ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Manoel Salvador - Maestro da vida - o homem da cultura popular


MANOEL SALVADOR – O MAESTRO DA VIDA – O HOMEM DA CULTURA POPULAR 

(Essa é uma história real -texto:1996-2018)

Sr. Manoel e Salvador e sua esposa. Ora nessa casa, ora na calçada da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, ouvi longamente as narrações mais impensáveis desse sábio da Cultura Popular, seus testemunhos e as memórias que ele ouviu dos avós, como exemplo, a Festa da Padroeira de Nossa senhora do Rosário dos Pretos...

Durante muitos anos uma casinha de telhado baixo, sossegada no sopé de uma ladeira íngreme, fez-se palco de uma orquestra diferente. A sinfonia emanava da percussão de martelos, chachachá de serrotes, outrora chiados de lixas arpejando sons dia e noite. A casinha jazia irmanada a uma espécie de ateliê de fabricação de tamboretes, bancos e consertos de instrumentos de corda. A oficina dava concerto. Dava sinfonia, ofício cujo maestro regia para sobreviver. Só sei que o regente consertava, concertando. Cantava, encantando.
A filarmônica adentrava a noite até aparecer dona Francisca, arrastando os chinelos, alertando o velho maestro, seu esposo, sobre o adiantado das horas e incômodo ds melodias ao sono alheio. 
Quando se faz o que se gosta não se vê o tempo passar”, contou-me o tal músico orquestrador de tamboretes.


A sinfonia martelada anos a fio, empreendida por Manoel Salvador do Nascimento, o famoso “Mané Salvadô”, como pronunciam os nativos, era o único som daquelas noites, haja chuva, haja calor. Esse homem fez parte do cenário cultural de Nísia Floresta durante muitos anos. Sempre ligado a cultura popular, envolvido em eventos públicos realizados pela igreja e outras instituições. Animou muitas festas de padroeira, tanto em Nísia Floresta como em outros municípios, ora cantando, ora tocando algum instrumento de corda ou percussão para o Boi-Reis e Pastoril. Entoava bem cavaquinho, violão, pandeiro e bandolim. Ensinava jornadas de manifestações folclóricas a quem pedisse.


Manoel Salvador nasceu aos 5 de fevereiro de 1934, contando 85 anos. “Nasci na Campina”, disse-me. Não a campina grande igual a ele, mas a Campina ao lado da delegacia, um declive escorrido para o rio. Lugar delicioso, espraiado de simplicidade e bondade, emoldurado de árvores frutíferas e silvestres. O regato de águas frescas e cristalinas era pincelado de lavadeiras de roupa colorindo os varais e o chão verde de grama e ervas daninhas. Ambiente cercado de leirões de macaxeira, inhame, batata-doce e tudo mais que dá na roça. “Meus pais tinha casa ali... ela foi derrubada, mas a gente cresceu ali”.


Todas as senhoras das imediações viviam dos favores daquelas águas. O pequeno regato funcionava para lavagem de roupa e fonte de água para deguste humano. O dia amanhecia as pessoas carregando potes de barro, levando o precioso líquido para casa. Do outro lado havia uma mata ainda fechada,  encrudescida
"Aparecia muito tatu... tinha feito beia". Era comum às lavadeiras preparar comida sob as árvores próximas ao ribeiro. Levavam sempre algum alimento e o colocavam para cozinhar sobre trempes, improvisando fogo.


Enquanto lavavam, organizavam o almoço. Normalmente os alimentos eram divididos, pois cada uma trazia algo diferente: banana, macaxeira, fruta-pão, inhame, frango, carne de sol, rapadura, arenque. “Mamãe era doida por arenque”. Normalmente preparavam “liguento”, uma iguaria típica da região. Cozinhavam peixe com bastante água e todos os tempeiros; depois de pronto despejavam farinha até obter o ponto de pirão bem mole. Normalmente era apreciado com arroz. Algumas levavam cuscuz preparado em casa, cujo milho amanhecia pilado pelo hábito de se levantar com as galinhas. Era um olho na roupa e outro nas crianças, as quais tinham na natureza abundante o seu parque de diversão.
Mamãe criou a gente nesse rio... a gente vivia nessa mata pegando lenha, caçando... isso era mata fechada”.


Manoel Salvador é filho do pescador João Salvador do Nascimento e da dona de casa, Maria Ventura Salvador. É casado com dona Francisca Soares do Nascimento, nascida aos 30 de junho de 1939, contando atualmente 80 anos. Ela tem berço em Taipu/RN, tendo se instalado em Nísia Floresta por intermédio do pai, o qual deslocou-se para esse município em busca de vida melhor. Ao chegarem, acomodaram-se em “Passa-e-Fica”. Não a Passa-e-Fica nos limites do Rio Grande do Norte com a Paraíba, mas um cadinho esparramado em Tororomba, propriedade do senhor Osvaldo Guedes. “Papai veio trabalhar por aqui e aqui ficou, depois trouxe nós logo em seguida”.

Sua oficina
Explicando sobre as origens do Boi-de-Reis de Nísia Floresta, o senhor Manoel Salvador disse que foi “João de Dona” quem criou o primeiro Boi-de-Reis de Papari, juntamente com o Mestre Benedito”, moradores da “Rua da Palha”, no Porto. “Eles viviam batendo lá e cá com aquelas calungas deles... às vezes tocavam na igreja, nas festas”. Segundo o meu entrevistado a “Lapinha é um drama difícil por causa da roupa, é religiosa, diferente das outras danças. Por boa ventura, os mestres Benedito, Canindé e Antonio ainda são vivos, exceto João de Dona”.

A sobra silenciosa de corneta testemunha o foro de luthier que habitou Manoel Salvador durante décadas. 

     Senhor Manoel Salvador conserva uma propriedade adormecida numa pequena granja no centro de Nísia Floresta. Um lugar com pele de contos de fada. A simplicidade opera em nós como bálsamo para entendermos as nossas raízes. A casinha mora no sopé do morro batizado Alto Monte Hermínio. Um dos lados é avarandado. Nos fundos há um fogão à lenha atualmente com status de fogo morto. Foi muito usado para fazer comidas pesadas como canjica, munguzá, feijoada. As sobras do passado são vistas com naturalidade, espalhadas pela casa, ora no chão, ora na parede. É o caso de uma vassoura de mato, feita para varrer o quintal, um pote com água é conservado ao lado da porta da cozinha, uma lanterna artesanal de São João, feita de madeira e papel de seda, na qual se colocava uma velinha e pendurava na varanda para alegrar os santos juninos, um candeeiro, um filtro com água potável, envolto por canecas de alumínio sobre um aparador na sala.



No quintal sobrevive uma fonte inesgotável de água límpida. É o poço. Segundo ele “faltou pouco para ser água mineral”. Durante a proclamada “Cheia de 1974” o fenômeno bolinou com a cidade inteira. O município entrou em polvorosa. O centenário povoado de Cururu foi o mais prejudicado. Lugarejo, bucólico, antes afogado de poesia, afogou-se de águas turbulentas, finadas ali depois de derrubar tudo o que encontraram adiante, a partir de Georgino Avelino, inclusive uma barragem.

O belo quintal arquiva plantas frutíferas e silvestres, habitat natural de sabiás e mil aves.
De Cururu restou intacto o velho “campo santo” no pináculo da duna mais alta. O restante quedou devastado, empurrando o povo para o Campo de Santa Ana, lugar mais próximo do céu. O povoado do Porto ficou quase todo submerso. As águas da lagoa Papari cresceram, como se o ser fantástico batesse uma coité sobre as águas... engolindo os roçados e quintais e as casas. O barro das taipas arriou, restando os trançados de varas. “A água quase chegava ao teto”.


A população do lugarejo se socorreu do centro da cidade. Outros se instalaram em São José de Mipibu e nunca mais retornaram às origens para morar. Os Conjuntos Maria Mércia I e II nasceram dessa debandada. O povo se apertou nas residências dos familiares, instigando o poder público a abrir novos bairros.


O centenário Alto Monte Hermínio também se agigantou nesse tempo. Os desalojados temiam a repetição do fenômeno e não queriam se arriscar, embora não houve mortes. O solo, encharcado, fez desaparecer muitas árvores frutíferas que comandavam os gigantescos quintais daquele velho povoado. Como as águas vieram de longe e rebentaram represas, as pessoas pegavam peixe e camarão com as mãos nos quintais submersos. Quem morava mais próximo da lagoa teve que sair de canoa, carregando os pertences que pudesse.


Certa vez, a senhora Teresinha Carvalho, mãe do taxista Iran, contou-me que seu quintal tinha um pé de “laranja-princesa”. As frutas eram extremamente doces e as cascas macias. Ela se entristeceu quando as águas baixaram e seu pé secou em seguida.  Se eu soubesse, teria guardado semente, pois nunca vi uma laranja igual àquela”. São as lembranças.


Durante a referida “Cheia de 74”, como é conhecida e contada com admiração por quem a testemunhou, o poço de “Mané Salvador” se tornou uma das fontes mais preciosas de água potável de Nísia Floresta.  Quam morava próximo se socorreu dessa fonte. Segundo ele, o senhor “Luiz da carne”, “marchante” e dono de cinema no Porto, buscava água diariamente em sua camioneta. "Levava para ele e pro povo de lá". Os poços daquela localidade ficaram contaminados com a água da cheia, a qual se demorou meses para baixar e normalizar. Os rios ficaram sujos, inclusive o regato de águas límpidas contado no início dessa história. “Era um friviado de gente dia e noite atrás de água... e eu nunca neguei, Luís Carlos, nunca neguei... era água franca para quem quisesse”.
É impressionante a aparência límpida dessa água, a qual me foi mostrada pela senhora Francisca, enquanto conversávamos.

Em 1998, coincidentemente, encontrei-me com um senhor idoso em Natal. Fora fotógrafo durante muitos anos e se deslocara a Nísia Floresta durante a referida cheia. Veio para fotografá-la. Tudo está em slide colorido. Como ele não tinha mais interesse nas imagens, me doou todo o acervo, pedindo em troca – vejam como são as coisas – uma fotografia da escritora Nísia Floresta. Foi um dos fatos mais impressionantes que me aconteceram, pois com certeza essas fotografias teriam se perdido no pó do tempo. Ele, inclusive, fotografou a construção da Escola Yayá Paiva. As imagens estão em meu poder. O meu encontro com esse fotógrafo idoso foi uma providência inexplicável.


Contou-me o senhor Manoel Salvador que as terras ricas e incomparáveis de Nísia Floresta foram berço de grandes plantações de agave. “Plantavam muito agave e mandavam a fibra pra fora. Aqui servia só pra prantio e pra batê até virar fibra”.


