ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

terça-feira, 22 de junho de 2021

Psicopatas quase invisíveis entre nós, é importante nos precavermos...

Personagem Norman Bates (Psicose)

PSICOPATAS QUASE INVISÍVEIS ENTRE NÓS - É IMPORTANTE NOS PRECAVERMOS...
 
Com o episódio desse rapaz psicopata fazendo estragos - brincando com a polícia de Brasília e Goiás - permitindo que o Brasil assista de camarote ao despreparo das polícias - lembrei-me de um livro que li há uns dez anos, intitulado “Mentes Perigosas”, de Ana Beatriz Barbosa da Silva. A obra esclarece que, diferente do que eu pensava até àquela ocasião, há muitos tipos de psicopatas. Há os que matam e os que prejudicam drasticamente outras pessoas, imputando-lhes marcas indeléveis.
Como uma das características desses doentes é a total indiferença aos sentimentos alheios, quando não matam, eles produzem estragos irreparáveis sem qualquer piedade ou compaixão. É muito importante tentar identificar um psicopata, pois em o identificando, você se precave. Nem todos são perigosos iguais a Lázaro, mas incomodam muito.
 
Segundo a especialista, os psicopatas também se encaixam no perfil de pessoas com histórico de enganadores, usurpadores, corruptos e outros submundos humanos. Gente que pede um cartão de crédito emprestado, faz uma compra do tamanho do mundo e desaparece, deixando o prejuízo. Gente que cria situações de piedade e compaixão para consigo, visando se beneficiar materialmente e até a ‘tripa gaiteira’ do próximo sem externar qualquer pista de sua trama. Gente que cria uma cadeia de estratégias, coloca todos contra todos e simula também ser uma vítima, sendo beneficiada por alguma razão. Gente que constrói um namoro de internet, com impressão 100% de idoneidade, e à primeira oportunidade saqueia tudo o que o (a) outro (a) tem. babões e puxa-sacos são exímios psicopatas, pois eles são capazes de tudo para tirar de seu caminho quem ameaça o seu trono perante os chefes. A maioria das pessoas corruptas são psicopatas. É muito grande o rastro de destruição e danos causados por psicopatas, de acordo com os estudiosos.
 
Engana-se quem pensa que psicopatas são única e exclusivamente assassinos como Lázaro. Psicopatas/sociopatas também são aqueles que compram o corpo alheio para sevícias, que oferecem dinheiro e emprego a troco de sexo, que compram pessoas diante de sua incapacidade de conquista por intermédio da beleza, da palavra, do charme etc. Outros psicopatas amam fazer o outro sofrer, amam machucar psicologicamente, pois isso o alimenta. E cumprem esse papel com maestria, pois é sua especialidade. 
 
A psicopatia, segundo a estudiosa acima, obedece a níveis. Uns são elevados, outros médios, outros mais fracos, portanto, dependendo da ação do psicopata, constata-se tais níveis. O psicopata que não mata, tende a levar outros à depressão, ao suicídio, à loucura, ao sentimento de inferioridade ou subserviência. Alguns atingem uma capacidade tão inusitada de persuasão, que tornam outras pessoas uma espécie de escravos e serviçais, cuja vítima não se dá conta. Ele jamais entra numa situação se não preparar muito bem o terreno para que a sua investida seja certeira. Sua tendência é dizimar, destruir, prejudicar, usar o próximo e seguir a vida como se nada tivesse feito, sempre atrás de nova vítima. Por psicopata entendam - obviamente - que me refiro a homens e mulheres.
 
Você talvez estranhe, mas uma parcela de políticos brasileiros, pessoas poderosas, autoridades com cargos de chefia são psicopatas/sociopatas de carteirinha e transitam bem na fita sem que seu intento seja notado com a notoriedade que deveria. Falta a muitos desses senhores o senso de responsabilidade moral ou consciência. Eles normalmente chegam ao poder às custas de tramas, por ter passado alguém para trás sem que isso tenha sido percebido, pois muitos são doces e aparentemente gentlemanes. Eles são especialistas em puxar tapetes, tirar pessoas (obstáculos) do caminho, babar alguém etc. No caso dos políticos, eles prometem que, eleitos, mudarão a vida do bairro, da vila, da cidade, mas quando eleitos, desaparecem e se associam ao poder podre, pois o seu objetivo camuflado sempre foi esse. No caso dos políticos, eles mudam de cidade ou correm para um condomínio para se afastar dos que o elegeram e, com certeza, o incomodariam muito.
 

