ANTES DE LER É BOM SABER...
quinta-feira, 23 de maio de 2024
TRETAS...
TRETAS...
As duas histórias contadas abaixo, são reais. A primeira se passou entre Mário de Andrade e Oswald de Andrade. A segunda aconteceu entre eu e Dona Fulana, uma senhora de 83 anos, quando registrava as memórias de uma determinada cidade, no início da década de 90, e ela me saiu com uma pérola que nunca esqueci.
Pois bem, no calor da disputa pela liderança do Movimento Modernista, duas figuras notáveis se envolveram numa briga dessas típicas entre intelectuais vaidosos. Cada um queria ser o pai do movimento. Estou falando de Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Nessa história, acabaram nutrindo inimizade entre si. Para ver que alguns imortais brigam e conservam picuinhas!
Certa vez, Mário de Andrade foi orientado por amigos a reatar a amizade com Osvald, alegando que seria mais civilizado. Ele não quis. Veja suas palavras retiradas literalmente de uma carta escrita por Mário em 1945: “Ele que vá a reputa e triputa que lhe pariu”. Poucos meses depois Mário morreu de infarto. Na realidade, Oswald fez inúmeras tentativas de reaproximação, mas Mario jamais perdoou Oswald, o qual também lhe chamou de “Oscar Wilde por detrás”.
Essa confusão de intelectuais nos faz perceber que Mário tinha um gênio forte, mas que talvez nem seja somente isso, pois Oswald fazia o tipo cínico, que feria o “amigo” e mesmo assim queria a sua amizade. Mas o que dona Fulana, de uma pequena cidade do RN tem a ver com essa história? Quase tudo!
No calor da entrevista, já bastante familiarizada comigo, comentando sobre a presença de soldados norte-americanos em Natal, durante a Segunda Guerra Mundial - e suas façanhas pessoais - a velha senhora disse que tinha sido puta. Essa informação, dita num rompante, não impediu minha demonstração de surpresa. Engoli seco, pois nunca havia sido informado pelos mexeriqueiros de plantão da cidade sobre essa página da vida dela.
Então, no vavavu da conversa ela complementou “eu já fui puta e ripiputa!”, como se quisesse dizer que fora uma puta de marca maior, uma super puta, digamos. Fiquei impressionado com a sinceridade e o neologismo também. Inclusive me lembrei desse episódio entre Mário de Andrade e Oswald de Andrade.
Quem teria inventado a palavra? O povo brasileiro é criativo até para xingar. Mário disse: "Ele que vá a reputa e triputa que lhe pariu!" Mas se ele tivesse conhecido dona Fulana, teria dito "Ele que vá a reputa, triputa e ripiputa que lhe pariu!
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OBS. Por uma questão ética, omiti o nome e a cidade reais da referida senhora, embora pessoas mais próximas poderão identificá-la, pois os mais antigos sabem do episódio.
O que o Rio Grande do Sul diz para nós?
terça-feira, 21 de maio de 2024
Meus livretos de insights poéticos...

Quando adolescente tinha o hábito de fazer cadernos usando folhas pautadas, envolvidas por algum papel colorido. Preferia-os aos cadernos industrializados. Normalmente usava cartaz ou folhinhas (calendários). Eram cadernos usados exclusivamente para escrever poemas, prosas, poesias. Aprendi isso com Manoel de Barros, numa das visitas que fiz a ele em Campo Grande, MS.
Até hoje conservo o hábito. Não gosto de cadernos, mas dos meus cadernos de fabricação própria. E o mais interessante é que meu filho F., vendo a minha produção, herdou o hábito, e reivindica-os para os seus escritos, acolhendo-os para o seu lado poeta. Hoje, digito mais, mas jamais deixei de lado a escrita à mão. Obs. Os poemas abaixo são da década de 1980 e obviamente que revisados.
Os Guarani-Kaiowá da minha infância...
Lembro-me, com saudade, dos indígenas Kaiowá. Vê-los sempre em alguma diligência nas ruas da minha cidade natal significava um filme ao vivo. Passavam despercebidos aos urbanos por serem a própria paisagem. Eram arredios, desconfiados, iguais a alguns estrangeiros. (estrangeiro na própria terra?!).
