ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Antiga avenida Nísia Floresta, hoje Duque de Caxias - Natal - 21.3.1935... há 87 anos.

O belo prédio de esquina virou uma dessas 'caixas de sapato que passaram a erguer de um tempo para cá, mas ainda existe. O muro com grades bem altas, que pouco se vê, é hoje sede do IPHAN, preservado. Mais adiante, casa de Januário Cicco também ainda existe. Esse muro de colunas brancas, à esquerda, esquina com esquina, foi a residência do Coronel Cascudo, pai de Câmara Cascudo. Hoje é o Grande Hotel.

Praça Pedro Velho e a fragilidade dos monumentos de Natal...

A Praça Pedro Velho traz o seu principal monumento (salvo engano datado de 1937) todo pichado. 
 
 
O local faz vergonha, fede a urina, é dormitório de drogados. As aléias estão sendo tomadas por colchões e papelões onde dormem drogados, assustando qualquer um que passa. Cena deplorável. 
 
Há uns 5 anos instalaram um gigantesco busto do almirante Tamandaré, todo em bronze - deve pesar muito. Lembram que há poucos dias roubaram a pesadíssima estátua de Hermes sobre o túmulo de João Câmara? Era toda de bronze. Não duvido que a qualquer hora o façam com essa peça, pois peso não é problema para os ladrões. 
 

Na praça defronte à Pinacoteca (antigo Palácio do Governo), levaram todas as peças de bronze abaixo da escultura maior. Destruíram o conjunto porque perdeu muito o significado. Veja, abaixo, como ficou.
 
 
Na praça 7 de setembro, abaixo, há anos furtaram as placas de bronze. Restou apena o obelisco. É uma peça que não diz nada, pois não há quem se preocupe em restaurar, refazer. Não há manutenção. Não há políticas públicas nesse aspecto. Isso é muito triste, pois denota uma espécie de desprezo por parte das autoridades.
 

O mesmo aconteceu à estátua de Augusto Severo, na praça homônima, abaixo. Resta a estátua no topo da peça de alvenaria, mas não é possível ao turista saber qualquer informação sobre quem seja o personagem que ali está. Sem contar que a peça está toda pichada. Ninguém nunca fez nada para mudar isso. 
 

Não refazem as placas, não restauram, apenas passam tinta, que é um desserviço, pois as partes em alvenaria não foram feitas para serem pintadas. Policiamento? Nenhum. Creio que se existisse holofotes direcionados a tais monumentos, inibiria os ladrões. Outra medida seria a construção de grades pontiagudas emoldurando a peça. Dificultaria. Mas vigilância e policiamento é fundamental.
 

terça-feira, 8 de março de 2022

Somos parte de algum cortejo?


Lendo Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.), num dado momento ele diz: "(...) E aquele amigo poderoso, que te quer não como amigo, mas como parte do seu cortejo?". A citação – escrita antes de Cristo – traz à luz experiências que vivemos nos dias de hoje. Não diria que quem as vivencia, o faz com "amigo poderoso", como escreveu o famoso filósofo espanhol, mas com pessoas que imaginam-se poderosas, e acham que todos têm na face um outdoor de cortejo. 

É muito atual a citação. Ela é curta, mas imensa em significação, afinal tais "poderosos" almejam a presença de outras pessoas apenas para cortejá-los, envaidecendo-os em seus engenhos e artifícios. O objetivo desses "poderosos" é unicamente usar pessoas para diversos intentos, inclusive para a sua projeção. As pessoas são importantes apenas para integrar o cortejo que ele criou para obter algum proveito. A pessoa, na realidade, é um objeto.
 
Normalmente esse cortejo consiste – em sua maior parte – de pessoas quase desprovidas de inteligência, afinal tais perfis são perfeitos para as funções que receberão. Mas não é só assim. Eles – os tais "poderosos" – costumam também criar estratégias para atrair pessoas altamente esclarecidas e com visão: elas servem como cérebro para eles. Funcionam como escudos. São pilares que sustentarão inicialmente a arquitetura dos seus "empreendimentos".
No bojo disso tudo, onde se incluem do débil ao sábio, muitos podem ser vítimas de táticas deploráveis de conquista de poder. Muitos podem ser parte de algum cortejo. 
 
