Há meses que atravessam o calendário quase despercebidos. Outros, porém, parecem adquirir vida própria, como se carregassem consigo um destino inevitável. Para Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810-188), agosto deixou de ser apenas o oitavo mês do ano para converter-se em símbolo da dor, da memória e das perdas irreparáveis. Não por acaso, em uma de suas mais tocantes confissões, escreveu:
"Conspiram os agostos contra mim."
A frase, aparentemente simples, concentra uma profunda experiência existencial. Mas, diferente da conotação folclórica emprestada a agosto, para Nísia não se trata de superstição, mas da dolorosa constatação íntima de que as grandes tragédias familiares pareciam retornar sempre sob o mesmo signo do calendário. Entre essas recordações dolorosas estava aquilo que ela própria chamava de tríplice perda: a morte do pai, do marido e da mãe, três acontecimentos que marcaram decisivamente sua trajet´ria pessoal e intelectual.
A afirmação ganha pleno sentido quando se recompõe sua trajetória familiar. Em 17 de agosto de 1828, Nísia perdeu o pai Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, assassinado em Pernambuco, vítima das perseguições e rivalidades políticas que marcaram aquele conturbado período da história brasileira. A violência de sua morte deixou profundas cicatrizes na jovem escritora que jamais esqueceria a figura paterna, tão decisiva em sua formação intelectual e moral. A presença de seu pai durante sua infância foram fundamentais para despertar nela o amor aos livros. Ele, homem culto, artista e advogado, debruçou-se sobre sua formaçoa intelectual com desvelo.
Mal se recuperava desse vazio - cinco anos depois, - nova tragédia se descortinaria diante dela. Em 29 de agosto de 1833, faleceu, em Porto Alegre, Manuel Augusto de Faria Rocha, seu esposo, deixando-a viúva aos vinte e dois anos de idade e responsável pela criação de dois filhos ainda pequenos. A perda precoce impôs-lhe responsabilidades que moldariam sua personalidade independente e fortaleceriam sua determinação em buscar, por meio da educação e das letras, um caminho próprio numa sociiedade que reservava às mulheres espaço extremamente limitado.
Como se essas duas provações não bastassem - e novamente cinco anos depois -, no dia 25 de agosto de 1855, sua mãe, Antônia Clara Freire do Revoredo, veio a falecer igualmente no fatídico mês, numa trídua conspiração. Essa terceira perda completaria o doloroso ciclo familiar que a própria Nísia evocaria décadas mais tarde ao afirmar que os agostos pareciam conspirar contra sua felicidade. Não era, portanto, um mês qualquer: transformara-se numa dolorosa geografia da memória, na qual cada retorno do calendário reabria lembranças que jamais cicatrizaram completamente.
É precisamente por isso que sua célebre frase deve ser compreendida muito além do sentido figurado. Ao escrever que "conspiram os agostos contra mim", Nísia atribuía ao tempo uma dimensão quase humana. O mês deixava de ser mera convenção cronológica para converter-se em personagem de sua biografia, como se a repetição das tragédias lhe tivesse conferido vontade própria. Era uma maneira profundamente literária de traduzir aquilo que tantas pessoas experimentam diante das datas que assinalam perdas irreparáveis: a sensação de que o calendário também guarda memória. Talvez resida aí um dos aspectos mais humanos de sua obra. A educadora, a filósofa, a pioneira do feminismo brasileiro e a intelectual respeitada na Europa jamais deixou de ser filha, esposa e mãe profundamente marcada pelas ausências. A firme defensora da emancipação feminina convivia, em silêncio, com recordações que nenhum triunfo intelectual seria capaz de apagar.
É curioso perceber que justamente o mês consagrado, no Brasil, às lendas e às tradições populares tenha adquirido, para Nísia Floresta, um significado inteiramente diverso. Enquanto o imaginário nacional povoa agosto de narrativas folcl´ricas, a escritora fez dele um território de lembranças pessoais e dentro de uma realidade que nunca deixou de doer seu coração. Seus fantasmas não habitavam matas, rios ou serras; habitavam a memória. Eram as imagens do pai assassinado, do jovem companheiro morto prematuramente e da mãe cuja ausência completou a tríplice dor familiar.
Talvez por isso sua frase continue a sensibilizar leitores mais de um século depois. Ela nos recorda que o calendário não é apenas uma sucessão de dias. Cada pessoa carrega consigo meses que significam alegria, esperança ou renascimento, mas também existem meses que retornam revestidos de saudade. Para Nísia Floresta, agosto nunca foi apenas agosto. Foi o mês em que a memória insistia em abrir antigas feridas e em recordar que, às vezes, o tempo não apaga a dor; apenas lhe ensina novas maneiras de sobreviver a ela...

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