ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

PAPARY NO TEMPO DE NÍSIA FLORESTA: ENGENHOS, BAILES, POLÍTICA, RELIGIOSIDADE E CULTURA POPULAR

 

UM OUTUBRO PARA REENCONTRAR NÍSIA FLORESTA

Como tradicionalmente faço, muito antes de outubro começo a reunir ideias para compor os textos que, durante o mês, dedico a Nísia Floresta neste blog. Outubro tornou-se, assim, um período de presença mais intensa de Nísia por aqui. É também a maneira que encontrei de cumprir um propósito que me acompanha: continuar divulgando Nísia Floresta, levando sua história, sua obra e seu pensamento para além dos lugares onde já são conhecidos. Normalmente, Nísia é aquela personagem da nossa história que, mesmo depois de tantos anos, continua nos chamando para uma conversa ou inspirando-nos a ambientá-la nos espaços da própria história. A biografia nisiana está aí para todos conhecerem, seja neste blog, seja em outros portais digitais e em uma diversidade de livros, digitais e físicos, espalhados Brasil afora. Mas, para este mês de outubro, trago uma proposta diferente: compreender melhor o tempo de Nísia Floresta, conhecer o panorama de sua época e perceber o que foi contemporâneo a ela nos mais diversos aspectos, enfim, os textos terão predominantemente essa linha. Hoje é o dia do nascimento dela, mas sigo escrevendo até o final do mês. Há muito a descobrir nesse percurso. Este é, afinal, um convite. Um convite para acompanhar a série, para ler, para questionar, para lembrar... Outubro será o nosso mês de reencontro com Nísia Floresta. Seja bem-vindo a essa caminhada. (Luís Carlos Freire, pentaneto de Francisca Clara Freire do Revoredo, irmã da mãe de Nísia Floresta).

PAPARY NO TEMPO DE NÍSIA FLORESTA: ENGENHOS, BAILES, POLÍTICA RELIGIOSIDADE E CULTURA POPULAR  

Muito antes de se transformar na atual Nísia Floresta, a antiga Papary, posteriormente Vila Imperial de Papary, possuía um universo cultural rico e complexo, marcado pelo encontro, nem sempre pacífico, entre tradições indígenas, portuguesas e africanas. Nesse território de lagoas, engenhos, caminhos de terra e capelas rurais nasceu, em 12 de outubro de 1810, Dionísia Gonçalves Pinto Lisboa, conhecida posteriormente como Nísia Floresta Brasileira Augusta. Era filha do advogado português Dion´sio Gonçalves Pinto Lisboa e de Antônia Clara Freire, brasileira ligada a uma família proprietária de terras na região. Nísia passou seus primeiros anos no Sítio Floresta, denominação que daria origem a parte de seu nome literário, tendo vivido 14 anos ali. A antiga Papary não era apenas um núcleo rural voltado à agricultura:: era um espaço de relações familiares, circulação comercial, religiosidade, manifestações populares e profundas desigualdades sociais. Enquanto as famílias proprietárias organizavam sua vida em torno dos engenhos e das residências rurais, trabalhadores livres, indígenas, pescadores e negros escravizados construíam, com seus saberes e experiências, uma parte fundamental da cultura regional.

A economia açucareira desempenhou um papel fundamental na organização da vida econômica e social do litoral sul do Rio Grande do Norte, contribuindo para a ocupação do território e para a formação de núcleos populacionais em torno dos engenhos. Entre os primeiros estabelecimentos desse tipo na Capitania do Rio Grande, destacou-se o Engenho Cunhaú, localizado em Canguaretama e fundado em 1604, considerado o primeiro engenho da região. Posteriormente, foi implantado o Engenho Potengi, no início do século XVII, dando continuidade à expansão da atividade açucareira. No século XVIII, essa dinâmica ganhou novos contornos com a fundação do Engenho Olho d’Água, em São José de Mipibu, por Miguel Ribeiro Dantas, em 1773, e a construção do Engenho Belém, no final do mesmo século. Já em 1810, ano do nascimento de Nísia Floresta, surgiu o Engenho Lagoa do Fumo, em Mipibu, estabelecimento associado ao Barão de Mipibu. Nísia Floresta nasceu, portanto, em um contexto histórico marcado pela presença dos engenhos e pela influência da economia açucareira na organização da sociedade, nas relações de trabalho e na configuração da paisagem regional.

