ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sábado, 5 de março de 2022

ACTA NOTURNA – 13.7.19 - INTENDÊNCIA DE PAPARI NO TEMPO DE OBEDIÊNCIA À OLIGARQUIA “MARANHÃO” – QUANDO AS “BREJEIRAS” DECIDIAM AS ELEIÇÕES.


ACTA NOTURNA – 13.7.19 - INTENDÊNCIA DE PAPARI NO TEMPO DE OBEDIÊNCIA À OLIGARQUIA “MARANHÃO” – QUANDO AS “BREJEIRAS” DECIDIAM AS ELEIÇÕES.
 
A transcrição do documento abaixo, escrito há cento e treze anos é um mero recorte histórico – pois muitos ocuparam as funções de Intendentes e Presidentes da Intendência, as quais se diferiam. O presente texto objetiva nem tanto avivar o que aconteceu no dia 25 de janeiro de 1908, em Papari, mas revelar os bastidores da Convenção, baseado em vários documentos que registram uma política tenebrosa, movida a “brejeiras”, “votos de carbono”, “votos de cabresto”, “surras em opositores”, enfim o coronelismo protagonizado pela oligarquia Maranhão. 
 
"Brejeira", para quem não sabe, é eleição decidida antes da divulgação oficial, quando os votos iam para as urnas pelas mãos dos "donos da cidade" na calada da noite, e logo de manhã chegavam os eleitores já com as cédulas prontas de casa, segundo a cartilha dos coronéis. Esses votos se somariam aos que já estavam guardados. E a oposição? Coitada! Não tinha vez, e se insistisse, apanhava.
 
Somando os mandatos da família Maranhão no governo do Rio Grande do Norte, ultrapassa-se 30 anos, mas sua influência anterior e posterior é incomparavelmente longeva. Na realidade os “Maranhão” surgem como ricos donos de latifúndios e engenhos. Inclusive o Engenho Cunhaú, onde houve o massacre, pertencia a eles. Iniciaram-se politicamente como Capitães-Mores, Coronéis de Milícias, Coronéis do Regimento de Cavalaria Miliciana, Deputados Provinciais, Deputados Gerais, Juízes, enfim ocupando em vários postos importantes e somam quase dois séculos de influências, mandonismos, atitudes sanguinárias (como as práticas doentias de Arco-Verde) e – contraditoriamente – atitudes libertárias e nobres, como o ato do herói André de Albuquerque Maranhão e o precursionismo do genial aeronauta Augusto Severo. 
 
Os “Maranhão” mais recentes se distanciaram do estilo coronelista, como se observa nos alfarrábios, mas o período que trataremos abaixo, por estar no contexto do documento abaixo, se prenderá aos “Maranhão” coronelistas e autoritários, como veremos. O presente documento é uma Ata de Convenção realizada em 1908, a qual igual ao que acontece hoje, salvos raros detalhes, é uma máscara. Mas, primeiramente, leiamos a transcrição abaixo:
 
“Nós, abaixo assinados, intendentes, depositarios da confiança do Partido Republicano Federal, Norte Rio Grandense no municipio de Papari, constituímos delegados para representar o mesmo município na Convenção do referido partido no triênio a terminar em 31 de dezembro de 1910, o cidadão Dr. Antonio José de Mello e Sousa com os poderes que, pelo Regimento Politico de 12 de Agosto de 1893, são conferidos aos membros da dita Convenção, cujas decisões nos compromettemos a acatar e a sustentar.
Papary, 25 de janeiro de 1908
 
José Joaquim de Carvalho Araújo – Presidente da Intendência
Olyntho Augusto Ferreira de Mesquita – Intendente
Pedro Januário de Carvalho Intendente
Francisco Alves d’Oliveira Barros – Intendente
Gervasio Gomes do Nascimento – Intendente
Hermogenes Ribeiro da Silva – Intendente
Manoel Orcílio Ferreira da Silva – Intendente”.
 
O documento registra nomes de seis Intendentes e um Presidente da Intendência. Ser “Presidente da Intendência” era o mesmo que ser prefeito. Já os “Intendentes” eram uma espécie de sub-prefeitos. Na teoria funcionava como um grupo de homens de conduta ilibada em prol do bem comum, mas na prática quem mandava era o Presidente da Intendência, pois este era comprovadamente o homem escolhido pelo Governador do Estado. 
 

O objetivo precípuo de cada Intendência era manter os currais eleitorais do Governador. Isso era sagrado. Os Intendentes eram escolhidos pelo Presidente da Intendência, e a eles era estendida a confiança do Governador.
 
Desses sete nomes, quatro se destacam: 
 
Coronel José de Araújo, Presidente da Intendência, Hermógenes Ribeiro da Silva, Joaquim Januário de Carvalho, ambos Intendentes, e Dr. Antonio José de Melo e Sousa, então governador do Estado, cujos detalhes sobre eles se seguirão abaixo.
 
JOAQUIM JANUÁRIO DE CARVALHO: dono do “Engenho Pavilhão”. Era filho de portugueses que receberam “datas de terra” em Papari, onde constituíram família e até hoje têm descendentes espalhados na região. Não teve maior ilustração política.
 
HERMÓGENES RIBEIRO DA SILVA: foi Intendente em outros momentos da política papariense. Posteriormente elegeu-se “Presidente da Intendência” em 1934, quando os Integralistas depuseram o prefeito Joaquim de Paiva. Hermógenes Ribeiro é pai de José Ramires da Silva, que também se tornaria prefeito vinte anos adiante. Hermógenes faleceu aos 85 anos e seis meses, no dia 24 de dezembro de 1964, vitimado por pneumonia. Morava em Tororomba, onde possuía engenho. Era filho de João da Silva Leite e Ana Amelia de Oliveira. Descendia de portugueses que também receberam “datas de terra” em Papari. Ele não experimentou o tempero da Oligarquia Maranhão, mas sentiu o coronelismo que pautou o seu mandato, afinal pertenceu ao tempo dos votos de cabresto e carbono, numa versão mais “light”, comparada aos recônditos históricos da velha Papari, regada a uma overdose de coronelismo. Era um fator cultural.
 