Logo que o "poderoso" atinge o seu objetivo reduz todos a um cortejo homogêneo (deixando os débeis livres e os ilustrados podados), pois ele não pode mais ter escudos. Ele é o próprio escudo, ou melhor, "o cabeça". É o primeiro da fila e deve ser cortejado. É a estrela. E não se sente satisfeito com o brilho de outras estrelas.
 
É assim que muitas pessoas agem com muitas pessoas. Certo que não são todas, mas muitas. E tais empreendimentos tornam-se mais prósperos onde existe menos massa cinzenta. Daí a razão de gostar de alguns estarem “acolonhados” com os débeis, pois estes bajulam.
Assim agem muitas autoridades, desde um simples diretor de escola a um reitor. Um simples secretário municipal a um embaixador. Da presidente da associação de bairro a uma ministra. 
 
Na vida o que importa é o bem, é agirmos com justiça, é promovermos a civilidade e a cidadania, é procurarmos o bem. Mas não podemos ser ingênuos ou omissos quando os maus aparecerem para dar vazão ao que são, no intuito de apagar a nossa luz. No mundo também existem pessoas que tentarão nos prejudicar simplesmente porque fazemos algo bom, ou porque somos bons. O bom e o bem costumam incomodar tais seres. O homem mau sempre praticará o mal.
 
Na bondade de qualquer pessoa deve estar sempre atrelado o detector do mau, do contrário não seríamos bons nem para nós mesmos. E quando o mau aparecer, que demos as costas, que ajamos com indiferença, que deixemos passar. E se o mau insistir, existem os caminhos certos para o fulminarmos. Fulminar não cabe a nós. Cabe a nós detectar. Fulminar cabe à Justiça enquanto estado.
 
E você, faz parte de algum cortejo?

POEMA: PALAVRA É UM ATO DE ALMA...

Admiram-me as palavras!

Verbalizá-las é incorporá-las de alma.

 Letras solitárias são garatujas desalmadas,

Não falam,

Não dizem,

E não dizendo, são abortadas de espírito,

Sons de seres perdidos, indefinidos.

 Há nobreza em dar alma às palavras,

É admirável acomodar o dizer nas letras inertes,

É como pescá-las numa caixinha,

E botar-lhes vida.

Tal qual os ‘tipos’ dos velhos jornalistas...

Juntando... juntando...

Dizendo... dizendo...

Almando…

 Apalavrar letras é um ato de poder...

E nas mãos de um poeta, um ato divino.

Um grande artífice das letras deixou registrado que:

“palavras precisam dizer”.

E “dizer” se apalavra sob cumplicidade das letras.

 Letra solitária é um risco de som adoecido,

Sonidos blesos...

Barulho de taquaral...

O que diria um Z?

O que diria um H?

 Letra solitária não escande, geme.

Unidas, apalavram o espírito,

Apalavram vida...

Tornam-se poderosas.

Transmutar o pensamento em palavras é espiritualizar,

Dotar-se em capacidade de linguajar,

Escrever como quem sonha voando…

 Dar empoderamento à linguagem

É vestir roupas de pensar na comunicação,

Divinizar o dizer…

 Desimporta linguagem apalavrada na zona rural,

Desimporta linguagem apalavrada na universidade,

Comunicar é ato mágico,

É responsabilizar de alma as letras,

Ato de amor…


segunda-feira, 7 de março de 2022

Acta Noturna: A "Origem" da palavra "caningado"



ACTA NOTURNA - 12.7.2016 - ORIGEM DA PALAVRA CANINGADO - 12.7.2016

Caningado” é pessoa de comportamento incômodo, chato, sufocante; gente caningada é gente irritante, mesmo que não tenha a intenção; gente sem que fica na cola, cobrando algo, ‘pigorando’, pedindo, vencendo pela insistência, gente sem “desconfiômetro”. A expressão integra o regionalismo vocabular no Rio Grande do Norte, com destaque para a região que moramos, equivocadamente chamada de “agreste”, mas que se trata da microrregião de Macaíba, na Mesorregião do Leste Potiguar e no Polo Costa das Dunas (mas isso é outra história).