Ao longo do tempo, a paisagem dessa região foi sendo progressivamente marcada pela presença de engenhos, que passaram a integrar a estrutura produtiva e as relações sociais locais. A expansão da atividade açucareira intensificou-se entre o início e meados do século XIX, período em que foram estabelecidos diversos outros empreendimentos. Entre eles, destaca-se o Engenho Carnaúbal, fundado em 1843 e apontado como o mais antigo de Ceará-Mirim, além do Engenho Pituaçu, instalado em Canguaretama, em 1850. Nas áreas de Papary, atual Nísia Floresta, e de São José de Mipibu, multiplicaram-se estabelecimentos como Descanso, São Roque, Pavilhão, Boa Esperança, Sapê e Porteira, entre outros. Essa proliferação de engenhos evidencia a importância alcançada pela produção açucareira na configuração histórica, econômica e social do litoral sul potiguar, cuja paisagem e organização territorial foram profundamente influenciadas pela expansão dessa atividade. Eles integravam uma paisagem econômica na qual se produziam açúcar, aguardente, rapadura e derivados da cana. As propriedades reuniam áreas de cultivo, instalações produtivas, residências, espaços de trabalho e, em determinados casos, capelas e casarões imponentes. A prosperidade de algumas famílias dependia do trabalho de pessoas escravizadas, submetidas a uma ordem social profundamente desigual. Os africanos e seus descendentes, entretanto, não contribuíram apenascom sua força de trabalho: preservaram e recriaram conhecimentos culinários, ritmos, danças, crenças, práticas religiosas, narrativas orais e formas de convivência que se misturaram aos saberes indígenas e aos costumes portugueses. Essa interação não ocorreu em condições de igualdade, mas deixou marcas duradouras na formação cultural de Papary e das localidades vizinhas.


PAPARY E SÃO JOSÉ DE MIPIBU: UMA HISTÓRIA COMPARTILHADA

Para compreender a história de Papary, é indispensável considerar seus vínculos com São José de Mipibu, importante núcleo regional durante os períodos colonial e imperial. Antes da consolidação das divisões municipais modernas, as duas localidades estavam conectadas por relações econômicas, familiares, religiosas e administrativas. Proprietários rurais possuíam terras em diferentes pontos da região, enquanto trabalhadores, comerciantes, religiosos e viajantes percorriam as estradas que ligavam Papary a São José de Mipibu, Goianinha e Arez.. Essa circulação fazia dos caminhos de barro verdadeiros corredores de intercâmbio, por onde transitavam mercadorias, notícias, costumes, músicas e tradições. Em 1845, segundo informaçõe históricas locais, São José de Mipibu reunia 33 engenhos – alguns deles dentro da área geográfica de Papary –, dado que ajuda a dimensionar a importância da atividade açucareira e a compreender a força econômica da região.

A ligação entre os dois núcleos não se limitava ao comércio. Questões familiares, religiosas e administrativas também aproximavam suas populações. Registros de batismos, casamentos, inventários e propriedades rurais ajudam a reconstruir a presença de famílias que mantinham interesses nas duas localidades. Entre os proprietários e personagens políticos ligados à história de Papary encontram-se membros das famílias Carvalho e Araújo, associados a engenhos e à administração local em períodos posteriores à infância de Nísia. É necessário, contudo, distinguir as gerações: determinadas figuras de destaque na política municipal, como o coronel José Joaquim de Carvalho e Araújo, pertencem a uma etapa posterior da história regional e não devem ser apresentadas como contemporâneas da infância da escritora. Esses registros são importantes para compreender a continuidade das estruturas agrárias e das relações de poder que marcaram Papary ao longo do século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Apesar da importância econômica da região, as possibilidades de acesso ao ensino superior eram inexistentes localmente, o que limitava a formação acadêmica de seus habitantes e exigia o deslocamento para outros centros. Pernambuco, por sua vez, destacava-se nesse cenário: em 1827, foi criada a Faculdade de Direito de Olinda, uma das primeiras instituições de ensino superior do Brasil, evidenciando o contraste entre as oportunidades educacionais disponíveis nos dois espaços. Mesmo que não houvesse os problemas que historicamente conhecemos, e que instigaram a família de Nísia Floresta a deixar a província do Rio Grande do Norte, não havia o que uma mente brilhante como a dela fazer por aqui.

