ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

O "Turista Aprendiz" - Mário de Andrade - 1927, Um álbum que é um tesouro...


Como sabemos, há o livro publicado em primeira edição em 1976 - é mais texto -, mas muitos desconhecem que em 1993 o Banco Safra organizou um luxuoso álbum com muito mais fotografias, legendas e descrições dessas imagens pelo autor, Mário de Andrade, e essa iconografia responde nossa curiosidade antiga. Eu mesmo sempre pensei: Mário percorreu o Nordeste, o Amazonas, o Peru, será que fez apenas essas fotografias divulgadas no livro que publicou originalmente em 1976?
 
O que o fez empreender a viagem, todos sabem, inclusive esteve nesse rincão potiguar e fez preciosos registros. É interessante o autor dar o título de “O Turista Aprendiz”, pois sua odisseia não era exatamente uma viagem turística, e ele, como toda a maturidade intelectual que reunia, não era um aprendiz.
 
Na papelada que ele escreveu à mão Mário classifica os seus registros como “Viagem Etnográfica”, e de fato o foi. Seria esse o título ideal? E também as descreveu como “Viagem pelo Amazonas até o Peru, pelo Madeira até a Bolívia, e pelo Marajó até dizer chega”. É até engraçado.
 
Telê Ancona Lopez escreveu na edição de 1976 que Mário de Andrade “procurou traçar as coordenadas de uma cultura nacional, tomando o folclore e a cultura popular como instrumentalização para o seu conhecimento do povo brasileiro” e também que “para isso foi muito importante unir a pesquisa de gabinete e a vivência de vanguardista metropolitano ao encontro direto com o primitivo, o rústico e o arcaico”.
 
E “Aprendiz” por quê? Segundo Telê supõe a possibilidade de ser uma homenagem indireta a Paul Dukas, autor do livro “O Aprendiz de Feiticeiro”. E também supõe que Mário pode ter escolhido a palavra ao se sentir “aprendiz de turista”, tendo em vista que em sua vida conturbada, o turismo era algo difícil e quase irrealizável.
 
Faltava um livro que permitisse aos apreciadores da História e da Literatura viajar numa iconografia mais ampla.
 
Como bem escreve alguém do Safra “... O Turista Aprendiz” é o Fotógrafo Aprendiz de kodak em punho, no exercício de sua arte. Geometriza, procura planos, não teme o close, a figura de costas; estuda a luz, imprime o humor nos instantâneos…”.
 
Interessantes são as sombras do próprio Mário de Andrade em algumas fotografias, numa espécie de assinar a autoria da imagem. Inclusive uma dessas fotografias ele legendou como “Sombra Minha/ Santa Tereza do Alto/I.I.28). Está na capa do álbum.

 
Pois bem, aqui nas plagas potiguares ele registrou o portal de entrada da casa do seu cicerone-mor. Nem precisa mencionar o nome do “Príncipe do Tirol”. Captou? E com ele viajaram em vários lugares do estado: São José de Mipibu, Cunhaú, Macau, Belo Jardim, Papary… Inclusive fotografou a Casa de Câmara e Cadeia de Mipibu, hoje só em fotografia (a ignorância é um câncer!), e daqui partiu para “turistar” em vários estados… (L.C.F. 12.2.24). OBS. A última fotografia traz uma das imagens em que aparece a sombra de Mário de Andrade. SEGUEM ALGUMAS FOTOGRAFIAS, ABAIXO:
 

















domingo, 11 de fevereiro de 2024

Poesia concreta no Rio Grande do Norte, há 57 anos...

 


















José da Penha e a primeira campanha popular no Rio Grande do Norte

 

Hoje li esse livro. Como sabemos, o Rio Grande do Norte é um dos estados brasileiros com longevas oligarquias. A coisa é tão recente que os descendentes dos velhos oligarcas dos últimos cinquenta anos ainda estão por aí, sob os sobejos justamente dessas oligarquias, ocupando cargos eletivos em câmara municipal, assembleia estadual, câmara federal e até mesmo no governo. Essa história nos é contada por nada mais nada menos, outro político integrante de uma oligarquia que perdurou até quase o presente: Aluízio Alves. O livro foi escrito por ele em 1976.

