ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

terça-feira, 21 de maio de 2024

"VELHOS" (POEMA DE AUTORIA MINHA TIA MARIA DE LOURDES FREIRE -100 ANOS...

 
Cuide de seus idosos.

Quem cuida dos velhos 

Tem por mais tempo fonte inesgotável de sabedoria.

Velhos são livros de experiências de vida,

Velhos são registros de tradições,

Sabem as mezinhas pra dor e ardor,

Sabem os segredos para firmar casamentos

Sabem o tempero da comida que ninguém esquece,

Sabem estradas e desvios. 

Velhos voejam mais que pisam,

Estão por cima.

Podem não ver, mas sentem e pressentem.

Falam pensado.

As sentenças seriam inquestionáveis se saíssem do martelo de um velho juiz.

 


Deitei o raminho moribundo no braço seco da árvore. 

Ele meio que hibernou-se da pocinha aquietada ali da chuva. 

Então dorminhou-se em relvas e serenos, esquecido. 

Escorridos seis meses o galhinho orquidou-se de vida... 

A mais linda vergôntea amanheceu agradecendo de verde o seu milagre de viver...

Ordens de mãe (poema)

 

Minha mãe Maria José Freire aos 18 anos de idade...

Menino, já escovou os dentes?!

Desça desse pé de goiaba!

Vá varrer o quintal?

Quem pegou a tesoura que estava aqui onde eu sempre coloco?

Traga uns limões aí do pé!

Seu pai ta chegando!

Alguém atende ali o portão!

O almoço ta pronto!

Onde você foi?

Que bagunça é essa aí atrás?

Que confusão é essa aí na frente?

Vão tomar banho!

Que é isso, menino?

Passe todo mundo pra lá que isso vai ser limpo!

Passe todo mundo pra cá que já tá tudo limpo!

Alguém, descasca aqui essas batatinhas!

Venha amassar o pão!

Quem tá aí?

Já mexeram aqui sem eu ter dado ordens!

Não entre pela cozinha que o chão tá molhado!

Já dobrou o cobertor?

Pra quê essa demora?

Quem vai lavar essa louça hoje?

Tá quase na hora da escola!

Por que deixou o lixo ali desde ontem?

Quem sujou o chão aqui?

Não invente de sair agora!

Venha mexer o tacho de doce!

Deixe desses gritos aí na varanda!

Vão dormir!

Apague essa luz sem ninguém na sala!

Quem chegou aí agora?

Fez a tarefa da escola?

Vá buscar minha costura lá em Maria!

Por que não foi fazer o que eu mandei?

Que foi isso aí que eu escutei!

Veja se tem alguém chamando?

Onde colocaram a cera que mandei comprar?

Cadê vocês?

O que é isso aqui?

Quem fez isso?

Mãe...

A velhice chegou, mas as ordens permanecem quase iguais.

Quem ama, cuida!

Minha mãe, Maria José Freire aos 90 anos de 1dade...


Fragmentos de lacunas que envolvem Nísia Floresta


Dia desses observava esse "retrato" de Nísia Floresta Brasileira Augusta, a peça mais antiga e rara sobre ela existente no município que leva o seu nome, e fui instado a uma reflexão ao observar o enunciado numa fotografia de Juvenal Carvalho, ex-prefeito de São José de Mipibu em tempos remotos. Ei-lo: 

"Photographia Alemã rua do B. da Victória, Alberto Henschel e Co. Pernambuco". 

No retrato de Nísia Floresta se lê:

 "Photo Allemã, Manaos". 

Veja, abaixo:


A princípio supus que Nísia Floresta teria sido retratada no mesmo local onde fora Juvenal de Carvalho, pois ela morou um período em Pernambuco. Obviamente que em épocas diferentes. Normalmente estúdios fotográficos sempre foram locais muito longevos. Mas de repente a gente constata a palavra "Manaos" (Manaus), numa suposta alusão à tal província. Então ficam as perguntas: Nísia teria estado em "Manaos"? Ela nunca escreveu sobre ter estado em Manaus. Teria omitido por não ser algo tão relevante? Teria passado ali em suas viagens? Ela nunca falou sobre isso. Ou o nome "Photo Allemã" é estúdio Photographia Allemã de Huebner & Amaral em Manaus? Esse estúdio teria relação com "Alberto Henschel"? Nísia tinha 65 anos quando deixou definitivamente o Brasil. Àquela época era considerada uma pessoa muito longeva em tal idade. Essa "photographia" teria sido feita a partir de uma photographia anterior, encomendada por alguém? Ela mesma teria pousado para o artista, autor do trabalho? São indagações aleatórias no bojo de tantos questionamentos até muito mais relevantes. Bolir com História é assim... E assim vamos decifrando...