Nísia cresceu numa Papary cuja circulação regional era favorecida também pelos mascates, vendedores ambulantes que – oriundos de Natal e até mesmo de Recife e Olinda –, percorriam engenhos, fazendas, feiras e povoados montados em cavalos, burros ou jumentos. Transportavam tecidos, rendas, perfumes, louças, ferramentas, chapéus, imagens sacras, rosários, espelhos, pequenos adornos e outras mercadorias pouco acessíveis às comunidades rurais. Suas malas, caixas e bruacas continham não apenas produtos, mas também novidades, histórias e informações sobre acontecimentos políticos, epidemias, mudanças de governo e festas realizadas em outras localidades. Em uma época na qual os meios de comunicação eram limitados, esses comerciantes funcionavam como transmissores de notícias e agentes de aproximação cultural. Ao lado dos canoeiros, tropeiros, pescadores e comerciantes das feiras, contribuíam para integrar Papary ao movimento econômico e social do litoral sul potiguar.

OS CASARÕES DO VALE DO CAPIÓ E OS GRANDES BAILES

A vida cultural dos engenhos não se restringia à produção açucareira, ao trabalho e à religiosidade. Entre determinadas famílias proprietárias, havia reuniões sociais, festas e bailes realizados em casarões rurais, onde a música, o vestuário e os modos de comportamento expressavam prestígio e distinção. Registros de Luís da Câmara Cascudo ajudam a preservar a lembrança dos casarões e das festas do Vale do Capió. Segundo essa memória, a região possuía residências imponentes nas quais se realizavam bailes animados por modinhas ao piano e pela música do mestre Bethlein, também referido como Belém, músico associado a São José de Mipibu. Essas referências são valiosas para compreender a dimensão social e artística dos engenhos e a integração cultural entre Papary e a povoação mipibuense.

Nesses encontros, as famílias abastadas exibiam sua posição social por meio da hospitalidade, da música, do vestuário e das joias. Senhoras e moças apresentavam vestidos cuidadosamente escolhidos, adornos e penteados que refletiam os padrões de elegância valorizados entre os grupos de maior poder econômico. A moda constituía uma forma pública de distinção: tecidos finos, acessórios e joias revelavam o acesso a bens que estavam muito além das possibilidades da maioriada população. Os bailes permitiam fortalecer vínculos familiares, consolidar alianças e ampliar relações de influência. A presença de músicos capazes de executar repertórios de salão e de animar festas demonstra que os costumes culturais não estavam confinados às cidades maiores. Eles circulavam entre residências urbanas, propriedades rurais e localidades vizinhas, adaptando-se às condições e aos recursos de cada ambiente. Esse comportamento cultural não era exclusividade dos casarões pomposos dos engenhos de Papary, mas de toda região, inclusive Goianinha, onde residiam todos os tios e tias de Nísia Floresta.

A IGREJA DE NOSSA SENHORA DO Ó E AS FESTAS RELIGIOSAS

A religiosidade católica constituía um dos principais eixos da vida coletiva de Papary. A Igreja de Nossa Senhora do Ó, cuja construção remonta ao início do século XVIII, tornou-se referência espiritual e social da povoação. A tradição histórica local situa o início das obras em 1703 e aponta para a conclusão de sua estrutura essencial entre 1735 e 1755, embora a configuração interna tenha passado por modificações posteriores. Assim, quando Nísia nasceu, em 1810, o templo já fazia parte da paisagem religiosa da comunidade. A criação da Paróquia de Nossa Senhora do Ó, em 29 de agosto de 1833, representou um marco na organização eclesiástica local, após sua separação da freguesia de Sant'Ana de São José de Mipibu. Antes disso, a atuação religiosa compartilhada entre as localidades reforçava os vínculos entre suas populações.

