ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Caso "José Carlos " - Natal/RN.

 


Há pouco mais de um mês um menino de 8 anos desapareceu de casa após sair para levar um lanche para os irmãos que vendiam água mineral num ponto de semáforo. Local ermo, permeado de dunas, cajueiros, coqueiros e arbustos. Uma casa aqui, outra ali. José Carlos era miúdo demais para ser enxergado. Era nativo - pobre de Jó -, portanto invisível. Mas para o (a) assassino (a), José Carlos era tão visível como o alvo para um atirador. Então o interceptaram e o arrastaram para um trecho com cajueiros espraiados, cujos galhos, tais quais braços monstruosos, se fizeram de toca para algo muito estúpido.
A família, desesperada, juntamente com vizinhos, amarguraram quase um mês numa agonia sem tamanho, pois mesmo invisível, os invisíveis sentem as dores dos vizinhos principalmente em algo tão grave. José Carlos era uma criança diferente. A vida sofrida o tornou um minúsculo homenzinho que parava para conversar com pessoas adultas, com homens trabalhando em alguma obra, enfim ele se destoava pelo comportamento adultizado.
A Polícia Militar andou por ali juntamente com a Polícia Civil, a vizinhança empreendeu uma devassa na região, mas nada de José Carlos. As buscas se acanharam, o povo se revoltou com a falta de ação do estado, chamou a imprensa, então reapareceram bombeiros e novamente a polícia retomou as buscas. Veio até bombeiros da Paraíba e dois cachorros adestrados: um localiza pessoas pelo cheiro no raio de 1 km, a partir de algum objeto pessoal do desaparecido, o outro, localiza corpos em estado de putrefação enterrado até sete metros de profundidade. Esses animais participaram das buscas no soterramento de Brumadinho. Nada! José Carlos evaporou. As buscas se aquietaram novamente, mas em todos esses estágios a Polícia Civil seguiu suas investigações.
Assim que as buscas se encerraram, catadores de castanha perceberam um odor putrefato debaixo de um cajueiro que - pasmem -, é vereda onde transitam os moradores dali. Era o Corpo de José Carlos. Surgiram suposições: o corpo foi enterrado ali no ato do crime ou posto depois das buscas? A cova rasa fica ao lado de passagem constante de moradores locais, então por que ninguém viu nada? Por que o cachorro adestrado para localizar cheiros putrefatos não detectou uma cova tão rasa, se o corpinho da criança, naquele ponto da busca, já estava decomposto?
O povo se desesperou. Imediatamente o delegado apareceu para explicar que o cachorro que localiza buscas de material em decomposição não andou por ali, mas apenas o outro (que localiza cheiro humano, de pessoas vivas), portanto, como não é a especialidade dele, a cova não foi localizada. Então surgiram outras perguntas: por que não dispuseram o animal correto para tais buscas, se numa situação dessas supunham-se que José Carlos poderia ter sido enterrado por ali? Isso ninguém respondeu. Se foi um deslize das autoridades, pressa ou o quer que seja, quem encontrou José Carlos - embora morto, foi o próprio povo da localidade que em nenhum momento se aquietou.
Embora a família - em especial a mãe -, se encontre destroçada pela dor, no curso de toda essa história, ela também nunca se aquietou, e esteve adiante das buscas ao lado do marido - padrasto de José Carlos e familiares. Uma mulher miúda, cuja face envelhecida é um outdoor anunciando se tratar de gente sofrida, submetida a todo tipo de mazela social… gente invisível. Mas nesse transcorrer, começaram a surgir hipóteses inadmissíveis de que a própria mãe, o padrasto e agora - até um irmão -, podem ter participação nesse monstruoso fato. É exatamente esse ponto que me incomoda. Vejam...
É muito compreensível as hipóteses concernentes às buscas, afinal somos um país com alto número de crianças que desaparecem como água evaporada. Nunca mais surge a menor pista. Portanto, houve suposições de que José Carlos havia sido roubado por alguém interessado em criar uma criança, outros, alimentavam a ideia de terem-no raptado para vendê-lo para retirada de órgãos, e até casos de magia negra. Ninguém pode conter a imaginação humana. Mas um detalhe é importante: como pessoas civilizadas, não podemos analisar outros casos tendo como parâmetro episódio de José Carlos. Uma coisa não justifica a outra. Há muita gente perversa, mas não podemos entender que todos são iguais. Ninguém pode julgar a última possibilidade como verdadeira como estão fazendo. Achar que foi a família é algo extremo. Não cabe a ninguém escrever isso nas redes sociais.
A vida dessa família piorou. Eles estão passando ainda mais necessidades, pois já não conseguem mais trabalhar. Estão presos na própria casa, porque onde passam ouvem acusações, ou percebem comportamentos diferenciados por parte do povo. Todos querem explicações para esse caso, mas nada justifica o que pode ser terrível calúnia. Há pouco tempo mataram uma mulher em Recife por um caso parecido. Depois descobriram o verdadeiro criminoso. Não cabe a ninguém a crucificação dessa família. Nas redes sociais há mais quem condene do que cobre da polícia uma investigação mais eficaz. É óbvio que, se fosse o filho de algum senador, deputado federal, prefeito ou vereador, todos esforços estariam sendo empreendidos, e de forma espetaculosa junto à imprensa. Mas quem é José Carlos? Se formos analisar profundamente, José Carlos nunca existiu.
É fácil supor que o (a) assassino (a) pode ser pessoa próxima, pois o corpo foi encontrado próximo da casa de muitos vizinhos. Mas não é civilizado achar que pela polícia entender que foi alguém próximo, pode ser um familiar. Eles dizem próximo no sentido de vizinhança. De repente o (a) assassino (a) nem é do bairro. Fez isso ao passar por ali. Ou raptou a criança, causou-lhe o mal e depois foi ali enterrá-lo. Há psicopatas para tudo. É necessário que todos tenham cuidado com o óbvio.
O que cabe a todos é cobrar investigações mais rigorosas. Cabe ao povo ir para as ruas novamente, procurar a Câmara de Vereadores, a Assembleia Legislativa e clamar pela resposta, ao invés de matar quem já está quase morto. É muito perigoso condenar uma família. Como já expliquei, o caso dessa criança me comove muito, pois é incompreensivelmente cruel matar a infância. Quase um bebê cheio de inocência. Sabe-se lá artimanha do (a) autor (a) do crime! Como esse menino aquiesceu a abordagem do (a) criminoso (a)? Somente a inocência explica isso. É por tal motivo que ninguém deve se esquecer desse crime. Julgar a família é outro crime. Eu tenho um filho adulto, e quando me transporto para os 8 anos dele, sei quanta pureza existe nessa idade, portanto me coloco com facilidade no lugar da família de José Carlos. É o que consigo fazer. Esperem. Cobrem. A verdade aparecerá e cabe à Justiça as providências pertinentes.

 

Lugar de Fala ou Alteridade...

 LUGAR DE FALA OU ALTERIDADE...

