ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Ribeira: História em queda livre - a triste depredação do que restou da velha aquitetura de Natal (2019)


O que você pode fazer para salvá-la?

Sábado à tarde, 31 de outubro de 2014, estive na parte baixa da Ribeira, em Natal, acompanhado pelo meu filho que foi fotografá-la para amadurecer um projeto escolar para 2015. Enquanto ele fazia os registros foi aflorando em mim o desejo incontrolável de gritar contra tudo o que eu via. Todos falam sobre a Ribeira. Mas nenhuma autoridade faz nada!

O que prometia ser uma experiência agradável tornou-se uma sensação incômoda. Enquanto era bonita - artisticamente falando - a tonalidade envelhecida das paredes, harmonizando-se com o lodo ressequido, as parasitas, as rachaduras, as ruínas etc, era deprimente testemunhar o assassinato da história. Percebi que a Ribeira também grita. A Ribeira chora!

Como todos sabem, Natal começou por ali e é exatamente nesse lugar que resistem, embora quase em ruínas, suas construções mais antigas. Restam, em meio aos seus velhos armazéns, depósitos e casas comerciais – sobrados residenciais imprensados entre paredes centenárias, alguns em estado caótico. O cenário aflige a qualquer cidadão consciente das significações daquilo tudo.

Tendo ruído o telhado e o reboco, e desaparecidos belos frontões em alto e baixo relevos, vê-se apenas tijolões brancos, rejuntados com barro vermelho. Restam grades de ferro bordadas em rebuscados desenhos, sacadas com portas e janelas de madeira nobre, carcomidas, escadarias que findam no nada... vidros e cristais que despencariam ao leve toque.

Algumas paredes contam a sua história de maneira mais clara, pois conservam em alto relevo o ano da construção (alguns em algarismos romanos), os letreiros com o nome do comércio e até mesmo os produtos que vendiam. Num deles se lê: “objectos de escriptorio”, “accessórios para desenho”, e até mesmo a curiosa expressão “livros em branco” etc.

Certos prédios, apesar de deteriorados, não perderam a imponência. Uma das mais belas fachadas, e que aparenta não durar mais meia década, é a famosa “Samaritana”, onde o “Mamão-São-Caetano” se dependura na janela da sacada. Na sua lateral se enraizou uma árvore que resistiu anos dependurada. Recentemente sua raiz foi cortada e hoje está seca. O conjunto é fantasmagórico.

As ruas, como se sabe, não são ruas, mas becos. Alguns tão estreitos que somam doze palmos. Se um homem adulto abrir os braços entre as paredes que se defrontam, por pouco encosta as mãos em ambas. Alguns são intransitáveis devido ao lixo despejado pelos poucos comerciantes que restaram. Ruas e vielas fedem a urina e fezes. O lugar torna-se ainda mais – diríamos – sombrio, devido a quantidade de felinos que passeiam por ali, justamente pela proximidade do porto e do comércio de peixe.

Parasitas e trepadeiras invadiram as paredes e se entrelaçaram às grades de ferro. Muitos telhados ruíram. Sobrou apenas o frontão. Algumas fachadas escondem detalhes interessantes devido ao lodo seco e sucessivas demãos de tinta. Nos locais melhores conservados, mendigos e drogados fizeram “morada”.

Essa área antiga da Ribeira parece mais um cemitério que sepultou boa parte da história do Natal. Percorrê-la é se encontrar com a nostalgia. Chega a ser deprimente. Não há como não dar asas à imaginação e ficar pensando no “ruge-ruge” e no “vuco-vuco” que foi aquilo por séculos a fio... verdadeira “25 de março”. Vale lembrar que toda a movimentação acontecia a pé, pois em muitos becos não entra sequer uma carroça.

Saber que a “veia nervosa” do Natal foi a Ribeira soa inacreditável aos olhos atuais. Parece mais a Pripyat de Saraievo depois do fenômeno Chernobyl. Com a diferença de a “radiação” daqui ter o nome de “indiferença à história”.

Observei também que em meio a esse resto histórico que envergonha os órgãos públicos de fomento à cultura, sobram ruínas humanas. São homens e mulheres – jovens – vagando por ali, tais quais “malassombros”... restos de gente... muitos sob o transe do crack. Eles invadiram os prédios melhores conservados, onde dormem como ratos.

Dói na alma.