DR. ANTONIO JOSÉ DE MELO E SOUSA: na ocasião dessa Convenção, era Governador do estado o próprio Antonio de Sousa, o qual repassaria o governo a Alberto Maranhão um mês depois. Antonio de Sousa era de papariense da gema. Nasceu no Vale do Capió, em 1867. Ele aparece eleito na referida Convenção como delegado representante, em Papari, do Partido Republicano Nacional, fundado em Natal, por Pedro Velho de Albuquerque Maranhão em 1889. Na época da referida Convenção, Alberto Maranhão governava o estado. 
 
Antonio de Sousa, jornalista no início da carreira, era extremamente inteligente, possuía uma vasta biblioteca, falava francês e admirava a liberdade dos franceses. Foi escritor, autor de um legado literário muito interessante, destacando-se “Gyzinha”, sua obra prima, assinada com o pseudônimo “Policarpo Feitosa”. Sua produção literária é estudada fora do Rio Grande do Norte enquanto em sua terra natal, mal sabem sobre ele. 
 
Ele contava 41 anos no dia da tal Convenção. Ocupou várias pastas públicas, inclusive Secretário de Estado durante oito vezes. Foi governador durante dois mandatos (23.2.1907 – 25.3.1908 / 1.1.1920 – 1.1.1924). Para o último mandato, renunciou o Senado para estar no Governo do estado. Apesar de toda a sua ilustração intelectual, não deixou de rezar na famosa Cartilha da Oligarquia Maranhão. Por sorte a sua gestão experimentou certa calmaria desses costumes grotescos, pois realizou uma administração respeitável. 
 
Por sorte, Pedro Velho não teve o gosto de interferir diretamente em seu governo, pois morrera no ano do seu primeiro mandato. Mas o seu espírito vagou livremente, incorporado aos “Maranhão” que ficaram e seus velhos aliados. Não há como quebrar o ranço de uma oligarquia de um mandato para outro, obviamente. Creio que ele fez vistas grossas a determinadas ações. Se fez ou não, transitou na galeria dos governadores do passado como um homem sério, competente, enérgico e, acima de tudo, honesto. 
 
Antonio de Sousa era um solteirão excêntrico, inclusive mandou retirar os pneus do carro oficial do Governo do Estado para ter certeza de que ninguém o usaria. Era literalmente anti-social. Econômico ao extremo. Alguns o consideravam verdadeiro demônio devido à sua seriedade e austeridade, qualidades mal vistas por um povo acostumado a todo tipo de politicagem e favorecimentos pessoais. Falava francês com maestria. Sua casa era uma biblioteca. Durante toda a sua vida carregou a família nas costas, pastorando as irmãos como leão. Moravam com ele. Certa vez uma delas ganhou um anel de ouro de um pretendente e ele mandou devolver em cima do rastro. Disse que ele deu aquilo porque estava querendo aquilo.
 
Era apadrinhado de longas datas pela Oligarquia Maranhão. Em 1992, em Nísia Floresta, colhi o depoimento do Sr. Pedro Araújo, neto do Coronel José de Araújo, Presidente da Intendência de Papari, citado na Ata da Convenção, o qual contou-me que a amizade nasceu quando ele ainda era rapazote, morava em Papari e colaborava com a administração do Coronel José de Araújo que muito o admirava.
Antonio de Sousa foi uma espécie de “Secretário de Administração” do intendente Coronel José de Araújo, assessorando-o. Quando jovem vivia entre Papari e Recife, onde estudava. Tenho a impressão de que a Oligarquia Maranhão o escolheu devido à sua postura reservada e polida, inclusive era solteiro. Tinha vários irmãos, mas conservou-os longe de seu governo e não favoreceu a nenhum, conforme contou-me a cunhada de Antonio de Sousa, atualmente viva, contando 97 anos de idade (OBS. Entrevistei-a quando a mesma contava 85 anos). 
 
Suponho que Antonio de Sousa aceitou o convite dos “Maranhão” para dar vazão à sua capacidade governativa, já que era muito preparado e não se ver eleito fora desse balaio de raposas. Foi o jeito, já que não teve coragem de ser oposição. E sabia o que acontecia aos opositores.
Seis anos após Antonio de Sousa encerrar o seu segundo mandato o Rio Grande do Norte entrou na era conturbada dos Interventores. Entre 12 de outubro de 1930 a 30 de julho de 1947 o Rio Grande do Norte teve 11 Interventores. Foram 17 anos do Governo Provisório. Era o Estado Novo. Foi uma interventoria transitória para o restabelecimento do estado de direito, com a redemocratização do Brasil em 1946. Enfim, veio a República Nova. 
 
O mandato de Antonio de Sousa voltou-se à Educação. Foi um dos governadores que mais construiu escolas nos quatro cantos do RN. Nunca permitiu perseguição aos professores e outros funcionários públicos. A Praça Sete de Setembro, defronte à Pinacoteca, foi construída durante o seu governo, e a famosa Escola Augusto Severo, na Ribeira.
 
Antonio de Sousa faleceu em Recife, aos 88 anos, no dia 5 de julho de 1955. Foi trasladado para Natal, cujo corpo velado no Colégio Padre Miguelinho, quando era diretor o famoso professor Luiz Garcia Soares de Araújo. Depois sepultado no Cemitério do Alecrim.
 
CORONEL JOSÉ DE ARAÚJO: enfim chegamos a José Joaquim de Carvalho Araújo, o famoso “Coronel José de Araújo”, o qual apadrinhou Antonio de Sousa e os indicou aos “Maranhão” e, mais uma vez precisaremos retornar ao passado. Seu nome batiza a praça central de Nísia Floresta, homenagem ao cidadão que se tornou Presidente da Intendência de Papari. 
 
Em Nísia Floresta contam com orgulho que ele teve o mais longo mandato, tendo assumido em 1873 e encerrado em 1921. “Foram 48 anos de governo. Praticamente meio século”. Mas não é bem assim. Sua estadia de intendente, dada através de brejeiras, foi longa, mas nem tanto. Coronel José de Araújo era ferrenho defensor dos “Maranhão”, por isso recebia dessa família todos os favores possíveis. Em Papari ele era praticamente um “Maranhão”. Oposição alguma era páreo para o poderoso coronel.
 