A palavra “caningado” não é comum em todo o estado. Constatei que em diversas municípios a palavra é desconhecida, como em Japi e Lagoa Nova, por exemplo. Obervei isso em decorrência de um estudo sobre a linguagem norte-rio-grandense, iniciado em 1992, em Nísia Floresta e estendido em algumas cidades. Mas não é apenas essa palavra que está embrulhada num enigma, trago algumas cuja acepção e origem ainda me inquietam. São vocábulos usados com frequência em nossa região, permeados por suposições pitorescas. Outra delas é a palavra “forró”.



 A Base Aérea de Parnamirim é famosa como suposto berço de algumas palavras como “caningado” e “forró”. No caso do “forró”, dizem que veio de “for all”. Muitos juram que a palavra foi forjada na Base Aérea de Natal, no contexto da Segunda Guerra Mundial. Os militares faziam grandes bailes no cassino local e colocavam uma plaquinha com a expressão em inglês “for all” (a pronúncia é ‘fór ól’), que significa ‘para todos’, mas os potiguares entendiam como “forró”, até porque a pronúncia é parecida. Esse assunto tem sido muito discutido e há muitas suposições, inclusive parecidas com a que tratarei abaixo, justamente porquer já ouvi muita gente dizendo que forró e forrobodó é palavra “da era de doze, como dizem. Há outras expressões, mas, com relação à palavra “caningado”, muitos juram que surgiu na década de 1942, no auge da presença dos militares norte-americanos por essas plagas.



 Contam que havia um oficial muito exigente e perfeccionista, por nome Cunninghan (se pronuncia câningam). Ele tinha a função de delegar tarefas às centenas de forasteiros oriundos das mais diversas cidades potiguares, que vinham tentar a vida na “Canaã de Parnamirim”. Tais figuras, nascidas e criadas em ambiente rural, tosco e descansado, viam-se, de repente, num ambiente onde tudo era novidade. Os americanos chegaram aqui com uma caixa cheia de coisas inéditas. Era outra tecnologia. No aspecto profissional, exigia-se muita agilidade e contínuo cumprimento de metas. Difícil para quem não era habituado a qualquer tipo de exigência. Dramático para quem não abria mão da sesta depois do almoço. Terrível para quem até então só manejava a enxada e outros serviços pesados.



 Os equipamentos trazidos pelos yankees soavam totalmente estranhos para os norte-rio-grandenses. Havia muita dificuldade para lidar com as ferramentas que eles viam pela primeira vez; a palavra de ordem era atenção. Não bastasse, o português macarrônico dos americanos exigia-se atenção dobrada. Logo o oficial Cunninghan estava sempre irritado, corrigindo os mínimos deslizes dos potiguares. E sua irritação irritava os trabalhadores que precisavam engolir uma enxada diariamente para suportar Cunninghan.



 Não demorou muito a peonada adquiriu uma antipatia terrível contra  Cunninghan, associando o seu nome a tudo o que incomodava. “Lá vem caningui”, “lá vem caningo”, ‘lá vem caningan” e, devagarinho o nome se marchetou “lá vem aquele “caningado!” e por caningado ficou. Quando estavam apenas entre eles, diziam: “deixe de ser caningado”, como se dissessem deixe de agir como o Canninghan. Logo o tal militar tornou-se intragável. Só de vê-lo os nativos contavam até mil.



