ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sábado, 19 de dezembro de 2020

Simplesmente inacreditável: imagem sacra de Nossa Senhora do Ó, de mais de 200 anos, quase se despedaça ao balroar uma árvore...


Este trecho de um texto, de 2014, comprova que os alertas vem sendo dado há anos.

Ontem à noite, já se aproximava das 23 horas, quando meu celular começou pipocar mensagens numa sequência quase sem fim. Percebi que eram de Nísia Floresta, pois quando chegam é possível ler as primeiras palavras. Eram frases de revolta e desespero referentes à imagem bicentenária de Nossa Senhora do Ó. Então fiquei sabendo que durante a procissão alguns fiéis católicos insistiram em mudar o curso da procissão, desviando-a para um local ermo, área de mata, que, inclusive, outros fiéis desaprovaram essa mudança não programada. Por ironia do destino, essa rua é conhecida por alguns como “rua dos crentes”, porque moram alguns evangélicos por ali. É uma rua quase sem casas, cercada de mato de ambos os lados. Enfim a procissão seguiu e, de repente, esbarrou numa grande árvore (as imagens de vídeo comprovam que não foi um galho fino). Então a procissão parou e houve um alvoroço para reorganizar a imagem e seguir a procissão. O que aumenta a perplexidade é que alguém grita no microfone "nós tivemos um pequeno problema... um pequeno acidente", ou seja, uma imagem de valor incalculável, de mais de duzentos anos se choca com uma árvore e isso é um "pequeno acidente".

É lastimável que isso tenha acontecido, pois não há como acreditar que os católicos não tenham consciência de que a imagem de Nossa Senhora do Ó tem mais de duzentos anos, e não pode mais mais ser retirada do nicho para tais eventos. É uma peça única e já era para ter substituída há décadas por uma réplica a ser usada em procissões. Em últimos casos, usarem a imagem de “Nossa Senhora do Ó Pequena”, como chamam os nativos, referindo-se à imagem original, mais antiga que essa, mas por ser bem menor, os riscos são incomparáveis.

 

 

 

Falta de reflexões não é. Já expus esse assunto aqui desde 2014, ou seja, há quase sete anos. Inegavelmente é um momento de emoção, um momento “diferente”, afinal se trata do dia da padroeira Nossa Senhora do ò, portanto existe uma programação festiva. Os fiéis precisam e devem comemorar. Mas minha reflexão não tem caráter religioso. Não estou criticando a fé nem aspectos de fé ou religiosidade. Respeito profundamente a fé e a religiosidade de quem quer que seja, mas o assunto aqui é PATRIMÔNIO HISTÓRICO, é HISTÓRIA. Minha preocupação é com uma peça de mais de duzentos anos de idade, rara no Brasil e que jamais deveria sair de seu nicho, a não ser em situações de restauração ou limpeza, mas muito bem paramentada no aspecto da equipe de manuseio.

 

Nesta postagem, de 2016, também foi tratado sobre os riscos que a imagem vem sofrendo. É só dar busca na lupa, acima que será possível ler o texto completo.

 

Dentre os vídeos, me mandaram outro que mostra a imagem chegando à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó e sendo devolvida em seu nicho original. As imagens chocam. Dois homens retiram a imagem do andor e a carregam até o altar-mor. São duas pessoas de bem, que ali prestam apoio, estão fazendo um favor para os demais, e exercem a sua própria fé. Nada contra eles, mas tudo contra a ausência de uma organização mais cuidadosa acerca do procedimento correto com a imagem de mais de duzentos anos. É possível perceber as expressões da força descomunal que eles fazem para segurar a imagem de madeira maciça, cujo peso exige mais homens, ou melhor, uma estrutura diferente para conduzi-la ao altar. É uma peça de peso considerável, Tanto é que a cena também choca pelos modos como a imagem pende para um lado e outro, perdendo a contrição, parecendo mais outra coisa. Perde-se os ares solenes, que deveriam estar imputados àquele momento, dando lugar a uma tensão. Nota-se uma excitação nas pessoas, ao invés de extrema serenidade e condução lenta da peça. Há um temor. Mas essa espécie de pressa é explicada por seu peso descomunal. A ideia de quem transporta é que ela chegue o mais rápido possível ao nicho, pois o peso é insustentável. A força humana de apenas dois homens é insuficiente, podendo causar um acidente. Isso é público e notório.

Quando se observa a forma de como a imagem é colocada sobre a base do nicho, no altar-mor, dá um frio na barriga, pois é algo que exige mil mãos de pronto, disponíveis para aparar possível queda, enfim o assunto parece complexo se não fosse tratado com a devida sensatez e prudência pelo povo de Nísia Floresta. Nada mais. Essa imagem é do Brasil, mas em primeiro lugar pertence aos nativos. A eles cabe a salvaguarda. Se essa imagem virasse cacos por meio de um terremoto, seria compreensível - seria a natureza cumprindo sua sina -, mas sofrer um acidente por imprudência dos próprios nativos -, quando eles próprios provocam esse terremoto, é a insensatez cumprindo a sua estupidez.

Ontem, ao ser informado desse fato, fiquei sem acreditar, portanto hoje estou registrando o episódio em meu arquivo pessoal e também nesse blog, afinal até isso é História. Isso precisa ficar registrado para que amanhã apareça alguém que entenda tudo isso e faça e dê uma orientação coerente. Sei que muitos dos que me procuram o fazem com receio de não se oporem aos próprios colegas católicos, mas onde ficam aqueles que trabalham com História? Onde ficam aqueles que abominam tudo isso - ficam em desespero -, MAS FICAM EM SILÊNCIO.