Curiosíssimo esse entendimento do senhor Manoel Salvador sobre o amargor da terra causado por tal planta. “Aquilo desgraça a terra, amarga ela todinha. Inventaram até uma música sobre isso. Se você procurar aí nesse negócio de internet vai vê sobre esse amargo que o agave causa na terra. Ainda bem que levaram isso daqui”.


No fundo do quintal do senhor Manoel Salvador há um quartinho permeado de ferramentas de carpinteiro. É a orquestra marceneira comentada no preâmbulo. As mazelas da idade, que não acometem a todos, mas que o vitimou, o impediu de seguir orquestrando os seus bancos, tamboretes e instrumentos musicais. Algumas vezes incorporava o espírito do luthie.r Era o seu hobbye. “Ais veiz eu chegava do trabalho, cansado, tomava um banho, comia e findava ali, nem parecia que estava cansado... eu entrava a noite bateno, bateno... a mulé é que me chamava prá dormir... eu gostava muito... ave Maria!” Contou com lágrimas nos olhos, disfarçando-as com um lençol e a voz raspada de saudade, como se quisesse voltar no tempo e re-ser tudo o que fora. 


O quartinho jaz, fechado, silencioso, envolto em poeira e pucumã. Boa parte de seus instrumentos de trabalho jazem ali. Há muita quinquilharia: pedaços de instrumentos musicais, garrafas, madeira, diversas ferramentas enfim, está do jeito que ele deixou quando se despediu dali. A poeira cobre lentamente o local cujo maestro já não tem mais as mãos habilidosas, tampouco as pernas firmes que o consduziam lá e cá.



Falando em voz, eis a dádiva maior do senhor Manoel Salvador: a sua voz. Só faltou-lhe oportunidade, pois sua voz não deve aos mais famosos cantores de seu tempo.  Para explicá-la, vou contar da minha chegada a Nísia Floresta, em 1992. Era um evento no Clube de Idosos. Eu passava para uma entrevista no Conjunto Celina. A rua do Clube era de terra batida. Raríssimas casas. De repente uma voz muito poderosa e afinada reverberava à altura do riozinho que divide os conjuntos. Era o senhor Manoel Salvador cantando para os idosos. Uma carroça era preparada para os noivos que desfilariam à noite durante comemorações juninas. Era a mãe da falecida Nininha, Srª Arlete, extremamente animada. Fiquei impressionado. Nunca vi algo parecido. Marize Leite animava os idosos nesse tempo.


Nunca vi pessoa tão alegre e falante como o senhor Manoel Salvador. Entrei rapidamente no clube, sem conhecer ninguém e contemplei o homem gigante. Até aí não sabia que o seu tamanho físico, hercúleo, era pequeno diante da imensidão de sua alma. Certo dia uma antiga moradora disse que o senhor Manoel Salvador era um homem amostrado (significa exibido no linguajar regional). Achei curiosa a comparação. Santos de casa realmente não fazem milagres. Eu bem queria ter me deparado com um Manoel Salvador na minha infância com todo esse exibimento necessário e contagiante. Ele teria feito muitos milagres.


Na realidade o senhor Manoel Salvador é um homem social. Não é o tipo de pessoa reservada ou resguardada. Está na sua natureza. Com certeza ele morreria se não explodisse os mangaios, as feiras, as notas musicais, as loas, as falas, as risadas colossais, as caras-e-bocas que fluem como regato intermitente de dentro dele. Com certeza ele diria o que escreveu o fantástico poeta Manoel de Barros “eu preciso ser outros”. 
O senhor Manoel Salvador sempre foi outros. Foi marceneiro, agricultor, motorista, pescador (pescava de “choque”), cantor, poeta, romanceiro, instrumentista, consertador de instrumentos, fazedor de fogão à lenha, catador de lenha, dono de casa, zelador de poço enfim um homem sem fim.


Para amealhar dinheiro e sobreviver, ele trabalhou em múltiplas funções. Fez de tudo o que um homem de bem faz à favor de sua família. Foi até vendedor de lenha em tempos de juventude, inclusive tinha um burro chamado “Lambreta”, seu meio de transporte. “Eu cuidava do bichim como criança... ele vivia de bucho cheio, sempre penteado e cuidado”.


Respirando ou não os ares paparienses, nunca me esqueci do senhor Manoel Salvador. Minha mãe diz que a gente não precisa estar colado às pessoas para dizer que é amigo. Verdade. Considero-me amigo do senhor Manoel Salvador. 
Ele sempre foi uma espécie de cabo eleitoral de George Ney. Nutria uma fidelidade a esse ex-prefeito. Exaltava-o como ninguém. Nunca discutimos o assunto. Apenas o ouvi e o respeitei profundamente. Existem temáticas que se tornam insignificantes diante da relevância da amizade verdadeira. Amizades reais sobrevivem a tudo. A recíproca é igual.


Durante a minha conversa com o senhor Manoel Salvador, ele cantou algumas versões da Lapinha. “Que viajo do além, adorar ao Deus Menino, que Jesus é o nosso bem... aí entra o Pastor e fala: Entrai as pastorinhas, vamos todas a Belém, visitar já é nascido Jesus o nosso Bem...” Depois explicou “já fizemos uma Lapinha no Clube de Idosos, mas idoso é difícil Luís Carlos”, justificando o quanto os velhos lhe deram trabalho até concluí-la. “Há dois tipos de introdução do Pastoril. Há o antigo e o que inventaram depois. O moderno, cantado em Mipibu é: oh! boa noite meus senhores todos, oh! boa noite, senhoras também, somos pastorinhas, pastorinhas belas, alegremente vamos a Belém. Eu sou a mestra desse Pastoril, o meu partido é os dois cordão...”.


Depois ele cantou o que diz ser o Pastoril de Nísia Floresta, o antigo: “Boa noite a todos a minha chegada, boa noite a todos a minha chegada, chegou a mestra eu que dou entrada, chegou a mestra eu que dou entrada”. Na realidade não é o Pastoril de Nísia Floresta, mas nesse município se conservou a compilação das jornadas em sua formatação original. O Pastoril é uma expressão da cultura popular brasileira. Existiu em todo o país, sobrevivendo em alguns estados. No Nordeste com certeza é mais abundante. Segundo ele o que tem feito diminuir a participação do povo nas atividades de folclore é “a falta de moral... antigamente a pessoa andava para onde quisesse sem medo, hoje a violência tomou conta de tudo”.


No bojo das conversas ele se empolgou e contou assuntos que se entrelaçavam com sua vida. Num dado momento cantou a música da campanha “Aliança para o progresso”, de Aluízio Alves, explicando que em períodos de eleição política o famoso candidato percorria as terras nisiaflorestenses, como também Lavoisier Maia, Dinarte Mariz e tantas figuras políticas conhecidas. Segundo ele, “Nísia Floresta pegava fogo nesse tempo... o povo brigava pelos candidatos”.
No meio dessa orquestra de palavras entra o seu neto Artur e dá amostras de sua inteligência, explicando um assunto aprendido na escola. O garoto roubou a cena pela desenvoltura.
       Assim terminou nossa conversa sinfônica...
      A história do Sr. Manoel Salvador me diz que a vida é um sopro, que de repente uma fortaleza reverberante se torna minúscula vergôntea rasgando a terra, tentando... sobreviver. O Sr. Manoel Salvador não reclamou o peso da idade. Explicou apenas que queria muito que sua perna, cujo fêmur de quase um metro o sustentasse.  
   Eu não poderia deixar de me curvar a esse homem singular, nobre, sábio, ao qual sempre externei profunda admiração e respeito pelo que ele fez às pessoas.  Para mim esse homem significa mais que muitas autoridades. É homem real, desinteressado, verdadeiro. Sua casinha é um poema de amor. A paisagem fala... é um espaço de verdade... lugar espontâneo... ambiente dele com seus calangos, dele com seus gatos, dele com os passarinhos e o farfalhar das folhas. Tudo o que emoldura o seu Jardim do Éden evoca musicalidade e cultura. Sua vivenda é um museu vivo de verdades, uma aula de incontáveis ciências... Obrigado, Senhor Manoel Salvador por ter sido útil, por ter compartilhado o seu vasto conhecimento e tornado feliz a vida de muitas pessoas. O que seria de nós se não compartilhássemos o conhecimento? Para quê estaríamos aqui se não ensinássemos, se não contássemos o que vimos, o que ouvimos, o que sabemos, o que garimpamos... O senhor, na sua simplicidade sem preço, vale mais que muitos livros repletos de palavras. Mas cheios de vazios...


























Durante o tempo que estive com o Sr. Manoel Salvador, observei sua esposa numa lida sem fim e tive a certeza de que tudo aquilo gritava a vida. Ela, sem a sinfonia da lida com o poço, as galinhas, as plantas, o carrinho de mãe talvez nem estaria mais aqui. A sua vivenda é a sua vida.





























sexta-feira, 3 de maio de 2019

Senhora Leslie Gramont

SENHORA LESLIE GRAMONT


(Conto de ficção)

A expressão “casinha de boneca” não encontra exemplo maior que não seja na casa de número vinte e oito da rua Tuiuti naquela cidade. Na verdade é uma assobradada residência centenária. A comparação se dá pelo conjunto da obra. A fachada exibe altos e baixos relevos semelhantes a renda francesa. Um par de leões de mármore embeleza o pórtico de entrada numa pose imponente. O portão de ferro, importado de Londres, traz no centro o brasão dos Gramont. O ladrilho hidráulico, os azulejos, louças do banheiro e a ferragem da imponente construção vieram da Inglaterra. Adiante, duas colunas clássicas estão enfiadas numa escadaria de mármore, dando acesso à porta de entrada, cujas visitas se anunciavam por via da aldrava de bronze afixada na porta.
O muro é encimado por um belo gradeado de ferro com aplicações de flores e guirlandas de latão. O jardim exibe toda sorte de flores e roseiras. Seu colorido contrasta com todos os tons de verde das cercas vivas impecavelmente podadas. A residência, emoldurada por uma mini-floresta plantada pelo avô da senhora Leslie Gramont, ocupa um quarteirão da cidade.
Entrar no “solar dos franceses”, como chamavam o povo, era uma viagem. A proprietária amava louças e porcelanas. A cristaleira de jacarandá guardava incontáveis exemplares que pertenceram ao conde Françoise Quepart Gramont, avô da Senhora Leslie. As peças desse móvel representavam um detalhe diante de incontáveis porcelanas distribuídas na casa inteira, vasos decorativos de limoges, jogos de jantar, travessas e uma variedade de xícaras de todos os tamanhos e cores. Muitas, dos séculos XVII e XVIII.
As paredes internas eram encapadas com obras de arte originais, assinadas por pintores europeus renomados. Sobre os móveis e prateleiras ficavam estrategicamente expostas diversas peças decorativas de prata e bronze. Três tapetes persas forravam o piso de mármore de Carrara, um na antesala, outro na sala de estar e o último na sala de jantar. Os arabescos e floreios em tom sobre tom agradavam os olhos de quem apreciasse o ambiente.
No centro do estuque desses três espaços se dependuravam três gigantescos lustres de cristal com detalhes em prata e ouro. Os exemplares foram presentes da família real espanhola, doados ao conde Françoise Quepart Gramont. Uma escultura de dom Quixote em tamanho natural se somava a outras peças semelhantes, distribuídas harmoniosamente entre as dez janelas que emolduravam a fachada. Dava gosto contemplar seus cortinados. O ambiente era arejado e pleno de luz natural. No centro da sala de estar havia uma galeria de fotografias e pinturas de gente antiga da genealogia Gramont e Valery. A primeira, do pai da Srª Leslie; a segunda, da mãe.  O solar dos franceses era um mini- Louvre. Esse “acervo museológico”, diferente de expressar uma imagem carregada, trazia leveza incomum, graças ao toque decorativo da proprietária.

