![]() |
| Ilustração de autoria de Luís Carlos Peixoto, publicada no livro "A Menina do Vestido Roxo", de Sírlia Lima |
![]() |
| Ilustração de autoria de Luís Carlos Peixoto, publicada no livro "A Menina do Vestido Roxo", de Sírlia Lima |
Em tempos de comemoração do Dia das Crianças, é comum ouvirmos a expressão: "as crianças são o futuro do Brasil". Contudo, essa frase parece ressoar vazia diante da realidade que muitas dessas crianças enfrentam. Nísia Floresta, em sua incansável luta pela educação integral das meninas, certamente levantaria questões profundas sobre o presente e futuro das nossas crianças. O que tem sido feito para que essa afirmação se torne verdade? E o que, de fato, representa o futuro que desejamos?
Nísia, uma defensora apaixonada da educação feminina, viu na escola o caminho para a emancipação humana. Ela, que viveu em uma época em que as mulheres eram confinadas às tarefas domésticas e limitadas em sua educação, foi uma pioneira ao exigir que meninas recebessem uma formação completa e digna. Ao olhar para a situação atual das crianças no Brasil, é impossível não refletir sobre a continuidade da luta de Nísia. Décadas se passaram, mas as desigualdades educacionais ainda marcam a vida de milhões de meninas e meninos no Brasil, especialmente os que se encontram em vulnerabilidade social.
Nísia defendia que a educação era a chave para transformar a sociedade, e não há dúvida de que, para ela, a situação atual das crianças no Brasil seria alarmante. Ainda hoje, muitas meninas e meninos, desde muito cedo, são forçados a viver nas ruas, a trabalhar em semáforos ou a acompanhar suas mães na mendicância. Essa dura realidade perpetua um ciclo de desigualdade e exclusão, que rouba da infância o brilho da esperança e do futuro.
Assim como Nísia denunciava as injustiças de seu tempo, ela também nos alertaria para os perigos que nossas crianças enfrentam com o avanço das tecnologias e redes sociais. Enquanto a internet pode ser uma ferramenta valiosa, também tem alienado crianças, deixando-as expostas a conteúdos inapropriados e limitando o tempo para brincadeiras ao ar livre, para o contato com a natureza e para o desenvolvimento de laços sociais saudáveis. A infância, que deveria ser um espaço de crescimento e aprendizado, está sendo substituída por telas e superficialidades.
Nísia, que acreditava no poder transformador da educação, exigiria que repensássemos nossas políticas públicas voltadas para a infância. Precisamos de uma intervenção urgente, com escolas modernas, professores valorizados e um compromisso real com a formação das novas gerações. Para que as crianças sejam, de fato, o futuro do Brasil, é preciso garantir-lhes um presente sólido e repleto de oportunidades.
Ao comemorarmos o Dia das Crianças, é fundamental lembrar que a educação não pode ser vista como algo secundário ou opcional. Nísia nos lembraria que, sem educação, não há transformação. E sem transformação, não há futuro. Não podemos continuar adiando soluções, pois cada dia perdido é uma geração que se distancia das possibilidades de um amanhã melhor.
Para que possamos honrar o legado de Nísia Floresta e garantir que nossas crianças tenham um futuro digno, é necessário agir agora. Que este Dia das Crianças seja um convite à reflexão e ao compromisso com uma educação que verdadeiramente emancipe meninos e meninas, como Nísia sonhou. 12.10.2022
Eu tinha apenas 13 anos quando lançaram o LP Amar é.... Para quem não sabe, LP significa "Long Player", o pai do CD, talvez avô do pendrive — se estiver certo. As canções desse LP marcaram a minha adolescência, em um tempo que, ao menos para mim e os que me cercavam, parecia mais humano, mais romântico, mais respeitoso. Ouvir música era uma experiência distinta do que é hoje. O som preenchia os ambientes, mas sem jamais invadir. Música alta? Somente nos bares distantes, ou em festas e bailes. Ninguém ousava abrir a tampa de um carro e explodir o som na frente de um hospital ou de uma escola... ou em qualquer lugar. O volume elevado tinha seu lugar certo.
Em casa, tínhamos uma grande estante de madeira na sala. Ali repousavam livros, a televisão da marca SEMP e a "radiola" — ou "vitrola", como alguns a chamavam. Ouvir música era um ritual de precisão e cuidado. Colocava-se o LP no prato da radiola, ajustando com cuidado o pequeno óculo sobre um cilindro. Girava-se o botão para ligar e então se aguardava, quase como um ato de reverência, o LP começar a rodar. Em seguida, com a delicadeza de quem maneja algo sagrado, erguia-se a haste com a agulha fina na base, que repousava sobre o início do disco em movimento. E ali, como mágica, as músicas nasciam. Cada lado do disco trazia seis canções, e quando um lado terminava, era necessário virar o LP e repetir o processo. Somente muito tempo depois meu pai comprou um "som", que fazia tudo isso automaticamente. Nosso único trabalho então era colocar o LP uma única vez. Enquanto a música preenchia o ar, nós, em irmandade, nos reuníamos no sofá ou no alpendre, ouvindo e conversando. Curtíamos a música como se fosse uma parte de nós.
