ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Quando o anjo vira demônio - a professora que traumatizou uma vida

 

Sala do Colégio Dante Aleghieri, em 1934, há 88 anos...


📷 QUANDO O ANJO VIRA DEMÔNIO - HISTÓRIA DE UMA PROFESSORA QUE TRAUMATIZOU UMA VIDA

Ao longo da minha vida, orientei inúmeros Trabalhos de Conclusão de Curso, os famosos TCC’s. Um deles me marcou muito por um detalhe contado pela universitária. Sua pesquisa era na área da Educação Infantil, portanto, num dos capítulos ela discorria sobre a relação de afetividade que as crianças desenvolvem com os seus professores, os quais são verdadeiros deuses, amados e idolatrados.

Ela contou-me um fato passado com ela no ano de 1981, quando cursava o 3º ano primário, aos nove anos de idade. Como é comum, sua professora era a sua deusa, quase uma mãe devido ao sentimento de amor e afeto que sua pureza de criança dispensavam à professora. Ela adorava imitar a professora, pegava um pente e demorava horas imitando o jeito que ela alisava os cabelos. Tudo o que a professora fazia era bonito.

Todos os dias, assim que a professora adentrava à escola, ela corria e procurava uma forma de ajudá-la... carregar sua bolsa, os cadernos, os livros,  ou qualquer coisa que a sua deusa trouxesse a mais. Ajudá-la era tão prazeroso que ela se realizava, como se aquele pequeno favor a tornasse uma espécie de filhinha da professora. Aquilo era-lhe uma espécie de proteção. Mesmo que não tivesse algo para carregar e ajudar a mestra, o simples fato de acompanhá-la era parecido com comer um doce dos mais deliciosos. 
 
Quando a sua deusa chegava à sala dos professores - local proibido para alunos -, ela se realizava, como se a tivesse trazido no colo e a deixado em seu panteão sagrado. Então ela se afastava, mas sempre atenta à campainha, momento em que a professora se dirigia à sala de aula. Outra oportunidade que a pequena menina tinha para se deliciar em sua companhia. Era esse xodó a vida inteira.

Na realidade outras crianças disputavam a mesma deferência para com a professora. Uns mais, outros menos. A maneira amorosa como a universitária me narrava isso me impressionou muito. Confesso que quase quis conhecer a sua professora, a qual, nesse interim, caminhava para a aposentadoria, creio. Lembrei até da minha, embora não fui assim. Meus mimos eram eventuais: levava flores e algumas vezes doces caseiros ou os deliciosos pães feitos por minha mãe. Exceptuando isso, apenas o respeito devido. Nada mais.

Pois bem, mas como dizem que nem tudo é perfeito, essa história não terminou bem. Foi justtamente por isso que insisti para que essa universitária contasse  essa sua experiência no seu capítulo de memórias escolares, pois ela viveu um trauma terrível justamente com uma professora primária. O fato a impactou ao ponto de, mesmo adulta, não suportar ver a autora do trauma que ela carregou para a vida. Disse que quando cruzava com ela em supermercados, igreja e ambientes públicos, se sentia mal. A cena vinha como o clipe de um filme...

Ela relutou em colocar tais memórias no TCC. Disse que a professora poderia ler, lembrar,  e se ofender, então estaria ressuscitando defunto e arrastando problemas para ela. Então expliquei que, muito embora fosse quase impossível a professora ler, isso não seria maior do que a importância do registro, pois  a sua história seria útil para muitas pessoas. Despertaria reflexões. Ela aquiesceu. Mas o que houve? Como uma história tão linda de amor ao professor se transformou num trauma, sentimento que foi ensinado na pática pela professora.

Eis o enredo. Como acontecia quase todos os dias, ao término das aulas os alunos saiam agarrados com os professores. Diariamente ela se sentia realizada ao acompanhar a sua professora até o portão da casa dela. Admirava o jardim e a varanda. Seu sonho de consumo era entrar naquele espaço que era meio o céu. Mas jamais ousou sequer pedir para ver o jardim. Mal se aproximava da casa a professora já ia se despedindo dela. Um dia o galho de uma planta ornamental sobraçou o muro, permitindo que a menina pegasse uma flor. Essa flor foi colocada dentro de sua bíblia e se tornou um objeto de adoração. Era como se a professora tivesse representada ali.

Com o passar dos meses ela ensaiava pedir para ver a casa da professora, pelo menos a sala. Queria ver como era o espaço onde sua adorável professora vivia. Queria comparar com a casa dela, ver os detalhes da sala, da cozinha, do alpendre... mas não conseguia nem gaguejar a proposta. Assim que se aproximava da calçada, ela tentava falar, mas não conseguia. O pedido soava como a violação de um espaço sagrado. Era a casa da professora. A professora era uma deusa, então a menina não podia decifrar aquele mito.

Ao aproximar-se o mês de dezembro, ela percebeu que o seu sonho não se realizaria, pois no ano seguinte iria para o 3º ano e teria outra professora. Foi então que num determinado dia ela comeu mais feijão que de costume e teve coragem. Vinha caminhando como sempre, ao lado da professora amada e idolatrada, sua deusa, quase uma mamãezinha. Assim que pisou na calçada, disse “professora, me dá um copo d'água" (foi a desculpa para depois pedir para ver a casa). Naquele tempo ela ainda não sabia dizer “copo com água”. Na sua cachola, pensou que a professora gentilmente entraria com ela e serviria o copo com água dentro daquele templo dos deusas sagrados. seria a oportunidade de esquadrinhar cada milímetro.  Mas que surpresa amarga… Mal ela fechou a boca a professora disse, aliás, urrou “NÃO!!!!!!! VÁ BEBER ÁGUA EM SUA CASA, MENINA!!!!!

Coloquei a frase em caixa alta para ajudar a amplificar a estupidez como a professora respondeu à criança, aliás, a monstruosidade como ela se expressou. Ela disse isso num rompante, com caras e bocas de gente má, com feição de ódio, como se um demônio tivesse entrado nela. A universitária explicou que além das palavras estúpidas, a fisionomia de maldade no rosto da professora a assustou. A atitude abrupta da professora fê-la travar. Seu coração quase saltou pela boca. Foi literalmente uma metamorfose instantânea. O anjo virou demônio num segundo. A pequena saiu em disparada para a sua casa. A horripilante surpresa a fez engolir o choro, o coração palpitava, as pernas ficaram bambas… ela não via a hora de chegar perto da mãe. Foi como fugir do demônio.

Ao chegar em casa não quis almoçar. Ao entardecer, não quis fazer a tarefa, pois tudo o que era da escola, de repente se tornou a face da professora. Face assustadora. Face mal. A mãe a viu amuada e não deu muito cartaz. Eram vários filhos e não tinha tempo para especialidade. Se contasse talvez apanhasse ou levasse um corretivo “não tinha nada que pedir água na casa de ninguém!”. Durante a noite não dormiu direito, pensando em se encontrar logo cedo com o monstro… aliás… com a professora. Foi torturante, segundo ela.

O dia amanheceu. Os deuses vaticinaram para que ela queimasse em febre, sendo poupada de ir para o inferno… aliás… para a escola. Mas no dia seguinte não houve como evitar. Teria que dar de cara com o demônio… aliás... com a professora. Segundo ela, foi uma das experiências mais amargas e difíceis de sua vida. Aliás, tudo mudou em sua vida. Deixava a casa no horário de sempre, mas ficava de longe, escondida atrás de um muro, aguardando que todos entrassem. Quando a campainha tocava ela se imiscuia com os outros e se espremia até a sala. Queria ser invisível.

Quando viu a professora, teve um choque. Desapareceu toda a aura doce e maternal. Era uma presença de espinho. A menina mudou o lugar de sentar. Escolheu os fundos e passou a ficar sempre de cabeça baixa, evitando ser vista e se envolver em qualquer atividade com a turma. Durante o recreio se comportava da mesma forma. Buscava formas de desaparecer. A menina feliz, cheia de vida, que brincava com o vento, se tornou amedrontada, opaca, triste, esquisita...

O ano passou, ela reiniciou a terceira série com outra mestra, mas ainda trazia o ranço da série anterior, pois sempre se reencontrava com a professora que incorporou o demônio e destruiu a sua infância. 
 
A universitária disse que nunca se esqueceu daquilo. Segundo ela, foi traumatizante. Ela iniciou a série seguinte com muita dificuldade, pois queria se aproximar da nova professora, mas sentia medo. Então se tornou uma aluna fria. Aquele seu espírito alegre, a vontade de se envolver em tudo, seja nos trabalhos escolares, nas gincanas, festas escolares... morreu. A imagem dos professores se tornou diferente. Como se a qualquer instante um demônio fosse vomitado. Ela temia dar vazão à sua alma alegre, extrovertida porque tinha receio de descobrir monstros escondidos nesses professores. Houve um bloqueio. Foi difícil.