Senhora Leslie era uma fortaleza. Contava cento e dois anos de idade e aparentava setenta. Sua longevidade e outras coisas mais eram objeto de comentários na cidade. Havia muita curiosidade sobre a velha senhora e o contexto que a envolvia. O avô Françoise Quepart, conde parisiense, chegou ao Brasil no meado do século XIX para pesquisar a fauna e flora locais. Também colecionava borboletas e minerais. Chegou recém casado. Sua esposa, Judith, era filha única igual ao marido. Inicialmente ele pretendeu retornar definitivamente à França, após concluir suas pesquisas, mas a paixão por estas plagas foi maior. Retornou apenas para buscar sua babilônica biblioteca e muitos pertences. Seus livros jaziam intactos num dos cômodos do solar, juntos aos cadernos de anotações, desenhos, exemplares de minérios e a bela coleção de borboletas.
       O tempo passou. Tiveram um único filho, Roger Gramont que casou-se com Georget, curiosamente filha única. Eram proprietários de joalherias e grandes fazendas na localidade. São os pais já falecidos da senhora Leslie. A sina se encerrou nela. Era literalmente uma mulher sem parentes. Para arrastar mais singularidade à sua história, não possuía herdeiro, afinal nunca se casou. Pretendentes choveram. Ela escolheu a vida de solteira.
       Como já foi dito, a senhora Leslie era tema de palestras incontinentis nas praças e ruas. Uma delas versava sobre a sua beleza e fidalguia. Não havia quem não a comparasse a uma princesa européia. A elegância natural saltava de dentro. Suas atitudes gestuais, o modo de falar e até mesmo o olhar revelavam um quê de realeza. Apesar do comportamento polido, não se furtava a esboçar sorrisos contagiantes no trato social. Era refinada, vestia-se com elegância, e dentre o seu arsenal de jóias, escolhia as peças mais delicadas. A pele louçã se assemelhava às várias de suas porcelanas inglesas.
       Uma pequena criadagem dividia espaço com ela. Cada qual nos seus devidos afazeres. Há trinta anos recebia os cuidados da senhora Bárbara, uma espécie de secretária particular de setenta anos de idade, disponível em todos os momentos. Os pais dela serviram aos antepassados da família Gramont. Dizem que a convivência torna a pessoa parecida. Era o caso dessa acompanhante, a qual aprendera modos fidalgos e se revelava quase uma cópia de sua senhora.  
Todos os negócios financeiros, despachos decorrentes das propriedades da senhora Leslie e demandas do solar, passavam pelo crivo de sua secretária, antes de ir para as mãos dos inúmeros advogados que ajudavam a administrar o patrimônio Gramont. Ambas eram mãos de ferro nesses tratos. A vivacidade, o tino para negócios contidos na senhora Leslie, lhe passara por osmose, dando à senhora Bárbara notável discernimento. A acompanhante ficara viúva há vinte anos e o casamento lhe rendera um casal de filhos que residiam na capital.
       Apesar de proativa, a idade avançada da senhora Leslie tornou-a mais caseira. Deixou de dirigir o seu Ford T aos noventa e cinco anos, obrigando-se a contratar um choffeur que a tratava como rainha. Aliás, havia esquecido de dizer, o povo a tratava assim. Todos diziam que ela era uma rainha européia. O veículo foi o segundo a chegar ao Brasil, junto com um exemplar encomendado pelo imperador brasileiro. Quando em trânsito, roubava a cena na cidade habituada a carruagens e cavalos.
Mas nada a tornou ociosa. Acordava diariamente às cinco horas, percorria as aléias de sua propriedade, apreciando a relva e o perfume do jardim, apanhava flores e não dispensava o hábito de se deliciar logo cedo com as frutas da época, colhidas por ela mesma. Sua paixão eram os sapotis e carambolas. Nunca deixava de apreciar o galinheiro e admirar os cinqüenta pavões que viviam soltos no jardim. Acostumados a ela, os bichos não se importavam, desfilando seus penachos que quase a cobriam totalmente. Os empregados que também acordavam com as galinhas não cansavam de admirar a amizade da senhora Leslie com os passarinhos. Eles ficavam ouriçados quando a viam. Voejavam sobre ela e pousavam nas galhadas numa revoada sem fim. Era uma espécie de bom dia. Alguns diziam que ela carregava algo de misterioso. A cidade sonhava ser passarinho para contemplá-la naqueles amanheceres mágicos, narrados pelos empregados.
Nessas manhãs, agarrava uma ferramenta e passava bom tempo revolvendo a terra, preparando mudas, regando plantas, colhendo flores, enfim antecedia em muito o jardineiro que costumava chegar às oito horas. Quando isso acontecia, ela o acolhia com poucas palavras e se retirava para apreciar o indispensável banho seguido do café da manhã. Logo após, viajava, como costumava dizer, na colossal biblioteca. Era apaixonada pela obra de Gustave Flaubert, Baudelaire, Vitor Hugo, Proust, Dumas e Dostoievski. Conservava lápis e papel em locais estratégicos, instigada pelo hábito de escrever contos que até então se conservavam anônimos e aos calhamaços. Explicava que vez em quando vinha-lhe insights e precisava jogar a idéia no papel. Depois, inspirada a escrever, pegava do lápis e da caneta e dava asas à imaginação. Citava Goethe, quando se enroscava em algum capítulo, alegando que a palavra era indomável, por isso jamais seria famosa.
Encerrada a viagem, estirava as pernas andando pelas salas, sentava-se em sua cadeira de balanço e aguardava a hora do almoço. Normalmente isso se dava às onze horas e trinta minutos, quando os carrilhões badalavam. Ao meio dia ela almoçava acompanhada da senhora Bárbara, que até então estava em diligência com as empregadas internas e outros empreendimentos. Após o almoço a sua sesta era sagrada, mas não passava de quarenta minutos.
Então ela se levantava e findava a tarde mergulhada na lida com as porcelanas e louças. Era quase uma oração. Retirava uma a uma, lia as inscrições no fundo de cada peça. Quando a governanta estava próxima, sobravam histórias sobre cada exemplar manuseado. Essa pertenceu ao meu bisavô, é chinesa, ele trouxe dois conjuntos desse em uma de suas viagens diplomáticas àquele país. Essa aqui é porcelana casca de ovo, é inglesa, presente de casamento de mamãe. Vovô trouxe dez vasos de limoges iguais a esse, todos de cores diferentes quando escolheu morar no Brasil.
Cada peça, uma história.
De fato parecia uma religião o hábito da senhora Leslie. Apesar de todo o seu acervo estar impecavelmente limpo, costumava lustrá-lo com uma flanela quando a devolvia ao movel. Falando em religião, a aparente ausência de espiritualidade instigava a curiosidade dos empregados. Mais que isso, era assunto da cidade. A descendente de franceses, assim como seus pais, nunca freqüentou igreja. Conservou a tradição da família. Fazia generosas doações diretamente ao arcebispo, mas exigia anonimato e não freqüentava os convites eclesiásticos. Nenhum. Nunca se ouviu dela palavras torpes sobre igrejas ou religião. Igrejas são monumentos históricos e devem ter preservadas as suas características originais e os seus acervos sacros. Era o discurso dos Gramont. Talvez cuidar de patrimônios fosse a religião deles.
A casa não possuía imagens sacras sequer para uma oração desesperada em hora de temporal. O leitor cristão talvez julgue mal a senhora Leslie, mas ela e seus familiares certamente eram santos por excelência. Todo final de mês desciam generosas doações de alimentos para os pobres das periferias. Ao asilo de idosos, hospício e orfanato locais não faltava nada, pois as somas vultosas doadas por ela garantiam seu confortável funcionamento. Ela exigia anonimato, embora muitos suspeitassem do seu gesto. Nunca pisou sequer na calçada desses lugares, apenas se informava se funcionavam bem.
       Entrar no solar dos franceses era objeto de desejo do povo da cidade. Tudo atraia a atenção. As janelas e portas monumentais. Até mesmo o prendedor de janelas, pequeno detalhe em formato de homenzinho fincado na parede. As crianças enfiavam a cabeça no gradeado e passavam horas apreciando as miniaturas, certamente supondo ser brinquedo. À noite os vitrais davam à casa um aspecto eclesiástico, embora retratavam apenas paisagens francesas e cenas mitológicas. Tudo fora obra de renomados artistas europeus.