A família Maranhão tornou-se uma oligarquia logo após a Proclamação da República. Desde a virada da monarquia para a república até as primeiras décadas do século XX eles reinaram.  Em 1913, José da Penha Alves de Souza, deputado estadual pelo Ceará, um norte-rio-grandense que fez vida no estado do Padre Cícero, como militar, político, jornalista e escritor, resolveu apoiar a “candidatura” do  tenente Leônidas Hermes - pasmem! -, filho do presidente do Brasil, Hermes da Fonseca -, ao governo do Rio Grande do Norte. Obviamente que ele se juntou a um grupo de homens notáveis do estado, avessos aos Maranhão, e com o mesmo interesse, mas foi José da Penha - que também morou no Rio de Janeiro - o cérebro e guia da tentativa de derrubar a oligarquia Maranhão. Tinha o domínio da palavra e arrastou multidões e fez medo à oligarquia.


Nessa campanha, José da Penha, aos 34 anos de idade, intencionado em eleger Leônidas e derrubar a oligarquia Maranhão, tornou-se o autor dessa  que foi a primeira campanha popular no estado do Rio Grande do Norte. Como bem escreveu o mestre Luís da Câmara Cascudo “antes de José da Penha ninguém apelara para o povo, diretamente…” (p. 12). Sabemos que antes da campanha de José da Penha, tudo funcionava na base das brejeiras, ou seja, urnas fraudadas, oposições ameaçadas de morte e todo tipo de coronelismo apoiado pelos presidentes das intendências de quase todos os municípios potiguares, inclusive não há como contar outra história quando o nome era Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, o grande republicano, iniciador dessa oligarquia e perseguidor ferrenho de seus opositores.

José da Penha foi um homem muito culto, inteligente, articulado e respeitado por muitas figuras insígnes do Rio Grande do Norte e, da mesma forma, no estado do Ceará. Era esse homem que peitou a oligarquia Maranhão e, por tal, comeu o pão que o diabo amassou. Como escreve Aluizio Alves “... Aqui o jogo tinha poucas pedras, os da família Maranhão e duas mais apenas necessárias para “apartar o sangue”, na expressão de Eloy de Souza…” (p. 35). E, mais abaixo, ele expõe “... De Pedro Velho o Governo foi para Ferreira Chaves, deste para Alberto Maranhão, irmão de Pedro Velho, indo em seguida para o genro, Tavares de Lira. Antonio de Souza preparou a volta de Alberto Maranhão, que, por sua vez, fez retornar Ferreira Chaves, sucedido, num segundo mandato, por Antonio de Souza, todos eles, nos intervalos, guindados à representação do Congresso Nacional, e Tavares de Lira e Ferreira Chaves a Ministérios…”.

Vale registrar que Antônio de Souza (que também era escritor, assinando como Policarpo Feitosa) só não era um Maranhão no sangue, mas a forma em que ele foi moldado, moldaram-se os Maranhão. Antônio de Souza transitou com grande confiança nessa trajetória oligárquica, seja como governador, seja como ocupante de respeitáveis pastas. A oligarquia Maranhão concatenava os motores políticos do estado para eleger Antonio de Souza, enquanto se “ausentavam” para dar uma respirada, sabedores de que voltariam em seguida.

Nos estados vizinhos o povo derrubava oligarquias e isso assustava a família Maranhão. José da Penha, com sua pujança, sua capacidade de aglutinar, persuadir e o dom extraordinário da palavra, era pedra no sapato. Alberto Maranhão até quis lançar o grande amigo e servidor estadual Pedro Soares de Araújo, respeitável intelectual, para dar impressão de que aquilo não era bem uma oligarquia, mas findou Ferreira Chaves, sob maciça crítica de Elias Souto, um professor que fundou o Diário de Natal e nunca poupou ataques a tal oligarquia.