 Já ouvi palestrante jurar de pés juntos que a palavra foi parida em Parnamirim, na dita Base Aérea. Muitos justificam essa gênese com foros de verdade inquestionável. Em 2013, conversando com o músico parnamirinense Ismael Dumangue, ele disse que sua avó usava tal expressão com frequência, por sua vez, herdada da sua bisavó. Só nesse testemunho se constata uma trajetória de mais de quase cem anos de existência da dita palavra. A informação, por si, derruba a tese da Base Aérea, aparecida na década de 1942, mas, hoje, dei o cheque-mate no enigma. Será?



 Eu me encontrava no Instituto Ludovicus, quando Daliana Cascudo me presenteou com a Revista da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras nº 45.  Lendo-a, deparei-me com um texto do escritor Marcel Lúcio, professor do IFRN – Cidade Alta, intitulado “Percurso na poesia de Mário de Andrade”.



 Ele comenta sobre algumas obras do célebre autor de Macunaíma, dentre elas “Clã do Jabuti”, publicado em 1927. A referida obra traz um poema de 10 estrofes, denominado: “Coco do major”. É nele que encontramos a explicação para o enigma do caningado. Logo na primeira estrofe está escrito:



 O major Venâncio da Silva

Guarda as filhas com olho e ferrolho,

Que vidinha mais caningada

- seu mano –

Elas levam no engenho do velho.



 Observe que o sentido da palavra “caningado” é o mesmo que tratamos no primeiro parágrafo. A vidinha das filhas, trazidas presas pelo pai conservador é chata, incômoda, sufocante, enfim, tudo o que o oficial Cunninghan foi, e com um seguinte divisor de águas: Mário de Andrade colheu-a em 1927, ou seja, quase vinte anos antes de Cunninghan pisar com suas botas em Parnamirim. Vale ressaltar que 1927 foi o ano do registro. O poema é superiormente muito mais antigo.



Trabalhar com História Oral, como nos orienta os célebres Jacques Le Goff e Ecléa Bosi, prediz pesquisa redobrada e muito mais cuidado. Digo isso porque, a julgar pelo material informado por Ismael Dumangue, muitos poderiam contestá-lo, desacreditá-lo, afinal ele contou uma memória da mãe e da avó. Se não tivesse aparecido um documento concreto para comprovar que “caningado” não tem nada a ver com o intragável Cunninghan, alguns iriam dizer que Ismael criou a informação. Diriam que é causo, é estória, não é História. Vejam que injustiça! Muitos não valorizam a História Oral por isso. Pela dúvida. Mas veja como Ismael Dumangue estava correto.



  Estaria explicado o enigma?



Há outros enigmas de outras regiões do Nordeste, como “oxente”, que dizem vir também dos americanos que exclamavam “oh shit!” e os brasileiros entendiam “oxente!”. Tem também a história de um inglês, engenheiro agrimensor, homossexual, contratado para trabalhar nos trópicos. Contam que ele pedia constantemente aos peões a bitola (instrumento de uso contínuo nessa profissão). Mas dizia “batola” com um i meio escondido depois do A.  O sotaque macarrônico, a troca o “i” pelo “a”, a maneira delicada e melosa como ele pedia o objeto – somada ao espírito satírico do nordestino – fê-los interpretar a palavra como “baitola”. Logo a coisa foi se espalhando e passaram a usar a expressão para se referir aos gays. Assim contam!




 Os dicionários desconheciam a palavra “caningado”. Somente em 2004, com a edição do rico Dicionário Houaiss, contemplaram esse verbete, embora com sutis diferenças. Vejamos:



CANINGA: s.f.1 má sorte; azar, caiporismo. 2 p. ext. Sentimento de desgosto, aborrecimento * Etim prov. Do quicg. Kininga: nome de uma inquice que faz emagrecer (pág. 600).

Só para esclarecer: na religião do Candomblé de ritos Angola e Congo, inquice é uma das divindades equivalentes aos orixás dos nagôs. Em alguns terreiros é alma de morto, espírito mau (egun), segundo o Houaiss. Com relação à palavra “caningado”, diferente da maioria listada com o provável século do seu surgimento, não informam tal dado. Mas tendo se originado na África, deve ter séculos.



