QUANDO A ERUDIÇÃO SE APROXIMA DA LENDA
Quem pesquisa a História do Rio Grande do Norte por intermédio de livros inevitavelmente começa por Rocha Pombo, passa por Tavares de Lyra e Câmara Cascudo e, a partir deles, percorre uma expressiva tradição historiográfica, que inclui nomes como Hélio Galvão e Olavo de Medeiros Filho, chegando, posteriormente, a autores das últimas décadas e da produção historiográfica contemporânea. Há alguns anos, li Proto-História do Rio Grande do Norte, publicado em 1985 pela Presença Edições, em coedição com a Fundação José Augusto, de autoria de Tarcísio de Medeiros, intelectual norte-rio-grandense, autor de livros de natureza da História. Sua obra integra uma tradição de estudos que ajudou a construir e a interpretar a memória histórica do estado. É um livro que todo pesquisador deve ter. Livro de pesquisa, de consulta. Há autores que atribuem as inscrições da Pedra do Ingá, na Paraíba – situada na zona rural do município de Ingá, à margem da PB – aos fenícios e, pasmem, até mesmo a seres de outros planetas. O sítio arqueológico, oficialmente denominado Itacoatiaras do Rio Ingá, é um dos mais importantes registros de arte rupestre do Brasil e encontra-se protegido pelo IPHAN desde 1944. Há pouco mais de dois meses, estudando os capítulos intitulados “Sinais de antigas civilizações – período da lenda e do mito” e “No Rio Grande do Norte”, às páginas 113 a 129, entrei em contato com um amigo arqueólogo para saber sua visão. Afinal, por mais que consideremos pouco provável essa estadia de fenícios no Brasil, queremos ouvir quem é fundamentado no assunto. Obviamente, descartei a possibilidade extraterrestre. Cirurgicamente e sem rodeios, ele disse que são inscrições de povos indígenas e que, infelizmente, alguns pesquisadores têm dificuldade em reconhecer a competência desses povos para tal evento, acabando por defender até mesmo teses fantásticas. Nessa ocasião, ao pesquisar o assunto, deparei-me com o cruzamento de informações sobre as inscrições da Pedra da Gávea, no Rio de Janeiro, cuja autoria fenícia é defendida pelos mesmos pesquisadores que a atribuem à Pedra do Ingá. Um exemplo é justamente a leitura atenta das páginas apresentadas de Proto-história do Rio Grande do Norte, que nos conduz a uma questão que ultrapassa o conteúdo específico do livro. Ela toca um problema permanente da produção intelectual: o que acontece quando um autor dotado de erudição, prest´gio e autoridade cultural apresenta ao leitor hipóteses extremamente especulativas sem submetê-las, com o mesmo rigor, ao confronto sistemático comas pesquisas especializadas que já apontavam em outra direção? A questão não consiste em condenar a imaginação histórica, nem em afirmar que toda hipótese extraordinária seja necessariamente falsa. A história e a arqueologia avançam justamente porque alguém formula perguntas que antes não haviam sido formuladas.. O problema começa quando a distância entre possibilidade, hipótese, tradição, lenda e fato comprovado deixa de ser suficientemente demarcada. Nesse momento, a narrativa pode adquirir aparência de ciência sem possuir o mesmo grau de demonstração que caracteriza uma investigação científica. É exatamente essa fronteira que se torna particularmente sensível nas páginas examinadas.
É importante, entretanto, fazer uma ressalva antes de qualquer crítica. Não seria correto transformar Tarcísio Medeiros, por causa dessas páginas, simplesmente em um autor de pseudo-história. Pelo contrário, ele é autor consagrado e respeitado em todo o RN. O próprio livro registra dúvidas e controvérsias. Ao tratar da chamada inscrição da Pedra da Gávea, por exemplo, Medeiros informa que a descoberta de Bernardo da Silva Ramos era "ainda hoje discutida e tida como falsa". Também utiliza expressões como "parece", "possivelmente", "dizem que" e "há quem afirme". Isso demonstra que o autor tinha consciência de que estava entrando em terreno controverso. O problema está menos na existência dessas ressalvas e mais na arquitetura geral da exposição. Depois de apresentar hipóteses extraordinárias, Medeiros as incorpora a uma longa sequência narrativa na qual fenícios, cartagineses, vikings, São Tomé, Atlântida e supostas civilizações antigas aparecem relacionados às terras americanas. O leitor que não possua conhecimento especializado pode facilmente perder a distinção entre aquilo que é documentação histórica, aquilo que é interpretação antiga, aquilo que é hipótese minoritária e aquilo que a arqueologia efetivamente demonstrou.
