ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O QUE SE COMIA NA PAPARY DOS TEMPOS DE NÍSIA FLORESTA...

 

Imagem criada por IA, baseada no texto, sem compromisso com fidelidade.

UM OUTUBRO PARA REENCONTRAR NÍSIA FLORESTA

Como tradicionalmente faço, muito antes de outubro começo a reunir ideias para compor os textos que, durante o mês, dedico a Nísia Floresta neste blog. Outubro tornou-se, assim, um período de presença mais intensa de Nísia por aqui. É também a maneira que encontrei de cumprir um propósito que me acompanha: continuar divulgando Nísia Floresta, levando sua história, sua obra e seu pensamento para além dos lugares onde já são conhecidos. Normalmente, Nísia é aquela personagem da nossa história que, mesmo depois de tantos anos, continua nos chamando para uma conversa ou inspirando-nos a ambientá-la nos espaços da própria história. A biografia nisiana está aí para todos conhecerem, seja neste blog, seja em outros portais digitais e em uma diversidade de livros, digitais e físicos, espalhados Brasil afora. Mas, para este mês de outubro, trago uma proposta diferente: compreender melhor o tempo de Nísia Floresta, conhecer o panorama de sua época e perceber o que foi contemporâneo a ela nos mais diversos aspectos, enfim, os textos terão predominantemente essa linha. Hoje é o dia do nascimento dela, mas sigo escrevendo até o final do mês. Há muito a descobrir nesse percurso. Este é, afinal, um convite. Um convite para acompanhar a série, para ler, para questionar, para lembrar... Outubro será o nosso mês de reencontro com Nísia Floresta. Seja bem-vindo a essa caminhada. (Luís Carlos Freire, pentaneto de Francisca Clara Freire do Revoredo, irmã da mãe de Nísia Floresta).

O QUE SE COMIA NA PAPARY DOS TEMPOS DE NÍSIA FLORESTA...

O que me move a escrever estas linhas não é apenas o interesse pela história de Nísia Floresta Brasileira Augusta, mas também uma curiosidade pessoal. São aquelas interrogações que surgem durante a leitura, quando a imaginação nos leva para além das páginas e que, uma vez instaladas na mente do pesquisador, recusam-se a desaparecer. Afinal, a história não se faz apenas de grandes acontecimentos políticos, livros célebres ou personagens extraordinários. Ela também se revela nas pequenas experiências do cotidiano, nos hábitos domésticos, nas relações familiares e, de maneira muito especial, à mesa. Poucas coisas nos permitem compreender tanto sobre uma sociedade quanto aquilo que ela produz, prepara e consome para se alimentar.

Há uma passagem registrada pelo viajante inglês Henry Koster em seu célebre livro Travels in Brazil (Viagens ao Nordeste do Brasil). No final deste texto, trancrevo o que ele escreveu. Em 1810, quando percorria a Capitania do Rio Grande do Norte, Koster encontrou-se com o português Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, propriet´rio do Sítio Floresta e futuro pai de Nísia Floresta Brasileira Augusta. A menina que se tornaria uma das maiores intelectuais da história do Brasil ainda não havia nascido - seu nascimento ocorreria apenas em 12 de outubro daquele ano -, mas sua família já estava ali, vivendo entre as lagoas, os engenhos, os coqueirais e as terras férteis da antiga Papary. O relato reproduzido por Adauto da Câmara revela um cenário extraordinariamente favorável à vida humana. Segundo Koster, Papary era “um vale estreito e profundo, do mais delicioso aspecto”, inteiramente cultivado e cercado por uma paisagem verdejante que contrastava com a secura observada em outras partes da capitania (KOSTER apud CÂMARA, 1941). A descrição não é apenas geográfica. Ela oferece pistas valiosas sobre a abundância agrícola e alimentar da região.

