ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Professor Pio


Acabei de ser informado sobre a morte do Professor Pio, vitimado por ataque cardíaco fulminante.
Dizem que "para ser bom, basta morrer". Mas isso não se aplica a esse educador que tinha toda a minha admiração e estima.
Falam que não existem pessoas insubstituíveis, mas quem substituirá aquele homem simples, que chegava e dizia: - “estás vendo aquele menino ali? Ele é tão interessado nas aulas, mas têm tanta dificuldade em aprender. Eu queria muito ajudá-lo, pois sei que ele só está precisando de um norte para pegar a coisa”...
Eram tantas observações. E somente pessoas de alma nobre são assim. Ele se preocupava com os alunos. Bastava encontrar um aluno com dificuldades e lá estava ele, perdendo o sono. Queria resolver. Ficava inquieto. Queria ajudar a todos.
Eu costumava lhe dizer: "sou o seu fã". Ele ria!
Sempre fiz questão de parabenizá-lo e dizer o quanto eu o admirava.
Era um homem cheio de ideias. Olhava as cenas e vinha compartilhar ideias...
Pois é, meu professor! Quem sabe foi por esse mar de preocupação com os alunos – com a fraca educação do nosso país – que o seu grande coração não conseguiu acompanhar as emoções.
A todos os seus familiares e amigos que enxergavam nele esse grande educador, aceitem o sentimento meu, de Gardênia e de Fídias.
Quem substituirá o professor Pio?

Traficantes perseguem casas de Umbanda e Candoblé no Rio de Janeiro, "em nome de Jesus"

Nas últimas semanas alguns terreiros de Umbanda e Candomblé, no Rio de Janeiro vem sendo alvo de ataques e depredações. Num deles, conforme vídeos sugeridos na imagem acima, os traficantes justificam tal truculência “em nome de Jesus”.
Isso deve chamar a atenção de toda pessoa esclarecida, pois as filmagens revelam discursos bem construídos. Eles falam com uma retórica tipicamente pentecostal. A própria voz dos traficantes é parecida com as vozes que ouvimos em diversos programas  religiosos de determinadas igrejas. Tudo é envolvido numa áurea de cólera, julgando que as sacerdotisas são representantes de satanás e as peças sacras estão demonizadas.
Obviamente deve-se abominar tal truculência pelo olhar do respeito às religiões. O próprio Jesus Cristo, se estivesse aqui não faria isso. Mas, confessemos, o que mais nos choca é o discurso dos traficantes, os quais ordenaram, de armas nas mãos, que as sacerdotisas quebrassem as imagens e os objetos de seus rituais.
Isso é de uma monstruosidade inadmissível.
Vivemos um momento mundial no qual os muçulmanos fundamentalistas fazem exatamente igual, embora com outra roupagem. São intolerantes e atacam quem não se curva a Alá.
Nesse caso há uma espécie de exigência de que a pessoa se converta a alguma religião evangélica.
A internet também está cheia de notícias de ataques às imagens dos templos católicos, encabeçadas por pessoas de religiões diferentes.
Nota-se uma cadeia de influências. E tudo é muito parecido. Dá-se a impressão de que há igrejas patrocinando direta ou indiretamente tais ataques. Parece haver intenção de se monopolizar a fé nas favelas.
Sabemos que a maioria das igrejas – queira ou não – são verdadeiras “casas da moeda”. Então quanto mais monopólio, melhor. É mais dinheiro para a que tem culpa no cartório.
Não gosto muito da expressão "tolerância" para referir-se a tais fatos. Prefiro dizer que as fés devem ser respeitadas. A gente tolera aquilo que não gosta, e quem somos nós para não gostar da religião A ou B. Respeitar é suficiente.
Percebo que há algo muito complexo e escuso nesses ataques aos terreiros. Há um mix muito além do que a maioria pensa. Creio que os traficantes estão fundando igrejas para dar vazão às múltiplas políticas do crime. Quanto mais eles sufocarem as outras religiões, mais aumentará o seu poder de tráfico, de lavagem de dinheiro etc etc etc...
Motivos eles têm de sobra para levantar as asas: para onde olham veem bandidos. Bandidos juristas, bandidos nas Forças Armadas, bandidos nas Presidências, bandidos na Polícia Militar, bandidos no funcionalismo público, bandidos para todos os lugares com poucas exceções. Mesmo os honestos se tornam suspeitos, pois ninguém está mais acreditando em ninguém.