Muitas vezes, ao anoitecer, os transeuntes viam a senhora Leslie através da janela. Então diminuíam as passadas para degustar a tela barroca, viva e intensa. Era um cenário doce. Os vitrais acesos através das luzes internas, o gramofone tocando Debussy. Ela amava Clair de lune. Dizia que a música era parente da leitura, pois nos transportava aos lugares impensáveis, e muitas vezes nos jogava dentro da filosofia.
Alguns empregados não compreendiam certas colocações dela, mas consideravam sábias, portanto valorizavam suas mínimas colocações. Depois iam discutir e digeri-las nas reuniões em algum cômodo do solar. Após o jantar ela seguia para a adoração às porcelanas. Demorava-se muito tempo contemplando os desenhos de cada peça e contando algo sobre todas. Era a sua cantilena. Sempre com espectadores cheios de cuidados e atenção. Suas criadas a tratavam com um carinho santificado, pois nunca receberam dela o mínimo maltrato. Pelo contrário, corrigia as coisas com uma delicadeza rara. Apesar de tanta fortaleza, elas sabiam que verdadeiramente a senhora Leslie era como uma louça daquelas.
Os objetos de porcelana tinham efeito de livros, pois a vasta cultura da senhora Leslie e sua mente lúcida resultavam em contações de admiráveis histórias. Cada desenho tinha explicações detalhadas. Um, retratava determinado pintor que se parecia com outro, que estudou artes em determinado lugar, cuja característica lembrava certo artista; outro, que foi infeliz na vida amorosa, que morreu de tuberculose. Desse modo ela se reportava a lugares do mundo inteiro, e seu enfronhamento nas porcelanas e louças se tornava aula interminável. Isso encantava.
Não tinham fim os livros, aliás, as xícaras, os pires, os pratos, as travessas da senhora Leslie. Por extensão, não tinham fim suas histórias. Eram informações que somente ela sabia, pois sua ilustração lhe dava esse poder. E para aquilatar ainda mais valor, cada informação se somava a fatos ou curiosidades familiares, de maneira que aquele momento era único. Diferente talvez de outras velhinhas quase mortas, ela nunca externava cansaço. Parecia de ferro. Sua voz, apesar de aveludada, era forte. Não parecia saída de uma garganta tão antiga. A governanta tinha uma aula de artes a cada reencontro com as porcelanas da patroa.
Quando, por fatalidade, alguma peça se quebrava não via o lixo. O jardineiro aprendeu com ela a fazer pó de louça. Numa espécie de pilão de ferro ele fragmentava ainda mais os cacos até moê-los e aparecer uma espécie de talco branco. Misturado a uma pasta de sabão comum, era o melhor polidor do mundo, dizia a senhora Leslie. Apesar de existir produtos importados para tal finalidade, ela priorizava a invenção vinda nas arcas dos avós. E sua tese se comprovava no aspecto das pratarias da casa. Pareciam espelhos.
Alguns hábitos tinham foros de sagrado na vida daquela senhora. Às vinte horas em ponto ela se deitava para acordar religiosamente na mesma hora de sempre. Estando na biblioteca, agachava-se para apanhar os livros na prateleira mais baixa, subia uma pequena escada de madeira e alcançar as obras em posição mais elevadas. Usava as escadarias do solar a todo o instante. Sua saúde surpreendia. Nunca foi vista sequer com gripe. Isso certamente instigava o imaginário do povo da cidade. Havia de fato algum mistério na senhora Leslie Gramont?
       Era assim a sua vida. Ela sentenciava sempre que sua vitalidade vinha de suas porcelanas, dos livros e da satisfação de poder ajudar pessoas. Ressaltava que quando doava, mesmo que a pessoa estivesse precisando muito e se desdobrasse em agradecimentos, ela era a mais feliz por ter doado. Não se cansava de proclamar que o sentido da vida, e quem sabe, da longevidade, estavam nesses detalhes. A senhora Leslie era uma fonte de inspiração, tendo despertado o gosto pela leitura e amor às coisas da arte nos seus subordinados. Eram pessoas pacificadoras e serenas, complementando a paz no solar Gramont. Os empregados tiveram os seus comportamentos lapidados por excelência, no simples convívio com aquele ser humano doce.
Mas, como dizem algumas pessoas “ninguém nasceu para lajeiro”.
No amanhecer do dia treze de maio de 1915 a elegante senhora não acendeu a luz do quarto. A governanta não ouviu o tilintar da xícara de porcelana tocando o pires inglês. Era o momento que ela bebia o seu chá de alecrim. Dizia que a fonte da saúde residia no hábito de beber água ou chá em jejum. Naquele instante deveria haver farfalhar de panos, ranger de cama e sons de passos. Mas nada, nada se ouvia. Havia silêncio. Puramente silêncio. Diante da cena incomum a empregada foi verificar o que se passava.
Longe supor que sua senhora adoecera. Sabia que aquele corpo era blindado. Deduziu que ela elegera o dia santo para se demorar mais na cama. Mas não era comum. A senhora Leslie não guardava datas santas. Muito menos pensou em morte. Mas se enganou e teve a surpresa que desde o início do parágrafo o leitor imaginou. A senhora Leslie estava gelada. Sua posição de dormir sempre fora de morta. Costumava se deitar olhando o teto. Cabeça sobre o travesseiro, mãos enfiadas uma na outra, aquietadas na altura do umbigo e pés bem juntos. Os empregados não gostavam daquela pose, mas nunca interferiram, afinal era a senhora Leslie.
A governanta afastou as cortinas das gigantescas janelas, abriu-as e instantaneamente surgiu uma alvorada de pássaros. Alguns adentraram no quarto, como sentindo a perda irreparável. Naquela manhã o jardineiro quebrara o protocolo e já estava a postos. E estranhou, pois nunca as janelas eram abertas naquela hora, apenas as cortinas deslizavam para o canto.
       Poucos minutos depois os funcionários foram acordados pela notícia. Suas fisionomias revelavam um misto de perplexidade e inconformação. Como pode ter morrido uma mulher como a senhora Leslie? Certamente pensavam assim. O jardineiro tirou o chapéu, colocou sobre o peito e suas lágrimas escorrerem em cascata. Logo o povo da cidade entrou em polvorosa. A rainha Leslie Gramont morreu. Assim anunciavam. A notícia correu com a velocidade do seu Ford T. Uma multidão se juntou defronte ao solar. Era uma perda irreparável. Morreu uma luz intensa que clareava todas as curiosidades. A senhora Leslie era um patrimônio. Havia orgulho quando se falavam dela, mesmo imaginando mil coisas.
       Senhora Bárbara, sua secretária, cuidou providenciar tudo. Mandou cobrir os espelhos e quadros do solar. Os objetos miúdos foram colocados em gavetas trancadas. Alguns móveis foram afastados para facilitar o velório. Logo apareceu o arcebispo, interrogando sobre a missa de corpo presente. Os advogados se reuniram em peso com a senhora Bárbara, a qual tinha uma respeitabilidade tão forte que parecia a reencarnação da morta. Havia um testamento no cofre, cujo segredo era aberto por sete chaves diferentes, cada uma com um advogado, inclusive uma de posse da senhora Bárbara e outra, nas mãos da senhora Leslie, cuja governanta já havia achado na gaveta do aparador. Decidiram que o abririam após o enterro.
       A cidade fez fila para ver a senhora Leslie. Na realidade era mais que vê-la. Era contemplá-la, admirá-la e chorar o desaparecimento de um mito. Essa impressão traduzia o sentimento de todos. Sua mortalha era de linho branco. O modelo revelava uma simplicidade contrastante com a sua condição. Não havia botões. Alguém se lembrou que uma vez ela disse que queria ser sepultada em meio ao branco, portanto todo tipo de flores alvas de seu jardim vieram para ela. Parecia dormir. Já foi dito que a senhora Leslie aparentava uns setenta anos. Pois bem. A morte a rejuvenesceu ainda mais. Lembrava uma rainha em sono profundo. A beleza natural lhe saltava.
       Enquanto se aproximavam do ataúde, o povo da cidade esquadrinhava cada milímetro das tantas salas, admirando o que conseguiam enxergar. Os olhos dançavam sobre tudo, inclusive nas porcelanas órfãs, as quais também pareciam mortas. As pessoas sabiam que talvez jamais entrariam ali novamente. A oportunidade única saciava a velha curiosidade.