Koster foi convidado a pernoitar na localidade e acabou sendo recebido pelo próprio Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa. Em seu relato, informa que o futuro pai de Nísia era português e havia se casado com uma brasileira, Dona Antônia Clara Freire do Revoredo. Acrescenta ainda que ambos lhe pareceram “bastante prósperos” (KOSTER apud CÂMARA, 1941). O viajante participou de uma refeição na residência da família e observou um detalhe que o impressionou profundamente: Dona Antônia estava presente à mesa, conversando naturalmente com o visitante estrangeiro. O fato era incomum para os padrões sociaiss da época, uma vez que muitas mulheres permaneciam recolhidas durante as visitas masculinas. Inclusive antes dessa visita, ele havia estado com André de Albuquerque Maranhão, no engenho Cunhaú, onde ficou impressionado com a quantidade de comidas e doces que a família punha à mesa e, assim como nas demais províncias que visitou, constatou as mulheres recolhidas. Esse ambiente familiar com essas características incomuns – portanto modernas para a época – podem nos ajudar a compreender algumas das características que marcariam a futura educadora brasileira. Mas, para além das relações sociais, o episódio desperta outra questão igualmente fascinante: o que se comia naquela casa? Que alimentos foram servidos a Henry Koster naquela noite de 1810? Qual era a alimentação do povo de Papary àquela época?

A pergunta pode parecer secundária. Não é. A alimentação constitui uma das formas mais ricas de compreender uma sociedade. Ao investigar o que um povo come, descobrimos sua economia, seus hábitos, suas relações sociais, sua condição social, suas técnicas produtivas e até mesmo suas formas de pensar o mundo. Em muitos casos, uma refeição diz mais sobre uma época do que longos documentos oficiais. E é justamente por isso que a mesa da família de Nísia Floresta merece atenção.

Outra referência igualmente intrigante – referente à alimentação – encontra-se na própria obra da escritora. Em Trois ans en Italie, suivis d'un voyage en Grèce, ao recordar sua infância e a antiga prosperidade da propriedade familiar, Nísia registra uma lembrança de enorme valor histórico: “Lembro-me ainda que, na propriedade dos meus queridos pais, a próspera Floresta de antanho, arrasada pelo vendaval das revoluções pelos infortúnios da família, havia entre outras belas árvores, uma mangueira de imenso tamanho, a cuja sombra meu pai dispôs mesas para duzentos convivas, em uma festa que deu em 1 de outubro” (NÍSIA FLORESTA apud CÂMARA, 1941). A passagem é extraordinária. Alimentar duzentas pessoas na primeira metade do século XIX não era tarefa simples. Exigia recursos financeiros, disponibilidade de gêneros alimentícios, mão de obra para o preparo dos alimentos e uma logística doméstica considerável. À propósito, Koster escreve que aquela família demonstrava ser abastada. Uma festa desse porte, certamente com convidados de Goianinha e vizinhanças, onde residiam todos os tios e avós de Nísia nos parece admirável. Essa abundância que caracterizava a antiga Floresta nos conduz inevitavelmente a uma nova pergunta: o que foi servido àqueles duzentos convidados?

Para responder, ainda que parcialmente, a essa questão, é necessário reconstruir o universo alimentar da antiga Papary e obviamente as vizinhanças. Felizmente, contamos com a contribuição de estudiosos como Luís da Câmara Cascudo, cuja monumental História da Alimentação no Brasil permanece como uma das maiores referências sobre os hábitos alimentares brasileiros. Segundo Cascudo, a culinária nordestina do século XIX resultava do encontro entre tradições ind´genas, portuguesas e africanas. No caso de Papary, poucos ingredientes eram tão importantes quanto a mandioca. Muito antes de o pão tornar-se presença constante nas mesas brasileiras, era a farinha de mandioca que sustentava a população. Farinha seca, pirões, beijus, tapiocas, grudes, mingaus e inúmeros outros derivados apareciam diariamente nas refeições. Nenhum grande banquete da época poderia ser imaginado sem a presença abundante desses produtos. Também usei um estudo sobre a linguagem regional, feito por mim, onde documentei diversos alimentos típicos do município de Nísia Floresta.

Também não se pode esquecer a contribuição dos africanos escravizados e de seus descendentes, cuja presença era significativa nos engenhos, sítios e propriedades rurais da antiga Papary. Como demonstra Câmara Cascudo, muitos hábitos alimentares incorporados à culinária nordestina resultaram diretamente dos conhecimentos trazidos pelos povos africanos e recriados no Brasil. O aproveitamento integral dos alimentos, os modos de temperar carnes, peixes e legumes, bem como diversas técnicas de cozimento, receberam forte influência dessas populações. Nas cozinhas dos engenhos e das casas senhoriais, mulheres negras escravizadas exerciam papel fundamental no preparo das refeições cotidianas e festivas, tornando-se verdadeiras guardiãs e transmissoras de saberes culinários.