José de Araújo era Coronel da Guarda Nacional. Talvez foi o Intendente mais leal à Oligarquia Maranhão. Homem de confiança de Pedro Velho, até porque navegou dois tempos: Monarquia e República. Viu a Província mudar o nome para Estado. Passeava na casa dos Maranhão, de Juvino Barreto, do Coronel Cascudo (pai de Câmara Cascudo), na Ribeira, como quem transita na feira do grude. Foi colocado no poder justamente pelos “Maranhão”, os quais, assim como ele, tinham engenhos e grandes propriedades espalhadas na região, como, por exemplo, o Engenho Belém.
 
As eleições ocorridas em Papari e em todo o estado funcionavam na base do coronelismo puro e simples. Eram “votos de cabrestos” e “votos de carbono”. As eleições se davam sob a tônica das “brejeiras”, ou seja, de urnas violadas. Tudo tinha que ser exatamente como o grupo político do Governador determinava. Havia oposição em Papari, mas servia apenas para levar surra (literalmente).
 
Na ocasião da Convenção que tratamos, o Rio Grande do Norte era comandado pela Oligarquia Maranhão, como já vimos, iniciada desde os primórdios, com destaque para o jornalista Pedro Velho de Albuquerque Maranhão, filho de Amaro Barreto e fundador do jornal “A República”, o “raposa-mor”. Em 1889, após receber um telegrama de Aristides Lobo ele proclamou a República no Rio Grande do Norte, tomando posse como governador no mesmo ano. 
 
Como dito acima, ele criou o Partido Republicano Federal. Ao fundá-lo, nomeou quase todos os seus parentes e pessoas que rezavam o seu “ABC”. Isso vigora até os dias atuais, diga-se de passagem. Houve apenas um “upgrade”. 
 
Pedro Velho cairia logo em seguida. Nessa fase conturbada o Estado teve inúmeros governadores, um seguido do outro, inclusive Jerônimo Américo Rapôso da Câmara, que tinha parentes em Papari. Mas, considerado “raposa velha”, conseguiu transitar impecavelmente no meio político adverso. Engoliu sapos, tijolos e pregos. Mentia, criava contextos para favorecê-lo, simulava ser o amigo mais leal de políticos que odiava e nessa vida louca articulou uma cadeia de contatos e estratégias. Assim se reergueu, assumindo o Governo do Estado no período de 2.2.1892 a 25.3.1896. 
 
No seu governo, criou leis que beneficiavam o imposto de exportação para beneficiar o seu cunhado Juvino Barreto, um dos homens mais ricos do estado, o qual morava num belo palácio na Ribeira. O prédio resistiu ao tempo. Fica nos fundos do Colégio Salesiano que o adquiriu. 
 
Muito inteligente, mas implacável com seus inimigos políticos, Pedro Velho mandava surrar desafetos a torto e a direito, transferia opositores para a baixa da égua, aposentava autoridades superiores a ele para tirá-las de seu caminho. Era um demônio das alcovas. Bastava cismar que alguém se opunha às suas ideias e a “peia comia”, como dizem os potiguares. Infeliz o Presidente de qualquer Intendência que o contrariasse. Ele o liquidava e jamais o dito cujo se reerguia.
 
Um dos ferrenhos opositores dessa pândega politiqueira era Elias Souto, dono de um jornal em São José de Mipibu. Era Professor e tinha uma deficiência física. Tentando expurgá-lo, Ferreira Chaves o transferiu para Pau dos Ferros, mas ele preferiu pedir exoneração, mudou-se para Natal e permaneceu atacando-o como um leão. Ferreira Chaves aposentou à força vários juízes e desembargadores que lhe faziam oposição.
 
Seu governo foi um festival de nepotismo, inclusive fez todo tipo de escaramuças para que o próximo governador fosse o seu genro Ferreira Chaves, o qual continuaria a “Cartilha dos Maranhão”. E conseguiu Elegê-lo.
 
Ferreira Chaves teve dois mandatos, somando dez anos de “governo”. Em seu primeiro mandato Ferreira Chaves foi “governador de birô”: assinava papeis e Pedro Velho pintava e bordava. Era o próprio governador, como diziam todos. No segundo mandato o “raposa velha” foi descansar na “terra dos pés juntos”. Levou consigo uma overdose de coronelismo. 
 
A convenção citada acima deu-se dentro do espaço da Primeira República, conhecido também como Velha República, entre 1889 a 1930. O estratégico Pedro Velho morrera um ano antes dessa Convenção, aos 51 anos.
 
Mas não pensem que a Oligarquia acabou. Outros “Maranhão” seguiram as concatenações. Ferreira Chaves era pernambucano, inexperiente dessas patuscadas politiqueiras, portanto o leme deveria estar na mão de algum Maranhão. Seu governo sufocou a oposição e continuou mandando dar surras em quem se levantasse contra os desmandos e as arbitrariedades continuadas por ele. 
 
O coronelismo era tão acentuado que durante o seu mandato modificou a Constituição do Estado, reduzindo de 35 para 25 anos a idade mínima para o candidato concorrer a vaga de governador. Tudo isso para eleger Alberto Maranhão, irmão do seu sogro Pedro Velho. Como não bastasse aumentaram o período de mandato de quatro para seis anos para estender a estadia deles no governo.
 
Na realidade os “Maranhão” eram homens muito bem apessoados, cultos, educados na Europa, na Bahia e Rio de Janeiro, mas esse “know-how” era insuficiente para desencarnar deles o ranço do coronelismo. Após mexer na Constituição Estadual (vejam que absurdo!), articulou esquemas politiqueiros e elegeu Alberto Maranhão, o qual governou durante doze anos. A propósito, durante o seu Governo foi construído em Papari o monumento em homenagem a Nísia Floresta, quando se equivocaram quanto a data do centenário do nascimento desta. 
 