Reconhecer o racismo sendo branco e combatê-lo é obrigação republicana, o que é diferente de um branco tentar protagonizar a luta de um preto contra o racismo estrutural. Outro exemplo é um homem reconhecer a importância do feminismo e contribuir na politização, outra coisa é tentar ser protagonista de uma luta política das mulheres. A luta anti-racista é, historicamente protagonizada pela luta do movimento negro, uma luta pública, que envolve também o papel do branco, não só no seu papel de politização, mas também como um parceiro de luta.
Há alguns dias atrás, ao defender um cidadão vitimado pelo preconceito racial, um leitor questionou porque eu fazia a defesa com tanta profusão, se nem preto era, alegando que eu não poderia sentir aquela dor e que deveria me calar. Deveria eu ficar mesmo calado diante de um abuso claro? Confesso que nem me ative à exigência do rapaz, porque, analisando friamente, não posso mesmo sofrer a mesma dor de um preto que vive num país de racistas falastrões, mas posso me indignar e colocar a boca no trombone e evidenciar o meu protesto. O sofrimento é uma característica psíquica do ser humano, que é um ser social. A dor pode ser um sentimento social, como aponta o filósofo Axel Honneth ao debater com a filósofa Judith Butler.
A atitude desse jovem me transportou para um fato bastante curioso no tocante a um novo modismo conceitual no meio intelectual pequeno-burguês, transplantado dos liberais identitários estadunidenses, chamado “lugar de fala”, aqui no Brasil assinado majoritariamente pela filósofa Djamila Ribeiro e usado vulgarmente como “expressão do momento”, tanto como argumento essencialista de legitimidade de argumentação.
Mas por que “essencialista”? Antes de explicar, me vem à cabeça o exemplo de “representatividade” do ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Obama, somente em 2016, coordenou o ataque a bomba, totalizando mais de 26 mil bombardeios em países soberanos, matando dezenas de milhares de civis inocentes, crianças doentes, mulheres grávidas e estudantes. Obama é concebido como um colosso do progressismo mundial, endeusado pela esquerda brasileira, e por muitos, a cor de Obama é sinal de representatividade. Mas que tipo de representatividade imperialista é essa, que bombardeia e sequestra países?
É óbvio que a cor preta, não só nos Estados Unidos, mas no Brasil, foi subjugada pelos grilhões da escravidão, fisicamente e moralmente. O Brasil é um país racista, e ainda estamos engatinhando quando se trata de debater o epistemicídio, e o genocídio da população preta. Possuir representação preta é importantíssimo, mas como sempre pontua a filósofa preta estadunidense Angela Davis, o debate na democracia não se finda na representatividade, mas na consciência de classe.
E o que tem o conceito de “lugar de fala” com isso? Quando vulgarizado, esse conceito acaba por desenvolver uma barreira essencialista ao sentimento da alteridade. É como precisar possuir uma essência e uma vivência para exercer a potência do discurso e do sentimento, não a possuindo, o sujeito que exerce o discurso está fadado a ficar calado. É como escutei de uma amiga preta estudiosa da obra de Lélia Gonzalez, não adianta criar ferramentas disciplinares se o debate sobre raça e classe serão sempre debates públicos que abrangem todos os seres de nossa sociedade brasileira e as micro-relações de poder.
Um dos problemas mais centrais do cotidiano brasileiro, da tomada de decisão política e do nosso viver é a ausência e a dificuldade da ALTERIDADE. Alteridade é a capacidade humana de reconhecer no outro a si próprio, de se colocar no lugar do outro, esse outro que pode ser qualquer um; é reconhecer o outro como dotado de direitos humanos inalienáveis e intransferíveis. A alteridade é perigosa ao estado policialesco do capitalismo, que exige dos sujeitos esse sentimento de raiva e ódio pelas diferenças do outro, pela classe social, pelo gênero, pela cor, pela etnia.
Eu luto cotidianamente pelo sentimento e pela prática política da alteridade. Sempre entendi que não é necessário que eu passe fome para saber o que é essa desgraça  e me indignar com a condição desumana de um faminto. Não preciso ter nascido numa aldeia indígena para conhecer seus plurais problemas herdados do genocídio colonial,  como a fome, preconceito, falta de acesso às políticas públicas. Não preciso ser um escorraçado humano, um degradado do capitalismo, um viciado da Cracolândia para reconhecer o quanto o capitalismo é injusto, perverso e ineficaz.  
Os problemas mundiais pertencem a todos os seres humanos. Se uma mulher é agredida dentro de casa pelo marido, esse é um problema da república, não é assunto privado. Se um negro é morto a pauladas dentro de um supermercado francês, trata-se de um problema público, trata-se de racismo estrutural, e essa estrutura se chama CAPITALISMO. Todos têm lugar no sentido da criticidade. Defender que alguém não pode falar dos problemas que não sofre na pele é o mesmo que propôs a filósofa Hannah Arendt sobre os casos de Little Rock, interpretando que a violência de raça se trata de casos da vida privada, não importando se os negros sofrem de racismo, por ela considerar que violências privadas não são coisas públicas.
É indiscutível que somente quem sofre uma dor sabe o que ela verdadeiramente é. Mas isso não justifica que os outros não possam se reconhecer na pessoa que sofre a dor. O exercício da alteridade é essencial, já esse “lugar de fala” parece descolado da realidade brasileira. Para mim, mais parece um fenômeno vocabular da moda, como foi a expressão  "pertencimento", no inícop da década de 90. Quem não a usasse, não estava na moda, se bem que tais pertencimentos não me pertencem...

Chicuta Nolasco - Memória de Natal - 1954...


 MEMÓRIA DE NATAL - CHICUTA NOLASCO - 1954...

        Em 1954, quando os despojos de Nisia  Floresta chegaram ao Brasil, que aportou no cais de Natal, uma multidão o aguardava, ali mesmo foi executado o Hino Nacional enquanto os despojos deixavam a embarcação. Houve missa no Ginásio Municipal de Esportes em Natal. à ocasião a jornalista e professora D. Chicuta Nolasco Fernandes, então diretora da Escola Normal de Natal, organizou um grupo de alunas para fazer as vezes de "Guarda de Honra" junto ao caixão com os restos mortais de Nísia Floresta. A educadora recebeu muitas críticas devidas ao histórico de conservadorismo da instituição, além de outras autoridades. Alguns natalenses não compreendiam como uma escola com padrão de referência  parava para homenagear uma mulher cuja história era regada à  difamação decorrente da famosa carta-detratora escrita por Isabel Gondim. 

        Adauto da Câmara já havia publicado um belo livro sobre Nísia Floresta, mas a carta de sua conterrânea ainda era muito forte. E  muitas  pessoas pareciam mais estimuladas à fofoca que à verdade. D. Chicuta foi metralhada por críticas,  mas não abriu mão. Ela sabia da importância de sua conterrânea e ignorou os opositores gratuitos, inclusive algumas autoridades. Um dos gestos mais belos ocorridos no RN quando do referido episódio.  

        Para quem não sabe, D.  Chicuta diplomou-se em 1929 e sempre se envolveu em polêmica. Em 1930 foi contratada pelo governo pernambucano para integrar a Comissão de professores para colaborar na reforma "José Escobar". O episódio provocou grande celeuma nos centros educacionais do país. Foi a primeira mulher a exercer o cargo de diretora da Escola Normal de Natal. 

        Essa escola recebeu posteriormente o nome de "Instituto Presidente Kennedy". Também colaborou no jornal A República, escreveu peças teatrais e pertenceu a várias instituições filantrópicas e de outras naturezas em Natal. 

        Ainda tive o prazer de conviver um pouco com Chicuta Nolasco entre 1992 a 1993, quando ela contava com 84/85 anos de idade. Conversamos algumas vezes. Pouco tempo depois desse contato, ela se encantou.  Também conversei muitas tardes com a professora Noilde Ramalho, que também conviveu com Chicuta, a qual me presenteou com "Menina Amarelinha", obra de Chicuta Nolasco. Um primor. E assim vamos montando o quebra-cabeça de histórias encobertas pela poeira da desmemória...