Os Kaiuwás falavam macarronicamente a língua portuguesa, pois o idioma mater deles é o guarani; não exatamente o guarani falado no Paraguai. Existe diferença tal qual o português brasileiro e o de Portugal. Eles também falam uma compilação de dialetos, dos quais muitos se extinguiram com a morte dos idosos. Alguns ainda resistem,arranhados pelos mais novos. Porém, fluente mesmo é o guarani. Na divisa doestado do Mato Grosso do Sul, onde nasci e fui educado, é comum o povo se comunicar em português, espanhol e guarani, por influência do Paraguai.
Eu adorava flagrar os kaiuás em conversação. Não sei explicar o motivo. Simplesmente gostava de vê-los proseando aquela língua de árvore, língua de água, língua de terra, língua silvestre. É gostoso ouvi-la. Em especial, é encantador apreciar as crianças conversando com os mais velhos. Seus nhenhenhens têm sotaque de passarinho. Para mim é encontro dos primórdios do Mundo com o tempo atual. É passado e presente frente a frente, vivos, fluentes, palpitantes, tal qual um coração.
O pensador Jean Jacques Rousseau nos contou sobre o mito do“bom selvagem”em sua obra. Defendeu a ideia de que o homem primitivo é bom por natureza. Disse que a sociedade o corrompe e o torna mal. Em partes. A nossa própria Nísia Floresta, em seu livro “A lágrima de um Caeté” retrata o índio pernambucano,há quase duzentos anos,chorando a sua derrota contra o homem branco. Mas vamos para frente que explicarei sobre os índios que conheci ao vivo e em cores.
Como cresci junto a muitos índios Kaiuwás e os vi “in loco”, adquiri profunda admiração e respeito a eles. Não é à toa que possuo uma extensa biblioteca sobre os povos indígenas do Brasil, tema que me fascina desde que eu era quase um deles, pois cresci numa cidade emoldurada por natureza abundante, cujas araras e papagaios tapavam as nuvens à tardinha, em voejos inacabáveis.
Meu desenvolvimento se deu em meio às seriemas. Era fácil alcançá-las em tempo chuvoso, à custa de um desabalado galope de cavalo. Elas ficavam pesadas de água. Hoje, meninos brincam alisando dedo no vidro do esmarte. Cansei de ver onças saltando do braço de ingazeiras e caindo nos rios. Corri desabalado dentro dos túneis de capivaras com esta irmã da foto. Um dia meu pai atropelou um bando de tamanduás-bandeira na escuridão de uma estrada rural. Nunca esqueci o susto e a nossa tristeza. Foi inesperado. Inúmeras vezes vi bandos sem fim de caititus barulhentos, rangendo os marfins mata adentro. Enfim eu era um branco índio.Creio. Por tal razão, entendo a personalidade dos nossos índios exatamente igual a qualquer pessoa que cresce afastada dos hábitos urbanos. Há muita inocência e simplicidade na maioria. O índio primitivo por questões culturais, espirituais etc, sob visão antropológica, também teve o que podemos afirmar como “lado mal”. Mas isso é outro tempo. Exige outras reflexões que não cabem aqui.
Como sabemos, índio tem uma inclinação natural pela guerra. Uns com mais e outros com menos intensidade. É algo que está nos seus genes, pois como eram nômades muito antes de chegarem às terras que seriam o Brasil -ou “Pindorama” - não poderiam ser avessos à luta. E isso acontece a nós, urbanos. Se formos inocentes e ingênuos, mesmo no contexto entendido como “civilizado”, seremos engolidos pelos maus e oportunistas. A vontade de brigar é o natural instinto de sobrevivência. Não é à toa que existem diversas “práticas esportivas” inventadas por todas as comunidades indígenas. Eles promovem brincadeiras para agilidade e fortalecimento do físico e psicológico para o possível enfrentamento às tribos inimigas.
Talvez você me pergunte “mas então porque eles comiam uns aos outros”? Entenda que nem todos eram canibais. Assim como nós, urbanos, apelidados de “civilizados”, podemos abominar certos comportamentos em algumas comunidades estrangeiras, eles agem iguais. Você comeria barata assada? Comeria um bom guisado de cachorro? Apedrejaria uma mulher que traiu o marido? É mais ou menos isso.