Essa história me foi contada em 1998. Resolvi transferi-la para o papel porque ela serve de reflexão. Com certeza o TCC dessa universitária, que fica disposto na Biblioteca Universitária, foi lido por muitos e serve de termômetro. Essa universitária nutre até hoje um forte receio dessa professora, que hoje está aposentada e tem até netos. Ou seja, passaram-se mais de trinta anos e a estupidez da professora - que, diga-se de passagem, passou anos sendo ministra da eucaristia -, ainda ecoa nas lembranças de uma aluna, sem que ela sequer imagine o trauma que causou.

Como teria sido diferente se ela tivesse sido delicada com sua aluna e a chamado para entrar, mesmo que fosse até a varanda, tendo lhe servido um copo com água, dito que teria outras ocupações e dado tchau com educação. Era uma professora. Precisava continuar educando. Crianças são curiosas. Mas são crianças. Faz parte delas. Mas o gesto de um segundo destruiu quase toda a vida da criança que se tornou adulta e arrastou o trauma.

Depois, tendo conhecido a professora pessoalmente, percebi de fato se tratar dessas pessoas passáveis, que não vieram para fazer a diferença, e que jamais deveriam ter escolhido a nobre missão de professora. Ainda bem que ela é uma exceção. ELA NÃO ERA UMA EDUCADORA. O problema é que pode existir outras exceções por aí.

Essa universitária também explicou que até mesmo na universidade sentia uma espécie de receio das pessoas, principalmente professores e a equipe técnica. Ficava apreensiva, temendo que alguém pudesse assustá-la com rompantes estúpidos. Temia dar opinião, fazer perguntas, discordar, concordar... Procurava ‘pisar em ovos’ ao se dirigir às pessoas. Passou muitos anos com esse comportamento, que também se estendeu a outros segmentos da sociedade.

Percebi que a natureza extrovertida, cheia de vida e inteligência dessa universitária ainda sobrevivia, mas sob capas. 
 
Pois é... quem bem pensar, jamais fere uma criança. Essa história nos faz imaginar quantas pessoas existem por aí cheias de traumas, algumas até com desequilíbrios, seja em consequência de pais monstros ou professores monstros. Essa é uma história real. Fiz questão de publicar para que pessoas sem a convicção de que professor deve ser também um educador,  jamais devem chegar perto de uma criança.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021


CURIOSIDADE SOBRE A NOSSA BRASILEIRA AUGUSTA...


Dia desses, revisitando minhas velharias, dei-me com um detalhe que ainda não havia percebido. Notei quando ampliei a imagem. Constatei num velho livro de Auguste Comte uma dedicatória que o referido filósofo francês fez à nossa conterrânea. Curioso perceber que, em data posterior, ela o dedica, em francês, ao irmão, Joaquim Pinto Brasil. Anos depois, um tal Rufino A. de Almeida, dedica a mesma obra a um amigo: Miguel Gomes Teixeira Mendes. É assim... os livros vão transcendendo o tempo, encantando e reencantando quem tem o poder de entendê-lo e olhá-lo por outros ângulos. Foi o meu caso...

 

 

 

A imagem dos nordestinos nas novelas da Rede Globo - Estigmas eternos...

 

A IMAGEM DO NORDESTINO NAS NOVELAS GLOBAIS…

Nessa quarentena tenho usado o tempo para ler, escrever, lapidar textos e pesquisar. Antes da janta, ligamos a televisão para saber das notícias locais. É a hora que quase sempre vejo trechos aleatórios da novela “Flor do Caribe”. A história se passa numa praia do Rio Grande do Norte e quase sempre Natal e Parnamirim são citadas. Confesso que me incomoda ver essa tradição que a Globo tem de estigmatizar o nordestino em detrimento dos personagens outras regiões do Brasil. Vale a pena divulgar o Rio Grande do Norte se estigmatizam o seu povo?
 
Quem acompanha entenderá bem. Refiro-me a maneira abestalhada como alguns atores interpretam os personagens nordestinos. Usei o termo “abestalhado” por ser um vocábulo nordestino, e não encontrar sinônimo que traduza melhor o meu pensamento. Dói no ouvido o sotaque esdrúxulo que nunca vi aqui, seja no interior ou na capital, seja no homem rural, seja no homem urbano. Seja no homem simples, seja no homem sofisticado.

Gente abestalhada existe em todos os lugares do Brasil. Não é uma exclusividade do Nordeste. Mas a Rede Globo normalmente pinta com essas tintas estigmatizantes apenas os seus personagens nordestinos. Você não vê com a mesma frequência um abestalhado do sul, sudeste, centro oeste etc. Mas vê com frequência uma safra próspera  de abestalhados do nordeste. A coisa mais rara do mundo é um abestalhado de outra região.

A imagem do povo nordestino precisa ser pitoresca, engraçada, abestalhada, pobre, analfabeta ou semi-alfabetizada para estar numa novela global. A “Flor do Caribe” traz uma mensagem “velada” que diz ser necessário vir alguém de outro lugar do Brasil para fazer com que os nordestinos enxerguem os seus valores, seu talento, sua cultura, reconheçam suas tradições, descubram uma forma de ganhar dinheiro na sua própria terra natal etc etc etc. Parece que só quem raciocina são os personagens do eixo Rio/São Paulo. A Globo vende a ideia de que somente gente do eixo Rio/São Paulo têm o poder de comandar, delegar, ter visão etc.

Normalmente o nordestino é tosco, bruto, ignorante, enfim sempre tem um ranço daqueles senhores de engenho, coronéis e capitães do mato do passado. Há uma exaltação ao personagem perverso, tipo o pai de Tieta, ou o Major Antônio Morais do Auto da Compadecida. A aura de Lampião, ou seja, do cangaço, também é visível com facilidade nas novelas e filmes.

Outra faceta é o nordestino bonzinho, resignado, resiliente, sofrido, que vive dando o outro lado da face para ser esbofeteado. Aquela pessoa que de tão coitadinha, todos têm pena.  Quase sempre muito pobre e mal vestida. Quase sempre envolta num cenário de velas, igrejas, procissões e santos. Outro material abundante para novelas e filmes globais retratando o Nordeste, são hipocrisias ao estilo retratado por Dante Alighieri. Que o diga a personagem “Perpétua” de Tieta. A antiga novela “O bem amado” é maciçamente estigmatizante... São muitas. Lembrei vagamente desses exemplos que me deram na telha neste exato momento.

Nunca se vê uma novela ou filme retratando o Nordeste com personagens milionários, pegando helicóptero na porta de casa, morando em mansões, condomínios nobres, donos de empresas, donos de shoppings, donos de rede de lojas e nível nacional, homens de negócios fora do Brasil, ou um cientista conceituado, enfim não se vê gente sabida e bem sucedida (homem ou mulher), delegando tarefas a seus colaboradores, viajando de jatinhos, comprando diamantes enfim, ao nordeste sobrou uma mistura de engraçado, pitoresco, abestalhado, paupérrimo e sempre necessitado de um empurrão de gente de fora. De preferência do  RJ/SP.

Conta-se nos dedos um personagem nordestino muito bem sucedido. Confesso que não me lembro nesse momento de alguém com esse perfil. Talvez algo um pouco parecido se deu com Suzana Vieira, na novela Senhora do Destino. Parece que um personagem rico e milionário não cabe num nordestino. Quando aparece, vem de uma história muito sofrida. Tem que haver muito sofrimento para ambientar melhor o enredo. Outro tipo de nordestino não funciona pra Globo.

Então, retornando a “Flor do Caribe”, confesso que não sei os nomes dos personagens, pois assisto alguns trechos eventualmente. Vejo um rapaz perdido no tempo, cheio de valores, mas que não percebe a si próprio, sotaque esdrúxulo (não sei onde ele se inspirou), comportamento abestalhado. Precisou aparecer uma moça do Rio de Janeiro para, com muito esforço, fazer com que ele acordasse e reconhecesse os seus próprios valores etc. Você que acompanha a novela saberá identificar tudo o que escrevi aqui. Nessa novela há muitas nuanças dessa imagem estigmatizada do nordestino. Não é só esse caso.

Outro detalhe: quando o ator ou a atriz já são nordestinos de nascimento, raramente interpretam personagens muito bem centrados, muito bem sucedidos. Ou seja, como já são nordestinos por excelência, resta-lhes apenas treinar o grau de abestalhamento. Sempre são os personagens que nos fazem rir, o palhaço ou a palhaça da novela, sempre pitoresco, enfim com típicos estigmas.

As pessoas precisam saber que o nordestino não é só pitoresco. Nem é predominantemente isso. Gente simples, humilde, com sotaque diferente, com um dicionário de palavras típicas de sua terra etc existe em todas as regiões do Brasil. Gente engraçada, esquisita, abestalhada, tosca, bruta existe nacionalmente.

Quem viajar, por exemplo, pelo oeste paulista se deparará com cada personagem que não difere em nada do famoso Jeca Tatu, ou do Mazzaropi, ou do Barnabé. Estou sendo preconceituoso? Não. estou dizendo que esses perfis estigmatizados existem em todo o Brasil, mas a Globo elegeu o Nordeste como uma espécie de almoxarifado para os seus personagens abestalhados.

