ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

O ENCONTRO DE NÍSIA FLORESTA COM O PAPA PIO IX - 1858

O ENCONTRO DE NÍSIA FLORESTA COM O PAPA PIO IX - 1858 
ALGUMAS PÁGINAS DA HISTÓRIA DE NÍSIA FLORESTA PERMANECEM DESCONHECIDAS POR MUITOS... HOJE, FALAREI DE UM EPISÓDIO INCRÍVEL VIVIDO POR ELA.  
ATUALMENTE NÃO É FÁCIL TER UMA AUDIÊNCIA COM O PAPA, MAS NÃO SE COMPARA À ÉPOCA DE NÍSIA FLORESTA. ESSE FATO SERVE PARA PENSARMOS E RECONHECERMOS CADA VEZ MAIS A IMENSIDÃO DESSA INTELECTUAL, CUJO TRONCO GENEALÓGICO ME PRESENTEIA ATRAVÉS DA LINHAGEM DA MINHA MÃE, CAUSANDO-ME ORGULHO.
 

Em abril de 1858 Nísia Floresta visitou o Papa Pio IX, acompanhada de sua filha Lívia Augusta. A mãe contava 48 anos. A filha, 28. Esse encontro é curiosíssimo e nos permite várias reflexões. Ela estava acompanhada também com uma princesa russa, uma condessa e uma marquesa italianas. Sobre esse encontro, dentre tantas reflexões que a intelectual potiguar nos deixou, destaco as palavras abaixo, escritas por ela quando, enfim, adentrou o palácio papal: 
“(...) Ali estava eu, não dentro de um templo antigo ou de um palácio de imperador romano, enriquecidos e embelezados com preciosos despojos da Grécia artística ou de poderoso e maravilhoso Egito, mas sob as abóbadas da morada do humílimo representante do Cristo sobre a terra (...)”. 

Essas palavras são muito preciosas, pois a pergunta que mais ouço é: “Luís Carlos, qual a religião de Nísia Floresta?”. Está claro que ela era católica. A propósito, Nísia Floresta tinha uma característica: sua obra completa revela praticamente sua biografia. Você a descobre, lendo-a. Ela externa a sua opinião, despercebidamente, à medida que aborda assuntos diversos. Sobre a sua religião, posso garantir ao leitor que era católica fervorosa, inclusive tinha conhecimento aprofundado da Bíblia, da vida dos santos enfim. Mas era altamente crítica. Se viva hoje, se envolveria em muitas polêmicas! 

Retomando. Assim que chegou ao palácio papal, observou guardas e empregados uniformizados, transitando para todos os lados, sempre em diligências. Ao entrar na sala de recepção ela apresentou ao funcionário do Papa uma permissão timbrada com o selo de Sua Santidade e foram convidadas a entrar numa antessala. Naquele exato momento saiam senhoras da alta sociedade europeia que acabavam de ter audiência com o Papa. 
Nísia Floresta, Lívia Augusta e as demais mulheres trajavam roupa preta. O véu fora colocado sobre a cabeça e pendia até a cintura. Foram convidadas a sentar em grandes poltronas vermelhas. A sala era decorada por grandes quadros retratando episódios de que o Vaticano testemunhara. Nísia Floresta desaprovou a atitude das monarcas que estavam ao seu lado, as quais não se comportavam como tais. Ela não entrou em detalhes. 
Ela nos conta que, junto havia uma americana de Boston. Após a audiência com o Papa, ela disse a Nísia Floresta que era de família evangélica e viera a Roma para abraçar a religião católica, contrariando a vontade do marido e da família. Essa senhora se emocionou muito, pois queria ter trazido a filha, assim como Nísia, mas o marido a proibiu. Ela temia jamais revê-la.  

Sobre esse detalhe singular da visita, Nísia Floresta escreveu: 
“(...) Escutei, em silêncio, aquela história tocante, e me perguntei qual das duas segue melhor os preceitos de Cristo, se a mulher que pratica de coração as virtudes de esposa e mãe no seio da família, ou aquela que a abandona, deixando no desespero uma filha e um marido que a ama e de cujo destino ela jurou participar. Essa reflexão naturalmente nos conduziu a muitas outras que o assunto e o lugar onde me encontrava me sugeriam largamente (...)”. 
As palavras acima, escritas de próprio punho, nos oferecem reflexões preciosas. Sabemos que Nísia Floresta, aos 13 anos, se juntou a um homem escolhido por livre e espontânea vontade. Manuel Alexandre Seabra de Melo, mipibuense fincado num engenho, cujo seu mundo era limitado por muros de cana-de-açúcar. Resultado: a “união” não durou um ano. Ela viu no casamento o presídio de seus sonhos. Era uma mulher universal. Almejava conhecer outros países, visitar universidades, museus, estudar, aprender outras línguas, escrever livros enfim. Mas os grilhões tão comuns aos pés dos escravos negros lhe pesaram também. O marido “ultrajado” a perseguiu durante toda a vida. As leis da época permitiam coabitação à força. Mas ele nunca a reencontrou. 
Se o leitor estranha um casamento aos 13 anos, é importante saber que era comum. Mas duravam a vida inteira. Assim surgiram famílias que muitas vezes geravam vinte filhos. Boa parte das mulheres se calavam a todo tipo de maltrato e traição do marido – muitas fezes com escravas e até parentas – na tentativa de não ficar falada nem “desonrar” a família. Abandonar um casamento era um misto de crime e pecado, culturalmente falando. 
Quando Nísia Floresta critica a ex-evangélica por ter “abandonado o marido”, soa contraditório, pois ela também abandonou o seu. Qual autoridade para a crítica? Mas a crítica de nossa conterrânea procede e tem fundamento, pois ela se refere ao pecado da quebra de um juramento feito no altar, diante de Deus. A mulher de Boston era uma mulher casada oficialmente. Fato que não aconteceu a Nísia Floresta. Ela “era junta”, como se diz.  
Nísia, que era católica, via no juramento feito no altar, um preceito sagrado e inviolável. Nesse ponto ela era até conservadora. Tão diferente do que tantos comentam. É outra história, afinal ela oscilava algumas de suas interpretações. Umas se lapidaram ao longo do tempo, outras não. A sua primeira união não teve juramento, teve adolescência à flor da pele e hormônios explodindo. Os pais acreditaram nessa união, mas também acreditaram na separação. Eram liberais. Por essas modernidades se tornaram tema de conversas nas casas e engenhos da Papari mergulhada em tabus e preconceitos diversos. 

