Hoje, ao cutucar a tela do meu celular, deparei-me
com uma postagem da professora Francisca Henrique que me causou uma dessas
surpresas boas que, vez por outra, nos chegam aparentemente do nada pelo Instagram. Vi que ela esteve na Estônia e Finlândia, em caráter de
estudo e pesquisa sobre a Educação daqueles países. No vídeo, uma moça lhe
pergunta: “O que foi passar uma semana
na Estônia?”. E Francisca responde: “Foi
algo surpreendente... me tornou uma pessoa cheia de esperança pra colocar em
prática noventa por cento do que eu observei, do que eu ouvi, das visitas que
fiz... Criei repertório, novas experiências e pra isso eu estou voltando para a
escola com um novo olhar do que eu posso transformar para o bem da minha equipe
de professores, dos meus alunos e das famílias. É um modelo que dá para ser
muito bem aplicado na realidade do Brasil. É por isso que eu estou aqui e sou
grata a futuros eventos, por essa ideia e por esse convite”. Fiquei olhando
a imagem da professora Francisca e imaginando o quanto a educação é
extraordinária. E pensei imediatamente em outro norte-rio-grandense que, mais
de um século atrás, também atravessou o oceano movido pela mesma inquietação:
Henrique Castriciano. E foi então que percebi que aquela viagem de Francisca à
Finlândia e à Estônia não era apenas uma notícia sobre uma educadora
contemporânea. Havia ali uma história que conversava com outra história, e
ambas se encontravam no mesmo ponto: o desejo de conhecer o que existe de
melhor no mundo para trazer alguma coisa de volta à terra natal.
Em 1909, Henrique Castriciano viajou à Europa, já
doente, mas não deixou de ampliar suas pesquisas sobre educação, especialmente
sobre a educação feminina. Na Suíça, em Friburgo, visitou a École Ménagère, instituição que lhe
causou profunda impressão e que se tornaria uma das grandes inspirações para
aquilo que realizaria posteriormente em Natal. Não foi uma viagem de turista.
Castriciano observou, estudou, procurou compreender o funcionamento daquele
modelo e voltou para o Rio Grande do Norte carregando na cabeça uma ideia que,
para a época, era extraordinariamente ousada. Ele acreditava que a educação
poderia modificar a sociedade e que a mulher deveria ocupar papel fundamental
nesse processo. A experiência suíça não ficou perdida entre as lembranças de
uma viagem europeia. Em 23 de julho de 1911, ele participou da criação da Liga
de Ensino do Rio Grande do Norte e, em 1º de setembro de 1914, surgia a Escola
Doméstica de Natal, inspirada na experiência da escola suíça de Friburgo, tornando-se
posteriormente uma das instituições educacionais femininas mais respeitadas do
Brasil. Castriciano havia feito aquilo que Francisca acaba de fazer: olhou para
fora, estudou uma realidade diferente e perguntou a si mesmo como aquele
conhecimento poderia servir à sua pr´pria terra.
Há, porém, um detalhe ainda mais bonito nessa
história. Henrique Castriciano não foi à Europa apenas para estudar
instituições de ensino. Ele era também um educador profundamente interessado em
Nísia Floresta. A admiração que nutria pela grande educadora, escritora e
pensadora nascida em Papary foi tão intensa que se transformou em uma
verdadeira paixão intelectual. Castriciano pesquisou durante anos a vida de
Nísia, procurou documentos, examinou bibliotecas, entrevistou pessoas e manteve
correspondência com familiares da escritora. Chegou a estabelecer contato com
Lívia Augusta, filha de Nísia, já idosa, que lhe confiou fotografias,
documentos e informações preciosas sobre a mãe. Castriciano reuniu durante anos
um farto material com a intenção de escrever uma biografia de Nísia Floresta. A
doença, entretanto, impediu que concluísse o trabalho. Generosamente,
transferiu grande parte desse acervo para Adauto da Câmara, que publicou em
1941 a sua História de Nísia Floresta. É uma das passagens mais bonitas da
história intelectual do nosso Estado, porque revela que o conhecimento, quando
tratado com grandeza, não pertence a quem o recolhe. Ele pertence à
posteridade.