 
Enquanto o político sério, exposto ao povo, se dedica a criar políticas públicas que tragam cidadania ao seu povo, o político psicopata/sociopata cria blindagens para que o povo não chegue a ele, tudo isso às custas de uma rede de babões. Tais indivíduos são meticulosos em arquitetar situações para sempre dar a entender que não tiveram culpa, que são inocentes, que houve engano diante de qualquer indício, enfim sempre saem bem na fita. Uma mente sã, por mais inteligente que seja, não reúne condições dessas artimanhas, dessas coisas ladinas, dessas argúcias, pois a mente sã não tem o desvio psicopático.
Psicopatas são muito inteligentes, boa parte é extremamente vaidosa (entendam por vaidade uma gama de coisas, nem sempre a aparência física). Eles têm uma inteligência especial, mesmo dentro de suas limitações e até mesmo na sua falta de limites. Por inteligente não entenda apenas um intelectual, um erudito, mas quem reúne, dentro de suas limitações, esperteza, visão, lógica, malícia etc. E tais características não tem sexo, cor, condição social etc. O psicopata tem espírito de liderança, ele convence facilmente, pois normalmente é muito articulado, possui bom vocabulário, aparenta ser muito humano etc, pois são tais características que atrairão vítimas. O psicopata só tende a matar - ou desaparecer de cena - quando a casa cai, quando é encurralado, daí ele vai aos extremos. Ele é 8 ou 80. Mas mesmo assim, é sereno para tentar ter o comando da situação. Ele não perde o controle. Aliás, estar no controle é a sua busca constante.
 
Psicopatas costumam arrastar para o seu lado pessoas que de fato são respeitáveis, pois isso agrega valor à sua pessoa e aos seus intentos. Psicopatas costumam arrastar instituições para o seu lado, é por isso que vimos tantos escândalos envolvendo igrejas, agremiações esportivas, Ong’s, etc. É exatamente por reunir tais artimanhas que muitos sociopatas chegam facilmente ao poder como vereadores, prefeitos, deputados, senadores e até mesmo presidente (como o atual exemplo).
 
Dia desses eu conversava com uma historiadora entristecida pela decadência dos festejos juninos de sua cidade. Ela dizia - nostalgicamente - que a festa junina do lugar onde nascera tinha se transformado numa “coisa”. O evento é religioso, pois Santo Antônio é o padroeiro do município. Ela contou que antes havia fogueiras durante todo o mês de junho, pau de sebo, brincantes de quadrilhas que dançavam todas as noites, brincadeiras juninas diversas, fogos de artifício, leilões, todo o tipo de gastronomia feita à base de milho, grupos de cantores etc. Mas a essência da festa tinha morrido. O evento, agora, era comandado pelas grandes marcas de cervejas e outras bebidas alcoólicas, shows gigantescos com bandas de outros estados tomaram o espaço dos artistas da terra, a cidade ficou pequena para tanto carro estacionado nas calçadas, cujos jovens amanheciam o dia bêbados pelas proximidades, vomitando, dormindo nas calçadas, fazendo sexo praticamente explicito debaixo das marquises etc.
 
Eu usei o mesmo raciocínio aplicado aos psicopatas;sociopatas para explicar para essa amiga o que causava aquilo. Disse-lhe mais ou menos assim “minha querida, eu também sinto muito, mas tudo isso é uma soma de culpas. Na realidade os maiores culpados são as autoridades, a começar pelos próprios padres que cedem ao clamor do capitalismo, dos modismos, do marketing. Esses sacerdotes, assim como os psicopatas, estão interessados num bem maior, e no caso dos padres, esse bem é o dinheiro (quanto mais, melhor). Eles fingem não perceber o estrago que fazem. São indiferentes, pois são sociopatas/psicopatas.
 
