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UM OUTUBRO PARA REENCONTRAR NÍSIA FLORESTA
Como tradicionalmente faço, muito antes de outubro começo a reunir ideias para compor os textos que, durante o mês, dedico a Nísia Floresta neste blog. Outubro tornou-se, assim, um período de presença mais intensa de Nísia por aqui. É também a maneira que encontrei de cumprir um propósito que me acompanha: continuar divulgando Nísia Floresta, levando sua história, sua obra e seu pensamento para além dos lugares onde já são conhecidos. Normalmente, Nísia é aquela personagem da nossa história que, mesmo depois de tantos anos, continua nos chamando para uma conversa ou inspirando-nos a ambientá-la nos espaços da própria história. A biografia nisiana está aí para todos conhecerem, seja neste blog, seja em outros portais digitais e em uma diversidade de livros, digitais e físicos, espalhados Brasil afora. Mas, para este mês de outubro, trago uma proposta diferente: compreender melhor o tempo de Nísia Floresta, conhecer o panorama de sua época e perceber o que foi contemporâneo a ela nos mais diversos aspectos, enfim, os textos terão predominantemente essa linha. Hoje é o dia do nascimento dela, mas sigo escrevendo até o final do mês. Há muito a descobrir nesse percurso. Este é, afinal, um convite. Um convite para acompanhar a série, para ler, para questionar, para lembrar... Outubro será o nosso mês de reencontro com Nísia Floresta. Seja bem-vindo a essa caminhada. (Luís Carlos Freire, pentaneto de Francisca Clara Freire do Revoredo, irmã da mãe de Nísia Floresta).
O QUE SE
COMIA NA PAPARY DOS TEMPOS DE NÍSIA FLORESTA...
O que me move a escrever estas linhas não é
apenas o interesse pela história de Nísia Floresta Brasileira Augusta, mas
também uma curiosidade pessoal. São aquelas interrogações que surgem durante a
leitura, quando a imaginação nos leva para além das páginas e que, uma vez
instaladas na mente do pesquisador, recusam-se a desaparecer. Afinal, a
história não se faz apenas de grandes acontecimentos políticos, livros célebres
ou personagens extraordinários. Ela também se revela nas pequenas experiências
do cotidiano, nos hábitos domésticos, nas relações familiares e, de maneira
muito especial, à mesa. Poucas coisas nos permitem compreender tanto sobre uma
sociedade quanto aquilo que ela produz, prepara e consome para se alimentar.
Há uma passagem registrada pelo viajante inglês
Henry Koster em seu célebre livro Travels in Brazil (Viagens ao
Nordeste do Brasil). No final deste texto, trancrevo o que ele escreveu.
Em 1810, quando percorria a Capitania do Rio Grande do Norte, Koster
encontrou-se com o português Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, propriet´rio do
Sítio Floresta e futuro pai de Nísia Floresta Brasileira Augusta. A menina que
se tornaria uma das maiores intelectuais da história do Brasil ainda não havia
nascido - seu nascimento ocorreria apenas em 12 de outubro daquele ano -, mas
sua família já estava ali, vivendo entre as lagoas, os engenhos, os coqueirais
e as terras férteis da antiga Papary. O relato reproduzido por Adauto da Câmara
revela um cenário extraordinariamente favorável à vida humana. Segundo Koster,
Papary era “um vale estreito e profundo, do mais delicioso aspecto”,
inteiramente cultivado e cercado por uma paisagem verdejante que contrastava
com a secura observada em outras partes da capitania (KOSTER apud CÂMARA,
1941). A descrição não é apenas geográfica. Ela oferece pistas valiosas sobre a
abundância agrícola e alimentar da região.