Retomando a visita ao Papa Pio IX. Sobre esse encontro ela disse que tinha antipatia por formalidades, e se submetia a tais com muito esforço. Enfim, chega a hora de ser anunciada. A primeira foi a americana. Sobre ela, Nísia Floresta também escreveu: 
“(...) Pobre mãe! Pensei, que nunca tenhas de te censurares por ter abandonado tua filha em uma idade em que a prudência materna seria seu melhor guia do mundo! (...). 
Quando anunciam o seu nome e o da filha, ela sentiu o coração pulsar forte e se emocionou. Pio IX trajava uma túnica branca e se mantinha em pé, ao fundo da sala, a mão esquerda se apoiava em uma mesa onde havia um crucifixo, um livro e uma tabaqueira. 
Esse encontro é tão interessante, revelador e curioso que vale a pena ser transcrito: 
“(...) Sua fisionomia irradiava uma expressão de celeste bondade e unção, que eu vira em alguém. Apenas chegamos perto dele, estendeu-nos a mão: beijei-a respeitosamente, e minha filha seguiu meu exemplo. Depois ele me perguntou com certa dificuldade, em minha língua materna, se fazia muito tempo que havíamos deixado o Brasil e se eu tinha a intenção de fixar-se em Roma, acrescentou, logo, em italiano. 

As primeiras palavras em português e a doce bondade com que foram pronunciadas pelo Chefe da Igreja, diante de quem eu trazia todas as recordações da família e da pátria, produziram, em meu coração, uma emoção profunda e, em meu espírito, um efeito maravilhoso. Acreditei, um momento, perceber, através de uma nuvem pura e diáfana, a imagem dos queridos autores de meus dias: um excelente pai, vítima de seu devotamento, uma terna mãe, resignada na dor suavizada pela religião católica, que lhe derramava n’alma o mais alutar consolo: um, morrendo por um pobre oprimido de quem patrocinara a causa; a outra, sobrevivendo-lhe alguns anos para consolar quem sofria em torno dela. 
A visão se dissipou... Eu estava diante do Papa. “A senhora viaja com sua filha”, perguntou-me, “e não tem outros filhos?” Respondi-lhes mostrando a miniatura de meu filho. Tomando-a às mãos, aplaudiu meu cuidado materno, e acrescentou que pela primeira vez uma mãe lhe trazia, assim, a efígie do filho, não podendo conduzir o original. Depois, perguntou quem era a jovem representada ao lado dele. Ao saber que era a esposa, disse: “tão jovem ainda e já casado”. E deu-lhes a benção. 
Contei-lhes em poucas palavras a minha dor, causada pela morte de minha mãe, bem como a finalidade de minhas viagens. Dos lábios de Pio IX escaparam palavras consoladoras e cheias de unção. Em sua indulgente bondade, dignou-se louvar os meus sentimentos de filha. 
Aconselhou-me escolher Roma para fixar residência. A permanência em Roma, no seu entender, conviria à situação moral em que meu espírito se encontrava. Algumas considerações que acrescentou fizeram-me melhor apreciar a pureza de seu coração e me convenceram mais ainda do seu desconhecimento relativamente ao que ocorre nesta cidade. Seu olhar doce e calmo brilhava como um raio divino, à medida que falava. Eu me sentia subjugada sob a influência desse olhar, daquelas palavras que ele tirava da sua verdade suprema. Ali estava, realmente, o digno e venerável chefe da Igreja, o Pontífice reluzente da luz da caridade. Ali estava o verdadeiro e grande poder espiritual, mais capaz de convencer e mais digno triunfar do que toda e qualquer outra potência humana". 
Uma das observações que impressiona no diálogo é o fato de o Papa convidar Nísia Floresta para morar em Roma. O que o teria movido a isso? Sobre o seu filho, é importante informar ao leitor que ela trazia a mágoa de o filho ter se casado logo após a adolescência, à sua revelia. Ela visualizava muitos planos para ele. E despedindo-se do Papa, receberam a benção e saíram. Sobre esse encontro ela também escreveu uma observação curiosa. Ela, como sabemos, era muito crítica e não esqueceu de comentar sobre a riqueza desmedida em que viviam o Papa e todos os religiosos que se abrigavam na corte papal. 
“(...) Escutando aquelas palavras, esqueci o fausto da corte papal que choca todos os espíritos versados nas grandes lições do Evangelho; esqueci também todos os abusos de que esta corte se cercou. Na verdade, vi um coração repleto de grandes virtudes, que poderia fazer à felicidade a uma parcela da humanidade, se não lhe faltasse energia! E lamentei que o espírito do grande reformador de 1848 não estivesse em harmonia com o seu coração. Deplorei ainda que atos de injustiça e tirania, praticados em seu nome, tivessem diminuído a simpatia generalizada que até bem pouco tempo inspirava e fizessem com que seu poder se confundisse com o das potências políticas do mundo (...)”. 
As reflexões abaixo, também escritas por Nísia Floresta são impressionantes. Ela não cita exemplos, mas divaga coisas fortes, facilmente captadas por espíritos inteligentes. Leia: 
“(...) Quando temos acesso a esse pontífice e o ouvimos, é impossível não sofrer a influência quase celeste de sua bondade. Encontramo-nos em uma atmosfera bem diversa daquela que subjuga o espírito de seus subordinados! “Subordinados”, digo. São Pedro, o humilde servidor de Jesus Cristo, jamais se arrogou o direito de ter subordinados? Oh! através de que labirinto de contradições os pomposos sucessores do santo apóstolo, do simples pescador, conduziram sua grande obra? Junto de Pio IX, esqueci tudo isso. Mas, tornei a me aperceber, ao me despedir dele e ao lançar um olhar sobre essa Roma moderna!” 