Por que eles não se empenham em fazer o diferencial? Por que não chamam o povo e perguntam “como era antes?”, “vamos resgatar essas tradições?”, “vamos reunir as autoridades, os comerciantes, os fiéis e resgatar essa festa com as características de antes?” etc. E os vereadores da cidade? Com certeza eles tem conhecimento dessa perda da identidade da festa. Por que eles não se empenham em resgatá-la nos conformes tradicionais? Ninguém está falando de congelar/engessar o passado, mas de preservar um patrimônio. Isso é eterno.
 
Se a cultura popular de sua cidade está morrendo, há uma gama de sociopatas/psicopatas culpados. Eles são indiferentes à sua nostalgia, assim como o psicopata Lázaro é indiferente a tudo o que faz. E estão preocupados em ganhar o excelente salário no final do mês, e mais nada. As suas lembranças do passado, a sua saudade, a sua vontade de resgatar as fogueiras, o pau de sebo, as quadrilhas etc são preciosas para todo o povo, mas não importam para eles, pois não lhe dizem nada. O foco do psicopata - nesse caso - é o dinheiro oriundo de sua articulação política. Esse mesmo raciocínio é usado para os prefeitos e assim sucessivamente. Eles não querem saber que aquele evento precisa ser restaurado, pois do jeito que está, está bom para ele. Ele ganha dinheiro com isso. Para ele está bom. O seu sentimento não lhe importa.
 
Pois bem, não pense que Lázaro está sozinho nesse universo de psicopatas/sociopatas. Há muitos Lázaro por esse mundo afora executando atrocidades talvez encobertas, talvez em vias de explodir, talvez já explodida e assim por diante. Psicopata também é quem rouba a dignidade dos outros, quem tira a paz do próximo, quem destrói vidas alheias por calúnias e outras injustiças etc. E o pior psicopata é aquele que é capaz de tudo isso sem ser notado. Como já disse acima, há níveis até de sua maldade e artimanha.
 
Os políticos e certos chefes - com as sua devidas exceções - são craques nessas práticas, pois são indiferentes ao posto de saúde sem remédios, à mulher que morreu de parto à míngua, às ruas esburacadas, a falta de emprego, aos jovens que se drogam nas praças, ao aumento de prostituição, o povo com fome etc etc etc. A dor do povo não lhe provoca a mínima piedade e compaixão, pois ele é um psicopata/sociopata. Antes de ter medo dos psicopatas mostrados nos filmes - normalmente ao estilo “mindhunter” - pode existir nesse exato momento um psicopata ao seu lado, em casa, no trabalho, governando a cidade, na polícia, dando aulas, exercendo mandato político, conduzindo um juri, chefiando, sendo chefiado etc etc etc.

domingo, 20 de junho de 2021

Grupo Escolar Barão de Mipibu, Grupo Escolar "Nysia Floresta" - Breves curiosidades...



GRUPO ESCOLAR NÍSIA FLORESTA, GRUPO ESCOLAR BARÃO DE MIPIBÚ  - BREVES  CURIOSIDADES...

O "Grupo Escholar Barão de Mipibu, conforme vocabulário de época, foi Criado oficialmente em 1909, a partir de uma lei promulgada pelo governador Alberto Maranhão, que sucedeu o escritor nisiaflorestense Antonio de Souza, autor da lei de 1908, que mandava criar escolas no estado. O decreto informa que o citado prédio se localiza na "Praça Tavares de Lyra". Não sei se o nome original resiste, mas a  edificação resiste praticamente intacta. Antonio de Souza foi "o governador  da Educação". Sua gestão foi marcada  por criações de escolas e diversas leis pertinentes.  O belo e famoso edifício consiste numa das mais belas obras da arquitetura local. O prédio foi mandado construir pelo famoso "Barão de Mipibu" (Miguel Ribeiro Dantas, seu nome de batismo), o homem nais rico da localidade, residente no Engenho "Lagoa do Fumo". 

