ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sábado, 2 de outubro de 2021

Padre Tiago, o bom pastor do Bom Pastor...


PADRE JACQUES THEISEN – UMA MANHÃ DE SABEDORIA COM O BOM PASTOR (EM 2015) 
 
Ontem, 1 de outubro/15, estive na casa paroquial do bairro Bom Pastor, onde vive há quase cinquenta anos o sacerdote belga Jacques Theisen, cujos católicos natalenses o rebatizaram “padre Tiago”. Vivi esse momento singular com a minha confreira Rita De Almeida Almeida, também membro da Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore e biógrafa do referido sacerdote. O motivo dessa viagem decorre do curso de Folclore que estamos ministrando, cujos participantes deverão organizar um artigo científico com temas diversos como a culminância do projeto. No meu caso escolhi coordenar o assunto “Medicina Caseira” por ser uma área que também me agrada muito. 

Ele havia marcado às 9 horas. Fui o primeiro a chegar e o encontrei tomando o café matutino numa imensa sala que se divisava com a cozinha, revestida de belo azulejo hidráulico. A casa, quase centenária, é assobradada e permeada de cômodos anchos. O piso da varanda, corredores e quarto são de tijolinhos brancos.
 

Débora, sua secretária pessoal me recebeu com muita delicadeza. O sacerdote não foi diferente. Levantou-se, veio me acolher à porta, pedindo que eu me sentasse numa mesa ampla, repleta de livros, recortes de jornais, revistas e fotografias ao lado da mesa em que ele tomaria o seu café da manhã. Eu não sabia, mas todo o material ali disposto era uma aula que ele havia se preparado para nós.



Logo ele me disse que se recuperava de um câncer na região da garganta e
precisava demorar mais do que o normal para começar o dia. Desse modo
tomava lentamente o seu café composto por papa de leite, café, banana,
vitaminas e outros alimentos degustados vagarosamente.


 


Percebendo que ele estava se esforçando muito para falar, perguntei se podia sentar ao seu lado para ouvi-lo melhor. Ele não se opôs. E assim conversamos a sós, em sua mesa do café, durante quarenta minutos até que Rita chegasse. Como eu disse que tinha raízes no Mato Grosso do Sul, ele foi buscar um álbum de postais do Pantanal, trazido numa viagem feita há certo tempo.

 

Conversamos muito sobre a sua chegada ao Brasil (1968, aos 38 anos) e seus primeiros passos como sacerdote em nosso país. Ele já foi piloto de avião com brevê. O diálogo tomou rumo diferente do objetivo, mas foi muito bom, pois pude saber muito sobre esse gigante. Logo Rita chegou, ele foi para a mesa e começou a dar sua aula. Confesso que nunca vi tanta sabedoria e bondade juntas. Ele detém uma profundidade em diversas temáticas e explanou-as uma a uma até chegar ao assunto “Medicina Caseira”.

 


Foi uma aula brilhante, inclusive ele é precursor no Rio Grande do Norte sobre o tema. Explicou-nos que a natureza oferece uma infinidade de medicamentos que nem nos damos conta. E sua inspiração para o aprofundamento das plantas medicinais do Rio Grande do Norte foi justamente para construir com as populações pobres o uso consciente e eficaz das plantas que existem em abundância em todo o Estado, e nem sempre são usadas.

 

Encerrada a aula ele mostrou o seu acervo de livros, documentos e até mesmo um mini-museu pessoal disponibilizado na sala. Há um armário organizado com perfeição, no qual ele guarda palestras de infindáveis temas, sejam religiosos, familiares, de neurociências, enfim é muito vasto. Sua biblioteca é gigantesca e contém livros e revistas em diversos idiomas, pois ele fala várias línguas. Possui centenas de banners com dezenas de temas, os quais usa para dar aulas



 

Um detalhe muito curioso é que em plenos 85 anos, além de lúcido, é atualizado com tudo o que está sendo editado no mundo nessas e em outras áreas. Além de poliglota, continua estudando e escrevendo. É autor de livros e possui um acervo fotográfico que registra a sua história. Em Natal ele coordenou a construção de mais de 40 igrejas e já esteve adiante de eventos de natureza religioso/social com público superior a 10 mil pessoas num só evento.