Continuo com esperança, mas está difícil.
Precisamos ensinar os nossos filhos a respeitarem as manifestações de fé de todos, sugerindo-lhes que se coloquem nos lugares de quem não faz mal a ninguém e sequer pode ter fé.
Essa discriminação às religiões de origem africana, se formos mais a fundo, também revela preconceito racial e preconceito contra as pessoas mais humildes. Não é regra, mas boa parte pertence a classe mais simples da sociedade. Há pessoas que, só de ouvir falar em Candomblé ou Umbanda, usam as palavras mais depreciativas. Outras, só por saber que uma igreja conserva imagens de santos, alimentam a intenção de quebrá-las.

A árvore de Cristo - Dostoievski


Sou romancista. O meu destino é estar sempre escrevendo histórias. Esta foi imaginada do princípio ao fim. Apesar do que bem poderia ter sucedido em qualquer parte, na véspera do Natal, numa grande cidade com um frio horrível.
O meu herói é um menino de muito poucos anos, talvez seis ou menos, ainda não bastante crescido para que desde já o façam mendigar. E’ provável contudo que em um ano ou dois o mandem estender a mão.
Certa manhã acorda num porão úmido e frio. Está envolto numa espécie de roupão sujo e treme. Sua respiração sai como um vapor branco; está sentado a um canto, em cima de uma mala; para se distrair, êle ativa de propósito o bafo da boca e se diverte com vê-lo escapar. Mas tem muita fome. Várias vezes já, desde a manhã, êle se aproximou do leito de tábuas, recoberto por um colchão de palha, fino como um crepe, onde está deitada a sua mãe. Por que razão estará ela ali? Terá vindo, provavelmente, com seu filho, de uma povoação distante e terá caído enferma. A proprietária do porão foi presa, há dois dias, e conduzida ao posto de polícia; hoje é dia de festa e os demais locatários saíram. Um desses maltrapilhos, contudo, está deitado, há vinte e quatro horas, inteiramente bêbedo, sem ter esperado pela festa. De um outro canto vêm lamentações de uma velha octogenária atacada de reumatismo. Essa anciã foi, noutros tempos, ama de leite em algum lugar; agora morre sozinha, queixa-se, geme,chama pelo menino que começa a recear a proximidade do canto onde ela estertora. Encontrou o que beber, no corredor, porém não pôde arranjar o menor resto de pão e, pela décima vez êle acaba de acordar a mãe. E’ que êle terminou por ganhar medo da escuridão; a noite já vai alta e ninguém acende fogo. Tateando, êle encontra o rosto da mãe e se surpreende de que ela não se mexa mais e se tenha tornado fria como a parede. O corpo está inerte. "Faz muito frio!" — pensa êle. Fica imóvel algum tempo, a mão no ombro da morta. Depois põe-se a soprar nos dedos para os aquecer e, encontrando o seu pequenino gorro sobre a cama, procura docemente a porta e sai do porão. Teria saído antes se não fosse o medo do grande cão que lá em cima, no patamar, à porta do vizinho, latiu durante todo o dia. Mas o cão já não está lá e eis a criança na rua.
—’ "Meu Deus! Que cidade!" Nunca vira nada de semelhante. Lá longe, de onde êle veio, a noite é bem mais negra e não há senão uma lanterna para toda uma rua; casinhas baixas de madeira, fechadas; na rua, logo que anoitece, ninguém; todo o mundo se fecha em casa; somente uma multidão de cães que uiva, na noite sombria; centenas, milhares de cães uivando e ladrando por toda a noite. Mas, em troca, havia calor! e tinha-se o que comer.