Koster foi convidado a pernoitar na localidade e
acabou sendo recebido pelo próprio Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa. Em seu
relato, informa que o futuro pai de Nísia era português e havia se casado com
uma brasileira, Dona Antônia Clara Freire do Revoredo. Acrescenta ainda que
ambos lhe pareceram “bastante prósperos” (KOSTER apud CÂMARA, 1941). O viajante
participou de uma refeição na residência da família e observou um detalhe que o
impressionou profundamente: Dona Antônia estava presente à mesa, conversando
naturalmente com o visitante estrangeiro. O fato era incomum para os padrões
sociaiss da época, uma vez que muitas mulheres permaneciam recolhidas durante
as visitas masculinas. Inclusive antes dessa visita, ele havia estado com André
de Albuquerque Maranhão, no engenho Cunhaú, onde ficou impressionado com a
quantidade de comidas e doces que a família punha à mesa e, assim como nas
demais províncias que visitou, constatou as mulheres recolhidas. Esse ambiente
familiar com essas características incomuns – portanto modernas para a época –
podem nos ajudar a compreender algumas das características que marcariam a
futura educadora brasileira. Mas, para além das relações sociais, o episódio
desperta outra questão igualmente fascinante: o que se comia naquela casa? Que
alimentos foram servidos a Henry Koster naquela noite de 1810? Qual era a
alimentação do povo de Papary àquela época?
A pergunta pode parecer secundária. Não é. A
alimentação constitui uma das formas mais ricas de compreender uma sociedade.
Ao investigar o que um povo come, descobrimos sua economia, seus hábitos, suas
relações sociais, sua condição social, suas técnicas produtivas e até mesmo
suas formas de pensar o mundo. Em muitos casos, uma refeição diz mais sobre uma
época do que longos documentos oficiais. E é justamente por isso que a mesa da
família de Nísia Floresta merece atenção.
Outra referência igualmente intrigante –
referente à alimentação – encontra-se na própria obra da escritora. Em Trois
ans en Italie, suivis d'un voyage en Grèce, ao recordar sua infância e a
antiga prosperidade da propriedade familiar, Nísia registra uma lembrança de
enorme valor histórico: “Lembro-me ainda que, na propriedade dos meus queridos
pais, a próspera Floresta de antanho, arrasada pelo vendaval das revoluções
pelos infortúnios da família, havia entre outras belas árvores, uma mangueira
de imenso tamanho, a cuja sombra meu pai dispôs mesas para duzentos convivas,
em uma festa que deu em 1 de outubro” (NÍSIA FLORESTA apud CÂMARA, 1941). A
passagem é extraordinária. Alimentar duzentas pessoas na primeira metade do
século XIX não era tarefa simples. Exigia recursos financeiros, disponibilidade
de gêneros alimentícios, mão de obra para o preparo dos alimentos e uma
logística doméstica considerável. À propósito, Koster escreve que aquela
família demonstrava ser abastada. Uma festa desse porte, certamente com
convidados de Goianinha e vizinhanças, onde residiam todos os tios e avós de
Nísia nos parece admirável. Essa abundância que caracterizava a antiga Floresta
nos conduz inevitavelmente a uma nova pergunta: o que foi servido àqueles
duzentos convidados?
Para responder, ainda que parcialmente, a essa
questão, é necessário reconstruir o universo alimentar da antiga Papary e
obviamente as vizinhanças. Felizmente, contamos com a contribuição de
estudiosos como Luís da Câmara Cascudo, cuja monumental História da
Alimentação no Brasil permanece como uma das maiores referências sobre os
hábitos alimentares brasileiros. Segundo Cascudo, a culinária nordestina do
século XIX resultava do encontro entre tradições ind´genas, portuguesas e
africanas. No caso de Papary, poucos ingredientes eram tão importantes quanto a
mandioca. Muito antes de o pão tornar-se presença constante nas mesas
brasileiras, era a farinha de mandioca que sustentava a população. Farinha
seca, pirões, beijus, tapiocas, grudes, mingaus e inúmeros outros derivados
apareciam diariamente nas refeições. Nenhum grande banquete da época poderia
ser imaginado sem a presença abundante desses produtos. Também usei um estudo
sobre a linguagem regional, feito por mim, onde documentei diversos alimentos
típicos do município de Nísia Floresta.
Também não se pode esquecer a contribuição dos
africanos escravizados e de seus descendentes, cuja presença era significativa
nos engenhos, sítios e propriedades rurais da antiga Papary. Como demonstra
Câmara Cascudo, muitos hábitos alimentares incorporados à culinária nordestina
resultaram diretamente dos conhecimentos trazidos pelos povos africanos e
recriados no Brasil. O aproveitamento integral dos alimentos, os modos de
temperar carnes, peixes e legumes, bem como diversas técnicas de cozimento,
receberam forte influência dessas populações. Nas cozinhas dos engenhos e das
casas senhoriais, mulheres negras escravizadas exerciam papel fundamental no
preparo das refeições cotidianas e festivas, tornando-se verdadeiras guardiãs e
transmissoras de saberes culinários.