 Tenho um palpite que a palavra “caningado” tem algo com o “cão” (o diabo). É como se quisesse dizer que a pessoa é “endiabrada” (“Cãoningada”. Seria? Se todos esses partos de palavras ditas surgidas no Nordeste, e agora até na África são reais ou coincidências, não sei, até porque as palavras voam, caem, renascem, desaparecem, retornam. Palavras caningam e às vezes são caningadas também. Vivo pelejando com elas.  Mas que a palavra “caningado” não tem nada a ver com o oficial americano “Cunninghan”, isso sim, é fato. Para mim o assunto está resolvido. Não vou questionar o “Percurso na poesia de Mário de Andrade”, tampouco o Houaiss. Mas tenho uma certeza: não quero perto de mim gente caningada nem para fazer remédio.

Estaria esclarecido ? L.C.F. 12.7.2016  







sábado, 5 de março de 2022

Poema: Solidão com informação


 

SOLIDÃO COM INFORMAÇÃO (1991)

Rute e Rita: duas irmãs que não se casaram
Moram numa casa simples,
Bem cuidada.
Bem pintada.
Casa de boneca, parece.
Não têm pai nem mãe,
Nem irmãos, nem tios.
Rute e Rita pouco saem de casa.
Quando o fazem, vestem-se impecáveis.
Possuem calos nos cotovelos,
Famosas janeleiras.
Sabem sobre a vida de todos.
Rita e Rute, se tivessem estudado,
Seriam jornalistas.
Elas são mais bem informadas
Que a imprensa.
Sabem quem brigou com o marido,
Quem traiu, foi preso, deu calote,
Quem chegou à cidade, quem saiu.
Até quem está grávida elas sabem,
Sabem de tudo.
Até hoje ninguém sabe o mistério de Rute e Rita.
Elas só deixam a casa para buscar o dinheiro da aposentadoria.
São recatadas e falam pouco.
Nem à igreja vão.
Mas sabem de tudo.
Tudo... tudo... tudo...

Poema: Psicografite...



PSICOGRAFITE.

 

Parece que havia setembro naquela temporada…

Sei que era época pertinente a flores.

O passario comandava a copa das árvores,

Entonces escorriam palavras dos meus grafites,

E tudo se acomodava àquelas linhas...

Centos de animais alados bichavam as frutas,

Cigarras trincavam seus vidros no enormidão das matas…

O borbulhar da sinfonia ecoava das águas pardas do sinuoso Paraguai.

Cumplicidade absoluta de bichos e águas, de árvores e bichos,

Tudo arquitetava poesia naqueles ermos…

E lá estava o grafite incorporando palavras,

Dialogando o idioma dos seres mateiros,

Psicografitando os espíritos do Pantanal,

Disfarçando-se a poemas…

É assim a alma escorrida naqueles rincões,

Elas só incorporam quem tem parte com palavras…

Quem não tem, parte…

E deixa as linhas vazias de poemas,

Orfãs escorreitas em meio a tanta maternidade…

(L.C.Freire 6.1.18)

"Os Sertões", de Euclides da Cunha, breve reflexão...


Em 1989 li o clássico OS SERTÕES, de Euclides da Cunha. Ele foi enviado pelo jornal Folha de São Paulo para a Bahia para cobrir a guerra de Canudos: uma revolta pelo intelectual Antonio Conselheiro. Essa obra é, no dizer de Antonio Cândido, “precursora no desenvolvimento das ciências sociais nos anos 30 e 40”. O autor acaba trazendo a baila o pensamento nacional e os questionamentos sobre o atraso do desenvolvimento no interior do Brasil e do próprio país em relação aos outros. 
 