"Ah, meu Deus, como seria bom comer! Mas, que algazarra, que barulho! quanta luz e quanta gente! quantos cavalos e carruagens! E o frio, o frio! O corpo fatigado dos cavalos desprende uma fumaça fria, e os seus focinhos ardentes respiram um fumo branco; as ferraduras soam no calçamento, através da neve mole. E como todos se atropelam. . . Meu Deus! Como eu queria comer! um pedacinho de qualquer coisa. . . Isso me faz doer os dedos. . ."
Um polícia acaba de passar e virou o rosto para não ver o menino.
"Aqui está outra rua… oh! como é larga! Vão me esmagar aqui, decerto; como correm… e luz, luz! E isto, o que será? Oh! que grande vidraça! E atrás da vidraça, uma sala e, na sala, uma árvore que vai até o teto; é a árvore de Natal. . . e quantas luzes sob a árvore! papéis dourados e maçãs! e bonecas em toda a volta, e cavalinhos de pau. Há crianças na sala, bem vestidas, limpinhas; e riem e brincam e comem coisas. Eis uma menina que se põe a dançar com um rapazinho; como é linda, a menina! ouve-se a música através do vidro…"
O menino olha, admira, e já sorri; não sente mais dor, nem nos dedos nem nos pés; os dedos de sua mão ficaram inteiramente vermelhos; êle já não pode dobrá-los e sente dor quando os mexe. .. e de repente os dedos começam a doer; êle chora e se afasta. Percebe, por um outro vidro uma outra sala; e ainda árvore e bolos de toda espécie em cima da mesa; amêndoas vermelhas e amarelas. Quatro lindas senhoras estão sentadas e, quando alguém chega, dão-lhe um pedaço de bolo; a porta se abre a cada instante e entram senhores. O pequeno intrometeu-se, abriu bruscamente a porta e entrou.
Oh! que barulho fizeram ao vê-lo, que agitação. Logo uma senhora se levantou, meteu um kopek na mão e lhe abriu, ela mesma, a porta da rua. Como êle teve medo, o menino!
A moeda caiu-lhe das mãos e rolou no degrau da escada; ele não podia mais fechar os pequeninos dedos, de modo a segurar a moeda. O menino saiu correndo e caminhou rápido. Onde ia ele? não sabia. Gostaria bem de chorar, porém, tem medo demais. E corre, corre, soprando as mãos. E é tomado de tristeza: sente-se tão só, tão espantado! e, de repente, meu Deus! que será ainda? Uma multidão de pessoas ali, de pé, que admira. Numa vitrina, por trás do vidro, três bonecas lindas, vestidas de ricas roupinhas vermelhas e amarelas, exatamente como se fossem vivas! E o velhinho sentado que parece tocar um violoncelo. Há também dois outros, de pé, que tocam violino pequenino e balançam a cabeça em compasso. Olham uns para os outros e seus lábios se mexem: eles falam, de fato! Apenas não se ouve, por causa do vidro.
E o menino pensa, a princípio, que eles são vivos; quando compreende que são bonecos, põe-se a rir. Nunca êle viu bonecos semelhantes e nem imaginara que os houvesse assim. Ri, quase que tem vontade de chorar; mas. . . que ridículo chorar por causa de uns bonecos!
De súbito, êle se sente agarrado pela roupa; perto dele está um rapaz grande e mau, que lhe dá um soco na cabeça, lhe arranca o gorro e dá-lhe um pontapé.
Êle cai. Ao mesmo tempo, todo o mundo grita; êle fica, por um momento, rígido de horror. Depois se levanta de um pulo e corre, corre, corre, mete-se pela porta de uma cocheira e se esconde num pátio, por detrás de uma pilha de lenha.
"Aqui ninguém me vai encontrar; está bem escuro".