       O enterro deu-se no dia seguinte, pela manhã. Foi o velório e enterro mais populosos da história da cidade. Mas o caminho do féretro não contemplou a igreja. Obedeceram a decisão da senhora Bárbara. Alguns advogados não concordaram. Questionaram-na se era o pedido da morta. O silêncio foi dado como resposta. Assim como a senhora Leslie, ela falava com os olhos, e sua polidez dispensava inquerimentos. Os empregados subalternos ficaram perplexos. O povo da cidade ficou perplexo. Não falavam outro assunto. Por quê tanta bondade e amor não contemplaria juatamente a igreja? O arcebispo esconjurou, pois desconhecia semelhante fato.
       Passado o enterro a senhora Bárbara se reuniu com os advogados no escritório do solar. O cofre foi aberto à custa das sete chaves diferentes. Dentro havia exclusivamente o testamento, feito na capital quando a senhora Leslie tinha oitenta anos. O texto, assinado por ela, dizia que tudo o que lhe pertencia estaria doado a senhora Bárbara, após a sua morte. A herança era colossal. A finada agradecia e alegava a fidelidade dos antepassados de sua secretária, empregados da família há quase cem anos. Era a justificativa. O fato de o mecanismo do cofre se abrir com sete peças diferentes, separadas geograficamente, dispensava comentário, embora não sufocasse suposições.
       A senhora Bárbara, dona de idoneidade ímpar, se surpreendeu tanto quanto os advogados e demais empregados. Diante da herança herdada se adiantou que pretendia seguir com os negócios da mesma forma. Explicou que convidaria os dois filhos a assumir o comando com ela. Ressaltou que de sua parte, tudo continuaria igual. Explicou que optava por permanecer com todos os advogados, mas se alguns não quisessem, seriam indenizados na forma da lei e com remunerações extras. Informou que permaneceria no solar e faria o remanejamento de alguns empregados para outras empresas, já que não precisaria de tantas pessoas no solar. Havia muita sensatez nas palavras da senhora Bárbara. Até aquele momento tudo pareceu normal. Sanada a curiosidade sobre o testamento, todos se despediram.
Naquele mesmo dia o arcebispo procurou a senhora Bárbara para saber sobre o testamento. Explicados os fatos, desceu as escadarias do solar como se houvesse visto o corcunda de Notre Dame. Porém, passada uma semana de diligências, os advogados foram digerindo a informação e recusando-se a dar-lhe crédito. Alguns consideravam deslealdade a decisão da senhora Leslie, pois viam-se como funcionários fiéis tanto quanto a senhora Bárbara. Alegavam serem profissionais extremamente responsáveis e corretos com os negócios, portanto, merecedores de parte da herança, já que ela não tinha sequer um parente. Os demais tinham opiniões divergentes. Houve quem supusesse ser o testamento obra da senhora Bárbara. Mas como? A senhora Leslie morreu carregando uma mente de vinte anos. A última vez que abriram o cofre fora há um ano, a pedido da senhora Leslie que quis ver o documento.
Dois meses se passaram e foram pequenos para tantos problemas. Os ditos advogados cogitavam anular o testamento da senhora Leslie, alegando insanidade mental da autora. Chamavam-na de caduca. Os filhos da senhora Bárbara vieram para assumir postos de confiança nos empreendimentos. Rodolfo era formado em economia e Heliodora em administração. Iniciou-se uma mudança de nomes das empresas, afinal não teriam mais relação com os Gramont. As confusões, até então restritas aos bastidores das empresas, passaram a ocorrer na presença dos novos proprietários e até dos empregados comuns. As relações entre eles geravam constantes conflitos.
       A senhora Bárbara achou conveniente marcar uma reunião em seu solar. Ás vinte horas todos estavam no local. Já era meia noite e o que se ouviam no ambiente eram gritos. As discussões tomaram um caminho inimaginável. Mesmo abalada, a senhora Bárbara explicou sobre a necessidade de se respeitar o gosto da senhora Leslie, que sua herança não fora gratuita, mas fruto do reconhecimento de quase cem anos de serviços prestados por seus pais e avós aos Gramont. A reunião assumiu um desenho cada vez mais desagradável. Os empregados, subalternos, sem conseguir dormir, se colocaram de plantão pelos cantos do solar. Houve unanimidade no choro. O povo da cidade que passava e parava para ouvir. Não entendiam. O solar dos Gramont, que durante mais de um século fora sinônimo de paz e alegria transformou-se numa extensão do inferno.
Nesse exato momento o jardineiro da senhora Leslie, que havia passado por ali e ouvido o escândalo, depositava um ramalhete de flores brancas em sua capelinha. A arquitetura imponente fora inspirada na catedral de Notre Dame. Ele passou delicadamente as duas mãos em seu retrato de porcelana, agradecendo a graça e a dádiva de tê-la conhecido. A senhora que amara as porcelanas e fora sinônimo de delicadeza, charme e bondade, se transformara literalmente em porcelana. E sua casa, num inferno.
Dois meses depois, exatamente a meia noite, o centro da cidade se tornou dia. Um clarão intenso alcançava as nuvens. O crepitar do fogo despertava a população. O solar que pertencera aos Gramont se transformara numa imensa fogueira. Em alguns minutos uma multidão eufórica se colocou nas proximidades. Queriam entrar e salvar o que pudessem. Todos do tesouro ali guardado. Minutos antes os empregados haviam conseguido arrancar uma imensa tela com a pintura da senhora Lislie. Foi a única coisa que se arriscaram salvar. Ficara encostada num muro defronte ao solar. As chamas alcançaram as árvores e o quarteirão se transformou num vulcão. Não havia como salvar mais nada. No interior do imóvel ocorriam sucessivas explosões e estalos. Aos poucos o teto desabava, fazendo espargir milhares de brasas minúsculas que subiam mais alto que as árvores. O povo se afastava assustado. As línguas de fogo lambiam o céu. A nuvem de fumaça sobrepujava as nuvens reais. Seus cumulonimbos formavam desenhos que lembravam demônios. Os empregados, petrificados, assistiam a tudo. O fogo secou suas lágrimas. Perguntados sobre o que ocorrera, diziam que foram acordados pelo barulho do fogo em diversos cômodos, quando já não havia mais como contê-lo. Todos se salvaram. A senhora Bárbara estava na capital, envolvida em negócios da empresa.
A cidade amanheceu órfã do solar. Restaram algumas paredes. Uma camada grossa de cinza escondia as brasas que ardiam mais aquietadas. Era possível identificar peças de ferro e bronze em meio aos escombros. No outro dia tudo estava morno. O povo da cidade invadiu o local. Cada pessoa levou o souvenir que lhe foi possível. Mesmo contorcido, Dom Quixote saiu carregado nas costas de um antigo vizinho do solar. Todas as peças decorativas de ferro desapareceram nas mãos do povo da cidade. Houve quem arrancasse o brasão dos Gramont que ainda não havia sido retirado pela senhora Bárbara. Os meninos levaram todos os seguradores de janela com caras de homenzinhos. Estava realizado o sonho de tê-los à altura das mãos.
O povo da cidade, ainda se recuperando do vazio deixado pela morte da senhora Leslie, parecia não suportar a perda daquele patrimônio de valor incalculável. Não havia quem não chorasse ou ficasse desolado. A cidade passou a vida sonhando entrar no palácio que agora era cinzas e destroços. De tudo o que existia dos Gramont, restou apenas a herança milionária. Desapareceu a linda mansão, as obras de arte, o piano, o mobiliário do século XVIII, as incontáveis louças, a coleção de borboletas, a colossal biblioteca e todos os manuscritos jamais lidos por outra pessoa, exceto a autora. Nunca alguém saberá o que a senhora Leslie escreveu. Ela teria deixado sua biografia? Teria escrito sobre a família? Eram contos? Novelas? Crônicas? Poemas? Histórias de terror? Qual o estilo da senhora Leslie? Era tarde para saber. Tudo virou pó.
Um homem que passava por ali refletiu com uma das empregadas sobre a fatalidade. Disse que era deplorável que uma família tivesse existido mais de um século como sinônimo de bondade, amor, caridade, união e, de repente, tudo se acabava num sopro e com requintes de ódio. LUÍS CARLOS FREIRE - 1994