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Por quem os sinos dobraram em 1993?


A história pode ser comparada a uma “baladeira”, ou “estilingue”... a gente precisa puxar o elástico e retroceder o máximo para vir mais forte, adiante, e atingir o objetivo. Visitar o passado, além de ser memória, é fonte de inspiração para crescermos...

Era 1993. Meio dia. Sol a pino. Hora de “ver as almas de Goianinha”, no dizer dos nisiaflorestenses. Instante em que o silêncio e a paz aparecem de mansinho para descansar a “Vila Imperial de Papary”. Horário que antecede a tradicional sesta desde os remotos tempos dos engenhos.

A maioria do povo almoçava. De repente, inusitadamente, no alto do campanário da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, os sinos dobraram soltos nas mãos mestras do senhor “Bambão”, velho sineiro.

Esquisito!

O povo estranhou a singularidade. Ali o sino tem simbologias diversas, portanto o repique soava como um convite festivo, ao estilo das trombetas reais. Mas não era data festiva. Era diferente dos toque de enterro e procissão. Mas diferente seria o que viria em seguida. Parte dos moradores do centro ouvira rumores de que o padre daria uma palavra naquele momento, portanto estavam atentos. Uma música ressoou das cornetas encravadas na parede da matriz. O sacerdote também estava diferente.

De repente silêncio novamente... Surge a voz do padre João Batista Chaves da Rocha. Voz de tenor. Nem parecia ser o jovem sacerdote, chegado ali há pouco. Era uma voz raspada. Ele avisa aos vereadores e ao prefeito George Ney Ferreira que estava se solidarizando com todos os professores da rede municipal de ensino, os quais realizavam a primeira greve da história do município, aos cuidados de seu primeiro presidente, professor João Cordeiro. Os salários eram uma vergonha. Não havia direito algum e o Sindicato dos Professores se rascunhava. A instituição consistia numa semente lançada ao solo de Nísia Floresta naqueles meses. O sacerdote deixou claro que, em nome dos princípios cristãos, se colocava ao lado dos educadores de Nísia Floresta, pois eles postulavam um direito legítimo. Não era privilégio. E ressaltou que a atitude do Poder Público era abusiva.

Os nativos ficaram perplexos! Nunca viram algo parecido. O estalo dos chicotes ainda ecoava. A sombra do pelourinho ainda pairava sobre a cidade, herança que os tornou submissos e passivos, acostumados ao medo e a exploração.

A poucos metros dali, no “Camarão do Olavo”, o prefeito George Ney Ferreira, tal qual um senhor de engenho rodeado de capitães do mato, ouvia atentamente. O mesmo ocorria na Câmara Municipal, com o presidente Adjalman Andrade e vários vereadores e funcionários. A atitude do padre, que não seria tão estranha aos olhos de hoje, foi considerada afrontosa para boa parte dos que estavam no poder, e pelas famílias tradicionais, desconhecedoras ou que ignoravam as transformações que o Brasil experimentava. Nísia Floresta tem uma característica curiosa: boa parte do povo tende a se revoltar com quem traz luz. Muitas preferem a penumbra e até mesmo a escuridão, pois isso permite o escuso. E assim o era a “Vila Imperial de Papary”, que, óbvia e inacreditavelmente, já era chamada pelo nome de Nísia Floresta, mulher a frente de seu tempo.

Adiante da greve – também pioneira - estava o jovem professor João Cordeiro, o qual ensaiava os primeiros passos para o surgimento do SINTE-NÍSIA. A instituição consistia numa semente lançada ao solo nisiaflorestense naqueles meses. A situação dos professores era caótica, os salários eram simbólicos. Não havia direito algum. A greve, sugerida pelo professor João Cordeiro, foi acatada por significativa parte do corpo docente, então efetivado pelo tempo de serviço, pois muitos atuavam como cargo comissionado e temiam ser demitidos. Alguns eram funcionários do estado e não se envolveram. O medo era geral. Medo era a palavra de uso contínuo naquela cidade de então. Um grande apoiador da greve, desde seus bastidores, foi o Ir. Nilton Dourado, diretor da Casa Marista local, prédio da Igreja Matriz, hoje emprestada ao Museu Nísia Floresta. Sua participação intensa foi fundamental para se dar um novo caminho a Educação nisiaflorestense.


Os Maristas tinham uma casa de formação em Nísia Floresta, cujos postulantes se tornavam professores na Escola Municipal Yayá Paiva, onde os grevistas lecionavam. A presença deles foi fundamental na contribuição de mudanças de mentalidade, pois a maioria tinha bom nível intelectual. Eles vinham de diferentes estados do Brasil, com graus de estudos mais elevados e se somaram aos professores nisiaflorestenses no aspecto de novos entendimentos sobre direitos e leis.

Naquele tempo não existia o Fundef. As escolas brasileiras funcionavam em estado ainda mais precário que hoje. Os recursos não eram direcionados diretamente para as escolas, para que o diretor os gerisse. Tudo se dava por intermédio da prefeitura, desde o papel higiênico ao salários dos professores, que era um terço do que é atualmente. O fato de naquele tempo os diretores escolares não serem eleitos pela comunidade escolar, aumentava o poder do prefeito e dos vereadores sobre as escolas. Desse modo uma greve denotava uma espécie de loucura e profundo desrespeito às autoridades locais. Aquilo que escrevi acima: “boa parte do povo tende a se revoltar com quem traz luz”. O Fundef seria criado e 1996 e se efetivaria em 1998, no governo Fernando Henrique. A partir daí as escolas passariam a receber dinheiro direto na escola, cujo diretor geria. O salário dos professores passou a ser pago por outra parcela derivada desse programa.

O Fundef foi criado para definir uma parcela que atendesse especificamente ao ensino fundamental (1ª a 8ª série), através de uma redistribuição dos recursos provenientes de impostos aplicados pelos municípios e Estados. Haveria mais autonomia. Já o FUNDEB (2007), modificano no Governo Lula, não investiria apenas no ensino fundamental, mas também no ensino médio e na educação infantil, além de praticamente multiplicar por dez o aporte de complementação de recursos da União, de menos de 1% para 10%. Só a partir daí haveria uma grande transformação da Educação Brasileira, mas em 1993, a precariedade era geral.

É importante lembrar que o ano de 1993 foi denominado “Ano Internacional dos Povos Indígenas no Mundo”, pela Organização das Nações Unidas. Mandela recebeu o Prêmio Nobel da Paz conferido a Mandela. Nosso Presidente era Itamar Franco, o qual encerraria o seu mandato em 1995, quando viria Fernando Henrique numa gestão que se encerraria em 2002, quando Lula assumiria.


Ainda em 1993 realizou-se um plebiscito sobre a forma de sistema de governo em que funcionaria o Estado Brasileiro. Sepultaram de vez a monarquia e escolheram que o Brasil continuaria a ser uma República Presidencialista. Houve a Chacina da Candelária, no Rio de Janeiro, com 7 pessoas mortas, a Chacina de Vigário Geral, também no Rio de Janeiro, deixando 21 pessoas mortas. Seiscentos garimpeiros brasileiros mataram 30 índios ianomâmis, incluindo dez crianças, e a moeda brasileira passou a Cruzeiro Real (1000 cruzeiros = 1 cruzeiro real). Foi um ano de muitas transformações, inclusive em Nísia Floresta.