E por que estou falando de Henrique Castriciano
quando deveria estar falando de Francisca Henrique? Porque há pessoas que
parecem atravessar o tempo através das ideias. Castriciano e Francisca nasceram
em épocas completamente diferentes, viveram circunstâncias distintas e
construíram suas trajetórias em mundos que não podem ser comparados
mecanicamente. Mas existe entre eles uma afinidade que considero
extraordinária: ambos compreenderam que educar exige inquietação. Nenhum dos
dois parece ter se contentado em administrar aquilo que já sabia. Castriciano
atravessou o oceano para conhecer uma experiência educacional que pudesse
ajudar a transformar o Rio Grande do Norte. Francisca atravessou o oceano para
conhecer experiências educacionais que possam ajudar a transformar sua escola,
sua equipe de professores, seus alunos e suas famílias. Ele voltou da Suíça
trazendo um projeto. Ela retorna da Finlândia e da Estônia trazendo repertório,
experiências e esperança. Ele criou. Ela continua criando. Ele olhou para a
Europa e pensou no futuro da educação potiguar. Francisca olha para o norte da
Europa e pensa no futuro da educação em Parnamirim e no Brasil.
Mas existe ainda uma terceira personagem nessa
história, e talvez seja justamente aquela que torna tudo mais bonito para mim:
Nísia Floresta Brasileira Augusta. Tenho uma relação familiar com Nísia e, por
isso, talvez eu não consiga falar dela com a distância de um historiador. Há
uma dimensão afetiva que inevitavelmente se mistura à intelectual. Nísia foi
uma mulher que não aceitou as limitações impostas pelo seu tempo. Educadora, escritora,
jornalista e filósofa, percorreu diversos países da Europa e fez das viagens
uma extensão de sua atividade intelectual. Não viajava apenas para ver. Viajava
para conhecer, observar, pensar, escrever e comparar. Levava consigo perguntas
e voltava com novas perguntas. Sua vida foi uma permanente procura por
conhecimento. Quando penso nisso, e depois vejo Francisca Henrique retornando
da Finlândia e Estônia cheia de entusiasmo, e que volta para a escola com um
novo olhar, não consigo deixar de perceber uma espécie de parentesco espiritual
entre essas mulheres, não no sentido genealógico, mas naquele território mais
profundo em que vivem as pessoas que se recusam a permanecer intelectualmente
paradas.
A história pessoal de Francisca torna essa
comparação ainda mais significativa. Conheço sua trajetória e já escrevi sobre
ela em meus blogs. Li e reli o seu relato autobiográfico e cada vez mais me
convenço de que sua vida é uma das histórias mais lindas que conheci. Francisca
nasceu em um contexto de grandes dificuldades materiais. Viveu numa casa
humilde, conheceu o galpão de palha, perdeu cedo o pai e encontrou na mãe,
Regina, uma dessas mulheres extraordinárias que parecem possuir dentro de si
uma usina de força. Seu ensino fundamental foi feito praticamente em casa, de
maneira autodidata, orientada pelo irmão que a alfabetizou. Aos dez anos já
dominava a escrita e fazia todas as operações matemáticas. Aos quinze, resolvia
contas avançadas. Quando foi para São Paulo, passou a visitar escolas, museus e
instituições públicas sempre que tinha oportunidade. Ela própria diz que era
praticamente um vício. Bastava sobrar tempo e lá estava ela dentro de um
educandário, perguntando tudo. É impossível não perceber que aquela Francisca
que hoje viaja à Finlândia e à Estônia já estava ali, décadas atrás, entrando
nas escolas simplesmente para perguntar, observar e aprender.