Euclides da Cunha inicia fazendo uma descrição perfeita da seca do nordeste e dos elementos que a integram, inclusive o vaqueiro. Há partes que parecem terem sido escritas hoje. Depois ele conta a história de duas famílias inimigas: os Araújo e os Maciéis, nessa última, faz parte Antonio Conselheiro, ou simplesmente Antonio Vicente Mendes Maciel, os quais eram pessoas de considerável poder aquisitivo para os padrões de sua região. 
 
Alguns episódios são comparáveis à história de Lampião, haja vista a injustiça que velhos coronéis, políticos e juristas cometeram contra a família Maciel, os quais eram pessoas de bem. Sabe-se que as brigas familiares, no sertão do Nordeste, tinham sempre como fatores determinantes a luta pela terra e pelo poder político. E o Estado sempre ficava do lado dos grandes latifundiários. 
 
Penso que uma série de fatos injustos acabou condicionando Conselheiro a abraçar a causa da defesa da terra para quem não tinha. Não foi mais que isso. E ele fez com muita inteligência, pois, além de ser um homem culto, era extremamente focado (embora muitos o vendem como insano, beato etc). Seu discurso impressionava pela profundidade e pelo conhecimento que ia da Bíblia aos mais importantes clássicos. 
 
Ele assumiu pastas públicas respeitáveis, como escrivão de juiz de paz, requerente do foro, advogado provisionado, além de ter montado escola onde era professor. O fato de a sua história ser mal interpretada ou contada por pessoas preconceituosas faz com que o vejam de forma negativa. O próprio Euclides é infeliz em vários pontos, embora o grosso da obra seja fundamental para a leitura de todo brasileiro. A guerra durou de 12 de novembro de 1896 a 5 de outubro de 1897, ou seja, logo após a proclamação da república. 
 
O Arraial de Canudos atraia todas as categorias: artesãos, pequenos proprietários expulsos de suas terras pelos grandes ou pelo fisco, imigrantes, alforriados, escravos fugidos, elementos de todos os tipos, mas rezavam a cartilha da organização, da partilha, da “união faz a força” etc. Mas como ninguém tem bola de cristal, é certo que muitas pessoas – inclusive autoridades respeitáveis –abandonaram suas vidas e seus cargos para seguir o Conselheiro, pois eram inimigos do novo regime republicano recém-instalado.
 
Canudos tornou-se uma Canaã e fez medo à República que engatinhava desorganizada e politiqueira. Obviamente Antonio Conselheiro tinha lido Utopia, de Tomas More. Não é possível! E fez bom uso. Certamente a origem histórica de Canudos deu-se na ideologia desse clássico de More. Interessante era que ele recebia o mais profundo respeito das pessoas adeptas a Canudos, por pura admiração e pelo espírito igualitário como eram tratados. Foi um homem respeitado por muitos, desde mendigos a autoridades, inclusive, ao contrário do que alguns apregoam, até alguns padres o admiravam. 
 
Certos trechos do pouco que ele deixou escrito são antológicos e não ficam atrás do que falaram ou escreveram os maiores abolicionistas. Infelizmente os governantes não entenderam quão visionário fora Antonio Conselheiro. O jeito foi matá-lo. E olha que deu trabalho, pois precisou de cinco expedições. Vieram militares de todo o Brasil, nos mais altos postos. 
 
Quase todos morreram pelos “jagunços” do Conselheiro, os quais eram em número superior aos pelotões de todo o Brasil. Precisou então fazer uma “salada brasileira de soldados”, na qual ia de gaúchos a nortistas. Mais de seis mil homens, canhões e as mais potentes (para a época) armas de fogo. Tanto o pelotão do Conselheiro quanto o pelotão dos militares (expedicionários) teve um inimigo em comum: a seca! Ela matou a muitos. A história vale a pena ser lida, relida, refletida e imitada pelos políticos brasileiros. 2.6.1999.

Obras "Caetés", de Graciliano Ramos, e "A Lágrima de Um Caeté", de Nísia Floresta: Pontos em Comum...