Quantos episódios marcantes ocorreram na Ribeira. Restam ainda a casa onde nasceu Pedro Velho há 154 anos... o Palácio do Governo (felizmente recuperado – é uma escola de balet), o “Sport Club do Natal” (cenário de tantos episódios do “Gizinha”, de Polycarpo Feitosa - Antônio de Sousa); o prédio da alfândega... a casa do Frei Miguelinho. Em sua parede esburacada encontra-se uma placa afixada ali há 108 anos, dizendo: “QUOD SCRIPSI SCRIPSI - 17 de novembro 1867 – 12 de junho 1817- Ao insigne patriota Miguel Joaquim de Almeida Castro - Frei Miguelinho - Ao povo do Rio Grande do Norte em commemoração cívica, no 89º anniversário de tua morte gloriosa, ufana-se de perpetuar nessa lápide, solenemente posta no próprio lugar em que nasceste, teu nome imortal de heróe e martyr” – 1906”. Pouco adiante, geográfica e temporalmente, a famosa casa de Câmara Cascudo, cujas palavras tornam-se insignificantes para descrevê-lo.

Não sei exatamente o que mais me impressionou... se foi o visual histórico jogado ao léu pelos governantes e pelas pessoas “esclarecidas”, muitas delas ocupadas por toda sorte de corrupção... não sei se foram as ruínas humanas destruídas pela droga e hipocrisia de governos, ONG’s, igrejas etc...

Ao longo de décadas as pessoas foram (e vem) saindo dali. A cada prédio “abandonado” aumenta o incômodo nos que ficaram. É uma reação em cadeia. O cenário parece incomodar aos que insistem em ficar. Recentemente o que saiu foi o Cartório. E assim segue a Ribeira velha...

Alguns entendem a Ribeira meramente como o projeto voltado para a “Rua Chile”. Não diria que foi ruim, mas houve uma restauração acanhada. Sua movimentação tem hora e data marcadas. Não é fluente... É só ir lá e checar.

O que sei é que precisamos fazer algo pela Ribeira.

Se for apresentado ao governo do Rio Grande do Norte um projeto à altura da Ribeira, esse bairro ressuscitará diferente. Não me refiro a trazer de volta o passado. Não se trata de preservar por preservar, mas dar funcionalidade, tornando-a um espaço vivo, útil e agradável em sua perspectiva histórica, turística, cultural, comercial e educacional. Falta à Ribeira rumo e utilidade.

Enquanto a Europa e diversos países têm sua economia fortalecida em becos e vielas medievais, a Ribeira, berço de Natal, verdadeiro tesouro, jaz abandonada. É um pedaço morto do Natal.

Em Marrocos existem espaços comerciais de cinco mil anos, mas cheio de vida, fortalecendo a riqueza do país. Curioso é que ali só transitam pessoas. O segredo está num conjunto de fatores que convergem para que todos – sejam turistas ou não – sintam-se atraídos pelo local.

O segredo é simples: comércio (que vende uma infinidade de produtos obviamente dentro da cultura deles, como ouro, tapetes tecidos, roupas etc), arte em suas múltiplas formas, artesanato, comidas e bebidas para todos os gostos... As atrações são incontáveis.

É lastimável que um espaço tão significativo como a Ribeira, reste ilhado, quase inútil. Essa situação serve de termômetro para entendermos nossos governantes e a nós mesmos enquanto povo. Esse desprezo é um ataque à história do Brasil. Tenham certeza que não demorará muito para que tudo aquilo vire pó.

Muitos alegam que suas ruas não comportam trânsito fluente, mas isso é ingênuo e mal intencionado diante das infindáveis significações desse bairro e de incontáveis soluções. Basta querer. É muito pequeno alegar questões de trânsito.

Urge aos governantes, às instituições diversas, à iniciativa privada e órgãos internacionais darem as mãos e construir um projeto ousado, levando para lá os comerciantes com diversidade de mercadorias e comes-e-bebes, o artesanato, as agências de turismo, os camelôs, os meninos com os seus tabuleiros, o teatro de rua, as vendedoras de tapioca recheada, as doceiras, os engraxates... o samba, o folclore, o batuque... as coisas dos shoppings. Por que não? Há tantas formas de revitalização..

Esse projeto deve estar atrelado às agências de turismo nacional e internacional, às instituições educacionais e culturais e a diversos órgãos governamentais. É imperdoável esse olhar míope e acanhado dado à Ribeira. Restam por ali, intactos, em meio a construções bicentenárias e de valor incalculável, prédios razoavelmente antigos como o BANDERN dentre outros, nos quais deveria funcionar até mesmo órgãos públicos, secretarias de turismo, cultura, educação etc. Ou até mesmo a administração da Ribeira, até porque se trata de um projeto amplo de revitalização.

A partir do momento que as partes de direito se sentarem para tal projeto, verão que o mesmo consistirá numa audácia diante das burocracias criadas por nós mesmos, mas não serão superiores à significação da Ribeira. Nem ao retorno que dará.

A Ribeira tem tudo para ser um espaço vivo de comércio, turismo e cultura. Mas que seja algo intenso, forte, fluente. A Ribeira pode se transformar num dos mais ousados, amplos e prósperos projetos de cultura e economia do Brasil, capaz de servir de modelo para outros estados e países.

Com o novo governo que se aproxima, com a nova equipe e com pessoas sérias que se descortinam no cenário político atual, creio que o momento é esse.