De volta a Parnamirim, continuou estudando e
trabalhando. Tornou-se professora, fez o Logus II, ingressou na UFRN em 1987 e
concluiu o curso de Letras em 1991. Seu estágio foi realizado com o método
Paulo Freire, experiência que a marcou profundamente. Depois, levou para
Parnamirim projetos educacionais voltados à formação de jovens e adultos e
percorreu escolas de todo o município orientando e formando professores. Muitas
vezes, em razão da precariedade das condições daquele período, chegou a
utilizar uma ambulância para alcançar as escolas. Aquilo que poderia parecer
uma dificuldade tornou-se, para ela, um laboratório de aprendizagem. E talvez
tenha sido justamente ali que se consolidou a educadora que mais tarde criaria
uma das instituições de ensino mais conhecidas de Parnamirim. Em 1991 fundou o
Núcleo Educacional Arco-Íris, inaugurado no ano seguinte com 120 alunos. Onze
anos depois, a instituição passou a chamar-se PH3, nome que homenageia seus
dois filhos e que Francisca também associa às ideias de Potencial Humano ao
Cubo, Paz e Harmonia.
É impossível conhecer essa história e enxergar
Francisca apenas como uma empresária da Educação. Antes da empresária existiu a
menina que estudava sozinha, a balconista da Loja Cardoso cujos tecidos se
confundiam com livros e cadernnos em seu horário de descanso, a mulher que
buscava ampliar seus conhecimentos, a professora que percorria escolas, a
universitária que estudava de madrugada enquanto embalava a filha, a educadora
que levou Paulo Freire para Parnamirim e a mulher que transformou suas próprias
dificuldades em combustível para construir alguma coisa maior. O PH3 não nasceu
simplesmente de uma decisão empresarial. Nasceu de uma longa gestação
intelectual e humana. Por isso, quando Francisca viaja para estudar sistemas
educacionais em outros países, eu não vejo uma empresária fazendo uma viagem
internacional. Vejo aquela mesma menina que, muitos anos atrás, queria saber
mais e que nunca perdeu o hábito de perguntar.
Francisca é hoje proprietária do PH3 e também está
à frente de uma franquia do Colégio Mappem Bear em Parnamirim. Ao longo dessa
caminhada, acumulou prêmios, homenagens e reconhecimentos, mas talvez nenhum
deles explique completamente quem ela é. Há pessoas cuja grandeza pode ser
medida pelos diplomas que recebem. Outras, pelos prédios que constroem. Outras,
ainda, pelo número de alunos que passaram por suas escolas. Francisca pode ser
observada por tudo isso, mas existe algo que me parece mais importante: ela não
parou. Mesmo depois de construir uma trajetória respeitável, continua viajando
para aprender. Continua procurando novidades. Continua perguntando. Continua
inquieta.
E essa inquietação recentemente ganhou também uma
dimensão cultural. Em 10 de novembro de 2025, Parnamirim viveu um momento
importante com a criação da Academia de Letras e Artes de Parnamirim,
iniciativa ligada à própria Francisca Henrique. É como se a educadora que
construiu uma escola tivesse decidido que Parnamirim precisava também de uma
casa para as letras, para as artes, para a memória e para a inteligência. Não é
dif´cil compreender esse movimento quando se conhece sua trajetória. Francisca
sempre parece ter acreditado que educação não é apenas transmissão de conteúdo.
Educação é construção humana. É cultura. É memória. É curiosidade. É
possibilidade.
Talvez por isso eu veja tanta beleza nessa sucessão
de acontecimentos. Nísia Floresta viajou pelo mundo como educadora e pensadora.
Henrique Castriciano atravessou o Atlântico, foi à Suíça conhecer uma
experiência educacional e trouxe para Natal a inspiração que ajudaria a
produzir a Escola Doméstica. Ao mesmo tempo, dedicou anos de sua vida à
preservação da memória de Nísia, recolhendo documentos e informações que
poderiam ter desaparecido para sempre. Agora Francisca Henrique viaja à
Finlândia e à Estônia, observa escolas, bibliotecas, órgãos educacionais, escuta
pessoas, conhece métodos, cria repertório e retorna dizendo que pretende
colocar em prática grande parte do que viu. São histórias diferentes,
evidentemente, mas há entre elas um fio que não consigo deixar de perceber: o
conhecimento não como ornamento, mas como instrumento de transformação.
