ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

PLEBISCITO PARA MUDANÇA DE NOME DE NISIA FLORESTA PARA PAPARI MUDAR O NOME, OS HOMENS... OU AS IDEIAS?


PLEBISCITO PARA MUDANÇA DE NOME DE NISIA FLORESTA PARA PAPARY

MUDAR O NOME, OS HOMENS... OU AS IDEIAS?

"O que é que há, pois, num nome? Aquilo a que chamamos rosa, mesmo com outro nome, cheiraria igualmente bem".

   
                                                                           William Shakespeare

INTRODUÇÃO
      
O nome de uma pessoa é o seu primeiro patrimônio. Uma pessoa pode sofrer a vida inteira por carregar um nome que não gosta. Às vezes o não gostar tem uma aura de vaidade, como por exemplo, não gostar do nome de Antonio, Miguel, Pedro, João, Severina e outros (que estranho tem tais nomes?). Mas, muitas vezes a justificativa é forte. O que dizer de um cidadão com o nome de Ivândalo? Conheço um, por sinal pessoa idônea, a qual sente muita revolta. Nada mais justo que mudá-lo. Existe um protocolo para essa mudança junto à Justiça, o qual é possível num caso como esse. 
 
       E quando se trata do nome de um município, como é o caso de Monte Alegre, que originalmente era “Bagaço”? E “Pau Grande”, no interior de São Paulo, onde nasceu o célebre “Garrincha”?
 
       Há poucos dias ouvi o professor José Maria na FM Executivo, 87,9 falando brevemente sobre mudança de nomes de municípios. Ele enaltecia o povo de Parnamirim por ter reivindicado o nome original do citado município, o qual foi mudado para “Eduardo Gomes” na década de 1980. Elogiava a beleza da toponímia indígena, inclusive referiu-se a original denominação “Papary”, trocada depois por Nísia Floresta. 
 
       O professor tem na sua emissora um quadro de propagandas intitulado “José Maria conhece Nísia”, no qual costuma contar em pequenos trechos a história dessa intelectual e do município homônimo.
 
       Na realidade esse comentário não teve a intenção de depreciar o nome da filha mais ilustre do município. Pelo contrário, fez alusão a uma prática que tem ocorrido em muitos municípios, onde mudam o nome original em detrimento de homenagens oportunistas, movidas por conveniências politiqueiras.
 
       No que se refere a Monte Alegre, creio que os nativos dali devem ter gostado, afinal é esquisito dizer “eu moro em Bagaço”. Dá impressão de destruição, coisa estragada, estropiada. Não se compara a beleza de “Monte Alegre”. Quanto a “Pau Grande” o nome continua lá, embora não exista mais o pau (árvore) que deu origem ao nome da cidade. Talvez o orgulho de ser o berço do nascimento do incomparável jogador Garrincha, ajude a manter o nome.
 
       O município de Nísia Floresta já passou quatro vezes por essa experiência em contextos diferentes (tenho um texto sobre isso nesse mesmo blog), a saber: Papary, Vila de Papary, Vila Imperial de Papary, Papary e, finalmente Nísia Floresta.
 
       O nome atual, diferente do original, que parece ter vindo de fora para dentro, pois foi dado por um deputado, em 1948 (Arnaldo Barbalho Simonetti), na realidade veio de dentro para fora, depois da insatisfação do povo com o nome original "Papary". Mais embaixo o leitor entenderá. Papary virou Nísia Floresta de um dia para o outro. 
 
       Num amplo trabalho de História Oral empreendido a partir de 1992, encontrei a senhora Leonísia, morta com quase cem anos, em 1994, a qual contou-me que não gostava do nome Papary e justificou uma razão de cunho puramente folclórico e até pitoresco. Disse-me que certa vez uma moça que veio a Papari passar umas longas férias, enviou um telegrama para o pai que se encontrava em Natal, o qual deu o que falar:
       “Papai, me espere barriguda Papary”.
       O pai quase teve um enfarto.
    Trazendo para a linguagem comum a moça quis dizer o seguinte:
       “Papai, o espero no baobá de Papary”. 
 
       Explicações: o velho baobá até poucas décadas era conhecido como “barriguda”, então ela o aguardava à sombra da “barriguda”, em Papary, ou seja, em Nísia Floresta. É sabido que “barriguda” é um vocábulo antigo usado popularmente até hoje para definir uma mulher grávida.
       Ora, você é inteligente e já matou a charada sobre o que o pai entendeu.
       “Papai, me espere grávida nos dias de parir, ou para parir (dar a luz)”.
       (Foi isso que o pai entendeu). Há outras versões dessa mesma história, mas são quase a mesma coisa.
 