Vamos salvar a Ribeira!








































Igreja Matriz de Sant'Ana e São Joaquim há 60 anos (mudanças drásticas) - São José de Mipibu - Rio Grande do Norte...

Esquadrinhando fotografias feitas há 60 anos da bela Matriz de Santana e São Joaquim, descortinam-se detalhes interessantes, os quais revelam a descaracterização de elementos originais. Nem é necessário ser bom observador para perceber. O que isso nos diz? Num tempo de reclamação popular contra a dilapidação do patrimônio histórico de tantos lugares - inclusive na terra do Barão - oriunda de exceções - é importante buscarmos nos velhos retratos a identidade que foi destruída. Do contrário, cultua-se a depredação da história. Há muita gente destruindo tudo, trocando ladrilho hidráulico por porcelanato, portas de jacarandá por portas de vidro, prédios de 200 anos demolido para construir farmácias e sapatarias, enfim. Estamos diante de uma geração que cultua o vazio e - pasme! - há muita autoridade seguindo a linha, pois gazearam aulas de respeito à História e à Memória. Isso é uma característica de alguns lugares. Mipibu é detalhe, mas, por favor, corram... corram... nesse exato momento cogitam mais demolições...





sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Sobre as ponteiras do cemitério de Nísia Floresta...

 

O historiador Carlos Augusto Bezerra Dias informou-me que esteve no cemitério e foi informado que a ponteira foi retirada para ser restaurada, após sofre um acidente decorrente da poda de uma árvore próxima (segundo lhe informaram funcionários do cemitério). É importante que sejam periciadas as demais, tendo em vista o aparente desgaste e o que já ocorreu à primeira. A própria restauração também é digna de muitos cuidados para não cobrir as características originais (ela tem uns sulcos). É necessário retirar as demãos de tinta cuidadosamente até chegar na alvenaria, encher de cimento as partes estragadas, limpar a base de onde estava para chegar até a alvenaria. Se necessário for, é prudente reconstruir essa base novamente (pois parece frágil) aplicar impermeabilizante nela e na ponteira, reinstalá-la, e só depois pintar novamente de cal.
OBSERVAÇÃO: Sugiro às autoridades competentes que plantem outras árvores no átrio do cemitério e arranquem essa árvore atual, pois ela cresce irregularmente, suas raízes são do tipo que crescem também fora do solo e invadem tudo. O Pau-Brasil, além de sua simbologia, dá sombra e suas raízes são boas para esse local. É muito importante árvores nesse espaço, pois novembro é muito quente e a sombra ameniza o calor. Nesse espaço é possível o plantio de 4 árvores de Pau-Brasil afastadas do frontispício.






 

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Homenagem a Carlos Marighella

 
Nesta fotografia, no Palácio do Planalto, em Brasília, apareço ao lado de Clara Sharff Marighella, esposa do grande político (político na mais pura acepção da palavra) CARLOS MARIGHELLA (1911-1969). Dirigente comunista anistiado em 1945. Deputado federal em 1945. Foi cassado no ano seguinte. Um dos líderes da guerrilha urbana que combateu a ditadura militar, em São Paulo, morto pela polícia, numa emboscada. Nesse dia, em Brasília, conversamos por mais de duas horas e acabamos ficando amigos por correspondência e contatos por e-mail. Dizem que "ao lado de um grande homem existe uma grande mulher". Isso se justifica, pois trata-se de uma intelectual admirável. O que ouvi dessa mulher todos os jovens deveriam ouvir para aprender a viver e lapidar as suas histórias nas ferramentas da ação.

 

Por quem os sinos dobraram em 1993 em Nísia Floresta...


A história pode ser comparada a uma “baladeira”, ou “estilingue”... a gente precisa puxar o elástico e retroceder o máximo para vir mais forte, adiante, e atingir o objetivo. Visitar o passado, além de ser memória, é fonte de inspiração para crescermos...

Era 1993. Meio dia. Sol a pino. Hora de “ver as almas de Goianinha”, no dizer dos nisiaflorestenses. Instante em que o silêncio e a paz aparecem de mansinho para descansar a “Vila Imperial de Papary”. Horário que antecede a tradicional sesta desde os remotos tempos dos engenhos.

A maioria do povo almoçava. De repente, inusitadamente, no alto do campanário da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, os sinos dobraram soltos nas mãos mestras do senhor “Bambão”, velho sineiro.

Esquisito!

O povo estranhou a singularidade. Ali o sino tem simbologias diversas, portanto o repique soava como um convite festivo, ao estilo das trombetas reais. Mas não era data festiva. Era diferente dos toque de enterro e procissão. Mas diferente seria o que viria em seguida. Parte dos moradores do centro ouvira rumores de que o padre daria uma palavra naquele momento, portanto estavam atentos. Uma música ressoou das cornetas encravadas na parede da matriz. O sacerdote também estava diferente.