Em Natal, dentre muitas obras, construiu o Teatro Carlos Gomes (Alberto Maranhão). No seu segundo mandato homenageou diversos parentes dando-lhes os seus nomes a praças, escolas, ruas, avenidas e até cidades. Mas também reverenciou amigos leais. Era um mecenas da Arte. Assim como, futuramente, num contexto completamente diferente, Djalma Maranhão seria mecenas da Cultura Popular.
 
Os “Maranhão” governavam construindo estratégias para o próximo mandato. Eles botavam o olho no projeto e trabalhavam quatro anos antes para conquistar o objeto de desejo. Desse modo, encerrado o primeiro mandato de Alberto Maranhão, foi eleito Tavares de Lira (25.3.1904 / 5.11.1906), genro de Pedro Velho. Como não podia ser diferente, o “raposa velha” continuou governando. 
 
Tavares de Lira criou o Banco de Natal e elegeu o seu primo Olympio Tavares para presidi-lo (a coisa era assim: entre parentes... o famoso “Mateus, primeiro os teus”); O Banco tinha tanto parente como acionista que o povo o chamava de “Banco Maranhão”. Tavares era historiador e jurista. Escreveu várias obras, destacando História do Rio Grande do Norte e Fundou o Instituto Histórico e Geográfico do RN. Renunciou o segundo mandato, por insistência de Pedro Velho e assumiu o Ministério da Justiça e Negócios, cujo seu mandato foi ocupado pelo Dr. Antonio de Sousa.
 
Tavares de Lira, sob a orquestra de Pedro Velho, articulou a campanha do papariense Dr. Antonio José de Melo e Sousa, o qual trabalhava com eles desde jovem, tendo sido indicado pelo Coronel José de Araújo, Presidente da Intendência de Papari. É curioso esse detalhe, pois Antonio de Sousa era o oposto dessa tônica politiqueira, como vimos acima. Creio que ele necessitou sobreviver nesse habitat asqueroso para dar vazão aos seus talentos de homem público, educador e escritor. Não havia outro caminho que não fosse pela política.
 
O segundo mandato de Antonio de Sousa, ocorrido por eleição, deu uma enfraquecida nos “Maranhão”. Pedro Velho, o seu maior pilar, morreu em Recife em 1907, um ano antes da citada Convenção. Daí em diante foi diluindo aquela química diabólica da sede pelo poder a qualquer custo. Uns morreram de acidente, outros de velhice, mas o pilar principal do coronelismo sempre foi Pedro Velho. Após a sua morte os ares políticos locais ainda conservaram a tônica coronelista, mas foi se diluindo lentamente.
 
Enfim foi eleito José Augusto Bezerra de Medeiros, depois veio o intelectual Juvenal Lamartine, que conhecia Berta Lutz, admiradora de Nísia Floresta, a qual o influenciou a incentivar a participação da mulher na política e os ares políticos começaram a se modernizar. Assim nasceu a primeira prefeita do Brasil, primeira eleitora, primeira vereadora e uma das primeiras deputadas. Tudo isso inspirado na intelectual Nísia Floresta, a qual havia morrido há quase trinta anos.
 
Juvenal Lamartine foi o combatente-mor do cangaceirismo de Lampião no Estado. Intelectual, escritor, mais um a quebrar o ranço do tudo, vale tudo pode. Veio o “Estado Novo” com um “Governo Provisório”, assumiram diversos “Interventores federais, mas isso é outra história... LUÍS CARLOS FREIRE - OBSERVAÇÃO: A história do Coronel José de Araújo será postada numa ACTA NOTURNA nos próximos dias.

 

Capela de Piranji no Passado


 

No passado tudo era parece mais abstido de faustos. Havia uma preocupação maior com a essência das coisas. Não significa que devêssemos congelar o passado, ou nos prender a ele, sem avançar, mas pensar sobre o que era valioso nele e que hoje parece mais diluído, e se vale a pena lutar por isso. Essa velha fotografia traduz um pouco do que digo...

 

Lavar a calçada com lavadora de alta pressão?


Dia desses vi um homem lavando a calçada e o muro de sua casa de esquina com uma máquina a jato d'água. Mais ou menos duas horas depois retornei, e ele permanecia com a máquina ligada, sem preocupação com o tempo. O líquido, precioso, descia sem dó pela sarjeta. As pessoas criticam, mas elas próprias desperdiçam e fazem coisas insanas. É como se dissessem "tô pagando"! O "tô pagando" é marca registrada de gente sem noção. Uma pessoa dessa não pensa no próximo nem nos problemas alheios, pois quantas famílias mal tem água para beber. E ele usando água potável na calçada e muro. Não é necessário lavar calçada com um aparelho desse. A água da máquina de lavar pode ser reutilizada nisso. Não precisa lustrar uma calçada e um muro. Mas vá dizer isso para um "cidadão" desse!

Mandei fazê um liforme Bem feito, com perfeição, Mode botá na cidade no dia da enleição, E o qual admiro A toda população.

 


JÓIA RARA DO NOSSO FOLCLORE

Mandei fazê um liforme
Bem feito, com perfeição,
Mode botá na cidade no dia da enleição,
E o qual admiro
A toda população.
O chapéu de arroz doce,
Forrado de tapioca,
As fitas de alfenim
E as fivelas de paçoca,
E a camisa de nata,
E os botões de pipoca
A ceroula de soro
E a calça de coalhada
E o cinturão de mantêga
E o broche de carne assada,
O sapato de pirão
E as biqueiras de cocada,
As meias de mingau
E os véus de gergelim,
E as aspas de pão-de-ló
E o anelão de bulim,
As fitas de gordura
E as luvas de toicim.
O colete de banana
E o fraque de carne frita,
O lenço de marmê
E o lecre de cambica,
E o colarim de bolacha
E a gravata de tripa.
O relógio de queijo
E a chave de rapadura,
A caçuleta de doce
E o trancelim de gordura.
Quem tem um liforme deste
Pode julgar-se em fartura”.
Canção de autoria do cego Raimundo Leão de Sales, colhida por Assis Iglésias em 1919, em São Luiz do Maranhão, durante uma feira pública. Publicado por Câmara Cascudo. Pela data e por algumas palavras, como "trancelim" e o relógio (funcionando a chave), pode a letra ter quase trezentos anos.
Significados das palavras: Bulim: bolinho – Toicim: toicinho – Marmê: farinha puba ou farinha ferventada – Cambica: vinho da palmeira do buriti.