       Voltando ao assunto inicial, o que estará pensando o leitor sobre o que estou querendo dizer. Estarei querendo mudar o nome da cidade ou não? Deixemos esse detalhe para as laudas abaixo (e para a sua consciência) e voltemos para o assunto da senhora Dionísia. Ela disse que “achava feio” o nome Papary, pois parecia com “para parir”. Outras pessoas antigas da cidade também me contaram a mesma coisa, como Jorge Januário de Carvalho, Nathália Nascimento, Vicente Marinho e outras.
 
      Perguntei sobre o que ela pensava sobre o nome Nísia Floresta. Dona Leonísia disse que não gostava muito, pois “era uma mulher que as pessoas falavam muito mal”. A julgar pelo raciocínio da senhora Dionísia ela desaprovava os dois nomes. Significa dizer que para ela o lugar teria outro nome: “Belo Vale”? “Águas belas”? “Encanto”? “Paraíso”? “Terra Rica”? “Baobá” etc. (Obs. São nomes inventados por mim e não por ela).
       Se um plebiscito fosse feito haveria muitas senhoras Dionísias atuais. Haveria, também, muitas opiniões pela volta do nome original “Papary” e, da mesma forma, uma parcela defenderia “Nísia Floresta”. 
 
       Particularmente entendo que nomes originais devem ser retomados, como aconteceu a Parnamirim (“Paraná-mirim”), principalmente quando a retomada, mais que vaidade, traduz um conjunto de valores, como o enaltecimento do nosso estado de descendentes de índios, e o respeito à história. A retirada do nome de Nísia Floresta e a devolução do nome "Papary" não tira o gigantismo de Nísia Floresta.
 
       Diferente do exemplo de “Bagaço”, que pode causar desconforto em alguns habitantes, não vejo o nome “Papary” como um topônimo reprovável (“pás pari”: armadilha de pegar peixe – diríamos que é o covo atual). 
 
       A cidade em que nasci possui 57 anos e sempre teve o mesmo nome, que é a fusão dos nomes do fundador, um tcheco-eslovaco com a terminação guaçu, em língua guarani, que trazendo para o português é recurso gramático que serve como aumentativo.
 
       O batizado desse município como “Nísia Floresta”, diferente do que ocorreu com “Eduardo Gomes” que teve vida curtíssima, deu-se há 63 anos, ou seja, mais de meio século. Um espaço de tempo longo para arvorar discussões pertinentes à mudança. São sessenta e três anos do batismo “Nísia Floresta”. Esse argumento é muito forte, mas ainda não é o bastante diante do democrático direito de os habitantes desse local opinarem.
 
       Sobre a simbologia do nome “Nísia Floresta” creio que dispensa maiores comentários. Trata-se do nome internacional de um personagem da história do Brasil que lutou em prol de causas importantes, como: extinção da escravidão, implantação da república, respeito aos índios brasileiros, reforma na educação, liberdade de expressão, liberdade de culto, a importância da amamentação, emancipação das mulheres etc.
 
       Entendo esse nome como algo que veio coroar a região como um vale rico e abençoado, que tem quase tudo para ser uma das maiores potências do Nordeste. O nome “Nísia Floresta” serviu para completar um patrimônio magnânimo, embora ainda não foi descoberto como tal devido a visão acanhada dos que, pela lógica, deveriam possuí-la.
 
       O nome do personagem Nísia Floresta é o suficiente para alavancar o turismo no local, imagine isso somado ao seu patrimônio natural. O percentual de turistas que chega ao município atraído pelo nome da intelectual Nísia Floresta é imenso. Soma-se a isso os que vêm atraídos pelo patrimônio natural e histórico. O nome da escritora Nísia Floresta atrai pessoas de fora para dentro, diferente do nome “Papary”.
 
       Mas algo é muito certo. Independente de o local voltar ao belo nome “Papary”, o personagem Nísia Floresta continuará atraindo pessoas de forma cada vez mais surpreendente e jamais perderá “essa glória é a tua essa glória...!", como diz o hino em sua homenagem.
 