Missas, novenas, procissões e festejos da padroeira reuniam moradores de diferentes condições sociais, movimentavam o comércio e favoreciam a circulação de alimentos, músicas e visitantes. As celebrações de São José de Mipibu também atraíam pessoas de Papary, enquanto os religiosos e as famílias mantinham relações entre os dois núcleos. Entretanto, a participação nas festas não eliminava as desigualdades existentes. A sociedade escravista estabelecia limites e hierarquias até mesmo nos espaços religiosos, embora a convivência em torno das devoções também criasse oportunidades de solidariedade e afirmação comunitária.

Ao lado do catolicismo oficial, desenvolviam-se práticas de religiosidade popular com referências africanas e indígenas. As irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos constituíam espaços de devoção, auxílio mútuo e preservação de tradições. Na memória oral de Papary, há referências a festejos do Rosário com cortejos, danças, batuques e coroações simb´licas de reis e rainhas negros, realizados, segundo pesquisadores locais, em torno de 6 de janeiro. Essas celebrações fortaleciam o pertencimento e o reconhecimento das pessoas negras em uma sociedade que lhes negava direitos fundamentais. É possível imaginar quantas vezes os habitantes do Sítio Floresta adormeceram ao som dos tambores festivos dos escravizados, vindos das celebrações do Rosário ou dos próprios engenhos, portanto não é difícil supor que o espirito abolicionista de Nísia Floresta – construído ao longo de sua vida – teve os seus alicerces fortalecidos nas lembranças de tudo o que ela ouviu e viu, como a violência contra os escravizados por parte dos senhores de engenho.

E, ainda sobre o templo de Papary, relatos memorialísticos também mencionam a existência de espaços diferenciados para a população negra no interior da Igreja Matriz, aspecto que merece investigação à luz dos documentos paroquiais e das práticas religiosas da época. A segregação e as restrições impostas aos negros coexistiam com a capacidade de recriar tradições dentro das instituições religiosas. Por isso, as festas não devem ser interpretadas apenas como manifestações de submissão: podiam representar também resistência cultural, solidariedade, preservação de vínculos familiares e afirmação de identidades coletivas.


RESISTÊNCIA NEGRA, MÚSICA E TRADIÇÃO ORAL

A história cultural de Papary precisa reconhecer as experiências das pessoas escravizadas e as diversas formas de resistência à ordem senhorial. A estranha ideia de que a escravidão no Rio Grande do Norte teria ocorrido sob uma suposta camaradagem generalizada entre senhores e escravizados não deve ser aceita sem crítica. A escassez de registros sobre a violência não significa que ela não existisse. Ademais, por si a escravização é um ato de violência. A própria condição de escravizado implicava privação da liberdade, sujeição à autoridade de terceiros e ruptura de vínculos pessoais e familiares. Fugas, redes de solidariedade, preservação cultural e mobilizações coletivas constituíram respostas possíveis a essa realidade.

Entre as memórias regionais destaca-se Miguel Rei, personagem associado a articulações de escravizados em Papary e localidades vizinhas, incluindo Goianinha, Arez e São José de Mipibu no ano de 1860. Sua trajetória é recuperada em relatos memorialísticos e em referências historiográficas atribuídas a Luís da Câmara Cascudo. É um exemplo de resistência negra no litoral sul potiguar. Nísia contava com 50 anos de idade à ocasião, já havia fundado um colégio para meninas no Rio de Janeiro e viajado para a França. Mas uma observação se faz necessária: o passado de Papary não pode ser compreendido somente pelas realizações das elites proprietárias: é necessário incluir aqueles que, mesmo submetidos à escravidão, participaram ativamente da construção de sua história.