De repente silêncio novamente... Surge a voz do padre João Batista Chaves da Rocha. Voz de tenor. Nem parecia ser o jovem sacerdote, chegado ali há pouco. Era uma voz raspada. Ele avisa aos vereadores e ao prefeito George Ney Ferreira que estava se solidarizando com todos os professores da rede municipal de ensino, os quais realizavam a primeira greve da história do município, aos cuidados de seu primeiro presidente, professor João Cordeiro. Os salários eram uma vergonha. Não havia direito algum e o Sindicato dos Professores se rascunhava. A instituição consistia numa semente lançada ao solo de Nísia Floresta naqueles meses. O sacerdote deixou claro que, em nome dos princípios cristãos, se colocava ao lado dos educadores de Nísia Floresta, pois eles postulavam um direito legítimo. Não era privilégio. E ressaltou que a atitude do Poder Público era abusiva.

Os nativos ficaram perplexos! Nunca viram algo parecido. O estalo dos chicotes ainda ecoava. A sombra do pelourinho ainda pairava sobre a cidade, herança que os tornou submissos e passivos, acostumados ao medo e a exploração.

A poucos metros dali, no “Camarão do Olavo”, o prefeito George Ney Ferreira, tal qual um senhor de engenho rodeado de capitães do mato, ouvia atentamente. O mesmo ocorria na Câmara Municipal, com o presidente Adjalman Andrade e vários vereadores e funcionários. A atitude do padre, que não seria tão estranha aos olhos de hoje, foi considerada afrontosa para boa parte dos que estavam no poder, e pelas famílias tradicionais, desconhecedoras ou que ignoravam as transformações que o Brasil experimentava. Nísia Floresta tem uma característica curiosa: boa parte do povo tende a se revoltar com quem traz luz. Muitas preferem a penumbra e até mesmo a escuridão, pois isso permite o escuso. E assim o era a “Vila Imperial de Papary”, que, óbvia e inacreditavelmente, já era chamada pelo nome de Nísia Floresta, mulher a frente de seu tempo.

Adiante da greve – também pioneira - estava o jovem professor João Cordeiro, o qual ensaiava os primeiros passos para o surgimento do SINTE-NÍSIA. A instituição consistia numa semente lançada ao solo nisiaflorestense naqueles meses. A situação dos professores era caótica, os salários eram simbólicos. Não havia direito algum. A greve, sugerida pelo professor João Cordeiro, foi acatada por significativa parte do corpo docente, então efetivado pelo tempo de serviço, pois muitos atuavam como cargo comissionado e temiam ser demitidos. Alguns eram funcionários do estado e não se envolveram. O medo era geral. Medo era a palavra de uso contínuo naquela cidade de então. Um grande apoiador da greve, desde seus bastidores, foi o Ir. Nilton Dourado, diretor da Casa Marista local, prédio da Igreja Matriz, hoje emprestada ao Museu Nísia Floresta. Sua participação intensa foi fundamental para se dar um novo caminho a Educação nisiaflorestense.


Os Maristas tinham uma casa de formação em Nísia Floresta, cujos postulantes se tornavam professores na Escola Municipal Yayá Paiva, onde os grevistas lecionavam. A presença deles foi fundamental na contribuição de mudanças de mentalidade, pois a maioria tinha bom nível intelectual. Eles vinham de diferentes estados do Brasil, com graus de estudos mais elevados e se somaram aos professores nisiaflorestenses no aspecto de novos entendimentos sobre direitos e leis.

Naquele tempo não existia o Fundef. As escolas brasileiras funcionavam em estado ainda mais precário que hoje. Os recursos não eram direcionados diretamente para as escolas, para que o diretor os gerisse. Tudo se dava por intermédio da prefeitura, desde o papel higiênico ao salários dos professores, que era um terço do que é atualmente. O fato de naquele tempo os diretores escolares não serem eleitos pela comunidade escolar, aumentava o poder do prefeito e dos vereadores sobre as escolas. Desse modo uma greve denotava uma espécie de loucura e profundo desrespeito às autoridades locais. Aquilo que escrevi acima: “boa parte do povo tende a se revoltar com quem traz luz”. O Fundef seria criado e 1996 e se efetivaria em 1998, no governo Fernando Henrique. A partir daí as escolas passariam a receber dinheiro direto na escola, cujo diretor geria. O salário dos professores passou a ser pago por outra parcela derivada desse programa.

O Fundef foi criado para definir uma parcela que atendesse especificamente ao ensino fundamental (1ª a 8ª série), através de uma redistribuição dos recursos provenientes de impostos aplicados pelos municípios e Estados. Haveria mais autonomia. Já o FUNDEB (2007), modificano no Governo Lula, não investiria apenas no ensino fundamental, mas também no ensino médio e na educação infantil, além de praticamente multiplicar por dez o aporte de complementação de recursos da União, de menos de 1% para 10%. Só a partir daí haveria uma grande transformação da Educação Brasileira, mas em 1993, a precariedade era geral.