Confesso que já naquele tempo os primeiros vestígios de um “lixão musical” começavam a se formar, com os programas do Chacrinha e do Bolinha, em meio a belíssimas canções brasileiras. Mas, se for justo, aquele lixão era ainda inocente, distante anos-luz do que vejo hoje. Talvez nem devesse chamá-lo de lixão, comparado ao atual. Era algo que se esvaía sem deixar marcas, sem cheiro... E, assim como veio, desapareceu. O que restou foram as músicas que traziam poesia, reflexão, crítica, aquelas que acalentam, animam e fluem como o curso de um rio. Essas são eternas, nunca envelhecem. Por mais que estejam tímidas, ofuscadas no meio do fogo de palha que se alastra, resistirão, pois sempre haverá poetas, músicos, arranjadores e artistas dignos do panteão de Apolo.
Toda boa música que carrega o dom de tocar a alma será eternizada. Não importa o estilo — MPB, forró, sertanejo (exceto o universitário, perdoem-me), caipira, brega — o que vale é a qualidade. Muitos criticam as músicas bregas, por exemplo, mas há uma riqueza nelas, especialmente nas que surgiram antes dos anos 90. Afinal, há nomes como Agnaldo Timóteo, Núbia Lafayete, Odair José (um gênio), Paulo Sérgio, Diana, entre tantos outros.
Minha inquietude aumenta quando penso na partida de tantos monumentos da nossa música — Belchior, Ângela Maria, Cartola, Noel Rosa, Tom Jobim, João Gilberto, Cauby Peixoto... Mestres que fizeram escola e inspiraram gerações. Isso me incomoda porque, enquanto vejo esses gigantes partirem, não noto novos nomes surgindo na mesma magnitude. Claro, há algumas exceções entre os jovens, mas a florada dos anos 80 para trás gerou frutos de altíssima qualidade. Eram todos poetas, músicos de excelência, verdadeiros patrimônios.
Ah, quase esqueço de compartilhar uma parte interessante dessas lembranças. A cidade em que nasci, naquela época, tinha apenas 26 anos de fundação. Um município planejado, criado em 1954. Já imaginou uma cidade tão jovem? Meu pai é um dos pioneiros daquele "Grande Sertão Veredas". Meus primeiros sons foram os esturros das onças, distantes, nas densas matas, o grasnar das araras, que, ao entardecer, pintavam o céu com suas cores e sons, seguidas pelos papagaios tagarelando nos pés de goiaba e mamão. À noite, a floresta ao redor se transformava em um monstro tão grande quanto o céu, com milhares de olhos de fogo e sons indecifráveis. Guardava segredos que causavam certo temor a quem se recolhia em casa. E, para dissipar aquele medo ancestral, nada melhor do que ouvir o "bicho homem", ao som dos LPs.
Quando queríamos algo mais sofisticado, atravessávamos a ponte sobre o caudaloso rio Paraná e íamos para o interior de São Paulo. Aos 13 anos, já embarcava sozinha num ônibus rumo às boas lojas paulistas, sem que ninguém pedisse documentos — afinal, todos se conheciam. E sempre voltava com uma novidade. Quase sempre, um LP era a melhor das surpresas. Naqueles tempos, as mesmas músicas nos acompanhavam por longos períodos. Talvez porque não houvesse a atual variedade de meios para ouvi-las. Assim, os LPs tocavam por anos. O único desgosto era quando uma faixa riscava. A agulha, então, ficava saltando e repetindo o mesmo trecho, como o canto incessante de um grilo. Era hora de ir até a radiola, levantar com todo cuidado o “bracinho” do aparelho e colocá-lo na música seguinte. E assim, a vida seguia... Uma vida simples, embalada pelo som de uma adolescência quase infantil.
Confesso que sinto uma certa pena das crianças e jovens de hoje. O "lixão" musical atual é um mega-super-lixão, que encanta e seduz, apagando, pouco a pouco, a poesia dos gênios que não tocam com a mesma frequência.
Eis que, ao ouvir agora o LP Amar é..., este pensamento me veio à mente.
7 de maio de 2021.
História de Vida
Nathalia Françoely Lira de Oliveira, aos 20 anos,
carrega em seu nome uma sinfonia de vivências e sonhos. Nascida em Santo
Antônio do Salto da Onça, em 12 de abril de 2004, é filha de Francisco José de
Oliveira e Maria da Silva Lira. Sua jornada musical começou a ser escrita com a
mesma intensidade que a beleza dos acordes e harmonias.
Aos 3 anos, o destino a conduziu a Natal, onde sua
trajetória escolar começou na CMEI Moema Tinôco. Assim como as notas de uma
melodia que se desenham em um crescendo, seu caminho acadêmico seguiu pela
Escola Municipal Professor Carlos Belo Moreno e culminou na Escola Estadual
Santos Dumont, em Parnamirim, onde aos 10 anos de idade, a família se
estabeleceu. O ciclo do Ensino Médio foi concluído na Escola Estadual
Presidente Roosevelt, marcando o fim de uma fase e o início de uma nova
sinfonia.
A música sempre foi o fio condutor de sua vida.
Desde cedo, Nathalia mergulhou no universo dos sons, encantando-se com as
vibrações do ballet, da dança contemporânea, do jazz e do violão, tudo isso no
Teatro Municipal de Parnamirim. Seu primeiro violão chegou aos seus 14 anos,
presente de seu pai, um gesto que ecoou como uma promessa de futuros acordes.