       A possível mudança de nome jamais arrefecerá a imagem da intelectual Nísia Floresta, até porque não se trata de um nome surgido num “plim” de varinha de condão, mas construído, lapidado e referendado. Por outro lado um nome criticado e depreciado, enfim um nome que tanto enobrece o lugar quanto causa desconforto, e nessa antítese, torna-se cada vez maior e mais atraente.
 
       Embora o nome “Nísia Floresta” tem todos esses argumentos fortes a seu favor, como vimos acima, que são os seus 63 anos e sua carga simbólica, por outro aspecto, ainda há os que cultuam idéias deturpadas, conforme o que Isabel Gondim propagou ao longo de sua vida.
 
       No caudal de tudo o que vale a pena refletir, a mudança do nome – embora possível – não é mais importante que a mudança das ideias das pessoas que vivem em sua geografia, a começar pelos que o conduzem, e perpassando por muitos habitantes.
 
      O que precisa mudar no momento, ou melhor, se construir, é uma nova mentalidade, na qual as pessoas entendam que Nísia Floresta foi uma libertadora, filósofa e pensadora. Um ser responsável por conquistas que hoje o país está vivenciando. E, conhecedores disso, se apossem desse espírito libertador e deem asas às mudanças. E que sejam visionários, politizados.
 
       É fácil falar, ou melhor, escrever. Mas também é fácil enxergar, inclusive as entrelinhas. A realidade está aí para todos verem e sentirem.
 
       Existe muito o que mudar, e a justificativa para essa mudança não está num gentílico. Não seria a acepção nisiaflorestense ou papariense que daria cidadania e dignidade ao povo que as veem diariamente podadas. As palavras de Shakespeare, acima, ilustram bem isso.
 
       Como disse a própria Nísia: “Voilá um title de gloire!”.
 


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Pedro Trindade - Uma dívida de 58 anos



        Numa tarde insossa de 1992 encontrei um livro ata contendo um texto com ar de telegrama... ah! Na Câmara de Nísia Floresta.         
       Transcrevendo-o era assim:
 
“Dia 20 de julho de 1953. Aprovado unanimemente sessão realizada hoje Câmara Municipal requerimento autoria vereador Pedro Augusto Oliveira Trindade solicitando V. Excia. incluir orçamento União exercício 1954 verba destinada uma estátua-busto homenagem escritora Nísia Floresta Brasileira Augusta fim ser colocado principal praça da cidade. Câmara Municipal de Nísia Floresta. Protocolo de Saúde. Exercício de 1953 – Nº 1 – Página 11”.
       
         Eu já havia olhado todos os lados da cidade e nunca vira tal busto, o qual, se construído, teria 39 anos na data em que encontrei tal escrito. Fiquei me perguntando quem fora aquele homem ousado a ponto de propor a ereção da estátua de uma mulher cuja imagem não era boa (lembremos que tal requerimento deu-se um ano e dois meses antes da chegada dos despojos da homenageada à sua terra natal). Interessante é que a proposta foi “aprovada unanimemente”.
 
       Será que intimamente toda a edilidade pensava ser Nísia Floresta merecedora de um monumento? Claro que não. Foi só para constar. Outros vereadores, nem tanto. Cumpriam apenas formalidades, pois sequer sabiam quem fora Nísia Floresta. Outros, coitados, não podiam pensar diferente, afinal conheciam a Nísia propagada por Isabel Gondim. 
 
       Mas o que ocorreu mesmo – pelo menos é o que penso – foi que os vereadores foram na onda do amigo Pedro Trindade (homem de considerável preparo intelectual para a realidade da época). Foi como se dissessem: “Se é ele que está propondo, vamos votar concordando, afinal o homem é sabido”. O que ocorreu depois dessa sessão? Como ficou o projeto? Quais as medidas tomadas? Quem tomou as providências? Providências? Houve-as? 
 
       Deixemos a ingenuidade de lado e reflitamos sobre os posteriores passos tomados pelas autoridades da época. A sessão terminou. O livro de atas foi fechado. Os homens públicos foram para casa. Houve a sessão da semana seguinte. Leram ou não leram a ata anterior. Se leram, talvez alguns deram uns muchochos. Sei lá... O que sei é que vieram outras reuniões e o assunto foi, digamos... “esquecido”.
 
       É esquecido com aspas mesmo, para dizer o contrário. Certamente alguém deve ter dado um puxão de orelha no Pedro, num típico caso de apologia à velha música de Teixeirinha “Pára Pedro, Pedro pára, pára Pedro, Pedro pára, esse Pedro é uma parada”. E o Pedro parou mesmo.
 