Sobre essa visita de Nísia Floresta ao Papa Pio IX, ao contrário do que é mais lógico se supor, não era o seu sonho de consumo. Seu respeito pelo Papa, em especial A Pio IX era inquestionável. Mas sua ida a Europa tinha outra finalidade. Nísia se comportou a vida toda como uma socióloga, filósofa, historiadora... Suas viagens tinham essa conotação. Assim ela se inspirava cada vez mais a entender a vida, o mundo, as pessoas...Tudo para ela era matéria prima para a palavra escrita. Sobre conhecer o Papa Pio IX ela escreveu que 
"jamais tivera a ideia de, vindo a Roma, procurar ser recebida por Sua Santidade. Antipatizando sempre com as formalidades, não me submeti a elas senão com esforço..." 
Na realidade dois fatores alheios a ela a levaram ao Papa. O arcebispo de Turim, que tendo estado no Rio de Janeiro, orientou-a a pedir uma audiência com o Pontífice. A família de um tal "Senhor M", também do RJ, entusiasmados em viverem tal experiência, pediram que ela não deixasse de marcar audiência acaso fisse ao Vaticano. Mas o que verdadeiramente a fez viver tal experiência foi um fato histórico. Em 1848 ele libertou 800 oprimidos para a causa da independência italiana, e isso encantava a ilustre brasileira, tão afeiçoada às causas envolvendo benevolência e heroísmos. Mas vamos ao que interessa. Assim que encerrou a audiência com o Papa, já fo lado de fora do palácio, ela encontrou uma comitiva de religiosos europeus, os quais, tendo escutado-a e percebido tratar-se de uma brasileira, puxaram conversa. Logo um dos padres disse em linguagem italiana 
"O clero do Brasil é muito desmoralizado, não é, minha senhora".  
Nísia achou a abordagem inadequada e desrespeitosa, principalmente por fazê-la a uma mulher. E brasileira. Então, em impecável italiano - e na lata - ela respondeu: 
"Temos em nosso clero vários eclesiásticos notáveis pela pureza de seus costumes, de seus sentimentos piedosos e da profunda instrução. Quanto àqueles que lhe agrada generalizar sob o nome de clero do Brasil, são mais ou menos como o clero de Roma, entre os quais um certo número deles viveu e aprendeu boas lições".  
Envergonhados e sem jeito, o monsenhor mudou o assunto. Mas tentou fazer um giro e fez um jirau. Começou falar sobre a natureza brasileira, e num dado momento disse que no Brasil "as mulheres têm muito espírito..." 
Nísia o interrompeu: 
"Perdão, Monsenhor, o senhor se engana. As mulheres do meu país têm mais coração do que espírito, pois é o coração que nos esforçamos por cultivar lá, por isso elas ficam um pouco despaisadas em certas cidades da Europa, onde o reino do espírito é tão poderoso".  
Pedindo licença, se retirou. Sobre isso ela escreveu: 
"A maior parte das altas personalidades que formam a corte de Pio IX não lhe assemelham em nada. Eu não poderia, portanto, ser contida pela veneração, em meu justo desejo de fazer compreender a uma dentre elas que não cabe ao clero de Roma censurar o Brasil, nem ao de qualquer nação que seja, relativamente aos costumes. Destarte, não foi somente um sentimento de nacionalidade, mas também um dever de justiça, que me fez vencer minha natural relutância em ferir quem quer que seja". 
As palavras acima são de uma ética incrível, mas o mais curioso é a maneira elegante como ela critica a corte Papal. Se a dita corte não era em nada semelhante ao Papa (que para ela era um religioso exemplar), fica subentendido o que ela pensava inclusive sobre os religiosos que a abordaram. Vendo isso é possível nos reportarmos ao seu "Um Passeio ao Aqueduto da Carioca", obra criada para enaltecer o Rio de Janeiro, apresentando-o ao turista. Ela cria um personagem invisível e sai mostrando as belezas cariocas aos turistas fictícios. Então, ao passar defronte a um mosteiro de freiras enclausuradas, ela as critica, julgando ser muito mais proveitoso as freiras estarem cuidando de doentes num hospital, ou dando assistência aos necessitados, ao invés de jazerem trancadas. E ela fala com propriedade, pois durante a epidemia de febre amarela, no RJ, ela se tornou uma espécie de enfermeira, tendo largado o empreendimento só quando a peste acabou. Quando Nísia critica os religiosos que encontrou no Vaticano, inclusive a Corte Papal, o fez porque ela esperava mais humildade e vivência concreta do Evangelho por parte dos mesmos. Ali ela viu uma vida nababesca. E essa vida de fausto experimentada também no Brasil, recebia fortes críticas dessa brasileira da Vila Imperial de Papari.  
"O fausto da corte Papal choca todos os espíritos versados nas sagradas lições do Evangelho", escreveu Nísia.  