Esse ponto é particularmente significativo porque, já na época da publicação, algumas das afirmações apresentadas como possibilidades mereciam um confronto muito mais explícito com especialistas. O exemplo mais eloquente é a chamada Inscrição da Paraíba. Medeiros apresenta a posição de Cyrus H. Gordon, professor de Brandeis e reconhecido especialista em línguas semíticas, que defendia a autenticidade do texto e o interpretava como uma inscrição cananeia ou fenícia. A autoridade acadêmica de Gordon era real e não deve ser diminuída. Ele foi um importante especialista em línguas semíticas, Ugarítico e estudos do antigo Oriente Próximo. Justamente por isso, seu posicionamento tinha peso. Mas esse é o ponto fundamental: autoridade individual não transforma automaticamente uma interpretação em consenso científico. No mesmo ano de 1968, a revista Orientalia publicou, no mesmo fascículo, trabalhos de Johannes Friedrich sobre a falsidade da inscrição, de Cyrus Gordon defendendo o texto e de Frank Moore Cross Jr., da Universidade Harvard, intitulado explicitamente "The Phoenician Inscription from Brazil. A Nineteenth-Century Forgery". Ou seja, quando o livro de Medeiros foi publicado em 1985, havia uma controvérsia acadêmica altamente especializada que poderia ter sido apresentada ao leitor de forma muito mais equilibrada, mostrando não apenas a tradução de Gordon, mas também os argumentos epigráficos que levaram outros especialistas a rejeitá-la.Certamente ele não teve contato com essa obra.
O episódio da Paraíba é, aliás, um excelente exemplo de como funciona a diferença entre erudição e demonstração científica. Gordon era realmente um grande especialista, mas a conclusão que ele defendia nesse caso específico não prevaleceu. Frank Moore Cross, também uma autoridade internacional em epigrafia semítica, examinou a inscrição e publicou uma análise considerando-a uma falsificação do século XIX. A existência de um especialista respeitável de um lado não elimina a necessidade de avaliar os argumentos do outro. O leitor precisa saber quais são as evidências materiais, qual é a procedência do objeto, quais são suas características paleográficas, linguísticas e arqueológicas e se existe contexto independente que confirme sua antiguidade. Quando o objeto desaparece, quando sua procedência não pode ser estabelecida e quando a análise linguística apresenta problemas, a tradução de uma suposta inscrição deixa de constituir prova suficiente da presença de uma civilização antiga. É precisamente essa exigência de convergência de evidências que separa uma hipótese interessante de uma conclusão histórica.
A mesma questão aparece na narrativa da Pedra da Gávea. Medeiros reproduz a interpretação segundo a qual os sulcos da montanha seriam uma inscrição fenícia e apresenta a famosa leitura atribuída a Bernardo Ramos, segundo a qual ali estaria registrado o nome de Tiro, da Fenícia, e de Badezir, filho de Jethbaal. Bernardo Ramos merece ser levado a sério como personagem da história intelectual brasileira. Sua obra foi extraordinariamente extensa e procurou interpretar milhares de inscrições e sinais rupestres como vestígios de antigas civilizações mediterrâneas. Estudos historiográficos posteriores, entretanto, mostram que seu projeto partia de uma hipótese muito ampla de presença fenícia e grega na América e procurava interpretar diferentes registros rupestres a partir desse modelo. Isso é importante porque o problema não está na quantidade de trabalho realizada por Ramos, mas no sentido em que as evidências foram interpretadas. A arqueologia contemporânea trabalha de maneira diferente. Uma marca semelhante a uma letra não é automaticamente uma inscrição. Antes é necessário demonstrar que a marca é antrópica, isto é, produzida intencionalmente por seres humanos. Depois é preciso estabelecer que se trata realmente de escrita, e não de uma coincidência formal produzida por fraturas, erosão, veios minerais ou outras características da rocha. Finalmente, se a escrita for identificada, é necessário estabelecer sua cronologia, seu sistema gráfico, sua origem e seu contexto cultural. A ausência de um contexto arqueológico associado é especialmente importante. Uma inscrição isolada, sem artefatos, estruturas, depósitos, materiais datáveis ou outros vestígios culturalmente coerentes, não possui a mesma força de um conjunto arqueológico contextualizado.