       Coitado! Deixou de entrar para a história com chave de ouro, pois no ano seguinte a cidade ficaria sem ter lugar para se colocar um pé. Os despojos de Nísia Floresta chegariam num cortejo nunca visto, trazendo gente de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco. 
 
       Natal inteira abalaria-se até o município. As emissoras de rádio não dariam outra notícia. Escolas, Exército, Marinha, Aeronáutica, autoridades de fora e do local se fariam presentes. Com certeza muitos teriam ficado orgulhosos vendo a “estátua-busto” na praça defronte à Matriz, assinalando a vanguarda do nativo autor da homenagem.
 
       Se o Pedro não tivesse parado. Se tivesse insistido, teria deixado sua página escrita para sempre na história do município e sua colaboração para o resgate da memória de sua conterrânea. Mas valeu! Ele teve a intenção. O problema não foi nele. Foi nos outros. E os outros eram maioria.
 
       Se nesse dia a “estátua-busto” tivesse lá, com certeza os visitantes teriam tecido os maiores elogios ao prefeito, tipo:  
 
      “Isso que é Prefeito decente. Ignorou os comentários maldosos, quebrou preconceitos e tabus e plantou no centro da praça o busto de Nísia Floresta”. 
 
         Outros teriam dito: 
 
        “Que bom. O povo daqui sente orgulho de sua filha ilustre”. 
 
       Mas tudo isso não ocorreu. É só imaginação.
 
       Voltando à ata. O livro teve suas páginas encerradas, e encerrado ficou por décadas a fio, em desuso, afinal quem é que vai ficar lendo atas antigas? "Só doido". Pelo menos é o que dizem. Pedro parou de vez, ou melhor, morreu. Com ele aos poucos foram morrendo os outros edis. Chegaram novos homens, mas com velhas cabeças. Alguns até com ideias de jirico: 
 
“vamo construi uma buêra lá na estrada tal”. “Tem que butá um mata-burro lá na curva dos índio”. “Vamo caiá as rua, afinal tão dizeno que o guvernadô tá vino aí”. “Tem que aplainá a entrada da cidade..."
 
       Esse 'conversê' ocorre em muitas Câmaras do Brasil, cujos projetos se restringem a serviços que jamais deveriam ser pensados na Câmara, dado ao seu estado de trivial e de responsabilidade, por exemplo, de uma Secretaria de Obras. 
 
       A Câmara Municipal de Vereadores, de norte a sul do Brasil é lugar de se pensar o futuro de um povo, e não a tapagem de buracos de rua. A Câmara é um espaço nobre. É ali que estão os homens e mulheres que foram "escolhidos" para representarem desde o lixeiro da cidade ao médico. 
 
       Enquanto perduram esses equívocos o tempo passa e as coisas públicas param. O município não alça a sua civilidade. Mas parece que essa deturpação de responsabilidades ainda vai demorar muito em boa parte das câmaras brasileiras. É mais fácil encher lingüiça dentro de muitas Câmaras que pensar o Plano Diretor, o Estatuto da Cidade, a Lei orgânica do Município, a geração de empregos, o combate ao alcoolismo, o combate à prostituição, a construção de um hospital, mudanças educacionais e outras políticas públicas. 
 
        Há pouco foi veiculada uma reportagem no JN informando que um vereador de certa cidade propôs que votações sobre aumento de salário deveriam ser exclusivamente entre eles, sem quorum popular. É assim, lá dentro, grande parte deles esquece que foi eleita pelo povo e para representar o povo.
 
       Passaram-se 53 anos do projeto do vereador Pedro Trindade. É... a coisa continua com nuanças análogas. As grandes ideias parecem merecedoras de gavetas e ácaros. O curioso é que, apesar de ainda existirem na Câmara Municipal cérebros da idade da pedra, existem exceções... mas, engraçado, não existe soluções. Percebe-se que nem sempre o conhecimento faz diferença.
 
       Particularmente, não acredito em monumentos ou deferências sem que a priori tenha havido estudos pertinentes. O povo precisa anteriormente conhecer a história do que está sendo transformado em monumento, depois deve prestar deferência.
 
       Arrastando essa reflexão para a imagem de Nísia Floresta, por exemplo, já que falei lá no início sobre ela, o que a Secretaria Municipal de Educação tem feito para o incentivo ao estudo da obra dessa intelectual nas escolas públicas do município? Algum vereador apresentou projeto análogo?
 