Põe-se de cócoras e se encolhe todo; em seu terror, êle mal pode respirar. Falta-lhe o ar, o ar. .. Mas de repente, que estranho! Sente um bem-estar; seus pés e mãos já não lhe causam mal algum e êle se sente quente como se estivesse perto do fogão e todo o seu corpo estremece. Ah! êle vai adormecer.
"Como é bom dormir aqui! Demorarei um pouco e depois irei ver as bonecas outra vez" «— pensa êle e sorri à idéia das bonecas. "Direitinho como se fossem vivas!. .
Depois êle ouve a canção de sua mãe. "Mamãe, eu durmo. . . ah! como é bom aqui para a gente dormir!"
Vem a minha casa, criança, vem ver a árvore de Natal, — murmura uma voz suave.
Êle pensou, a princípio, que era sua mãe; mas não, não era ela. Quem o chama, então? Êle não vê. Mas alguém se debruça sobre êle e o envolve na obscuridade; êle lhe estende a mão e. .. bruscamente .— Oh! que luz! Que árvore de Natal! Nunca sonhara com uma árvore assim tão linda! Nunca viu coisa semelhante!
Onde se acha êle agora? Tudo reluz, tudo brilha. E as bonecas em toda a volta. Não, bonecas não: são meninos e meninas, apenas são muito brilhantes. Eles rodam em volta dele, voam, abraçam-no, conduzem-no e êle próprio voa. Vê sua mãe que olha, sorrindo para êle alegremente.
—’ Mamãe! Mamãe! Oh como é bom estar aqui! -— grita o pequeno.
E novamente abraça os meninos e pensa em como gostaria de lhes contar a história das bonecas atrás da vitrina. Mas domina-o uma curiosidade.
— Quem são vocês, meninos? — pergunta êle.
— Nós somos os pequeninos que viemos ver a árvore de Cristo — respondem todos em coro.
E’ a ávore de Natal de Jesus. Em casa de Jesus, neste dia, há sempre uma árvore de Natal para todos os meninos e meninas que não têm suas próprias. . .
E êle soube que todos esses meninos e todas essas meninas eram crianças como ele; uns mortos de frio nas cestas em que os abandonaram, à porta dos funcionários de São Petesburgo; outros, mortos nas "izbas" sem ar dos Tchaukhnas; alguns mortos de fome no seio exausto de suas mães, durante a fome de Samara; outros envenenados pela infecção dos vagões de terceira classe. Todos estão aqui, agora; todos são anjos, agora, em casa de Jesus, que sorri, no meio deles, estendendo-lhes as mãos, abençoando-os, a eles e às pecadoras suas mães. ..
Porque também as mães dessas criancinhas estão lá, afastadas, e choram; cada uma reconhece seu filho ou sua filha e os meninos voam para elas, beijam-nas, enxugam suas lágrimas com as mãos pequeninas e lhes suplicam que não chorem, pois eles se sentem felizes ali. ..
E, embaixo, pela manhã, o porteiro encontrou o pequeno corpo do menino refugiado no pátio, enregelado atrás da pilha de lenha. Encontraram sua mãe também. Morrera antes dele e reviram-se os dois no céu, na casa do Senhor.
Por que engendrei eu esta história pueril, que produz um estranho efeito no livro de um escritor sério? Eu, que não havia prometido contar neste livro senão coisas verdadeiras, sucedidas!
Mas aí fica. . . De resto, bem poderia tudo isso ter acontecido realmente. . . Sobretudo a descoberta dos dois cadáveres!. . . Quanto à árvore de Natal, meu Deus! não sou eu romancista para inventar coisas como estas?
Fonte: Livro de Natal – Livraria Martins Editora. Ilustrações de R. Zamboni. Seleção e Notas de Araújo Nabuco, 1955.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Lenda de Oitizeiro - a terra dos pássaros