 

O assunto também é tratado nos títulos acima.

 

Embora todos sabem - gostando de mim ou não -, e isso pouco me importa -, minha atitude traduz a salvaguarda do patrimônio histórico, seja a história escrita, seja a história traduzida em arquiteturas ou em sua composição pictórica e de acervos físicos. Isso jamais deixarei de defender e esclarecer àqueles que se escondem nos submundos da ignorância, seja por empáfia, propositalmente ou qual doença for. Privar de esclarecer e conscientizar, jamais. Não é à toa que minha própria página no Facebook, que deveria ter uma função pessoal, tem mais uma finalidade pública, de educar as pessoas sobre História, Memória e outros temas sociais. 

Se eu fosse uma pessoa egoísta - como muitos -, não divulgaria pesquisas que faço há muito tempo, feitas com muito esforço e suor. Mas o faço com o prazer de partilhar o conhecimento, até mesmo servindo aqueles que, inclusive, se beneficiam dos meus estudos, e tem o desplante de me criticar (como me chegam as notícias e áudios). Nada disso me importa mais que a generosidade intelectual que meu pai me ensinou. Digo isso porque tenho autoridade e legitimidade para dizê-lo. Há 28 anos empreendo esse trabalho. Não é uma atitude aleatória e recente. Portanto a reflexão de hoje faz parte de um contexto.

Finalizando, uso a desgastada frase “eu avisei!” A prova está nas postagens feitas aqui neste mesmo blog, e nos prints dos textos nos quais falo exatamente nos riscos que a imagem poderia sofrer. E UM JÁ ACONTECEU. Foi profecia? Não. Foi o óbvio! Até um cego vê. Só espero que a comunidade católica de Nísia Floresta, as autoridades, as pessoas ligadas à História, revejam tudo isso, reconheçam o grave erro e tomem as providências necessárias. Ontem, por pouco, a imagem se estatelou no chão - sem necessidade alguma -, pois o seu lugar é dentro da igreja. Quando essa imagem virar cacos, será tarde! A propósito, deixo mais duas perguntas: 

 

1) Onde estão os vereadores nisiaflorestenses, preocupados com o Patrimônio Histórico e com a Memória? 

 

2) Onde está a equipe de Patrimônio da Arquidiocese de Natal?

 

A Pandemia freou uma ação em andamento, referentes às denúncias que fiz ao Conselho estadual de Cultura no início do ano, mas é só as coisas melhorarem, as providências serão encetadas, conforme despachos que já foram dados por respeitáveis instituições. Para o presente momento, estou enviando todas essas informações, INCLUSIVE OS VÍDEOS QUE REVELAM MAIS QUE ESTE TEXTO ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, na pessoa de seu presidente, Dr. Ormuz Barbalho Simonetti, que abraçou essa causa com muito respeito, ao presidente da Fundação José Augusto, Dr. Crispiniano Neto, que está revoltado com tudo isso, e ao Dr. Iaperi Araújo, Presidente da Comissão estadual de Cultura, e outros órgãos.

O que se quer é apenas o correto. Nada mais! E é bom reesclarecer não ajo isoladamente, mas ao lado de toda pessoa que tem o poder de entender o contexto dessa história que envergonha qualquer país civilizado.

 

sábado, 12 de dezembro de 2020

Memória do Rio Grande do Norte - 1962 - Berço da Campanha da Campanha da Fraternidade no Brasil - Pioneirismo Feminino das Missionárias de Jesus Crucificado - Herança do "Movimento de Natal"

 

Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado, pioneiras a chegarem em Nísia Floresta, onde floresceu a primeira Campanha da Fraternidade do Brasil - Elas estão defronte a uma casa centenária, denominada até hoje de "Casa das Freiras", a qual estava em ruínas e foi totalmente restaurada por iniciativa e acompanhamento rigoroso do padre João Batista Chaves da Rocha.

Memória do Rio Grande do Norte – Nísia Floresta - 1963 - Berço da Campanha da Campanha da Fraternidade no Brasil - Pioneirismo Feminino das Missionárias de Jesus Crucificado - Herança do "Movimento de Natal". 

Essa primeira fotografia, icônica, alegre e cheia de espontaneidade, datada de 1963, passaria despercebida se não consistisse num marco sem precedentes na História do Rio Grande do Norte, em especial, ao bucólico município de Nísia Floresta. É o flagrante de um capítulo inédito, marcado por pioneirismos protagonizados pela Igreja Católica há mais de meio século – inclusive no âmbito do feminismo -, mas cuja história ainda é desconhecida por muitos brasileiros.

 

As "Irmãs Vigárias" chegaram à Papari em 1963 para proporcionar aos nisiaflorestenses duas das experiências mais belas já ocorridas no Brasil: 1) foi a primeira paróquia sem padre confiada a religiosas. Trabalho inédito no mundo, e que foi denominado de vigárias de paróquia sem padre, e que se tornariam conhecidas com as “Irmãs Vigárias”; 2) essas mulheres foram pioneiras, vergônteas da Campanha da Fraternidade no Brasil no ano de 1964. A sombra desta mangueira frondosa vista na fotografia – que existe até hoje -, testemunhou um projeto que está vivo em todo o Brasil, e é marcante principalmente nas memórias de inúmeros nisiaflorestenses, hoje idosos, que narram a experiência com grande emoção.