O feijão, em suas diversas variedades, ocupava
lugar importante na alimentação popular. Preparado com carnes salgadas,
toucinho ou apenas com temperos simples, constituía um alimento nutritivo e
acessível. O consumo de inhame,jerimum, quiabo e outros vegetais amplamente
difundidos entre as populações afrodescendentes também fazia parte do universo
alimentar regional. Muitos desses ingredientes podiam ser cultivados nos
roçados mantidos pelos próprios escravizados ou adquiridos nos pequenos
circuitos de troca que existiam nas comunidades rurais.
Ao lado da mandioca encontrava-se outro elemento
fundamental: o pescado. Nesse aspecto, o testemunho de Henry Koster é
particularmente revelador. O viajante observou que Papary possuía uma vantagem
singular: embora distante do mar, contava com uma lagoa de água salgada –
também chamada de Papary –, onde a maré subia e descia regularmente, permitindo
que os pescadores chegassem até a povoação em pequenas embarcações carregadas
de peixe fresco. A cena descrita por Koster é memorável. Segundo ele, toda a
população se reunia para receber os pescadores, numa movimentação que lhe
recordava o famoso mercado de peixes de Billingsgate, em Londres. Não se trata
apenas de uma observação curiosa. Ela demonstra que o pescado constituía um dos
pilares da alimentação local.
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Hoje muitos conhecem a lagoa por sua beleza paisagística. Poucos imaginam que, no inicio do século XIX, ela representava também uma das mais importantes fontes de alimento da região. Tainhas, curimatãs, traíras e inúmeras outras espécies abasteciam diariamente as mesas locais. Mas a riqueza alimentar de Papary não se limitava aos peixes. Os diversos rios, lagoas, braços de maré, gamboas e manguezais da região eram extraordinariamente ricos em crustáceos e moluscos. Camarões de várias espécies podiam ser encontrados em abundância, incluindo o célebre pitu, outrora comum nos mananciais locais e hoje praticamente desaparecido. Caranguejos, siris, goiamuns, ostras, mexilhões, lulas, polvos e até ouriços-do-mar integravam os recursos alimentares disponíveis para as populações costeiras e lagunares do Rio Grande do Norte. É perfeitamente plausível supor que muitos desses ingredientes chegassem com frequência às mesas das famílias paparyenses.
A partir dessa abundância natural, podemos
imaginar uma culinária rica e diversificada. Os peixes poderiam ser preparados
assados, cozidos, ensopados ou transformados em peixadas. Os camarões
certamente apareciam em caldos, guisados, refogados e frituras. A farinha de
mandioca permitia a elaboração dos tradicionais pirões, elemento indispensável
da culinária nordestina. Pirões de peixe, de camarão, de siri e até de carne figuravam
entre os pratos mais comuns da época. Também não seria improvável a presença de
caldos engrossados com farinha, moquecas simples, cozidos de mariscos e outras
preparações que combinavam ingredientes locais com técnicas herdadas de
indígenas, portugueses e africanos. Inclusive é muito comum até hoje os “liguentos”
feitos com peixe, água, sal, cheiro verde, farinha, preparados às margens das
águas, em panelas grandes - originalmente de barro - improvisadas sob trempes.
A influência africana manifestava-se igualmente
nos temperos e acompanhamentos. Embora o azeite de dendê não tenha alcançado no
Rio Grande do Norte a mesma importância que adquiriu na Bahia, diversos
preparos de peixes, mariscos e carnes incorporavam modos de cozinhar herdados
das populações africanas. Refogados enriquecidos com cebola, alho, pimentas e
ervas, além do uso frequente de panelas de barro e longos cozimentos,
constituíam práticas amplamente difundidas. A presença de angu, papa de
farinha, mungunzás e outros preparos à base de milho e mandioca também revela
permanências culturais associadas à experiência alimentar afro-brasileira.