Há muitos e muitos anos – no lado norte da lagoa Papari – existia uma densa floresta. As árvores eram tão altas que as nuvens acariciavam suas frondes. Era um vale exuberante e pleno de riquezas naturais. A fauna e a flora eram ricas e se completavam em perfeita harmonia. Os poucos viajantes que transitavam nessas matas levavam as mais belas lembranças e faziam questão de contá-las aos quatro cantos. Essa mata tinha uma curiosidade. Dentre tanta riqueza natural, sobrepujava uma infinidade de pássaros. As árvores e os céus eram coloridos de aves o dia inteiro.

Próximo dali existia uma aldeia comandada pelo cacique Ararê, que significa “protetor das aves”, índio sábio, bondoso e querido por todos. Ele costumava dizer: “matar um pássaro, é matar lentamente uma floresta”. Somente os índios sabiam os segredos dessas selvas, de suas veredas e seus atalhos.

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A tribo se servia dessa área para recolhimento de penas, inclusive algumas espécies tinham plumagens florescentes, que acendiam à noite; outras traziam o corpo tão brilhante que pareciam pequenos sóis bailando nos céus. Essas penas, que se espalhavam indiscriminadamente, iguais a folhas de árvores, eram usadas nos cocares, adereços corporais e nas flechas e petecas. Por onde andavam, pisavam nos montes. Eles não matavam os pássaros, e nem era necessário devido a profusão como as penugens plainavam dos céus.

Eventualmente os índios se arranchavam numa pequena clareira, onde existia um Pirajá. Ali passavam o dia em atividades. Traziam idosos e crianças e faziam disso um momento de descontração entre as famílias. A meninada brincava, se balançava nos galhos que sobraçavam o chão, banhavam-se e pescavam num pequeno riacho local, enquanto os mais velhos assavam peixe e beiju.



Nesse tempo não existia a lagoa. As crianças veneravam as tardes divertidas e nem viam o dia passar. Tudo era regado a uma orquestra infindável de pássaros, os quais trilavam alegres sinfonias, enchendo as matas de vida.  Silêncio era uma palavra desconhecida naquele vale sagrado, comparado ao Jardim do Éden.      
     
Certo dia apareceu um feiticeiro de uma região distante e desconhecida, atraído pela fama do lugar. Ele ficou encantado e dedicou um dia a observar a passarada. Embora não chegou a ver sequer um terço da avifauna, alegou nunca ter se deparado com bandos tão monumentais. Eram muitas espécies diferentes. Eram muitas cores brilhantes. Eram muitos cantares diferentes.

https://espacoastrologico.org/a-astronomia-e-a-astrologia-no-brasil-indigena/

            Naquele tempo as aves tinham significação e importância ainda mais preciosas. Valiam mais que o ouro. Os índios diziam que os pássaros faziam as florestas, pois espalhavam as sementes em todos os rincões, atraindo variados animais. Eles sabiam que as raízes das árvores seguravam a umidade e conservavam os rios e os mananciais locais. Os mais velhos contavam aos filhos e netos que os pássaros eram os “pais das florestas” e valiam mais que o ouro, portanto eles deveriam dar prosseguimento a tal ensinamento.

Na região de origem desse feiticeiro os índios matavam os pássaros por diversão, para se alimentar e para ornar suas indumentárias e materiais utilitários. Na floresta daqui não havia essa necessidade, pois milhares de penas se desprendiam deles naturalmente, suprindo a demenda que tinham.

            Quando esse feiticeiro apareceu e contou-lhes sobre o hábito deles, todos estranharam, dizendo que num lugar com tanta fartura de animais quadrúpedes e tão grandes – como os caititus, que eram porcos do mato – soava desnecessário matar animaizinhos tão pequenos, inofensivos, que só enchiam as matas de alegria e beleza.

O feiticeiro – matreiro – explicou que viera unicamente conhecer e apreciar as riquezas naturais. Ressaltou que todos os viajantes que passavam em seu lugar de origem contavam com deslumbramento o que viam aqui. Na cultura dos índios não existia a mentira, portanto eles acreditaram com naturalidade, nas palavras do estranho visitante.


http://ipevs.org.br/blog/?tag=aves

            Certa manhã o cacique Ararê entrou num trecho quase intransponível para retirar cipó “couro de sapo”, usado para prender feixes, carregar caça e fazer outras amarrações. Conforme foi vencendo lentamente o cipoal deparou-se com um cenário que o aterrorizou. Haviam milhares de gaiolas feitas de cipó, cheias de pássaros vivos. Ele não conseguia assimilar o significado daquilo, pois não conhecia a prisão, nem para eles, nem para os animais. Até mesmo os bichos domesticados viviam soltos na aldeia. Mas aquela incompreensão durou pouco. Após alguns passos viu índios estranhos transportando as gaiolas para umas caravelas aportadas no mar. Na realidade o feiticeiro estava a serviço dos portugueses. Ele trouxera centenas de índios e os escondera na pequena clareira para ajudá-lo nesse empreendimento.  