Vamos voltar ao detalhe do padre falando ao microfone defronte à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Após o discurso improvisado, o silêncio retomou assento, mas nas casas houve burburinho. O aparelho celular ainda não tinha dado a sua graça no município. O telefone convencional atendia a cidade inteira, guardado num Posto Telefônico. Os nativos se encarregaram de disseminar a notícia por todo o município através do mais antigo meio de comunicação: a boca. Não se falava em outro assunto por onde se andasse. Reforçava-se ali, por parte dos fiéis, o entendimento de que os servos de Deus devem se unir aos que são massacrados, e não aos que massacram. E que somente unidos são fortes, e que essa força deve ser promotora de protestos iguais aquela greve. O povo gostou. O povo de dentro da igreja também gostou.

Nessa época João Paulo II era o Papa, e o Sumo Pontífice se encarregava de dar à Igreja um olhar mais popular. Teologia da Libertação em alta. A cidade com um histórico rico em práticas de justiça e liberdade, com resquícios do famosos “Movimento de Natal” e berço do primeiro gesto concreto da Campanha da Fraternidade. A atitude do padre de Papari encontrou solo fértil e só fechou o círculo.

Ainda em 1993 alunos da Escola Municipal Yayá Paiva ensaiavam a peça Teatral “História de Nísia Floresta”, e se enfronhavam nas ideias de luta por liberdade e justiça, instigados pelos estudos que faziam de textos da intelectual Dionísia Gonçalves Pinto. Tudo convergia para uma semente de mudança. As palavras “justiça”, liberdade”, “civilidade”, “luta por direitos” tomavam o lugar das palavras de massacrar.

Em alvoroço, a Câmara de vereadores se reuniu imediatamente para discutir o assunto concebido por eles como ingerência política do padre. O sacerdote, de representante de Deus, virou representante do diabo nas palavras das “inselênças otoridades”. O presidente da Casa Legislativa dirigiu uma carta cheia de acusações ao arcebispo Dom Alair, que imediatamente convocou o Conselho Presbiterial e mandou chamar o padre João Batista. Diante de uma enorme assembleia o jovem sacerdote expôs os fatos, recebendo apoio do representante máximo da Igreja no estado.

Coincidentemente estavam sendo construídas as primeiras casas populares para serem doadas às famílias carentes, que não tinham como adquirir por via dos seus proventos. O povo realmente carente tomou conhecimento de que ao invés de essas casas serem doadas aos mesmos, seriam entregues aos eleitores do prefeito e dos vereadores. E isso já estava acontecendo. Resultado: invadiram todas as casas, antes que as mesmas recebessem piso e reboco. Houve um fervilhar na cidade. Não havia outro assunto.

O gestor comunicou o fato à Justiça, e através de um Mandado Judicial, deslocou-se um pelotão de policiais militares de Natal para Nísia Floresta. Viriam para desalojar os “invasores”. Imediatamente Dom Jaime, então reitor do Seminário São Pedro, deslocou-se a Nísia Floresta, a pedido do arcebispo. Ao mesmo tempo vieram para as terras paparienses a professora Fátima Bezerra, Presidente do Sinte-Natal, hoje governadora. Já estava no local o Irmão Nilton, diretor da Casa Marista local, que funcionava onde hoje está o Museu Nísia Floresta. Esse irmão também envolvera-se no movimento de greve anteriormente comentado. Sua participação intensa ao lado de João Cordeiro foi fundamental para se dar um novo caminho a Educação nisiaflorestense. A cidade parou. Clima de grande tensão.

Como não poderia ser diferente, estava ali, desde o início, adiante de tudo, o jovem padre João Batista, chamado aquela época “João Coragem”, o qual interviu no contato entre a polícia e o povo, então chamados de “invasores das casas Irã/Iraque” (Durante muito tempo esse conjunto arrastou esse apelido dado pelo próprio povo). Temendo um confronto desleal entre polícia militar e o povo, o sacerdote comunicou que o sensato naquele momento seria que todos deixassem as casas. Uma senhora de 100 anos, pobre de Jó, alegou que não tinha para onde ir. O sacerdote alegou que todos estariam alojados em algum local, nem que fosse dentro da Casa Paroquial, e ninguém ficaria sem o “pão de cada dia”. Então a multidão desvalida, semelhante aos seguidores de Antonio Conselheiro, saíram em procissão, num dos momentos mais emocionantes que se tem notícia nas terras onde o santo-padre João Maria residiu.

Curiosos se somaram ao cortejo, descendo como enxurrada até a porta da Prefeitura Municipal. Naquele mesmo instante alguns fiéis católicos trouxeram comida e o mínimo conforto para que os homens ali se alojassem. Fizeram trempes e prepararam um sopão. As mulheres foram encaminhadas para o Centro Pastoral.

No dia seguinte o padre João Batista foi até a LBA e conseguiu muitas cestas básicas, colchões e cobertores. Foram erguidos barracos de lona e uma bandeira do Brasil foi hasteada no local. Nessa mesma manhã foi montado um sistema de som. O padre conversou com os desalojados e convidou o prefeito a se fazer presente. A Prefeitura funcionou de portas fechadas. Os funcionários entravam pelos fundos. O Prefeito não apareceu. O padre, sabendo que todos os funcionários o ouviam, e que dariam o recado ao gestor, disse que o mais sensato e honesto para aquele momento era fazer uma triagem e se escolher verdadeiramente os sem teto. Orientou que assistentes sociais fizessem uma triagem honesta, ignorando a orientação equivocada de favorecer apenas eleitores do Prefeito. E tudo se encerrou, pelo menos naquela manhã.

Diante da omissão do gestor, Dom Alair mandou para Nísia Floresta o seu bispo auxiliar, Dom Costa. A cidade parou para aguardá-lo. Veio gente de todos os distritos, solidarizados com os desalojados. Foram acolhê-los na entrada da cidade. Bem na frente da casa de Yayá Paiva. O padre João Batista orientou que ninguém usasse veículos públicos, e mesmo assim o povo veio a pé, trazendo nas mãos cartazes, faixas, papelões com frases solidárias.

Foi decidido que o ponto de encontro seria no Porto. Na capelinha, onde Dom Costa crismou alguns jovens. Foi instalado um caminhão em cuja carroceria ele celebrou missa na presença do Padre João Batista e toda a Comunidade Marista residente em Nísia Floresta, dentre irmãos maristas que vieram de Natal. Em seguida o bispo-auxiliar conversou com a multidão que tomou conta das ruas daquele lugarejo. Nos carros mais afastados diversos políticos, secretários e famílias tradicionais contrárias ao movimento, ouviam tudo atentamente, camufladas pelos vidros fumês de seus veículos (aquela história dita acima: “de gostar de penumbra”).

Um dos momentos mais impressionantes e comoventes foi quando o bispo-auxiliar – inesperadamente - disse ao microfone: “SENHOR PREFEITO, VENHA AQUI, AGORA, DIZER O QUE O SENHOR ESTÁ DIZENDO COM O MEU PADRE!” Nesse instante, se caísse uma agulha so chão, teria o mesmo som de um pequeno sino, pois o silêncio era sepulcral. As pessoas se entreolhavam, entendendo as coisas. Dom Costa, seguidos da Teologia da Libertação, era ligado ao movimento dos Sem Terra e Sem Teto. Adepto da “Teologia da Enxada”. Sua fala e coragem não poderiam ser diferentes.