       Onde estão os livros escritos por Nísia Floresta ou sobre ela? É possível a um professor pedir para um grupo de 35 alunos ler, por exemplo, “Opúsculo Humanitário” para depois discutir em sala de aula? A Biblioteca Municipal “Duque de Caxias”, que faz jus ao nome, têm a obra de Nísia Floresta em quantidade?
 
      Com isso estou dizendo que precisamos, primeiramente, conhecer o monumento com propriedade para depois transformá-lo em alvenaria ou bronze, pois, do contrário, ocorrerá como o projeto do Pedro Trindade. Ele trouxe uma proposta avançada para um grupo de homens que estavam mais preocupados em fazer um mata-burro, colocar um bueiro lá na rua tal, ou colocar arame farpado na entrada da cidade para os jumentos não virem fazer coco na praça. 
 
      Monumento?
      Para quê?!
 
     Esse mesmo raciocínio se aplica a outras situações, na qual “pensadores da educação” trazem projetos educacionais de países de primeiro mundo e despejam em país de terceiro mundo. Esquecem que lá os investimentos são altíssimos na educação desde o momento em que os bebês balbuciam as primeiras palavras. É como jogar pérolas aos porcos.
 
      Como uma criança que vai para a escola pensando na merenda – e uma professora que não lê um livro – vivenciarão com a intensidade necessária a química do conhecimento. Esse processo deve fluir a partir de uma construção, e não de uma balroada.
 
       Recordo-me do busto de bronze de um homem com chapéu que foi mandado instalar durante a primeira gestão do prefeito George Ney, sobre uma estrutura de alvenaria na praça lateral à Matriz de Nísia Floresta. Inicialmente pensei que era o Padre Cícero Romão, mas se tratava de outro personagem. O busto ficou ali por quase 30 anos, até ser arrancado e jogado no lixo. 
 
      Pelo que constatei, uma parcela insignificante da população nisiaflorestense sabia quem fora o homenageado. Soube depois que o homem era tio do referido prefeito e não fez nada assim de tão glorioso a ponto de ser transformado em monumento em fração de segundo, sem ser submetido a votação.
 
      Precisamos de monumentos, mas primeiramente é primordial que exista a garantia de políticas educacionais voltadas para o (a) homenageado (a) – no lugar certo, ou seja, na escola (principalmente). Assim os habitantes do local terão know-how para falar sobre o monumento ao seu próprio povo e ao visitante de outro rincão.
 
       Enquanto passarem pela Câmara Municipal ou pela Secretaria Municipal de Educação pessoas indiferentes ou tomadas de tabus e preconceitos a la Isabel Gondim, com certeza o diamante negro chamado Nísia Floresta continuará sendo um nome coberto por uma névoa de adjetivos esquisitos.
       
      Penso que se Pedro Trindade ressuscitasse e visse, após 58 anos, o comportamento acanhado existente Câmara Municipal de Nísia Floresta em termos de projetos voltados para a necessária deferência à sua filha ilustre, ficaria com enorme interrogação. Parabéns, Pedro Trindade. A sua intenção valeu. Gostaria de tê-lo conhecido. LUIS CARLOS FREIRE

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A ESCOLA E A QUESTÃO DA TRANSVERSALIDADE NA PRÁTICA DO ENSINO DA HISTÓRIA E CULTURA AFRO-BRASILEIRA E INDÍGENA - O OLHAR NECESSÁRIO AO EDUCADOR

A Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. pouco mudou a prática pedagógica nas escolas públicas quando o assunto é NEGRO e ÍNDIO. Sabemos que a referida lei é uma alteração da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei no 10.639, de 9 de janeiro de 2003, as quais orientavam o estudo da história e cultura afro-brasileira. A Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008, por sua vez, estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”, mas isso está ocorrendo?
A mesma está oficialmente disposta da seguinte forma:
Art. 26-A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino médio, públicos e privados, torna-se obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena.
§ 1o O conteúdo programático a que se refere este artigo incluirá diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira, a partir desses dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira e o negro e o índio na formação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.
§ 2o Os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas brasileiros serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de educação artística e de literatura e história brasileiras.”
Art. 2o Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Brasília, 10 de março de 2008.
Isso posto resta-nos refletir sobre o tempo que se passou e a ausência de políticas públicas federais voltadas para o amparo da mesma, no que se refere a material didático (livros e demais recursos áudio-visuais etc).
Enquanto isso não chega às escolas resta aos educadores organizar o pensamento e os materiais atuais que puder reunir para construir com os alunos o conhecimento do assunto.
Para isso o professor deve repensar a forma de ver o índio e o negro, despindo-se dos preconceitos e tabus que lhe foram incutidos pela história oral e pela própria escola. Não é mais tão interessante, por exemplo, prender-se a simples comemoração do Dia do Índio (com alunos caracterizados, dançando e indo para casa com cocares de cartolina imitando pena, shortes e saias de saco de estopa, sendo admirado pela comunidade: “olha o indiozinho!”). Isso não pode ser entendido como uma comemoração.
Precisa-se entender que está-se de fato educando quando se constrói com os alunos um estudo crítico sobre a situação das comunidades indígenas no passado e no presente. Como eram, como estão atualmente, o que mudou, por que mudou. É quando construímos com eles a concepção de que começamos a ser índios e negros a partir do útero de nossa mãe, a partir da nossa casa, a partir da sala de aula. É quando analisamos a complexidade de suas culturas (negros e índios), a organização social dos mesmos, os aspectos espirituais, educacionais, culturais, enfim é quando os enxergamos a partir de nós. É quando declaramos “tenho sangue índio” ou: “tenho sangue negro”, ou: tenho sangue índio e negro”, ou: “tenho sangue índio, negro e europeu”. É quando nos reconhecemos como tal, sepultando os estigmas e estereótipos. É necessário tratarmos a questão do índio e do negro como um todo, concebendo-os no presente, e não apenas no passado.
Não podemos informar que os índios caçavam e pescavam, mas que os índios caçam e pescam, perguntando se todos eles fazem isso hoje. Se não, por quê?
É necessário que tratemos sobre os preconceitos e complexos aos quais índios e negros estão acometidos, e se esse preconceito é diferente, igual ou parecido com o que sofre o negro, o homossexual, o judeu, o cigano, o nordestino, os pobres etc.
É fundamental que tratemos do índio que ainda resiste tão autêntico em sua cultura como há 500 anos, isolados nos recônditos da Amazônia, e o índio já experimentado pela transfiguração étnica, lingüística etc.
O índio que luta por suas terras e sua cultura, que se organiza coletivamente em nome do seu amor natural à natureza. O índio que possui helicóptero e negocia com madeireiras. O índio que sabe que a FUNAI os relega em detrimento de interesses governamentais e de terceiros, e que até recebe suborno, mas que ainda a quer, pois sabe que a FUNAI ao menos pode lhes dar assistência de alimentos e remédio.
É importante que durante o ano letivo, e dentro de um processo de interdisciplinaridade se fale do índio que trabalha em regime semi-escravo nas mineradoras e usinas de cana. O índio alcoólatra que pede esmola nas ruas de algumas cidades no Mato Grosso do Sul. O índio que não tem mais oca e nem casa, ou seja, o índio já anunciado em pleno ano de 1847 por Nísia Floresta Brasileira Augusta, que já o mostrava como “não selvagem” e “não civilizado”, questionando a identidade dos mesmos.
É necessário discutirmos sobre os livros didáticos e compararmos o seu conteúdo e suas ilustrações para entendermos melhor como os índios e negros eram apresentados aos alunos pelos próprios professores. Não precisará nenhum esforço para ver uma família branca organizada numa mesa de jantar atendida por uma empregada negra que a serve.
As ilustrações mostram inúmeros personagens brancos, todos sorridentes, e não se vêem negros, índios, japoneses entre eles, assinalando a falsa impressão que somos uma nação de brancos.
Quando o assunto é índio, o mesmo é mostrado como um ser do passado, preguiçoso, atribuindo-lhes características padronizadas, como se todos fossem iguais, falassem as mesmas línguas, tivessem a mesma cultura, atribuindo-lhes invenções que não eram praxe de todos etc.
O professor precisa deixar claro os troncos lingüísticos, as inúmeras línguas e dialetos falados pelas comunidades indígenas, a descaracterização e extinção de algumas, bem como o mesmo fenômeno com relação aos seus costumes.
Sobre a atualidade, precisa-se evocar o índio que trabalha como peão de fazenda, na Caixa Econômica Federal, que vive na cidade, que chegou a ser Presidente da Bolívia. O índio artista plástico que vende seus trabalhos no Brasil e exterior. O índio que freqüenta os bancos das universidades. Enfim a história e a cultura dos índios e negros precisam ser esmiuçadas e discutidas com responsabilidade, crítica e ética, numa visão ampla.
Sobre o Dia do Índio, não se quer dizer que é proibido dar a tradicional aura comemorativa à data, mas lembrá-la de forma crítica, atualizada e reflexiva. A escola não pode deixar de lado aspectos da cultura popular (folclore), mas esses elementos evocativos não podem mais serem jogados aos alunos de forma fria.
Se o professor pintou e vestiu alunos de índios, os alunos precisam saber que comunidade indígena representa, se ela ainda sobreviveu, onde está situada, qual a sua população, língua, costumes, características, problemas etc.
Um bom começo para tratar sobre os índios é começar pela História do Brasil e perguntar aos alunos se foram os portugueses ou os índios que descobriram o Brasil. A partir daí o professor vai ter muito trabalho a fazer. É bom que ele faça diferente dos professores que um dia o ensinou.
Toda essa retórica deve ser aplicada a questão afro-brasileira, tendo em vista questões mal contadas nos livros de história. É importante que se conte aos alunos que os europeus iam a países da África e caçavam escravos como bichos, que os próprios negros africanos praticavam a escravidão. Que chegavam naquele continente e destruíam a sua história, dizimando sociedades tão organizadas e complexas como as existentes na Europa. Prova disso é que traziam nos porões dos navios reis, rainhas e príncipes africanos, pois os negros eram vistos como uma coisa quase humana. Uma espécie de bicho-homem.
Não é fácil quebrar uma cultura que vê mal o negro. E isso acontece porque por séculos foi ensinado que o negro não era gente. Não é a cor que incomoda. O que incomoda é o que está dentro das cabeças pensantes, cristalizado por séculos de ódio a uma raça forte, poderosa, inteligente, organizada, complexa, enfim uma nação politizada.
Não é muito interessante dizer que não podemos enxergar a cor, mas o que está dentro do coração. Isso diz que a cor negra não é bonita. O que se deve dizer é que a cor negra e branca são bonitas em suas nuanças diferentes. Tão bonitas quanto um coração bom, justo, crítico e ético de qualquer homem e mulher.
Não podemos deixar de ressaltar a deplorável injustiça cometida contra essa nação negra. Nesse aspecto reportemo-nos novamente a Nísia Floresta, quando ela questiona as autoridades brasileiras, em pleno ano de 1847, perguntando o que dava a raça branca o direito de ter tanto poder sobre a raça negra.
A sala de aula, enfim a escola como um todo é lugar certo para uma gama infindável de discussões e reflexões sobre negros e índios. Cabe ao educador instigar a necessidade de negros e índios sentirem orgulho de sua origem, afinal suas culturas, múltiplas, foram diferentes, mas inegavelmente todas foram e são complexas e criadas à luz de inteligência e organização, ao longo de milênios.
Luís Carlos Freire

