PÉROLAS DO DIÁRIO DE HUMBERTO DE CAMPOS
Há 87 anos foi publicada a obra póstuma Fragmentos de um Diário (1939), do maranhense Humberto de Campos, membro da Academia Brasileira de Letras. Seu filho, Henrique de Campos organizou a obra, compilando escritos que o pai havia publicado de forma fragmentada. São recortes de suas memórias. E eu, que gosto de ler livros velhos - que para mim me devolvem um tempo que sinto ter pertencido sem que possa explicar - encontro uma referência ao nosso Eloi Castriciano de Souza. A passagem documenta uma conversa de bastidores políticos ocorrida entre parlamentares nos corredores da Câmara dos Deputados. A conversa se deu numa tarde sem sessão, em maio de 1928, quando reuniram-se informalmente o escritor Humberto de Campos, o médico e romancista Afrânio Peixoto, o político Manoel Vilaboim e o potiguar Eloi de Souza. A conversa girava em torno dos meandros da política da Primeira República, especialmente das articulações relacionadas à sucessão presidencial de Rodrigues Alves, em 1906, e das candidaturas que se seguiram ao falecimento de Afonso Pena.
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| Humberto de Campos (Academia Maranhense de Letras). |
No relato, Humberto de Campos apresenta Eloi de Souza como testemunha e participante privilegiado das negociações que envolviam o poder político nacional. Amigo íntimo de importantes figuras do cenário brasileiro, entre elas Carlos Peixoto e o influente senador gaúcho Pinheiro Machado, Eloi compartilhou com os presentes episódios até então pouco conhecidos, que contrastavam com a versão oficial dos acontecimentos. Segundo o relato, Eloi revelou como Carlos Peixoto e João Pinheiro haviam articulado secretamente movimentos favoráveis e contrários a diferentes nomes da política mineira e gaúcha, em uma complexa rede de alianças e disputas que envolvia também figuras como Rui Barbosa e Wenceslau Brás. As revelações expunham, assim, a fragilidade e a natureza circunstancial de muitas das alianças políticas daquele período.
Para além desse registro preservado no diário de Humberto de Campos, Eloi Castriciano de Souza (1873–1959) ocupa lugar de grande relevância na história cultural e política do Rio Grande do Norte e do Brasil. Ele pertenceu a uma das famílias mais ilustres do Seridó e do Agreste potiguar. Era irmão de Auta de Souza (1876–1901), uma das mais expressivas e cultuadas poetisas da literatura mística e parnasiano-simbolista brasileira, e de Henrique Castriciano (1874-1947), importante poeta, jornalista e político, além de figura fundamental na criação da Liga de Ensino no Rio Grande do Norte. Um episódio particularmente significativo de sua trajetória foi sua participação na divulgação da obra da irmã. Foi o próprio Eloi de Souza quem levou pessoalmente ao Rio de Janeiro os manuscritos de Horto, de Auta de Souza, entregando-os a Olavo Bilac. Esse gesto contribuiu para viabilizar o histórico prefácio assinado pelo então chamado “Príncipe dos Poetas”.
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| Eloi Castriciano de Souza e Henriqueta Leopoldina Rodrigues de Souza, sua esposa. |
Como destacado representante do Rio Grande do Norte, Eloi de Souza exerceu os cargos de Deputado Federal e Senador da República em diferentes mandatos durante a República Velha. Reconhecido por sua capacidade de oratória e articulação política, participou ativamente dos debates relacionados às secas e ao desenvolvimento do Nordeste. Tamb´m foi autor de obras de referência sobre essas questões e sobre sua própria trajetória, entre elas O Calvário das Secas e Memórias. O trecho do diário de Humberto de Campos permite recuperar uma dimensão menos conhecida da trajetória de Eloi de Souza: a de um personagem profundamente inserido nos círculos de poder do Rio de Janeiro, então capital federal.
Nesse sentido, sua figura representa uma importante ponte entre a política oligárquica tradicional das primeiras décadas do século XX e a preservação da memória histórica e cultural do Rio Grande do Norte. O episódio registrado em 1928 também revela a existência de uma política construída não apenas nos espaços formais do Parlamento, mas igualmente em conversas reservadas, relações pessoais e articulações informais entre homens que ocupavam posições estratégicas na vida pública brasileira. Coisa que acontece até hoje...
Pois bem, eis que, envolto nesse livro velho de tempo, mas novo de informação - pelo menos para mim, acostumado aos ácaros das velhas letras - dou-me com esse pequeno fragmento aparentemente insignificante. Insignificante para quem não conheceu ELoi e tampouco Humberto de Campos...
UM POUQUINHO DE HUMBERTO CAMPOS PARA QUEM NÃO O CONHECE...
Humberto de Campos (1886–1934) foi um proeminente jornalista, crítico literário, político e escritor brasileiro, nascido em Miritiba (atual município de Humberto de Campos), no Maranhão. Membro da Academia Brasileira de Letras, onde ocupou a cadeira nº 20, ele alcançou imensa popularidade nas primeiras décadas do século XX graças ao seu estilo memorialista, crônicas vibrantes e contos marcados por uma fina ironia e sensibilidade social. Além de sua brilhante carreira na imprensa do Rio de Janeiro e de suas funções como deputado federal, sua figura ganhou contornos singulares após a sua morte, tornando-se uma personalidade central na literatura espírita devido às diversas obras psicografadas pelo médium Chico Xavier que foram atribuídas ao seu espírito...

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