É importante lembrar que o ano de 1993 foi denominado “Ano Internacional dos Povos Indígenas no Mundo”, pela Organização das Nações Unidas. Mandela recebeu o Prêmio Nobel da Paz conferido a Mandela. Nosso Presidente era Itamar Franco, o qual encerraria o seu mandato em 1995, quando viria Fernando Henrique numa gestão que se encerraria em 2002, quando Lula assumiria.


Ainda em 1993 realizou-se um plebiscito sobre a forma de sistema de governo em que funcionaria o Estado Brasileiro. Sepultaram de vez a monarquia e escolheram que o Brasil continuaria a ser uma República Presidencialista. Houve a Chacina da Candelária, no Rio de Janeiro, com 7 pessoas mortas, a Chacina de Vigário Geral, também no Rio de Janeiro, deixando 21 pessoas mortas. Seiscentos garimpeiros brasileiros mataram 30 índios ianomâmis, incluindo dez crianças, e a moeda brasileira passou a Cruzeiro Real (1000 cruzeiros = 1 cruzeiro real). Foi um ano de muitas transformações, inclusive em Nísia Floresta.

Vamos voltar ao detalhe do padre falando ao microfone defronte à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Após o discurso improvisado, o silêncio retomou assento, mas nas casas houve burburinho. O aparelho celular ainda não tinha dado a sua graça no município. O telefone convencional atendia a cidade inteira, guardado num Posto Telefônico. Os nativos se encarregaram de disseminar a notícia por todo o município através do mais antigo meio de comunicação: a boca. Não se falava em outro assunto por onde se andasse. Reforçava-se ali, por parte dos fiéis, o entendimento de que os servos de Deus devem se unir aos que são massacrados, e não aos que massacram. E que somente unidos são fortes, e que essa força deve ser promotora de protestos iguais aquela greve. O povo gostou. O povo de dentro da igreja também gostou.

Nessa época João Paulo II era o Papa, e o Sumo Pontífice se encarregava de dar à Igreja um olhar mais popular. Teologia da Libertação em alta. A cidade com um histórico rico em práticas de justiça e liberdade, com resquícios do famosos “Movimento de Natal” e berço do primeiro gesto concreto da Campanha da Fraternidade. A atitude do padre de Papari encontrou solo fértil e só fechou o círculo.

Ainda em 1993 alunos da Escola Municipal Yayá Paiva ensaiavam a peça Teatral “História de Nísia Floresta”, e se enfronhavam nas ideias de luta por liberdade e justiça, instigados pelos estudos que faziam de textos da intelectual Dionísia Gonçalves Pinto. Tudo convergia para uma semente de mudança. As palavras “justiça”, liberdade”, “civilidade”, “luta por direitos” tomavam o lugar das palavras de massacrar.

Em alvoroço, a Câmara de vereadores se reuniu imediatamente para discutir o assunto concebido por eles como ingerência política do padre. O sacerdote, de representante de Deus, virou representante do diabo nas palavras das “inselênças otoridades”. O presidente da Casa Legislativa dirigiu uma carta cheia de acusações ao arcebispo Dom Alair, que imediatamente convocou o Conselho Presbiterial e mandou chamar o padre João Batista. Diante de uma enorme assembleia o jovem sacerdote expôs os fatos, recebendo apoio do representante máximo da Igreja no estado.

Coincidentemente estavam sendo construídas as primeiras casas populares para serem doadas às famílias carentes, que não tinham como adquirir por via dos seus proventos. O povo realmente carente tomou conhecimento de que ao invés de essas casas serem doadas aos mesmos, seriam entregues aos eleitores do prefeito e dos vereadores. E isso já estava acontecendo. Resultado: invadiram todas as casas, antes que as mesmas recebessem piso e reboco. Houve um fervilhar na cidade. Não havia outro assunto.

O gestor comunicou o fato à Justiça, e através de um Mandado Judicial, deslocou-se um pelotão de policiais militares de Natal para Nísia Floresta. Viriam para desalojar os “invasores”. Imediatamente Dom Jaime, então reitor do Seminário São Pedro, deslocou-se a Nísia Floresta, a pedido do arcebispo. Ao mesmo tempo vieram para as terras paparienses a professora Fátima Bezerra, Presidente do Sinte-Natal, hoje governadora. Já estava no local o Irmão Nilton, diretor da Casa Marista local, que funcionava onde hoje está o Museu Nísia Floresta. Esse irmão também envolvera-se no movimento de greve anteriormente comentado. Sua participação intensa ao lado de João Cordeiro foi fundamental para se dar um novo caminho a Educação nisiaflorestense. A cidade parou. Clima de grande tensão.