Votos de Pobreza

VOTOS DE POBREZA


(Conto de ficção)

Manjedoura é nome da cidade antiga, fincada naquele sertão quente e acanhado. O topônimo sugestivo denuncia a religiosidade cristã de seus habitantes, talvez para amenizar a temperatura ou passar impressão de recanto de paz. A cidade, igual a quase todas, vive de verbas do Governo Federal. Lugar pobre. Paupérrimo. A igreja de São José é o centro das atenções, berço de festividades constantes. Lugar de projeção de políticos e revelação de cantores. Os eventos insistem em dar vida ao lugar moribundo, exceto de gente e bichos que insistem naquela secura. O mexerico do momento é sobre uma adutora se arrastando próxima. Quase ninguém acredita que terá água de torneira.
O menino João Lucas, ou “Luquinha”, como o chamam, nasceu numa casa de taipa, no povoado de Lago Seco. Moravam de favor, como sempre reclamava a mãe em seus ápices de agruras. Passavam muita fome. Ela culpava-se não terem um pedaço de chão. A propriedade pertencia a um fazendeiro que os instalou ali sob a condição de plantarem e criarem pequenos animais num perímetro determinado. Era homem bom, mas sabiam que a qualquer hora a terra seca poderia ser reivindicada sem dó nem piedade. Eles se valiam da religiosidade do dono. Entendiam que gente que tem religião faz o que Jesus ensinou. São oito filhos do casal José Bernardo e Celestina. Cinco deles nasceram ali.
A criançada cresceu no terreno de arisco, pedras e lajeiros. O caçula vivia perguntando a mãe por que o final do mundo se mexe igual minhoca. É quentura meu filho! O sol bota esses engano na gente. Às veis parece que as pranta tão dançando!
A família amargava uma espera eterna pela chuva para botar roçado. Os meninos viviam cutucando locas com Tubarão, cachorro esperto feito o diabo. Assim traziam a janta de preás que seriam comidos com farinha seca. Nos invernos bons plantavam feijão, milho, macaxeira, inhame e batata-doce. A colheita ficava guardada num puxado reservado, mais vazio que cheio. A estiagem era do cão.
A roça significava a base de sustentação daquela região pobre de quase tudo. Um compadre, solidário à pobreza da família, doou uma bezerra que já completava uma década de vida. “Malhada” parecia gente da família. O úbere da pobre inchava conforme dava capim no leito da lagoa seca há duas léguas do casebre. Era o único lugar úmido. O cheiro de varjão tinha foros de perfume para quem ali chegasse.
Malhada contava com a reverência da família. Era provedora de comida. Muitas vezes se transformou na única fonte de alimentação. Dela vinha leite, coalhada, manteiga e até manteiga de garrafa. Muitas vezes a infeliz mastigava apenas uns fiapos de capim e palmas que mais pareciam folhas secas. Tempo de leite com sangue. Diferente dos dez litros na chuvarada. As incertezas do lugarejo fabricaram uma população de cara engelhada a maracujá velho. As pernas lembravam pernas de sibite, pássaro local, magro como agulha. Eles mesmos se comparavam assim.
 José Bernardo era conhecido na região como “Zé Bebé”, e não sabia a origem do apelido. Gente estranha que chegasse ali a sua procura não o localizaria se não descobrisse o apelido. Todos dali só atendiam por pseudônimos. Era Zé Preá, Tõe de Dona, Noquinha da Rodage, Cara de gato, Juca tetéu, enfim o nome de batismo era estranhado até pelo vizinho.
O mais velho dos meninos, Didi, já andava arrastando as asas para os lados de Filó, cabrinha formosa, filha de João de Iazinha. Os pais não desaprovavam. Eram pobres iguais. Mas não deixavam de chorar o futuro daquele engate. Pareciam ter em mãos um bola de cristal. Ali todos cresciam e morriam iguais. Os outros meninos, com idades em escadaria, ainda não tinham acordado para o amor. Talvez a vida salobra aquietasse o coração.
Luquinha, como já foi apresentado, cansado de ter os pés picados por formiga de roça, jurava um dia ter outra vida. Passava as raras folgas quebrando galhinhos de juá que lhe ajudavam a pensar vida melhor. Matutava ser tudo. Só não sabia como. Não entendia por que o dono daquelas terras – que aparecia ali vez em quando – tinha tanta comida, roupa boa, dispensa coalhada de rapadura, farinha, feijão, queijo e coisa vinda da capital. Coisas gostosas que ele nem imaginava o que era, mas queria comer. As visitas do “Coronel Suassuna” tinha ares de vigilância, como se dissesse só vim lembrar que a terra é minha. Os pais cobriam o velho de deferências e arreganhados de dentes. A humilhação o incomodava.
O velho costumava aparecer numa Chevrolet D-20 do ano. Saltava perfume de dentro da boleia. Contrastava com a casa velha impregnada de picumã e fumaça do fogão quase sempre de fogo morto. Os meninos menores rodeavam o carro como se visse algo divino. Luquinha, que já apresentava um comportamento diferente, sentia vergonha. A mãe sempre dizia após sua despedida que mais uma vez não havia botado café para o coronel. Essa realidade torturava a mente de Luquinha.
Naquela semana houve festa no lugarejo. O novenário de São José antecedia o dia dezenove, dia do pai de criação de Jesus. Era tempo de se deliciar com café, bolo de milho, tareco, solda, rapadura e comida de panela. As poncheiras vinham cheias de suco de frutas da capital. Todos colaboravam, principalmente os ricos de Lago Seco. As novenas pediam bom inverno. Se chovesse na data significava março de cumulonimbos.
O novenário daquele ano trouxe um fato novo para a família de Zé Bebé. Padre Totonho inventou pedir Luquinha para coroinha da igreja de Manjedoura. A mãe se balançou. É uma boca a menos pra comer. Ano passado não choveu uma gota do céu. Besteira! Eu careço dos menino pra lida no mato. O pouco que temos vem do nosso trabalho. Pois pra mim ele ia. Pois por mim não vai. Futuramente o menino pode ir para a capital estudar no seminário; sai daqui recomendado por mim. Aprenderá Filosofia, Teologia, só coisa boa. Se não for do gosto dele pode virar um professor, o que ele quiser. O sacerdote fez a sua propaganda.
Luquinha ouviu a conversa. Daquele instante em diante o seu pensamento não era outro que não fosse ser coroinha. Pensava na oportunidade de comer bastante carne. Dizem que na casa paroquial tem até postas de peixes, dessas que vem do mar. O padre tem carro. Vou andar de automóvel de uma capela a outra. Quem sabe até dirigir. Acordou pedindo ao pai que o deixasse ser coroinha. Ora seu cabra! Nunca imaginou isso, bastou ouvir aquele velho caduco e já quer andar enfiado em igreja. Não tenho filho pra andar de saia. Que desrespeito é esse, Zé? Padre Totonho é hômi de Deus.
De fato, depois de ouvir a conversa do padre, Luquinha mudou. Lago Seco ficou amargo, aumentaram as formigas picando-lhe os pés, a comida, escassa, tornou-se indigesta, a lida na roça virou tortura, desaprendeu a tirada de leite na madrugada, esqueceu-se de como ajeitava a carroça no animal, perdeu-se indo buscar água barrenta no açude moribundo, enfim mudou da água para o vinho. Caiu emburrado. Coroinha. Coroinha. Coroinha. Aquele padre dos mil e seiscentos diabo inventou uma miséria dessa com esse condenado. Maldita hora riscou aqui. Perdi o menino. Diga isso não hômi. Tudo é providência de Deus. O ambiente tornou-se difícil depois do convite do padre.
Na semana seguinte, Luquinha não comeu mais. Ficou amuado e caiu a vomitar. Dona Celestina pôs-se em desespero. Bateu na casa de sinhá Preta, benzedeira e parteira, fazedora de mezinhas que ressuscitavam defunto. A velha benzeu o menino. Não é quebranto. Ele viu alguma coisa estranha. Está assustado. Só vancês sabe o que foi. Procure consertar pela conciênça. Deem muito chá e faça ele engolir pelo menos cabeça de galo. Se quisé tenho ovo lá em casa. O pobre ta um sibite baleado. A velha se despediu. Esse cabra ta precisado de peia. Diga isso não, Zé, causa revolta no pobre. Tu sabe o que é. A gente pode até perder esse inocente. É da vez que eu me jogo cacimbão abaixo. Deixe de suas milacria, condenada!
No outro dia o padre Totonho amanheceu na porta. Trouxe uma caixa com muita farinha, feijão, queijo, rapadura e carne de sol. Vez ou outra ele aparecia com esses tesouros. Zé Bebé tomou um susto. Nessa hora de seca extrema, se a gente não se ajudar, morremos todos de fome. Foi Jesus que mandou. Não se envergonhe não. Dona Celestina fez o sinal da cruz e agradeceu a generosidade.
Perguntando pelo menino, teve a notícia da doença. O sacerdote foi até a cama, abriu a janela do casebre e olhou os olhos de Luquinha. Deixa eu levar esse menino para a cidade. É coisa de médico. O casal se entreolhou. Eu agradeço vossa bondade padre, mas a gente já ta dando um chá aqui mesmo. Sinhá Preta teve aqui. É pantim de menino-buchudo. Inventô essa manha agora. O sacerdote alertou sobre a magreza de Luquinha e, com muito custo, saiu dali com ele. O diabo quando não vem, manda secretário! Celestino, hômi de Deus, não diga uma blasfêmia dessa! Deus vê tudo. Que coração duro!
Passados quinze dias o padre mandou chamar o casal. Luquinha parecia outro. Engordou. Estava viçoso, enfatiotado, olhos brilhantes, cabelo penteado. Recebeu roupa nova e andava correndo os olhos na Bíblia, arriscando estudá-la. Em casa conheceu um livreto velho de oração comprado no mangaio pela mãe. Nunca abriu a primeira página. O sacerdote alegou que o menino não tinha natureza para sol e serviço pesado. Pediu para colocá-lo na escola da cidade e torná-lo coroinha.
Luquinha havia conversado com todas as pessoas da igreja sobre esse sonho surgido de última hora. Deixe o garoto aqui que estará bem cuidado. Todo final de mês ele passará o final de semana lá em Lago Seco com vocês. A mãe olhou o pai, desconfiada. Sua fisionomia dizia mil impropérios. Para surpresa de todos o pai concordou. Percebeu que o filho estranharia o casebre. Tá certo, ele fica, mas qualquer coisa mande para lá que é o lugar dele. Não quero dar despesa para a igreja. O certo é o povo dá e não tirá da igreja. Eu memo só não dô proquê num tenho nem para mim. Despediram-se. Dona Celestina esse saco de cume é para vocês!
Passados nove anos de estadia na casa paroquial Luquinha caiu no Seminário de Santo Expedito, na capital. Na realidade, Luquinha morreu, virou o seminarista José Lucas da Silva. Foi difícil ao pai aceitar a escolha do filho, mas ele teve esse pressentimento quando deixou o menino com o padre. José Lucas, já rapaz, desasnou rapidamente, tornando-se muito ativo e envolvido nas coisas da arquidiocese. As lembranças amargas de Lago Seco o empurravam para a nova vida.
Como costume na capital, as famílias ricas adotavam os seminarista e forneciam de tudo. Luquinha, aliás, o seminarista José Lucas foi acolhido pela senhora Guilhermina Andrade Couto, uma das famílias mais abastadas da capital. Diferente do que contam sobre madrastas, a senhora Guilhermina cobria José Lucas de presentes e o tratava com muito carinho. Transferiram o padrão de vida deles para o seminarista. Seus presentes eram quase sempre importados. Os melhores perfumes; camisas de linho, calças, cuecas, cintos, calçados, meias compradas em lojas de grife do shopping. E isso não era exclusividade apenas dele. Todos os seminaristas experimentavam a mesma generosidade de suas madamas.