Literatura: escrever e ler no escuro...


    O fenômeno das redes sociais tem despertado uma espécie de patologia em boa parte dos internautas/leitores. A síndrome prioriza textos rápidos e com escrita fácil. Como os textos na internet escorrem verticalmente, percebo que as pessoas não vão adiante quando passam de dez centímetros. As pessoas não querem ler muito, assim como não assistem a vídeos que passam de dez minutos. O encantamento de se ter o mundo à nossa frente desperta uma pressa injustificável. As pessoas querem ler/ver assistir o maior número de coisas e com rapidez. Esse fenômeno faz com que muitos não leiam/assistam produções/obras de qualidade, presos ao banal e fútil. Uma parte considerável da juventude está propensa ao vazio na música, na literatura, na arte etc.

    Observo que o preocupante sintoma tem saltado da internet e caído no corpo da Literatura com força. Tenho a impressão de que escrever uma narrativa tradicional nos tempos atuais tem ficado cada vez mais difícil e por incrível que pareça, artificial, obrigando o escritor a ir além da superficialidade do discurso literário. É algo parecido com “se reinventar” para agradar um público/leitor em decadência, principalmente o público jovem. Aí reside o desafio/problema/perigo.

Na realidade, além do fator “leitor apressado”, há outros fatores, como o problema da comunicação entre a obra e o público. O desafio de quem escreve é o de comunicar a incapacidade de expressar-se nos seus textos, pois a estética pós-moderna não aceita mais um escritor que explica tudo. Muitos autores trocaram a escrita que deixa subentendido, que diz sem dizer, que sugere, que divaga, pela escrita do lugar-comum. Prenderam-se ao óbvio, entregando tudo mastigado ao leitor. A metáfora, a poesia, a descrição, a discrição e uma série de considerações que deveriam ser prioridade ao escritor foram abortadas para atender leitores apressados, contaminados pelas mídias. 

Outro imbróglio que trava até mesmo a capacidade criadora do autor - que se torna um impasse da narrativa contemporânea - é a dependência do escritor diante do mercado da editoração. A Editora Sextante, por exemplo, priorizava clássicos da literatura. Hoje só publica autoajuda. Há editores que não arriscam se o autor não estiver contaminado pelo fútil. Ele entende que o autor deve escrever algo que lembre/pareça com algo. “Escreva algo que lembre Harry Potter”, “Pegue um gancho em alguma coisa de Nárnia”. As próprias capas das obras não parecem com o Brasil.

Fazer algo que pareça ter vindo do way of life dos Estados Unidos parece sucesso garantido. Não importa o banal, o fútil. Ninguém diz "deixa eu ler a sua obra, poxa! ela faz a diferença”.

Muitos editores pecam por escantear autores em que os alicerces se assentam no tradicional, não necessariamente reproduzindo a estrutura do cânone literário, mas se aproximando do imaginário dos clássicos europeus e latino americanos. Autores com substância, alicerçados numa vasta bagagem literária. Tenho observado muito isso e não acredito estar enganado. É uma prática cada vez mais comum, mas não é generalizada, diga-se de passagem.

Todo autor é feito de autores, de mundos, de planetas imaginários e reais. Creio que nos faltam - ou que seguem desconhecidos/desvalorizados - grandes autores em quase todos os estados do Brasil, e a culpa está nessas visões deturpadas, contaminadas pelo padrão mercadológico e industrial dos simulacros dos simulacros das cópias das cópias. E os autores regionais? Piorou! Ser regional não é defeito, é uma constante mediação entre o particular e o todo, pois no regionalismo está implícito questões universais, afinal o homem objeto de toda escrita. Não existe escrita sem homens. No regionalismo reside a Filosofia. No estado onde nasci, Mato Grosso do Sul, por exemplo, temos Hélio Serejo, um monstro literário digno de ser universal, mas desconhecido.

No Rio Grande do Norte, por exemplo, quando releio “Chão dos Simples”, extraordinária obra prima do Rio Grande do Norte, embora escrita há mais de meio século, mas publicada há 31 anos, encontro sertanejos simples, mas que não diferem de ninguém em qualquer parte do mundo, pois são universais. Para desvelar esse mundo extraordinário criado pelo autor Manoel Onofre Jr. é preciso adentrarmos o mistério cósmico ao qual ele se refere. 