Quem viajar pelo interior do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul etc encontrará tipos brasileiros impressionantes. Material fascinante para novelas, filmes, libros etc. Não são abestalhados. São frutos de uma riqueza de culturas que não existe em outra parte do mundo. Mas mesmo assim elegeram o nordestino como material exclusivo para personagens com idiotia.

Não entendam que estou enaltecendo o capitalismo - ou insinuando que uma pessoa pobre não pode ter requintada educação de berço -, mas aqui no próprio Rio Grande do Norte mesmo existe um dos homens mais ricos do Brasil, existem donos de redes de loja em nível nacional, donos de cadeias de supermercados que atendem o estado inteiro, altos executivos, modelos internacionais, escritores notáveis, fabricantes de queijos finos que são enviados para o mundo inteiro, músicos que fazem escola na Europa,  cientistas que dão aula em Harvard, escolas cujos alunos dialogam em três idiomas, profissionais de diversas áreas altamente eficientes,etc. Em Natal existem edifícios e condomínios que não  perdem em qualidade arquitetônica  para nenhum outro lugar do Brasil. Aqui mesmo ao lado de casa, existe um dos edifícios mais altos e sofisticados do Nordeste. O Nordeste tem, sim, seus personagens pitorescos, suas coisas regionais, mas tanto quanto qualquer estado. O nó da questão é que os autores de novelas não enxergam o nordestino com o perfil de gente empoderada, bem resolvida, protagonista da própria vida, visionária enfim.

Eu queria ver uma novela global que deixasse um pouco essa mania estranha de retratar personagens do eixo Rio/São Paulo (principalmente) como típicos vencedores, pessoas bem resolvidas, que falam o que querem, delegam e até esnobam. Isso é um desserviço. É preconceito. É ignorância. É estúpido. Os novelistas só funcionam para enaltecer o RJ e SP, tendo o nordestino como os seus bobos da corte, que estão sempre prontos para calçar os seus sapatos ou estender tapetes vermelhos...

As máscaras e a surdez

MÁSCARAS ENSURDECEDORAS

Ontem, conversando com uma moça com deficiência auditiva, ela me contou que, com o uso obrigatório de máscaras, está ficando quase louca, pois ficou incomunicável. Ela tem um problema auditivo considerado raro. Sua audição é quase zero e o aparelho auditivo não lhe devolve a mínima audição. O nível dela é H.90.5, ou seja muito baixo na escala dessa deficiência.

Perguntei qual a melhor forma de ela entender o que as pessoas falam e ela explicou que é só através dos lábios, ou seja, vendo as pessoas falando. Esclareceu que quando vê alguém conversando ela faz a leitura labial com tranquilidade, mas sem a máscara não há comunicação. As pessoas falam e ela fica olhando, constrangida. É necessário que ela faça sinal, pedindo que o seu interlocutor tire a máscara e aí surge outro problema, devido a Pandemia.

Outra forma de comunicação é pela escrita, mas ninguém anda com um papel e caneta na mão para se comunicar com pessoas com deficiência auditiva, portanto ela se vê obrigada a carregar em sua bolsa blocos e canetas. Disse que é muito constrangedor, pois percebe que alguns se incomodam quando ela entrega o papel e tenta explicar o seu problema.

Outro desafio é o Whatsapp. Quem não a conhece, manda áudio. Mesmo que ela aumente o volume no último, não ouve nada. Então ela manda para um amigo, que ouve e se auto-filma falando na linguagem de sinais. Então ela entende tudo. Só a partir daí ela responde a pessoa que mandou a mensagem. Mas responde através da escrita. É difícil porque tem que incomodar alguém, às vezes a pessoa demora a ver a mensagem para retornar a tradução. Situação complicada. Todos deveriam se colocar no lugar dessas pessoas para ajudá-las de alguma forma.

Ela também explicou que ouve a voz humana, mas muito baixa, longe e incompreensível. É mais uma leve vibração que um som. Já usou aparelho, mas ele apenas amplia esse som esquisito, sem oferecer nada em termos de compreensão da linguagem falada. Esclareceu que a leitura labial foi um processo construído naturalmente e que é tão eficaz que justifica os políticos tampando a boca quando falam no ouvido de seus pares e não querem que alguém saiba. Assim como os jogadores de futebol.

Como ela é muito brincalhona, explicou que já aconteceram vários casos de ser atendida em local público, por várias pessoas, e alguns, pensando que ela ouve som alto, dizem para o outro: “fale muito alto porque ela é mouca”. Não adianta tentar explicar que não é necessário gritos, pois a própria linguagem labial lhe satisfaz. Mas as pessoas agem assim.

Contou que é professora e está imaginando quando retornar as aulas e encontrar toda a comunidade escolar com máscaras. Será impossível se comunicar com os alunos, ou melhor, entender o que eles falarão.

Sobre sua vida docente, explicou que quando era mais jovem ouvia um pouco melhor a voz humana, e embora não compreendesse a palavra falada, pelo menos o som que escutava - somado aos movimentos labiais e até mesmo a expressividade facial -, permitiam que ela entendesse com clareza o interlocutor. Mas o barulho contínuo do ambiente escolar, principalmente durante o recreio, lentamente foi zerando essa sua capacidade de ouvir - mesmo com dificuldade -, os sons.

Segundo a professora, quando os paredões de som dos políticos passam defronte à sua casa, ou carros de som de propagandas comerciais, ocorre uma vibração no seu cérebro que quase a faz perder os sentidos. É torturante para ela.

Diante de tudo isso imagino o quanto estamos atrasados, pois a Constituição Brasileira reza que a língua brasileira de sinais (Libras) foi reconhecida como a segunda língua oficial do Brasil em 2002. Cada país apresenta sua própria língua de sinais, assim como apresenta suas línguas faladas. Toda criança deve aprender essa segunda língua, pois são muitos professores na condição dessa professora que me contou o seu dilema. Mas a maior parte das secretarias de educação sequer sabem disso, ou não se preocupam. E o resultado é esse que acabei de escrever.

Já existe para vender protetores faciais de acrílico e também máscaras com um recorte em plástico transparente. Já que ninguém investe no ensino da segunda língua oficial do Brasil, que pelo menos fornecessem essas duas peças às salas de aula cujos professores fossem deficientes auditivos. Assim os professores  com essa condição fariam a leitura labial tranquilamente, sem riscos à saude de ninguém. Como já disse, precisamos nos colocar no lugar do outro. A professora desse fato é uma pessoa altamente competente, mas se vê impotente diante da falta de visão, e até mesmo de respeito, da parte de autoridades que podem reverter esse quadro e não fo fazem.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Pirangi do Sul, Nísia Floresta, 1972...

 


Pirangi do Sul, Nísia Floresta, 1972...

Há 48 anos... as tradicionais jangadas pincelavam de branco as águas esmeraldas de Pirangi do Sul, área litorânea de Papari. Nesse tempo as casas eram de taipa, ora cobertas de palhas, ora de telhas. Algumas se faziam de palha do chão ao teto. Tudo se configurava sob as matizes da simplicidade. Nem todos apreciavam a praia. O auge da descoberta das praias se deu nos anos 80. Essas imagens bucólicas traduzem toda a simplicidade do época. São verdadeiros recortes poéticos de um tempo que esses paraísos começaram a ser descobertos pelo próprios nativos, e se tornaram cidades, inclusive perigosas. Hoje não lembram mais o Éden do passado... em quase nada... O bicho-homem chegou ali e espantou os nativos, fê-los desaparecer, dilapidando esse paraíso...
 

Isabel Gondim, uma história quase esquecida...

 Isabel Gondim, uma história quase esquecida...

Isabel Urbana Carneiro de Albuquerque Gondim nasceu no dia 5 de julho de 1839, num lugarejo paradisíaco que atendia pelo portentoso nome de “Vila Imperial de Papary”, depois Papari, e atualmente Nísia Floresta, no estado do Rio Grande do Norte. Esse município também é berço de nascimento de outras figuras notáveis, como a própria Nísia Floresta (nascida 29 anos antes de Isabel Gondim, inclusive nunca a conheceu), Dr. Antonio de Sousa (o Polycarpo Feitosa, célebre escritor e ex-governador do RN), Tarquínio Bráulio de Souza Amaranto (jurista notável), Socorro Trindade (escritora) e outras figuras.

Isabel Gondim era filha do tenente-coronel e professor Urbano Egydio da Silva Costa Gondim e Albuquerque, e da dona de casa Isabel Deolinda de Mello Albuquerque Gondim. Isabel era neta do ex-governador Inácio Borges (Governador Regente da capitania do Rio Grande, nomeado por D. João VI de Portugal, Brasil e Algarve no período de 1816 a 1821), cuja filha ele teve com Clara Monteiro de Mello, avó de Isabel Gondim.

Isabel Gondim cursou as primeiras letras com o famoso professor Manuel Laurentino Freire de Alustau Navarro, que exerceu o magistério em Papari durante toda a sua vida (estou escrevendo sobre ele, qualquer hora publico). Ela foi poeta, educadora, dramaturga, ensaísta e autora de livros didáticos. Segundo contemporâneos dela, tinha dons especiais para a literatura. Seus livros foram muito adotados nas escolas públicas até o início do século XX. O governo os comprava em quantidade e os destinava aos educandários mais organizados do estado. Naquele tempo a Educação era um caos.