Além dos recursos fornecidos pelas águas, havia a
pecuária. A carne bovina, geralmente consumida sob a forma de carne salgada ou
carne de sol, fazia parte da dieta regional. O gado constituía uma das principais
riquezas econômicas do sertão norte-rio-grandense e abastecia constantemente as
áreas litorâneas. O leite e seus derivados também estavam presentes no
cotidiano das famílias mais favorecidas. Coalhadas, queijos artesanais,
manteiga da terra e outros produtos lácteos apareciam regularmente nas
refeições. As aves domésticas - galinhas, patos e perus - também poderiam
integrar os cardápios festivos.
As frutas completavam esse cenário de abundância.
Manga, banana, coco, mamão, goiaba, jaca e caju eram consumidos ao natural ou
transformados em doces e compotas. A própria lembrança da grande mangueira
mencionada por Nísia Floresta sugere a importância das frutas no ambiente
familiar. Próximo dali funcionavam importantes engenhos de açúcar, responsáveis
pela produção de rapaduras, melados e diversos doces. Bolos de mandioca, bolos
de milho, filhoses, alfeninns, cocadas e doces cristalizados certamente
figuravam entre as sobremesas das celebrações mais importantes.
Entre os doces e quitutes, também é possível reconhecer
heranças africanas. Cocadas, alfenins, bolos enriquecidos com coco ralado, além
de preparações à base de melado e rapadura, resultavam frequentemente do
encontro entre ingredientes locais e conhecimentos culinários desenvolvidos
pelas cozinheiras negras dos engenhos. O coco, abundante no litoral
sul-rio-grandense, permitia a elaboração de inúmeras receitas que se
consolidaram como marcas da doçaria regional. Muitas dessas preparações eram
servidas tanto em festividades religiosas quanto em celebrações familiares,
perpetuando tradições transmitidas de geração em geração.
Quando pensamos na infância de Nísia Floresta, é
muito provável que esse tenha sido o universo gastronômico que a cercou. A
menina que cresceu observando as águas da lagoa, os coqueirais, os canaviais e
os engenhos certamente conheceu os sabores produzidos por aquela terra. Talvez
tenha saboreado beijus preparados segundo antigas tradições indígenas. Talvez
tenha acompanhado a chegada dos pescadores descrita por Koster. Talvez tenha provado
pirões fumegantes preparados com peixes recém-pescados ou camarões retirados
dos mananciais da região. Talvez tenha participado das grandes refeições
familiares que reuniam parentes, amigos, viajantes e convidados sob a sombra
das árvores do Sítio Floresta.
Não sabemos exatamente o que estava sobre a mesa
naquele encontro entre Henry Koster, Dionísio Pinto Lisboa e Dona Antônia Clara
Freire do Revoredo, nem o que esteve presente no perpiodo de 1810 a 1824,
quando Nísia deixou definitivamente a província do Rio Grande do Norte.. Também
não dispomos de um cardápio detalhado do almoço oferecido aos duzentos convivas
recordado por Nísia Floresta. Entretanto, os testemunhos de Koster, as memórias
da própria escritora, os estudos de Câmara Cascudo e o estudo que fiz a partir
de 1992, permitem reconstruir, com razoável segurança, o universo alimentar da
antiga Papary. E o quadro que emerge é o de uma terra generosa, onde a
fertilidade dos campos, a riqueza das águas, a produção dos engenhos e o
trabalho humano se combinavam para criar uma culinária marcada pela fartura e
pela diversidade. E até hoje - embora que de maneira mais diluída, pois, em
caráter de exemplo, o camarão pitu desapareceu - essa gastronomia nativa segue
quase intacta.
Seria impossível compreender essa culinária sem
reconhecer o papel desempenhado pelos homens e mulheres africanos escravizados
que viveram e trabalharam na região. Foram eles que, ao lado dos indígenas e
dos colonizadores portugueses, ajudaram a construir os hábitos alimentares que
caracterizaram a antiga Papary. Nas cozinhas das casas-grandes, nos engenhos,
nos sítios e nos espaços comunitários, produziram adaptações criativas, combinaram
ingredientes de diferentes origens e legaram técnicas culinárias que
sobreviveram ao longo dos séculos. Assim, a mesa da infância de Nísia Floresta
não era apenas um espaço de abundância material, mas também um lugar de
encontro entre culturas diversas, cuja síntese se expressava diariamente nos
alimentos consumidos por sua família e por toda a população local.