Padre Totonho havia dito a José Lucas, ainda em Manjedoura, que o chamado de Deus significa viver a igreja de Cristo e abandonar pai e mãe. A messe é grande e precisa de operários. A vida eclesiástica torna-se a nossa família. Os fiéis se tornam semelhantes aos nossos filhos. Cumprimos o papel de Jesus, evangelizando sempre. Padre é pai de todos. É a nossa eterna missão. Explicou que Deus é pai e mãe ao mesmo tempo. Essas palavras latejavam os pensamentos do seminarista.
José Lucas levava a sério a orientação, afinal o padre Totonho era idoso e muito respeitado. Possuía uma biblioteca que ele lutou em vão tentando contar quantos livros existiam nela. Foi naquelas prateleiras que ele descobriu o padre Antonio Vieira e se apaixonou pelo seu modo de escrever. Padre Totonho era muito culto e desapegado de coisas materiais. Dizia que um padre deve se alimentar bem e nunca desprezar o hábito. Esse é o nosso luxo. Só isso. Tinha costumes simples e ajudava a todos. Não havia casa que ele não visitasse.
José Lucas não entendia exatamente a razão de tantas colocações, mas sentia verdade nelas. A saudade incondicional da mãe pulsava junto às batidas do coração. O pai era uma lembrança vaga. Recordava-se com carinho dos irmãos. Numa ocasião o padre Totonho disse a José Lucas que ele propusesse ao reitor do seminário realizar projetos nas favelas e áreas periféricas. Peça ao reitor para estarem diretamente em contato com os pobres, façam campanhas para aquisição de roupas, remédios, livros. Levem cinema as pobres, propiciem cultura a eles. Visitem casas, curem feridas, beijem os pés dos desvalidos, façam caçarolas de sopa e entreguem diariamente. Viver os votos de pobreza é estar junto dos que tem fome, e não junto aos abastados. A fé sem obras é vã. É teatro. Esteja em conformidade com o juramento sacerdotal.  
Você não é um miserável por viver o voto de pobreza.  Tenha apenas o suficiente para uma vida confortável. Isso é viver em Cristo. Se Jesus estivesse aqui, estaria nessa lida. Fique longe da ostentação e palavras torpes. Que a Bíblia e os bons livros sejam a sua companhia. Um dia João Lucas contou aos seminaristas a história de abandonar os pais e viver para a igreja, contada pelo padre Totonho. Uma gargalhada uníssona e estrondosa quase pôs abaixo os dormitórios. Aquilo é um dinossauro da era paleozóica. Que invenção idiota. Ele quer padre, assistência social ou um bando de mendigos? Estamos n’outros tempos. Ninguém aqui é cópia de padre José Maria. Ele que é santo.
As relações diárias com os outros seminaristas permitiram a José Lucas constatar algumas atitudes que se chocavam contra o que ele aprendeu com o padrinho sacerdotal. Nas horas de estudo as conversas se desviavam para novelas da Globo. A maioria não perdia um capítulo. Quero ver se hoje Tomé vai transar com Júlia. Parece que hoje fulano vai assassinar mais um. Os assuntos saltavam de novela para filmes, passeios em shoppings, perfumes e roupas. As resenhas entravam a madrugada quando os seminaristas chegavam das casas de suas madames.
José Lucas percebia deslumbramento em quase todos os seus companheiros, os quais, iguais a ele, vinham de famílias humildes. Tudo o que tinham no seminário era impensável quando viviam em seus lugarejos. José Lucas se perdia em reflexões. Todas lhe levavam às palavras do padre Totonho.
Na realidade o seminarista de Lago Seco tinha sensação parecida. Sentia uma espécie de superioridade pelo que amealhara em roupas e assessórios pessoais desde que chegou ao seminário. Seu sonho era retornar vez em quando à Manjedoura e andar pela cidade mostrando relógio e roupas de rico. Imagina o que sentiria papai. Creio que ele rosnaria. Mamãe ficaria orgulhosa. Meus irmãos, coitadinhos, sentiriam vontade de ter minhas roupas. Mas logo o pensamento mudava. O que ele bebeu na fonte do padre Totonho o colocava em conflito psicológico. O sacerdote de Manjedoura sempre botou freio curto em vaidade.
José Lucas percebia muitas risadas e brincadeiras durante as missas, protagonizadas por alguns seminaristas. Vez ou outra ele conversava com algum postulante sobre as suas observações e sentia que não estava só naquela análise, mas que o número de praticantes do estranho comportamento era maior.
Aos finais de semana os seminaristas ficavam excitados, aguardando suas madrinhas buscá-los para passeios ou estadias luxuosas em suas mansões. Outros ficavam nas casas das madames, pois se tornaram-se íntimos das famílias. Num desses sábados a sua família postiça teve um imprevisto e restou-lhe as paredes do seminário. Lembrou-se das obras do padre Antonio Vieira.  
Exatamente nesse dia cismou de ler o Sermão da Sexagésima. A coleção ficava num cômodo reservado para obras raras. Raramente alguém entrava ali. Nesse espaço ele visualizou o flagrante que o chocaria, protagonizado por dois seminaristas. Virou uma pedra. Ao longo do tempo percebeu que a cena se repetia com meia dúzia de outros. Sentiu vontade de retornar à Manjedoura, mas o choque da miséria o freou. As raras vezes que visitara os pais imitava o coronel Suassuna. Mal deixava alimentos e algum dinheiro nas mãos da mãe, obtidos de agrados das madames, riscava para os pés do padre Totonho, sua referência masculina e cristã.
Não conseguia se demorar na casa onde nasceu. Tudo ali permanecia amargo e indigesto. A roupa pegava a catinga de fumaça do fogão à lenha, a calça sujava nos picumãs, a comida era seca que não descia. Sua pobre mãe sequer sabia o que era maionese, prato que ele enaltecia sempre. Um dia talvez eu comerei isso, meu filho, mas enquanto nem sei o que é me basta. A água salobra, o pai, monossilábico, os irmãos barulhentos, o berro de Malhada. Tudo o incomodava.
A cena da biblioteca o fez pensar em retornar, mas para morar na casa paroquial. E o meu futuro? Nesse momento ele lembrou que sonhava possuir um Duster igual ao marido de sua protetora. Sonhava vestir mantos luxuosos semelhantes a muitos padres, imaginava roupas luxuosas de passeio, os samartphones do ano, enfim lhe agradava a opulência. Excitava-lhe ver padres chegando ao seminário com motoristas ou eles próprios dirigindo modelos que mais pareciam naves de outro planeta.
O pátio da catedral metropolitana se assemelhava a uma loja de carros de altíssimo luxo. Uma vez ele constatou haver ali automóveis Audi, Duster, Range Rover e outros. Para estragar o espetáculo de gala, uns modelos populares se perdiam em meio a eles. Se o padre Totonho andasse por aqui seu Fusca caindo aos pedaços estaria arruinando a paisagem. Ficava fora de si. Ora bolas! Eu posso ter o meu no futuro! Decidiu naquele momento fazer vistas grossas a tudo o que visse doravante.
A manhã do dia da ordenação sacerdotal colocou o Seminário Santo Expedito em polvorosa. Era madame para cá, padre para lá, coroinha aqui, beatas ali. Os ordenandos deram um jeito e mandaram buscar os seus familiares. A senhora Guilhermina Andrade Couto fez questão de custear as despesas com roupas novas e traslado da família do então padre José Lucas. Totalmente desambientados, comportaram-se como alienígenas. O máximo de distância que conheciam de Lago Seco era até o centro de Manjedoura. Sonharam a vida inteira com uma peregrinação à Juazeiro, mas a barriga impedia. Teria sido distância maior. Eram unânimes na reclamação do sapato incomodando os pés. José Lucas recomendou-lhes fazerem um esforço.
Cinco anos se passaram. Padre José Lucas conquistara o posto de representante da maior igreja da capital, situada no bairro Vinhedo, região de condomínios de milionários. Estava radiante. A notícia da morte do padre Totonho botou Manjedoura em desolação. Faltava exatamente três horas para o enterro quando uma Land Rover adentrou Manjedoura, dirigida por um motorista estranho. Muitos julgavam ser o padre Luquinha, como permaneceram chamando o sacerdote João Lucas. Curiosamente o veículo parou defronte ao átrio do templo. O dito motorista desceu, dirigiu-se até a porta traseira, abriu-a. É o padre Luquinha! Disse em voz alta a cozinheira da casa paroquial.
O sacerdote, enpafiado de poses desceu vagarosamente e se dirigiu ao ataúde. Dinorá, uma beata que o viu nascer o conduziu à sacristia. Demorados alguns minutos padre Luquinha subiu ao altar com uma veste eclesiástica que roubou a cena. Fora encomendada fora do estado, peça exclusiva, criada por uma madame apaixonada por motivos de igreja. Havia excesso de luxo. O sacerdote destoava das vestimentas poídas do padre Totonho.
Muito teatrológico e falando uma língua desconhecida por quase todos os manjedourenses, padre João Lucas encomendou o corpo do seu padrinho sacerdotal. Findada a cerimônia, estirou-se até o cemitério, ao modo de quem foi buscar fogo. Saiu monossilabicamente sem visitar os pais.
Padre João Lucas se organizava para ser alçado à condição de bispo. Contava sete anos de nova vida. Os cabelos do sol esvoaçavam anunciando dia quente. Resolver se abalar até Manjedoura em visita aos pais. Havia acabado de chegar de uma visita a Europa. Era a sua quinta viagem. Restava conhecer apenas a Rússia. Da América do Sul já cominava até os vícios de linguagem. Era agosto de dois mil e dezoito. Mês de cachorro louco, como disse o pai, brincando, acolhendo-o à porta da casa luxuosa, no centro de Manjedoura. Três dos irmãos que ainda não se casaram se balançavam em redes dependuradas na varanda emoldurando o casarão. A mãe perguntou se ele queria queijo coalho. Ele adiantou que trazia um queijo importado, presente do arcebispo. Sim, mainha, tá la no carro a imagem de Nossa Senhora de Fátima que comprei em Portugal. Meu filho, eu trouxe de Juazeiro uma imagem de madeira do Padre Cícero. Tô com outra encomendada já para a viagem do mês que vem. É para o arcebispo. Diga que foi mainha que mandou. Sim, mainha, ele disse que ta vindo pra crisma de dezembro e quer ficar aqui. O arcebispo tá bem se lembrando dos meu licor!
Na sala o irmão caçula alisava os cabelos de uma cabritinha chegada da capital e já enfiada na família. Assistiam Netflix na TV analógica que consumia a parede. Iam casar em vinte dias. A casa jazia barulhenta. Eram familiares assistindo TV, espalhados pelos cômodos da assobradada construção.  Aparelhos Iphones tocavam verdadeira discoteca na casa inteira. Na garagem da assobradada residência a Amarok de Zé Bebé ainda estava carregada de compras vindas da capital no dia seguinte. Um barulho de buzina soou no imenso portão de ferro. Era Totinha, irmão mais velho, chegando com seu Fiat do ano. O futuro bispo João Lucas visitava constantemente os pais. Manjedoura tornou-se aprazível.
Abandona teu pai e tua mãe e vem para a messe. A messe é grande e precisa de operários. Tua vida será a igreja. Cuide de teus pobres. Esteja ao lado dos desvalidos e os representem diante das injustiças. A comida é para quem tem fome. Seja sempre humilde, pois Jesus foi humilde...
Padre João Lucas, deitado na rede de varanda bordada, achou interessante. Sem mais nem menos vieram-lhe à mente essas palavras do padre Totonho...
Luís Carlos Freire - 1996