Esse mistério nos cerca, e o sentimos, e Manoel Onofre traz à tona através da geografia do sertão e da alma tosca do sertanejo d'outrora, tipos humanos que  despreocupados com o raciocínio lógico, são propensos a toda espécie de impulsos vagos,  premonições, crendices, hipocrisias religiosas, espertezas, caritós, alimárias, maldades, inocência, agruras da seca, cangaço, folclore, o mundo onírico… até mesmo o romanceiro ibérico ou uma versão sertaneja de Joãozinho e Maria passeiam na obra. É o sertanejo, habitante distante da nossa civilização urbana e niveladora. São homens e mulheres com o espírito aberto por vezes ao fantástico, ao extraordinário, ao milagre, e são elas que decifram o “Chão dos Simples”, obra que conduz o leitor ao lado misterioso da existência, revelando  que a natureza e a própria existência transmite inúmeros recados aos homens. Pressentimentos, revelações, sonhos, pesadelos, sinas, mensageiros que transmitem aquilo que precisamos ouvir, ou a resposta para coisas que pensamos não terem resposta, mensagens que, se ouvidas, podem mudar os destinos de cada um. Tristezas e situações hilárias pautam Chão dos simples. 

Como não dizer que isso não é literatura universal se trazem um gigantismo filosófico? O próprio e genial Guimarães Rosa escreveu que “o sertão é o mundo”. Pois bem, isso é um exemplo dentre tantos escritores potiguares excepcionais, como os atuais Pablo Capistrano, Nivaldete Ferreira, Ana Cláudia Trigueiro, enfim o Rio Grande do Norte tem referências literárias de qualidade em vários estilos.

Creio que escrever uma narrativa na atualidade, aproximando-se de noções canônicas, apesar de caminhar para o estilo não-cânone, na lógica de que toda criação é uma destruição, é trair a tendência do texto imediatista e comercial da pós-modernidade industrial em que o autor reproduz, quase como cópias, características de personagens, cenários, narrativas, tipos humanos com pouco ou nenhum desenvolvimento. 

Quantos filmes, livros, séries de livros, séries cinematográficas reproduzem o que Adorno chamou de “ausência do clássico”. Narrativas que seguem a mesma estrutura de um personagem principal que passa por uma tribulação e que segue toda a história dramática para superar o problema que o aflige, e o fim se dá basicamente na superação desse problema e na conquista da felicidade. O que significa isso senão a demonstração prática de uma subjetividade narcísica que destruiu toda a complexidade das tragédias?

O escritor acredita - ou é induzido pelo meio digital ou pelo mercado editorial, a investir num aspecto “novo/diferente” de narrar, mas que não tem nada de novo. Como nasce o novo? Por escolher abdicar do estilo próprio da escrita para abraçar o suposto "novo'', muitos autores abandonam a própria originalidade para parecer palatável.

Alguns autores optam pelo caminho mais difícil, sem se importar em agradar o leitor com mamão com açúcar. São mais exigentes e sólidos. Não erguem castelos de areia que logo somem com o vento. Salvas as exceções, assistimos e consumimos com frequência a banalização da literatura e sua redução à mera mercadoria.

Atualmente as grandes livrarias estão abarrotadas de livros de autoajuda, relatos de viagem, biografias de homens ricos e socialites, alimentadas pela indústria do entretenimento. Os autores de obras literárias aparecem em segundo plano adiante, aceitos e contemplados apenas pelos críticos, por quem não deixou se enganar, e por uma elite intelectual que pouco se deixa levar pelas novidades da indústria cultural. No caudal disso tudo a literatura como arte tornou-se autônoma e aparentemente inacessível ao grande público. 

O assunto é complexo, principalmente na filosofia da estética, pois está a abranger política, educação, pedagogia e a cultura de um povo, propriamente. Parece até piegas a conhecida e inacessível frase “um país se faz com homens e livros”, e dependendo da qualidade do livro se explica a qualidade do homem. Uma geração que preteriu Paulo Freire em detrimento de ler as biografias de homens ricos de Wall Street não parece estar construindo um futuro interessante. 

Se o aprendizado em comunhão e a solidariedade são concebidas como perda de tempo, e o egoísmo patológico e a subjetividade humana domada pela lógica concorrencial são tidas como virtudes, o que nos reserva?  