Em 1873, Isabel Gondim escreveu Reflexões às minhas alunas indicado nas escolas femininas. O livro tinha o cunho moralista analisando os vários momentos da vida feminina: da menina em fase escolar, da moça em puberdade, da moça em sua juventude, da mulher casada e da mulher mãe. A escritora Nísia Floresta Brasileira Augusta, sua conterrânea, nascida 29 anos antes dela, havia escrito um opúsculo com o mesmo título. Na realidade, Isabel passou a publicar só quando se aposentou.

Isabel Gondim foi a primeira mulher eleita sócia efetiva do Instituto Histórico Geográfico do Rio Grande do Norte e do Instituto Arqueológico de Pernambuco. Ela costumava promover saraus em sua residência em Natal. A escritora é a patrona da cadeira n. 8 da Academia Norte-rio-grandense de Letras. Os seus poemas publicados em jornais foram reunidos no livro A lyra singela. Seu longo poema ufanista e romântico O Brasil, teve grande repercussão de público. Nesse poema a escritora louvou as belezas da pátria amada. Coincidentemente, Nísia Floresra também havia publicado uma obra com esse mesmo título, bem antes.

Em 1865 morre o seu irmão Luiz Gonzaga de Albuquerque Gondim, aos 16 anos de idade, e nesse mesmo ano morre o irmão Urbano Gondim, em Santa Catarina, em combate, durante a Guerra contra o Paraguai. Em 1866 Isabel presta concurso para professora, é aprovada e assume a seguir numa escola da Ribeira.

Em 1869 morre o seu irmão Joaquim Leodegário de Albuquerque Maranhão Gondim, aos 28 anos de idade. Em 1874 morre a sua mãe Isabel Deolinda, aos 54 anos de idade, devido a uma inflamação estomacal. Em 1880 morre o irmão João Carlos de Albuquerque Gondim, aos 37 anos de idade. Ele foi professor em Papari e vilas vizinhas, mas apresentou problemas mentais, foi para o RJ fazer tratamento morrendo pouco depois. Em 1882, morre o seu pai Urbano Egydio, aos 77 anos.

Em 1883 Isabel foi eleita correspondente do Instituto Arqueológico e Geográfico do Pernambuco. Em 1891 ela se aposenta. Em 1928 Isabel torna-se sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Em 1903 publica a primeira edição da obra “O Brasil: Poema Histórico do País''. O lançamento se deu no palácio do Governo, numa cerimônia pomposa. Esse poema, antes de ser transformado em livro, foi declamado por ela, na presença do governador Ferreira Chaves, durante as comemorações do quarto centenário do Brasil. Isabel tinha uma queda por eventos públicos, usando-os para dar vazão à sua verve de poetisa.

Em 1908 publica “Sedição de 1817 na capitania ora estado do Rio Grande do Norte”. É uma obra histórica preciosa, pois ela teve a oportunidade de recolher depoimentos de contemporâneos dos fatos, inclusive uma parente idosa, dona de uma mente privilegiada, que narrou em detalhes tudo o que ouviu do pai, então tio-bisavô de Isabel Gondim, padre João Damasceno Xavier Carneiro (tornou-se padre depois de viúvo). Ele colaborou com o famoso André de Albuquerque Maranhão, peça principal da revolução de 1817, no Rio Grande do Norte.

Esse movimento pretendia a independência do Brasil e a instauração do regime republicano. Na realidade havia outros integrantes de retaguarda. Eram todos homens importantes, os quais faziam reuniões secretas no Engenho Belém, em Papary e no Sítio Ribeiro, de propriedade da família Gondim.

Foi no Engenho Belém que pegaram Inácio Borges, avô de Isabel Gondim. durante uma emboscada. Foi daí que André assumiu o governo para depois ser morto num contexto romantizado como a história de Tiradentes. Esse episódio de 1817 também afetou Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, pai de Nísia Floresta Brasileira Augusta, que era português, portanto detestado, interpretado pelos revolucionários como um possível representante da Coroa Portuguesa na região, muito embora isso fosse uma mera fantasia. A família de Dionísio precisou sair fugida de Papari nesse período.

Em 1909 publica “O Sacrifício do Amor” (peça teatral). Em 1910 reedita “Reflexões às minhas alunas”. Em 1913 lança a segunda edição de “O Brasil: poema histórico do país”. Em 1923 publica “O preceptor”. Em 1933 lança “A lyra singela” (poemas). Isabel faleceu solteira em 1933, ano que completaria 94 anos de idade. A causa oficial da morte foi "arteriosclerose e colapso cardíaco". Seu corpo foi sepultado no Cemitério Alecrim, em Natal.
Em 1934 foi criado no bairro Rocas, em Natal, O "Grupo Escolar Isabel Gondim", que permanece até os dias atuais. Em 1942, em Papari, morre a sua irmã Ana Urbana de Albuquerque Gondim, aos 91 anos. Em 1944, no mesmo local morre sua última irmã Maria Urbana de Albuquerque Gondim, a "Sinhá", também com 91 anos de idade.

Isabel Gondim era católica fervorosa. Tinha uma personalidade enérgica e temperamento forte. Antes de falecer ela redigiu de próprio punho o seu testamento, deixando o seu patrimônio (amealhado ao longo de sua vida profissional junto ao que herdou de sua família, em Papari) dividido entre a sua família e uma parte generosa para a paróquia de Nossa Senhora do Ó, em Papari, hoje município de Nísia Floresta. Em vida empreendeu uma odisseia visando criar uma asilo para crianças em Papari, mas não pode realizar o desejo e a obra nunca existiu.

Dentre os seus bens doados à paróquia de Nossa senhora do Ó, consta dois casarões no centro da cidade. Certamente seus descendentes compraram e doaram a ela no passado, pois são imóveis que originalmente pertenceram a outras pessoas, inclusive um deles, o “Centro Pastoral Isabel Gondim” era a residência do primeiro presidente da Intendência de Papari (prefeito), coronel José de Araújo. O outro imóvel está emprestado atualmente para uma instituição que mantém o “Museu Nísia Floresta”, também no centro deste município.

Isabel Gondim, fazendo jus ao comportamento tradicional da sociedade, no qual a mulher era vigiada como uma criminosa, ao escrever sobre a mulher, dita uma série de conselhos promotores de repressão ao corpo e suas vontades. Bem ao estilo do que pregava a religião. É praticamente um manual de comportamento de uma mulher (criança) descente, tudo em conformidade com o código moral de seu tempo. Impressionantemente ela condena até a rede de dormir, dizendo inapropriada para se demorar ali, pois prejudica o corpo e a mente feminina, provoca apatia.

Outro detalhe curioso, e bem ao estilo das tradições de seu tempo é afirmar que para uma união matrimonial, o homem é quem deve escolher a mulher, ou seja, as mulheres deveriam estar sempre muito bem apresentadas, em todos os aspectos, para ser escolhida. Escolher não era o direito da mulher. Escolher era algo impensável à mulher, e quem o fizesse carregaria a pecha de indecorosa. Talvez por isso sua conterrânea Nísia Floresta recebeu tal condecoração social, pois nas duas vezes em que se casou, escolheu o marido. Não foi casamento arranjado pelos pais.

Na história do Rio Grande do Norte não se fala tanto em Isabel Gondim, apesar de sua importância. É um fator cultural. Mas observei ao longo de quase trinta anos de estudos históricos, que o nome dela é mais repercutido por ter escrito uma carta detratora sobre sua conterrânea Nísia Floresta Brasileira Augusta, que por sua própria obra. E Nísia Floresta, ao contrário, é conhecida internacionalmente.

Essa carta veio a público, pela primeira vez, em formato digital, através de um amplo estudo que fiz entre 1993 a 1996, e pode ser lida no meu blog, intitulado “nisiaflorestaporluiscarlosfreire”, pesquisando por “Nísia Floresta, a carta de Isabel Gondim e outros textos malditos”. Leia também “Carta contestadora, uma resposta a Isabel Gondim”). Esse segundo estudo eu estarei complementando-o nos próximos meses, pois somente a pouco tempo descobri detalhes sobre os intelectuais envolvidos nessa contestação dentre outras informações. 

OBS. Não coloquei a fotografia de Isabel Gondim pela seguinte razão: depois que um vídeo-documentário sobre Nísia Floresta foi distribuído nas instituições educacionais e culturais de Natal - mostrando Isabel Gondim como sendo Nísia Floresta, o erro se alastrou como um tsunami. E como o meu blog se chama "NÍSIAFLORESTAPORLUÍSCARLOSFREIRE", ele aparece com as fotografias que posto. Desse modo aparecerá Isabel Gondim com o nome "NÍSIAFLORESTAPORLUÍSCARLOSFREIRE", portanto não posso cometer tamanha gafe.
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OBS. A quarta fotografia é de José Inácio Borges, avô de Isabel Gondim.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Ayana, a noiva de cabeça para baixo.

 


AYANA, A NOIVA DE CABEÇA PARA BAIXO...