Como não poderia ser diferente, estava ali, desde o início, adiante de tudo, o jovem padre João Batista, chamado aquela época “João Coragem”, o qual interviu no contato entre a polícia e o povo, então chamados de “invasores das casas Irã/Iraque” (Durante muito tempo esse conjunto arrastou esse apelido dado pelo próprio povo). Temendo um confronto desleal entre polícia militar e o povo, o sacerdote comunicou que o sensato naquele momento seria que todos deixassem as casas. Uma senhora de 100 anos, pobre de Jó, alegou que não tinha para onde ir. O sacerdote alegou que todos estariam alojados em algum local, nem que fosse dentro da Casa Paroquial, e ninguém ficaria sem o “pão de cada dia”. Então a multidão desvalida, semelhante aos seguidores de Antonio Conselheiro, saíram em procissão, num dos momentos mais emocionantes que se tem notícia nas terras onde o santo-padre João Maria residiu.

Curiosos se somaram ao cortejo, descendo como enxurrada até a porta da Prefeitura Municipal. Naquele mesmo instante alguns fiéis católicos trouxeram comida e o mínimo conforto para que os homens ali se alojassem. Fizeram trempes e prepararam um sopão. As mulheres foram encaminhadas para o Centro Pastoral.

No dia seguinte o padre João Batista foi até a LBA e conseguiu muitas cestas básicas, colchões e cobertores. Foram erguidos barracos de lona e uma bandeira do Brasil foi hasteada no local. Nessa mesma manhã foi montado um sistema de som. O padre conversou com os desalojados e convidou o prefeito a se fazer presente. A Prefeitura funcionou de portas fechadas. Os funcionários entravam pelos fundos. O Prefeito não apareceu. O padre, sabendo que todos os funcionários o ouviam, e que dariam o recado ao gestor, disse que o mais sensato e honesto para aquele momento era fazer uma triagem e se escolher verdadeiramente os sem teto. Orientou que assistentes sociais fizessem uma triagem honesta, ignorando a orientação equivocada de favorecer apenas eleitores do Prefeito. E tudo se encerrou, pelo menos naquela manhã.

Diante da omissão do gestor, Dom Alair mandou para Nísia Floresta o seu bispo auxiliar, Dom Costa. A cidade parou para aguardá-lo. Veio gente de todos os distritos, solidarizados com os desalojados. Foram acolhê-los na entrada da cidade. Bem na frente da casa de Yayá Paiva. O padre João Batista orientou que ninguém usasse veículos públicos, e mesmo assim o povo veio a pé, trazendo nas mãos cartazes, faixas, papelões com frases solidárias.

Foi decidido que o ponto de encontro seria no Porto. Na capelinha, onde Dom Costa crismou alguns jovens. Foi instalado um caminhão em cuja carroceria ele celebrou missa na presença do Padre João Batista e toda a Comunidade Marista residente em Nísia Floresta, dentre irmãos maristas que vieram de Natal. Em seguida o bispo-auxiliar conversou com a multidão que tomou conta das ruas daquele lugarejo. Nos carros mais afastados diversos políticos, secretários e famílias tradicionais contrárias ao movimento, ouviam tudo atentamente, camufladas pelos vidros fumês de seus veículos (aquela história dita acima: “de gostar de penumbra”).

Um dos momentos mais impressionantes e comoventes foi quando o bispo-auxiliar – inesperadamente - disse ao microfone: “SENHOR PREFEITO, VENHA AQUI, AGORA, DIZER O QUE O SENHOR ESTÁ DIZENDO COM O MEU PADRE!” Nesse instante, se caísse uma agulha so chão, teria o mesmo som de um pequeno sino, pois o silêncio era sepulcral. As pessoas se entreolhavam, entendendo as coisas. Dom Costa, seguidos da Teologia da Libertação, era ligado ao movimento dos Sem Terra e Sem Teto. Adepto da “Teologia da Enxada”. Sua fala e coragem não poderiam ser diferentes.

Enfim, esse episódio presenciado por mim, inaugurou uma invisível pedra fundamental da nova educação municipal. Estava plantada uma semente de uma árvore que cupim não roi. Nos anos seguintes foram acontecendo transformações sutis, culminando com o que se chegou no presente. Ministério Público em ação, escavacando tudo, exigindo ações na forma da lei. Prefeito insistindo de navegar contra a maré. A Prefeitura Municipal num verdadeiro cabide de emprego de familiares de faniliares e amigos de amigos. Com muito sacrifício houve um concurso público para professores, cujos detalhes todos sabem e evidenciam o nível do executivo e legislativo daquele tempo. Quase todas as conquistas seguintes se deram mediante greves e protestos, reforçando a ideia de que os sinos, sejam da igreja, sejam dos professores e de onde quer que repiquem, devem dobrar sempre.