Imagine esse público diante de Memória do Cárcere, de Graciliano Ramos, Os Sertões, de Euclides da Cunha, Grande Sertão Veredas, enfim as obras de José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Clarice Lispector, Érico Veríssimo, Machado de Assis, padre Antonio Vieira, Lima Barreto e outros. Que susto tomariam diante de Os Miseráveis, Os Irmãos Karamazov, O Idiota, Madame Bovary, O conde de Monte Cristo e tantos outros. 

Somente um povo bem educado a partir dos anos iniciais com acesso à literatura de excelência, a museus, teatros, exposições de arte etc, frequentemente estimulada a desenvolver a criatividade, mudará essa realidade.

O Anjinho "Deus lhe pague" da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, em Nísia Floresta foi furtado junto com duas outras imagens...

Anginho "Deus lhe pague", peça em gesso italiano.

Aparentemente despercebida, passava essa velha imagem no interior da matriz de Nossa Senhora do Ó, em Nísia Floresta/RN. Considero-a singular. Fui apresentado a ela em 1992, por dona Estelita, bisneta do Coronel Alexandre de Oliveira, então "Cavaleiro da Rosa". É chamada de "Anjinho Deus lhe pague". Quando você deposita uma moeda através de um orifício que fica nas costas do anjo, o peso da moeda aciona uma engrenagem interna que faz com que o anjinho  movimente a cabeça várias vezes em sinal de agradecimento. Como se dissesse "Deus lhe pague". 


Essa peça fala por si. Eu a via como uma pegada lúdica, idealizada pelos padres do passado, pois ela soa como um brinquedo. A criança fica curiosa para ver o anjinho agradecendo, balançando a cabeça. A engenharia do anjinho "Deus lhe pague" funciona como um instrumento de educar crianças, construindo com elas a ideia do dízimo. A criança tende a perguntar "por que dar dinheiro para o anjo"? E o adulto responde "para ajudar o padre a pagar as coisas da igreja: água, luz, limpeza, material de expediente etc". 
Como não foi precisada a data, não sei quando se deu o furto, mas juntamente com o furto do anjinho "Deus lhe pague", furtaram uma imagem de Santa Luzia e outra de São José, como se vê nessa postagem de uma nisiaflorestense que convive na citada matriz.

O anjinho "deus lhe pague" é foi boa tacada da igreja, pois estimulava e educava as pessoas, desde criança sobre a importância de se ajudar a paróquia. Esse anjinho foi inventado num tempo em que uma peça desse tipo tinha um encanto maior, pois era uma grande novidade, um grande atrativo. A criança chegava na igreja já pensando no anjinho. Sociologicamente tem uma simbologia muito interessante. Eu era apaixonado por essa peça. 


Em 1992 entrei nesse templo com dona Estelita de Oliveira, católica fervorosa e benzedeira, bisneta do "Cavaleiro da Rosa". Ela disse que, quando criança, amava dar moedas para o anjinho. Ela já era muito idosa e me contou coisas impressionantes relacionadas ao templo, como o local reservado aos pretos (escravos), bem como o local onde um determinado sacerdote escondia os escravos que corriam ao seu socorro por serem torturados por seus "donos". Dona Maria do Carmo foi outra senhora que me falou do seu encanto infantil ao dar moedas para o anjinho. Assim ouvi.... 

Para a minha decepção, soube, na semana passada, ao postar um breve texto sobre o anjinho "Deus lhe pague" no Facebook, que ele foi furtado da Matriz juntamente com outras duas imagens.  Eram peças muito antigas. Isso é inadmissível. Como pode uma coisa como essa? Como isso passou despercebido? Como não foi anunciado na imprensa? Como uma peça pode sumir sem que alguém veja? Se some essa peça pode sumir o relicário de ouro maciço, pode sumir o lampadário de prata maciça, pode sumir qualquer coisa. Mas terá sido furtado mesmo ou alguém dado para alguém? Quem seria tão inescrupuloso a tal ponto? Que absurdo!

Quando algum equivocado questionar e se incomodar com o motivo que me faz lutar tanto para proteção das características originais dessa igreja e a salvaguarda do seu acervo sacro, eis nessa fatalidade o motivo: temo pelos ladrões de plantão. E não acredito que seja de fora. Cuidem, pois se as peças continuarem sumindo, qualquer ora some as imagens do século XIX... e daí vocês irão se lembrar de mim, mas será tarde!

Evocando Socorro Trindade...