 

    Era uma vez, num país africano chamado Madagascar, uma ilha-continente do Índico, nasceu uma menina diferente de todas as tribos da região. Era branca como neve, seus cabelos eram dourados com mechas pinceladas de ruivo, iguais às faíscas do sol. Sua face louçã  acentuava  a cor de seus olhos, uma incomum tonalidade violácea. Um feiticeiro famoso por nome de Bomani orientou os pais que lhe dessem o nome de Chiamaka, que significa “Deus é lindo”, mas os pais preferiram “Ayana", ou seja, “linda flor”. Pareciam adivinhar alguma coisa…

Toda a população do país era preta, eles nunca haviam visto uma pessoa branca -, portanto várias tribos da região - e até de outros países -, cheias de curiosidade, se abalaram até Belo-sur-Tsiribihina-Tobi, onde nasceu a menina. Queriam vê-la. Houve um princípio de tumulto nos primeiros meses. Os mais jovens defendiam que a criança era uma divindade e outros alegavam o oposto. Logo os idosos, que são muito respeitados, encerraram as conjecturas, alegando que a brancura de Ayana era um fenômeno natural de pele. Então a polêmica se dissipou, muito embora alguns guardaram para si suas impressões sobre a incomum criança.

Apenas um detalhe diferenciava Ayana da meninada de Belo-sur-Tsiribihina-Tobi. Era poupada do sol escaldante, pois sua pele se queimava com facilidade. Com o passar do tempo, perceberam que ela realmente era igual a todos. Brincava o dia inteiro debaixo das árvores, corria na chuva, era alegre e esperta. Todos gostavam dela e Ayana era tão amada quanto as outras crianças. Ninguém mais a olhava como antes, exceto visitantes eventuais. O tempo, como não para, tornou Ayana uma adolescente encantadora. 

Era comum às tribos locais viajarem uma vez por ano até a costa ocidental de Tisombe, onde ocorria o Tanguadê, festa religiosa em louvor à fartura e à fertilidade. Era momento de agradecimentos e pedidos. A participação no evento vislumbrava um ano de prosperidade e o nascimento de novos filhos, que eram bênçãos e sinal de perpetuação das famílias e dos costumes. 

A viagem era longa. Então eles preparavam víveres em abundância e viajavam em lombos de camelos, jumentos, em carroções e até mesmo a pé. A tribo de Ayana cultuava o deus do dia, uma divindade de nome Masoandro, deus que representava uma eterna luta contra a deusa da noite, de nome Volana. Para os cultuadores de Masoandro, a luz do sol representava a sua doação para os povos do mundo, a bonança e a esperança, ao contrário do que representava Volana, deusa da noite, da escuridão, da dispersão e do medo. Para os masoandristas, àqueles que acreditavam em Masoandro, a lua representava uma sentinela da deusa Volana. 

Foi justamente nessa festa que Ayana conheceu Akin, um jovem muito belo. Por alguma razão, o encontro dos dois construiu um fio que, a partir daquele momento, unia suas vidas. Para alguns, esse fio que atravessa a vida dos homens tem o nome de amor. Ambos se apaixonaram. Ayana chamava a atenção a cada passo que dava, o que a impedia de conversar melhor com Akin. As regras religiosas e as tradições daquela civilização milenar não permitiam que os filhos se casassem por iniciativa própria. Eles eram prometidos desde crianças, como um contrato, tanto os homens quanto as mulheres. Um casal se unia em matrimônio a partir de um dote, valor em dinheiro a ser levado para o casamento a partir da quadrigentésima menstruação da moça. Todas elas possuíam um ‘rakun’, pequeno pedaço de couro de camelo furado, como uma tabela, onde controlavam os períodos da menstruação.  

O dinheiro do dote não precisava ser exatamente em espécie, em moedas ou ouro, mas um misto de animais, como camelos, jumentos, cabras, aves, terras e até mesmo roças a colher. Assim rezavam os hábitos da tribo. Mas havia uma complicação mortal que impedia a união entre Ayana e Akin, o rapaz pertencia a uma tribo do extremo sul da ilha, isolada pelo tempo e pelos próprios homens como um povo condenado. A tribo de Akin cultuava a deusa Volana e todos carregavam em suas orelhas argolas de um puro marfim branco, como um sinal de benção lunar. Akin estava em Tisombe apenas como um curioso, atiçado por seus amigos. Seus longos cabelos negros impediam que alguém percebesse a presença de suas argolas. Para qualquer masoandrista isso seria um sinal de maldição. 

Foram trinta dias de celebração ritualística, com muita dança, desafios, batuques, banquetes, adorações e uma infinidade de oferendas aos deuses. Até o protetor de Tisombe estava presente com a sua esposa. O local dos festejos era emoldurado de fogueiras durante a noite, ali se assavam cabras, aves, animais de caça e comidas típicas em abundância. Cada fogueira acesa significava um culto a Masoandro. As chamas  e o calor do fogo sinalizavam um tributo eterno que não poderia ser apagado.

 Foram dias felizes para Ayana e Akin, jovens que se amavam pelo olhar. Akin contava 19 anos e Ayana trazia a sua décima sétima primavera. A festa terminou. Todos retornaram às suas aldeias. Certa vez, num rompante de imensa coragem, Akin se abalou até Belo-sur-Tsiribihina-Tobi para visitar Ayana, dessa vez seus cabelos estavam presos e suas argolas de marfim eram mais que visíveis. Ele sabia dos costumes e da ousadia empreendida, mas o amor fê-lo arriscar. A visita foi interpretada pelos pais de Ayana como uma transgressão e poderosa ofensa à família e principalmente aos deuses, atingindo frontalmente as regras religiosamente respeitadas por todos da aldeia. Ainda mais, o povo volano, cultuadores da deusa da noite, que quando vistos, representavam um mau presságio. 

 Para além dessa confusão, Ayana ainda estava prometida ao jovem Erasto, inclusive o seu magnífico vestido de noiva estava pronto. Era uma peça de tafetá de seda perolada, vinda de Rabat, em Marrocos. O casamento se daria no final daquele ano. Não ficava bem aos costumes locais que um homem estranho visitasse uma moça prometida, principalmente um volano. Akin ouviu dos próprios pais de Ayana, todas as informações necessárias para tentar minar o seu amor, e foram  incisivos, pedindo que ele fosse embora e nunca mais retornasse. Foi um encontro amargo para todos.

Mesmo tomada pela paixão ardente, Ayana reforçou tudo isso a Akin, enquanto o levava até o portão, mas ele disse, sussurrando, que voltaria para buscá-la às escondidas, na próxima lua cheia, à meia noite, na parte detrás do terreiro de sua casa. Pediu que ela colocasse a mão na orelha, acaso concordasse. Ayana consentiu e ele partiu extasiado.

Naquele mesmo dia, o feiticeiro e o sacerdote da aldeia visitaram a família para saber sobre a presença daquele jovem de argolas brancas nas orelhas, chamando a atenção de todos. Eles sabiam das tradições e quem era prometido para quem. O religioso orientou que aquilo não poderia se repetir, pois tais deslizes causavam danos à imagem da noiva, de sua família e principalmente da tribo. Muitos rumores ecoaram na localidade. Os pais de Ayana ficaram profundamente abalados, mas, enfim, os dias se passaram e o constrangimento se abrandou.

Na data e horário marcados, quando Akin retornou para buscar Ayana, deu-se com uma grande surpresa. A aldeia estava em festa. A inocência de sua amada e a efusão do amor, fê-la se esquecer de que a data tratada entre eles era festiva. Ele ficou escondido na mata, dentro da cavidade de uma árvore estranha, único exemplar em toda a região. Chamavam-na de Baobá. Akin imaginou que todos se recolheriam antes da meia noite, então sairia para roubar Ayana, pois sabia que ela o aguardava. Ledo engano. A festa deu sinal de buscar o sol. Então ele retirou a capa que usava, se disfarçou com uns couros que estavam espetados nas cercas de pedra próximas, e se aproximou de onde estava Ayana com os seus familiares. Sua intenção era ter a oportunidade de se comunicar com a sua amada. Por fatalidade um cachorro pressentiu o cheiro diferente e atacou Akin diante de todos, arrancando o seu embuste. Houve a revelação e todos ficaram escandalizados, inclusive os pais de Erasto, o adolescente prometido a Ayana. 

Ali se formou um pequeno rebu. O que anteriormente havia sido uma mera transgressão, agora consistia num direto ataque às tradições e ao deus Masoandro. As famílias precisariam dar um basta na audácia do rapaz, ou toda a tribo ficaria refém, sem a proteção de Masoandro. A intenção daquela visita se tornou nítida. O sacerdote fez logo um sermão, condenando com veemência a atitude de Akin e Ayana. No mesmo instante os pais de Erasto se retiraram, hostilizando a família de Ayana. Naquele exato instante ceifaram qualquer pretensão de laços. O pai de Ayana ficou ultrajado e expulsou Akin, alegando que o mataria se ele retornasse. No mesmo instante todos os rapazes da aldeia investiram contra Akin, ameaçando-o com lanças afiadas. Não restou outra alternativa para o forasteiro que não fosse fugir. Então ele desapareceu na mata enegrecida pela noite.