O caso das chamadas "Sete Cidades" do Piauí é ainda mais instrutivo. Medeiros reproduz extensamente as interpretações de Ludwig Schwennhagen, Renato Castelo Branco e Jacques de Mahieu. Schwennhagen é apresentado como alguém que imaginava no local um grande centro político e religioso fenício, associado a povos tupis e a uma espécie de império colonial antigo. Jacques de Mahieu, por sua vez, reinterpretava os mesmos elementos como vestígios relacionados aos vikings. Assim, uma mesma paisagem rochosa passa, dependendo do autor, de monumento fenício a fortaleza viking. Esse fato, por si só, deveria despertar uma pergunta metodológica decisiva: se o mesmo vestígio pode ser interpretado como fenício, tupi ou viking conforme a teoria adotada previamente, onde está a evidência independente capaz de decidir entre essas hipóteses? A arqueologia realizada posteriormente em Sete Cidades oferece uma resposta muito diferente. O IPHAN caracteriza o parque como importante cenário arqueológico, com dezenas de sítios pré-coloniais cadastrados, mas também destaca que as formações rochosas resultam de processos erosivos de enorme antiguidade. Pesquisas arqueológicas identificaram pinturas rupestres associadas a grupos humanos pré-coloniais, e estudos especializados vêm documentando essas manifestações segundo métodos arqueológicos, arqueométricos e de conservação. Um trabalho publicado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte caracteriza Sete Cidades como monumento geológico associado a sítios de arte rupestre, enquanto pesquisas recentes continuam registrando e analisando os grafismos. Não há, nesse quadro científico, reconhecimento de uma cidade fenícia petrificada ou de uma fortaleza viking.
É justamente aqui que a obra de Gabriela Martin assume importância especial para o debate. Sua Pré-História do Nordeste do Brasil dedica atenção específica à história da arqueologia nordestina e ao que chama de "arqueologia pré-científica", incluindo o mito das Sete Cidades e a antiga tendência de interpretar monumentos e registros rupestres brasileiros à luz de supostas civilizações do Velho Mundo. A importância de Gabriela Martin não está apenas em rejeitar determinadas interpretações, mas em substituir conjecturas genéricas por investigação de campo, estratigrafia, cultura material, cronologia, contexto arqueológico e comparação controlada. No caso do Rio Grande do Norte, suas pesquisas contribuíram decisivamente para o estudo da área arqueológica do Seridó e de sua arte rupestre. O contraste fica ainda mais expressivo quando se observa o próprio Rio Grande do Norte. A arqueologia potiguar contemporânea não precisa recorrer a fenícios, gregos, egípcios ou vikings para demonstrar a antiguidade e a riqueza cultural do território. O IPHAN registra numerosos sítios arqueológicos no estado, com predominância de sítios de superfície no litoral e grande quantidade de arte rupestre no interior. Pesquisas desenvolvidas no Seridó identificaram diferentes conjuntos de vestígios, enquanto estudos sobre grupos caçadores-coletores apresentam datações radiocarbônicas de ocupações que chegam a milhares de anos. O Museu Câmara Cascudo da UFRN conserva um acervo arqueológico de enorme dimensão, constituído por instrumentos líticos, cerâmicas pré-coloniais, ossos humanos, urnas funerárias e outros materiais, resultado de décadas de pesquisas científicas.