Enfim, esse episódio presenciado por mim, inaugurou uma invisível pedra fundamental da nova educação municipal. Estava plantada uma semente de uma árvore que cupim não roi. Nos anos seguintes foram acontecendo transformações sutis, culminando com o que se chegou no presente. Ministério Público em ação, escavacando tudo, exigindo ações na forma da lei. Prefeito insistindo de navegar contra a maré. A Prefeitura Municipal num verdadeiro cabide de emprego de familiares de faniliares e amigos de amigos. Com muito sacrifício houve um concurso público para professores, cujos detalhes todos sabem e evidenciam o nível do executivo e legislativo daquele tempo. Quase todas as conquistas seguintes se deram mediante greves e protestos, reforçando a ideia de que os sinos, sejam da igreja, sejam dos professores e de onde quer que repiquem, devem dobrar sempre.

Por tudo o que acompanho e sou testemunha, o Sinte de Nísia Floresta é uma instituição forte e respeitável. Um dos mais organizados e bem geridos do RN, inclusive atualmente nas mãos do professor Josivaldo do Nascimento, um baluarte da causa da Educação por excelência. É um pilar de dignidade e honra do município de Nísia Floresta. Josivaldo talvez seja detestado por alguns – pudera! – é uma das raras pessoas que não se vendem. E falem o que quiserem desse brasileiro, pode aparecer alguém igual a ele no futuro, mas superior à sua firmeza e ao seu preparo intelectual na defesa da causa, será muito difícil.


O Sinte de Nísia sintetiza um instrumento de luta por escolas melhores, por dignidade à educação das crianças e dos jovens, por professores qualificados e com salários dignos. O Sinte-Nísia é ambiente de Educação, e apesar de a luta continuar, tal instituição não lembra em nada o medievalismo do episódio narrado acima, muito embora jamais se deve squecer de quem na frente, abrindo caminho a facão, como João Cordeiro. Creio que essa instituição se tornou forte pois foi marchetada sobre o suor e a luta de vários educadores. Não há como ser diferente.

Hoje, quando os sinos da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó dobram, mesmo rachado e quase inaudível, e tendo passado 27 anos, lembram o repique de 1993... lembram a greve dos professores nisiaflorestenses, marco de dignidade e justiça. Marco de que ninguém deve se calar diante de injustiça alguma. Creio que o Sinte-Nísia deveria ter em sua entrada um sino como símbolo de resistência e conquista. E que os sinos dobrem sempre quando a palavra for Educação...

segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Rocas Quintas, a verdadeira história.

Para quem gosta de ler histórias de figuras populares, o Rio Grande do Norte é um rio perene, desaguador de impressionantes personalidades que ainda 'agoam' o imaginário popular. Vai da embaixatriz que tinha carta-branca para entrar no gabinete de qualquer governador - e ser bem recebida - a um vendedor que entregava urubu tratado como sendo galeto. A venda era exclusiva aos norte-americanos dos tempos da guerra... Mas dentre os mais excêntricos personagens, temos "Rocas Quintas", cuja história segue abaixo. Resolvi transcrevê-la porque um autor norte-rio-grandense publicou um livro apresentando outra pessoa como sendo "Rocas Quintas", portanto a bem da verdade segue a verdadeira história de "Rocas Quintas", contada nada menos por um especialista no estudo dos nossos personagens populares...



ROCAS QUINTAS

(Por Gutenberg Costa – Pedagogo, Bacharel em Direito, Escritor e Pesquisador).        

O memorialista é aquele que com certa idade conta o vivenciou de fatos e do seu conhecimento com pessoas e lugares. Descreve o seu passado e o repassa acompanhado de sérios testemunhos e fontes fidedignas. Sabe-se que quem pesquisa história necessariamente é devorador de livros, cliente voraz de livrarias e ‘rato’ de sebos. Já os ficcionistas ficam isentos de veracidade histórica em suas criações, como nos seus contos e romances. Apenas alguns desses, retratam os seus personagens, que aos olhos dos bons observadores, logo enxergam pessoas existentes em seus tempos. Mesmos que mudem os seus nomes ou situações. Assim o fez nosso criativo Nilo Emerenciano, em muitos de seus contos.

           Dentro da paisagem urbana de Natal dos anos 70 a 90, do século passado, existiu de fato uma mulher prostituta e muito famosa conhecida por seu apelido – Rocas Quintas. Tímida, não aceitava ser entrevistada, mas aos poucos me concedeu curtos depoimentos em diversos momentos na então calçada do finado Café São Luiz, centro da Cidade Alta, no início dos anos 90, (1991): “Meu nome é Maria Edite. Estudei pouco na infância. Sempre fui uma menina traquina. Sempre gostei de fazer sexo desde mocinha. Eu quando era mais nova fazia ponto lá na Rua Quinze de Novembro na Ribeira. Numa noite atendia dezenas de homens nos quartos daqueles cabarés. Era uma cama velha, uma bacia de ágata ao lado, jarra d’água e sabonete para o asseio do casal. Era tudo na pressa e saia um e já se entrava com outro… homem de todo tipo, de cachaceiro a valentão, de jovem a velho… Hoje eu estou gorda e velha. Peço ajuda nas ruas, pois ando muito doente, meu senhor”. E mostrou-me na ocasião numa manhã de sol forte, meio dia, para comprovar seu pedido, uma parte de uma caixa de antibiótico onde se via o nome do tal remédio…

            Alguns até diziam ser o seu marketing de pedinte ambulante. Na ocasião, a famosa Rocas Quintas, já aparentava uns 50 anos. Cabelos pretos com algumas mechas em branco. Desdentada, mas risonha às vezes. Obesa, como diziam ‘com barriga quebrada’. Branca e semi analfabeta, pernas grossas e pescoço bem curto. Olhos castanhos claros, diferentemente daquela romanceada Capitu machadiana. Estava calçando sandálias havaianas já gastas de muitas andanças e peregrinações, vestindo saia vermelha já desbotada e uma blusa não tão branca, como deveria ter sido no passado. Saudade do milagroso ‘Omo total’ das propagandas televisivas.

           Seu apelido apareceu primeiramente na história escrita, através do premiado contista e memorialista, Nilo Emerenciano, em seu livro de Contos – ‘Aconteceu na Quinta Delegacia’, (1982, FJA). Embora ele não diga o seu livro foi inspirado em alguns personagens populares que o autor conheceu de perto nas ruas de Natal. O grande amigo Nilo, como dezenas de outros natalenses, conheceu a verdadeira Rocas Quintas, que era também natalense. Segundo a mesma: tinha dezenas de irmãos e seu pai vendia peixes e também matava porcos para sustentar sua família. Ela, solteirona, morava com os pais na região entre os bairros de Petrópolis e Praia do Meio. Família pobre, mas trabalhadora como muitas outras que habitavam os arredores da referida praia. No citado livro de Nilo, seu apelido dá título a um conto e mostra-nos uma quadra cantada popularmente pelos mais jovens dos anos 70/90, os quais também a apelidava de – ‘Corre Campo’ e ‘Errepê’, referências à cobra que não para de correr e ao antigo fusquinha da polícia, que batia o mundo todo em Natal:

“Rocas Quintas, Rocas Quintas,

Todo dia pega trinta,

Trinta homens todo dia,

“É a conta de Maria…”.