Há muitas críticas à Igreja Católica em suas obras. Mas mesmo assim ela não deu cabimento aos religiosos que denegriram o clero brasileiro. Ela não se juntou a eles, mesmo sabendo que eles não deixavam de falar a verdade, fazendo questão de dizer que a verdade brasileira era a mesma verdade que também acontecia no próprio Vaticano. Para Nísia Floresta, o clero deveria estar mais presente na vida da periferia. Ela entendia que Jesus literalmente andava junto aos pobres e acolhia os marginalizados. Suponho que ela almejava aos padres uma prática semelhante aquela que o famoso padre potiguar João Maria vivenciava aqui em Natal no final do século XIX. OBS. Ela não conheceu o citado padre. Interessante disso tudo é que se passaram mais de cem anos, e os padres atuais iniciam suas vidas religiosas adotados por madrinhas ricas nos próprios seminários. Ai invés de calçarem um chinelo e irem para as favelas e periferias pisarem em cocô de menino faminto e enfiar os pés na lama que escorrem dos lares cheios de carências. Ao invés de se envolverem com aqueles que de fato precisam de ajuda espiritual e material, vão para os shoppings com perfumes caros, camisas de linho, celulares de última geração, perfumes de grife e outras vaidades que nem em seus lares originais tiveram. O que diria, hoje, Nísia Floresta? Ou, simplesmente, o que diria Dom Eugênio Salles, autor do projeto "Movimento de Natal", que deu origem a inúmeros projetos sociais atrelados ao Evangelho? Nísia Floresta era católica, mas não era boba. Ela começava a enxergar os problemas a partir da cegueira da própria igreja. Ainda no Vaticano ela chocou-se com as contradições que viu a partir das imediações do Vaticano, onde perfilavam mendigos esfomeados, clamando a piedade alheia. Leitora voraz, Nísia Floresta lia tudo. Conhecia a Bíblia Sagrada na palma da mão. Ela narra as histórias dos santos com a propriedade de quem os tivesse conhecido. Assim ela compara situações experimentadas por santos com histórias de heróis da História Universal, fatos do seu cotidiano, etc. Seus raciocínios vão longe, às custas de um entendimento de mundo excepcional, fruto de incontáveis leituras. Sobretudo, Nísia Floresta sempre se preocupou em trabalhar os fatos com uma visão nua e crua. Tinha aversão aos famosos diários de viagem europeus que deturpavam o Brasil. E, no Brasil, enquanto os escritores, ditos indianistas, descortinavam na Literatura um índio idealizado, fictício, alegorizado, Nísia Floresta rasgava a voz no seu "A lágrima de um Caeté", mostrando um índio derrotado e sem identidade, que não sabia se era selvagem ou civilizado. Ela denunciou a situação de dilapidação da cultura dos povos indígenas há quase 200 anos. Imagine hoje. É por isso que defendo o entendimento de que Nísia Floresta, apesar de não ser assim reconhecida nos livros de Literatura Brasileira, foi a primeira indianista brasileira, e mais: foi a primeira indigenista do Brasil. Antes dela ninguém escreveu uma linha com a mesma propriedade. Vale ressaltar que "A lágrima de um Caeté" trata dois temas. O outro é a Revolução Praieira, mas isso fica para outro momento...

Psicografite (poema)




PSICOGRAFITE... (poema)
 
Parece que havia setembro naquela temporada…
Sei que era época pertinente a flores.
O passario comandava a copa das árvores,
Entonces escorriam palavras dos meus grafites,
E tudo se acomodava àquelas linhas...
Centos de animais alados bichavam as frutas,
Cigarras trincavam seus vidros na imensidão das matas…
O borbulhar da sinfonia ecoava nas águas pardas do sinuoso Paraguai.
Cumplicidade absoluta de bichos e águas, de árvores e bichos,
Tudo arquitetava poesia naqueles ermos…
E lá estava o grafite incorporando palavras,
Dialogando o idioma dos seres mateiros,
Psicografitando os espíritos do Pantanal,
Disfarçando-se a poemas…
É assim a alma escorrida naqueles rincões,
Elas só incorporam quem tem parte com palavras…
Quem não tem, parte…
E deixa as linhas vazias de poemas,
Orfãs escorreitas em meio a tanta maternidade…
(L.C.Freire 6.1.18)

terça-feira, 17 de março de 2020

Escolas cívico-militares: bonitinhas, mas: "Ordinário, marche!