Batuques, cocos, bambelôs, zambês e outras manifestações musicais afro-potiguares integram o patrimônio cultural do estado. Não é possível determinar com segurança a data de origem de cada prática em Papary, mas a persistência dessas expressões permite reconhecer a contribuição africana para a formação cultural regional, tendo em vista que a existência dos engenhos movidos por escravos e até mesmo os proprietários ricos de Papary que tinham escravizados em suas residências, à serviço de todos. Em diferentes momentos, manifestações populares negras foram vistas com desconfiança pelas elites e reprimidas pelas autoridades. Ana Cascudo, filha de Câmara Cascudo, contou-me sobre intervenções de Câmara Cascudo em favor de brincantes pretos de coco de roda, zambê, pau furado e boi de reis detidos em delegacias durante manifestações culturais, episódios que merecem ser contextualizados em suas circunstâncias específicas, mas que traduzem o contexto da escravidão. A transmissão oral foi decisiva para que ritmos, danças e conhecimentos sobrevivessem apesar das perseguições e da ausência de registros escritos sistemáticos.

A oralidade preservou igualmente histórias de almas, visagens, lobisomens, encantamentos, botijas enterradas, pedras encantadas, fogo batatão, tesouros escondidos e luzes misteriosas. Essas narrativas ajudavam a explicar acontecimentos incomuns, transmitir valores e atribuir significados a lugares conhecidos. Entre as lembranças populares encontram-se histórias associadas ao baobá de Papary, à sacristia da Matriz de Nossa senhora do Ó e outras. Com relação ao baobá, uma tradição oral afirma que a árvore teria sido plantada por um africano sobrevivente de um naufrágio negreiro nas proximidades de Camurupim. Não se trata de um acontecimento comprovado apenas pela existência da narrativa, mas de uma memória significativa da maneira como a população relacionou a árvore à presença africana e à experiência da escravidão. Seu valor cultural está também na continuidade dessa interpretação entre gerações. Nísia teria ouvida essas estórias?


OS SONS, OS SABORES E A CULTURA DAS ÁGUAS

A paisagem sonora da antiga Papary reunia os sinos da Matriz, os cantos religiosos, as vozes dos trabalhadores, os instrumentos musicais dos bailes e os sons associados às atividades agrícolas e domésticas. Os sinos marcavam momentos de oração, procissões, funerais e festas, organizando simbolicamente o tempo da comunidade. Nos engenhos, o trabalho da cana e as atividades cotidianas produziam ritmos diferentes daqueles dos salões das famílias proprietárias. Essa diversidade sonora traduzia a coexistência de mundos sociais distintos, conectados pelo território, mas separados por profundas diferenças de condição e poder.

A alimentação também expressava o encontro de tradições indígenas, africanas e portuguesas. Mandioca, farinha, tapioca, peixes, crustáceos, pirões, mingaus, coco e derivados da cana integravam uma cozinha adaptada aos recursos naturais da região. Mel de engenho e rapadura estavam associados à economia açucareira, enquanto os saberes sobre a mandioca e os alimentos provenientes das lagoas e do litoral revelavam a importância dos conhecimentos locais. Entre as especialidades preservadas na memória culinária de Nísia Floresta está o chamado Pecado Maneiro, preparado com massa de mandioca e sal, em forma de beiju muito fino e seco, apontado por conhecedores da tradição local como uma iguaria característica do município.

Rendeiras, labirinteiras, pescadores, canoeiros, agricultores e trabalhadores dos engenhos contribuíram igualmente para a identidade cultural paparyense. A proximidade das lagoas e do mar influenciava os hábitos alimentares, o vocabulário, as crenças, o lazer e as atividades econômicas. A cultura da região não nasceu apenas nos casarões e nos templos: formou-se também nas cozinhas, nas áreas de trabalho, nos caminhos rurais e nas comunidades à beira d'água. A relação entre águas doces e salgadas constitui uma das permanências mais expressivas da história local. E tudo isso foi testemunhado por Nísia Floresta no período de sua infância e adolescência.