A data de hoje deve ser tratada com ênfase em todos os lugares, lembrando que a cultura afro-brasileira e indígena, segundo a lei, deve ser assunto fluente nas escolas, independente de data comemorativa.
Dia desses alguém falava em tom depreciativo sobre índio que possuía avião, índio que promovia prostituição, índio que cobrava pedágio, enfim a pessoa desenrolava um novelo de situações sobre índios de determinadas regiões para crucificá-los, generalizando. É um grande erro, pois a maioria das ações que os índios executam, nesse contexto, foi ensinado pelo homem urbano. E isso parece irreversível, pois as relações entre ambos jamais deixará de acontecer.
Na realidade há um contexto infinitamente complexo. No tocante ao madeireiro, aos latifundiários e posseiros, eles se tornam “amigos” dos índios e usam a “amizade” apenas para levar vantagem. O relacionamento com os índios é praticado exclusivamente para atender aos interesses deles. E fazem o mesmo perante as autoridades protetoras da natureza e com o próprio povo. Isso é popularmente chamado por alguns de “jogo de cintura”. O que explica ser submetido a tanta enganação senão ingenuidade? Parece contraditório, mas não. Esses senhores equivocados educam e instigaram os índios, por exemplo, a cobrar pedágio (pedir dinheiro aos motoristas que atravessam suas terras) e, por trás, os denunciam.
Para eles, estar do lado dos índios é vantajoso para se ter acesso aos recursos naturais cobiçados. Veja como são raposas velhas. Até parecem certos políticos que a gente conhece. Ou seja, eles aparentam estar do lado dos índios, aparentam estar do lado dos órgãos protetores do meio-ambiente, e por último,aparentam estar do lado do povo que se revolta com os índios. Mas, na realidade, eles estão só de um lado: o lado deles próprios. Agem única e exclusivamente em prol de seus interesses pessoais, que é explorar madeira de lei, minérios e terras para criar gado ou plantar. Pedágio é uma invenção do homem branco. Se os índios copiaram isso é preciso entender como se deu. Na realidade os índios praticam essa e outras ações por uma série de razões. E todas são explicadas pela interferência maliciosa e interesseira do homem branco, do homem “civilizado”.
Uma coisa eu tenho certeza absoluta: o índio verdadeiro possui uma inocência admirável. Chega a ser puro. Muitas vezes os índios adultos mais parecem crianças, por mais que sofram influência da urbanidade. Não falo de uma inocência débil, mas uma inocência racional nas suas práticas corriqueiras. Inocência boa. Por exemplo, quando os visitei com a minha irmã, que faz um trabalho junto a eles, era mais de 17 horas. Joge saia para buscar lenha. Quando abordado por nós, disse serenamente e em português macarrônico: “é hora de catar lenha; não é hora para visitar, senão amanhã não faz fogo; visita índio é antes do pôr-do-sol”.
Ele dizia isso quando uma jovem índia apareceu num rompante e debulhou uma espiga de palavreados estranhos n’outro dialeto. Ela implicava por ele estar conversando conosco na hora errada de ir para a mata fazer o que devia. Em outras palavras ele nos deu um ‘esbregue’, e foi reforçado pela índia. Curioso é que em meio a tanta pureza eles são gigantes e donos de uma sabedoria que jamais o homem branco sobrepujará. OBS. Eu, minha irmã e Joje estamos nessa fotografia postada, ocasião que os visitei há nove meses, quando estive no Mato Grosso do Sul.
Lembro-me dos Guarani-Kaiowá com muita saudade e sinto-me chocado com as injustiças que fizeram e permanecem fazendo a todas as etnias indígenas brasileiras. OBS. Este texto é dedicado a Darcy Ribeiro, apaixonado pela causa indígena, o qual tive o prazer de conhecê-lo em 1995.
Nas fotos apareço com Joje minha irmã Regina e sua amiga Elizete que trabalham com eles... Parabéns pelo amor a esse povo forte. Nossos ancestrais... nosso presente! Respeitemos os filhos dessa terra. Os donos do Brasil!
Nísia Floresta: A primeira indianista do Brasil também era indigenista...