Eu havia lido Caetés em 1980. Até então conhecia Nísia pelas contações maternas. Eis que cai nas minhas mãos, preparado pela professora Constância, A lágrima de um Caeté, séculos depois - precisamente em 1997. Eis que relendo Caetés, do nosso amigo Graciliano, há uns 15 dias, dou-me com uma identificação isolada, mas curiosa entre as duas obras (não dizem que toda vez que relemos, descobrimos um trecho despercebido?). É nada mais que um encontro de ideias entre o velho alagoano com a papariense de Floresta. Mas muito interessante!
 
O personagem principal, João Valério, vendo fracassar o sonho de escrever um livro sobre os índios Caetés, e triste por Luísa (viúva fresca) tê-lo recusado em casamento, prosta-se a chorar o seu fracasso assim: 
 
"Não ser selvagem! Que sou eu senão um selvagem, ligeiramente polido, com uma tênue camada de verniz por fora? Quatrocentos anos de civilização, outras raças, outros costumes. E eu disse que não sabia que se passava na alma de um Caeté! Provavelmente o que se passa na minha, com algumas diferenças. Um Caeté de olhos azuis, que fala português ruim, sabe escrituração mercantil, lê jornais, ouve missas. É isto, um Caeté..."
 
Já a Brasileira Augusta diz assim no seu " A Lágrima... : 
 
"Indígenas do Brasil, o que sois vós?
Selvagens? Os seus bens já não gozais... Civilizados? não... vossos tiranos
Cuidosos vos conservam bem distantes
Dessas armas com que ferido tem-vos.
De sua ilustração, pobres caboclos!
Nenhum grau possuis! ... Perdeste tudo, Exceto de covarde o nome infame..."
 
Pois bem, ambas as obras se distam 84 anos (1849/1933). Românticas. As ideias, porém, são próximas ou idênticas, embora que num parágrafo apenas. Aí reside a beleza da leitura, as conexões, as identificações, os antagonismos... Quem diria que Graciliano e Nísia se encontrariam? Só mesmo os cérebros dos leitores loucos permitem esses namoros literários.

ACTA NOTURNA - 1882 - PADRE JOÃO MARIA, O SACERDOTE QUE DORMIA NO SÓTÃO... (2017)


ACTA NOTURNA - 1882 - PADRE JOÃO MARIA, O SACERDOTE QUE DORMIA NO SÓTÃO... (2017)

Quando andou pelos recônditos paparienses, padre João Maria percorria léguas em visita às pessoas pobres e doentes, outrora dando a extrema unção... coisas que hoje alguns o fazem com grande sofrimentos, ocupados com os ricos...
 
Padre João Maria esteve por ali no período de 1878 a 1882. E levou junto com ele a irmã Militana. Em 1877 os flagelados da seca fugiam de diversos municípios vitimados pelas agruras desse fenômeno natural, então ele se desdobrou para dar assistência a esse público. O êxodo desse povo às terras paparienses se deve à fartura de águas e peixes no lugar, além das terras férteis.
 

Padre João Maria usava o sótão da igreja para dormir (aquela parte detrás do altar-mor), toda em assoalho de madeira. Encontra-se em andamento o processo para a sua canonização. Se isso ocorrer, o lugar será caminho de peregrinação e pesquisas escolares e universitárias, precisando, por isso, ter as características desse lugar muito bem respeitadas.
 
Foi desses sacerdotes que atualmente estão quase extintos... Para homens assim, que se doam aos pobres de coração, e dão-lhes alento, ouvem suas dores, buscam formas de alimentá-los física e espiritualmente, eu tiro o meu chapéu e dou-lhes a minha mão... Ele nasceu em 1848, em Caicó, e faleceu em 1905, em Natal. 
 
Até hoje seu enterro não foi superado em número de pessoas que acompanharam o cortejo. Acredito na santidade como algo humano, não como sobrenatural. Padre João Maria permitiu lapidar nele essa santidade.