Ao chegar em casa, Ayana revelou toda a história aos pais e ao sacerdote, pois a vida daquela tribo passava pelo crivo daquele líder espiritual.  Todos eram educados a nunca mentir. Eles sentenciaram que se ela arriscasse qualquer atitude para reatar o relacionamento pecaminoso, todo o seu povo sofreria a ira do deus do dia. Quando o sacerdote se despediu, o pai de Ayana lhe disse que se ela desrespeitasse as orientações, o seu mais provável futuro seria a morte. A mãe sentenciou que a vestiria de noiva e a enterraria viva, de cabeça para baixo. Ayana, com medo acedeu, dizendo que eles poderiam ficar em paz.

O dia amanheceu e um tumulto acordou a cidade. Carregadores de água encontraram próximo dali a ossada de um homem atacado por leões, restando apenas as roupas, duas argolas quebradas de marfim, e um punhal que constava cunhado o nome de Akin. Os pertences do jovem volano foram reconhecidos por alguns rapazes da tribo que o viram em Tanguadê. O sacerdote foi até a casa de Ayana dar a terrível notícia, a moça também reconheceu a roupa do amado. Seu olhar de profunda tristeza e seu corpo quase desfalecido em tremores, contrastava com o ar de matreira felicidade dos pais. Eles aguardavam o acalmar da situação para arriscar resgatar o casamento da filha com Erasto, portanto aquela morte encerrava o grande problema. Assim pensavam.

Foi impressionante o comportamento aparentemente resiliente e resignado de Ayana, a tristeza parecia tê-la radicalizado. Em nenhum momento ela esboçou qualquer reação que contrariasse o desejo de seus pais, embora tudo fosse como uma punhalada cravada em seu coração. Era impressionante a sua serenidade. Mas ela havia tomado uma decisão silenciosa, tão silenciosa quanto a sua promessa de amor a Akin. 

Os dias vindouros foram de aparente normalidade, mas Ayana soube que a aldeia comentava algo muito ruim sobre ela. Muitos alegavam estarem certos quando - no dia de seu nascimento -, supuseram que ela fosse um ser sobrenatural do mal, do caos e da dor. Então passaram a dizer que Ayana representava o início de uma maldição, estaria colocando em decadência a prosperidade da aldeia e traria inúmeros problemas. Os pais de Ayana, esperançosos de que tudo aquilo fosse passageiro, afagaram a filha, tentando dar-lhe alento. Disseram que aquele momento era como atravessar uma tempestade em meio ao deserto, mas passaria rápido. Na realidade, eles a acalmavam na intenção de também sensibilizar os pais de Erasto, resgatando o acordo do casamento. Ayana, como sempre, demonstrou muita doçura ao ouvi-los. 

 Naquela mesma madrugada, assim que os pais adormeceram, ela se vestiu de noiva e demorou horas se maquiando, tornando-se a mais bela nubente que já existiu na aldeia. Parecia a luz do sol ou o resplandecer do marfim branco refletindo a luz da lua. E antes que o sol despontasse os seus primeiros raios, ela trespassou a cerca de proteção da aldeia e adentrou a mata, sem rumo. Mil pensamentos divagavam em sua mente. Não demorou muito, ela se deparou com uma alcateia de leões e se colocou como oferenda. Impressionantemente as feras se comportaram como gatos domésticos, como se ela fosse invisível.

Ayana investiu contra eles, atiçando-os, mas as feras ignoraram todos os seus gestos. Ela seguiu andando, encontrou outras matilhas, deu-se com leopardos, hienas e outros bichos ferozes. Todos lhe eram indiferentes, e pareciam se curvar diante da pálida moça. Exausta, ela começou a andar em ziguezague. A lua cheia refletia em sua vestimenta. Ayana parecia a própria lua resplandecendo na escuridão da floresta.  Não sabia exatamente onde estava. De repente, já amanhecendo, deu-se com o imenso baobá. Nele uma parte abaulada do tronco formava um sulco, permitindo a entrada de uma pessoa. Ayana ali se guardou. No mesmo instante, por ironia do destino, sentiu o cheiro de Akin e pensou estar sonhando. Logo reconheceu a capa que ele deixou quando ali se escondeu. Ela a abraçou como se afagasse o próprio Akin. Ali se pôs a sonhar, mergulhada em seu silêncio.

Nesse exato momento, os pais de Ayana estavam desesperados, procurando-a em toda a aldeia. A notícia de seu desaparecimento correu rapidamente. Todos os homens puseram-se à procura. A busca se arrastou até a noite. No outro dia tudo foi reiniciado, ampliando os lugares, mas em vão. Pessoas de aldeias vizinhas se uniram. Os pais de Ayana perceberam que ela havia vestido os seus trajes de noiva e não entendiam a razão da esdrúxula atitude. Eles não compreendiam como a filha não fora vista por ninguém em tais vestes. Pensaram até no pior, mas nem o vestido, nem a Ayana foram encontrados. 

Dois anos se passaram. Era inverno. A dor era quase a mesma, mas ninguém mais cogitava a possibilidade de Ayana retornar. Nunca sequer a menor pista foi encontrada. Tudo mais permanecia igual, até que a estação das águas surpreendeu a aldeia. Chovia torrencialmente. Nunca havia chovido nessa profusão durante o frio inverno. Veio então a primavera, e do dia para a noite, aquela árvore esquisita - batizada de baobá, e que nunca havia despontado uma flor, despertou como se abrisse os olhos e pincelou-se de lindas flores. A árvore transformou-se num imenso buquê branco cor de marfim, atraindo a atenção de toda a tribo que nunca havia visto algo parecido. A cavidade se fechou naturalmente. Todos correram para tentar entender ao mesmo tempo que apreciavam a beleza. As pétalas, esvoaçantes, eram da cor de seda pérola e seus pistilos traziam a cor de neve permeada de uma tonalidade ruiva nas pontas... 

A perplexidade tomou conta de todos. Não houve quem chegasse ali e não tivesse a mesma impressão. A flor era uma noiva de cabeça para baixo… O vestido era exatamente igual ao de Ayana... a flor era a imagem de Ayana… era Ayana transformada em flor… a flor era Ayana… Ayana era flor… Os seus pais, quando se recusaram a adotar o nome sugerido pelo feiticeiro, batizando-a de Linda Flor, nunca imaginariam que o começo da vida de sua filha já era um prenúncio do seu fim.

Naquele dia o sol se pôs mais cedo. Uma noite de lua cheia e forte ventania se desdobrava no mundo. Nenhuma fogueira da tribo resistiu, e a escuridão imperava, não havia ali nenhuma luz, senão uma forte aurora que parecia brotar de dentro do baobá. Uma densa neblina branca se formava ao redor da grande árvore e começava a correr com o vento pelas ruas daquela tribo, carregando folhas secas e a atenção dos locais, era tudo como uma dança, como se um véu de noiva passeasse por entre o mundo. Ninguém acreditava no que via. E por três longos dias a luz do sol não apareceu, só havia a dança da neblina irradiada pela forte luz da lua.

 Dali em diante, em todos os anos, durante a primavera, tudo se repetia, e a estranha árvore se transformava num buquê, atraindo todos os animais alados. Logo as abelhas passaram a produzir um mel de sabor delicado. As corujas se multiplicaram. E por três dias imperava na longa noite a dança da branca neblina, cercando a aldeia com um fulgor próprio. Cada vez as flores eram mais viçosas.  A beleza do baobá contrastava com os arbustos acinzentados, e a árvore passou a produzir cápsulas contendo sementes enormes envolvidas em polpa saborosa. O seu suco curava doenças e promovia a fertilidade. Era a única árvore daquela espécie em toda a África. Nunca havia florido, então floriu Ayana. 

Os pais de Ayana guardavam no coração um forte remorso, então o sacerdote de Belo-sur-Tsiribihina-Tobi acalmou-lhes, explicando que tudo aquilo fora uma profecia que passou a se cumprir em dois momentos. O primeiro foi quando eles a batizaram de Bela Flor. O segundo se deu com o encontro entre Ayana e Akin na festa de Tanguadê, na costa ocidental de Tisombe, o longo ritual que tem como finalidade a busca por prosperidade e fertilidade. O Baobá então seria o receptáculo final daquele vaticínio, seu maktub. A árvore surgiu na aldeia. Única em toda a Àfrica. Nunca havia florido, pois aguardava o cumprimento da profecia. Ayana veio para ser flor, trazer prosperidade, fertilidade e vida. Mas nunca alguém conseguiu explicar aquela branca neblina que dançava pela tribo, muito menos a longa noite de três dias que despertava sempre após o florescer do baobá. 