Contudo, a paixão por cantar já se manifestava antes disso: aos 12 anos,
começava a se aventurar no mundo digital do YouTube, compartilhando sua voz e
seu talento com o mundo.
Foi aos 14 anos que Nathalia, com o apoio constante
do irmão mais velho, participou do concurso “C de Cantar”, promovido pelo
programa “C de Criança” e pela escola “4por4”. Seu irmão não apenas a
inscrevia, mas também a acompanhava nas aulas de canto e ensaios, ajudando a
moldar seu caminho artístico com dedicação e amor.
Aos 18 anos, o Enem foi o primeiro passo para uma
nova fase acadêmica. Nathalia ingressou no curso de Letras na UFRN, um espaço
que a conectava com a literatura, a poesia e o universo da escrita. Contudo,
como ela mesma expressa com a clareza de quem conhece a própria essência, “o
meu coração sempre esteve na música”.
Em 2022, o sonho de cantar profissionalmente tomou
forma com sua participação nas oficinas de Canto e Coral da Secretaria
Municipal de Cultura de Parnamirim. Sob a orientação do professor Lailson
Toscano e sua esposa Tabita, ambos vinculados à Escola de Música da UFRN,
Nathalia recebeu as chaves para desbloquear o seu potencial. A orientação dos
mestres a preparou para o rigoroso curso técnico em canto popular, que ela
abraçou com determinação e resiliência.
Depois de um ano de dedicação intensa, conciliando
estudos, trabalho e vida pessoal, Nathalia alcançou o segundo lugar nas provas
do curso técnico em Canto da Escola de Música da UFRN. Essa conquista, embora
tenha exigido a coragem de abandonar o curso de Letras, reforçou sua crença de
que a verdadeira excelência surge quando se segue o que se ama com o coração.
Hoje, Nathalia é uma presença iluminada no “Coro
Universitário da UFRN”, o Madrigal, onde brilha como soprano sob a direção da
professora Tabita. Além disso, faz parte do elenco de atores do espetáculo
“Nísia Floresta Brasileiras Augustas”, interpretando – pasmem! – a própria
Nísia Floresta. O espetáculo será exibido nos dias 13 e 14 de dezembro de 2024,
no Largo Da Cohabinal, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura de
Parnamirim.
Com sua versatilidade e talento, Nathalia se ergue
como um exemplo vibrante para crianças e jovens, e uma referência para todos
que buscam seguir suas paixões. Sua jornada é um testemunho de que a dignidade
e a capacidade de contribuir para o mundo estão profundamente entrelaçadas com
a coragem de trilhar os próprios caminhos. E assim, com cada nota, cada verso e
cada ato, Nathalia continua a compor sua própria sinfonia de sucesso e
inspiração.
Essa história nos fala de exemplo, nos fala de
luta, resiliência, dedicação, busca de sonhos, e também é prova de o quanto é
importante ter um bom pai, uma boa mãe e bons irmãos, pois nesses ninhos nascem
seres que voam espalhando cantos de amor.
Por ser tão jovem e alcançado o que sabia ser
capaz, mas não tão cedo, parece poético dizer, mas Nathalia é das poucas
pessoas que, aos 20 anos, pegou o seu sonho com as mãos e o abraçou...
![]() |
| Coronel José Joaquim de Carvalho e Araújo, presidente da Intendência de Papary |
Por L.C.Freire (12.11.2012)
Era 1913 o cientista norte-americano Edwin Chapin Starks, então com 46 anos, desembarcou no Rio Grande do Norte com a curiosidade inquieta de um cientista e o olhar treinado de quem já atravessara oceanos em busca de respostas. Integrava a Stanford Expedition, financiada pela Universidade de Stanford e liderada pelo geólogo John Casper Branner, e tinha como missão desvendar a fauna aquática do Nordeste brasileiro. Mal sabia Starks que encontraria, em uma pequena vila do interior, um aliado sem o qual sua jornada teria sido muito mais árdua. E seu nome Coronel José Joaquim de Carvalho e Araújo ficaria escrito para sempre acervo da Universidade de Stanford e no Museu Americano de História Natural de Nova York.
Depois de semanas em Natal, investigando poças de maré e arrastando redes do porto ao estuário do rio Carnahubinha, Starks já havia enfrentado frustrações. As redes, importadas da Inglaterra, rompiam-se com a insistência das algas; os peixes eram escassos; o mercado local mal fornecia exemplares para complementar suas coletas. Havia percorrido o Lago de Extremoz, onde a água turva e cheia de matéria vegetal inviabilizava os arrastos, e seguira para Ceará-Mirim, onde garotos da vila mergulhavam com puçás, rindo entre um mergulho e outro, para capturar o que podiam. Mas as dificuldades persistiam.
— “Aqui, senhor Starks, a ciência não terá barreiras. Tudo o que depender de mim, terá.”
A partir daquele momento, Papary tornou-se o coração da expedição. O coronel mobilizou recursos, convocou pescadores, cedeu embarcações e abriu caminhos por onde Starks jamais teria acesso sozinho. Na Lagoa Papary, extensa e rasa, de margens pantanosas e canais bloqueados por aguapés, José de Araújo intercedeu pessoalmente junto às autoridades para liberar técnicas de pesca normalmente proibidas, como o uso de redes de emalhar. Lembra-se de ter reunido os pescadores ao entardecer, à beira do lago, instruindo-os com paciência sobre o trabalho delicado que fariam.