 

Esse flagrante é apenas o tijolo de uma obra monumental. Na verdade, não dá para contar a história das Irmãs Vigárias, nem do surgimento da Campanha da Fraternidade sem destrinçar uma história que veio bem antes. Tentarei resumir até chegar ao assunto principal.

 

A ideia germinou nas mentes de renomados sacerdotes católicos, dentre eles Dom Eugênio Sales, inspirado numa experiência um pouco semelhante, vista na Alemanha, onde estudou por um curto período, de onde trouxe todo o material da estrutura da “Misereor”.

D. Eugênio Sales conversando com o escritor Antonio Pontes


No bojo do impressionante projeto florescido em solo potiguar, chamado "Movimento de Natal", e surgido muito antes - com pedra fundamental lançada em 1948 -, floresceram paulatinamente inovações pioneiras em diversas áreas, e seriam responsáveis por avanços que impactariam fortemente a vida dos potiguares - independente de serem católicos ou não. E tudo isso inspiraria projetos nas dioceses de todo o pais, tendo em vista que a Igreja Católica trabalhava essas inovações simultaneamente.

 

Muitas figuras de grande destaque da Igreja católica nem eram padres ainda quando participaram ao lado de religiosos recém formados. No caso dos então já sacerdotes, se destacam monumentos humanos em extinção, como Eugênio Sales, Expedito Sobral de Medeiros (futuro apóstolo das águas), Nivaldo Monte, Alair Vilar e outros padres de grande ilustração.

 

Determinadas inovações adquiriram repercussão nacional, como por exemplo, as "Irmãs Vigárias", as quais assumiam as paróquias que não tinham padres. Desse modo elas exerciam o mesmo papel dos sacerdotes. Outra iniciativa foi as Escolas Radiofônicas que impulsionaram as Comunidades Eclesiais de Base. Na vasta programação da emissora de rádio, incluia-se aulas ginasiais para formação de adolescentes e jovens.

 

O Movimento de Natal, na realidade, era muito amplo e abrangia diversos segmentos da sociedade, como também a organização dos trabalhadores em sindicatos rurais, a primeira Federação dos Trabalhadores Rurais do Rio Grande do Norte, jornais impressos que eram aguardados pelo povo como ouro devido à riqueza de conteúdos. Esse trabalho não nasceu do nada, afinal “ex nihilo nihil fit'', ou seja, nada vem do nada. É fruto de uma organização e vários cérebros, e no bojo disso tudo não há como não voltarmos no tempo e nos reportarmos ao padre João Maria, um visionário. Homem de vasta cultura que, em pleno final do século XIX e início do século XX, realizou obras adiante do tempo, ignoradas por muitos, e me faz entender que, mesmo sem relação alguma com o escopo do Movimento de Natal e da Campanha da Fraternidade, sua face está nessas obras.

 

Naquele tempo (1948) os religiosos potiguares se reuniam com muito mais frequência, desde o bispo aos seminaristas, havia reuniões frequentes para pensar e deliberar sobre os problemas da igreja, as problemáticas sociais e como trabalhá-las. Os seminaristas viviam nos arrabaldes de Natal – e como fazia o padre João Maria –, eram presenças vivas nas favelas. Calçando chinelas tipo Havaianas, esses jovens que pretendiam ser padres, viviam pisando em ‘cocô’ de menino, atolando o pé na lama, saltando pinguelas, tomando água de pote em lata de conserva, preocupados unicamente em ensinar o evangelho, dentre outros ensinamentos que engrandeciam os excluídos enquanto pessoas humanas.

 

Naquele tempo os seminaristas não eram adotados por madames, não se enclausuravam em prédios, entretidos com notebooks, iphones de última geração, perfumes caros, roupas caras. Eles aprendiam a ser padres no meio da pobreza, conhecendo de perto as doenças sociais e espirituais, qualificando-se para depois “curá-las”. Os seminaristas eram meio a la São Francisco de Assis ou até mesmo a la padre João Maria. Se hoje o “voto de pobreza” se resumiu a uma simples frase - salvas as raras exceções - naquele tempo era literalmente o que denominam de chamado/missão.

 

Outra catapulta preciosíssima desse projeto foi o surgimento do Serviço de Assistência Rural, que estruturava todas as atividades do Movimento de Natal e, com ele, politizava o homem do campo, o pequeno produtor, enfim dava visibilidade ao meio rural, cujo o Sr “Zé Ninguém” também aprendia política e como ser um pequeno produtor sem necessariamente depender apenas do patrão. 

 

Crianças defronte à Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, no dia da Primeira Comunhão, tendo as Missionárias de Jesus Crucificado adiante das celebrações.

É audacioso resumir a significação dessa ideia tão feliz, pois, como já escrevi, é ampla demais, envolvia conscientização de classes, criação de centros sociais, clubes, cursos nas mais diversas áreas, treinamentos de lideranças, educação sistematizada, cooperativas, sindicatos rurais, valorização do artesão, colonização, consciência política e muito mais. Inspirava as pessoas a serem seres sociais, envolvidos, peocupados com suas vilas, suas cidades. A igreja católica provocou um terremoto sem precedentes, e que no futuro inspiraria até os evangélicos e instituições diversas do estado.

 

Ao longo da vida, li todas as obras escritas sobre o padre João Maria (inclusive escrevi praticamente um livro ‘não publicado sobre ele’: está no meu blogue), portanto percebo que mesmo que talvez muitos nem pensem assim - ou pensem - sei lá! enxergo no projeto Movimento de Natal a imagem do Padre João Maria. Muitas pessoas estão habituadas a visualizar apenas o aspecto ‘santo’ do padre João Maria, e nessa ideia de um “sacerdote bonzinho e santo”, desconhecem a dimensão gigantesca do homem político, do homem visionário, preocupado com aspectos sociais, educacionais, sanitários etc.