Essa história comoveu a África. Todos agora queriam as sementes daquele baobá. Reis e sacerdotes de várias tribos africanas, inclusive o faraó do Egito cuidou de produzir mudas. Todos queriam conhecer Ayana. Todos queriam as bençãos de Ayana. Suas sementes saíram daquele Continente e chegaram à Austrália, despertando o plantio de baobás. Assim, lentamente, Ayana se espalha pelo mundo. Assim os baobás viajaram para outros continentes, simbolizando o amor puro e verdadeiro. Mas só ali, na tribo que viveu Ayana, durante três dias do ano o sol não é visto, nenhuma fogueira é acesa, e a única luz existente é a da neblina branca como aurora que reflete o clarão da lua, branco como o marfim. Maktub… L.C.F. 28.12.20.




sábado, 26 de dezembro de 2020

Vereadores de Natal deveriam respeitar o povo e o momento crítico em que vivemos...

 

VEREADORES DE NATAL AUMENTAM OS SEUS SALÁRIOS DURANTE A PANDEMIA...

Em tempos de Pandemia o vírus da vergonha não chegou à Câmara Municipal de Natal. Indagorinha assisti - sem acreditar - uma reportagem na TV Cabugi, sobre o reajuste de salário dos vereadores natalenses, aprovado ontem. Uma vereadora, por nome Nina, declarou que alguns deles não estão conseguindo sequer ter um plano de saúde e “precisam correr para o SUS”. Quer dizer que um vereador não pode recorrer ao SUS? Por quê? Tem muita gente sem conseguir pagar uma cesta básica. Que plano de saúde é esse? Isso fala por si. Não seria melhor que eles lutassem pela qualidade do SUS?
O Projeto teve 17 votos favoráveis e 5 contrários, e só valerá a partir de 2022. Esse aumento é previsto apenas para 2022, porque a lei aprovada pelo Congresso Nacional garantindo auxílio financeiro para os estados - proibiu o poder público de conceder qualquer vantagem, aumento ou adequação de salários até 31 de dezembro de 2021. Então os sentinelas dos privilégios e da insensatez correram contra o tempo, pois se deixasse para 2021, não poderiam garantir o portentoso salário. Interessante como são eficazes nesse assunto.
Atualmente, os vereadores ganham R$ 17 mil, em salário bruto. Então o salário passaria a ser de R$ 19,5 mil. Se não conseguem administrar esse alto salário, significa que não estão preparados para a função que ocupam. A referida vereadora disse que os vereadores natalenses não têm "auxílio paletó, auxilio alimentação, auxilio saúde" e que "muitos não têm condições de ter plano de saúde. Tem que correr para o SUS". O SUS por acaso é o inferno? Por quê? Ela também declarou "Eu não tenho vergonha de ter votado esse aumento que vai dar R$ 1.600, porque eu mereço, eu trabalho, eu produzo para Natal”.
Quer dizer que produzir para Natal dá o direito de ignorar o problema econômico que já é sentido devido a Pandemia? Dá direito de imprudência diante dos abalos na Economia Nacional? Lembrem: vocês foram eleitos pelo povo porque se propuseram a trabalhar pelo povo. É dever moral. Por que não entrega o cargo?
Os vereadores que votaram contra foram: Eleika Bezerra (PSL), Franklin Capistrano (PSB), Ana Paula Araújo (PL), Júlia Arruda (PCdoB) e Divaneide Basílio (PT). Independente de ideologias políticas, agiram com coerência.
Os vereadores ainda aprovaram uma emenda de autoria da vereadora Nina, garantindo que apenas os vereadores que assinarem um requerimento à Casa, solicitando o reajuste, terão aumento. Quem não solicitar, receberá o atual.
É lastimável vivermos num país cujas próprias autoridades - salvas as devidas exceções - não são civilizadas, pois se o fossem teriam sensatez. Não estariam dando risada na cara da maior parte do povo natalenses. Muitos sequer recebem um salário mínimo. O número de mendigos aumentou em Natal. Deveriam estar voltados para isso. Em novembro o Supremo Tribunal Eleitoral mandou todo mundo para a rua votar, ao invés de adiar as eleições para 2021, alegando ser inconstitucional. Certamente é constitucional espalhar o vírus da morte? A conta chegou. O mínimo que esperamos de um vereador é civilidade.
Os vereadores natalenses deveriam ter respeito diante do que estamos vivendo. Pela lógica os primeiros anos vindouros serão mais difíceis, devido às sequelas da Pandemia na Economia. Não é momento de aumentar salário. Agora estão querendo que o povo pague os seus planos de saúde? Já não basta um salário tão alto? É muito vergonhoso. Caras de pau!
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OBS. Muito desagradável, num momento de Natal precisar escrever isso, mas a vida não para.

Mensagem de Natal: "Melhor que ter Natal é ser Natal"...

 
 MELHOR QUE TER NATAL, É SER NATAL...
 

Embora o Natal tenha uma mensagem única para a humanidade, espiritualmente falando, tenho o meu modo particular de entendê-lo. E não não penso sozinho, pois na estrada da vida, percebo muitas pessoas que buscam esse mesmo Natal. Não sei se estou certo, mas esse sentimento se formou ao longo dessa travessia, e quero compartilhá-lo.

Entendo o Natal como uma transformação pessoal. E isso tem que ser levado a sério. Natal é um renascimento interior. É o dia que viramos uma página para sempre. A página daquilo que não foi bom. Na realidade, o sentimento de Natal deve ser o sentimento do ano inteiro, mas a data do Natal é a oportunidade maior para um renascimento individual, pois todas as intenções cristãs estão voltadas para o amor. É como um vírus. Uma contaminação de amor.
O Cristianismo ensina que Jesus de Nazaré veio para salvar a humanidade, então o dia de Natal é o dia de renascer em nós essa salvação, pois é um sentimento individual, e deve ser permitido ou não pelas pessoas, as quais são livres. Mas como? E o que é salvação?
Salvação, humanamente falando, é a prática do bem sem olhar a quem. É viver diariamente esse amor que todos falam. É praticá-lo. Não é apenas “jogar palavras ao vento”, como escreveu o padre Antonio Vieira, há quase 500 anos. Salvação é o amor concreto e não apenas palavras, as quais, por mais que possam refletir o interior de quem escreve, pode ser uma aparência. Não é fácil praticar esse renascimento. Precisamos buscá-lo sempre.
O homem e a mulher reúnem todas as condições físicas e mentais para compreender e praticar esse amor. Todos podem praticar o amor, mesmo recebendo injustiça. Receber injustiça não é regra. É incomparável quem dá amor e quem dá ódio. Uma frase antiga e de efeito parece piegas, mas explica sabiamente essa capacidade humana: “damos o que temos”.
Não é fácil praticar esse renascimento diante das relações humanas, as quais algumas vezes são conflituosas. O stress da vida pode alterar - algumas vezes - o nosso interior e permitir atos que não são comuns à nossa personalidade. Mas aí entra o perdão. Pedir desculpas traduz uma alma nobre, deixa-nos leve como plumas ao vento. Todo ser humano erra. Até os mais lapidados.
O amor tem uma tendência natural a contaminar. O amor faz bem e é perceptível em coisas extremamente simples. Tão simples que às vezes nem percebemos. O amor desarma hostilidades. O amor anula sentimentos pequenos. E esse amor é o renascimento que tanto falamos no Natal. É melhor praticá-lo que falá-lo. É essa a salvação que o Natal vem nos dizer.
Há formas infinitas de sermos Natal: não fazer distinção alguma em termos de respeito ao próximo, buscar o bem comum, se colocar no lugar do próximo, dar atenção às pessoas, ouvi-las, inclusive as que vivem à margem da sociedade, olhar no olho de quem nos fala, praticar caridade anonimamente, silenciar diante de algo que é dito com intenção de ferir, ensinar o que sabemos, fingir que não ouviu algo que pode gerar problemas, guardar segredos que podem gerar conflitos, lembrar que na maioria das vezes uma das maiores provas de amor é o silêncio, oferecer ajuda, fazer por onde tornar melhor o ambiente onde vivemos e trabalhamos, tornar bonito os ambientes físicos, onde reunimos pessoas, doar-se a alguma causa que transforma pessoas, ensinar o que sabe, nos policiar principalmente diante daqueles que, mesmo sem querer, ofendemos; buscar caminhos para que os outros possam ter dignidade, dar a vara de pescar, mas antes dar o peixe, pois a fome tem pressa… São são tantos Natais que podem ser cotidianos...
Natal é oferecer amor aos loucos, aos imbecis, aos dementes… pois até mesmo quem não reúne condições psíquicas de entendê-lo, são capazes de reagir amorosamente. O amor dilui qualquer mau. Natal é exercício constante. Amor é exercício constante. Somente razões patológicas poderiam explicar hostilidades ao amor, mas mesmo assim, precisamos seguir dando o que possuímos dentro de nós. É muito importante renascermos o verdadeiro Natal dentro de nós para nos salvarmos. Ele é tão contagiante que pode inspirar os outros nessa salvação pessoal - e social.
Tudo o que fazemos tem eco. Se espalho o mal, o mal me vem. Se espalho o bem, ele vem triplo, quádruplo, décuplo… É exercício. Não existem pessoas perfeitas, mas é fácil tentarmos diariamente sermos pessoas melhores. Isso é exercitar o Natal. Natal é para dentro. Não é para fora. Busquemos ser Natal...
A vida é um sopro, um pavio… travessia rápida demais, e às vezes as fatalidades até adiantam as nossas partidas, como vimos, agora, durante a Pandemia. Deixar para reparar amanhã os erros de hoje pode ser tarde. Podemos partir, levando-os, ou os outros poderão partir, deixando-os. Por que não renascer então. É tão possível ser Natal. Melhor que ter o Natal é ser Natal... Luís Carlos Freire, jan. 2013.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

PARNAMIRIM PARA O BRASIL - UTILIDADE PÚBLICA... AJUDE-ME A ENCONTRAR UMA FAMÍLIA DESAPARECIDA...