Ucranianos pedem cassação de Mamãe Falei e investigação internacional sobre turismo sexual

 

Que crápula!

Em meio a pior miséria humana - a guerra - esse resto humano vai à Ucrânia se disfarçando de uma causa humanitária para fazer isso (uma espécie de turismo sexual)? É horroroso. Esse resto merece ser cassado. Esse fato é digno de uma moção de protesto - principalmente das mulheres - e das feministas - em todo o Brasil.
Deixar algo tão grave se resumir a simples notas de redes sociais não diminui o estrago que esse monstro fez. É um desserviço. É um atentado a todas as pessoas: homens e mulheres.
O vídeo completo da fala do crápula é terrível. Como pode existir gente assim, capaz de "caçar sexo" em meio ao horror da guerra, subestimando as mulheres por serem pobres? É revoltante demais!
Não adianta publicar um vídeo, agora, se explicando, dizendo que foi um mal entendido. O SEU ÁUDIO VERGONHOSO É MUITO CLARO E REAL - ALI ERA VOCÊ SEM MÁSCARA!
Ucranianos pedem cassação de Mamãe Falei e investigação internacional sobre turismo sexual
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Ucranianos pedem cassação de Mamãe Falei e investigação internacional sobre turismo sexual

quinta-feira, 3 de março de 2022

Poema das árvores voadoras...


Um dia meus amigos me participaram tamanho assunto que os tive na conta  dos doidos. Eis que me contaram a façanha de Guandu, um nosso amigo índio de infância lá da aldeia. Ele deu de sair com uma conversa que falava de árvores que voavam. Na risca fui ter com Guandu, tentar abraçar melhor aquela palestra. Matutei tratar de histórias velhas do avô de Guandu. Ele nos entranhava em causos misteriosos, catados das matas. Então eu disse  “guandu, por que você proseia por aí que as árvores voam?” Eis que ele se saiu com essa palestra: “a verdade é bonita de se dizer, eu não posso desmentir os digos dos meus olhos, eu não posso desmentir os digos dos meus ouvidos, eu não posso desmentir  os digos da minha boca, eu não posso desmentir os digos do meu nariz. A natureza é dizedora. É senti-la, isso só... Eis que as árvores estão inteirinhas dentro das sementes, eis que não importam os seus tamanhos, sejam como pedrinha qual semente de sucupira, sejam grandes como a semente de castanha do Pará, seja minúscula como a semente de Ibirapitanga, seja a semente do tamanho de um fio, como a quaresmeira ou embaúba… as árvores estão ali, guardadinhas dentro das sementes, como criancinha na barriga da mãe, como a sucuri ou a onça, guardadas para nascer depois que saem de dentro dos seus bichos-mães. Então as árvores crescem como aqueles prédios de uma cidade. Então das árvores saem sementes já responsabilizadas de gravidez. Então tem algumas que explodem suas caixinhas. Então as sementes voam nos mais longes céus. Há sementes que são todinha um passarinho-mirim, do tamanhozinho de um cisco. Então o vento sopra aquela semente. Então ela viaja para os lugares. Então caem na terra. Então o solo  a abraça. Então surge uma pequena árvore e crescerá igual a mãezinha dela. Também existem sementes que voam dentro dos bichos. Voam no papo dos pássaros que comem as frutas e passeiam os seus estrumes por onde andam. E tem os bichos de patas. Eles vagueiam desaparecidos, comem os frutos e viajam os estrumes nos infinitos. É assim, toda árvore voa, não importa se uma gigante gameleira, se um baobá, se um jequitibá ou qualquer cipó. É assim que a natureza faz florestas. É assim que as florestas fazem águas, rios, lagos, nascentes, chuvas, corixos…”. Indígena é sabedor para coisas que dessabemos. Encantei-me pela explicação de Guandu. De doido ele só tem só nada. Doidos, sim, os nossos pensares que pensavam que as árvores têm asas de passarinhos e voam como aviões. Doidos sim os maus juízos que pregávamos em Guandu. Já ia deixar esquecido que Ibirapitanga é o nome que os indígenas chamam o pau-brasil. No idioma indígena significa “árvore vermelha”. Guandu ainda esclareceu que ybirá é árvore e pitanga, vermelho. Eis que tive essa aula de natureza com Guandu. Nunca me esqueci. Nunca mais desprezei a sabedoria daqueles povos. Toda vez que passeava na floresta que abraçava a cidade, olhava o céu. Sabia que havia muita árvore voejando… L.C. F. 9.6.2006.

terça-feira, 1 de março de 2022

Mudar o nome da ponte Newton Navarro?!

 
Hoje cedo recebi esse ‘post’ do Dr. Ormuz Barbalho Simonetti, presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte - IHGRN, e fiquei de escrever um texto, inclusive parabenizo essa notável instituição pela iniciativa.
Pensei inicialmente em dizer ‘parabenizo pela coragem’, ao invés de ‘parabenizo pela iniciativa’, tendo em vista vaidades, egos que inflam ou murcham, desarranjos políticos e outras coisas mais, típicas de uma capital que insiste em ser província.
Mas, dentre as muitas responsabilidades do IHGRN, essa é uma delas, e não há como não enaltecê-la tendo em vista tantas instituições que se omitem, ou que- pasmem - concordam com a anomalia.

Pois bem, eis que essa ideia insensata de excluir o nome de Newton Navarro da ponte sobre o rio Potengi/trecho Redinha, para incluir o nome da professora Wilma de Faria é do deputado militar, coronel Azevedo, do partido Social Cristão (PSC).
Entendo que ele deveria usufruir da nobreza de seu mandato para educar as crianças e os jovens a respeitar os nomes dos logradouros e topônimos públicos, ao invés de ensinar a desconsagrá-los. Isso é desserviço e nos dias atuais deveria ser considerado falta de decoro, pois é um gesto de deseducação, um desserviço.
 