ESCOLA CÍVICO MILITAR É UM GRANDE ATRASO 
 
Dia desses, escrevendo sobre a escola cívico-militar, observei algumas pessoas com dificuldade de interpretação do texto. Elas me fizeram reflexões, de modo que eu tivesse que explicar o que elas haviam interpretado, e não o que eu havia escrito. Achei impressionante. Hoje, trazendo novas reflexões sobre o tema, procuro ser o máximo didático, evitando que palavras sejam colocadas na minha boca. O título é proposital, para checar mesmo a interpretação de alguns leitores…
 
Sou contra a escola cívico-militar. Não sou contra militares. Respeito-os como respeito os médicos, artistas, garis, os desempregados etc. Entendo o caso de pessoas sem informações, e que são a favor desse novo modelo escolar, mas ficaria perplexo se visse um professor civil favorável ao militarismo na escola, pois perceberia que ele se curvou a um equívoco, negou o seu próprio juramento docente, e faltou-lhe a aura de educador. Eu não diria um educador de verdade, mas um educador jamais aplaudirá militares no lugar do professor civil. Não somos país em regime de ditadura para militarizar os jovens. Não temos histórico de amores bélicos. Não admiramos Ustra. Não há necessidade dessa militarização. Há necessidade de medidas pontuais, por exemplo:
 
1) aumentar o PIB para a Educação;
2) aumentar o número de universidades em regiões isoladas;
3) aumentar o número de escolas técnicas federais no Brasil;
4) investir fortemente na qualificação contínua dos professores federais, estaduais e municipais;
5) investir fortemente na estruturação das universidades, escolas técnicas federais, escolas de ensino fundamental, médio e infantil;
6) garantir que no primeiro dia de aula TODOS os alunos das escolas de ensino fundamental, médio e infantil, tenham em mãos TODOS os livros didáticos;
7) garantir BIBLIOTECA DE VERDADE nas escolas;
investir fortemente em políticas públicas de educação, saúde, segurança pública, locomoção, lazer, esporte, entretenimento etc;
9) investir fortemente no combate à pobreza.
10) garantir cidadania e políticas públicas nos bairros para alunos e pais.
 
Essas políticas públicas permitem que crianças e jovens tenham educação e intelectualidade fortalecidas. Elas irão para a escola tratando com respeito os professores e qualquer pessoa.
 DETALHE: sem serem soldadinhos de chumbo. Essas medidas permitiriam famílias estruturadas, pois os alunos de fato se graduariam com condições intelectuais de avançar, ter emprego, melhorar a vida dos pais e se unir a outros cidadãos na construção contínua de uma nação evoluída. PARTE dessas medidas foi iniciada no final do governo de FHC, perpassou por Lula e Dilma, mas sofrem reduções e extinção no governo atual que está desmontando tudo.
 
Na realidade, os resultados concretos das medidas acima só fecharão o círculo após cinqüenta anos de efetivação, sendo que em vinte anos a sociedade sentiria os reflexos. É projeto para vários governos, pois é impossível a sua realização em quatro ou oito anos. Só um país sério, e com patriotas na prática – e não apenas nos discursos – daria essa guinada.
Alguns pensarão: por que não fizeram desde que surgiram as escolas públicas? Não sei. A dívida é secular. Por que não construíram nesses cem anos e se chegou ao atual estado? Criança cujos pais contam com serviços públicos de qualidade, que recebe educação libertária, torna-se homem e profissional altruísta. Ela conhece limites através dos pais (não dos professores), será autoridade idônea, saberá com clareza discernir certo e errado. Pobreza não justifica marginalidade. Há muitas famílias pobres de Jó que educam os filhos como príncipes, que se desdobram e protagonizam fatos impactantes, mas não é generalizado. Pobreza expõe e fragiliza mais.
 
Dia desses assisti a um vídeo no qual um pai bem apessoado entra numa grande farmácia com o filho, entretém o farmacêutico, enquanto a criança de NOVE ANOS furta todo o dinheiro do caixa. Se ambos tivessem a devida educação, não praticariam contravenção. Só a educação transforma o homem num cidadão de bem. Há exceções negativas, mas são casos isolados.
 
Reconheço a organização das escolas militares. Mas também reconheço a organização de muitas escolas públicas civis, mas vale salientar, que a escola militar recebe incomparavelmente muito mais recursos financeiros. Questiono o desvio do militar para a escola civil. Não é essa a necessidade do Brasil. Precisamos das medidas acima enumeradas, dentre outras ações pertinentes. Se as famílias marginalizadas, cujos filhos apresentam problemas na escola, fossem tratadas com dignidade pelo Estado, se tivessem os auxílios que têm os políticos e magistrados, com certeza educariam corretamente os filhos. Os professores não estariam sobrecarregados, substituindo pai e mãe, dando educação de berço aos filhos alheios.
 
Quando, espontaneamente, um jovem escolhe uma escola especificamente militar – é um direito dele seguir as escolas das Forças Armadas (Marinha, Aeronáutica, Exército, Polícia Militar). Mas transformar as escolas civis em espaço cívico-militar por força da opinião geniosa de um presidente que faz mal juízo dos educadores civis, é puro equívoco. A perseguição é tão óbvia que ele investirá pesado nessa ideia de militarizar a escola civil para, de fato, obter “bom resultado”, “provando” que ela é “melhor” que a educação civil.
 
O leitor poderá pensar “mas se eles investem muito mais dinheiro na escola militar, será bom que as escolas civis sejam militarizadas”. Não é bem assim. A destinação de verbas para as escolas secularmente militares é muito diferente de, por exemplo, militarizar uma escolinha civil em sua cidade interiorana. Não compare o que vai de dinheiro para o ITA com o que iria de dinheiro para a Escola Professor Zuza, aqui em Natal, por exemplo (acaso ela fosse militarizada). Os dispositivos são diferentes. É outra história. 
 