Após a desagradável surpresa, o cacique Ararê correu para a aldeia e contou o fato a seus irmãos, os quais ficaram decepcionados. No outro dia todos correram ao local e flagraram os índios estranhos, os quais não se trajavam como tais e falavam em português.



O cacique Ararê disse ao feiticeiro que eles estavam promovendo um desastre ambiental. Convidou-os a devolver os pássaros à natureza, sob pena de, em recusando, terem as caravelas invadidas para recolhimento das gaiolas. O feiticeiro se irritou e disse que não era possível atender o pedido, pois os europeus haviam dado à tribo deles muitos presentes como pagamento.

           O cacique Ararê perguntou-lhe se ele não sentia vergonha de roubar a “mãe-terra”. Para eles a terra era mãe de todas as coisas: mãe das águas, mãe das florestas, mãe da terra, mãe dos bichos e mãe dos índios. Muito irritado o feiticeiro não soube responder.

            Nesse exato momento ouviu-se um estouro. Todos se assustaram. Logo em seguida um cheiro esquisito impregnou a mata. Quando perceberam cacique Ararê estava morto, atravessado por uma coisa que eles sequer imaginavam o que era. Em segundos o seu corpo estava envolto num mar escarlate. Houve pânico, pois desconheciam as armas de fogo e nunca ouviram um barulho tão alto e seco. O máximo que escutavam era o trilar dos pássaros, o esturrar das onças, o guinchar dos macacos e o grazinar dos papagaios.

O restante daquele dia os índios estranhos dedicaram ao embarque das gaiolas. Levaram também muito sândalo, ébano, jacarandá e pau roxo, madeiras nobres e comuns na região. Como não encontraram resistência dos índios locais, ficaram à vontade para agir. Dizem que quando as pessoas se calam e não resistem diante das arbitrariedades, os maus vencem.
http://www.pm.ms.gov.br/pma-autua-fazendeiro-em-r-175-mil-por-exploracao-ilegal-de-madeira-protegida-por-lei-em-bonito/ 
 
As aves eram desacostumadas a ataques humanos, portanto não fugiam dos caçadores, conservando a mesma inocência dos índios daqui. A ganância dos europeus era tão descontrolada que naquele final de tarde encheram quarenta caravelas e partiram. Levaram, inclusive, todos os ovos encontrados nos ninhos para alimentá-los durante a longa viagem.

Naquela mesma noite cinco índios corajosos retornaram ao local da morte do cacique e retiraram o seu corpo. No outro dia, bem cedo, o depositaram numa urna funerária, feita de barro e o sepultaram durante um ritual, aos cuidados do pajé “Enarê”, que em língua tupi significa “deus do rio”. Sob a cova depositaram penas de todas as cores. A floresta estava paralisada e muda, como se entendendo o triste acontecimento. Não se ouvia sequer as vozes de outras espécies animais. Fazia pena a desolação até mesmo de crianças e idosos. Eram tantas lágrimas que originaram uma gigantesca lagoa que cresceu lentamente, como magia, no sopé do morro.

http://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com.br/2013/12/a-pedra-encantada-da-lagoa-papari.html

            Seis dias após o enterro do cacique, o pajé Enarê teve um sonho. O Espírito da Mata apareceu-lhe e disse que no local do sepultamento do cacique Ararê nasceria uma linda e frondosa árvore, por nome de Oiti, que significa “massa espremida”. Ela seria responsável por repovoar toda a mata com novos pássaros. Explicou-lhe que eles não se preocupassem, pois o vale sagrado teria mais pássaros que antes, cuja lagoa que nascera das águas choradas pela tribo seria responsável para saciar a sede de todas aves e tudo o que tivesse vida naquelas imediações. E seria, ainda, a lagoa mais rica em peixes e crustáceos de toda a região. Ela se chamaria Paraguaçu, que em língua tupi significa “rio grande”.
 