Natal, 2200 - O memorial do livro

NATAL, 2200 - O MEMORIAL DO LIVRO



(Conto de ficção)

Um belíssimo prédio de arquitetura ultramoderna reverencia a Natal dos anos 2200. Rouba a cena da avenida Nísia Floresta, antiga Salgado Filho, na capital do Rio Grande do Norte. Os antigos diziam que ali existira século antes, um shopping de notória modernidade em seu tempo. O frontão exibe um gigantesco livro aberto em concreto armado, decorado com um trançado de ferro. Quem passava na avenida tinha a impressão de que uma força sobrenatural içava as pessoas que subiam pelo elevador, feito em vidro e acrílico. Vendo-o descer parecia que as pessoas caiam em câmera lenta.
No lado direito do pórtico de acesso uma escultura de bronze retrata um senhor idoso lendo para uma criança. O design foi pensado de maneira que toda a escultura era feita de livros de vários formatos e tamanhos. Uns abertos, outros fechados, cujas imagens se revelavam conforme os exemplares eram dispostos. A obra, assinada por um escultor natalense, ganhou foros de ponto turístico do município, transportada para o mundo em imagens digitais. No alto do prédio, letras de aço inoxidável anunciam “Museu do Livro”. O prédio, como todos da região, tem uma proposta de sustentabilidade. É permeado de árvores e arbustos. No teto ficam dispostas placas de energia solar. A água da chuva desce para uma mini-estação subterrânea para tratamento que, tornada potável, serve ao prédio.
O edifício de sete andares fora erguido em concreto, aço e vidro. O piso impressiona. Blocos de vidro maciço, medindo quarenta centímetros de diâmetro separam os andares, permitido a quem estiver no andar superior ver o que está abaixo, e quem transita abaixo, vê quem está acima. O material vítreo foi desenvolvido para não riscar nem ficar opaco com as pisadas. As paredes internas também são de vidro, proporcionando uma sensação de comunicação visual intensa. Ao mesmo tempo empresta foros de multidão, tendo em vista que todos se veem ao mesmo tempo, mesmo em compartimentos diferentes. Alguns já chamam o Museu do Livro de “Formigueiro”.
Os visitantes assíduos degustam a novidade com ludicidade, mas quem o adentrava pela primeira vez, experimentava uma sensação estranha. Alguns não olham para baixo em nenhum momento. Crianças fazem festa, tentando ser notadas por quem estava abaixo, ou acima delas. Corre em Natal uma lenda urbana florescida nesse ambiente. Dizem que no Museu do Livro as pessoas despertam outros sentidos. Era fato. O que mais se vê são pessoas interagindo através de gestos ao longo dos andares, já que não se ouvem quando separadas. Visitantes de todo o Brasil tomam conta do belo edifício, o qual é compartilhado por arquitetos, engenheiros e artistas do mundo. O Memorial do Livro é o primeiro no Mundo.
A mobília do museu teve como base garrafas PET, material extinto nesse tempo. Foram recolhidas dos mares e oceanos em número de três quatrilhões de exemplares plásticos, transformados num produto de notável qualidade decorativa. O projeto é assinado por um designer cearense. Centenas de dormentes de madeira desenham as escadarias de acesso aos andares superiores. A matéria prima veio das antigas estradas de ferro nordestinas, tempo que o trem é peça museológica e nem mais sabem o que era o VLT, substituído por um veículo que se deslocava no ar.
Maria Augusta completara dez anos naquela semana. Visitava o Museu do Livro pela primeira vez, acompanhada da avó. Ela havia percorrido todos os andares e conhecido vários modelos de livros dispostos através de expositores protegidos por vidros. Conheceu maquetes que exibiam desde o surgimento do primeiro livro com escrita prensada em argila, pelos sumérios, há 5.200 anos, a pedra dos Dez Mandamentos, perpassando pelo pergaminho de couro, a imprensa de Gutemberg, a montagem dos livros na Biblioteca do Vaticano, a imprensa moderna, as livrarias, as editoras até chegar ao e-book do século XXI e o e-book tridimensional do século XXIII.
No centro do museu dispuseram a réplica de uma placa de argila com trechos de um poema em homenagem a um rei desconhecido, encontrada por um aldeão na antiga região da Mesopotâmia, hoje Iraque. Ao lado dessas informações uma placa de vidro com efeito touch, permite ao visitante assistir a documentários e filmes. As visitantes escolheram “História do livro”.
A senhora Heliodora é uma leitora inveterada. Muito culta, detalhava para a neta as informações mais aprofundadas. O documentário informava que o poema dedicado ao rei desconhecido era classificado pelos especialistas como o livro mais antigo do mundo. A preciosa peça sobreviveu para que o homem do futuro soubesse que o homem do passado idealizou uma forma de preservar os seus conhecimentos e transmiti-los às gerações futuras. Antes, a história era contada oralmente, de pai para filho. Vejam o valor da educação! Vejam o valor do livro! Mesmo de maneira precária, eles não foram egoístas e compartilharam o conhecimento com o futuro.
Nessas observações viram que o surgimento da escrita permitiu registrar informações importantes em diversos materiais. Depois foram associando as peças e o livro foi tomando forma. Tudo começou com a argila, depois veio o papiro. No princípio eram rolos, guardados cuidadosamente nas bibliotecas. Maria Augusta ouvia com contemplação.
O documentário contava que apenas na época dos gregos e posteriormente dos romanos os livros se aproximaram do formato atual. Com página e tudo! Originalmente os fabricantes fixavam algumas tábuas de madeira encapadas com cera de abelha onde escreviam o que queriam. Tudo era artesanal. Até as pinturas. Livros coloridos eram materiais de altíssimo luxo. Depois, inventaram o códice, uma compilação de pergaminhos feitos de couro de animais.
Em meio ao documentário, Maria Augusta deu um pause e disse a avó que se não estivesse assistindo a um documentário da BBC, juraria que o produtor seria um gênio da fantasia. Dona Heliodora, confirmando o que já havia ouvido da sua bisavó. E com o play, souberam que o papel mais semelhante ao atual era feito de fibras de plantas trituradas, num surpreendente “made in China”, cerca de 100 a.C. Ou seja, quase 3.000 anos depois da engenhoca de argila sumeriana. Como não bastasse esses milênios todos, ainda precisaram de mais 1.600 anos para idealizarem o primeiro livro impresso. Sabe qual? perguntou dona Heliodora. A Bíblia de Gutenberg, respondeu a própria.
Para aquela época, cada avanço significava uma modernidade sem precedentes. Mas, analisando as dificuldades que o códice, essa peça “ultramoderna” proporcionava, pelo peso e a necessidade de desenrolá-lo, reconhecemos que o touch do presente seria uma coisa extraterrestre para eles. Imagine o susto se eles visualizassem isso através de uma bola de cristal! E assim o livro foi avançando se se modernizando cada vez mais.
Após assistirem ao documentário de sete minutos, avó e neta assistiram ao filme “Alexandria”, o qual contava a história de Hipátia, professora que – pasme – era astrônoma (parece mais moderno que hoje!). Ela era responsável pela biblioteca da cidade egípcia.
Maria Augusta está radiante com tanta informação. O e-book tridimensional do século XXIII é uma invenção adiante do tempo. O mundo é disponibilizado através de um acessório semelhante aos óculos. O leitor lê ou assiste o que quer. Sem contar uma espécie de relógio com função de e-book e telefonia. Tinha-se o mundo diante dos olhos, sem peso, sem prateleiras, sem papel. Imaginou quantas florestas deixaram de ser destruídas? O Museu do Livro fascina pelos diversos elementos interativos nele dispostos. Maria Augusta está encantada, mas as obras do setor de enciclopédia latejavam a sua curiosidade. Está perplexa com a enciclopédia intitulada Delta Larrouse. Mas o que a faz sentir aquilo?
Vovó, não fique chateada, mas é muito difícil digerir tudo isso. Como os estudantes faziam pesquisas nessas geringonças de mais de um quilo cada uma? E a internet? A avó se socorria das lembranças da avó dela. Meu amor, você se esqueceu que acabamos de assistir que não existia internet naquele tempo. A menina riu que chorou. Não, vovó! A senhora tirou o dia para brincar comigo. Fala a verdade! Juro, minha filha. Não existia internet. Prova disso é o que está nas páginas dessa enciclopédia. Leia. E como se mexe nisso? Folheie. É parecido com livros literários que temos em casa.
O Memorial do Livro possuí raríssimos funcionários. Há um setor de interatividade. Está escrito “Interaja com livros, folheie, tire fotografias”. O visitante se inscreve através de um leitor de iris e retina, mecanismo que capta informações sobre sua identidade. Assim as portas se abrem. Tudo é monitorado por câmeras de vídeo. Dessa maneira permite o acesso a uma sala com mesas e cadeiras. Ali pode-se interagir com livros previamente dispostos.
Maria Augusta pediu que a avó a acompanhasse. A senhora Heliodora guardava incontáveis histórias antigas, contadas por sua avó sobre o tempo que se usava livros didáticos nas escolas, comprava-se enciclopédias nas livrarias, editoras e sebos. Admirava-se de ouvi-la dizer sobre casinhas e geladeiras espalhadas pelas cidades, cheias de livros mantidos por pessoas comuns. Maria Augusta às vezes dizia que avó estava caducando contando coisas tão estranhas. Que absurdo, vovó! Como as pessoas transitavam com esses livros tão pesados pelas ruas? Eram feitos de quê os tais livros? A menina estava cheia de interrogações.
Então começaram a folhear as páginas da Delta Larrouse e se deparar com assuntos em ordem alfabética. Telefone? O que é isso, vovó? É o tatatatataravô do seu aparelho celular, minha filha. Mas desse tamanho? Sim, ele não era portátil como os celulares de hoje. Era fixo. Ficava dentro das casas. Mas, vovó, e como a gente falava com alguém quando estava na rua? Não falava. As pessoas sequer imaginavam essa possibilidade. Depois surgiu o aparelho celular. Isso há mais de cento e cinquenta anos. Que maluquice é essa? Que tempo precário. Mas era o máximo para eles. Tudo o que existe um dia foi moderno.
Vovó, e como os professores abordavam os assuntos? Ora bolas, eles passavam um trabalho para fazer em casa. Vovó contava que ia até a Biblioteca e se sentava igualzinho ao que fazemos agora. E como a gente sabia, por exemplo, a formação de uma célula, se não existia internet para se ver os desenhos, as cores, os vídeos, enfim a ilustração bem definida? Ora, existiam os desenhos muito bem feitos e coloridos. Vamos folhear mais essa Delta Larousse que eu lhe mostro desenhos de assuntos diversos.
E como se localizavam os assuntos? Era assim, o aluno pegava o exemplar com o número e a ordem alfabética mostrado no índice. Assim encontrava quase tudo. Até porque a diferença entre a enciclopédia e a internet é que a enciclopédia tinha conteúdo limitado. Não contemplava muita coisa. A internet lhe conduz a todos os assuntos. Quanto à enciclopédia, vovó contava que lia, entendia e transferia para o papel os tópicos mais importantes. Algumas vezes escrevia o trabalho à mão...
O quê! Ela sabia escrever à mão! Como é isso? Que loucura, vovó! Sim, meu amor, naquela época se aprendia caligrafia... Cali o quê? Caligrafia. A arte de se escrever com a mão. Meu Deus! Que tempo estranho. Tudo era pré-histórico. Tudo difícil. Isso porque eu não falei sobre uma engenhoca chamada máquina de escrever. Que é isso vovó? As pessoas escreviam com uma máquina? E a conversa parecia não ter fim. Dona Heliodora passou a desenrolar o novelo de memórias contadas pela a avó dela. A menina nem piscava. Ora ria, ora escancarava a boca... todas as interjeições possíveis...
Um gato saltou sobre a cama Maria Augusta. Ela gritou, assustando a avó Heliodora que correu até o quarto. Vovó o que foi isso? Foi Bibi que pulou a janela. Meu Deus! Eu estava sonhando e Bibi cortou o meu sonho! Que bom, diga como foi o seu planeta onírico! A menina narrou tudo para a avó, a qual riu muito.  Meu amor, que sonho criativo. Aliás, foi mais um pesadelo, de certo modo. Os livros jamais desaparecerão. Pode a massa cinzenta de muitos cérebros desaparecerem, mas o livro permanecerá eterno. Você não sonhou. Você teve, sim, um pesadelo.
Creio que, de fato, as enciclopédias hoje, já são peças museológicas. Servem para colecionadores. Talvez nas regiões menos favorecidas possam ser usadas em sua finalidade original, mas acredito que logo desaparecerão até mesmo os livros didáticos e técnicos. Tudo o que consiste em supérfluo, em termos de papel, desaparecerá.
Nos dias atuais o papel só é usado para impressão de livros literários e acadêmicos, dentre algumas prioridades muito exclusivas. Mais nada. Afinal a internet tem conhecimentos infinitos. É só saber pesquisar as fontes fidedignas. O saudoso poeta Bob Mota dizia que a internet é igual a Serra Pelada: tem que garimpar um morro para conseguir uma pepitinha. A menina riu da colocação da avó.  Graças a Deus foi um pesadelo. Eu não me vejo sem livros, vovó. Adoro seu cheiro. Amo folhear as páginas, descobrir sua textura, suas ilustrações. Mas passou, meu amor... passou... passou. Chegue aqui com a vovó para terminarmos de ler as cinco últimas páginas de Alice nos país das maravilhas. Creio que, semelhante a ela, você encontrou um coelho que lhe levou muito longe... LUÍS CARLOS FREIRE, 2000.