 

Padre João Maria não foi apenas aquele homem bonzinho e caridoso, que dormia no chão da sacristia da Igreja Velha, que doava a própria comida para quem passasse pedindo. Ele deu testemunho abnegado na tentativa de tornar cada potiguar um ser humano pleno, politizado, são de corpo e mente. Além de verdadeiro São Lázaro, foi um político em extinção (e isso não o diminui – por aparentemente deixá-lo mais parecido com os homens comuns -, pelo contrário aumenta a sua grandeza de homem e de sacerdote). Se vivo, hoje, diante da atual realidade, não sei o que ele seria capaz.

 

Comunidade nisiaflorestense acompanhando as Missionárias de Jesus Crucificado no Primeiro Gesto Concreto da Campanha da Fraternidade, runo ao distrito de Timbó, em Nísia Floresta.

Pois bem, o Movimento de Natal, apesar de ter o seu aspecto religioso - afinal era uma ação nascida na Igreja Católica -, sua dimensão social dilui praticamente o caráter religioso, quando se olha para a sua iniciativa de promover cidadania plena e civilidade para todos. Ela visava o comunitário, independente de religiosidades ou da falta delas. Seu objetivo era construir homens e mulheres com saúde física e mental, e bem educados. Tudo o que os políticos atuais não querem proporcionar ao povo. E tudo isso encontrou amparo nos documentos do Concílio Vaticano II, que enquanto para alguns religiosos - daquele tempo e até mesmo atuais - salvas as devidas exceções -, foi um passo deplorável da Igreja Católica, para outros foi uma escada para o Céu. Se bem que o Céu começa aqui.

 

É interessante ressaltar que o Movimento de Natal e as atividades inspiradas nele se deram ao longo de três décadas, cuja pedra fundamental se deu no final da década de 1940, adentrando no início dos anos 70. Inclusive muitas iniciativas inspiraram a CNBB a levá-las para outras regiões brasileiras. Alguns estados eram tão carentes daquelas iniciativas que o projeto de Natal tornou-se inspiração para eles. Outros lugares o receberam, mas Nísia Floresta foi pioneira em dois grandes marcos.

 

A partir de 1945 o projeto deu origem às escolas de Serviço Social. Alguns bairros de Natal viviam em situação precária. Desse modo a Igreja Católica passou a montar ali políticas públicas e iniciativas mais intensas de evangelização, inclusive em presídios, local de apoio e assistência às mães solteiras, cursos técnicos de administração, criação de escolas-ambulatórios, centros sociais que eram polos de reuniões, surgimento de maternidades em alguns municípios, cursos e todo tipo de atividades cidadãs, cooperativas, inclusive o Patronato de Ponta Negra que era uma verdadeira universidade que fluía o que de melhor se podia no sentido de melhorar a qualidade de vida do homem urbano e rural. O escambau! Observem que algumas políticas governamentais se inspiraram nessas práticas criadas pela Igreja Católica. Isso é fato.

 

Surgiu a Casa do Bom Pastor, atuante até hoje, com um serviço imensurável do padre belga Thiago Theisen (falecido recentemente; lembrando que por pouco ele faria parte do grupo de sacerdotes pioneiros acima mencionado, tendo em vista que chegou a Natal pouco tempo depois, em 1968). Lembrando que ele é o criador daquele artesanato marcante, feito de palha de coqueiro, no distrito do Timbó, em Nísia Floresta. Isso, ouvi num depoimento que ele me deu em 2014, na casa paroquial do Bom Pastor.

 

Muitas iniciativas decorrentes do Movimento de Natal firmaram compromisso com o poder público. É o caso do Departamento Nacional de Obras e Saneamento, que no ano de 1957 deu toda a assistência para que funcionasse em Pium, em Nísia Floresta, a sua primeira experiência de colonização daquele vale totalmente inabitado e que recebeu uma colônia de agricultores vinda do Japão. Observem como Nísia Floresta foi palco de ações excepcionais.

 

Os japoneses se instalaram ali para trabalhar com a agricultura, especialidade que dominavam com maestria. Depois vieram famílias potiguares de diversas localidades. O Vale do Pium tornou-se referência em agricultura familiar, fornecendo hortifrutigrangeiros para todos os municípios vizinhos. Em 1992, entrevistei uma porção de idosos dali. Eles contaram, emocionados, que semanalmente saiam frotas de caminhões carregados hortifrutigranjeiros de Nísia Floresta (iiso também está no meu blogue).

 

No bairro das Quintas, em Natal, surgiu um serviço de atendimento ao menor delinquente, proporcionando-lhe alfabetização e iniciação profissional. No final da década de 1950 criaram a famosa Emissora de Educação Rural e depois as Escolas Radiofônicas. O Movimento de Natal – esse colosso de Rodes -, desencadeou muitas reuniões, simpósios, conferências, seminários pelo Nordeste e em algumas partes do Brasil. Foi um período de grande entusiasmo. O projeto era um farol.

 

Em 1961, a Presidência da República e a CNBB em parceria criaram o Movimento de Educação de Base, cujo trabalho foi estendido para diversas regiões do Brasil. Depois surgiu o Setor de Migrações, o qual dava assistência para distribuir os migrantes fugidos da seca. 