 

PARNAMIRIM PARA O BRASIL - UTILIDADE PÚBLICA...
AJUDE-ME A ENCONTRAR UMA FAMÍLIA DESAPARECIDA...
 
Aqui pertinho, abraçando Natal, mora a senhora RITA FERREIRA DA SILVA, de 80 anos de idade, mineira, residente em Parnamirim, município divisado com Natal. Ela não vê os seus familiares há mais de sessenta anos. Pesquisando histórias antigas com pessoas idosas, descobri por acaso sua história. A tristeza como ela narrou, me tocou, pois me coloquei em seu lugar. Já entrei em contato com pessoas de Minas Gerais, pois acredito que compartilhando essas informações com o máximo de pessoas da região de dona RITA, é possível localizar alguém e realizar o sonho dela. Ela contava com dezessete anos de idade quando saiu de Minas Gerais e nunca mais viu familiar algum.Ela não tem ninguém por ela. Tem casa, é aposentada, mas é praticamente solitária, pois a única filha é doente. Na realidade, ela é só. Não há como não ser em sua situação.
Preciso muito da sua ajuda, enviando isso para emissoras de rádio, jornais impressos e digitais, padres, escolas, pastores de igreja, associações, enfim, para órgãos e pessoas da localidade dela, as quais podem identificar a família dela e ajudar. Meu nome é Luís Carlos Freire. Meu e-mail é: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com.br – OBS. Estou mandando os meus dados porque a referida senhora não é alfabetizada. RITA FERREIRA DA SILVA nasceu em GRAVATÁ/MG. É plenamente lúcida, mas não sabe explicar se o lugar era um distrito, bairro, povoado, vila etc. No bojo de sua fala, ele se refere a lugares como, NOVO CRUZEIRO, alegando que faz parte de TEÓFILO OTONI, que, segundo ela, ficava perto de ARAÇOARÍ. Ela foi registrada em GOVERNADOR VALADARES (tudo isso é MINAS GERAIS), então supostamente esses lugares podem ter parentes dela.
Disponibilizo, aqui, muitas informações que colhi, as quais ajudam muito. RITA FERREIRA DA SILVA é filha de VIRGÍNIA FERREIRA DA SILVA e MANOEL FERREIRA DA SILVA. Ela não se lembra com exatidão dos nomes dos avós, apenas do Sr. JOSIAS, avô por parte de mãe. Seus pais tiveram mais de dez filhos, mas sobreviveram: MIGUEL, JOAQUIM, JOSÉ, JOÃO, BASTIANA (que deve ser Sebastiana), CLEMÊNCIA, MARIA e ANA. Dona Rita disse-me que uma tia, por parte de pai tem o nome de BASTIANA (teve todos os filhos com sérios problemas de visão). Ela casou-se com o irmão de uma senhora chamada RITA.
BASTIANA, sua tia, teve os seguintes filhos: LIRA, CUSTÓDIA, MARIA JOSÉ, TERESA E “JOÃO VÉIO”. Os seus tios por parte de mãe são: EMÍLIA, JOANA e GREGÓRIO. Dona Rita recorda-se de um vizinho chamado pelo apelido de “ANTÕE VÉI”. Na sua comunidade existia a Igreja de Nossa Senhora do Carmo. O pai de dona Rita possuía um extenso sítio, no qual plantava café, cana e arroz. A região possuía um rico fazendeiro conhecido como JOAQUIM VICENTE.
Em 1954 ela deixou o seu lugarejo, aos 14 anos, quando Getúlio Vargas morreu. Foi para BELO HORIZONTE trabalhar com a família da Srª Maria das Dores. Ela foi indicada por uma senhora que levava moças do interior para trabalhar em casas de família da capital. Lá passou dois anos, depois foi para casa de Dona Alice. Ao todo, permaneceu mais ou menos cinco anos em BELO HORIZONTE, capital de Minas Gerais.
Em BELO HORIZONTE conheceu MANOEL CONSTANTINO DO NASCIMENTO, que era do RIO GRANDE DO NORTE. Então ela passou a viver com ele, engravidou, e foi passar uns dias na casa dos pais. O marido foi até Vitória da Conquista, na Bahia, procurar serviço. Depois veio buscá-la, mas deixaram o filho deles, o qual já havia sido batizado na igreja local como DIMAS. Os padrinhos foram JOÃO – irmão dela – e a sobrinha por parte da irmã MARIA que se chamava Clemência. O marido pediu que ela deixasse o filho com seus familiares, pois viria buscá-lo após conseguir um emprego e se organizar melhor, mas quando isso aconteceu, ela pediu que ele buscasse o filho, ele alegou que era melhor o menino permanecer mais algum tempo onde estava, pois em outro momento o buscaria, ou seja, DIMAS, seu filho pode estar vivo em Minas Gerais, pois o pai nunca quis buscá-lo, e deu outro rumo à história de dona Rita.
O casal foi morar em VITÓRIA DA CONQUISTA, Bahia, depois morou, de passagem, em MANGALÔ. Em MANGALÔ, duas irmãs dela (BASTIANA: casada com JOÃO “VALEIRO” e CLEMÊNCIA: casada com JOSÉ “VALEIRO”) moraram na fazenda de Vital Amorim (Valeiro é o profissional que faz valas, que servem de divisão de terra, na impossibilidade de se fazer cerca de madeira e arame). Assim que ela e o marido chegaram ao Rio Grande do Norte, no ano de 1955, instalaram-se em Parnamirim, à época, um acanhado lugarejo pertencente à Natal, onde não conhecia ninguém. Pouco tempo depois seu marido a abandonou, grávida. Hoje ela tem uma filha adulta, mas com problemas.
Perguntei à dona Rita se ela nunca pediu ajuda a alguém para localizar a sua família. Ela alegou que há mais de vinte anos conta a sua história para muita gente, e pede ajuda. Disse que uma vez bateu na porta de um vereador, outra vez de um advogado e outras pessoas, mas todos sempre dizem “espere em Deus”... “vai dar certo”... “uma hora a senhora encontra eles”. Nunca fizeram nada concreto.
Com certeza absoluta existem pessoas vivas em sua família. Quem sabe até algum irmão, pois alguns são bem mais novos do que ela, mas, independente disso, ela deve ter sobrinhos vivos. Se você, que lê isso, compartilhar ou enviar para lugares que sua criatividade lhe atentar, (inclusive se você conhecer pessoas de Minas Gerais já é um caminho), quem sabe conseguiremos dar essa felicidade a essa senhora tão solitária e saudosa de sua família. Esse mesmo texto já postei em sites de pessoas que procuram parentes desaparecidos, já enviei para diversos lugares de Minas Gerais, mas com certeza, quanto mais compartilharmos e espalharmos essa informação, mais possibilidade há de localizarmos essa família.
Em 1986, no Mato Grosso do Sul, consegui juntar familiares de uma senhora pernambucana que não via a sua família há 30 anos. A técnica que usei, naquele tempo, foi cartas escritas a todas as paróquias e cartórios mencionados nas localidade que a pessoa me informou. Também escrevi para a Prefeitura. Lembro-me que pouco tempo depois, o telefone tocou. Minha mãe atendeu. Era o padre de uma paróquia de Pernambuco. Ele havia lido a minha carta após a celebração da missa. Então uma pessoa que estava presentes se aproximou do padre e disse “eu sou o irmão dessa pessoa”. Enfim a família se reencontrou.
Como sempre digo, há tanta gente nesse mundo usando suas energias para fazer o mal, perseguir pessoas gratuitamente, ao invés de servir ao próximo, fazendo algo que dê sentido à vida. Algumas dessas pessoas falam em Deus a cada segundo. Seria bom que elas praticassem Deus. Acredito que a melhor oração é o exercício do bem despretensioso e anônimo. Há muitoas formas de praticar Deus. Se um dia encontrarmos os familiares de dona Rita, a minha felicidade será maior que a dela.Tenho muita esperança disso, mas a sua ajuda é preciosa. POR FAVOR, COMPARTILHE, DIVULGUE ONDE PUDER, POIS TODOS OS LUGARES POSSÍVEIS JÁ ENVIEI... SE ENCONTRARMOS ESSA FAMÍLIA, FAREMOS UMA GRANDE FESTA...
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OBS. Para não expor a pessoa, preferi ocultar a sua imagem e o seu endereço. O mais importante são as informações. Através de mim, se alguém tiver uma luz sobre essa história, iremos até a dona Rita. Posso enviar a fotografia pelo privado, acaso alguém tenha interesse de tomar iniciativa junto aos lugares aqui mencionados. Nesse momento de Pandemia, não terei contato com ela.