José da Penha, assim como o jornalista Elias Souto não tinham papas nas línguas e cascaviavam tudo, alardeando as podridões feitas pelos Maranhão, rasgando o verbo. Num dado momento José da Penha publicou um longo texto, cujo pequeno trecho, a seguir, dá ideia de que ele não tinha medo “... Aqui não se votam orçamentos, discriminando a receita e a despesa, como se os dinheiros arrecadados dos contribuintes fossem tributos, arruas, feudos, devidos aos Maranhões pantaguelicos. O dinheiro dos empréstimos serve para comprar fábricas de tecido do sr. Alberto Maranhão e seus cunhados. O monopólio inqualificável do sal defrauda as rendas do Estado em muitas centenas de contos…” (p. 89).
Mais adiante ele lista uma porção de figuras notáveis (aos olhos de hoje), assim como os Maranhão que sabemos tão respeitáveis hoje, inclusive batizam ruas e outros logradouros públicos, segundo José da Penha eram “... negociantes denunciados ou processados por crimes…”. 

Pois bem, não posso contar o fim dessa história, aliás, não posso contar o meio, mas esses excertos apenas, tendo em vista que seria ‘espóiler’, mas hajam nuanças. Eu já havia lido alguma coisa nesses termos em Itamar de Souza, embora o livro dele seja amplo e mais substancial, assim como também li outros autores. Sabemos que a família Maranhão é permeada de homens insignes. Não vou listá-los porque você, leitor, bem os conhece, mas não há como rasgar páginas, pois o que seria da história? Da mesma forma o extraordinário Antonio de Souza, Tavares de Lira e outros, mas fatos são fatos. De uma coisa tenho certeza, não há como entender o Rio Grande do Norte sem colocar esse livro na lista da biblioteca da história potiguar. Fato é fato…
................................
Ordem das fotografias:
1) José da Penha;
2) Pedro Velho de Albuquerque Maranhão;
3) Antônio de Souza;
4) Tavares de Lira;
5) Alberto Maranhão. 

6) Aluízio Alves, autor do livro analisado.

 .

Pantanal (poema)...


Se inverno, me charco
Se estia, não corixo
Se chove aos cântaros, me pântano
Se as águas se demoram, lago me turvo
Se as águas se acalmam, eu rio
Se temporal, me enxurro
Se rebojo, me redemoinho,
Me embrenho de brejos,
Me atolo das aguadouros,
Córrego o dia inteiro
Nos leitos das sucuris,
O dia inteiro córrego na ribeira
E me regato de águas doces,
E me bicho de levadas
Sou varjões
Sou paul
Sou as águas do Pantanal ..

Novelos de areia (poema)...

 NOVELOS DE AREIA...