 

O sindicalismo no Rio Grande do Norte perpassou pelo Movimento de Natal. Em 1947 (observem o ano!), Dom Eugênio Sales fez uma histórica e impactante pregação sobre a “Reforma Agrária”, tema polêmico, que fez com que alguns poderosos se distanciassem temporariamente da igreja, preocupados com os seus latifúndios.

 

Em 1963 ocorreu a primeira grande campanha para coleta em favor das obras sociais e apostólicas das três dioceses existentes no Rio Grande do Norte. Essa ação concreta seria chamada de “Campanha da Fraternidade”, e teve o seu primeiro gesto concreto justamente em Nísia Floresta, sob a responsabilidade das Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado, e esse acontecimento evidencia fortemente uma das faces do feminismo no Brasil. Essa data foi marcante para o município de Nísia Floresta, e para o feminismo potiguar. Já imaginou num universo cem por cento masculino surgir as “irmãs vigárias”, freiras que administravam paróquias. Vejam que inovação! O projeto se estenderia também aos municípios de Taipu e São Gonçalo do Amarante, mas Nísia Floresta foi pioneira nessa mudança. 

 

Importante destacar que no bojo das inúmeras ações do Movimento de Natal, surgiu o Setor de Politização com a função de promover Educação Política nas populações rurais, visando combater o “voto de cabresto", os “currais eleitorais”, “o “voto de carbono” e a exploração de políticos que fazem a “indústria da seca”, combatendo os chamados “currais” eleitorais. A igreja, a meu ver, se aproximou muito de Jesus NESSA ÉPOCA, e quase o tocou. O Evangelho buscava a essência cristã, e para isso também precisava ser construído com os fiéis o conhecimento sobre política, afinal quem condenou Jesus? Creio que Jesus foi o maior político que já pisou na Terra.


Pois bem, o dito Movimento de Natal não parou em 1963. Ele permaneceu vivo e atuante até o início de 1970, inovando, criando escolas, pastorais diversas, inclusive de saúde e da criança (lembrando que o Padre João Maria fazia praticamente isso 100 anos antes - vejam como ele não era apenas o santo!). Depois vieram parcerias com o MEC e surgiu a Rádio-TV Educativa permitindo a adolescentes e adultos cursarem através de aulas radiofônicas o ensino ginasial.

 

Acredito que o Movimento de Natal foi a experiência pastoral mais importante na história da Igreja Católica do estado, pela substancialidade, inovação e referências. Foi uma ação visionária que hoje, se imitada por políticos, colocariam o Brasil nos trilhos. É certo que, para aquele momento, tudo consistiu em novidade. Eram tempos de maiores precariedades, mas esse ‘insight’ da Igreja Católica realmente foi impressionante e providencial.

 

Os atores religiosos e leigos daquele tempo atacaram problemas sérios com uma mentalidade visionária. Tudo o que foi feito era exatamente o que se necessitava. Era um remédio curando feridas sociais abertas e que sangravam há muito tempo (e que os políticos não estavam nem aí, salvas raríssimas exceções).

 

O projeto foi tão importante que se fez notícia em vários países, cujo provincial Rio Grande do Norte nem parecia um lugar pacato e parado no tempo. E isso - a meu ver - diga-se de passagem -, é importante porque comprova o valor da sabedoria humana (tão escassa atualmente, inclusive dentro das próprias igrejas católica e evangélicas, sejam de que outra doutrina for -, salvas as raras exceções). O próprio nome “Movimento de Natal” foi inspirado numa notícia internacional que assim denominou o fenômeno que acontecia em Natal. 

 

Foi no acanhado e bucólico povoado de Timbó, distrito de Nísia Floresta, que, no ano de 1963, aconteceu o primeiro gesto concreto da Campanha da Fraternidade, coordenado pelas Irmãs Missionárias da Congregação de Jesus Crucificado. A comunidade, em peso, percorreu todos os bairros e lugarejos, arrecadando prendas e outras doações que seriam destinadas a quem realmente tinha fome. Como isso faz falta hoje! 

 

Não há nisiaflorestense - testemunha daquele tempo - que não fale dessa experiência com amor e saudade. Alguns choram! É impressionante! As irmãs fizeram a diferença porque tinham comprometimento com os pobres. Não eram religiosas preocupadas com coisas supérfluas, nem viviam atreladas aos poderosos nem aos políticos.

 

Junto aos nisiaflorestenses, essas freiras comiam “voador” (tipo de peixe seco) com macaxeira, batata-doce com arenque, camarão com fruta-pão (o crustáceo existia em abundância à época), enfim se integravam aos pobres, aos oprimidos e com quem encontrassem na velha Nísia Floresta. Sem teatro! com verdade pura e simples. Preocupadas em exorcizar os demônios da miséria, da falta de amor e do desconhecimento do Evangelho.

 

As “Missionárias de Jesus Crucificado'', integram uma ordem religiosa criada em Campinas, São Paulo, em 1929, por Dom Carlos Barreto. Elas não eram simples por teatralidade. Eram simples porque praticavam Jesus. Não eram atrizes que se sentam com os que comem feijão verde com farinha, mas preferem a casa onde bebem vinho do Porto. Suas vidas até hoje se pautam nesse comportamento.

 

O trabalho das Irmãs Vigárias foi autorizado pelo Vaticano, tendo em vista que antes disso, as freiras apenas evangelizavam o povo fora da Igreja Matriz. Dentro da igreja elas apenas auxiliavam acanhadamente os sacerdotes nas poucas vezes que era possível a presença de um. Mas não pensem que o aparecimento das Irmãs Vigárias se deu de forma natural. Em História Oral (1992), alguns nisiaflorestenses católicos – idosos –, me contaram que alguns nativos, embora acolheram bem as Irmãs Vigárias, participavam eventualmente de missas em São José de Mipibu, certamente desconfortáveis com presença da mulher no altar. A ideia do vicariato na mulher sofria resistência de alguns.