Também mostrou-nos uma despensa com alimentos que ele distribui em jardins-escolas, além de kits muito portentosos que ele presenteia funcionárias desses estabelecimentos. É um homem extremamente culto e que exala bondade. Mas uma característica muito clara é a humildade e o jeito acolhedor. Ele tem prazer em transmitir o que sabe. É uma lição de vida. Interessante foi que ele não queria que fôssemos embora. Quando percebemos eram 12h30. Nem sentimos os passar das horas. O padre Jacques Theisen, ou o “padre Thiago”, com certeza é um sacerdote em extinção.



Por coincidência, seu lema de ordenação foi "Eu sou o Bom Pastor". Como se previsse que a maior parte de sua vida seria vivida no bairro Bom Pastor, aqui em Natal, onde mora. Ele, que via como desperdício um padre belga cuidar de apenas 500 pessoas, como era comum na Bélgica, quis vir para um lugar onde o seu trabalho atendesse o maior número de pessoas. 


Um detalhe: embora já havia escrito outra faceta de sua história no meu blog, lembro que foi ele que idealizou o uso de fibras de coqueiros para a confecção de artesanato no Timbó, distrito de Nísia Floresta. Ele mesmo me contou. E quase ninguém sabe disso, pois pensam que foi uma tradição criada pelos próprios nativos. Na década de 60, estando ali em temporária atividade evangelística, vendo a pobreza da localidade e a falta de um meios de subsistência dos nativos, ele perguntou para si mesmo: - "Meu Deus, esse povo tão pobre e não têm do que viver. Então ele pensou, pensou, olhou para o céu e sentiu as palhas de coqueiro brilhando sob a luz do sol... , de fato, foi uma luz. Ele mandou retirar uma palha e passou o dia estudando a sua composição, e assim idealizou peças a partir de fibras. Hoje tudo isso é referência no distrito do Timbó, inclusive é exportado.


Essa tradição segue até os dias de hoje. O que esse homem fez em nosso país não tem preço e é impossível medir e retribuir como queríamos. Conhecê-lo foi o maior presente que recebi nos últimos tempos. Sem dúvida, é um padre raro. Difícil ver sacerdotes visionários. Theisen foi um visionário e abnegado em prol dos pobres. Sua meta era transformar pessoas e ensinar-lhes caminhos.

 


 




  

 


 

 


 


 

 

 


 


 


 

 

 


 

 

 


 

 



 

 

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

O medalhão de Nísia Floresta na praça Augusto Severo - 1911


MEMÓRIA DE NATAL - MEDALHÃO DE NÍSIA FLORESTA (1911)

 

No dia 2 de abril de 1911 o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, sob a presidência do Dr. Desembargador Vicente de Lemos, foi convidado, mediante um ofício enviado pelo Grêmio Literário “Augusto Severo”, para prestigiar a solenidade de inauguração do medalhão de Nísia Floresta no jardim da praça “Augusto Severo” no dia 19 de março de 1911. 

 

Henrique Castriciano, apaixonado pela história de Nísia Floresta, mandou fazer essa obra em Paris, pelas mãos dos artistas Corbiniano Vilaça e Edmond Badoche, e sensibilizou o governador Alberto Maranhão para edificar um monumento nos jardins da praça Augusto Severo, onde a bela peça foi afixada. À ocasião o presidente dessa instituição nomeou os senhores Pedro Soares, Luiz Lyra e Nestor Lima para representá-lo no evento. 

 

Na reunião do dia 16 de abril de 1911, inclusive o sr. Luiz Lyra declarou que a comissão nomeada para a referida inauguração cumpriu o dever recebido. Esse evento foi muito divulgado. Muitos foram os convidados. Nesse tempo o município de "Vila de Papari" tinha o Coronel José Joaquim Carvalho de Araújo como Presidente da Intendência. Ele era muito ligado à família Maranhão, e sempre esteve a serviço dessa Oligarquia. 