A educação militarizada jamais será completa como a Educação civil (explico abaixo). Por que o Governo Federal não investe dignamente na escola civil? Conheço incontáveis escolas civis, públicas, que, quase sem recursos, conquistam sucessivas vezes o primeiro lugar no IDEB. Os IFRN’s estão dando um show no aspecto de avanços intelectuais dos alunos.
Imagine se as escolas civis recebessem os mesmos investimentos das escolas cívico-militares? Com certeza seriam instituições incomparavelmente formidáveis. Mas é uma questão pessoal. Cismaram com Paulo Freire. Escolheram Ustra! A linha da educação militar é diferente, nem tanto pela organização e respeito, mas a essência, os conteúdos, os métodos. Leiam esse magnífico texto e entenderão melhor. a essência é a mesma: https://medium.com/.../a-hipervaloriza%C3%A7%C3%A3o-do...
 
Você sabia que os livros didáticos chegam às escolas baseados no senso escolar do ano anterior? Por isso nunca são suficientes para todos os alunos, pois a cada ano aumenta o número de alunos. Sabia que boa parte dos livros didáticos chega atrasado às escolas? Isso é gravíssimo. A culpa é dos governos. Mas a sociedade, equivocada, culpa escolas e professores. Pobres vítimas.
 
A sociedade tem a mania de supervalorizar o que é belo por fora e por dentro é pão bolorento, e o que os reclames anunciam: a fruta viçosa (mesmo que por dentro tenha gosto desenxabido), a caixa de fósforo acusando 100 palitos, mas com 70 palitos de fato. É mais ou menos isso que acontece com a aparência da escola cívico-militar. Estética bonita pelas fardas muito bem desenhadas, cabelos e sapatos impecáveis. Alguns acharão o máximo. Mas em termos intelectuais, há um déficit grande. 
 
Para quem tem dificuldade de interpretação de texto, esclareço que não falo em déficit no aspecto de inteligência, moral, caráter, mas déficit na profusão de sua intelectualidade. Os alunos das escolas cívico-militares não experimentam a mesma grandeza da escola civil pública: a plenitude das Humanidades sem pecar nas Exatas, não há áreas do conhecimento censuradas ou ignoradas. Não há perfis humanos discriminados. Nos ambientes educacionais civis públicos as regras são deliberadas, construídas. Há liberdade. Se algumas falham, o fazem por força do sistema falho. Mas a busca pelo conhecimento supremo e plural é contínua.
 
A escola civil permite ao aluno discutir os temas atuais sem censura; estudar e produzir todas as vertentes da Arte; estudar Política, Filosofia, Sociologia, Antropologia etc; experimentar os ensinamentos de incontáveis pensadores da Educação (inclusive Paulo Freire) e outros filósofos da Educação; não aquiescer à imposições que ferem culturas. Isso não tem preço, pois fecha o círculo da formação intelectual. A escola civil, além de oferecer as disciplinas das escolas cívico-militares, com exceção às específicas militares, oferece todas as disciplinas das áreas humanas, sem imposição e limitação, sem coerção, sem impor medo, sem ameaçar com agressões físicas, afogamento, sofrimentos diversos. É uma formação completa. Por tal razão observo que a educação na escola cívico-militar jamais será plena.
 
Na escola cívico-militar, um jovem afro-descendente, por exemplo, deverá cortar o cabelo rastafári para usar o quepe. A garota de cabelo azul deverá “destingi-lo” para usar “coque” e quepe. O cabelo rastafári ou azul jamais impediriam o aluno de aprender. Como fica o respeito à cultura de raiz africana e a liberdade da escolha da cor do cabelo? Regra e respeito entram em conflito quando a regra desrespeita a cultura. A escola civil respeita todas as culturas: nela entram os alunos de cabelos coloridos, tatuados, com rastafári, enfim não se pratica a exclusão, pois uma pessoa não é má ou marginal por ter esse visual. Observo que querem doutrinar os jovens antes de chegarem às universidades. Por que não tentam militarizar as universidades! São estratégicos! Experimentem!
 
Priorizam patriotismo como se patriotismo traduzisse idoneidade inquestionável. Há patriotas na cadeia. Há patriotas agredindo ciganos, nordestinos, judeus, gueis, lésbicas, negros etc. O próprio presidente da república, que proclama o patriotismo diariamente, planejou atos de terrorismo no Exército, planejou explodir o prédio das Agulhas Negras, uma adutora carioca e outros espaços públicos. Imagine um aluno dele, hoje, explodindo uma escola! Patriotismo é conteúdo da disciplina de Ética e Cidadania, assim como Física, Arte, Geografia etc. Não é algo extraordinário. Extraordinário é o que já expus nas medidas acima. Patriotismo não se resume à palavra, mas à prática. O presidente não é patriota nem no discurso, pois discurso que enaltece torturador é criminoso. Um presidente que diz “caguei” diante de um monte de autoridade não pode afirmar que a escola militar é melhor que a civil.
 
As Forças Armadas não têm a procuração do patriotismo nem do respeito para sentenciar que a escola cívico-militar é a solução para os problemas atuais. Há mais de cem anos os alunos entoam hinos cívicos e hasteiam bandeiras com naturalidade. Não se deve julgar a escola pública civil tendo como parâmetro fatos isolados, despertando na sociedade a ideia de que o professor civil fracassou. Isso é injusto.
 