            O Espírito da Mata fez um pedido especial: que a tribo aguardasse a floração, que aconteceria entre os meses de junho e agosto, e seriam brancas para simbolizar o surgimento de um novo tempo de amor entre a tribo; que os seus frutos surgiriam entre os meses de janeiro e março. O grande segredo dos frutos dessa nova espécie seria emanar um perfume mágico, responsável por atrair o maior número de pássaros, que também serviria de alimento para as aves e outras espécies da região, e que sua madeira serviria para a carpintaria. Orientou que cada índio se encarregasse de plantar uma semente anualmente, pois ela também seria responsável pela preservação da lagoa das lágrimas. O pajé ficou muito feliz e deu a notícia para a tribo. A alegria contagiou a todos. Houve três dias de festa com danças, competições esportivas e muita comida.

Oiti

            Após vinte dias germinou, enfim, o oiti. O tempo passou e tudo se cumpriu exatamente igual a profecia do Espírito da Mata. Se antes os índios pensavam ter uma floresta repleta de pássaros, se enganaram, pois o repovoamento da avifauna tornou-se infinitamente maior. Nunca se viu tantos pés de oitis. Os próprios pássaros se encarregaram de comer e espalhar as sementes. Nunca se viu uma tribo tão feliz.

Toda vez que alguém sente o cheiro delicioso de oiti, lembra o sonho que o pajé teve com o Espírito da Mata. E como o tempo não para, os anos continuaram passando. Homens brancos chegaram ao local e batizaram aquelas terras de Oitizeiro, para designar o lugar como floresta de oitis.
 
Tronco centenário de um oitizeiro
http://es.treknature.com/gallery/South_America/Brazil/photo135408.htm

Hoje, apesar de o homem branco permanecer causando danos às matas, o distrito de Oitizeiro ainda conserva a fama de “terra dos pássaros”. O lugar é símbolo de liberdade, pois os nativos não têm o hábito de engaiolar pássaros. A fama do cacique estendeu-se até hoje, a ponto de eles permanecerem fiéis às suas sábias palavras. A lagoa das lágrimas, que teve o seu nome mudado para Papari, que significa “rio encachoeirado”, apesar do assoreamento e do manejo irregular dos donos de viveiros, ainda guarda rara beleza, e produz peixes e crustáceos. Não há lugar em toda a região que tenha as espécies passarinheiras mais belas, coloridas e variadas. Tudo isso graças aos oitizeiros. 

 jan. 1996 - Copyright L. C. Freire
FIM

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Agora que você conhece a lenda, que tal saber um pouco mais sobre o oiti?

oiti (Licania tomentosa), também chamado goitioitizeiro e oiti-da-praia, é uma árvore da família Chrysobalanaceae que pode atingir entre oito e quinze metros de altura.
            Etimologia
"Oiti" e "goiti" vêm do tupi uï'tï: massa prensada.
Características
Espécie originária da Mata Atlântica, popular em Pernambuco é muito utilizada na arborização de várias cidades brasileiras do Nordeste e do Rio de Janeiro. O seu fruto é uma drupa elipsoide ou fusiforme, de casca enrugada marrom escuro quando madura, com cerca de doze a dezesseis centímetros de comprimento e com caroço volumoso e oblongo. A polpa é doce, pastosa, "areiada" feito uma pinha, enjoativa. Sua aparência externa não é das mais atraentes, muito pelo contrário e a polpa tem uma cor de ocre puxando para o amarelo fosco.