 

Em 2002, num evento da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Da direita para esquerda: Fídias, meu filho; Socorro Trindade, eu (Luís Carlos Freire) e minha esposa Alysgardênia. Nesse dia, apresentei Socorro ao meu filho.

Em 2009, quando criei meu blog, passei a alimentá-lo com tudo o que eu compilava sobre o município de Nísia Floresta e, em especial, a vida e obra da intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta e outras figuras notáveis do município. Nesse pequeno fragmento de 2009, comecei escrevendo sobre Socorro Trindade e outras figuras ilustradas do município de Nísia Floresta. O blog me serve de remédio. Digo isso porque quem nasceu com um lápis na mão e não o solta, é adoentado de escrever. Ser acometido da doença de escrever fez-me criar esse livro digital. E como sempre digo, é livre, quando dá vontade, sem compromisso com fluência. Escrevo sobre o que dá na telha. É uma feira de assuntos. Vez ou outra, faço alguma revisão, amplio com novas informações em velhas publicações, enfim, tem essa característica. 

Print de uma postagem que fiz em 2009, para chamar a atenção da sociedade sobre a importância de se conhecer as personalidades notáveis do município de Nísia Floresta, inclusive eu comecei exatamente por Socorro Trindade.

No caso de Socorro Trindade, quando escrevi sobre ela, o fiz com o objetivo de despertar nas pessoas - principalmente de Nísia Floresta - o interesse em conhecê-la, tanto sua pessoa como sua obra, afinal o intelectual precisa ser reconhecido em vida. Socorro retornou para Nísia Floresta no final da década de 90, e independente disso, sempre esteve em sua terrinha. Quem quisesse vê-la para conversar, entrevistar, fazer amizade, convidar para uma palestra, era só procurá-la. Foram mais de 20 anos de permanência em Nísia Floresta. Mas ela jamais teve esse privilégio em sua terra, por mais que isso pareça inacreditável. Nunca foi enxergada apesar da grandiosidade do seu legado conhecido e reconhecido no Brasil, mas desconhecido e desprezado em sua própria terra. 
Print da postagem de 2009

Socorro amou Nísia Floresta mais do que qualquer um possa imaginar. Mas a vida é assim. Socorro tinha consciência. Não tinha expectativa. Diferente de muitos, ela nunca construiu engrenagens de bastidores, funcionando para promovê-la. Ela acreditava que a provocação deveria fluir do povo, com naturalidade, jamais a pedido. Deu errado em Nísia Floresta, mas deu certo em termos de Brasil. Socorro é uma perda para o Brasil.

terça-feira, 14 de maio de 2024

MORTE DA ESCRITORA POTIGUAR SOCORRO TRINDADE


REGISTRO DE FALECIMENTO

Socorro Trindade faleceu no último sábado, 11 de maio de 2024, às 22h330, na residência do seu irmão, Paulo Trindade, em Boágua, distrito de Nísia Floresta. Socorro faleceu dormindo. 

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sexta-feira, 10 de maio de 2024

Couro de raposa...

José Calixtro Pereira Filho, 76 anos de idade
 

Essa história me foi contada pelo senhor José Calixtro Pereira Filho, 76 anos de idade. Ele nasceu no dia 20 de novembro de 1947, em Taborda, São José de Mipibu, mas até hoje sua vida tem se ambientado em terras parnamirinses devido à proximidade, de maneira que ele se considera um parnamirinense. Foi na localidade de Taborda que se passou o fato a seguir, que serve para o acervo de sabedoria de todo homem.


Certa manhã, ele andava numa estrada de barro quando viu uma bela raposa morta recentemente, talvez por atropelamento. Infelizmente essa cena preocupante é comum nas estradas. Ele apiedou-se do infeliz animal e nada mais. Eis que, próximo dali, chegando até as terras de um conhecido e falando-lhe sobre a raposa morta, surpreendeu-se com o gesto eufórico do homem que perguntou-lhe o local exato, deixando-lhe muito curioso.


A fama das raposas nunca foi boa. Não é à toa que chamamos os políticos safados de “raposas velhas”, com todo respeito aos raros políticos decentes, Brasil afora. Eis que o homem explica que costuma pegar raposas de mortes recentes para retirar o couro, pois é, digamos, um eficiente repelente contra morcegos.


O sr. Calixtro já conhecia essa história, mas como falácia. Não imaginava que o couro fosse eficiente. O dito homem explicou-lhe que quando espalha os couros na propriedade ou mesmo dentro de galpões de armazenamento de grãos e ferramentas, não entra sequer um morcego e, por consequência, o local fica livre da fedentina que a urina e fezes desse animal promovem no ambiente.