 Qual semente voejante em redemoinhos e arremessada ao chão,
A cidade germinou em planície vermelha,
Despontando morosa, sob o lençol da terra,
E as casas foram se acomodando aos quarteirões vazios.
O lugarejo, como colcha de retalho, costurou-se lentamente...
Remansosa, a cidade pincelou-se de residências de madeira.
As únicas calçadas estavam deitadas na única praça de único busto.
Eram passeios geométricos de cimento e pedra, separados com ripas de madeira, emoldurados de Coroa de Cristo.
Ninguém se arriscava a mudar de aleia, pois os espinhos picavam.
Tempo em tempo as chuvas cavavam as ruas da cidade.
Os temporais retorciam as marquises do posto de gasolina,
Voando-as longe,
Enquanto os meninos amavam as enxurradas.
Éramos ribeirinhos,
Tínhamos um rio particular adiante da casa.
Rio que caia do céu e escorregava em nós...
Nossa infância embalou laços afetivos com a lama,
Brinquedos de águas cor de café com leite.
No cemitério gritava um ancho túmulo de madeira, guarnecido de balaústres.
Pedra fundamental: inaugurou o campo santo!
O morto chegou ali por obra de um açougueiro da cidade.
As máquinas Caterpilar davam retidão às ruas vermelhas,
Rasgavam a terra, nivelando avenidas largas, nossos parques infantis.
Um perfume saltava das raízes velhas,
Restos de mata das fazendas Formosa e Limeira.
Na beira das ruas amontoavam-se pequenos morros.
Inventamos brincar “guerra de torrões”.
Nossos brinquedos eram criados na hora,
Conforme acontecia a infância.
Um dia enfiaram imensos lápis de cor na avenida Campo Grande.
Depois pregaram bolas de vidro, chamando-os de postes.
Anoiteceu e descobrimos que os equipamentos esticavam o dia.
Cada lápis tinha um sol amarelo.
Aqueles homens fabricaram o dia dentro noite.
Para a nossa felicidade, nos tornamos notívagos,
Até que o chamado paternal fosse berrado do portão.
Amanhecia, o sol instigava um lençol de areia fina nas ruas.
Agosto enlouquecia os ventos, desenhando novelos de areia iguais tornados.
Os redemoinhos rodopiavam a metros,
Perpassando os nossos corpos como fantasmas,
Pinicavam a pele,
Sacudiam os varais e árvores,
Invadiam os quintais, traquinando tudo,
Os velhos diziam ser o saci buscando fumo.
Não sei bem.
Bem sei que a cidade era infinita em areias...
Onde desfilaram onças e sucuris
Que, agora, escondidas nas matas, olhavam a cidade,
Assistiam aos moradores com seus olhos de fogo.
Essa infância teve parte com a verdade e dou fé. 7.7. 2022

Dislexia sintaxial...

 
A professora, em seu ministério educacional, ensinava-nos conjugação verbal.
Eu nutria distúrbios para conjugações.
Minha apetecência gramatical adoecia-me para conjugar adjetivos.
Na verdade, havia um funil nos meus ditames cerebrais,
De modo que toda a morfologia escorria por esse funil sintaxial,
Ao modo "reinvenção"…
Inquirido pela mestra, conjuguei o adjetivo “bonito”.
A professora, desnutrida de amorosidade, flechou-me um substantivo masculino famoso.
(Burro! para quem não entendeu).
Escabreado, atinei que deveria conjugar substantivos, advérbios... o diabo a quatro.
Zero!
Na verdade, eu grassava mesmo de conjugar a natureza: animais, plantas, rios… pois eu estava conjugado a eles...
Então, quando forçado a funcionar no modo "gramática"
Eu vestia as palavras com as mesmas roupas que conjugava a natureza.
Cresci conjugado para as minhas próprias sintaxes…
“Eu rio, tu cachoeiras, ele cascata, nós lagoamos, vós nascentes, eles corixam”.
Desatinei que, assim como existem os biomas, existem as morfologias das florestas.
Toda palavra tem sua natureza.
“Eu me sapo, tu te onças, ele lontra, nós capivaramos, eles araram”
Então, descobri-me capaz de ser-me palavra
“Eu ipê, tu cambarás, ele manduvi, nós buritis, vós acuris, eles aguapés”
Se eu tinha parte com bichos, matas e bugres, como dar moto a verbos?
Sucuri a minha vida inteira raposando matas…
Como diabos haveria de conjugar o que não via.
A professora, certamente supondo que aquilo fosse uma doença, aquietou-se de mim.
Ela era pragmática,
E eu, despragramático
E só. 
A mestra deixou-me todo pássaro.
Então passarei a vida inteira sintaxiando...

O carnaval na praia de Camurupim, ontem...

 

 
A praia de Camurupim é uma extensão de Papary. A história é testemunha que nenhuma outra praia se fez mais presente na vida dos nativos desse pedacinho do litoral potiguar, principalmente no carnaval. É amor antigo, desde a época em que se iam ao lombo dos jumentos, rasgando veredas, desafiando as areias de talco e as garrancheiras.
 
Famílias inteiras empreendiam essas viagens épicas, levando nos cestos toda sorte de alimentos: farinha, rapadura, macaxeira, café, batata doce, fruta-pão, inhame, banana, laranja, jaca, carne-de sol, miúnça de feira… tudo o que as posses permitiam. As garrafas de Pitu ou a famosa “cabumba” do Timbó iam escondidas das crianças; coisa de adulto.
 