Francisca Henrique não é apenas uma empresária que
fundou uma escola, recebeu prêmios e construiu uma carreira bem-sucedida. É a
menina de Vera Cruz que conheceu a pobreza, viveu numa casa de taipa, teve um
galpão de palha como parte da paisagem da infância e, em vez de permitir que
aquelas circunstâncias determinassem seu futuro, transformou cada dificuldade
em tijolo e argamassa e nunca deixou de construir. Francisca é a filha da dona
Regina, a professora, a mãe, a esposa, a universitária que estudava de
madrugada, a educadora que percorria escolas, a mulher que criou o PH3 e que,
mesmo depois de tudo isso, continua olhando para o mundo em busca de alguma
coisa nova que possa trazer para casa.
Quando Francisca diz que a viagem à Estônia lhe deu
esperança, essa palavra me chama especialmente a atenção. Esperança, para ela,
não parece ser espera. É movimento. É trabalho. É transformação. É voltar para
a escola com um novo olhar e perguntar o que pode ser feito de maneira diferente.
Foi assim com Castriciano. Ele não voltou da Suíça apenas encantado com o que
viu. Voltou determinado a fazer. Foi assim com Nísia, que transformou suas
experiências de vida e de viagem em pensamento, livros e ação educacional. E é
assim que vejo Francisca: uma mulher que viaja para aprender, aprende para
transformar e transforma para deixar alguma coisa de melhor para aqueles que
vêm depois.
Talvez seja essa a verdadeira razão pela qual
aquela postagem que vi no meu celular tenha me causado tanto orgulho. Francisca
Henrique não estava simplesmente dizendo que havia gostado da Estônia. Estava
dizendo que havia voltado com novas ideias para produzir frutos em Parnamirim.
E nisso existe uma lição que Henrique Castriciano compreendera mais de um
século atrás e que Nísia Floresta parecia compreender ainda antes dele: não há
fronteira para quem procura conhecimento.
Francisca Henrique é, para mim, uma dessas pessoas
inquietas que honram a cidade onde nasceram e construíram sua vida. Uma mulher
que não se contenta com o que já fez, que não permite que o tempo a desatualize
e que parece ter sempre uma nova porta para abrir. Se Parnamirim tem uma
história feita de pioneiros, de homens e mulheres que colocaram tijolo sobre
tijolo para construir a cidade, Francisca é uma dessas construtoras. Só que os
seus tijolos são também escolas, professores, alunos, academia, livros, ideias,
cultura, arte e projetos. Ela vem colocando esses tijolos há décadas.
E foi por isso que, ao vê-la na Estônia, pensei em
Henrique Castriciano na Suíça e em Nísia Floresta atravessando fronteiras.
Pensei que as cidades são feitas de ruas, casas, prédios e monumentos, mas sua
verdadeira grandeza é construída por pessoas que têm coragem de imaginar aquilo
que ainda não existe. Castriciano imaginou uma nova educação para o Rio Grande
do Norte. Nísia imaginou uma mulher diferente para o Brasil. Francisca continua
imaginando uma educação melhor para seus alunos, seus professores, suas
famílias e para a cidade que escolheu como sua.
Algumas vidas não devem ficar apenas na memória de quem as conheceu. Precisam ser contadas. Francisca Henrique merece ser contada numa bela biografia. E, enquanto esse dia não chega, fico feliz em registrar aqui esse tão representativo fragmento que encontrei numa tela de celular.E, talvez sem perceber, Francisca Henrique continua fazendo aquilo que fizeram antes dela os grandes espíritos que compreenderam que viajar não é apenas mudar de lugar. Viajar é ampliar o mundo dentro de si para, depois, ter coragem de transformar o mundo à sua volta. Parabéns, Francisca!
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