 

Certamente era estranho, como seria hoje assistirmos uma missa em Latim. Na realidade era preconceito puro. Mas o tempo se encarregou de lapidar as mentalidades. Logo as Irmãs Vigárias se tornaram respeitadíssimas pelo extraordinário trabalho que fizeram.

 

Analisando bem, embora nem fosse uma intenção - mas uma consequência - não se pode negar que houve ali um empoderamento feminino que se casava bem com o que a intelectual Nísia Floresta apregoou mais de 100 anos antes. (Vale lembrar que Nísia, apesar de ser católica, criticava as freiras que se enclausuram, pois no entendimento dela, as religiosas deveriam estar em ação nas ruas, como verdadeiras Irmãs Dulce dos Pobres, e não trancafiadas). Nísia Floresta reivindicava que as mulheres tivessem os mesmos direitos legalmente dados aos homens, inclusive o direito à Educação e a qualquer profissão, inclusive governar o país e comandar exércitos. Dá para imaginar o que isso deve ter causado naquela época (1832). Embora ela não se referisse à mulher no papel praticamente de um padre – até porque o sacerdócio não é uma profissão – suas palavras se coadunam com o surgimento das Irmãs Vigárias.

 

Ao longo de minha convivência com os nisiaflorestenses, observei a nostalgia e a saudade quando tratavam o assunto. As Irmãs deixaram lembranças marcantes. Elas tinham um Jeep antigo e viviam nos povoados, muitas vezes transportavam nativos de um lugar para o outro. Por onde passavam recebiam os frutos da terra. A “Casa das Freiras”, ou “Casa das Irmãs Vigárias”, como até hoje é chamada (onde foi feita essa fotografia) era palco de momentos felizes, onde as crianças e jovens sempre tinham um ponto de apoio em diversos sentidos. Era lugar de socialização, aprendizado, acolhimento e oração. Há unanimidade nos depoimentos dos idosos.

 

As Irmãs Vigárias que estiveram em Nísia Floresta eram muito animadas e davam vida aos eventos religiosos, inclusive as Festas da Padroeira. Gostavam de Folclore e incentivavam a Cultura Popular. Muitas senhoras e senhores nisiaflorestenses - atualmente com idades entre 65 adiante -, contam suas experiências com elas, sempre com peculiaridades interessantes, inclusive vários fatos pitorescos, como contou-me a senhora Maria do Carmo, esposa do Sr. Bambão. Certa vez, elas precisaram trazer uma leitoa de Alcaçuz, doada por uma senhora católica que não aceitou um não como resposta, dentre inúmeras histórias curiosas,  marcadas por nostalgia. E não podia ser diferente, afinal, num lugar tão bucólico, elas roubaram a cena e marcaram a vida de muitos.

 

Fica essa lembrança histórica, cuja essência deve estar viva em todos aqueles que são chamados para essa missão. E de igual modo para todos, pois elas foram exemplos de mulheres que se comprometeram a viver o Evangelho plenamente, bem como o amor pelo ser humano. Que pena que isso não seja tão comum aos dias atuais, marcados por interesses diferentes daquele tempo. L.C.F.  12.12.2020.


O sertão está certo...

 