Por tudo o que acompanho e sou testemunha, o Sinte de Nísia Floresta é uma instituição forte e respeitável. Um dos mais organizados e bem geridos do RN, inclusive atualmente nas mãos do professor Josivaldo do Nascimento, um baluarte da causa da Educação por excelência. É um pilar de dignidade e honra do município de Nísia Floresta. Josivaldo talvez seja detestado por alguns – pudera! – é uma das raras pessoas que não se vendem. E falem o que quiserem desse brasileiro, pode aparecer alguém igual a ele no futuro, mas superior à sua firmeza e ao seu preparo intelectual na defesa da causa, será muito difícil.


O Sinte de Nísia sintetiza um instrumento de luta por escolas melhores, por dignidade à educação das crianças e dos jovens, por professores qualificados e com salários dignos. O Sinte-Nísia é ambiente de Educação, e apesar de a luta continuar, tal instituição não lembra em nada o medievalismo do episódio narrado acima, muito embora jamais se deve squecer de quem na frente, abrindo caminho a facão, como João Cordeiro. Creio que essa instituição se tornou forte pois foi marchetada sobre o suor e a luta de vários educadores. Não há como ser diferente.

Hoje, quando os sinos da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó dobram, mesmo rachado e quase inaudível, e tendo passado 27 anos, lembram o repique de 1993... lembram a greve dos professores nisiaflorestenses, marco de dignidade e justiça. Marco de que ninguém deve se calar diante de injustiça alguma. Creio que o Sinte-Nísia deveria ter em sua entrada um sino como símbolo de resistência e conquista. E que os sinos dobrem sempre quando a palavra for Educação...

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Severino Vicente e Deífilo Gurgel




Escrever sobre quem se conhece parece difícil quando quem escreve opta por uma ótica racional. Foi assim que assisti a palestra do nosso confrade, o escritor SEVERINO VICENTE, da Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, hoje, dia 31 de outubro de 2015, durante o CURSO DE FOLCLORE ministrado pela citada instituição.

 

Apesar de ter cultivado uma amizade muito próxima com o saudoso professor DEÍFILO GURGEL, ele manteve um discurso racional ao falar do amigo. E é com esse mesmo olhar racional que escrevo as minhas impressões sobre a fala do Professor Severino Vicente. Na realidade ocorreram mais duas importantes palestras - hoje - mas optei por falar sobre as demais nas próximas postagens, diferente do que costumo fazer, pois senti um incômodo muito grande com o discurso do referido professor. Ao mesmo tempo ele tocou num assunto que deve chegar ao maior número de pessoas, vislumbrando o devido respeito ao Folclore/Cultura Popular.

 

Severino Vicente é autor de importantes obras sobre Folclore/Cultura Popular. É presidente da Comissão Nacional de Folclore e Presidente de Honra da Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore. Um dos mais importantes nomes quando se fala em abnegados pesquisadores do referido assunto em nível de Brasil. Se não for o maior atualmente.

 


Costumo dizer que nesse assunto ele é o pilar principal do nosso país, pois, apesar de se tratar de um pesquisador atualizado, não abre mão de que, em Folclore, a essência deve ser sempre intocável. Essa visão é diferente de muitos que se proclamam estudiosos, mas diluem a tal ponto certas manifestações da cultura popular, ou as deturpam de tal maneira que, no "frigir dos ovos", ninguém sabe mais o que é cultura popular, o que é folclore o que é parafolclórico, o que é moderno, o que é releitura, o que é música popular, o que é música popularesca, o que é fruto de alienação cultural etc (isso não quer dizer que o folclore não esteja mais vivo; pelo contrário, está tão presente que nem imaginamos).

 

Deífilo Gurgel era discípulo de Câmara Cascudo. Depois dele, ninguém pesquisou tão profundamente o folclore do Rio Grande do Norte da sua época. Ele escreveu várias obras riquíssimas no ramo, tendo a sua primeira obra datada de 1981, inclusive o Professor Severino Vicente trouxe para o auditório todas as obras do professor Deífilo Gurgel e apresentou breves comentários sobre cada uma.

 

Poucos sabem, mas Deífilo Gurgel foi pesquisar o referido assunto depois de "velho" (assim ele mesmo dizia). Talvez esse detalhe o fez ser tão abnegado a ponto de querer salvaguardar o que via no seu tempo. Graças a Deus! Tal comportamento o fez não gostar de se ausentar muito do RN, sua eterna inspiração.

 

Dentre alguns pontos importantes da explanação do Professor Severino Vicente, um deles chamou a minha atenção de forma especial e, confesso, gerou-me indignação. Observei também que o referido professor, apesar de manter um diálogo muito sereno, respeitoso, sensato - e racional, obviamente - não escondeu a mesma indignação.

 

Falo da maneira indevida como a UFRN tratou o Professor Deífilo Gurgel e suas pesquisas. O Professor Severino Vicente não usou essas palavras, mas não foi nada mais ou menos que isso. Não houve o devido respeito com o trabalho desse respeitável pesquisador. Tudo isso pelo fato de Deífilo Gurgel não possuir o título de doutor. Não lhe proveram dos necessários recursos econômicos para a pesquisa. Ora, que bobagem!