Não posso afirmar, mas é muito provável que ele tenha prestigiado o evento, já que a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta nasceu em Papari. Esse monumento não demorou muito, pois vândalos roubaram o medalhão, e como não o encontraram mais, mandaram derrubar a base de alvenaria que o sustentava. Atualmente esse hábito de vandalizar monumentos para retirar o bronze é prática de alguns drogados, que o fazem para vender e sustentar o vício. Mas a realidade de 1911 era muito diferente. Esse acontecimento - na minha opinião - pode ter sido uma forma de externar preconceito contra Nísia Floresta. Como dizem: " foi coisa mandada". Coincidentemente, nesse tempo, uma inimiga gratuita, que Nísia nunca conheceu pessoalmente - pois nasceu 29 anos depois dela -, se encarregava de frequentar todos os ambientes natalenses que promovessem homenagens a Nísia Floresta, e entregava uma imensa carta denegrindo-a. Ela passou grande parte de sua vida nessa curiosa "missão". 

 

Particularmente não entendo o objetivo dessa personagem que atendia pelo nome de Isabel Gondim. Defendo a tese de que o vandalismo se deu por preconceito porque trinta anos depois o medalhão foi encontrado intacto, alguém reconheceu a peça e a enviou ao Instituto Histórico e Geográfico do RN, onde se encontra. Ou seja, nunca houve interesse em "desmanchar" a peça para aproveitar o bronze, como os marginais fazem, hoje, aos fios de eletricidade que contém cobre. O interesse foi apenas tentar apagar o nome de uma mulher que incomodava a sociedade preconceituosa, conservadora e cheia de tabus, desenhada nos moldes patriarcais. 

 

Lenda do Haja-Pau...

AVES COMUNS AO RIO GRANDE DO NORTE - JOÃO-CORTA-PAU (Caprimulgus rufus).
 
Com aparência que lembra um sapo, o dito pássaro também é conhecido como "Haja-pau". Lembro-me com nitidez dessa lenda amedrontadora, contada por minha mãe, e como ela é norte-rio-grandense, a lenda é daqui obviamente. 

Dizem que há muitos anos, num sítio, o pai saiu ao amanhecer para a peleja na roça. Às onze horas da manhã a mãe preparou a marmita. Colocou arroz, feijão, fruta-pão, farinha de mandioca, um pedaço de rapadura, e forrou com pedaços fornidos de galinha caipira com bastante graxa. Tampou com um prato de Ágatha, revestiu com um paninho branco bem limpo, deu o nó e pediu que o filho levasse para o pai. 
 
O menino ganhou a estrada, mas no caminho abriu a marmita, comeu todos os pedaços de frango e devolveu todos os ossos à marmita, forrando o restante da comida. Como o serviço de roça é exaustivo, a fome chega do tamanho do mundo. Então o pai recebeu aquele embrulho como um bálsamo. Ao desatar os nós teve um susto e perguntou: "a sua mãe mandou isso desse jeito?" O menino, respondeu incisivamente: "claro, pai! ela mandou assim, pois estava muito ocupada com um homem estranho que chegou lá em casa!" E de maneira bastante cínica, perguntou ao pai: "por que o senhor está perguntando isso?" O pai não respondeu e saiu por cima do rastro do filho. 
 
Ao chegar até a casinha de taipa onde vivia com a esposa e o filho malvado, não disse uma palavra, simplesmente começou a espancá-la com o pau de uma enxada. A pobrezinha da mãe, tão caprichosa, e inocente de tudo, explicava ao marido que nenhum homem havia estado ali. Mas ele não acreditava. 
 