Ao reconstruirmos os sabores da antiga Papary,
aproximamo-nos não apenas dos hábitos alimentares de uma época, mas da própria
experiência humana vivida por Nísia Floresta e sua família. Afinal, antes de se
tornar uma intelectual admirada na Europa, antes de fundar escolas, escrever
livros e defender diversas ideia pioneiras, Nísia foi uma menina potiguar
criada entre as mesas, os aromas, os frutos, os peixes, os crustáceos, os doces
e as tradições culinárias de uma pequena vila do Rio Grande do Norte. E talvez
exista uma forma particularmente bela de compreender a história: sentar-se,
ainda que imaginariamente, à mesa daqueles que a viveram.
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| Nísia Floresta Brasileira Augusta |
Pois bem, no estudo A Linguagem no Rio Grande do Norte: Dicionário de Vocábulos e Expressões Regionais Vernaculares e Contemporâneas, escrito a partir de 1992, e que publiquei no blog em 10 de setembro de 2009, reúno alimentos, pratos regionais, iguarias, doces, ingredientes, bebidas e expressões relacionadas ao ato de comer e beber de Nísia Floresta. Iniciei a pesquisa em 1992. Fiz um breve apanhado para não me estender muito, mas certamente eram comuns no tempo de Nísia Floresta. Alguns ainda estão presentes na culinária local, outros, raramente são vistos, como o cuscuz de mandioca mole. Vejamos:
Arroz de leite - Prato típico da região,
preparado com arroz não parboilizado, cozido no leite de coco e temperado a
gosto. É servido com consistência semelhante à de um arroz papa.
Bolo preto - Iguaria feita com rapadura, farinha
de trigo, cravo, canela, erva-doce e castanha de caju. Os ingredientes são
misturados e levados ao forno para assar.
Bredo - Planta comestível que nasce
espontaneamente no mato, uma espécie de hortaliça silvestre. Antigamente, era
consumida em saladas ou refogada com peixe e camarão, especialmente durante a Semana Santa. Hoje, é raramente consumida.
Cabeça de galo - Pirão muito ralo, preparado
com farinha de mandioca, pimenta-do-reino, ovo, coentro, sal, tomate, cebola e
pimentão. Alimento recomendado para pessoas adoentadas ou fracas.
Canjica - Comida feita de milho moído ou
ralado, leite de coco, leite de gado ou água. No passado, fazia-se uma bolsinha
de pano com diversas ervas juntas (erva-doce, cravo, canela), fervia-se tudo
numa panela até ficar um chá forte, quase preto, e, pouco antes da canjica dar
o ponto, acrescentava-se e mexia bem.
Canjicão - Iguaria feita com farinha de
milho, leite, açúcar, leite de coco e especiarias. É servida em ponto bem mais
duro que a canjica.
Carne guisada: carnes vermelhas preparadas com
urucum, sal e coentro.
Carumaru - Antigo prato típico da Semana
Santa, preparado com bredo, leite de coco, sal, pimenta-do-reino, coentro,
tomate, cebola e pimentão. Poucas pessoas comiam peixe naquela semana, pois o
carumaru era o prato tradicional. A expressão encontra-se em desuso.
Cachorro - Mistura de feijão e farinha,
espremida na mão até formar uma espécie de bolinho. Essa denominação é menos
utilizada que “raposa” ou “macaco”, que é a mesma coisa.
Cocadinha - Pequeno doce cortado no
formato de cocada ou de uma pequena rapadurinha. Por mais antagônico que
pareça, uma cocadinha nem sempre é literalmente de coco puro. Pode ser
cocadinha de goiaba, cocadinha de amendoim, cocadinha de maracujá etc.
Cozido - Prato preparado com pés, mãos
ou pernas de gado, acompanhado de diversos legumes e batata-doce, temperado a
gosto. O caldo costuma ser utilizado para fazer pirão.
Cuscuz de milho: bolo de milho feito no vapor
com massa de milho, água e sal. Nos primórdios o milho usado na confecção
desses pratos era colocado na água na noite anterior e pilado pela manhã. As
cuscuzeiras eram feitas de barro ou de uma banda de cabaça com furinhos,
cobertas com pano, postas sobre uma vasilha com água fervente.
Cuscuz de mandioca mole – bolo de milho feito no vapor
com a massa da mandioca mole (da mesma forma acima). Iguaria muito rústica,
raramente apreciada nos dias atuais.