Fruto do oiti
Adicionar legenda

Ocorrência (lugares onde é mais comum)
Na floresta ombrófila densa de Pernambuco até o sul da Bahia e na arborização de cidades brasileiras.
Fenologia (floração e frutificação)
Floresce de junho a agosto. Seus frutos amadurecem entre janeiro e março. No Nordeste encontramos Frutos maduros de janeiro a agosto.
Usos (o que se faz com o seu fruto, suas folhas e madeira)
É muito usada na arborização urbana por sua copa frondosa, que dá ótima sombra. Seus frutos são muito apreciados pela fauna em geral. A sua madeira é de ótima qualidade para diversos usos, como postes, estacas, dormentes e construções civis. Seus frutos são comestíveis, com amêndoas ricas em óleo. Um aspecto notável desta espécie é sua reconhecida resistência aos poluentes urbanos.
Referências
FERREIRA, A. B. H. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Segunda edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986. p.1 218
 
Fontes:
 
Lorenzi, Harri: Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas do Brasil, vol. 1. Instituto Plantarum, Nova Odessa, SP, 2002, 4a. edição. ISBN 85-86174-16-X
Para finalizar, que tal plantar uma árvore?

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Pedagogia do desoprimido


Era litoral
Costado por casas de taipa e verdes mares.
Apareceram homens verdes,
Ordenaram que os adultos seriam alfabetizados.
Mandaram o povo escrever:
Eva viu a uva
As pessoas se assustaram.
Era proibido falar durante a aula.
Era proibido pensar durante a aula.
O homem portava objetos estranhos.
Ninguém sabia o que era uva
Conheciam coco, banana, manga, jaca..
Inexistia o nome de Eva nas redondezas.
Só batismos de Francisca, Benedita, Severina...
E todos eram de alguém:
Maricota de Genésio
Rosa de Zeca sapateiro
Socorro de Pedro padeiro...
Em vez de alfabetização
Houve desalfabetização.
Apareceu outro homem 
Agora parecido com eles
Vestido parecido com eles
Falando parecido com eles
Comendo parecido com eles
(Era um gênio disfarçado de gente comum)
Ele viu a praia e disse:
Vamos nos alfabetizar juntos;
E escreveu na areia:
O barco é do pescador
Mais adiante viu lavadeiras na margem do rio
Então escreveu na terra:
Maria lava roupa na pedra do rio
Observou os coqueirais e escreveu na areia fina do roçado:
Genésio vende coco na praia.
Depois, todos começaram a conversar;
Sentiram-se pertencidos àquelas palavras.
Sentiram que as palavras pertenciam aos seus mundos.
Ele escolhia palavra pragmática
Com valor prático.
Se o homem desse aula na casa de farinha,
Ensinava palavras de macaxeira, beiju, manipueira...
Se a aula fosse no cemitério
Escreviam túmulo, flores, cruz
Se a aula fosse na obra
Escreviam tijolo, barro, vara...
As pessoas escreviam sobre si
Sobre o que estava ao lado delas.
Houve desejo de aprender.
Fizeram barraca de palha.
Virou escola oficial.
Partiram para lápis e papel.
Todos se alfabetizaram em poucos dias.
Nunca houve gente mais feliz.
E o homem, que não era verde,
Foi pego pelos verdes.
Prenderam-no porque ele construía 
Palavras e pensamentos com o povo.
Passado o longo exílio
Retornou o homem que não era verde,
Mas de todas as cores e pluralismos.
Ele percorreu outros torrões
Construindo conhecimentos.
Levando pessoas simples ao pensar.
As pessoas evoluíram
Os lugares prosperaram,
Por onde pisava deixava rastros de letras;
Marcas tão fortes que jamais poderão ser apagadas.
O Mundo inteiro o cultua
Pois construiu palavras com formato de liberdade.
Ele partiu
Mas vive nos que acreditam
Que somente a Educação 
- nada mais - 
É capaz de mudar o Mundo para melhor.

Bugres peixantes...



BUGRE PESCANTE O bugre Kadiweu amarrou a noite numa pedra. Esticou, esticou até o ponto de tarde. Assim podia abarrotar o cesto de peixes. Linha, tirava do horizonte, Anzol, tirava das cascas de camarão, Taquara, tirava das touceiras, A pesca acontecia como água. A natureza no Pantanal santifica tudo, São pedaços de Éden a cada pisada. Mais tarde o bugre amarrará a noite num lírio, Ao ponto de ocaso. "Assim poder pescar mais". É o que ele sussurra, mastigando o beiço, A voz dos bugres tem idioma no céu.