O feijão, em suas diversas variedades, ocupava lugar importante na alimentação popular. Preparado com carnes salgadas, toucinho ou apenas com temperos simples, constituía um alimento nutritivo e acessível. O consumo de inhame,jerimum, quiabo e outros vegetais amplamente difundidos entre as populações afrodescendentes também fazia parte do universo alimentar regional. Muitos desses ingredientes podiam ser cultivados nos roçados mantidos pelos próprios escravizados ou adquiridos nos pequenos circuitos de troca que existiam nas comunidades rurais.

Ao lado da mandioca encontrava-se outro elemento fundamental: o pescado. Nesse aspecto, o testemunho de Henry Koster é particularmente revelador. O viajante observou que Papary possuía uma vantagem singular: embora distante do mar, contava com uma lagoa de água salgada – também chamada de Papary –, onde a maré subia e descia regularmente, permitindo que os pescadores chegassem até a povoação em pequenas embarcações carregadas de peixe fresco. A cena descrita por Koster é memorável. Segundo ele, toda a população se reunia para receber os pescadores, numa movimentação que lhe recordava o famoso mercado de peixes de Billingsgate, em Londres. Não se trata apenas de uma observação curiosa. Ela demonstra que o pescado constituía um dos pilares da alimentação local.

Imagem criada por IA, baseada no texto, sem compromisso com fidelidade.

Hoje muitos conhecem a lagoa por sua beleza paisagística. Poucos imaginam que, no inicio do século XIX, ela representava também uma das mais importantes fontes de alimento da região. Tainhas, curimatãs, traíras e inúmeras outras espécies abasteciam diariamente as mesas locais. Mas a riqueza alimentar de Papary não se limitava aos peixes. Os diversos rios, lagoas, braços de maré, gamboas e manguezais da região eram extraordinariamente ricos em crustáceos e moluscos. Camarões de várias espécies podiam ser encontrados em abundância, incluindo o célebre pitu, outrora comum nos mananciais locais e hoje praticamente desaparecido. Caranguejos, siris, goiamuns, ostras, mexilhões, lulas, polvos e até ouriços-do-mar integravam os recursos alimentares disponíveis para as populações costeiras e lagunares do Rio Grande do Norte. É perfeitamente plausível supor que muitos desses ingredientes chegassem com frequência às mesas das famílias paparyenses.

A partir dessa abundância natural, podemos imaginar uma culinária rica e diversificada. Os peixes poderiam ser preparados assados, cozidos, ensopados ou transformados em peixadas. Os camarões certamente apareciam em caldos, guisados, refogados e frituras. A farinha de mandioca permitia a elaboração dos tradicionais pirões, elemento indispensável da culinária nordestina. Pirões de peixe, de camarão, de siri e até de carne figuravam entre os pratos mais comuns da época. Também não seria improvável a presença de caldos engrossados com farinha, moquecas simples, cozidos de mariscos e outras preparações que combinavam ingredientes locais com técnicas herdadas de indígenas, portugueses e africanos. Inclusive é muito comum até hoje os “liguentos” feitos com peixe, água, sal, cheiro verde, farinha, preparados às margens das águas, em panelas grandes - originalmente de barro - improvisadas sob trempes.

A influência africana manifestava-se igualmente nos temperos e acompanhamentos. Embora o azeite de dendê não tenha alcançado no Rio Grande do Norte a mesma importância que adquiriu na Bahia, diversos preparos de peixes, mariscos e carnes incorporavam modos de cozinhar herdados das populações africanas. Refogados enriquecidos com cebola, alho, pimentas e ervas, além do uso frequente de panelas de barro e longos cozimentos, constituíam práticas amplamente difundidas. A presença de angu, papa de farinha, mungunzás e outros preparos à base de milho e mandioca também revela permanências culturais associadas à experiência alimentar afro-brasileira.