O genial Câmara Cascudo escreveu a célebre frase “Natal não consagra nem desconsagra ninguém”. Eu estenderia a sua frase, dizendo que “Natal homenageia e ‘desomenageia’ ao bel prazer, mata e cura segundo conveniências políticas e de camaradagens”.
Essa iniciativa pré-histórica do referido coronel, deixa Natal parecida com antigos vilarejos do passado, onde os senhores de engenho, chamados - pasmem - “coronéis”, casavam e batizavam sobre os intendentes. Mas isso é passado.
 
Natal é uma cidade consagrada a viver mudando incontinenti os seus topónimos. Há logradouros públicos que já receberam até cinco denominações. A História que o diga.
O Baldo já foi Oitizeiro, a rua Princesa Isabel já foi rua dos Tocos, o bairro do Tirol já foi “Solidão”, a praça André de Albuquerque já foi “Rua Grande”, a rua Mossoró já foi “rua Vai quem quer”, o rio Potengi já foi “rio Salgado”, um enorme trecho da avenida Deodoro já foi “Vila Palatnik”, numa alusão a inúmeras famílias judaico-russas que se estabeleceram em residências que formavam duas quadras próximas.A avenida Rio Branco já foi “rua Nova”; a rua Vigário Bartolomeu já foi “Rua da Palha” (espiem só que nome maravilhoso! Isso porque na rua inteira perfilavam dezenas de fogueiras juninas e arraiás); a rua Felipe Camarão já foi “Rua do Catorze”, numa referência ao 14º Batalhão de Infantaria que existia nela; a rua Chile era “Rua do Comércio”. “Praça do Peixe era o Mercado Público que existia onde atualmente é o Banco do Brasil na av. Rio Branco. O Canto do Mangue já foi “Canto da Jangada”, a Ponte de Igapó já foi “Ponte dos Ingleses”. Um dos campeões em consagrar e desconsagrar foi o espaço do Hospital Onofre Lopes, que já foi Monte Petrópolis, que já foi Hospital da Caridade, que já foi Hospital Jovino Barreto, que já foi Hospital Miguel Couto, e hoje, Hospital Onofre Lopes (HUOL), dentre tantos outros… 
 
Observando os nomes acima, percebe-se que eram denominações que traduziam características do local, ou seja, havia uma identidade. Quando não, havia uma história na simples denominação. Sem contar a poeticidade. Algumas, mais parecem poemas. 
 
Já estava esquecendo de dizer que o nome da notável e visionária Nísia Floresta foi dado a uma avenida de Natal, depois desbatizaram, desomenagearam,... desconsagraram… a reduziram a uma travessa escondida, feia, cheirando a urina e assalto à mão armada, como se ainda hoje, em pleno século XXI, o povo insistisse em acreditar nas fofocas terríveis de Isabel Gondim. No entanto, Nísia Floresta é um dos nomes mais estudados no mundo.
Essa falta de bom senso revela o nível cultural de boa parte das nossas autoridades políticas que, ao invés de sugerir novos nomes para novos espaços, querem tirar um nome para colocar outro. Pense numa desconsagração! 
 
O antigo aeroporto trazia um nome notável - de uma das figuras mais ilustradas do Rio Grande do Norte: "Augusto Severo " -, um cientista da aviação, aeronauta reverenciado e citado em todas as obras que tratam sobre a História da Aviação.
 
Era um pioneiro visionário. Mais que uma homenagem ao aeroporto potiguar, o seu nome era uma homenagem ao seu povo. Homenagem por excelência. Foi feita uma grande injustiça à sua memória quando trocaram o nome para Aluízio Alves e, como não bastasse, transferiram o aeroporto para a 'caixa-prego'.
 
Aluízio Alves é homenageado num museu dedicado a ele. É um dos nomes mais homenageados no estado: em escola, parque público, galeria e diversas instituições. O aeroporto anterior trazia o nome de alguém que tinha tudo a ver com aquele espaço. Em tudo se casava a homenagem. 
 
Com relação à professora Wilma de Faria (que tive o prazer de tê-la como professora, na UFRN), poderia ser homenageada com algo notável a ser criado: um parque, uma praça, avenida, bairro, etc. Inclusive há o projeto de uma nova ponte. Por que não? Há um projeto em andamento para modernizar a área da Redinha com diversos equipamentos urbanísticos. Cabe o nome da professora Wilma em algum local. Não é verdade? 
 
Deixemos quieta a ponte, ela já está batizada. Não dá certo essa questão de dar nome e tirar nome nos logradouros públicos como quem troca mercadoria chinesa, exceto se for um nome de ‘persona non grata’, que seja descoberto algo que a desabone perante uma nação. E não é o caso. Newton Navarro é um renome.
 
Se fizermos uma pesquisa, constatamos que boa parte dos topônimos originais de Natal são temporários e divagam ao bel prazer de políticos que deveriam pensar em assuntos mais importantes, como a destruição do patrimônio histórico de Natal, principalmente na Ribeira, a dilapidação dos monumentos, os roubos das placas de bronze. Sem contar a falta de iniciativas em prol da reconstrução de peças que jamais deveriam ter sido destruídas, como os coretos. Isso tem que acabar!
 
Qual deputado está antenado nisso? Qual deles têm projeto nesse aspecto? Há tanta “autoridade” por aí descaracterizando, demolindo o patrimônio histórico (inclusive padres), mas a Natal provinciana adora pedir ‘bença’ a padre atrás de currais eleitorais. E assim a gente vai vendo Natal ser desconsagrada… pesa ainda o vexame de algum desajuizado ter que chegar até os parentes de Newton Navarro e dizer “desculpem aí, mas a gente vai tirar o nome de Newton Navarro da ponte, agora vai ser Wilma de Faria”... Pelo amor de Deus… isso é insano demais… desserviço puro!
 