O SERTÃO ESTÁ CERTO...
Filho de pais potiguares que migraram para o Mato Grosso do Sul, mas nasceram aqui no agreste - região rica de águas e terras férteis -, área que desconhece as agruras da antiga versão do sertão, cresci ouvindo histórias de peões de boiadeiros que desbravaram os “sertões de Mato Grosso”, como diziam àquela época. Homens intrépidos e aguerridos, condutores de tropas e comitivas de gado. Esse foi o sertão que conheci. Dos meus pais ouvi fragmentos de histórias sertanejas do Rio Grande do Norte, ora narradas por eles, ora assistidas na televisão, único meio de comunicação de massa da minha infância.
Na televisão - muito diferente dos meus sertões do Mato Grosso do Sul, conheci um Sertão nordestino de miséria, chão rachado, fome, sofrimento, água escassa, salobra, mata seca, pincelada de garrancheiras cor de cinza, flagelos tais quais “O Quinze”, de Raquel de Queiroz, “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos e tantas outras obras que descortinam o Sertão miserável.
Assim o conheci. Isso doía o pensamento. Verdadeiro mal’assombro. Então passei a enxergá-lo como algo ruim… coisa que não despertava curiosidade. Em 1997 coloquei pela primeira vez os meus pés no sertão potiguar. Foi quando participei da primeira versão do Projeto “Trilhas Potiguares”, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. De fato, o cenário é impactante. É “outro planeta” para quem nasceu numa região sul-mato-grossense, emoldurada de mato grosso, rios sem conta, e toda sorte de animais. A verdura que se espraia por quilômetros a fio no Mato Grosso do Sul, permeada de fazendas prósperas, sem-fim de gados e outras riquezas mais era o oposto de tudo o que vivi. Pedra e secura...
Isso tudo me lembra uma compilação de fatos reais. Então refleti sobre os retirantes, os campos de concentração contados por Raquel de Queiroz, a famosa seca de 1877 registrada nos antigos relatórios governamentais, o “tentar a vida” em São Paulo, o despejo de potiguares e cearenses fugidos para o Pará durante o Ciclo da Borracha, enfim episódios diversos gotejaram os meus pensamentos.
Reportei às mazelas da “indústria da seca”, os “currais eleitorais”, os “votos de carbono”, “os coronéis”, o cangaço e tudo quanto é problema social. O sertão, de fato, é para os fortes. Mas, confesso, com exceção ao selvagem oportunismo dos políticos-politiqueiros - fenômeno pior que a seca -, toda essa mazela é passado. Ontem falavam em “combate à seca”. Depois, graças aos estudiosos, aprendeu-se que o certo é conviver com ela, criando políticas públicas para amenizar diversos problemas decorrentes e extinguir outros.
O sertão, hoje, é outro, embora o seu patrimônio natural nunca mudou. Seus lajeiros, suas pedras impressionantes, seus cardeiros, coroas de frade, seus resquícios deixados pela Era Glacial, local que já foi o fundo do mar, hoje é berço de uma fauna miúda de calangos, toda sorte de formigas, serpentes, tijuaçus, camaleões, imbu caju cajarana, cajá juá, quixabeira, tatu peba, mocó, gato maracajá, veado ratos do mato, preás, raposas, infinitos pássaros a exemplo do Arribaçã, enfim sua fauna e flora tão diferentes do que conheci no Mato Grosso do Sul, são apenas diferentes, mas tão importantes quanto qualquer outro. O sertão é um bioma precioso. Não é um problema, portanto o homem descobriu que deveria se adaptar a esse bioma e buscar formas de torná-lo confortável à condição humana, jamais à condição de sua natureza.
É importante reconhecermos que o Sertão, mesmo em situação causticante, produz várias frutas, como o impressionante umbu, fruta aquosa, deliciosa, inimaginável ser de um lugar tão hostil. São muitas as outras frutas desse bioma. Seus juazeiros permanecem verdes o ano inteiro... árvore surreal, desafiando o entendimento humano, oferecendo verde e sombra diante de praticamente um caos. E os cajueiros que matam a sede de homens e animais que porventura se aventurem em sua seara? Quanta riqueza! Hoje entendo com profundidade a razão de os sertanejos amarem o sertão e não o trocarem por nada. É exatamente igual a qualquer pessoa que ama o seu berço, ama as suas raízes. O sertão é magnífico.
Aqui em Natal temos o Potengi, um imenso rio que deságua no mar. É como o nosso Rio Pardo lá no MS. Vejam as ironias e os mistérios da natureza. Esse rio nasce no sertão, entre pedras sobre pedras, emoldurado de cactos e lajedos. Não seria mais útil que suas águas fizessem um trajeto dentro do próprio sertão? Por que um lugar tão seco oferece o seu maior patrimônio a uma região bem servida de chuvas e solo? Com certeza, se fosse assim, não conheceríamos o rico, belo e exótico sertão. Se o seu solo fosse um manancial de águas, não saberíamos sobre esse importante bioma.
Enfim, hoje, mesmo que o sertanejo veja chuva uma ou duas vezes por ano, ele tem água potável que escorre de suas torneiras e chuveiros. Fato inimaginável há 20 anos passados, antes do fenômeno da Adutora Monsenhor Expedito e outras adutoras que servem outras regiões. Hoje, qualquer sertanejo tem as imediações de sua casa emoldurada de verde, seja o simples jirau de horta, ou as mais diversas roças de macaxeira, inhame, batata doce, enfim o que quiserem plantar.
Hoje, as políticas públicas de convivência com a seca - criadas por um homem nordestino, apelidado por alguns de analfabeto, que conquistou a presidência da república - permitem que o sertanejo não veja São Paulo como a solução errada de sua vida. Hoje, há conforto no Sertão. Quem foi do sertão no tempo dos retirantes, saia dali como se carregasse no ombro a maior pedra de lajeiro. Seu coração ficava ali. Hoje, não querem nem mesmo vir a Natal. O sertão está certo!
Há muitos anos, o escritor Guimarães Rosa desaguou no Mato Grosso para conhecer os seus famosos sertões. Lá, foi ciceroneado pelo escritor Manoel de Barros. O mineiro queria sentir o sertão daquela região. Queria viver o sertão matogrossense. Recolhia material para o seu maravilhoso “Grande Sertão e Veredas”. Logo percebeu que era um sertão totalmente oposto ao seu sertão mineiro, fronteiriço com a Bahia. Lugar árido. Então ele retornou a Minas. O encontro desses dois insignes literatos foi uma experiência incrível, o qual germinou sementes literárias que poucos souberam (coisa do mundo das letras, das palavras, dos livros… história incrível). Graciliano foi em busca de uma coisa. Não encontrou. Mas descobriu algo melhor… Bem, mas isso é a ponta de outro novelo...

 

Meu primeiro caderno escolar...


MEU PRIMEIRO CADERNO...

Com a morte do meu pai, garimpando suas coisas velhas - guardadas por ele como quem guarda ouro -, dei-me com velhos cadernos e lembranças escolares. Intactos. A primeira fotografia registra o primeiro caderno da minha vida, quando cursei o antigo "Pré_Primário" com a professora Beth Hg Mussi. O outro é o caderno do primeiro ano primário, com a professora Neusa Maciel... Meu pai tinha a mania de guardar tudo, e não gostava que a gente mexesse em nada. Após o seu falecimento, encontramos coisas inimagináveis, pois ele tinha um imenso quarto no qual colocava o impensável. No armário embutido de outro quarto, encontramos até mesmo uma carta de amor, escrita por minha mãe, há 70 anos. Ele morreu com 94 anos de idade. 
 