Além dos recursos fornecidos pelas águas, havia a pecuária. A carne bovina, geralmente consumida sob a forma de carne salgada ou carne de sol, fazia parte da dieta regional. O gado constituía uma das principais riquezas econômicas do sertão norte-rio-grandense e abastecia constantemente as áreas litorâneas. O leite e seus derivados também estavam presentes no cotidiano das famílias mais favorecidas. Coalhadas, queijos artesanais, manteiga da terra e outros produtos lácteos apareciam regularmente nas refeições. As aves domésticas - galinhas, patos e perus - também poderiam integrar os cardápios festivos.

As frutas completavam esse cenário de abundância. Manga, banana, coco, mamão, goiaba, jaca e caju eram consumidos ao natural ou transformados em doces e compotas. A própria lembrança da grande mangueira mencionada por Nísia Floresta sugere a importância das frutas no ambiente familiar. Próximo dali funcionavam importantes engenhos de açúcar, responsáveis pela produção de rapaduras, melados e diversos doces. Bolos de mandioca, bolos de milho, filhoses, alfeninns, cocadas e doces cristalizados certamente figuravam entre as sobremesas das celebrações mais importantes.

Entre os doces e quitutes, também é possível reconhecer heranças africanas. Cocadas, alfenins, bolos enriquecidos com coco ralado, além de preparações à base de melado e rapadura, resultavam frequentemente do encontro entre ingredientes locais e conhecimentos culinários desenvolvidos pelas cozinheiras negras dos engenhos. O coco, abundante no litoral sul-rio-grandense, permitia a elaboração de inúmeras receitas que se consolidaram como marcas da doçaria regional. Muitas dessas preparações eram servidas tanto em festividades religiosas quanto em celebrações familiares, perpetuando tradições transmitidas de geração em geração.

Quando pensamos na infância de Nísia Floresta, é muito provável que esse tenha sido o universo gastronômico que a cercou. A menina que cresceu observando as águas da lagoa, os coqueirais, os canaviais e os engenhos certamente conheceu os sabores produzidos por aquela terra. Talvez tenha saboreado beijus preparados segundo antigas tradições indígenas. Talvez tenha acompanhado a chegada dos pescadores descrita por Koster. Talvez tenha provado pirões fumegantes preparados com peixes recém-pescados ou camarões retirados dos mananciais da região. Talvez tenha participado das grandes refeições familiares que reuniam parentes, amigos, viajantes e convidados sob a sombra das árvores do Sítio Floresta.

Não sabemos exatamente o que estava sobre a mesa naquele encontro entre Henry Koster, Dionísio Pinto Lisboa e Dona Antônia Clara Freire do Revoredo, nem o que esteve presente no perpiodo de 1810 a 1824, quando Nísia deixou definitivamente a província do Rio Grande do Norte.. Também não dispomos de um cardápio detalhado do almoço oferecido aos duzentos convivas recordado por Nísia Floresta. Entretanto, os testemunhos de Koster, as memórias da própria escritora, os estudos de Câmara Cascudo e o estudo que fiz a partir de 1992, permitem reconstruir, com razoável segurança, o universo alimentar da antiga Papary. E o quadro que emerge é o de uma terra generosa, onde a fertilidade dos campos, a riqueza das águas, a produção dos engenhos e o trabalho humano se combinavam para criar uma culinária marcada pela fartura e pela diversidade. E até hoje - embora que de maneira mais diluída, pois, em caráter de exemplo, o camarão pitu desapareceu - essa gastronomia nativa segue quase intacta.

Seria impossível compreender essa culinária sem reconhecer o papel desempenhado pelos homens e mulheres africanos escravizados que viveram e trabalharam na região. Foram eles que, ao lado dos indígenas e dos colonizadores portugueses, ajudaram a construir os hábitos alimentares que caracterizaram a antiga Papary. Nas cozinhas das casas-grandes, nos engenhos, nos sítios e nos espaços comunitários, produziram adaptações criativas, combinaram ingredientes de diferentes origens e legaram técnicas culinárias que sobreviveram ao longo dos séculos. Assim, a mesa da infância de Nísia Floresta não era apenas um espaço de abundância material, mas também um lugar de encontro entre culturas diversas, cuja síntese se expressava diariamente nos alimentos consumidos por sua família e por toda a população local.