NÍSIA FLORESTA E PAPARY: INFÂNCIA, HISTÓRIA E AUTONOMIA

A trajetória de Nísia Floresta precisa ser situada nas tensões políticas e sociais do início do século XIX. Em 1817, quando ela contava com sete anos de idade, os ideais da Revolução Pernambucana e a contestação à ordem portuguesa ecoaram no Rio Grande do Norte. O forte sentimento antilusitano e as disputas políticas locais resultaram em hostilidades contra seu pai, que era português. Para fugir dos conflitos, a família deixou temporariamente o Sítio Floresta e mudou-se para Goiana, em Pernambuco. Alguns biógrafos levantam a hipótese de que Nísia teria frequentado aulas no Convento das Carmelitas (fundado em 1666). Contudo, a suposição esbarra no fato de que o espaço funcionava exclusivamente como um convento masculino; o ensino misto para crianças comuns só passou a existir ali em meados do século XX, com a posterior criação do Colégio Santo Alberto em suas dependências. A família retornou ao Rio Grande do Norte já em 1819. Pouco depois, em 1824, o estopim da Confederação do Equador trouxe novas instabilidades, fazendo com que deixassem definitivamente Papary para residir em Pernambuco. Esses deslocamentos mostram que a infância e a adolescência da escritora foram profundamente conturbadas, atravessadas por conflitos que conectavam a pequena povoação de Papary aos grandes acontecimentos políticos da região. Essa experiência serviu de amadurecimento.

A história de seu casamento também merece uma interpretação cuidadosa. Em 1823 – aos 13 anos –, Nísia casou-se com o proprietário de terras Manuel Alexandre Seabra de Melo. Sempre defendi que tanto a escolha pelo casamento quanto a posterior separação foram frutos de decisões estritamente dela, e não de imposições familiares. Essa perspectiva contrasta com versões biográficas tradicionais que apresentam o matrimônio como forçado, razão pela qual o assunto deve ser tratado com atenção às fontes, sem transformar uma linha interpretativa em fato incontroverso. Acredito que a união nasceu de uma grande paixão, mas que, com o tempo, Nísia sentiu no casamento uma verdadeira prisão. Ela desejava liberdade para estudar, viajar e expandir seus horizontes, anseios que a estrutura matrimonial daquela época simplesmente não concebia ou aceitava. Diante desse sufocamento, a união durou pouco, e ela tomou a corajosa iniciativa de se separar. O ponto mais positivo desse processo foi que, longe de marginalizá-la, a família sempre acolheu e apoiou integralmente as suas decisões. Aos olhos daquele tempo, casar-se nessa idade era comum, inclusive minha bisavó Maria Clara de Magalhães Fontoura Peixoto – trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo – irmã da mãe de Nísia Floresta, casou-se aos 12 anos de idade. Sua história pode ser lida neste link: NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: MARIA CLARA, CASADA AOS 12 ANOS: A MULHER QUE PRECISOU EXISTIR EM UMA MENINA... Independentemente das divergências historiográficas sobre as circunstâncias iniciais da união, a ruptura promovida por Nísia permite refletir sobre as convenções matrimoniais e os pesados julgamentos sociais que recaíam sobre as mulheres no período. Sua trajetória posterior demonstra que ela não se limitou passivamente às expectativas impostas à condição feminina, reafirmando sua autonomia desde a juventude. Nísia não teve medo da sociedade. Ela sabia o que viria após a separação, mas o importante para ela era o acolhimento da família e seus anseios futuros.

Em 1830, Nísia já publicava textos no periódico O Espelho das Brasileiras, no Recife, abordando temas relacionados à condição das mulheres. Em 1832, publicou Direitos das mulheres e injustiça dos homens, obra que marcou sua intervenção no debate sobre educação e desigualdade de gênero. Mais tarde, em Opúsculo Humanitário, de 1853, aprofundou sua defesa da educação feminina. Sua formação intelectual não pode ser explicada exclusivamente pelo ambiente de Papary, porém a experiência de uma sociedade rural hierarquizada, escravista e patriarcal constitui um contexto crucial para situar as questões às quais dedicou sua vida. Inegavelmente, Papary lhe foi uma escola.

DA VILA IMPERIAL À ATUAL NÍSIA FLORESTA

Papary consolidou gradualmente sua autonomia administrativa ao longo do século XIX. Sua emancipação política, datada de 18 de fevereiro de 1852, representou o desmembramento de São José de Mipibu e a afirmação de uma identidade municipal própria, sem eliminar os vínculos econômicos, familiares, religiosos e culturais entre as duas localidades. A antiga denominação Papary, de origem indígena, permaneceu associada à história da povoação por muitas décadas. Em 23 de dezembro de 1948, a Lei Estadual nº 146, oficializou a mudança do nome do município para Nísia Floresta, homenageando a escritora nascida naquela terra. A alteração foi mais do que uma medida administrativa: consagrou publicamente a memória de uma intelectual que se destacou na defesa da educação feminina e na reflexão sobre as desigualdades sociais.