 

Desafio quem em sua época ou até mesmo hoje - da UFRN - tem um terço do conhecimento sobre Folclore/Cultura Popular, a ponto de ser comparado a Deífilo Gurgel. Falo de um pesquisador inato, abnegado, minucioso, incansável, apaixonado... Ele escrevia com propriedade, profundidade, substancialidade, riqueza de detalhes, nem por isso se despia da necessária cientificidade. Mas parece que nossa instituição não percebeu isso. Que pena!  O altruísmo do Professor Deífilo Gurgel era tanto que ele sobrepujou essa política incompreensível e fez milagres, produzindo às suas custas e de alguns admiradores, diversas obras de excepcional valor. Imagine se esse homem tivesse manifestado a mesma aquietação da UFRN?

 

É certo que o seu legado se deve - de certo modo - à instituição na qual ele era professor, mas nada se compara ao que ele produziu, sozinho, bancado por suas economias, perquirindo os recônditos mais inóspitos do Rio Grande do Norte para garantir o registro fiel às novas gerações. É impossível estudar Folclore e Cultura Popular do Rio Grande do Norte sem conhecer as obras desse pesquisador. Quisera a UFRN ter se dado conta disso à época!

 

Entendo que essa respeitável instituição educacional pecou por priorizar algo irrelevante diante do homem monumental que integrava o seu quadro docente. O fato de se tratar de um professor, de certo modo adiantado na idade àquela época (a julgar pelo perfil atual de professores doutores com menos de trinta anos), ignoraram que ele sabia o "caminho das pedras", tinha maturidade e profundidade no assunto, incomparáveis a qualquer professor universitário de sua época e até mesmo atualmente. Ninguém melhor do que ele para receber todo o aparato financeiro para se aprofundar em suas pesquisas pelo Rio Grande do Norte da sua época.

 

Faltou ao ambiente acadêmico - não diria o jeitinho brasileiro - mas rever sua política e fazer o diferencial. Não era oportuno a ele iniciar um doutorado em adiantadas primaveras, pois ou se dedicava ao estudo (que não tem segredos, mas exige muito tempo) ou ia atrás das suas pesquisas sobre cultura popular. Ele preferiu gastar os seus últimos tempos (menos da metade do que já havia vivido até então) para se debruçar apaixonadamente no seu objeto de estudo. E morreu com um caderninho "sambado" de tanto anotar coisas e um "catoco" de lápis nas mãos. Morreu pesquisando.

 

Como disse o próprio professor Severino Vicente, nada pode ser comparado à obra de Câmara Cascudo, o qual era um gênio (só essa afirmação basta), mas em se tratando de outro tempo, de outro momento, o professor Deífilo Gurgel marcou época e deixou um legado digno do respeito de todos, inclusive dos doutores atuais da UFRN no âmbito de Folclore/Cultura Popular, os quais deveriam tê-los como Bíblia.

 

Hoje, quando vejo o Professor Severino Vicente destacando esse ponto importante da história de Deífilo Gurgel, entendo que isso não acontece por acaso. Até parece algo providencial, pois cabe a todos valorizar, divulgar, enaltecer o trabalho de quem continua hoje essa missão tão importante. É o caso de Severino Vicente.

 

Dia desses, lendo um livro na área de Cultura Popular, escrito por uma Professora Doutora, tive pena. Lastimável que uma instituição tão séria, gaste dinheiro e tempo para produzir coisas tão diluídas e tímidas. Pena que uma instituição federal dê todas as condições econômicas para um doutor produzir algo tão amplo e dispendioso, mas, ao mesmo tempo, tão fraco. Isso jamais deveria chegar às escolas e bibliotecas brasileiras, pois não contribui em nada. O que é diferente das obras de Deífilo.

 

Quisera os reitores brasileiros, diretores de escolas, ocupantes de pastas nas áreas de educação e cultura, ministro da Educação etc. integrarem uma assembléia para ouvir uma explanação como essa do Professor Severino Vicente (verdadeiro presente). É pela inexistência desse momento tão necessário que assistimos os ambiente que promovem o conhecimento e a cultura cometendo equívocos imperdoáveis.

 

Hoje, quando vejo as crianças trocando o nosso Saci Pererê, ou melhor, a nossa Cultura Popular pelo "Hallowen" -  pasmem! dentro das próprias escolas -,  entendo porque assistimos a uma juventude tão vazia e alienada, com exceções obviamente. Decepcionante é saber que dentro de muitas instituições educacionais;culturais, que deveriam educar e levar-nos ao pensar, existam professores a alunos dizendo: "travessuras ou gostosuras?". Viva Deífilo! Leiamos Deífilo! Leiamos Severino Vicente. (L.C.F. 31.10.2015)