Ao reconstruirmos os sabores da antiga Papary, aproximamo-nos não apenas dos hábitos alimentares de uma época, mas da própria experiência humana vivida por Nísia Floresta e sua família. Afinal, antes de se tornar uma intelectual admirada na Europa, antes de fundar escolas, escrever livros e defender diversas ideia pioneiras, Nísia foi uma menina potiguar criada entre as mesas, os aromas, os frutos, os peixes, os crustáceos, os doces e as tradições culinárias de uma pequena vila do Rio Grande do Norte. E talvez exista uma forma particularmente bela de compreender a história: sentar-se, ainda que imaginariamente, à mesa daqueles que a viveram.

Nísia Floresta Brasileira Augusta

Pois bem, no estudo A Linguagem no Rio Grande do Norte: Dicionário de Vocábulos e Expressões Regionais Vernaculares e Contemporâneas, escrito a partir de 1992, e que publiquei no blog em 10 de setembro de 2009, reúno alimentos, pratos regionais, iguarias, doces, ingredientes, bebidas e expressões relacionadas ao ato de comer e beber de Nísia Floresta. Iniciei a pesquisa em 1992. Fiz um breve apanhado para não me estender muito, mas certamente eram comuns no tempo de Nísia Floresta. Alguns ainda estão presentes na culinária local, outros, raramente são vistos, como o cuscuz de mandioca mole. Vejamos:

Arroz de leite - Prato típico da região, preparado com arroz não parboilizado, cozido no leite de coco e temperado a gosto. É servido com consistência semelhante à de um arroz papa.

Bolo preto - Iguaria feita com rapadura, farinha de trigo, cravo, canela, erva-doce e castanha de caju. Os ingredientes são misturados e levados ao forno para assar.

Bredo - Planta comestível que nasce espontaneamente no mato, uma espécie de hortaliça silvestre. Antigamente, era consumida em saladas ou refogada com peixe e camarão, especialmente durante a Semana Santa. Hoje, é raramente consumida.

Cabeça de galo - Pirão muito ralo, preparado com farinha de mandioca, pimenta-do-reino, ovo, coentro, sal, tomate, cebola e pimentão. Alimento recomendado para pessoas adoentadas ou fracas.

Canjica - Comida feita de milho moído ou ralado, leite de coco, leite de gado ou água. No passado, fazia-se uma bolsinha de pano com diversas ervas juntas (erva-doce, cravo, canela), fervia-se tudo numa panela até ficar um chá forte, quase preto, e, pouco antes da canjica dar o ponto, acrescentava-se e mexia bem.

Canjicão - Iguaria feita com farinha de milho, leite, açúcar, leite de coco e especiarias. É servida em ponto bem mais duro que a canjica.

Carne guisada: carnes vermelhas preparadas com urucum, sal e coentro.

Carumaru - Antigo prato típico da Semana Santa, preparado com bredo, leite de coco, sal, pimenta-do-reino, coentro, tomate, cebola e pimentão. Poucas pessoas comiam peixe naquela semana, pois o carumaru era o prato tradicional. A expressão encontra-se em desuso.

Cachorro - Mistura de feijão e farinha, espremida na mão até formar uma espécie de bolinho. Essa denominação é menos utilizada que “raposa” ou “macaco”, que é a mesma coisa.

Cocadinha - Pequeno doce cortado no formato de cocada ou de uma pequena rapadurinha. Por mais antagônico que pareça, uma cocadinha nem sempre é literalmente de coco puro. Pode ser cocadinha de goiaba, cocadinha de amendoim, cocadinha de maracujá etc.

Cozido - Prato preparado com pés, mãos ou pernas de gado, acompanhado de diversos legumes e batata-doce, temperado a gosto. O caldo costuma ser utilizado para fazer pirão.

Cuscuz de milho: bolo de milho feito no vapor com massa de milho, água e sal. Nos primórdios o milho usado na confecção desses pratos era colocado na água na noite anterior e pilado pela manhã. As cuscuzeiras eram feitas de barro ou de uma banda de cabaça com furinhos, cobertas com pano, postas sobre uma vasilha com água fervente.