Cada um levava a feira da temporada. “Levavam o grosso, pois o peixe estava lá na beira da casa”, como me contou dona Leonísia (1992). Quem fazia o controle rigoroso dos almoços e jantares era a mãe, sempre sábia na partilha (aquele costume antigo de a mãe preparar o prato, coisa que quase não se vê mais). 
 
Pobre a rico se juntavam nesse vavavu que fazia a alegria da meninada. Era época de se fartar de peixe, pegos quase nas mãos pela abundância. Boldo não faltava, em caso de empanzinamento, aliás, ninguém se esquecia das meisinhas, num tempo sem farmácias nem hospitais.
 
As casinhas de taipa ou palha se perfilavam, emoldurando a língua de areia branca, distando poucos metros umas das outras. As fogueiras alumiavam as noites escuras ou estreladas, ardendo até altas horas, circundadas pelas famílias que contavam causos sentadas nos bancos de tronco de coqueiros, assistidas pelas crianças. Tempo em que eram felizes e não sabiam. Os “luais” paradisíacos se encarregavam de trazer uma luz cheia de feitiços. Era tempo em que os nativos estavam dentro de um poema de paz.
 
Os mais velhos embalavam essas noites mágicas com incontáveis histórias de “trancoso”, levando muito menino a dormir fantasiados de medo. O silêncio da noite era quebrado quando o vento arrastava as canções sacras da Harpa Cristã na famosa “Rua dos Crentes”. Eram os evangélicos verdadeiros que - pasmem - tinham como única e exclusiva missão levar o Evangelho a toda criatura -, e hoje, quase extintos, cederam ao mundanismo que tanto criticavam. Os coqueirais sem fim se encarregavam de dar à paisagem um tom de cartão postal. Imagens e histórias de rara beleza, engolidas pela urbanidade do presente.
 
Era assim o “carnaval” antigo da Praia de Camurupim. Assim me contou dona Leonísia (in memorian), aos 90 anos, avó de Lurdinha Lemos. OBS. A pessoa fotografada nessa imagem é o sr. “Zé Carão”, um dos fundadores dessa praia.

O carnaval da praia de Camurupim, hoje...

 


Diferente do passado, em que os nativos buscavam essa localidade para descanso, lazer - e “retiro”, para os evangélicos -, Camurupim, hoje, é um caldeirão fervilhante. Nesse turbilhão há diversão para todos os gostos. Nada lembra o bucolismo, a tônica lírira e singela dos tempos d’outrora. As florestas de coqueirais gigantescos, mangues que vinham tomar água nas margens dos arrecifes, a típica mata rasteira, perdeu lugar para as casas e ruelas desconexas, que forram as dunas de alvenaria. Há um desenho montanhoso de casas desconexas, um labirinto que forra as dunas. Camurupim vira cidade durante o carnaval.
 
Há casos de casas minúsculas que abrigam até 100 foliões. Na hora da madorna o terraço se transforma em tapete humano. A madrugada também é oportunidade para os gatunos que, tais quais os “pés-de-lã”, passeiam mansos, silenciosos, recolhendo carteiras, roupas de marca e celulares. Alguns fazem do varal alheio o seu Midway Mall.
 
O trânsito de carros, motos, bicicletas e pedestres na estreita e perigosa passarela de piche, divide espaço com vendedores ambulantes, carrinhos de sorvete, cachorros... é a Índia de Papari.
 
A “Rua dos crentes” - como chamavam os mais idosos -, quase não tem mais crentes, mas eles são presenças garantidas ali - adoram! -, pois apreciam a “Sodoma e Gomorra” que se instala. Já não curtem nem tanto o retiro - até porque retiro é clausura, afastamento e oração -, mas o retiro da fuzarca. São os primeiros a se sentarem nas muretas das varandas, assistindo a tudo o que desfila na passarela do “pecado”. Riem, divertem-se, vão às gargalhadas com o que, nos discursos, alegam ser coisa do mundo, perdição e pecado. Ninguém sabe quem é crente, quem é macumbeiro, quem é ateu, quem é católico... todos ficam iguais nesse Carnaval.
 