Que história é essa de que a nação carece de disciplina militar? Parte da sociedade pode até necessitar de disciplina. Mas DISCIPLINA, e não DISCIPLINA MILITAR. Disciplina não é patrimônio militar. A sociedade é feita de famílias, as quais – salvo as devidas exceções – não disciplinam os filhos. O assunto é complexo e relativo. Há, inclusive, militares de todas as vertentes que não disciplinam os próprios filhos também. A internet está repleta de casos. Isso traduz um problema social/humano. A solução está na Educação, e nos tópicos enumerados acima.
 
Famílias que se encontram em situação de fragilidade, gerando filhos problemáticos nas escolas, salvas as exceções, predominantemente são de origens pobres, diferentes das famílias ricas. Famílias pobres estão sem moradia digna, sem emprego, sem saúde, sem educação, sem lazer, sem segurança, sem entretenimento etc. Elas perderam a capacidade de educar os seus filhos. O problema escorreu para o colo dos professores. Hoje o sistema ignora isso e produz “fake news”, crucificando a imagem do professor.
 
O resultado dessas escolas – que não são todas – onde o professor virou pai, mãe e professor, implica nos resultados cognitivos deficientes. Os alunos não aprendem satisfatoriamente. Há muitas escolas públicas que, pelas mãos dos educadores, são modelos. Isso exige esforços hercúleos. Não era para ser assim, pois a construção do conhecimento deve acontecer com serenidade, paz, fraternidade, amorosidade, como nos ensina Paulo Freire e outros pensadores da Educação. 
 
Há uma mania atual de alegarem baderna instalada nas escolas públicas civis – como se generalizada – mas a baderna veio de casa, salvas as exceções. A escola é o “quarto de despejo das família”. A disciplina que faltou em casa foi repassada para a escola, como se os professores tivessem parido alunos mal educados, portanto obrigados a educá-los. Os pais perderam a moral para os filhos que os dominam, então eles querem que os professores lhes deem educação de berço.
 
O ‘povão’ deve lutar por uma escola pública-civil de qualidade. Jamais aplaudir a escola cívico-militar limitadora da intelectualidade dos jovens. A sociedade, formada por pais, mães, avós, tios etc são as pobres vítimas desse fake news. As escolas civis com maiores problemas são assim por culpa da ineficiência governamental. Hoje, parte dessa sociedade ouve a propaganda da escola cívico-militar e se aquiesce aos equívocos, despercebendo que a mesma não constrói uma educação libertária, forte, altruísta, intensa, mas exclusiva e segregacionista.
 
Parte da sociedade – hipócrita – está assustada, culpando a escola e o professor. Ora! Os professores que apanham de alunos – não generalizando – apanham porque em casa eles batem nos pais. Em algumas escolas ocorre o tráfico de drogas. Crucificam os educandários como se eles gerassem o problema. O aluno traficante já o faz em sua própria casa. Algumas escolas se tornam a extensão do tráfico. Muitos pais nem sabem, outros fingem com medo de apanhar desses filhos. Mas quase todos culpam escola e professor. Ignoram que o problema está no sistema. Na realidade, a família é só mais uma vítima. E por falar em tráfico de drogas, lembram do avião presidencial com 39 kg de cocaína pura? Vejam a eficiência militar. Quem é perfeito, deve provar que é perfeito.
 
Ninguém precisa de militarização escolar. Precisa-se de educação plena, cidadania, civilidade, comida, emprego, lazer etc. Os militares poderão até disciplinar as escolas antes civis, mas disciplinar dentro da exclusão. O aluno que denominam de “bandido”, vai abandonar a escola e ampliar o tráfico e a violência em torno da escola e dos bairros. O aluno que não comunga com o estilo militar, não necessariamente o chamado “bandido”, vai evadir. Alunos gueis, lésbicas e trans sequer entrarão na cívico-militar. E nem devem. Não era para o governo estar investindo na Educação sob as suas novas faces? Não era para o governo estar investindo em saúde pública, não era para o governo estar investindo em prevenção feita pelos próprios militares em outras repartições?
 
Alegam que o bullying está acabando com as escolas. Alunos praticantes de bullying tiveram má formação educacional, ética em casa. Quem pratica bullying acha-se superior aos outros. Acha-se rico, por isso humilha o pobre; acha-se mais bonito, portanto humilha o “feio”; é mais popular, portanto humilha o tímido; usa roupas de grife, portanto exclui os que se vestem com simplicidade; vai à escola de carro, portanto discrimina quem vai a pé.
 
De onde vem esse comportamento? De casa! Há praticantes de bullying com problemas psiquiátricos, psicológicos, em situação de abuso, violência. Eles encontram no bullying uma válvula de escape. Aqui entramos na alçada médica. Onde estão as políticas públicas para essa preocupante situação? Vocês acham que militares irão resolver isso? Pelo contrário! Irão traumatizar ainda mais. Ninguém está precisando de ameaças, de medo, de gritos, de ordens estúpidas. Está-se precisando de educação e respeito. E isso não é propriedade militar, como se lê em tantos exemplos expostos aqui mesmo.
 