Cuscuz de mandioca mole – bolo de milho feito no vapor com a massa da mandioca mole (da mesma forma acima). Iguaria muito rústica, raramente apreciada nos dias atuais.

Farofa d'água - Farofa preparada com farinha de mandioca, manteiga, sal, cebola roxa, água fervente e coentro. Misturam-se a água fervente, a manteiga, o coentro e o sal; depois, acrescenta-se a farinha aos poucos, até a mistura ficar levemente grudenta e com pequenos grumos.

Farofa de banana verde - Iguaria preparada com banana verde cozida e coco ralado, pilados até adquirirem consistência semelhante à de farinha. Depois, a mistura é peneirada e recebe sal.

Farofa de coco - Preparada com coco ralado, pilado com farinha de mandioca e sal a gosto. Alguns colocam ervas, coentro etc.

Fato - vísceras de boi, incluindo tripa, bofe, bucho e livro. São alimentos feitos de diversos modos a depender do gosto.

Faúla - Mistura de miúdos bovinos vendidos juntos na feira, podendo conter pedaços de úbere, tripa, bofe, bucho, sangue enrijecido e livro. Desses produtos se faz buchada, sarapatel. Também se consomem no feijão ou feitos como guisado. Também se prepara no feijão. A tripa é muito apreciada assada na brasa. O costume, segundo Cascudo, veio de Portugal.

Feijão verde: como o nome diz, o feijão é colhido antes de amadurecer, preparado com água, sal e coentro. É comum acrescentar maxixe e quiabo. Nos primórdios era consumido com as próprias mãos, sem talheres, amassados com farinha de mandioca (macaco, raposa).

Liguento - Pirão de peixe fresco, preparado às margens dos rios, geralmente de maneira improvisada, em panelões velhos ou até em latas. O tempero é o mesmo utilizado na culinária local. É uma prática comum na região, sobretudo entre pescadores que passam o dia na água.

Manipueira - Líquido que escorre quando a mandioca é prensada nas casas de farinha. Pessoas mais humildes acrescentavam açúcar e leite de coco a essa seiva, servindo a mistura como uma espécie de suco para as crianças.

Mingau de macaxeira: muitos bebês eram alimentados com mingau ralo, feito com a fécula da macaxeira, água ou leite.

Mingau de milho: o mesmo processo acima.

Munguzá: milho cozido com água e finalizado com leite de gado e leite de coco, açúcar, canela ou cravo. O Munguzá do Nordeste não leva amendoim, como o de SP e MG.

Mussu - Peixe de coloração preto-amarelada, semelhante a uma pequena cobra (Piramboia). Em Nísia Floresta, prepara-se “mussu no coco”, ao estilo camarão no coco.

Paçoca - Comida típica preparada com carne de sol pilada, ou triturada no liquidificador, misturada com farinha de mandioca, cebola, alho, sal e coentro. Registra também a paçoca doce, feita de amendoim moído com açúcar.

Pamonha: bolo de milho ralado, preparado dengro de bolsas feitas da palha co milho verde, engenhosamente montadas. Leva açúcar, leite de gado ou leite de coco.

Pecado maneiro: espécie de beiju muito fino, feito com massa de mandioca e sal assado na pedra.

Raposa - Mistura de feijão com farinha, espremida na mão até formar pequenos bolinhos. É também chamada de “cachorro”, “macaco” e “raposa”.

Quarenta - Iguaria preparada com farinha de milho cozida no leite ou na água, com açúcar e manteiga. Na versão salgada, acrescentam-se diferentes temperos. É servida fria, em tigelas ou travessas, e consumida em pedaços, como um bolo. Nos primórdios o milho usado na confecção desses pratos – assim como o cuscuz – era colocado na água na noite anterior e pilado pela manhã.

Raiva - Pequenos biscoitos feitos com goma, leite de coco, leite de gado e açúcar.

Xaxado - Sobras de carne compradas na feira, compostas por pedaços variados de diferentes carnes, vendidos juntos.

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Cabumba - Cachaça muito forte, não submetida aos processos de destilação, pinga grosseira.

Peixe e camarão: são preparados nas mais diversas formas, na água grande (só água e temperos) e no leite de coco. Alguns acrescentam legumes e ervas.

Frango, carneiro, bezerro, porco: preparados de diversas formas.