Enquanto isso o menino, assistiu tudo sobre um pé de cajueiro, como se tivesse feito algo muito bom. E como se a sua frieza não bastasse, gritava "haja pau, haja pau, haja pau... ", como se achasse boa a cena aterrorizante em que a mãe recebia pauladas. Antes de dar o último suspiro, a mãe disse: "um ser humano tão mal como você há de repetir isso para toda a eternidade". O menino saiu como um louco pela mata, e quando anoiteceu, se transformou num pássaro esquisito que até hoje, de fato, grita "haja pau, haja pau, haja pau...". 
 
Antigamente os pais contavam histórias horripilantes para os filhos. Não havia preocupação em traumatizá-los ou despertar-lhes medo ao irem dormir. Eu e meus irmãos, pelo menos, morríamos de medo, mas dois dias depois lá estávamos nós pedindo para a nossa mãe contar contar mais uma estória. Cada uma mais apavorante que a outra. 
 
Na realidade, os contos de fadas antigos, outra vertente, eram amedrontadores. Verdadeiras histórias de terror. Essa, por exemplo, retrata a violência contra a mulher. Ninguém a contaria para os filhos atualmente (creio). Ou contaria com as devidas objeções. Mas no passado eram contadas com normalidade. 
 
A mim mal não fez. Pelo contrário, despertou-me a escrever histórias e ter curiosidade para ler e descobrir outras. Mas, agora, vamos finalizar as informações sobre a história do pássaro-sapo, aliás, do "João-Corta-Pau": ua espécie é comum a todo o Brasil. No RN é vista no agreste, na caatinga e em dunas costeiras.
 
Ao chegar até a casinha de taipa onde vivia com a esposa e o filho malvado, não disse uma palavra, simplesmente começou a espancá-la com o pau de uma enxada. A pobrezinha da mãe, tão caprichosa, e inocente de tudo, explicava ao marido que nenhum homem havia estado ali. Mas ele não acreditava. Enquanto isso o menino, assistiu tudo sobre um pé de cajueiro, como se tivesse feito algo muito bom. E como se a sua frieza não bastasse, gritava "haja pau, haja pau, haja pau... ", como se achasse boa a cena aterrorizante em que a mãe recebia pauladas. Antes de dar o último suspiro, a mãe disse: "um ser humano tão mal como você há de repetir isso para toda a eternidade". 

O menino saiu como um louco pela mata, e quando anoiteceu, se transformou num pássaro esquisito que até hoje grita "haja pau, haja pau, haja pau...". Antigamente os pais contavam histórias horripilantes para os filhos. Não havia preocupação em traumatizá-los ou despertar-lhes medo ao se deitar. Eu e meus irmãos, pelo menos, morríamos de medo, mas dois dias depois lá estávamos nós pedindo para a nossa mãe contar contar mais uma estória. Cada uma mais apavorante que a outra. Na realidade, os contos de fadas antigos, outra vertente, eram amedrontadores. Verdadeiras histórias de terror. Essa, por exemplo, retrata a violência contra a mulher. Ninguém a contaria para os filhos atualmente. Mas no passado eram contadas com normalidade. Pelo menos a mim mal não fez. Pelo contrário, despertou-me para escrever histórias e ter curiosidade para ler e descobrir outras. Mas, agora, vamos finalizar as informações sobre a história do pássaro-sapo, aliás, do "João-Corta-Pau". Sua espécie é comum a todo o Brasil. No RN é vista no agreste, na caatinga e em dunas costeiras.

 

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Já imaginou um município onde quase todos os moradores são eleitores?

Ontem tive acesso a um dado que é, no mínimo, intrigante. Em linhas gerais, a proporção entre o número de eleitores e o de habitantes nos municípios brasileiros gira, em média, na casa dos 60%. Isso significa, por exemplo, que a cada 100 (cem) habitantes existentes no Brasil, 60 (sessenta) estão aptos a votar. 

 
A cidade de Parnamirim, próxima daqui de Natal, por exemplo, tem 202.456 habitantes (Fonte: IBGE) e 115.403 eleitores (Fonte: TRE/RN), o que equivale a uma proporção de 57% de eleitores em comparação ao número de habitantes. Já Natal, que tem população de 803.739 habitantes, possui, hoje, 506.201 eleitores, equivalendo à proporção de 62,9% de eleitores. 
 