Farofa d'água - Farofa preparada com farinha
de mandioca, manteiga, sal, cebola roxa, água fervente e coentro. Misturam-se a
água fervente, a manteiga, o coentro e o sal; depois, acrescenta-se a farinha
aos poucos, até a mistura ficar levemente grudenta e com pequenos grumos.
Farofa de banana verde - Iguaria preparada com banana
verde cozida e coco ralado, pilados até adquirirem consistência semelhante à de
farinha. Depois, a mistura é peneirada e recebe sal.
Farofa de coco - Preparada com coco ralado,
pilado com farinha de mandioca e sal a gosto. Alguns colocam ervas, coentro
etc.
Fato - vísceras de boi, incluindo
tripa, bofe, bucho e livro. São alimentos feitos de diversos modos a depender
do gosto.
Faúla - Mistura de miúdos bovinos
vendidos juntos na feira, podendo conter pedaços de úbere, tripa, bofe, bucho,
sangue enrijecido e livro. Desses produtos se faz buchada, sarapatel. Também se
consomem no feijão ou feitos como guisado. Também se prepara no feijão. A tripa
é muito apreciada assada na brasa. O costume, segundo Cascudo, veio de
Portugal.
Feijão verde: como o nome diz, o feijão é
colhido antes de amadurecer, preparado com água, sal e coentro. É comum
acrescentar maxixe e quiabo. Nos primórdios era consumido com as próprias mãos,
sem talheres, amassados com farinha de mandioca (macaco, raposa).
Liguento - Pirão de peixe fresco,
preparado às margens dos rios, geralmente de maneira improvisada, em panelões
velhos ou até em latas. O tempero é o mesmo utilizado na culinária local. É uma
prática comum na região, sobretudo entre pescadores que passam o dia na água.
Manipueira - Líquido que escorre quando a
mandioca é prensada nas casas de farinha. Pessoas mais humildes acrescentavam
açúcar e leite de coco a essa seiva, servindo a mistura como uma espécie de
suco para as crianças.
Mingau de macaxeira: muitos bebês eram alimentados
com mingau ralo, feito com a fécula da macaxeira, água ou leite.
Mingau de milho: o mesmo processo acima.
Munguzá: milho cozido com água e finalizado
com leite de gado e leite de coco, açúcar, canela ou cravo. O Munguzá do
Nordeste não leva amendoim, como o de SP e MG.
Mussu - Peixe de coloração
preto-amarelada, semelhante a uma pequena cobra (Piramboia). Em Nísia Floresta,
prepara-se “mussu no coco”, ao estilo camarão no coco.
Paçoca - Comida típica preparada com
carne de sol pilada, ou triturada no liquidificador, misturada com farinha de
mandioca, cebola, alho, sal e coentro. Registra também a paçoca doce, feita de
amendoim moído com açúcar.
Pamonha: bolo de milho ralado, preparado
dengro de bolsas feitas da palha co milho verde, engenhosamente montadas. Leva
açúcar, leite de gado ou leite de coco.
Pecado maneiro: espécie de beiju muito fino,
feito com massa de mandioca e sal assado na pedra.
Raposa - Mistura de feijão com farinha,
espremida na mão até formar pequenos bolinhos. É também chamada de “cachorro”, “macaco”
e “raposa”.
Quarenta - Iguaria preparada com farinha
de milho cozida no leite ou na água, com açúcar e manteiga. Na versão salgada,
acrescentam-se diferentes temperos. É servida fria, em tigelas ou travessas, e
consumida em pedaços, como um bolo. Nos primórdios o milho usado na confecção
desses pratos – assim como o cuscuz – era colocado na água na noite anterior e
pilado pela manhã.
Raiva - Pequenos biscoitos feitos com
goma, leite de coco, leite de gado e açúcar.
Xaxado - Sobras de carne compradas na
feira, compostas por pedaços variados de diferentes carnes, vendidos juntos.
.............................
Cabumba - Cachaça muito forte, não
submetida aos processos de destilação, pinga grosseira.
Peixe e camarão: são preparados nas mais
diversas formas, na água grande (só água e temperos) e no leite de coco. Alguns
acrescentam legumes e ervas.
Frango, carneiro, bezerro, porco: preparados de diversas formas.