 
 
Assim, demo-nos com velhos moinhos, máquinas de plantio, plainadeiras, desnatadeiras, lampiões movidos a carbureto, nossa primeira televisão (SEMP-1970), muitos documentos, propagandas dos primeiros candidatos (políticos) da cidade e tantas burundangas mais. Essas "descobertas" se deram, coincidentemente, com a montagem do primeiro Museu da cidade, e muita coisa foi destinada para aquele espaço. Creio que esses objetos, por mais que não tenham valor algum para muitas pessoas, são preciosos para mim, pois cada um tem uma história. Há valor estimativo. Enfim, o meu caderno me permitiu uma viagem muito longa e cheia de emoção...

 

ACTA NOTURNA - Memória de Paraña-Mirim - 1942 - Antonio Barroso Pontes - Histórias que não estã na História...





ACTA NOTURNA - Memória de Paraña-Mirim - 1942 - Antonio Barroso Pontes - Histórias que não estã na História...
 
Há passagens históricas, simples, mas importantes de serem recontadas, pois estão levemente apagadas pela poeira do tempo. Trago aqui a lembrança de ANTÔNIO BARROSO PONTES, delegado de polícia, depois CHEFE DE SEGURANÇA DA BASE AÉREA, cuja história é permeada de episódios curiosíssimos, mas esquecida. 

Ele era sobrinho de AMÉLIA DUARTE MACHADO, a "VIÚVA MACHADO", uma mulher visionária, a primeira empresária do Rio Grande do Norte, mulher de visão e muito generosa. Foi ela que doou as terras onde construíram a Base Aérea na década de 40, também doou 5 hectares para se construir o Parque Aristófanes Fernandes e também doou uma grande extensão de terras para se erguer o município de Parnamirim. Ela era esposa de Manoel Duarte Machado, português que chegou ao Rio Grande do Norte para trabalhar com um tio e acabou fazendo fortuna por essas terras, tendo em vista sua impressionante visão empreendedora. 

Mas voltando a BARROSO PONTES, morava no ENGENHO PITIMBU, casarão assobradado às margens do Rio Pitimbu. 
 
Dom Eugênio Sales conversando com Antonio Pontes
 
 
Foi a primeira casa de PARANÁ-MIRIM a possuir geladeira, uma "Frigidaire" que funcionava à gás e à eletricidade. O casarão recebia visita da americanada que se espalhava na Base. Muitos militares importantes também passaram pelo imponente casarão, como por exemplo, Brigadeiro Eduardo Gomes, almirante Ary Parreiras, Pery Constant Bevilaqua, capitão Cordeiro Neto, capitão Ulisses Cavalaria, os militares norte-americanos: capitao Jonsen Colins, Major Poot, tenente Rossin. 

Muitos atravessavam sábado e domingo na bela fazenda sombreada por abundante mata nativa e toda sorte de fruta. Americanos adoravam manga. Por incrível que pareça a água de banho e do preparo de alimentos vinha do rio Pitimbu, límpido, transparente e piscoso. BARROSO PONTES, na verdade chegou à fazenda em 1938 (quatro anos depois de o tio Manuel Machado, então falecido, ter doado extensa faixa de terra para os primeiros franceses que ali aterrissavam seus "pássaros de ferro" da "Air France". 
 
 
 
Na realidade os aviadores franceses haviam escolhido uma área considerada mais adequada segundo os conformes da aviação daquele tempo. Ficava em Macaíba, mas os proprietários, desconfiados com a estrangeirada, os colocaram para correr, pedindo dez vezes mais o valor real da propriedade. 

Manuel Machado, visionário, doou. Mas pediu que terraplenagem e logística tivessem contrato certo com suas empresas (válido!). Época que ninguém imaginava um dia tudo aquilo pertencer a Paraná-Mirim. Veio a convite da "viúva Machado, para cuidar da propriedade valiosa e próspera. 

Eis o resumo rápido das páginas que desempoeirei sobre essa figura notável, nascida no Ceará, que sempre soube acolher todo tipo de amizades no casarão da Pitimbu. OBS. Nas imagens: Dom Eugênio e Virgílio Távora).

Mia Couto e Manoel de Barros...


MIA COUTO E MANOEL DE BARROS...

 
Os simples e normais se apaixonam por grandes nomes da Literatura, História etc... Até aí, nada de novidade! Mas quando os grandes nomes também se apaixonam por grandes nomes... vê-se que a qualidade, de fato, é excepcional. O genial Mia Couto era apaixonado por Manoel de Barros, insigne poeta sul-mato-grossense. Eles se conheceram. Mia escreveu sobre Manoel, inclusive também teve a visão desse poema maravilhoso, abaixo...

UM ABRAÇO PARA MANOEL
 
Dizem que entre nós
há oceanos e terras com peso de distância.
Talvez. Quem sabe de certezas não é o poeta.
O mundo que é nosso
é sempre tão pequeno e tão infindo
que só cabe em olhar de menino.
Contra essa distância
tu me deste uma sabedora desgeografia
e engravidando palavra africana
tornei-me tão vizinho
que ganhei intimidades
com a barriga do teu chão brasileiro.
E é sempre o mesmo chão,
a mesma poeira nos versos,
a mesma peneira separando os grãos,
a mesma infância nos devolvendo a palavra
a mesma palavra devolvendo a infância.
E assim,
sem lonjura,
na mesma água
riscaremos a palavra
que incendeia a nuvem.