 


O Barão inspirou-se num decreto de 1872, que orientava que os Presidentes de Intendências construíssem Casas de Instrução Públicas, portanto adiantou-se bastante. Foi homem de visão. Até hoje o prédio  exerce o papel de educandário. Já o prédio de Papari não conta com o mesmo desvelo, e não tem mais a função de escola. O "Grupo Escholar Nysia Floresta" também foi criado em decorrência da lei assinada por Antonio de Souza, mas em 1910, conforme decreto do governador Alberto Maranhão. A letra Y foi uma viagem mental, pois Nísia sempre escreveu o seu nome com i. Tanto o Grupo Escolar de Mipibu quanto o de Nísia Floresta tiveram os seus Regimentos Escolares tais quais o do famoso "Grupo Escholar Augusto Severo", de Natal, este criado em 1908 pelo governador Antonio de Souza. 

 

Percebe-se na fotografia um letreiro em alvenaria, em alto relevo, informando "Grupo Escholar Nysia Floresta". Acaso o letreiro tivesse sobrevivido, não seria visível haja vista a parede da antiga Câmara (ao lado). Por que teriam escrito de um lado impossível de ver? Porque originalmente o prédio foi erguido numa esquina, mas um prefeito descaracterizou o amplo largo da Matriz, pincelando boa parte desse espaço com comodozinhos de péssimo gosto, destruindo o estilo colonial da cidade. Como sempre digo "ignorância é um câncer". Mas pelo menos conservaram o 'esqueleto' do prédio. A edificação pertenceu ao Coronel José de Araújo,  primeiro presidente da Intendência da então "Vila Imperial de Papari". Originalmente era sua residência. Em 1992 uma antiga moradora de 90 anos de idade, bisneta do "Cavaleiro da Rosa", contou-me que o conheceu pessoalmente, e que ele assistia missa da janela de seu casarão. Era senhor de engenho e integrante da Guarda Nacional. Irmão de Accúrcio Marinho, que também era da Guarda Nacional. Um dos critérios para integrar essa respeitável corporação era justamente ser gente de muitas posses. 

 


Retomando as informações sobre o "Grupo Escholar Barão de Mipibu", julgo conveniente registrar três ex-diretores dessa instituição como meus primos legítimos. MARIA DE LOURDES PEIXOTO, gestora na década de 1940 e também na década seguinte. Contam que era uma educadora na mais pura acepção da palavra. Fazia "milagres" para tornar o ambiente acolhedor e com características mais pedagógicas. Muito rígida. Praticamente morava dentro da escola, pois sua casa ficava atrás do Grupo Escolar. Essa residência ainda existe. Fixa atrás da antiga Apami. Uma tia me contou que ela mandava fazer comida em sua casa e oferecia gratuitamente às crianças humildes, sem fazer disso qualquer alarde. Era devoradora de livros, e tinha coleções de Monteiro Lobato, Teodoro Sampaio, Câmara Cascudo e outros notáveis escritores. Lutou muito para que Mipibu tivesse o curso ginasial, conseguindo sensibilizar  o governador, tornando-se inclusive sua primeira diretora.

 


 Contam que seu sepultamento foi marcado por profunda consternação, pois era muito querida e respeitada. TAMIRES ÍTALO TRIGUEIRO PEIXOTO, gestor na década de 1990. Nada sei sobre sua gestão. Era historiador. Sei mais sobre a pessoa dele, que sobre seu trabalho junto ao Barão de Mipibu. TAMIRES, foi um homem de uma honradez e decência incríveis. Era espírita. Pensava  mais  nos outros do  que  nele. Também foi  gestor da Escola Estadual Francisco Barbosa. Foi um educador muito respeitado. JOÃO MARIA FREIRE, gestor no final da década de 1990. 

 

Também não sei muito sobre sua gestão, mas recordo-me que um dia ele me contou ter conseguido tombar o prédio, em conformidade com as leis de Patrimônio Histórico/IPHAN e teve o cuidado de conseguir contemplar o prédio do Barão de Mipibu num projeto da Telemar, cuja fotografia do mesmo passou a figurar nos antigos cartões telefônicos em todo o Brasil. Ele também foi secretário de educação de Mipibu.

Escola Estadual Nísia Floresta na década de 70







 

 

quarta-feira, 16 de junho de 2021

Licor de casa vai à praça

                                                     

                                                       Licor de casa vai à praça

 Como já andei discorrendo aqui, minha mãe foi dessas mulheres muito prendadas. Não digo que ainda é porque os seus 89 anos de idade lhe impossibilitam do luxo desses empreendimentos gastronômicos. Hoje vou escrever sobre os seus deliciosos licores. Cresci sentindo o cheiro de suas alquimias, numa cozinha espaçosa onde ela arquitetava pratos doces e salgados, incluindo os seus maravilhosos licores. O preparo dessa iguaria era um verdadeiro ritual.
 