— “Não é só por ele, é por nós. Cada peixe que ele leva catalogado será a história de nossas águas contada ao mundo.”
Starks, que não dominava bem o português, entendia mais pela expressão do coronel do que pelas palavras. Em cartas à esposa Chloe Lesley Starks, ilustradora das espécies coletadas, descrevia aquele homem de 63 anos como “um pilar”, “um protetor silencioso da ciência”.
Graças ao empenho de José de Araújo, Papary se transformou em um verdadeiro laboratório a céu aberto. Foram dias de intenso trabalho: redes sendo içadas com esforço, meninos rindo com peixes ainda vivos nas mãos, o coronel observando tudo de braços cruzados, às vezes ajudando a puxar uma embarcação atolada na lama. Ao fim da temporada, Starks havia conseguido reunir uma das coleções mais expressivas de toda a expedição.
Dois anos depois, em 1913, Starks publicou os resultados: 15 espécies dulcícolas registradas no Rio Grande do Norte, algumas inéditas, além de peixes marinhos como Centropomus, Mugil e Gerres, indícios de que o Lago de Extremoz teria sido conectado ao mar em tempos recentes. No relatório, fez questão de nomear o coronel:
“Sem a hospitalidade generosa, a influência e o esforço pessoal de José Joaquim de Carvalho e Araújo, presidente da Intendência de Papary, não teria sido possível alcançar o sucesso que tivemos.”
As amostras coletadas foram incorporadas ao acervo da Universidade de Stanford, enquanto duplicatas seguiram para o Museu Americano de História Natural de Nova York. Até hoje, ao serem consultados, esses acervos guardam não apenas a memória científica de Starks, mas também o nome do Coronel José Joaquim de Carvalho e Araújo, imortalizado pelo desvelo e apoio irrestrito que dedicou ao pesquisador durante sua passagem por Papary. Cada desenho feito por Chloe Lesley Starks carrega, de certa forma, a presença desse coronel de espírito generoso, cujo cuidado abriu caminhos para que a ciência florescesse nas lagoas potiguares.
Mais de um século depois, permanece viva a lembrança daquele encontro improvável: um coronel potiguar, aos 63 anos, cuidando com devoção para que um pesquisador de 46 anos, vindo de tão longe, pudesse deixar um legado imortal.
Era uma casinha de taipa guardada na "Floresta"
Aquietadinha às margens da rua,
Tão insignificante que de invisível era quase toda.
Ali morou uma senhorinha de andar cambado,
Ganhava a vida no azeite de dendê.
Gastava horas naquele mister
Havia um alpendrezinho na porta da cozinha,
Onde jazia o fogão à lenha...
Ardia o dia inteiro, bafejando tufos de fumaça que se via de longe.
Trabalhoso fazer azeite de dendê!
Garrafas de vidro, urupema, panela de barro, colher de pau, molambos,
Funil, pano de prato, fogo, brasas, barriga na pia.
Lenha... lenha... lenha...
Tempo... tempo... tempo...
Azeite vermelho, alaranjado, cor de mel.
O melhor azeite do Sítio Floresta.
Casa de taipa, de adobe, de pau e barro...
Enfeitada de tisna,
Decorada de picumãs,
Cheirando a fogo e fumaça,
Quintal de mangueiras frondosas,
Coqueiros e dendezeiros...
Cheiro de azeite na estradinha...
Perfume de Floresta;
Casa linda... museu natural...
Ali residia "Joaninha dos Padres",
Porque as terras vizinhas eram da igreja.
Joaninha de todos e de ninguém...
Escutei dela histórias nunca ditas sequer aos filhos.
Reflexões que tanto podem sair da boca de um filósofo
Quanto de um fabricante de azeite...
Herança eterna...
Ela se encantou.
A casa ficou,
Adoecida de intempéries,
Adoecida de abandono...
Sem dona, sem ninguém...
Sobejaram lembranças...
Dizem que está meio que extinto fazer dendê ao modo Joaninha dos Padres...
Joaninha Bandeira, seu nome de batismo...
Joaninha dos Padres, batismo do povo.
Dizem que casa de taipa é teimosa.
Verdade!
Resistem estacas apodrecidas,
Agarradas em torrões de barro,
Lembrando a dona que se foi...
Joaninha dos padres,
Esquecida por todos,
Menos por mim,
Não sei porque nasci assim:
Enxergo melhor os invisíveis,
Acho que meu olho é torto,
Assim penso...
Foi Paulo
Trindade quem me deu a notícia do falecimento de Socorro Trindade, apenas
quinze minutos após o ocorrido. Todos os dias, costumo acordar às 4h00, e
naquela manhã, despertei com essa triste notícia. Esperei até as 6h00 para
ligar para ele, mas, ao atender, Paulo mencionou que eu poderia ter ligado mais
cedo, pois ele também se levantava cedo.
A morte
de Socorro Trindade acabou por estreitar ainda mais a minha amizade com Paulo.
Ele tornou-se uma fonte inesgotável de informações, já que eu estava escrevendo
sobre ela. Durante muito tempo, enviei-lhe áudios com perguntas sobre sua irmã,
sua mãe, sua família, parentes e a vida de Socorro no Rio de Janeiro, além das
suas amizades. Inclusive esclareceu um ponto que eu não entendia bem que era a
questão do sobrenome Trindade em Nísia Floresta, que é bastante comum, mas sem
que nem todos são parentes. São Trindade de famílias diferentes. Paulo, sempre esteve disponível e muito
atencioso; era como um livro aberto. Haveria alguém em Nísia Floresta mais
conhecedor da história de Socorro do que ele?
Na
realidade, antes mesmo do falecimento de Socorro, eu já mantinha conversas
frequentes com Paulo sobre assuntos relacionados a ela, pois estava preocupado
com seu estado de reclusão. Quando a visitei, em 2017, percebi que estava muito
retraída. Lamentavelmente, pouco se escreveu sobre Socorro. Nem mesmo a
internet oferece informações substanciais sobre ela. Por isso, se alguém não se
dispusesse a preservar sua história, ela certamente se perderia. E onde buscar
essas informações? No irmão, é claro. Paulo viveu com ela por um período no Rio
de Janeiro, então eu perguntava e ele sempre respondia prontamente.
Semanalmente,
eu me dedicava a escrever com base nas respostas que ele me enviava por
WhatsApp. Ouvi seus áudios várias vezes, já que ele costumava misturar os
assuntos, frequentemente trazendo novos detalhes. Às vezes, eu me confundia e
precisava fazer novas perguntas para esclarecer os pontos. E assim, eu
prosseguia com a escrita.
Como de
costume, não havia pressa. Inclusive, mencionei a Paulo que pretendia
enriquecer o texto com o máximo de informações possíveis, sem prazo definido
para concluir. Entrei em contato com diversas pessoas pelo Brasil, que haviam
convivido com Socorro no Rio de Janeiro, São Paulo e Ceará, sabendo que seria
um trabalho demorado.
Na
verdade, ao ter publicado alguns textos sobre Socorro Trindade no meu blog,
passei a receber contatos de pessoas de várias partes do Brasil, interessadas
em obter informações sobre ela. Alguns até pediam seu número de telefone, mas
nunca tiveram sucesso, pois ela havia se isolado completamente.
Socorro
faleceu no dia 11 de maio de 2024. Quem poderia imaginar que Paulo partiria
apenas quatro meses depois? Fiquei atônito ao receber um print de uma
publicação de James, enviado por uma professora de Nísia Floresta. Mas a vida é
assim, cheia de surpresas. O que sabemos é que a morte é a única certeza. Aqui
tudo começa, aqui tudo termina.
Pois bem, ele partiu. Ficaram muitas lacunas ainda sobre Socorro, as quais eu ainda lhe perguntaria. Mas lhe sou grato, pois ele trouxe elucidações que jamais outros poderiam. Só me
resta agradecer à esposa e aos filhos de Paulo Trindade pela atenção especial
que sempre me dedicaram. Muito obrigado. Aceitem os nossos mais sinceros
sentimentos.
Algumas pessoas nascem com dons que se despertam na maturidade, como semente guardada durante décadas e, de repente, exposta à terra. José Calixta Pereira Filho, 77 anos de idade, é exemplo mais verdadeiro no plantio dos lutiers populares, se assim podemos entender.
Ele nasceu em
Taborda, distrito de São José de Mipibu, no Rio Grande do Norte. Há alguns
anos reside à rua Francisco Tomás de
Vasconcelos, nº 150, Rosa dos Ventos. Suas relações
sociais sempre foram em Parnamirim, município mais próximo, região
metropolitana de Natal. Ele é filho de José Calixta Pereira e Joana Alexandre
Nascimento Pereira, ambos potiguares.
Nascido num lar
humilde, era comum usar latas de goiabada e marmelada como prato. Aos 9 anos de
idade, em suas andanças com o pai, ele presenciou um senhor fazendo rabeca, e
isso o deixou maravilhado, pois viu que uma pessoa podia fabricar instrumentos
musicais. Então ele teve um insight e só enxergava as latas de goiabada como
matéria prima para a ideia.
“Eu vi
naquele material uma alternativa para fazer o meu brinquedo. Naquela época,
criança pobre brincava com pedaços de pau, tijolos, manga verde, ossos, barro,
latas e tudo o que tivesse no quintal”, explicou Calixta.
Ele não pensou
duas vezes. Pediu ao pai uma lata dessas e fez um instrumento de cordas, usando
arame, madeira e pregos. Foi o seu “violão”. O fascínio pelo brinquedo foi tão
grande que tornou-se extensão do seu corpo. O pequeno Calixta divertiu-se
durante parte da infância com essa invenção. Inclusive brincava com amigos da
mesma idade, vizinhos do sítio. Quando quebrava, fazia outro.
“À noite,
no terreiro, era uma orquestra, eu e os amigos nos violões de latas, gente
fazia uma zuada danada”, comentou ele.
Pois bem, como o
tempo só anda para frente, o tempo andou, andou, andou muito... Quase 70 anos
depois – no tempo sombrio da Pandemia – anos 20 do século atual, eis que ele se
encontra com um rapazinho chamado Mateus, que era músico e tinha um instrumento
musical chamado “culelê”. Naquele instante, veio à memória do sr. Calixta a
experiência com os instrumentos de lata de goiabada. Nas palavras dele:
“As
lembranças do sítio vieram na minha cabeça, foi inesperado, então eu peguei o
instrumento, olhei bem olhado, peguei um papel, coloquei o culelê sobre ele e
risquei o molde. Chegando em casa, guardei. E aquilo ficou na minha cabeça. Eu
só pensava que madeira iria usar. E fiquei matutando aquilo...”
A sorte estava do
lado do sr. Calixta. Havia uns pés de manga derrubados num terreno do seu
bairro meses antes e permaneciam ali. Então ele pediu ao dono alguns galhos bem
grossos e levou para casa para analisa-los. Dias depois, cortou um pedaço com
65 centímetros e foi dando forma ao culelê. Comprou os “acordeamentos”, as
tarraxas numa casa especializada e fez a peça, usando uma bitola. Assim nasceu
um culelê de 52 centímetros, cujo som é agradável. Agora não era mais o
brinquedo de lata de goiabada, nem feito por uma criança, exceto a criança que
ele diz habitar dentro dele. Ficou bonito, e o som, perfeito.
![]() |
| Um dos Culelês feitos pelo sr. Calixta. |
Quem lê essa
história, imagina que o sr. Calixta hoje se tornou um músico, lê partituras e
tudo mais. Ledo engano! Por mais incrível que pareça, o sr. Calixta não toca
instrumento algum, ele apenas faz improvisos para cordel, pois gosta de
declamar. É mais um dos seus dons. E nessa história ele já fez quatro culelês.
Um doou ao professor da Igreja Evangélica Batista (PIBP), onde congrega, e o
outro deu para um neto.
Ele conserva as
peças com uma bela aparência, pois encera com cera de carnaúba. Diz que hidrata
a madeira, não afeta o som e afasta traças. Segundo o sr. Calixta todo cupim
nasce dentro da madeira. “Ele está dormindo ali quando a gente
arranca qualquer árvore adulta, e um dia acorda”. Sr. Calixta
pretende fazer outros culelês com madeiras diferentes, assim perceberá as
possíveis diferenças de sons.
No presente
momento o sr. Calixta está fazendo dois culelês com madeira de uma mangueira
com mais de 30 anos encontrara ali mesmo no bairro. Não que ele prefira a
mangueira, usa porque é mais fácil encontrá-la. Já ouviu dizer que a madeira do
“Nin” (uma espécie bastante comum na região), tem excelentes resultados no
fabrico de tal instrumento. Ele vai fazer um baixo para o neto.
Sr. Calixta é
estudante de música. Faz aulas de coral há 3 anos e já se apresentou em alguns
lugares. Ultimamente ele vem gravando áudios com as suas lembranças, além de
algumas prosas poéticas, pois quer transportá-las para o papel.
Costumo dizer que
o sr. Calixta é aquela pessoa cuja forma em que foi feito se quebrou e a
jogaram ao mar. Como disse, ele tem outros talentos. É dotado de ampla
sabedoria, e ela se reveste de uma notoriedade maior porque é vestida de
simplicidade.
O sr. Calixta é um
exemplo vivo de que o homem é dotado de muitos dons, e que eles podem aflorar a
qualquer momento, inclusive ele é um inventor de engenhocas mecânicas para
facilitar a sua vida. E todas dão certo em seu ateliê/oficina.
Impressiono-me com
o seu conhecimento sobre a vida. Há nele um filosofar constante, e esse
filosofar é uma aula, pois ele arranca da natureza os mais fundamentados exemplos
para compará-los à vida humana, aos fatos, às relações sociais etc. Desse modo
viajamos em suas narrativas. Inclusive é um livro aberto sobre a História de
Parnamirim com um detalhe: ele viveu a história. É mais velho que o próprio
município onde mora. Nós que salvaguardamos a História do Rio Grande do Norte,
devemos muito à História Oral, pois ouvir um homem como o sr. Calixta é
conhecer fatos que, se não fosse através dele - e de outros pioneiros -,
estariam esquecidos e correriam o risco de serem sepultados para sempre.
Um dado curioso:
nunca ouvi da sua boca uma palavra torpe nem um maldizer de alguém, nem
insinuações, nem deboches. Nada que denote sujeira humana. Observo sutis formas
de expressar a sua religiosidade, sempre dentro de um contexto, sem menosprezar
a possível crença de alguém, ou a sua ausência, ou defender a sua fé como a
correta, a ideal, a superior. É um homem respeitoso, de excelentes modos no
vestir, se comportar socialmente, no falar, enfim, é um homem raro.
Na vida, conheço muitas
pessoas que recebem homenagens, títulos, condecorações e moções de louvor que
nem merecem tanto, ou realmente não merecem. E quando vejo um homem como esse,
detentor dessa grandiosidade - passando pela vida despercebido -, assusto-me,
preocupo-me, embora sei que muitos desses homens preferem realmente esse
anonimato. Eles compõem melhor, quando são invisíveis... não sei...
Sr. Calixta é um
exemplo vivo de que todos nós temos vários dons e que uma hora ou outra eles
despertam, somando-se aos outros dons.
O mês do Folclore é, agosto, acima de tudo, um convite à reflexão sobre a preservação e promoção das tradições populares. É frequente ouvirmos expressões como: "no meu tempo, havia isso e aquilo" ou "hoje em dia, não existe mais isso", seguidas de críticas ao que se vê atualmente. Diante dessa insatisfação, o que fazemos para manter viva a essência do nosso folclore? Quando foi a última vez que participamos, organizamos ou mesmo ouvimos falar de um evento de natureza folclórica?
Há muita alienação e equívoco. As redes sociais têm o seu lado bom e mal, mas influenciam muito na diluição da cultura popular. Essa corrente contrária é grande, mas nada de recuar. Precisamos enfrentá-la serena e continuamente, trabalhando as mentes, levando as pessoas ao pensar, construindo raciocínios de maneira que a sociedade perceba o quanto é valioso o Folclore Brasileiro a partir do bairro onde moramos. Quando falamos de Folclore, também trazemos muita coisa do passado. Não significa que o Folclore deve ser engessado, pois está vivo, é dinâmico, mas sua essência nunca muda.
Quem atua no campo da Educação, da Arte e da Cultura, em especial, tem uma responsabilidade maior em relação a preservar o folclore. Devemos estar na vanguarda desse movimento, educando e influenciando as massas de diferentes formas. Se constatamos que há uma deficiência, que há muitos equívocos e que estão dilapidando a cultura popular brasileira, devemos utilizar os instrumentos à nossa disposição, como a palavra escrita, a fala, a ideia, a sugestão, a organização de festas, palestras, cursos, ou o apoio a iniciativas culturais. É através dessas ações concretas que podemos inverter o fato.
Professores podem sugerir aos diretores; cidadãos podem propor ideias aos vereadores; funcionários públicos podem levar sugestões aos gestores culturais, sejam eles parte de secretarias, fundações, museus, galerias ou organizações não governamentais. A revitalização, perpetuação e resgate da cultura popular devem ser incentivadas nas escolas, nas comunidades, nos quilombos, aldeias, bairros e praças. Não se trata de fossilizar o passado, mas sim de preservar sua essência. A identidade cultural de um povo é fundamental para a manutenção de sua brasilidade. Quando expressões folclóricas desaparecem, perdemos parte da nossa essência, e com isso, abre-se espaço para a alienação e a futilidade.
Como brasileiro e defensor das tradições populares, acredito que o fomento à cultura popular deve ser uma prioridade. O descuido com o folclore em determinados estado brasileiros tem levado à diluição da própria identidade potiguar em alguns aspectos, o que é profundamente preocupante. As manifestações folclóricas não devem ser vistas como meras curiosidades exóticas, restritas a um local ou período específico, mas como parte integrante do nosso cotidiano. É uma coisa viva.
Imagine uma lei orientando que todas as instituições civis, militares, públicas ou privadas fizessem abertura de seus eventos (seminários, conferências, simpósios, festivais, campeonatos, encontros) com uma apresentação folclórica. Leve isso para a Câmara Municipal do seu município. E se essa lei for acompanhada de outra que obrigasse os órgãos públicos a apoiar e revitalizar todas as manifestações folclóricas de seus municípios? Com certeza, todas as cidades teriam algo lindo para mostrar. LEVE ISSO PARA AS AUTORIDADES DO SEU MUNICÍPIO, INCLUSIVE JÁ DEIXO AQUI A MINHA SUGESTÃO À CÂMARA MUNICIPAL DE CADA CIDADE DO BRASIL.
É uma grande injustiça que os governantes, enquanto instrumento de viabilização, se omitam ou neguem às nossas crianças o direito de conhecerem sua própria cultura. Infelizmente, isso está acontecendo. Culturas regionais estão sendo substituídas por culturas de fora, muitas vezes com o aval dos próprios governantes, seja por ignorância ou por influência da alienação promovida pelas redes sociais. O Estado, nas esferas municipal, estadual e federal, tem o dever de salvaguardar, manter e fomentar a cultura popular. Essa é sua identidade e responsabilidade. A omissão do Estado explica o atual quadro crítico.
Há crianças que não conhecem figuras emblemáticas como Câmara Cascudo, dona Militana, Chico Daniel, dentre tantos. Nunca ouviram falar em lendas como Carro caído, do poço feio, o sino de Extremoz, dentre tantas. Não sabem distinguir estilos musicais como forró, xaxado, baião, xote etc. Não tem o gosto de ver a mãe preparar uma buchada, um xerém, um munguzá, uma perna, um camarão no coco, etc. Nunca ouviram falar em danças folclóricas como o Boi-de-Reis, o Pastoril, o Espontão e o próprio jeito típico de dançar um xote, um miudinho, um baião, um xaxado, enfim, deconhecem tanto da própria cultura. E isso é lastimável porque acontece quando os responsáveis se descuidam.
É importante lembrar que o folclore vai muito além dos artistas e festividades. Ele está presente na linguagem, na gastronomia, nos modos de confeccionar artesanatos, nos costumes familiares, nas crenças e nos cantares. A riqueza do folclore é vastíssima e impossível de ser resumida em uma única folha. O que nos cabe é construir raciocínios de preservação e enaltecimento.
Para encerrar, vale a pena citar o renomado folclorista Luís da Câmara Cascudo, que afirmou: "O folclore é a continuidade da cultura através do povo, transmitida de geração em geração, com suas inovações e resistências". Assim, o Folclore seguirá existindo, mas cabe a nós, enquanto sociedade, garantir sua preservação e valorização. Agosto é o mês em que as instituições educacionais, culturais, as Câmaras Municipais, devem intensificar discussões sobre o Folclore Brasileiro, promovendo uma pluralidade de eventos, mas tendo consciência de que o Folclore não pode ser demarcado nem periódico. Folclore é ontem, hoje e amanhã. Sempre!
20 de agosto de 2021. L.C.F.
PIONEIRISMO: QUAL A RELAÇÃO DE ARTHUR MOREIRA LIMA, ORIANO DE ALMEIDA E LUIZ GONZAGA? (QUANDO VOCÊ VINHA COM OS CAJUS EU JÁ ESTAVA VOLTANDO DAS CASTANHAS)...
O Rio Grande do Norte tem
passagens históricas que marcaram época. Algumas são tão visionárias que, quando contadas, alguns não acreditam, pois o tempo sufocou-as na poeira
da falta de divulgação. Elas permanecem desconhecidas por muitos, restando aos
trabalhadores da História direcionar os holofotes sobre as mesmas para que os
verdadeiros pioneiros sejam enxergados, reconhecidos e respeitados, dando a
César o que é de César.
Ser pioneiro não faz ninguém
melhor que ninguém, mas quem faz primeiro dividiu águas, marcou época,
enfrentou maiores dificuldades, portanto é importante lembrarmos sempre dos que
vieram na frente cortando capim a facão. E quando vermos as “novidades” do
presente, cabe dizer “lá atrás, alguém fez isso”.
Em 2007, a rede Globo,
através do Jornal Nacional, Programa do Faustão, até o Globo Repórter e outras
emissoras não falavam outro assunto que não fosse sobre o projeto “Um piano na
estrada”, assinado pelo renomado pianista Arthur Moreira Lima (1940), um músico muito
excepcional e que até hoje faz a diferença, inclusive segue tocando piano
apesar de ter desenvolvido um problema nas mãos (ironicamente). Arthur é um dos
maiores especialistas da obra do compositor polonês Frédéric Chopin e passou cinco
anos rodando o Brasil.
Ele chegava na cidade e, igual a um circo,
anunciava a sua arte que também era divulgada nas emissoras de rádio e
televisão, resultando num sucesso de plateia. Quem não queria se banhar naquela
fonte de arte?
Pois bem, o projeto de Arthur fez o maior sucesso, mas o que me intriga é que nunca vi alguém que tenha divulgado esse projeto fazer a menor referência ao norte-Rio-Grandense Oriano de Almeida (1921 - 2004), renomado músico que fez exatamente o mesmo 60 anos antes. Quando Artur começou, aos 67 anos de idade, Oriano de Almeida já havia começado aos 30 anos de idade.
Na verdade, Oriano nasceu em Belém (PA), mas chegou
a Natal com 9 anos de idade e aqui deslanchou no universo da música clássica
como exímio pianista. Como músico formado, ele se apresentou nos mais louvados
ambientes europeus onde reinava a música clássica.
![]() |
| ORIANO DE ALMEIDA SE APRESENTANDO EM CAICÓ |
Como
compositor deixou canções, música de salão e uma coleção de peças para piano de
inspiração folclórica. Nesse aspecto ele nos lembra Brasílio Etiberê. Oriano é
referência para quem estuda música clássica, principalmente no Rio Grande do
Norte, inclusive há um pequeno memorial em sua homenagem no anexo do Instituto
Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, em Natal, ao lado da Praça João
Maria. Na década de 40 foi considerado um dos maiores intérpretes da obra de
Chopin do mundo.
![]() |
| MEMORIAL EM HOMENAGEM A ORIANO DE ALMEIDA - ANEXO DO IHGRN. |
Mas o que eu quero chamar a atenção do leitor é
sobre um projeto de Oriano de Almeida que, inclusive – por incrível que pareça –,
não consta em sua biografia na Wikipédia. Também não vi em outros matérias sobre
ele, mas que é fato e existem registros fotográficos, como podem ser vistos
nessa postagem.
Na década de 40, Oriano de Almeida percorreu alguns
municípios do Rio Grande do Norte levando um piano e se apresentando para
diversos públicos. Vejam se isso não era visionário! Ele fez diferente!
E ainda dando a César o que é de César, na década
de 50 o famoso músico pernambucano Luiz Gonzaga (1912 - 1989) viajou pelo interior do Brasil com
um caminhão que, sem adaptação nenhuma, era usado como palco, encantando a
plateia de maneira diferente, pois o popular é mais comum, e Luiz Gonzaga era
um showman. O povão ficava louco.
![]() |
| LUIZ GONZAGA EM TOUR PELO BRASIL |
Com este texto, provoco o leitor a ligar sempre o “modo dúvida” quando ver algo novo – ou “novo” –, pois muitas vezes podemos estar sendo injustos ao omitirmos quem construiu o asfalto para que outros passassem. Ou melhor, quem, percorreu a estrada de terra e teve a ideia de fazer o asfalto. Isso não acontece apenas na História do Rio Grande do Norte, mas em outros estados também. A História deve ser sempre reparada. (L.C. Freire).