Com relação à roça, os morcegos comem muitas frutas, ou melhor, estragam muitas frutas, roendo-as, deixando-as impróprias para o consumo humano. Essa técnica, limpa, promovida pelo uso do couro da raposa, tem a vantagem de blindar as frutas sem causar morticínio aos animais, pois não se usa produto químico para combatê-los. Pode parecer uma injustiça negar comida aos bichos, mas a mata é rica em outros frutos apreciados pelos morcegos e o planeta é muito grande. Isso explica o porquê de tantas nuvens de morcego por onde passarmos. E uma nuvem de morcegos faz um estrago grande. Morcegos são fabricantes de florestas, pois comem frutos e espalham suas sementes pelo mundo. Por consequência, são fabricantes de água, pois onde há árvore, há água (de uma maneira ou de outra).


Não é à toa que algumas igrejas matrizes são repletas de morcegos, cujos sótãos e forros, cheios de fezes urinadas, afastam qualquer pessoa devido ao fedor. Se os padres colocassem couro de raposa em locais estratégicos, o problema estaria resolvido. Mas lembrando que não é necessário sair caçando raposa para esse fim, afinal, infelizmente, elas são encontradas mortas, com frequência, nos acostamentos, pois se atrapalham ao atravessar as pistas e se darem com os faróis dos veículos.


Sobre esse detalhe triste de raposas atropeladas, recorro a Oswaldo Lamartine de Faria, filho de Juvenal Lamartine (1874-1956), ex-deputado federal e ex-governador do Rio Grande do Norte por dois anos e nove meses. Ele conta em seu livro “Juvenal Lamartine O Meu Pai, que o Rio Grande do Norte já foi um verdadeiro Pantanal (no aspecto de fauna). Aqui se viam com frequência, onças, tamanduás-bandeira, jabuti, seriemas, perdizes, gato maracajá, capivaras, lontras, ariranhas, enfim uma fauna exuberante. Ressalvando que uns em maior ou menor grau se a ocorrência fosse no sertão ou litoral. Esse cenário era comum até as últimas décadas do século XIX.


Esse fenômeno não é novidade e ocorre no mundo inteiro, por mais que seja estúpido. Quantos lugares no mundo viraram savanas e se desertificaram, tendo sido plenos de fauna e flora. É uma pena. Os animais perderam espaço para a fome ocasionada pela seca e a caça, além dos desmatamentos para se formar as cidades e os pastos, num tempo em que não existiam leis de preservação. E quase tudo se acabou. Existem, hoje, numa raridade, gatos do mato e pequenos mamíferos, os quais vivem nas áreas muito remotas, como nas grotas do sertão e Seridó. Em áreas com água ainda se vê alguns animais maiores, mas até mesmo quem é potiguar estranha pela singularidade.

Mas, ainda sobre o dito couro de raposa, o que teria de especial o mero couro? Afinal ele está sozinho, inanimado, sem o espírito sagaz da raposa. É ele e ele. Não é ele na raposa. O que ele promove na circunscrição onde estão as plantas frutíferas? Que mistério é esse? Que moral teria esse couro? Há muita coisa segredosa no campo da superstição. Só quem anda pelas estradas do Folclore entende a essência do que escrevo. Mas nesse aspecto, penso que a coisa é além da superstição. Seria o cheiro? Seria uma visão especial, diferente, que os morcegos têm desse couro? Seria a impressão de que é, de fato, a raposa vivinha da silva? Não sei. Ninguém sabe! Ou sabe? Desejo saber!


Pois bem, sempre me comunico com o sr. Calixtro que, inclusive é evangélico daqueles cuja forma em que foi feito, alguém jogou nas profundezas do oceano. E eis que numa simples conversa que tive, hoje, com esse homem que é um baú de sabedoria, inclusive, mesmo que ele não admita e não queira ser assim chamado – devido à sua humildade como pessoa – ele é um inventor. Em sua morada vemos algumas engenhocas feitas de material de sucata, mas de significativa funcionalidade. Ele também é um luthier, pois fabrica um tipo de instrumento musical cujo nome me foge da memória no momento. Em sua casa há uns cinco desse instrumento, dom esse que se harmoniza com a sua verve musical, inclusive ele estuda música e faz parte de um coral de canto popular. Sua residência, hoje, é na rua Sergipe, nº 150, bairro Rosa dos Ventos. Ali, ao lado da esposa, ele esquece do mundo, abraçado por um quintal perfumado de plantas ornamentais e frutíferas, galinhas e cachorros. É o seu paraíso. O sr. Calixtro é um livro repleto de conhecimentos e sabedoria, inclusive ele tem uma verve poética e faz cordéis. É um homem que, antes de morrermos, precisamos conhecê-lo... Natal, 9.5.24 – 02h00.

sábado, 4 de maio de 2024

MUDAR O TÚMULO DE NÍSIA FLORESTA DE LUGAR?