Esses políticos preocupados com essas ações insensatas deveriam se preocupar também com outros assuntos como Educação e violência. Creio que a professora Wilma, se pudesse saber disso, diria, "gente, esqueça isso! Haverá o momento certo... ao invés de 'desomenagear' Newton Navarro, eduquem as crianças e jovens para que eles, quando se tornarem políticos, sejam homens públicos úteis e coerentes..".

A casa de José Mauro de Vasconcelos...

 Para quem ainda não sabe, o genial escritor José Mauro de Vasconcelos passou um período de sua vida nessa casa, na Cidade Alta, em Natal, Rio Grande do Norte. Hoje ela foi dividida em duas casas, justificando estarem pintadas com cores diferentes. Quando ele ali residiu era uma construção única, um pequeno palacete. 

 
A construção data da década de 1920. Alguns dos livros de José Mauro trazem memórias vividas aqui em Natal, principalmente atrás dessa casa, onde escorrem as águas calmas do grande Potengi. Onde o ocaso o presenteou com os mais belos por do sol.
 
Creio que esse rio estava para Mauro como o Mississipi estava para Tom Sawyer, onde ele fazia mil peripécias. Dentre suas obras mais conhecidas, destacam-se "Meu pé de laranja lima" e "Rosinha, minha canoa". 

José Mauro de Vasconcelos  nasceu no Rio de Janeiro no dia 26 de fevereiro de 1920, e faleceu em São Paulo, no dia 24 de julho de 1984. Era de origem de uma família nordestina, que havia migrado para o Rio de Janeiro. Os pais tinham tão poucos recursos que ele, ainda criança, teve de se transferir para o o Rio Grande do Norte, onde foi criado pelos tios em Natal. Ingressando na Faculdade de Medicina da capital potiguar, abandonou o curso no segundo ano, retornando ao Rio de Janeiro a fim de conseguir melhores oportunidades. Ali, trabalhou como carregador de bananas em uma fazenda do litoral do estado, instrutor de boxe, e, devido ao belo porte físico, até garoto de programa. Há uma estátua sua, do escultor Bruno Giorgi no Monumento à Juventude, na antiga sede do Ministério da Educação.

Em São Paulo, foi garçom de boate. Obteve uma bolsa de estudos na Espanha, mas não suportou a vida acadêmica. Abandonou os estudos depois de uma semana, preferindo correr a Europa. A atividade mais importante que exerceu foi junto aos irmãos Villas-Bôas pelos rios da região do Araguaia, conhecendo o ambiente inóspito e lutando pelos povos indígenas. ]

Quando cresceu e se tornou adulto, lançou o seu primeiro livro, o romance Banana Brava, de 1942, onde reflete o mundo dos homens do garimpo. Mas a obra não alcançou bons resultados na época, apesar de algumas críticas favoráveis. Rosinha, Minha Canoa, de 1962, marca seu primeiro sucesso. No livro Meu Pé de Laranja Lima, de 1968, seu maior sucesso editorial, serve-se de sua experiência pessoal para retratar o choque sofrido na infância com as bruscas mudanças da vida. Foi escrito em apenas 45 dias.

 
 
Uma de suas obras, "O meu pé de laranja lima" é um clássico da literatura brasileira, com adaptações para a televisão, o cinema e o teatro, O Meu Pé de Laranja Lima é desses livros que marcam época. Lançado em 1968, trata-se de uma história fortemente autobiográfica, que demonstra a mão de um escritor experiente, ciente do efeito que pode provocar nos leitores com suas cenas e a composição de seus personagens. O protagonista Zezé tem 6 anos e mora num bairro modesto, na zona norte do Rio de Janeiro. O pai está desempregado, e a família passa por dificuldades. O menino vive aprontando, sem jamais se conformar com as limitações que o mundo lhe impõe – viaja com sua imaginação, brinca, explora, descobre, responde aos adultos, mete-se em confusões, causa pequenos desastres. As surras que lhe aplicam seu pai e sua irmã mais velha são seu suplício, a ponto de fazê-lo querer desistir da vida. No entanto, o apego ao mundo que criou felizmente sempre fala mais alto. Só não há remédio para a dor, para a perda. E Zezé muito cedo descobrirá isso. A alegria e a tristeza não poderiam estar mais bem combinadas do que nestas páginas. E isso, se não explica, justifica a imensa popularidade alcançada pelo livro.
 






 
 

BIG BROTHER BRASIL...

Essa charge retirei da revista ‘Veja’ de 2014. Postei isso nessa época. As palavras são reais e foram ditas no programa "Altas Horas", da Rede Globo, por incrível que pareça.
A conversa se deu entre Boni e Pedro Bial, ocasião em que o próprio Bial criticou o quadro comandado por ele naquela época. Em outras palavras, é como se dissesse: "se o povo gosta de m. é m. que a gente tem que oferecer". É lastimável quando reconhecemos que há tantas razões que impedem o povo de preferir m. aos livros, m. aos estudos, m. a um bom lazer que nos faz admitir que de fato a m. do BBB é algo “bom”.
 
Obviamente não podemos generalizar os fatos. Até acredito que é possível alguém assistir o BBB com uma conotação de estudo/pesquisa, sei lá. Mas não me encaixo nesse "Zé Mané" que Bial debocha. Ainda mais quando sei que foi Pedro Bial que fez a cobertura de uma reportagem que ganhou prêmios, sobre a Queda do Muro de Berlin. É queda livre…
Ninguém é mais inteligente ou menos inteligente porque assiste ou não assiste BBB. É uma questão de gosto. Infelizmente, para alguns, é “diversão”, mas é triste demais alguém considerar como diversão algo tão fútil, vazio, decadente e descartável. O mundo já é um Big Brother. É possível fazer dele objeto de pesquisa.
 
Particularmente me preocupo com as crianças e jovens formados na “Universidade Big Brother”, que não têm sequer um pai ou uma mãe que esteja ali de suporte, ponderando as coisas. Essas pessoas crescerão achando que muito dali é valor. E não é. O mundo é preconceituoso, segregacionista, seletivo, tirano e precisamos trilhá-lo procurando o bem que, por incrível que pareça, se imiscui nesse meio. Muitos precisam matar um leão por dia. E não vale ser fútil.
 