             Em 1999, participando do concurso literário do então Quarto centenário da Cidade do Natal, promovido pela secretária especial para as festividades, apresentei meu projeto, que tratava de muitos tipos populares que conheci nas ruas das Rocas, das Quintas, passando meu Alecrim, onde nasci e vivi grande parte de minha vida. O referido projeto foi aprovado e eu ainda exigi que o livro fosse numerado de 01 a 400, em homenagem a minha cidade. E lá, pela segunda vez, a prostituta andante apelida de Rocas Quintas está figurando numa crônica, nas páginas 146/148. Sem sua fotografia, tão programada com o amigo Canindé Soares, pois quando chegara em sua moto, ela já havia debandado da Cidade Alta para as Quintas, atrás de seus possíveis pretendentes sexuais… Quando lancei o meu citado livro a procurei por semanas e não mais a encontrei pelas ruas. Teria partido sem destino em busca de novos amores em outras paragens? Ou como diz o povo: virou finada na terra dos pés juntos?

domingo, 4 de outubro de 2020

O Medalhão de Nísia Floresta - 1911

Nísia Floresta aos 60 anos de idade

 No dia 2 de abril de 1911 o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, sob a presidência do Dr. Desembargador Vicente de Lemos, foi convidado, mediante um ofício enviado pelo Grêmio Literário “Augusto Severo”, para prestigiar a solenidade de inauguração do medalhão de Nísia Floresta no jardim da praça “Augusto Severo” no dia 19 de março de 1911. 

 
 
Henrique Castriciano, apaixonado pela história de Nísia Floresta, mandou fazer essa obra em Paris, pelas mãos dos artistas Corbiniano Vilaça e Edmond Badoche, e sensibilizou o governador Alberto Maranhão para edificar um monumento nos jardins da praça Augusto Severo, onde a bela peça foi afixada. À ocasião o presidente do IHGRN nomeou os senhores Pedro Soares, Luiz Lyra e Nestor Lima para representá-lo no evento. Na reunião do dia 16 de abril de 1911, inclusive o sr. Luiz Lyra declarou que a comissão nomeada para a referida inauguração cumpriu o dever recebido. 
 

Esse evento foi muito divulgado. Muitos foram os convidados. Nesse tempo o município de "Vila de Papari" tinha o Coronel José Joaquim Carvalho de Araújo como Presidente da Intendência. Ele era muito ligado à família Maranhão, e sempre esteve a serviço dessa Oligarquia. Não posso afirmar, mas é muito provável que ele tenha prestigiado o evento, já que a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta nasceu em Papari, levando em conta - também - o fato de ele ter prestigiado a construção e inauguração do antigo monumento em homenagem a Nísia Floresta, erigido em 1909, quando Alberto Maranhão - amigo pessoal dele - esteve em Papary (antigo nome do município que se chamaria Nísia Floresta a partir de 1948). 
 
Esse monumento não demorou muito, pois vândalos roubaram o medalhão, e como não o encontraram mais, mandaram derrubar a base de alvenaria que o sustentava. Esse fato lastimável ocorreu no dia 25 de outubro de 1949, ou seja, 38 anos após a sua inauguração.
Atualmente esse hábito de vandalizar monumentos para retirar o bronze é prática de alguns drogados, que o fazem para vender e sustentar o vício. Mas a realidade de 1911 era muito diferente. 
 

Esse acontecimento - na minha opinião - pode ter sido uma forma de externar preconceito contra Nísia Floresta. Creio que foi coisa encomendada por desafetos instigados por velhos preconceitos. Coincidentemente, nesse tempo, uma inimiga gratuita, que Nísia nunca conheceu pessoalmente - pois nasceu 29 anos depois dela -, se encarregava de frequentar todos os ambientes natalenses que promovessem homenagens a Nísia Floresta, e entregava uma imensa carta denegrindo-a. 
 
Ela passou grande parte de sua vida nessa curiosa "missão". Particularmente não entendo o objetivo dessa personagem que atendia pelo nome de Isabel Gondim. Defendo a tese de que o vandalismo se deu por preconceito porque trinta anos depois o medalhão foi encontrado intacto, alguém reconheceu a peça e a enviou ao Instituto Histórico e Geográfico do RN, onde se encontra. Ou seja, nunca houve interesse em "desmanchar" a peça para aproveitar o bronze, como hoje fazem aos fios de eletricidade que contém cobre. O único interesse foi destruir o monumento, ou seja, 'desomenagear' Nísia Floresta. Como se isso fosse possível.
 
As imagens aqui postadas documentam a construção do referido monumento, em 1911.
 
Mas, retomando o assunto do medalhão com a efígie de Nísia Floresta e também da transcrição de sua assinatura, tenho uma dúvida intrigante. O referido medalhão se encontra atualmente no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. A peça já estava ali quando aconteceu a chegada dos despojos de Nísia Floresta, em 1954. Digo intrigante porque essa mesma peça pode ser vista numa fotografia feita no Centro Norte-Rio-Grandense, em 1954, exatamente para as homenagens desse traslado. A efígie foi feita em 1851, na França. Seriam duas peças iguais? 
 
Medalhão com efígie e assinatura de Nísia Floresta, feito em Paris, em 1851. Hoje pode ser visto no Instituto Histórico e Geográfico de Nísia Floresta, de´pois do vandalismo feito ao monumento onde a peça encontrava-se instalada desde 1911, depois reencontrada num ferro velho e entregue ao IHGRN.

 
Em 1992, questionei o Centro Norte-Rio-Grandense sobre o que eles tinha de acervo sobre Nísia. A resposta foi "nada". Perguntei da efígie e e responderam que havia desaparecido há muitas décadas. Teria sido furtada por colecionador de antiguidades raras? Teria sido levada por algum admirador de Nísia Floresta? Onde foi parar o suposto segundo medalhão?

Como pode ser constatado na fotografia feita no Centro-Norte-Riograndense, em 1954, o medalhão, hoje desaparecido, se encontra sobre a mesinha de centro. Veja, abaixo, o zoom na imagem.


Os folclóricos mateiros - A Academia Brasileira de Mateiros...


OS FOLCLÓRICOS MATEIROS...
ACADEMIA BRASILEIRA DE MATEIROS
 
A maioria das pessoas entra numa floresta e enxerga mato, e por mato se entende grandes árvores, arbustos, cipós, garrancheiras e trepadeiras. A nossa cultura não nos permite ir além. Um "mateiro" não vê mato, vê uma cerejeira, um mogno, um pau-ferro, um cedro, uma copaibeira, uma quixabeira, enfim. Ele atribui valor a cada espécie que se descortina diante dele. Conhece a qualidade da madeira, a época da florada, frutificação, e muitos até mesmo estimam a idade das árvores. Os grandes mateiros, quais "ervateiros", identificam até mesmo as suas propriedades medicinais. Quando adoentados, entram ali e colhem o seu "remédio", ou melhor, as suas "mezinhas". O que para nós é mato, para eles é erva medicinal. Sua cultura permite-lhes ver a floresta de forma totalmente diferente da maioria de nós. Uma vez entrei num trecho de razoável mata, acompanhado por um mateiro, em Nísia Floresta. Foi uma das mais impressionantes experiências. Ele mostrava uma aparente garrancheira e dizia "isso aí derruba qualquer bicheira no gado"... "essa resina desse tronco mata caganeira"... "esse cupinzeiro acolá é o melhor de todos para cansaço em criança"... "é da bosta desse passarinho que sai as sementes certas pra compressa, quando o peso desce pro saco"... "o chá dessa formiga mata qualquer doença no zói"... "isso aqui é cipó de sapo, guenta feixe do tamanho que for, faz corda boa"... "olha ali os cachorro d'água, os danado adora raiz de cajueiro"... "o cabra com morróida só passa uma vez isso aqui no "c.", pois é tiro e queda"... "aquilo acolá é venenoso"... O meu encantamento aumentava conforme adentrava a mata. Não havia vegetal que ele não apontasse uma propriedade curativa. Estávamos diante do paraíso da saúde. Nunca me esqueci dessa experiência. Desse dia em diante - eu que nunca troquei pessoas "insignificantes" por nenhum letrado - redobrei o meu respeito pelos seres humanos de verdade - como João - até porque para mim ele - tão desimportante em Nísia Floresta - era uma das pessoas mais importantes que conheci. É certo que esse alfarrábio sabidoso vem lá dos detrases, bebidos nas fontes dos povos indígenas. Mas é privilégio de poucos. Mateiro é sacerdote por excelência. Creio que deveria existir uma Academia Brasileira de Mateiros. Pode ter certeza que lá seriam servidos os melhores chás, as melhores "cabumbas", os mais deliciosos "liguentos", rapaduras doces como o próprio ambiente, e o universo de contações de histórias não teria fim. Lá não haveria velhos bufões, esparramados em suas empáfias, sentindo-se os reis das cocadas pretas atrás de homenagens, pois todos já seriam homenageados pelo simples existir naquela academia, pois ela seria na mata, na essência da vida... João, um grande abraço! Essa é pra você!