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Professora Andressa Carla organiza ensaio fotográfico com suas alunas

Professora Andressa Carla durante a sua aula especial
No último dia 18 de agosto a professora Andressa Carla organizou uma aula diferente com suas alunas. "Precisamos criar sempre algo novo e sair da mesmice para renovar nos alunos o gosto pelo que fazem. Eles amam a dança e se empolgam mais quando programamos. É uma forma de incentivo". Explicou a professora Andressa Carla, a qual ministra aulas de balé há seis anos. À ocasião eles trouxeram um fotógrafo e posteriormente cada qual ficará com o seu book. "Foi a primeira fiz que me vi num book", disse muito alegremente a aluna Ranimusa Santos. "Foi a primeira fiz que me vi num book. é legal, diferente a gente se olhar depois", disse muito alegremente a aluna Ranimusa Santos. 
     "A proposta é justamente essa", explicou a professora Andressa Carla, "eles se olham e a gente vai construindo o conhecimento, comentando a postura ideal, as limitações, a necessidades de avanços, enfim o que necessita de correção. E tudo acontece de maneira natural. Costumo levá-los a perceberem suas limitações sem que eu diga primeiro. Eles  próprios notam e posteriormente vão trabalhando para superar. Assim vão avançando naturalmente", finalizou a professora.
    As aulas de Balé Clássico acontecem na Fundação Parnamirim de Cultura, em Parnamirim, Rio Grande do Norte, onde Andressa Carla é titular e primeira bailarina.