Feijão e farinha - Ingredientes fundamentais da preparação regional. O arroz não era tão comum à época.

CITAÇÃO DE HENRY KOSTER:

1)       “Marchamos pelas duas horas. Tinha o projeto de caminhar até o por do sol e parar, então, perto de alguma cabana. Mas um moço nos encontrou e nos fez algumas perguntas. Ele morava em Papari, aldeia situada a uma meia légua da estrada. Insistiu tão fortemente para que eu o seguisse e passasse a noite em sua casa, que eu fui. Papari é um vale estreito e profundo, do mais delicioso aspecto. Inteiramente cultivado, este ano, particularmente, as terras são de um grande rendimento, porque não houve chuvas, e as terras arenosas ficaram estéreis. Com efeito, ao passo que, em todas as partes da região, o terreno parecia seco e queimado, neste vale se encontra uma frescura verdejante. É um sítio agradável, e os habitantes parecem, pela sua jovialidade, estimar o preço de uma tal morada. Papari goza anda de outra vantagem: conquanto distante do mar, três ou quatro léguas, encontra-se aí um lago de água salgada, de sorte que os habitantes podem ter peixe à porta. A maré sobe e desce nessa lagoa, que nunca está seca, porque, mesmo que os regatos de água doce que desaguam nela, estancassem, conservaria sempre uma porção de água do mar. Os pescadores sobem até Papari em suas pequenas jangadas, que não mergulham mais de um pé na água. Papari está a cerca de uma légua de Cunhaú. O senhor Dionísio apresentou-me à sua mulher. Ele é português e desposou uma brasileira. Possuem um pequeno pedaço de terra no vale, e me parecem bastante prósperos. Papari pode ter trezentos habitantes. Soube, depois, que, no corre do ano, muitas pessoas vêm a Papari, em virtude da absoluta falta de víveres no lugar em que moram. Fui à borda do lago para ver a chegada dos pescadores. Todo o povo do vale estava reunido para os receber: Era Billingsgate (o mercado de Peixes em Londres),  em miniatura, exceto que a língua portuguesa não me permite praguejar. Jantamos à moda brasileira, em uma mesa de cerca de seis polegadas de altura, em torno da qual nos assentamos, ou por outra, nos deitamos, em esteiras. Não tínhamos garfos; e as facas, em número de duas ou três, eram unicamente destinadas a cortar os grandes pedaços: os dedos deviam fazer o resto. Demorei em Papari um dia inteiro, afim de que meus cavalos tomassem um pouco de repouso, e para que eu pudesse, por intermédio do senhor Dionísio, comprar outro para o pobre Julio, cujos pés tinham sofrido muito por uma longa marcha em areia muito seca”. (Nas viagens, vol. I, cap. V, Henry Koster).

 

CITAÇÃO DE NÍSIA FLORESTA:

1)      : “Lembro-me ainda que, na propriedade dos meus queridos pais, a próspera Floresta de antanho, arrasada pelo vendaval das revoluções pelos infortúneos da família, havia entre outras belas árvores, uma mangueira de imenso tamanho, a cuja sombra meu pai dispôs mesas para duzentos convivas, em uma festa que deu em 1 de outubro” - Data do nascimento de Nísia. (Trois ans en Italie, suivis d’un voyage en Grèce, vol II, p. 347).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CÂMARA, Adauto da. História de Nísia Floresta. Rio de Janeiro: Pongetti, 1941.

CASCUDO, Luís da Câmara. História da Alimentação no Brasil. 4. ed. São Paulo: Global, 2011.

FLORESTA, Nísia. Trois ans en Italie, suivis d’un voyage en Grèce. Trad. Francisco das Chagas Pereira. Natal: EDUFRN, 1998.

FREIRE, Luís Carlos. A linguagem no Rio Grande do Norte: dicionário de vocábulos e expressões regionais vernaculares e contemporâneas. Nisiaflorestaporluiscarlosfreire, 10 set. 2009. Disponível em: https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2009/09/fala-nisiaflorestense-dicionario-de_10.html. Acesso em: 10 mai. 2026.

GOMES. Maria Marluce. História da Gastronomia no Rio Grande do Norte. Natal: Editora Alternativa, 2004. 186 p.


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