Débora, sua secretária pessoal me recebeu com muita delicadeza. O sacerdote não foi diferente. Levantou-se, veio me acolher à porta, pedindo que eu me sentasse numa mesa ampla, repleta de livros, recortes de jornais, revistas e fotografias ao lado da mesa em que ele tomaria o seu café da manhã. Eu não sabia, mas todo o material ali disposto era uma aula que ele havia se preparado para nós.
Um detalhe muito curioso é que em plenos 85 anos, além de lúcido, é atualizado com tudo o que está sendo editado no mundo nessas e em outras áreas. Além de poliglota, continua estudando e escrevendo. É autor de livros e possui um acervo fotográfico que registra a sua história. Em Natal ele coordenou a construção de mais de 40 igrejas e já esteve adiante de eventos de natureza religioso/social com público superior a 10 mil pessoas num só evento.
Por coincidência, seu lema de ordenação foi "Eu sou o Bom Pastor". Como se previsse que a maior parte de sua vida seria vivida no bairro Bom Pastor, aqui em Natal, onde mora. Ele, que via como desperdício um padre belga cuidar de apenas 500 pessoas, como era comum na Bélgica, quis vir para um lugar onde o seu trabalho atendesse o maior número de pessoas.
Um detalhe: embora já havia escrito outra faceta de sua história no meu blog, lembro que foi ele que idealizou o uso de fibras de coqueiros para a confecção de artesanato no Timbó, distrito de Nísia Floresta. Ele mesmo me contou. E quase ninguém sabe disso, pois pensam que foi uma tradição criada pelos próprios nativos. Na década de 60, estando ali em temporária atividade evangelística, vendo a pobreza da localidade e a falta de um meios de subsistência dos nativos, ele perguntou para si mesmo: - "Meu Deus, esse povo tão pobre e não têm do que viver. Então ele pensou, pensou, olhou para o céu e sentiu as palhas de coqueiro brilhando sob a luz do sol... , de fato, foi uma luz. Ele mandou retirar uma palha e passou o dia estudando a sua composição, e assim idealizou peças a partir de fibras. Hoje tudo isso é referência no distrito do Timbó, inclusive é exportado.
Essa tradição segue até os dias de hoje. O que esse homem fez em nosso país não tem preço e é impossível medir e retribuir como queríamos. Conhecê-lo foi o maior presente que recebi nos últimos tempos. Sem dúvida, é um padre raro. Difícil ver sacerdotes visionários. Theisen foi um visionário e abnegado em prol dos pobres. Sua meta era transformar pessoas e ensinar-lhes caminhos.


















