Espantosamente, no município de Nísia Floresta, com população atual de 23.784 habitantes (2014), existem nada mais nada menos que, PASMEM, 17.969 eleitores. Uma proporção de 75,54%, talvez a maior registrada no Estado. Julgando pela quantidade, pensa-se que ali votam até as crianças e mortos, até porque é impossível essa proporção de eleitores diante do número de habitantes.
 
É como se praticamente toda a população da cidade fosse apta a votar. E mais, como se na localidade pouco existissem crianças/adolescentes menores de 16 anos (desobrigados dos alistamento eleitoral) e idosos acima 70 anos (cujo voto é facultativo). Realidade totalmente improvável, se comparada com o cenário geral. Mas é fato, e isso se explica pelo fato pessoas de outras cidades transferirem os seus votos para Nísia Floresta com o objetivo de alguma benefício.
 
Esses dados nos levam a única justificativa: em Nísia Floresta, devem existir muitos (muitos mesmo) eleitores que votam no município sem NUNCA terem morado um dia sequer no município - e não tem relação alguma com a cidade - o que contraria a legislação eleitoral (pra não dizer que é crime eleitoral). A intenção desses "eleitores" é apenas eleger alguém para ter benefícios onde moram. Na realidade os políticos de má fé arquitetam coisas impensáveis com lideranças políticas, amigos e colegas de outros municípios etc. A finalidade é uma só: CORRUPÇÃO.
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OBS. Hoje recebi essa lembrança que escrevi em 2014. Como é um fato real e bastante esdrúxulo, ei-lo aqui novamente. Só não sei se atualmente o quadro é o mesmo. Serve pera pensarmos...

 

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

ACTA NOTURNA - Parnamirim, Eduardo Gomes, Parnamirim...


 
ACTA NOTURNA - Parnamirim, Eduardo Gomes, Parnamirim...
 
Era uma vez uma aldeia de índios potiguares nominou um rio miúdo como "Paraña-mirim", que significa 'rio estreito' ou 'pequeno rio'. Isso antes de Cristo... muito antes. Com o descobrimento do Brasil, os portugueses não compreendiam o idioma indígena e passaram a chamá-lo da forma como interpretavam. Assim surgiu Parnamirim, uma curruptela muito troncha, mas ficou "melhor" do que viria depois. 
 
Pois bem... certo dia uns desses homens da espécie "puxasakusdepolítikus" teve um desses rompantes esdrúxulos. Correu até a Assembléia Legislativa e encontrou homens da espécie "loukuspiorys". Enfim, depois de muitas estratégias politiqueiras, desbatizaram o batismo indígeno-português, sentenciando que a cidade passaria a se chamar doravante EDUARDO GOMES, um brigadeiro carioca que foi comandante da Base Aérea na década de 40. 
 
O povo parnamirinense deu a mulesta dos cachorro doido quando soube que roubaram o nome da cidade e faziam oshabitantes engolir um nome postiço. Um pioneiro dos arcos da velha disse "o diabo é quem vai chamar a minha cidade de Eduardo Gomes... aqui é Parnamirim, e Parnamirim vai ficar". Uma velhinha muito idosa, vinda das bandas de Areia (PB), arranchada por aqui nos tempos dos campos de alecrim, gritou: "que levem esse nome estranho para os mil e seiscentos diabos... aqui é Parnamirim e eu morrerei dizendo Parnamirim ". 
 
A cidade entrou em polvorosa. Correram para a Câmara de Vereadores. Os vereadores viram-se obrigados a correr atrás do prejuízo, pois o fervilhando foi grande. Uns, de fato, eram favoráveis ao povo; outros, nem tanto. Temiam as represálias politiqueiras que navegam as águas da politicagem. Mas o povo não quis saber, partiu para a Assembleia Legislativa e ameaçou fazer greve de voto às oligarquias e a quem se opusesse. 
 
