árvore?