 
Normalmente ela fazia licores de jaboticaba, maracujá e pequi. Ela retirava a polpa do maracujá e deixava um mês curtindo num litro de cachaça da boa. Para a jaboticaba, ela espremia as frutas com as mãos ou uma "mão de pilão" pequeno, machucando-as bem. Os pequis eram mergulhados inteiros na aguardente. Tudo macerado durante um mês ou até mais tempo numa vasilha de plástico guardada no escuro. Ela dizia que usar faca para manipular as frutas mudava o sabor. O sabor do licor tinha compromisso com mãos e escuridão. 
 

 
Após um mês ou mais, ela coava a mistura, que nesse estágio estava colorizada pela fruta. Usava uma peneira. Depois coava três vezes num pano de prato de tecido, em seguida coava em algodão (desses de farmácia), ajeitado num funil improvisado no bico de uma garrafa (é melhor que o funil tradicional, pois permite despejar a maior quantidade do líquido e esperar sem vigília, depois é só despejar mais). Esse estágio demorava bastante, às vezes três a quatro horas, mas retirava as micro partículas, uma espécie de borra. Eu fiz o licor há uma semana, só não passei pelo processo do algodão. Usei um filtro de papel e vi o efeito semelhante, pois ficou a borra preta no fundo (fiz de jaboticaba).
 
 
 
Minha mãe, assim como o meu pai, não bebiam álcool, mas ela gostava de ter licor em casa para oferecer às visitas. Lembro-me que eram dois dedos da iguaria despejados num calicizinho delicado, parecido com uma tacinha. Certa vez um padre italiano, recém-chegado da Itália nos visitou. Ela ofereceu o licor de pequi. O sacerdote ficou impressionado e quis saber que fruta era aquela. Admirada com a admiração do religioso, minha mãe o colocou para experimentar os licores de jaboticaba e maracujá. O padre ficou maravilhado e saiu dali levando uma garrafinha cheia. Minha mãe tinha dessas delicadezas.
Na cidade havia a ordem religiosa das Pobres Servas da Divina Providência com várias freiras e noviças. Elas usavam um hábito religioso beje, cuja saia se estendia abaixo dos joelhos, meia-calça e um sapato preto de salto sutil. Sobre a cabeça carregavam o cornete. A maioria era italiana. 
 
 
Pois bem, passados poucos meses da visita do padre, minha mãe atendeu umas palmas exageradas vindas do portão, era a madre Carmela Perlim, uma italiana conhecidíssima por sua sisudez e hábitos não muito socializáveis. O assunto da visita era sobre o licor. Curiosamente, anos antes, ela havia pedido a possibilidade de a minha mãe ir à casa delas ensiná-las a fazer pão. Não é estranho uma italiana não saber fazer pão? Pois elas não sabiam. Minha mãe foi e tudo deu certo. Qualquer dia conto esse episódio muito curioso, pois fui com a minha mãe, tendo em vista que era doido para ver como era a casa das freiras. Cada um dizia uma coisa e eu queria me certificar. Mas isso é outra história.
 

 
Voltando ao assunto, minha mãe acertou com ela, e na data aprazada iniciou, vamos dizer “a aula”. Inicialmente ela machucou as frutas e deixou-as mergulhadas na cachaça. A Ir. Carmela comprou uns doze litros de cachaça, e disponibilizou bastante jaboticabas, maracujás e pequis, pois queria ter a iguaria em abundância para eventos especiais. Minha mãe passou mais de um mês indo de vez em quando na casa delas, pois era um romance esses seus licores. Parecia mais um ritual. Quase um dogma, e no bojo desse vai-e-vem, ela ficou sabendo que o padre havia comentado com as freiras sobre a experiência da degustação que fez em casa, ficou encantado e para elas o encantamento.
 