Um vereador muito invocado, vociferou: "ou vocês disbatizam a cidade ou a gente faz caravana até Brasília... vocês não terão paz enquanto não devolver o nome real da cidade. Vamos armar barraca na frente da Assembleia, e o diabo é quem vai tirar a gente, pode chamar a polícia!" 
 
Só sei que fizeram um boi de fogo. Político algum teve paz naqueles tempos. Houve um deputado que disse: "esse povo de Parnamirim tá com a bixiga taboca atrás de voltar o nome. antigo.. não há quem sossegue o facho deles"... 
 
Enfim os deputados, acuados, resolveram ouvir o povo. Como vivemos num mundo permeado de burocracias, o nome se estendeu um pouco até oficialmente ser rebatizado. Enfim, Eduardo Gomes voou para bem longe, deixando quieta a velha Parnamirim. 
 
Contam que um vereador deu a notícia dessa forma: "se é para o bem de todos e felicidade geral de Parnamirim, digam ao povo de Parnamirim que Parnamirim fica Parnamirim". E foi ovacionado como nunca! Hoje esse município faz parte da Região Metropolitana de Natal, e fica aqui pertinho... Essa história nos ensina que, se o povo quiser, é capaz de tudo.

 

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Engenho São Roque - Nísia Floresta/RN...

 


No coração da história, repousa o Engenho São Roque, que até hoje pertence à lendária família Maranhão, os mesmos que ergueram o primeiro engenho do Rio Grande do Norte, o Cunhaú. Aquele solo sagrado foi palco do massacre outrora envolto em disputas de poder e terras, mas envolto no manto da religião pela Igreja Católica. Foi ali, em Cunhaú, que brotou o primeiro partido de cana-de-açúcar, lançando raízes profundas na capitania do Rio Grande do Norte. 
Jerônimo de Albuquerque Maranhão

Jerônimo de Albuquerque Maranhão, fundador do município de Natal, capitão-mor e conquistador das terras do Maranhão, foi quem entregou aos filhos, Matias e Antônio, uma sesmaria de cinco mil braças quadradas, uma vastidão de terras férteis no Cunhaú. E foi ele, Jerônimo, quem erigiu o engenho, dedicando-o à Nossa Senhora das Candeias de Cunhaú, onde seu corpo, enfim, descansa na capela que leva seu nome.
Roque Maranhão

Avançando nos canaviais do tempo, surge Roque Maranhão, herdeiro dessa linhagem, intendente de Papary, conhecido hoje como Nísia Floresta. Ao seu lado, Luzia Peixoto, ou "Lula Maranhão", sua fiel companheira, que viveu até os 103 anos e repousa no primeiro túmulo de Papary, à direita de quem entra. Luzia, originária do Engenho Morgado, trazia em suas veias o sangue da família Peixoto, prima legítima da minha mãe. 

Engenho Morgado,  onde nasceu Luzia Peixoto (Lula Maranhão), esposa de Roque Maranhã. Fica a uns 500 metros do Engenho São Roque.

O último morador do Morgado foi o comunista Renato Peixoto, figura marcante, filho de Ezequiel Peixoto. Tamires Peixoto, meu primo, foi o último a residir ali, conforme informações num recenceamento de 1934, onde também pude ver o nome do meu avô, Abel Gomes Peixoto, cuja data de terra ficava entre a Cruz e o Braço Salgado, hoje “Fazenda Católé de Fátima”, ainda nas mãos da família (abaixo).


No seio dessa terra ancestral, o Engenho Morgado mantém-se como a casa mais antiga de São José de Mipibu, um refúgio que acolheu o ilustre Dr. Miguel Carlos Caldeira de Pina Castelo-Branco, juiz de fora e provedor, quando veio instituir a Vila de São José do Rio Grande em fevereiro de 1762.