Quem buscar sossego ou tiver um grau maior de pudor e recato, não apareça ali, pois a “Rua dos crentes”, treme. A Harpa Cristã desapareceu para aparecer um terremoto dos carros de som. As aparelhagens nas casas ou os paredões nos carros fazem uma orquestra dos infernos.
 
As músicas típicas de carnaval quase desapareceram. Soam acanhadas, engolidas pelas “swingueiras” com letras de cunho sexual, normalmente apelativas. A marchinha perdeu espaço para coreografias cheias de sensualidade, por vezes mais lembram uma cópula que uma dança. Cada um expõe o seu gosto musical, numa palreira louca.
 
Ali passa o desfile do “Barreta Gay”, cujas fantasias e apetrechos vão desde uma simples e ingênua máscara a vestidinhos ousados, que aventam os dotes masculinos numa tônica de malícias, insinuações, ditos picantes e muita zombaria. Verdadeiro escárnio… numa volúpia que coraria Cassandra Rios.
 
Não apareça com ares de remoque que poderá ser “linchado”, pois, naquele momento o capeta está solto na freguesia. Carros, ônibus, pessoas, muros e até os postes ficam tingidos de araruta, trigo, farinha, espuma de spray, tinta e água. As “caras e bocas” de homens vestidos de mulher, pessoas seminuas, o barulho, a “risadagem” cria um cenário dantesco.
 
Mas - graças a uns poucos -, nem tudo é “modernidade”. Sobrevive, intacto, os encantadores “papangus”; normalmente meninos em busca de trocados, comida ou refrigerante, conforme reza a tradição. Eles percorrem Camurupim, Barreta e Barra de Tabatinga, batendo latas, fantasiados e com o rosto tapado com máscara de pano, mas despercebidos. Invisível é aquele retalho de carnaval genuíno.
Camurupim vira metrópole, com direito à coleta de lixo que quase não acaba. Surgem padarias, bares, restaurantes, sorveterias, vendedores ambulantes, pousadas com freguesias sem fim. Entregadores de água e gás requebram lá e cá, sem parar a sua dança do dinheiro entrando. Dizem até que alguns ficam ricos nessa época. A Camurupim das casinhas de palha e cenário paradisíaco encantou-se… L.C.F. 7.9.2018.

 

Livro "Na Academia", de Manoel Onofre Jr.

 


O escritor Manoel Onofre Jr. em seu discurso de posse na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, no dia 4 de dezembro de 1992, portanto há 32 anos, fez esse sintético e visionário discurso:
 
“Há algum tempo, num artigo de jornal, referindo-me a Academia - e não especificamente a esta - afirmava eu, de modo enfático: a Academia é o panteão dos vivos. Ironizava, com a irreverência dos jovens, o que não me parecia ser Academia, e que hoje se me afigura apenas o lado caricato da instituição: seu conservadorismo e a sua ligação com o sistema. No mesmo artigo a que me referi, eu citava o escritor e acadêmico R. Magalhães Jr., que, numa entrevista, deu este conselho aos jovens: ‘Atacar a Academia, já que a juventude deve ser rebelde contra o medalhão da glorificação fácil”. Mas, concluindo, disse o mestre: “Depois de gritar bastante, entra para a Academia e tenta melhorá-la”. Meu conceito de Academia, hoje, é outro, inteiramente diverso daquele da minha juventude. Eu mudei. Mudou a Academia. Não mais a vejo como um misto de Olimpo e feira de vaidades. Considero-a, tão somente, simples agremiação literária ou a casa de cultura, que deve dinamizar a vida cultural, sempre sob o signo da renovação. É essa a academia que abraço.
 