Essa transformação metodológica é talvez a maior resposta contemporânea às narrativas presentes no livro de 1985. Entre os estudiosos fundamentais para compreender a arqueologia brasileira e nordestina estão Gabriela Martin, Niède Guidon, André Prous, Pedro Paulo Funari, Valdeci dos Santos Júnior, entre muitos outros pesquisadores que trabalharam com arqueologia, arte rupestre, cultura material, bioarqueologia e metodologia. No Rio Grande do Norte, pesquisas atuais continuam empregando escavações, levantamento de sítios, datações diretas e indiretas, análise de materiais e estudos de conservação. Em 2026, inclusive, o Museu Câmara Cascudo recebeu programação científica com André Prous e pesquisadores potiguares dedicada às gravuras rupestres no Brasil e no RN, demonstrando que o assunto continua sendo tratado dentro de uma arqueologia acadêmica especializada e metodologicamente controlada. O episódio de São Tomé demonstra outro mecanismo de transformação da tradição em “prova”. Tarcísio de Medeiros reúne relatos de Hans Staden, Jean de Léry, padre Antônio Vieira, Sérgio Buarque de Holanda e Frei Jaboatão sobre pegadas, marcas rupestres e a tradição de Sumé ou São Tomé. Em Natal, essa tradição localizava uma dessas supostas pegadas nas margens do rio Potengi, na região da Ribeira, um dos bairros mais antigos de Natal, mais precisamente em um rochedo situado na margem direita do rio, em área que corresponde atualmente ao terreno do Colégio Salesiano. Ali, numa enorme pedra, se via nitidamente a pegada de Sumé. Esses relatos são fontes históricas legítimas para estudar a formação do imaginário colonial brasileiro. O problema surge quando a tradição religiosa passa a ser utilizada como evidência direta de que o apóstolo efetivamente percorreu o continente. A arqueologia contemporânea tem estudado justamente esse processo. Thiago Leandro Vieira Cavalcante demonstrou como marcas rupestres existentes foram progressivamente ressignificadas pela tradição de São Tomé, transformando vestígios materiais em sinais atribuídos a uma personagem religiosa. A existência das marcas é uma coisa; a interpretação cultural que posteriormente lhes foi atribuída é outra.
O Triângulo das Bermudas e a mítica ilha de Atlântida habitam o mesmo território no imaginário popular, alimentados por teorias que tentam conectar o mistério geográfico ao mito histórico. A cultura de massa consagrou a ideia de que o Triângulo das Bermudas é um lugar amaldiçoado ou magnético, onde navios são subitamente sugados pelas águas e aviões caem sem deixar vestígios. Na ficção e nas pseudociências, essa suposta força destrutiva é frequentemente justificada como o eco tecnológico de uma civilização perdida, sugerindo que antigos cristais de energia submersos ainda estariam ativos no fundo do oceano. A Atlântida, contudo, exige distinção semelhante. Platão é uma fonte histórica extraordinariamente importante para o estudo da filosofia e do pensamento grego, mas a existência textual de Atlântida não equivale à demonstração arqueológica de sua existência como império histórico. A pesquisa contemporânea continua discutindo o significado do relato platônico e possíveis inspirações ambientais ou históricas, mas a literatura especializada não reconhece uma civilização atlante localizada a oeste de Gibraltar como fato arqueológico estabelecido. Portanto, quando a narrativa de Platão é colocada lado a lado com fenícios, cartagineses, vikings e supostos contatos com o Brasil, cria-se uma cadeia narrativa muito mais sólida literariamente do que arqueologicamente. Enquanto o folclore moderno desenha o Caribe como um sorvedouro de embarcações e aeronaves, a ciência e a historiografia preferem tratar tanto os naufrágios quanto os textos antigos sob a luz do rigor factual, separando o poder da literatura das realidades da história.