Feijão e farinha - Ingredientes fundamentais da
preparação regional. O arroz não era tão comum à época.
CITAÇÃO DE HENRY KOSTER:
1) “Marchamos pelas duas horas.
Tinha o projeto de caminhar até o por do sol e parar, então, perto de alguma
cabana. Mas um moço nos encontrou e nos fez algumas perguntas. Ele morava em
Papari, aldeia situada a uma meia légua da estrada. Insistiu tão fortemente
para que eu o seguisse e passasse a noite em sua casa, que eu fui. Papari é um
vale estreito e profundo, do mais delicioso aspecto. Inteiramente cultivado,
este ano, particularmente, as terras são de um grande rendimento, porque não
houve chuvas, e as terras arenosas ficaram estéreis. Com efeito, ao passo que,
em todas as partes da região, o terreno parecia seco e queimado, neste vale se
encontra uma frescura verdejante. É um sítio agradável, e os habitantes
parecem, pela sua jovialidade, estimar o preço de uma tal morada. Papari goza
anda de outra vantagem: conquanto distante do mar, três ou quatro léguas,
encontra-se aí um lago de água salgada, de sorte que os habitantes podem ter
peixe à porta. A maré sobe e desce nessa lagoa, que nunca está seca, porque,
mesmo que os regatos de água doce que desaguam nela, estancassem, conservaria
sempre uma porção de água do mar. Os pescadores sobem até Papari em suas
pequenas jangadas, que não mergulham mais de um pé na água. Papari está a cerca
de uma légua de Cunhaú. O senhor Dionísio apresentou-me à sua mulher. Ele é
português e desposou uma brasileira. Possuem um pequeno pedaço de terra no
vale, e me parecem bastante prósperos. Papari pode ter trezentos habitantes.
Soube, depois, que, no corre do ano, muitas pessoas vêm a Papari, em virtude da
absoluta falta de víveres no lugar em que moram. Fui à borda do lago para ver a
chegada dos pescadores. Todo o povo do vale estava reunido para os receber: Era
Billingsgate (o mercado de Peixes em Londres),
em miniatura, exceto que a língua portuguesa não me permite praguejar.
Jantamos à moda brasileira, em uma mesa de cerca de seis polegadas de altura,
em torno da qual nos assentamos, ou por outra, nos deitamos, em esteiras. Não
tínhamos garfos; e as facas, em número de duas ou três, eram unicamente
destinadas a cortar os grandes pedaços: os dedos deviam fazer o resto. Demorei
em Papari um dia inteiro, afim de que meus cavalos tomassem um pouco de
repouso, e para que eu pudesse, por intermédio do senhor Dionísio, comprar outro
para o pobre Julio, cujos pés tinham sofrido muito por uma longa marcha em
areia muito seca”. (Nas viagens, vol. I, cap. V, Henry Koster).
CITAÇÃO DE
NÍSIA FLORESTA:
1) : “Lembro-me ainda que, na propriedade dos meus queridos pais, a
próspera Floresta de antanho, arrasada pelo vendaval das revoluções pelos
infortúneos da família, havia entre outras belas árvores, uma mangueira de
imenso tamanho, a cuja sombra meu pai dispôs mesas para duzentos convivas, em
uma festa que deu em 1 de outubro” - Data do nascimento de Nísia. (Trois ans en Italie, suivis d’un
voyage en Grèce, vol II, p. 347).
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:
CÂMARA,
Adauto da. História de Nísia Floresta. Rio de Janeiro: Pongetti, 1941.
CASCUDO, Luís da Câmara. História da Alimentação no
Brasil. 4. ed. São Paulo: Global, 2011.
FLORESTA,
Nísia. Trois ans en Italie, suivis d’un voyage en Grèce. Trad. Francisco das
Chagas Pereira. Natal: EDUFRN, 1998.
FREIRE, Luís Carlos. A
linguagem no Rio Grande do Norte: dicionário de vocábulos e expressões regionais
vernaculares e contemporâneas.
Nisiaflorestaporluiscarlosfreire,
10 set. 2009. Disponível em: https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2009/09/fala-nisiaflorestense-dicionario-de_10.html.
Acesso em: 10 mai. 2026.
GOMES.
Maria Marluce. História da Gastronomia no Rio Grande do Norte. Natal: Editora
Alternativa, 2004. 186 p.



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