Nessa obra o escritor Manoel Onofre Jr. a inicia fazendo uma síntese sobre o surgimento da Academia Norte-Rio-Grandense:
 
“ No dia 14 de novembro de 1936, um grupo de intelectuais, tendo à frente Luís da Câmara Cascudo, fundou a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, instituição voltada para “a cultura da língua, da literatura, ciências e artes’. Seu primeiro presidente foi Henrique Castriciano, um dos mais ilustres homens de letras, e, que, instado pelos seus pares, aceitou o encargo. A secretaria geral ficou com Cascudo; as 1ª e 2ª Secretarias, respectivamente, com Edgar Barbosa e Aderbal França, e a tesouraria com Clementino Câmara”.
 
Sobre as providências iniciais com vistas à fundação da entidade, há depoimento do próprio Adherbal, nestes termos: “ A Academia nasceu de reuniões em casa do Dr. Câmara Cascudo (...) Ele é para nós o que Conrart para os imortais da França (...) A Presidência ficou com Henrique Castriciano, que é, assim, o nosso Machado de Assis”.
 
Em seguida ele traz os discursos feitos por ele quando foi convidado a saudar alguns intelectuais norte-rio-grandenses, a exemplo de Pedro Vicente da Costa Sobrinho, empossado no dia 26 de agosto de 2004; Paulo de Tarso Correia de Melo, empossado no dia 27 de outubro de 2004; Carlos de Miranda Gomes, empossado no dia 12 de junho de 2015; Nelson Patriota, empossado no dia 16 de abril de 2016; Jarbas Martins, no dia 21 de julho de 2016; Lívio Correia, empossado no dia 10 de março de 2017, e, finalmente, Clauder Alexandre, no dia 2 de março de 2018.
 
Essas saudações, escritas com muita sensibilidade, nos permitem conhecermos um pouco sobre esses escritores então empossados. Mais que isso, elas revelam uma inteligência muito bem desenhada, o homem observador que é Onofre, grande leitor que, embora se julgue modesto nesses pareceres, o faz com poesia, sinceridade e grande conhecimento. 
 
Manoel Onofre nasceu em Santana do Matos, sertão do Rio Grande do Norte, a 20 de julho de 1943. Escreveu: Serra nova, 1964; Martins, sua terra sua gente, 1966; Histórias do meu povo, 1968; A primeira feira de José, 1973; Estudos Norte-Rio-Grandenses, 1978; Breviário da cidade de Natal, 1984; Salvados. Ensaios e notas, 1982, 2002, 2014; Chão dos simples, 1983, 1998, 2014, 2018; Guia poético da cidade de Natal, 1984; Retretas, serenata, 1984; O caçador de jandaíra, 1987, 2006, 2019, 2022; Os potiguares, 1987; O diabo na guerra holandesa, 2022; MPB principalmente, 1992, 2022; A palavra e o tempo, 1994; Ficcionistas do Rio Grande do Norte, 1995, 2010; Guia da cidade do Natal, 1996, 2002, 2009; Espírito de clã, 1997, 2003, 2013; Literatura & província, ensaios e notas, 1997; O chamado das letras, 1998, 2015. Poesia viva de Natal, 1999; Recordações do paraíso, 1999; Martins - A cidade e a serra. Ensaios e notas, 2002,2005; Um gentleman do sertão, 2001, 2003; Contistas potiguares, 2003; Coronel cristalino, 2003; Umarizal - Síntese histórica e biográfica, 2004; Imortais do RN, 2004; Simplesmente humanos 2007, 2019; Portão de embarque, 2008; Portão de embarque 2, 2009, 2012; Conversa na calçada, Crônicas; 2011; Alguma prata da casa. Ensaios, 2012, 2016, 2023; A servidão diária, 2014; A servidão diária 2, 2015; Humor no conto potiguar; Polycarpo Feitosa - O excêntrico Dr. Souza, 2016; O chamado das letras II, 2017. Retratos de um homem de bem. Cícero Onofre, contista e professor, 2017; Os Onofres. De Portugal para o Brasil, 2018; Antonio de Souza (Polycarpo Feitosa). Uma biografia; 2020; O desafio das palavras, 2020.
 
O autor participou de incontáveis coletâneas, antologias, livros com entrevistas e produziu muitos textos em jornais.