Nessa data significativa, trago a reflexão de um trecho de "A Lágrima de Um Caeté", extenso poema histórico da nossa notável Nísia Floresta Brasileira Augusta, reeditado algumas vezes pela professora mineira Constancia Lima Duarte que doutamente o comenta. Em pleno ano de 1849, Nísia aponta todos os holofotes aos Caetés e GRITA ALTO contra o genocídio indígena. Eu disse 1849, ou seja, há 123 anos. Vejam que é antiga a guerra injusta contra os povos indígenas. Então ela nos mostra um índio que se sentia derrotado naquela época. Ora! Há quase um século e meio. DERROTADO? E quando sabemos que essa era a realidade dos indígenas de quase todo o Brasil, reconhecemos, claramente que ela elegeu os Caetés para traduzir a realidade nacional.
Percorram as literaturas e a Historiografia e procurem indianistas indigenistas antes dela. Ou contemporâneos dela. Talvez alguém citará José de Alencar - bem depois - com sua tríade de obras famosas, que todo brasileiro traz na ponta da lingua. Mas não! Alencar veste os índios com roupas de heróis. Seus índios são idealizados, são alegorias... São cavaleiros que nada tem de índios na acepção pura da linguagem. Lembram os pintores europeus que pincelavam índios de sobretudo e fraques. Ou os diários de viagem, que narravam índios alegorizados.
A nossa Nísia tira essa roupa. Ela despe-o, desnuda-o... elá descortina uma floresta destruída e índios derrotados. O espetáculo é triste e emociona. Enquanto Alencar os faz chorar por desilusões amorosas, conflitos culturais e mortes, POIS SEUS ÍNDIOS SÃO INVENTADOS, 'NOVELIZADOS', a nossa Nísia nos faz chorar apresentando o índio real. E qual era o índio real? O índio real - pelo menos em quase todo o Nordeste de sua época - os Caetés especificamente - ERAM ÍNDIOS SEM IDENTIDADE - sem terra, sem eira nem beira. Antes, a selva os sombreava com árvores que arranhavam os céus.
De repente passaram a viver à sombra dos portugueses, das armas, das guerras, dos desmatamentos, da invasões de área... Os pobres nativos não poderiam se sentir índios porque uma cultura estranha emanava de todos os lados, obrigando-os a não serem ninguém.
Se não eram mais SELVAGENS, então se tornaram CIVILIZADOS? Claro que não! Como ser civilizado numa cultura alienígena e hostil? Como ser civilizado vomitando palavras em tupi, sem entender nada do idioma invasor? QUE ERAM OS ÍNDIOS ENTÃO? É essa a grande pergunta.
E somente a nossa Nísia a fez, diferindo de todos, inclusive dos famosos autores que caíram na graça e no modismo da Literatura daquele período, classificados como os primeiros indianistas do Brasil. Ora! Muito mais que isso foi a nossa Nísia, e no entanto é renegada.
A Historiografia não enxergou-a como primeira indianista do Brasil. E para coroar a sua capacidade visionária, ainda garanto a você, leitor, que ela também foi a primeira indigenista brasileira.
Antes dela ninguém se debruçou sobre o assunto com acuidade e aura jornalística. Talvez por isso que "A Lágrima de Um Caeté" - em cujos versos também é acomodada o episódio da Revolução Praieira, e ela enaltece um de seus grandes líderes - foi censurada pelos olheiros do Imperador.
Embora ela nunca escreveu sobre isso, fica fácil supor pelos pontilhados em que ela, INTELIGENTEMENTE, permeou os versos. A obra, de fato, era um insulto. Se fosse hoje a nossa Nísia seria cognominada "Comunista", o diabo a quatro... fazer o quê?! Pois bem, aproveitei essa data que tanto respeito para lembrar aos leitores que a nossa Nísia não andou por aqui para brincar...
Fia e Sofia...
Lá estão Fia e Sofia.
Enquanto Sofia fia, Fia fala.
Fala Fia, calada Sofia.
Sofia fia, não ri.
Fia fala e ri.
Fia Sofia, ri Fia.
Quanto mais Sofia fia, mais ri Fia
Sofia só fala.
Fia só fia.
Só Fia fala,
Sofia só fia,
Vivem assim, Fia e Sofia,
Sofia e Fia,
Fia e Sofia,
Tecendo a vida...
Nessa filosofia...
























































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