 

sábado, 3 de outubro de 2020

O padre que matou o bispo

Padre Osana de Siqueira e Silva (à esquerda), ao lado de Dom Expedito Lopes - década de 50
 

O padre assassino - Os tiros que não saíram pela culatra

No dia primeiro de julho de 1957, por volta das 18 horas e 30 minutos, três sons de disparos de revólver ecoaram no Palácio Episcopal, em Garanhuns, no agreste pernambucano. João, empregado da casa, ao ouvir o barulho, correu à porta e deparou-se com o bispo, Dom Francisco Expedito Lopes, caído ao chão, ensanguentado, moribundo. Imediatamente pediu-lhe que chamassem o Monsenhor José de Anchieta Callou. Soube-se naquele momento, pelo próprio Dom Expedito, o nome daquele que o alvejou: Padre Hosana de Siqueira e Silva, seu subordinado. O motivo seria a denúncia que chegara ao bispo de que Padre Hosana estaria tendo um caso amoroso com Maria José Martins, sua prima e empregada doméstica. Dom Expedito Lopes faleceu depois de oito horas de intensa agonia. Padre Hosana, a princípio, refugiou-se no Mosteiro de São Bento. Como menciona o autor, “o crime, com suas interpretações, deixou marcas”. É a partir dessas (re)interpretações, das marcas do dizer, lembrar e narrar o crime, que ele constrói sua obra.Igor Alves Moreira é licenciado em História pela Universidade Estadual Vale do Acaraú e mestre em História Social pela Universidade Federal do Ceará. Neste livro, fruto de sua dissertação de mestrado defendida em 20084, ele procura explorar e faz isso com maestria, como o crime que sentenciou Dom Expedito à morte e Padre Hosana ao julgamento dos 1Recebido em: 21de julho de 2016. Aceito para publicação em: 30 de setembro de 2016.2Mestrando em História pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PPGH-UFRN). Bolsista CAPES. Editor da Revista Espacialidades e membro do grupo de estudos Cartografias Contemporâneas: história, espaços, produção de subjetividades e práticas institucionais (UFRN). Email: cidmoraissilveira@gmail.com. Lattes: http://lattes.cnpq.br/5434753825771874.3MOREIRA, Igor Alves. Do bispo morto ao padre matador:Dom Expedito e Padre Hosana nas construções da memória (1957-2004). Sobral: Edições Ecoa. Sobral. 2015. p. 14.4A dissertação foi defendida no Programa de Pós-Graduação em História Social da UFC e possui o mesmo título do livro aqui analisado. O trabalho foi orientado pelo Prof. Dr. Francisco Régis Lopes Ramos. Em PerspectivaRevista discente do PPGH/UFCISSN: 2448-0789 Resenha Revista Em Perspectiva [On Line]. 2016, v. 2, n. 1.Página215homens, foi lembrado e (re)contado através das construções do lembrar. Apesar de admitir que a história é uma reconstrução da memória, Igor viola as memórias e gesta uma história intrigante5, possibilitando assim a construção de seu objeto, um acontecimento singular6.O interesse do autor é perceber como os fatos relativos ao crime foram contatos e recontados. Para isso, ele sustenta que há múltiplas variantes sobre o crime do Padre Hosana, agenciadas e permeadas de intencionalidades. No decorrer do livro, Igor mostra que existe uma tentativa de produção de um projeto intelectual, centrado na feitura da biografia de Dom Expedito, por parte da Diocese de Garanhuns, para empreender um plano de canonização do bispo. Da mesma forma ocorreu com a figura de Padre Hosana, que também teve sua biografia contada, em forma de livros ou narrativas orais, mas que ambas possuíam uma intenção clara: idealizar e inocentar os respectivos biografados das acusações que lhes foram direcionadas. Para isso, foi caro ao autor expor os conflitos das várias formas de como o crime foi contado, notadamente nos livros e nos depoimentos orais que coletou durante a pesquisa. Assim, ele admite que seu objeto de estudo encontra-se intimamente ligado a uma problemática da história social da memória, onde“o presente é sempre tocado e afetado pelo passado. E vice-versa. Uma relação pautada por contradições, tensões e reconstruções. Uma relação que abarca a lembrança e o esquecimento”. Assim, seu objeto de pesquisa é um “ausente que age”.O livro encontra-se dividido em três capítulos. O primeiro deles, Um bispo assassinado!, tem por objetivo analisar os discursos que mostraram Dom Expedito Lopes como “santo” e “mártir” da Igreja e, do outro lado, Padre Hosana como vilão e assassino. O autor problematiza aqui como os discursos, textos e falas produziram uma suposta santidade do bispo, onde “são textos dados ao público para convencer, para homogeneizar opiniões e 5Sobre a relação entre o historiador e o trato com as memórias, ver ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz de. Violar memórias e gestar a História: Abordagem a uma problemática fecunda que torna a tarefa do historiador um “parto difícil”. Clio-Série História do Nordeste, n. 15. 1994.6 Paul Veyne entende o acontecimento como próprio do saber histórico, onde a partir dele a história poderia ser constituída. Para Veyne, o acontecimento é singular, uma conjunção de fatos que não se repetirão. Para mais informações ver VEYNE, Paul. Como se escreve a história:Foucault revoluciona a história. 4ª Ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2008. 7MOREIRA, Igor Alves. Op. cit., p.15.8DOSSE, François. História e Ciências Sociais.Tradução de Fernanda Abreu. Bauru:EDUSC. 2004. p. 184. Em Perspectiva Revista discente do PPGH/UFCISSN: 2448-0789ResenhaRevista Em Perspectiva [On Line]. 2016, v. 2, n. 1.Página216diluí-las sobre o réu e a vítima”9. Ainda no primeiro capítulo, ele esclarece como o conceito deperdão foi usado nos discursos, notadamente o perdão oferecido ao Padre Hosana pelo bispo nas horas de dor, com a finalidade de compreender e pontuar o possível martírio de Dom Expedito. Aqui ele mostra como o discurso do martírio foi apresentado à população de Garanhuns pelos “homens e mulheres das letras”, ou seja, por aqueles que institucionalizaram essas práticas discursivas.O assassinato de Dom Expedito Lopes transformou-se em cartas, matérias de jornais e rádios, em livros, em literatura de cordel,em temas de canções, em conversas dos moradores mais antigos. Para conforto e desconforto de suas personagens, e da Diocese de Garanhuns, nesses registros do passado no presente, verifica-se a existência de discursos e silêncio em disputa. Nesses registros, vários conceitos e situações são abordados. No caso do assassinato de Dom Expedito, verifica-se ainda que ele foi um “exemplo” a ser seguido pela posteridade. O seu “exemplo”, no entanto, também aponta tramas e incoerências. Para outro punhado de pessoas, Padre Hosana foi um “bom exemplo”. Ambos, contudo, foram protagonistas de um crime. No segundo capítulo, A Diocese de Garanhuns e o tribunal para a causa da beatificação e canonização, o propósito é compreender e verificar os insumos e procedimentosinstitucionais da Igreja Católica no tocante ao processo de beatificação e canonização de uma pessoa. Há aqui uma preocupação do autor em analisar como a Diocese de Garanhuns produziu e divulgou ao público uma biografia linear e harmoniosa do bispo, bem como a atuação dos jornais em socializar uma narrativa em prol da beatificação e canonização. É discutido também os meios utilizados para sagrar e desenvolver uma memória específica e homogênea de Dom Expedito.Como fruto de uma seleção, a biografia de DomExpedito é composta pelo dito e não-dito, o autorizado e não-autorizado, com intenções específicas e claras: dar um santo aos demais diocesanos. Uma vontade e/ou capricho singular do grupo que é estendido aos demais de forma imperativa. Dar a ele a “verdade”: que o Brasil tem um santo, ainda não reconhecido oficialmente 9MOREIRA, Igor Alves. Op. cit.,p.21.10Ibidem. p.75. Em Perspectiva Revista discente do PPGH/UFCISSN: 2448-0789ResenhaRevista Em Perspectiva [On Line]. 2016, v. 2, n. 1.Página217pelo Vaticano. É uma biografia apresentada na compreensão de que toda sua vida foi exemplar. É linear e desprovida de provocações e conflitos.11No terceiro e último capítulo, Um padre assassino?, é debatido pelo autor as várias interpretações e narrativas que idealizaram Padre Hosana de Siqueira e Silva. Existe aqui, e é trabalhado através de um dos tópicos do capítulo, literalmente, uma “guerra de livros”, uma disputa de escrita, pela letra e a palavra. O autor traz para a discussão as várias obras específicas, algumas com notadamente uma pretensão biográfica, que tratam sobre o crime, onde se percebe claramente quem está do lado do bispo e do lado do padre. Igor reitera que no trato com asnarrativas sobre o crime, orais e escritas, foi possível perceber subversões e contradições, onde a movimentação do dito e não dito regem os sentidos do passado e, consequentemente, o texto do autor.Assim, a biografia é, tanto para os que defendem o bispo, quanto para os que preservam o padre, um instrumento de acusação e defesa. O passado de ambos explica o presente, justifica o crime. São os usos do passado. O passado de um explica sua santidade, confirma o sentido de sua morte, o passado do outro explica o crime. É uma biografia linear, com causa e consequência. Se não fosse o crime, nenhum precisaria de biografia, aqui posta como prova. O passado vale como argumento para provar a inocência de cada um.12O que conseguimos perceber é que o “mártir” Dom Expedito não permanece sem o seu oposto, o “vilão”, Padre Hosana. Um precisa do outro para existir. Nas palavras do autor, “nesses fragmentos do passado, os dois estão sempre juntos. Um alimenta o outro. Em meio aos dizeres e às contestações sobre ambos, eles se complementam, se necessitam”13.A obra em questão foi produzida através de uma grande variedade de fontes e um trabalho primoroso de pesquisa. O autor utilizou-se de um extenso referencial teórico e metodológico para dar conta da natureza de suas fontes: jornais, revistas, livros, biografias, atas de abertura e instalação do tribunal para a beatificação e canonização de Dom Expedito 11Ibidem. p.119.12Ibidem. p.164.13Ibidem. p.172. Em PerspectivaRevista discente do PPGH/UFCISSN: 2448-0789ResenhaRevista Em Perspectiva [On Line]. 2016, v. 2, n. 1.Página218Lopes; livros de cânticos, orações, textos e discursos proferidos nas missas, fotografias, registros de programas de rádio e TV, além dos registros das narrativas orais, totalizando um total de 42 entrevistas.A obra de Igor Alves Moreira consiste em um trabalho de um historiador notadamente preocupado com os usos e abusos do passado pelos sujeitos no presente, contribuindo para um olhar problematizador na relação entre o aqui (presente) e o ali (passado), dentro de uma perspectiva da história social da memória.Os que escrevem sobre esse crime se veem como guardiões dessa história, como guarda-costas do passado. Cada um puxa a “verdade” para si, constituída com base em iscas guardadas nas empoeiradas prateleiras de arquivos pessoais e institucionais de Pernambuco e, ainda, nas narrativas orais dos moradores de Garanhuns e Correntes. Este trabalho de ambula na oposição de uma ideia homogênea, uniforme e harmoniosa da relação entre presente e passado, e notadamente da concepção de história enquanto uma procissão de sujeitos comportados e não transgressores frente aos acontecimentos, de uma história enquanto exemplo a ser seguido, como ciência mestra da vida. Pelo contrário, no confronto das fontes, o autor verificou e analisou incoerências e incompletudes, leituras e posicionamentos diversos sobre as formas de dizer o crime, feitios narrativos extremamente divergentes. Porém, ele é enfático em dizer que o foco de seu trabalho não é o crime, e sim a forma como ele foi narrado nas mais diversas fontes em que analisou durante a produção da obra. Em suas palavras, “longe estou de querer saber sobre o desenrolar do crime. Preocupado estou em analisar como ele foi contado e recontado na letra e na fala”. E conseguiu.