Um mês depois (observe como o líquido está quase preto devido ao curtimento)

Pois bem, após um mês de maceração, ou seja, das frutas curtindo na cachaça, minha mãe retornou para dar continuidade. Contarei como é o processo, pois lá em cima apenas iniciei a receita da senhora Maria Freire, e é necessário concluí-la. Minha mãe pegou da peneira e coou cada uma das vasilhas onde as frutas descansavam. Pegou do pano de prato e coou três vezes, depois deixou-os nos funis improvisados para coar em algodão, tipo um relógio do tempo. Como essa etapa é muito demorada, minha mãe pediu que elas fossem despejando o líquido curtido ao longo do dia, conforme fosse descendo e foi para casa. 
 
 
 
No outro dia ela retornou, separou todos os vasilhames com os respectivos líquidos, despejou a quantidade exata de açúcar em cada um, orientou que tudo permanecesse guardado em ambiente escuro durante um mês. E novamente, de vez em quando retornava para conferir e dar uma chacoalhada nos recipientes. Passados os trinta dias, lá vai a minha mãe novamente, pela última vez. O licor estava na consistência ideal. Então ela pegou de um funil comum e transportou o licor para as garrafas de vidro e tampou-as com rolhas, com exceção a uma bela garrafa de vidro muito ornamentada, que ficaria em local especial na sala das freiras, quando visitas especiais chegassem.
 

 
O tempo passou. Certo dia a Ir. Carmela encontrou a minha mãe e disse que havia mandado três garrafas para a Itália, cada uma de um sabor diferente, como havia feito com o couro imenso de uma sucuri que o meu pai havia matado (que também viajou para a terra de Dante Alighieri como curiosidade). Informou que também havia enviado para o padre ainda restara bastante licor nas outras garrafas. Mas elas estavam ansiosas para serem autoras dos futuros licores, os quais se tornariam uma tradição naquele ambiente religioso. Minha mãe só fez uma ressalva a elas “quanto mais velho, mais saboroso”.
 
 
 
Contando essa história, fico imaginando como tudo o que se faz com primor encanta, causa admiração, desperta gosto. Para muitas pessoas, o licor da minha mãe era algo comum. Eu mesmo achei estranho toda aquela novela das freiras e do padre atrás do licor. Mas aquilo tinha explicação. Era o tempo e o capricho. Paladar não é para todos. Saber apreciar não é para muitos. É como o bom vinho e a boa cachaça. Minha mãe fazia aquilo como quem compõe um poema, como quem canta ou confecciona uma colcha de labirinto… sem pressa… Ela não se incomodava se alguém demonstrasse ou não ter gostado. Para ela o licor era para receber bem a visita.
 

 
O filósofo Rubem Alves disse numa palestra que guardava em casa um licor raro e delicioso. Só oferecia para amigos muito especiais. Certa vez recebeu a visita de um amigo especialíssimo e quis oferecer o licor especialíssimo. Para sua surpresa, o amigo engoliu o licor como quem bebeu água com muita sede. Não degustou. Rubem ficou chocado. Ele comparava o bom licor à educação. 
 

 
Pois bem, essa é a história do licor que hoje não é da minha mãe. É meu, pois foi feito por mim. Fotografei até o processo. Para mim isso não tem preço. Fiz exatamente como a minha mãe fazia. Foram dois meses de… vamos dizer… ritual! Sou suspeito de opinar, mas ficou delicioso. Bem dizia Maria Freire que se cozinhá-lo mata o gosto. Cada golinho era como se um misto de álcool e jaboticaba escorressem goela adentro num final adocicado envelhecido… delicioso!
 

 
Fiz só uma garrafa. Deu pouco mais de um litro, mas estará ali para as visitas especiais, como minha mãe fazia… não dizem que costume de casa vai à praça?
 

 
 
 




Nesse estágio o líquido curtido foi coado diversas vezes e recebido o açúcar

Um mês depois, já com a consistência ideal, o licor está pronto e pode ser colocado no recipiente de servir, onde ficará por muito tempo, e quanto mais velho, mais saboroso.
 
 
 
 
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Receita de licor de jaboticaba
receita de licor de pequi
Receita de licor de maracujá
Como fazer licor de jaboticaba
Como fazer licor de pequi
Como fazer li cor de maracujá