 
No dia 4 de novembro de 2019, num segunda-feira, às 19h00, no Foyer do Teatro Riachuelo, em Natal, houve o lançamento do livro #NísiaFlorestaPresente: uma brasileira ilustre, escrito pela professora Constância Lima Duarte. Estavam presentes diversos intelectuais de Natal, algumas autoridades, empresários e escritores. Ali encontrei Diógenes da Cunha Lima, ex-reitor da UFRN, escritor, advogado e membro da Academia Norte Rio-Grandense de Letras, pessoa para o qual tenho grande respeito, tendo-o convidado para alguns eventos em Nísia Floresta, na década de 90. Começamos a conversar sobre Nísia Floresta e, para a minha surpresa, ele falou de uma proposta em vigor – associada ao Grupo Vila – de transferirem o monumento em homenagem a Nísia Floresta e o túmulo onde repousam os seus restos mortais, no Sítio Floresta, para outro local. Isso me foi dito claramente, sem quaisquer possibilidades de eu ter me equivocado.

Sabedor do meu envolvimento com a história de Nísia Floresta há décadas, ele sugeriu que eu tentasse sensibilizar a população daquele município em prol desse projeto. Ouvi apenas. Com todo respeito ao insigne advogado e aos empresários do Grupo Vila, mas é questionável que residentes em Natal, sem a necessária relação com o município de Nísia Floresta, pensem uma proposta dessa no âmbito de Natal sem priorizar as autoridades nisiaflorestenses no aspecto do pensar. Elas devem ser as primeiras a serem ouvidas, mesmo que seja uma ideia. O assunto não deve chegar a tais autoridades por ter vazado, mas por ter sido levado às mesmas enquanto semente.
 

Residi 21 anos em Nísia Floresta. Nesse período, assisti alguns poucos eventos organizados por pessoas de Natal, que levavam trabalhos prontos para aquele município. Nunca vi chegarem ali para pensarem o evento com os nisiaflorestenses. Reconheço a decência de todas essas pessoas, mas tais eventos eram alusivos a Nísia Floresta, não era algo que descaracterizava a história e a memória da cidade ou da figura de Nísia Floresta. Portanto, a maneira como divagam a ideia de transferência dos despojos da intelectual Nísia Floresta, aparenta subestimar a inteligência dos nisiaflorestenses.
 
Nísia Floresta não é mais a cidade dos anos 90. Há muita gente formada e muito esclarecida. A História e a Memória de Nísia Floresta não tem mais aquele vácuo do passado. Houve amplos trabalhos ali realizados nesse sentido – e seguem ocorrendo –, portanto, propor uma interferência no Sítio Floresta prediz um plebiscito, tendo, antes, transmitido a ideia para os vereadores nisiaflorestenses, para que os mesmos a divulguem amplamente nas redes sociais, nos mecanismos de imprensa e às demais autoridades, pois ao Executivo cabe executá-la ou não. 
 

Lembram quando um grupo de empresários, políticos e amigos tentaram criar o município de Praias Belas de Pirangi? Esse município ficaria com todas as praias de Nísia Floresta. A proposta foi planejada em Natal e Parnamirim. Lembram quem moveu céus e terras para derrubar o projeto que corria dinheiro de puxar de rodo nos bastidores? Padre João Batista Chaves da Rocha. À época o chamaram de lobo de batina, pois ele convocou o município inteiro, divulgou os riscos que a população corria, tendo em vista que havia muito dinheiro por trás, e tem autoridades que se vendem por dois mil réis. E, juntos com o padre, o povo derrubou o projeto. 
Reconstituição da chegada dos despojos de Nísia Floresta (Projeto que fiz em 2002)
 