Há, contudo, uma distinção que torna o problema ainda mais interessante. A possibilidade de viagens transoceânicas anteriores a Colombo não é, em si, uma fantasia. A arqueologia demonstrou inequivocamente que navegadores nórdicos chegaram à América do Norte. O sítio de L'Anse aux Meadows, localizado no extremo norte da ilha de Terra Nova (Newfoundland), na província de Terra Nova e Labrador, Canadá, é reconhecido como assentamento nórdico, e estudos publicados na Nature estabeleceram, por meio de datação associada a um evento cósmico registrado nos anéis das árvores, atividade nórdica no ano de 1021. Isso mostra justamente como uma hipótese extraordinária pode deixar de ser hipótese quando aparecem evidências materiais independentes, datáveis e contextualizadas. Ao mesmo tempo, a mesma pesquisa registra que L'Anse aux Meadows é o único sítio nórdico confirmado nas Américas. Não existe equivalente arqueológico reconhecido que demonstre presença viking no Brasil. O capítulo de Medeiros sobre o Rio Grande do Norte contém ainda uma observação que merece ser preservada, mas corretamente interpretada. Ele chama atenção para os ventos, as correntes marítimas, o Cabo de São Roque, Fernando de Noronha, as Rocas e a posição geográfica do Nordeste brasileiro como elementos importantes para a navegação no Atlântico Sul. Nesse ponto, existe uma base geográfica real. Estudos oceanográficos modernos confirmam que a Corrente Sul-Equatorial se desloca para oeste e alcança a costa brasileira, bifurcando-se na região do Cabo de São Roque. O erro metodológico estaria em transformar essa possibilidade geográfica em prova de que determinada civilização efetivamente realizou determinada viagem. Uma corrente marítima pode tornar uma travessia possível; não pode, sozinha, demonstrar que alguém a realizou.
É nesse ponto que a expressão "pseudo-história" precisa ser utilizada com cuidado. Ela não deveria significar simplesmente "história errada" ou "história antiga". Uma obra pode conter erros não intencionalmente, pode conter hipóteses posteriormente abandonadas ou interpretações hoje superadas sem ser, por isso, inteiramente pseudo-histórica. A crítica contemporânea à pseudoarqueologia concentra-se sobretudo na maneira de produzir conhecimento: utilizar semelhanças isoladas como prova de contato, retirar objetos de seu contexto, selecionar apenas as evidências favor´veis à hipótese, transformar tradição oral ou mito em relato factual e, sobretudo, começar pela conclusão e procurar posteriormente elementos que a confirmem. Diria que isso se parece com os atuais fake News que abundam na internet e recebem credibilidade de pessoas aparentemente esclarecidas. Estudos metodológicos sobre pseudoarqueologia chamam atenção justamente para a importância docontexto, da datação da comparação das hipóteses concorrentes e da verificabilidade dos dados. O caso de Jacques de Mahieu torna esse problema particularmente claro. Medeiros o apresenta como pesquisador que interpretava Sete Cidades como obra viking. A historiografia recente sobre de Mahieu, porém, mostra que suas teorias arqueológicas são hoje estudadas como um exemplo de pseudoarqueologia e de hiper-difusionismo. Pesquisas acadêmicas recentes analisam como suas interpretações atribuíam aos europeus, especialmente aos vikings, papel civilizador sobre sociedades americanas. Isso não significa que sua obra não possua interesse histórico. Ao contrário, ela é valiosa para estudar como determinadas ideias sobre o passado foram construídas, divulgadas e utilizadas. O objeto de estudo muda: de evidência sobre o passado remoto, a obra passa a ser evidência sobre a maneira como determinados intelectuais imaginaram o passado.
E talvez seja exatamente essa a grande lição proporcionada pela leitura de Proto-história do Rio Grande do Norte. O livro é valioso não somente pelo que afirma, mas também pelo retrato intelectual de uma época que ele oferece. Nele convivem história, geografia, arqueologia, tradição religiosa, relatos de viajantes, epigrafia, oceanografia, mitologia e teorias difusionistas. Há curiosidade genuína, erudição, desejo de ampliar os horizontes da história regional e uma tentativa de colocar o Rio Grande do Norte dentro de uma história atlântica muito mais antiga. Mas justamente por isso o livro também demonstra o perigo da autoridade intelectual quando a forma narrativa é mais convincente do que a força das provas. Quando um intelectual respeitado apresenta uma hipótese ao público, o leitor tende naturalmente a emprestar credibilidade à afirmação. Se essa hipótese é acompanhada por nomes de universidades, professores, línguas antigas, traduções de inscrições, datas, mapas, referências a historiadores clássicos e descrições geográficas, a aparência de cientificidade aumenta consideravelmente. Entretanto, todos esses elementos podem produzir apenas uma aparência de demonstração se não forem submetidos ao confronto com evidências independentes. Uma narrativa erudita não é necessariamente uma narrativa comprovada.