As pesquisas de história oral que realizei no município, incluindo levantamentos desenvolvidos entre 1992 e 2012, ajudam a recuperar aspectos da cultura que raramente aparecem nos documentos oficiais. Entrevistas com antigos moradores, confrontadas com registros familiares, paroquiais e administrativos, permitem reconstruir tradições, costumes, relações de trabalho e memórias de pessoas que participaram da formação do litoral sul potiguar. Esse trabalho é especialmente importante para a história das populações negras, das mulheres e dos trabalhadores rurais, cujas experiências foram frequentemente registradas de maneira incompleta.

Papary foi muito mais do que o lugar de nascimento de Nísia Floresta. Foi um território de engenhos e lagoas, bailes elegantes e batuques populares, devoções católicas e tradições afro-indígenas, circulação comercial e conflitos políticos, hierarquias sociais e resistência negra. A proximidade com São José de Mipibu ampliou a circulação de pessoas, mercadorias e costumes, formando uma região historicamente integrada. Compreender esse universo exige reconhecer tanto a contribuição das famílias proprietárias quanto as experiências dos grupos que sustentavam a economia e preservavam saberes transmitidos entre gerações. É nessa pluralidade, atravessada por desigualdades, encontros e resistências, que podemos encontrar uma compreensão mais profunda da história cultural de Papary e do ambiente em que nasceu e cresceu Nísia Floresta Brasileira Augusta.

REFERÊNCIAS

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CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 1995.

CASCUDO, Luís da Câmara. História do Rio Grande do Norte. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, Serviço de Documentação, 1955.

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DUARTE, Constância Lima. As viagens de Nísia Floresta: memória, testemunho e história. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 16, n. 3, p. 1047-1060, set./dez. 2008. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-026X2008000300021.

DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: vida e obra. Natal: Editora Universitária da UFRN, 1995.

FLORESTA, Nísia. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. 4. ed. atualizada, com introdução, notas e posfácio de Constância Lima Duarte. São Paulo: Cortez, 1989.

FLORESTA, Nísia. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. In: FLORESTA, Nísia. Ensaios: direitos das mulheres e injustiça dos homens, 1832; e A mulher, de 1859. Organização e estudo de Constância Lima Duarte. Editora Luas, 2020.

FLORESTA, Nísia. Opúsculo humanitário. Edição atualizada, com estudo introdutório e notas de Peggy Sharpe-Valadares. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: INEP, 1989.

FREIRE, Luís Carlos. Engenho Pavilhão – Nísia Floresta. Blog Nísia Floresta por Luís Carlos Freire, 28 jun. 2017. Disponível em: https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2017/06/engenho-pavilhao-nisia-floresta.html. Acesso em: 17.mai.26.

FREIRE, Luís Carlos. Estudos memorialísticos, registros de história oral e textos sobre Papary, os engenhos do Vale do Capió, a Festa do Rosário dos Pretos, Miguel Rei e a cultura popular afro-potiguar. Blog Nísia Floresta por Luís Carlos Freire. Disponível em: https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/. Acesso em 22.mai.26.

FREIRE, Luís Carlos. Trajano Leocádio de Medeiros Murta, o Velho Trajano do Engenho Pavilhão. Blog Nísia Floresta por Luís Carlos Freire, 18 jan. 2019. Disponível em: https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2019/01/trajano-leocadio-de-medeiros-murta-o.html. Acesso em 22.mai.26.

FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO. Nísia Floresta. Pesquisa Escolar. Disponível em: https://pesquisaescolar.fundaj.gov.br/pt-br/artigo/nisia-floresta/. Acesso em: 30.mai.26.

PREFEITURA MUNICIPAL DE NÍSIA FLORESTA. A mulher: Nísia Floresta. Disponível em: https://nisiafloresta.rn.gov.br/a-mulher/. Acesso em: 28.mai.26.


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