Bial disse “precisei me despir da condição de jornalista e ser um Zé Mané igual aos outros”. Essa frase traduz tanta coisa. Creio que as pessoas que têm esclarecimento devem se despir da ideia errônea de não querer ofender quem gostado BBB - fazendo o jogo inocente do “estou na onda jovem” - e esclarecer, mostrar caminhos que engrandeçam as pessoas, que as coloquem num patamar melhor.
 
Não se trata de querer que os outros pensem igual a nós, e não é esse o objetivo, mas há tanta coisa boa que se pode fazer enquanto passa o BBB. Há tantos filmes bons. Quem não tem Netflix e outros recursos fechados, pode assistir a filmes em DVD. Há tantos livros maravilhosos, inclusive de autores locais. Há outras alternativas, é só querer. Mas é isso, cada cabeça é um mundo...

 

O ontem e o hoje do Carnaval de Camurupim...

 
Hoje em dia o Carnaval de Camurupim tem diversão para todos os gostos, e atende de católicos a evangélicos, crianças a velhos, malandros, vagabundos e heróis, mas nada lembra o bucolismo e a tônica singela d’outrora. Já ouvi histórias que consistem em verdadeiros poemas, narradas por gente idosa, quando as casas eram feitas de palha de coqueiro, quando só os mais “ricos” erguiam casas de taipa. “Era uma casa aqui, outra a meio km”, como disse o sr. José Carão, em 1992. Um pedacinho do paraíso.
 
As florestas de coqueirais gigantescos perderam lugar para as casas e ruelas desconexas. Hoje as dunas estão forradas com lençol estampado de casas de veraneio. Dos nativos daquele tempo, sobrou apenas uma família. Camurupim virou cidade, e durante o Carnaval, metrópole.
 
Nesse período há casos de residências minúsculas que abrigam até 100 foliões. Banho é uma confusão. Na hora de dormir o terraço se transforma em tapete humano. A madrugada é a chance de gatunos que, tais quais os “pés-de-lã”, podem aparecer para passear mansos, silenciosos, recolhendo roupas de marca, carteiras e celulares. Alguns fazem do varal alheio o seu Midway Mall. Camurupim evoluiu a tal ponto.
 
O trânsito de carros, motos, bicicletas e pedestres divide espaço com vendedores ambulantes, carrinhos de sorvete, cachorros... é a Índia do Brasil.
 
A “Rua dos crentes”, como até hoje é conhecida a principal via de trânsito local, está longe da "santidade" do passado. Originalmente muitos evangélicos tinham casinhas de palha ali e, além de se divertirem nas águas do mar e pescar, realizavam cultos noturnos, de onde se ouviam de longe a Harpa Cristã alumiada pela lua, por fogueira ou lampiões.
 
Mas até isso mudou. A Harpa Cristã desapareceu, embora os crentes ficaram. Hoje até os evangélicos vão ali curtir a fuzarca do Carnaval. São os primeiros a se sentarem nas muretas das varandas para assistir a tudo o que por ali aparece. Adoram. Ninguém sabe quem é crente, quem é macumbeiro, quem é ateu, quem é católico... todos estão vestidos de Carnaval. Sr. Maurício, um evangélico que residia defronte à minha casa, dizia "não se faz mais crente como antigamente".
 
Quem busca sossego ou tem um grau maior de pudor e recato, não apareça ali nesse período, pois a “Rua dos crentes” treme. A Harpa Cristã deu lugar ao terremoto dos carros de som. As aparelhagens nas casas ou os paredões nos carros fazem uma orquestra tresloucada, eletrizando tudo.
 
As músicas típicas de carnaval desapareceram, engolidas pelas “swingueiras” com letras de cunho erótico, sempre apelativas. A marchinha perdeu espaço para o axé baiano ou músicas atuais com coreografias naqueles termos, por vezes mais lembram uma cópula que dança. Cada um expõe o seu gosto musical, numa palreira ensandecida. Quem não gosta de barulho nem bebedeira não apareça na praia nessa época!
 
Ali passa o espetaculoso desfile do “Barreta Gay”, cujas fantasias e apetrechos vão desde uma simples maquiagem a ingênuas máscaras e vestidinhos ousados trajados por homens heteros ou gays, aventando os dotes masculinos numa tônica de malícias, insinuações, ditos picantes e muita galhofa. A isso se somam mulheres e crianças de todos os sexos numa farra que sepulta qualquer estresse. Todos os problemas “se afastam” dando espaço a uma animação sem fim.
 
Não apareça ali com ares de remoque que poderá ser “linchado”, pois, naquele momento o “diabo” está solto. Carros, pessoas, muros e até os postes ficam sarapintados de araruta, trigo, farinha, espuma de spray, tinta e água. As “caras e bocas” de homens vestidos de mulher provocam uma “risadagem” sem fim. Até alguns velhinhos se travestem, colocando os netos em polvorosa.
 
Mas nem tudo é “modernidade”. Sobrevive, intacto, os encantadores “papangus”; normalmente meninos em busca de algumas “pratinhas”, (como denominam as moedas), ou refrigerante, conforme reza a tradição. Eles percorrem Camurupim, Barreta e Barra de Tabatinga, despercebidos da água e óleo que os difere daquela modernidade louca.
 
A manifestação do Papangu é uma das expressões mais lindas que já vi. Eles vestem molambos e tapam o rosto com pano, deixando apenas o buraco dos olhos. Nas mãos, levam tampas velhas, latas vazias, apitos e fazem um barulho danado. A brincadeira começa na cidade, passando nas casas, recolhendo prendas - como fazem os brincantes de Folia-de-Reis -, depois seguem para a praia. Sempre eu reservava um litro de refrigerante para alimentar aquele folguedo. É o que faz avivar a tradição.
 
Camurupim vira a metrópole de Momo, com direito à coleta de lixo que quase não acaba. Aparecem padarias, bares, restaurantes, pousadas com freguesias intermináveis. Entregadores de água requebram lá e cá, sem parar a dança do dinheiro. Dizem até que alguns ficam ricos nessa época. É a modernidade! 7.2.2015.