Os Maranhão, como tantos senhores de engenho, mantinham, além de suas vastas propriedades, uma imponente residência no coração de São José de Mipibu, de frente à praça Desembargador Celso Sales. Era lá que se abrigavam nos dias festivos e onde seus filhos, enquanto cresciam, davam os primeiros passos na educação, antes de seguirem para Natal. Mas sua morada permanente, o verdadeiro lar, era o engenho.
Engenho São Roque (fiz essa fotografia em 2009) Encontra-se atualmente (2013) nas mesmas condições.

Roque e Luzia deixaram como herdeiro Geraldo Maranhão, o último a viver no São Roque. Geraldo uniu-se a Marlene Maranhão, uma jovem elegante e educada nos rigores de um colégio católico. O enlace a levou de uma vida social vibrante em Natal à quietude bucólica do engenho, onde, sob a luz suave do candeeiro, ela se adaptou à simplicidade da vida rural. Dormiam com as galinhas, acordavam ao canto dos galos, e até as pequenas serpentes encontravam caminhos pelas frestas das portas, como ela própria me contou em 2004, em Camurupim, na casa de uma prima. 
Engenho São Roque (fiz essa fotografia em 2009). Essa fotografia é quase no mesmo ângulo da foto colorizada, acima, de 1960. O engenho encontra-se atualmente (2013) nas mesmas condições.

O choque, para ela, foi semelhante ao banzo dos escravos, mas o amor e o compromisso a fizeram abraçar aquela nova vida.
Dessa união nasceram Cristina, Sérgio e Roque. Com o engenho em fogo morto, Geraldo e Marlene buscaram outros caminhos, investindo no ramo de restaurantes enquanto os filhos estudavam em Natal e em outros estados. 

O brilho do São Roque migrou para as proximidades do Ginásio Poliesportivo, para as praias de Camurupim, e finalmente, às margens da BR-101. Marlene, firme no legado da família, estabeleceu-se em Natal, na movimentada Avenida Deodoro da Fonseca, com um restaurante  para atender um público exclusivo, mantendo a tradição viva.
Resquícios da casa de máquinas, vendo-se a caldeira a vapor, o engenho de moer cana e o pilar do barracão.

O São Roque, em tempos áureos, fervia sob a batida ritmada dos tachos, transformando o caldo da cana em rapadura, açúcar mascavo e cachaça. A chaminé que por tanto tempo dominou a paisagem e movimentou o apito da hora do almoço e encerramento do expediente, como verdadeiro relógio para toda a vizinhança, caiu em 2008, restando apenas os ecos dos dias de glória. Mas a casa grande ainda resiste, preservada em sua forma original, e os coqueiros centenários permanecem de pé, silenciosos guardiões de uma era em que a vida pulsava em cada estrada, nos gemidos dos carros de boi.

Hoje, o engenho é apenas uma sombra do que foi, uma memória viva, cuidada por mãos discretas, que zelam pelas suas ruínas. A chaminé calou-se, mas a casa grande, altiva, guarda o silêncio de uma história que o tempo não apaga. 7.11.2013
 

Resquícios do barracão onde ficavam os maquinários.
Estação Papary, construída em 1881, próxima do "Mercado de escravos". É possível ver o Oitizeiro no centro da imagem, acima.

Engenho Descanso. Fiz essas imagens em 2004. Hoje está quase totalmente em ruínas. Fica a uns 500 metros do Engenho São Roque, já quase dentro da cidade de Nísia Floresta.

Fundos do Engenho Descanso. Fiz essas imagens em 2004. Hoje está quase totalmente em ruínas. Fica a uns 500 metros do Engenho São Roque, já quase dentro da cidade de Nísia Floresta.

Engenho Mipibu, se divisa com o rio Mipibu, e Estação Papary. Fica a 200 mestros do Engenho Morgado e 300 metros do Engenho São Roque.

Local exato do "Mercado de Escravos", vendo ainda o Oitizeiro
(Fotografia de João Maria da Silva)
Local exato do "Mercado de Escravos", vendo ainda o Oitizeiro
(Fotografia de João Maria da Silva)