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IRONIA DO DESTINO - 40 ANOS DEPOIS O PADRE ASSASSINO FOI ASSASSINADO

Ele foi encontrado morto a pauladas em seu sítio, em Correntes, Pernambuco, no dia 7 de novembro de 1997.  Até hoje não se sabe a causa. Ele era metido em várias confusões relacionadas à propriedades. Quando João paulo II esteve no Brasil, ele tentou marcar um momento com ele para ver a possibilidade de pedir perdão oficialmente, mas o Vaticano fechou as portas para ele. Seu crime teve repercussão mundial. Foi a primeira vez na história da Igreja Católica que um padre matou um bispo.

Padre Osana chegando à sede de seu sítio

FONTES:

Em PerspectivaRevista discente do PPGH/UFCISSN: 2448-0789 ResenhaRevista Em Perspectiva [On Line]. 2016, v. 2, n. 1.Página 214

Cid Morais Silveira2MOREIRA, Igor Alves. Do bispo morto ao padre matador: Dom Expedito e Padre Hosana nas construções da memória (1957-2004). Sobral: Edições Ecoa,2015.***

Bibliografia14Ibidem. p.173.15Ibidem. p.174. Em PerspectivaRevista discente do PPGH/UFCISSN: 2448-0789ResenhaRevista Em Perspectiva [On Line]. 2016, v. 2, n. 1.Página219ALBUQUERQUE JUNIOR, Durval Muniz de. Violar memórias e gestar a História: Abordagem a uma problemática fecunda que torna a tarefa do historiador um “parto difícil”. Clio-Série História do Nordeste, n. 15. 1994.DOSSE, François. História e Ciências Sociais.Tradução de Fernanda Abreu. Bauru: EDUSC,2004.MOREIRA, Igor Alves. Do bispo morto ao padre matador:Dom Expedito e Padre Hosana nas construções da memória (1957-2004).Sobral: Edições Ecoa, 2015.VEYNE, Paul. Como se escreve a história:Foucault revoluciona a história. 4. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília