ACTA NOTURNA – SOCORRO TRINDADE – MEIO SÉCULO DE UMA HISTÓRIA GUARDADA NO ARMÁRIO – 26.8.2019
Quem
vê Socorro Trindade recolhida em seu cadinho logo à entrada de Nísia Floresta,
talvez saiba que ela é escritora. Uma minoria tem conhecimento de que um dia
ela foi escritora aclamada e professora nas universidades federais do Rio
Grande do Norte e do Rio de Janeiro. Mas quase ninguém sabe que ali mora uma rainha... ou melhor a
rainha da cana de açúcar. Quem sabe
dessa página da história são pessoas com seus setenta anos de idade adiante. Para entender a
história, vamos retroagir no tempo...
O
viço da mocidade ofertou a Socorro Trindade uma beleza singular. Ela roubava a
cena quando transitava pelas ruas de Floresta. Com o fim da adolescência foi
estudar em Natal e o fato se tornou gancho para uma experiência curiosa de sua
vida. Tudo começou com pessoas querendo saber quem era a moça tão atraente. Os
rapazes faziam todo tipo de corte, mas ela não se curvava a nenhum. Estava ali
para estudar. Mas os burburinhos continuaram, despertando os “olheiros” da
época.
Em
1967, portanto, há 52 anos, seus pais receberam um grupo de senhores que se
deslocaram até a residência da bela jovem, em Nísia Floresta, para
exclusivamente convidá-la a concorrer ao concurso “Rainha da Cana-de-Açúcar”,
evento tradicional e disputado que ocorria em Ceará - Mirim. Ela contava 17
anos de idade. A princípio não aceitou, mas cedeu às insistências. O concurso
era organizado por uma espécie de associação de usineiros e produtores de cana
de açúcar. Todos os municípios potiguares produtores de cana de açúcar
participavam. As emissoras de rádio divulgavam amplamente o evento.
O
certame tinha uma aura de concurso de miss, devido ao glamour. As candidatas
representavam os municípios onde moravam. Havia muita disputa e intrigas
típicas desses acontecimentos que envolvem beleza. As moças potiguares
aguardavam com êxtase o dia da inscrição, embora não foi o caso de Socorro
Trindade, a qual foi descoberta por olheiros, sem imaginar a existência do
concurso. “Nunca fui ligada a isso... se fosse hoje, jamais teria participado”,
contou-me.
No
dia do concurso comitivas das cidades envolvidas se deslocavam em peso à terra
de engenhos. Era prefeito de Papari o senhor Wilson de Oliveira, presença
marcante no evento. Ceará-Mirim ficava pequena para tanta gente. No centro do
clube era montada uma passarela cercada de mesas e cadeiras. Enquanto as
candidatas desfilavam, as famílias, autoridades políticas, os empresários e
fazendeiros apreciavam e consumiam comes e bebes no espaço decorado com
imponência. A festa tinha uma conotação puramente familiar. Autoridades
políticas davam o retoque final, com direito a presença do governador Walfredo
Dantas Gurgel.
Dona
Conceição Trindade, mãe de Socorro, mandou fazer um vestido verde-cana com
detalhes em branco, apliques de lantejoulas, cristais, e uma luva de pulso,
bordada com pedrarias. Houve um boom
acerca desse vestido. Espécie de aura nupcial. Pessoas estranhas à família não
poderiam vê-lo. O assunto passeava de casa em casa, de rua em rua, na praças,
nas esquinas, no comércio. Pudera! Papari cheirava a floresta e curral. Os
poucos nativos que tinham aparelho de rádio acompanhavam as notícias com
curiosidade.
E
foi justamente nesse verão de 1967 que Socorro Trindade roubou a cena, coroada
Rainha da Cana de Açúcar. A coroa e a faixa lhe foram colocadas por uma
importante autoridade política, cujo nome ela não se recordou durante a
conversa. “Quando retornei a Nísia Floresta não se falava n’outra coisa... a
cidade era pacata... o episódio foi um acontecimento muito significativo para o
contexto daquela época... virei o centro das atenções, o assunto foi comentado
até na igreja, era todo mundo me dando os parabéns e me visitando... virei uma
rainha mesmo”, explicou Socorro Trindade em 2015, narrando alguns fatos da sua
vida ao autor desse blog. A fase de rainha passou, dando lugar à escritora que
brotaria lentamente, cuja história está publicada na ACTA NOTURNA DO DIA
25.8.2019.
O
fato de ela ter me mostrado o seu famoso vestido de “Rainha da Cana de Açúcar”,
e permitido fotografá-lo ao seu lado, contando minúcias sobre o episódio, foi
um feito extraordinário para quem escolheu a reclusão e o silêncio como seus
companheiros atuais. A peça, sepultada num antiqüíssimo guarda-roupa de madeira
de lei, foi retirada por suas próprias mãos após mais de meio século. Assim
exumou-se a história.
Hoje,
ninguém pode desconhecer que na entrada da cidade, além de residir a escritora
que promoveu polêmica com livro audacioso em plena Ditadura Militar, mora a
“Rainha da Cana-de-Açúcar” do ano de 1967. Saibam todos quantos possam conhecer
essa história que todos nós somos livros, e mesmo fechados guardamos história,
e que ouro algum paga a emoção de abri-lo e disponibilizá-lo a quantos puderem
lê-lo, principalmente pelo ineditismo que se encerra neste exato momento.
Boa noite como faço para ter contato com a escritora Socorro Trindade?
ResponderExcluirA conheci no Rio de Janeiro com uma amiga em comum nossa e gostaria de entrar em contato com ela. Desde já agradeço
Boa tarde! Desculpe, mas vi agora o seu contato. Me mande todos os seus contatos que eu repassarei neste exato momento para uma vizinha dela, que foi minha aluna e terá o maior prazer em fazer tal gentileza. Obrigado pela apreciação ao blog.
ExcluirBoa tarde! Desculpe, mas vi agora o seu contato. Me mande todos os seus contatos que eu repassarei neste exato momento para uma vizinha dela, que foi minha aluna e terá o maior prazer em fazer tal gentileza. Obrigado pela apreciação ao blog.
ExcluirMinha querida Socorro. Gostava muito de conversar com ela, que não bebia, no Bar da Arleide e do Fernando no.Andarai. Espero que esteja tudo bem com ela.
ResponderExcluirSinto informar que Socorro Trindade faleceu no dia 11 de maio de 2024.
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