Retornando ao assunto. Obviamente que um plebiscito que interfere na História e na Memória da cidade, descaracterizando um sítio arqueológico, local onde Nísia Floresta emitiu o seu primeiro choro, conviveu com os pais, irmãos e sua serviçal, é inconcebível. Tanto o monumento (1909) quanto o túmulo (1955) foram erguidos sobre os alicerces da casa onde Nísia Floresta nasceu e morou. É um espaço intocável e cheio de simbologias. Ali peregrinaram Henrique Castriciano, Orlando Dantas, Alberto Maranhão, Monsenhor Paiva e outras figuras notáveis da história do Rio Grande do Norte.
Mesmo que retirem apenas os despojos e o levem para outro local. Preservando as alvenarias, é uma descaracterização da história e da memória da intelectual Nísia Floresta. Mais ainda: é uma afronta ao município e ao Brasil. Ninguém está impedindo a construção de monumentos e espaços que enalteçam Nísia Floresta. São muito bem vindos. Inclusive tenho sugestões até já publicadas. Mas que os construam em outros lugares e sem prejuízo para o túmulo e o monumento no Sítio Floresta.
 
Túmulo de Nísia Floresta em 2002, quando ainda não era tão sufocado por construções
 
 
 Alguns poderão alegar que afronta é a situação de quase abandono do Sítio Floresta, que afronta é a situação sufocante em que ele se encontra. Alegação justíssima. Mas não justifica arrancarem Nísia Floresta dali. Uma afronta desse nível consegue ser maior do que a situação de quase abandono do Sítio Floresta. Mexer ali é caso de polícia! É caso de Justiça!
 
É inegável que as autoridades municipais, ao longo das décadas, se omitiram. A ampla ignorância do passado – tanto no desconhecimento sobre a história e a obra de Nísia Floresta quanto no desconhecimento da importância de salvaguardar local – permitiu que os nativos sufocassem a área do túmulo e monumento. Mas fazer o quê? É ali o Sítio Floresta. É ali o sítio arqueológico. É ali o marco cheio de simbologias. 
Túmulo de Nísia Floresta em 2002, quando ainda não era tão sufocado por outras construções.

O município de Nísia Floresta já sofreu tantos danos ao seu patrimônio histórico – inclusive até recente – pertinente à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, e todos sabem a saga de quem enfrentou o sistema e a ignorância para impedir. Saibam, pois, que quando o povo diz “não”, não precisa da saga de única pessoa. A força do povo é como uma vara de condão, faz mágicas sem odisseias. Não creio que o povo, sabendo dessa proposta, não se precava dessa ideia esdrúxula de mexerem no Sítio Floresta.
Folder de uma conferência sobre Nísia Floresta que organizei em 2000, ocasião em que Diógenes da Cunha Lima foi um dos palestrantes.
 
Ao invés de divagarem a ideia de arrancar Nísia Floresta dali, mobilizem o poder municipal, estadual e federal e, mediante projeto, comprem mil metros quadrados de toda a vizinhança do túmulo e monumento, restaurem tais peças. Façam dali um espaço civilizado e digno de se evocar Nísia Floresta em termos educacionais, culturais, históricos, memorais e turísticos. É fácil. É só querer. Até onde sei, a ideia esdrúxula de arrancarem Nísia Floresta do seu berço prediz um memorial de alto custo. Algo muito bem feito. E por que não gastar esse dinheiro comprando a área privada que sufoca o local? Depois cria-se outro projeto e faz-se algo civilizado, MAS NO LOCAL ONDE ESTÁ. Tenho muito receio quando pessoas altamente esclarecidas têm essas ideias fora da caixa. Prefiro supor que se trate de um ‘insight’, uma tormenta passageira.
 
Folder de uma conferência sobre Nísia Floresta que organizei em 2000, ocasião em que Diógenes da Cunha Lima foi um dos palestrantes.
 
Enfim, deixo esse registro, e para comprovar que não me equivoquei, há mais ou menos 12 meses, um membro do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte me disse a mesma história. Não sei o andamento atual desse assunto. Até compreendo a revolta dos intelectuais natalenses ao verem a situação caótica do túmulo e do monumento a Nísia Floresta no Sítio Floresta. Mas ela não é bem vinda, pelo menos para mim que luto há trinta anos em prol do zelo para com a história e a memória de Nísia Floresta. Cabe às autoridades e ao povo nisiaflorestense aguardar e, quando necessário, intervir com o seu NÃO de maneira respeitosa e diplomática, propondo o que é justo. Aguardando a opinião do povo, encerro, agradecido. L.C.Freire, 20h16, 3.5.2024.
 
Folder de uma conferência sobre Nísia Floresta que organizei em 2000, ocasião em que Diógenes da Cunha Lima foi um dos palestrantes.