Há quem sentencie que se não precisássemos de escola cívico-militar, que antes os civis tivessem realizado medidas disciplinares nas escolas. Quem disse que não realizaram? Mas não é esse o problema. O problema se resolveria se efetivassem os tópicos acima elencados. Não são escolas que criam políticas públicas. São governos. Alegam que há anos as escolas e professores negligenciam o problema. É equivocado, pois a imagem ruim de ALGUMAS ESCOLAS civis públicas não surgiu no ano passado. É antiga. O problema é a falta de investimento e descontinuidade das políticas públicas iniciadas nos governos anteriores, salvas as devidas observações, como expus. Há professor equivocado, como há militar. Mas não é regra.
 
Os governos deveriam investir, obviamente, e com justiça, nos militares e nos professores. Mas cada um no seu quadrado e em harmonia social. Deveria-se investir pesado na estruturação das instituições militares no combate às drogas, ao tráfico e à violência. Os militares devem cuidar das fronteiras no ar, no mar e na terra. Os militares precisam de condições e políticas públicas para trabalhar prevenção diariamente. Polícia qualificada para trabalhar com Inteligência e Prevenção, faz milagres. Mas em seu quadrado.
Mais que armas de fogo, a prevenção desarma a criminalidade lentamente. Essa é uma das tarefas militares. A solução está nas políticas públicas, jamais na militarização de escola civil. Só com esse investimento maciço terá-se homens e mulheres fortes honrados, cidadãos plenos, país promissor. Escola cívico-militar é atraso. É equívoco. É caminhar para o passado que já se conhece. 
 
O que temos, hoje, na realidade, é um presidente ignorante, mal educado, genioso, que detesta a imagem dos professores, detesta as universidades e os ambientes educacionais. Um louco que age como se estivesse querendo vingar Ustra, vingar Pinochet pelo fracasso de seus regimes de tortura de maldade militar. 
 
Jamais admitiria meu filho ou neto ouvindo: “Ordinário! Marche!” Prefiro que ele ouça: “Não seja ordinário, não marche, mas pense… não tenha medo, leia, lute, e caminhe por todos os caminhos que o levem à liberdade, à justiça, à partilha, ao conhecimento de excelência, à cultura, ao êxito, amor ao próximo e um Brasil que extinga equivocados patriotas… voe…voe”. 
(Atualizado dia 24.10.2021)

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

MEMÓRIA DE PARANÁ-MIRIM – 1942-1946... A PROIBIÇÃO DE PRETOS NA BASE AÉREA.


MEMÓRIA DE PARANÁ-MIRIM – 1942-1946...
A PROIBIÇÃO DE PRETOS NA BASE AÉREA.
Assim como os norte-americanos se instalaram aos poucos nas plagas de Manoel Machado, dando a origem à Base Leste, encostada à Base Oeste (dos brasileiros), o mesmo ocorreu durante a partida de volta aos Estados Unidos. Devagarinho eles foram embora, levando diversos pertences.
Os americanos chegaram em Natal em 1942 e foram em 1946. A Base Aérea montada pelos americanos é usada até hoje. A instalação da maior Base militar norte-americana fora dos EUA ocorreu em Natal, mais precisamente entre 7 de julho (data oficial do início das atividades) e 1946, ano ao longo do qual os norte-americanos foram deixando gradativamente a base administrada só por brasileiros.
Chegaram a pernoitar na base 22.000 homens e o movimento diário de aviões era em torno de 500 a 700. Os americanos chegaram em Natal em 1942 e foram em 1946. Deixaram mais de 700 galpões, grande quantidade de Jipes, armas e munições.
A História muitas vezes se prende aos fatos maiores, preocupando-se com começo, meio e fim, sem destaque a detalhes, muito embora eles possam significar uma história muito maior. Principalmente quando as minúcias ferem a ética e a lei. É exatamente sobre isso que comentarei abaixo. Trata-se de uma página meio esquecida na História dos norte-americanos durante s Segunda Guerra Mundial, e que aconteceu nessa plagas.
Durante os preparativos para referido projeto, apareceu um imbróglio complicado, principalmente aos olhos do século XXI. Houve a necessidade de que o pessoal da 194th Quarter-Master Truck Company fosse enviado ao Brasil para diversas demandas.
Com o fim da Guerra, vários despachos e demandas aconteceram paulatinamente. Surgiu o Projeto Verde (Geen Project), um programa de transporte que levava o pessoal norte-americano de volta aos Estados Unidos.
Ocorre que todos os membros da companhia 194th Quarter-Master Truck Company (soldados, oficiais, funcionários comuns, corpo técnico etc) eram de cor preta. Por aqui não existiam pretos. Pelo menos não se viam militares brasileiros nessa cor. A Marinha americana disponibilizou marinheiros negros no Brasil, mas nem o ATC nem o Quartel-General importou-se em servir-se de seus trabalhos. A partir dessa observação, suspeitaram que o general Walsh tinha feito acordo com as autoridades brasileiras para não trazer soldados pretos para o Brasil. Teria sido um pedido de Vargas? Não se sabe.
Diante disso o chefe da Divisão de Pessoal enviou documento ao Quartel-General do ATC orientando o unicamente o envio do equipamento necessário, mas que não viesse o pessoal da Divisão, ou seja, que não viessem profissionais pretos.
Certamente para que não ficasse feio e muito notório, criaram uma série de justificativas com relação a tal proibição. Enfim, proibiram a vinda de soldados pretos para o Nordeste do Brasil, cujos argumentos foram, aparentemente, considerados favoráveis, pois posteriormente comunicaram que o equipamento seria enviado, mas sem militares pretos.