Por isso, o verdadeiro rigor intelectual não exige que o pesquisador abandone hipóteses ousadas. Exige que ele as apresenta exatamente como são. Se uma inscrição é contestada, devem ser expostos os argumentos de quem a considera autêntica e os argumentos de quem a considera falsa. Se uma formação rochosa é interpretada como monumento humano, devem ser apresentados os estudos geológicos e arqueológicos que investigam sua origem. Se uma viagem transatlântica é considerada possível, deve-se separar a possibilidade náutica da demonstração histórica. Se uma tradição religiosa registra a passagem de uma personagem, deve-se distinguir a tradição como fenômeno cultural da comprovação material do acontecimento. Quando essa distinção não é feita com clareza, surge aquele "fio de desconfiança" a que a própria leitura conduz. Não porque todo intelectual esteja deliberadamente enganando seu público, nem porque uma hipótese minoritária seja necessariamente falsa, mas porque o leitor percebe que as evidências favoráveis receberam espaço narrativo muito maior do que as objeções capazes de enfraquecê-las. A verdadeira ciência não se caracteriza por eliminar o mistério. Caracteriza-se por saber exatamente onde termina aquilo que podemos afirmar e onde começa aquilo que apenas podemos imaginar.
Hoje, quase quarenta anos depois da publicação de Tarcísio Medeiros, a situação é particularmente esclarecedora. A arqueologia brasileira dispõe de universidades, laboratórios, datações, arqueometria, estudos de DNA antigo, análise de materiais, geologia, antropologia, conservação, sistemas de informação geográfica e extensos bancos de dados arqueológicos. O Rio Grande do Norte possui uma história pré-colonial extraordinariamente rica que pode ser investigada sem recorrer a civilizações desaparecidas do Mediterrâneo. A existência de milhares de anos de ocupação humana no Nordeste – a começar pelos povos indígenas – é muito mais interessante, cientificamente, do que a necessidade de atribuí-la a fenícios ou vikings. E essa talvez seja a ironia mais profunda: ao procurar no Velho Mundo os responsáveis pelos vestígios antigos do Brasil, certas interpretações acabaram diminuindo, involuntariamente, a capacidade histórica dos próprios povos indígenas que produziram esses vestígios, como bem ponderou meu amigo arqueólogo. A atualidade, portanto, não precisa destruir o livro de Tarcísio Medeiros. Pode lê-lo de maneira mais proveitosa. Ele pode ser entendido como documento de uma etapa da historiografia potiguar, como testemunho da persistência de antigas teorias difusionistas e como registro de uma época em que fronteiras entre história, tradição, arqueologia e imaginação ainda eram frequentemente mais porosas. Mas, quando suas afirmações são confrontadas com a arqueologia desenvolvida posteriormente, o leitor precisa recolocar cada uma delas em seu devido lugar. Fenícios no Brasil, inscrição da Paraíba, Pedra da Gávea, Sete Cidades como centro fenício ou viking, São Tomé como personagem historicamente comprovada no continente e Atlântida como civilização histórica não pertencem hoje ao mesmo nível das evidências arqueológicas que demonstram a ocupação indígena milenar do Nordeste ou a presença nórdica em Terra Nova.
O maior ensinamento talvez resida justamente nessa fronteira. O intelectual não abdica de sua respeitabilidade ao admitir o caráter provisório de uma hipótese; pelo contrário, é nessa honestidade metodológica que sua autoridade verdadeiramente se consolida. A ciência não impõe ao pesquisador o fardo da infalibilidade. Exige-lhe, antes, a transparência de demonstrar como se chegou a determinada afirmação: quais evidências sustentam a conclusão, quais dados a contradizem e, fundamentalmente, onde termina o conhecimento empírico e onde começa o território fascinante da conjectura. Da mesma forma, ao lidar com a história oral e com narrativas ainda carentes de validação científica estrita, o rigor intelectual impõe que a abundância de indícios e pistas seja convertida em vetor de investigação arqueológica ou historiográfica, tida como um ponto de partida legítimo para a busca da verdade.
REFERÊNCIAS
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