PANTANAL
No Pantanal nos confundimos com as águas, com as matas, com os céus, com nossos espectros e sombras...
Somos pássaros, somos voos, somos bichos, somos deslimites, somos homens...
PANTANAL
No Pantanal nos confundimos com as águas, com as matas, com os céus, com nossos espectros e sombras...
Somos pássaros, somos voos, somos bichos, somos deslimites, somos homens...
Cabo Anselmo vivia em local não sabido até hoje, com medo das injustiças que fez. Ele foi submetido a uma plástica para ajudar sua clandestinidade. Durante a Ditadura Militar se passava por agente de esquerda e repassava as informações dos companheiros de esquerda para os militares no Rio de Janeiro. Era tão perverso e traiçoeiro que Anselmo coletava e fornecia aos militares informações que lhes permitiram capturarem guerrilheiros e opositores da esquerda, incluindo sua noiva, que, mesmo grávida, foi brutalmente torturada e morreria em uma prisão militar. NEM A NOIVA ELE POUPOU. Desse modo colaborou com o desaparecimento de muitos jovens, e os que não foram mortos sofreram as piores torturas. Colaborou muito com Ustra, um dos maiores torturadores que o Brasil já teve, inclusive amigo pessoal do atual presidente da república, que diz ser seu fã. Cabo Anselmo estava na clandestinidade desde os anos 70. Ele chegou a usar uma identidade falsa e viveu escondido.
Particularmente tenho abominação a tudo o que vem da Ditadura Militar, página terrível da nossa história. Minha mãe tem um primo que foi torturado na Base Aérea de Natal, durante a Ditadura Militar. O local era conhecido como Campo de Concentração. Ali ocorreram as piores formas de tortura física e psicológica. Esse primo da minha mãe ficou num cubículo que mal dava para ele se deitar. Local úmido, de cujo teto pingava água. Os militares colocaram instalaram nesse quartinho um amplificador com o som ligado no último volume, mas nem era uma música, eram aquelas frequências de rádio que parecem um zumbido oscilando que pica os tímpanos. Apanhou muito: chutes no estômago, barriga, cuspe no rosto, socos no rosto, golpes de cassetete na sola dos pés. Havia uma “técnica” chamada “telefone” em que eles colocavam as duas mãos em concha e batiam nos dois ouvidos de uma vez. O meu primo também era xingado, humilhado, desnudado. Tiveram a diabólica atitude de fazer uma montagem com a fotografia da esposa dele nua, e mostravam para ele, dizendo “olha só! é sua esposa, vejam como ela está sentindo a sua falta!”. E sua mulher era íntegra e respeitável como são todos os seus filhos, netos e bisnetos até os dias atuais. O meu primo chegou a ir para Fernando de Noronha e morreu pouco tempo depois. Ele foi torturado por um soldado da Aeronáutica que se tornou - pasmem! - reitor da UFRN. Foi o prêmio que ganhou do regime militar. Mas eles não torturaram apenas o meu primo. Foram muitos, inclusive o médico Vulpiano Cavalcanti e Luís Maranhão Filho . O CRIME DELES: CLAMAR POR DEMOCRACIA. Eram homens de bem, pessoas dignas e respeitáveis. É por essa e outra razão que não tolero os crápulas que pedem de volta a Ditadura Militar. Quem pede a Ditadura Militar não tem ideia do que ela foi, suas arbitrariedades e injustiças desmedidas. Sem contar que foi um governo corrupto.
Segue, abaixo, breves trechos de um documento oficial publicado pelo Comitê Estadual pela Verdade, Memória e Justiça RN - Rio Grande do Norte:
“Outra vítima de tortura foi o sargento Geraldo Teixeira, depois de transferido para o Q.G. da 2ª Zona Aérea, no Recife. Seu corpo foi todo pintado com palavras pornográficas e desenhos de órgãos sexuais, além de ter um cassetete introduzido no ânus pelo tenente Câmara. Seus lábios foram queimados com brasa de cigarro, seus testículos amarrados e puxados pelo tenente Câmara, que, não satisfeito, esfregou a boca do sargento no chão cheio de fezes.
Obrigado a ficar de quatro pés, foi montado pelo major Hipólito, com o qual, depois, teve de lutar boxe, com os olhos vendados.
O mesmo sargento Geraldo Teixeira foi forçado a representar o papel de Café Filho, no enterro simbólico do vice-presidente da República, realizado em meio a atos indecorosos e promovido pelos majores Roberto Hipólito e Souza Mendes. Deitado no chão e amarrado, colocaram-lhe uma vela acesa no ânus. Alguns dos presos foram forçados a ficar em volta assistindo à galhofa dos torturadores, que lamentavam “o morto” com apupos e palavras de baixo calão.
“Esses oficiais, que, bem sabemos, em nada representam as Forças Armadas do Brasil, ameaçavam assassinar qualquer um que denunciasse seus crimes.”24
As primeiras prisões ocorridas em Natal foram de militares que serviam na Base Aérea. Os sargentos Enéas de Oliveira Filho, Antônio Paulo Andreazi e Armando Pulis Gomes, nos dias 13, 14 e 23 de fevereiro de 1952, respectivamente. Em obediência a um habeas-corpus, foram soltos e presos em seguida.
A partir dali, a cidade assistiu a uma série de prisões arbitrárias, com residências de militares e civis invadidas. Alguns recusavam seguir sem protestar. Foi o que fez Hermínio Alves de Brito. Ao ver a patrulha da Aeronáutica invadir sua casa, exigiu o mandado judicial. A exigência foi o suficiente para que o primeiro sargento Genaro Alves da Fonseca (que se tornaria reitor da UFRN), de 29 anos, que tomava parte da referida patrulha, “lhe atracasse pelo pescoço”,25 sendo ajudado pelos outros integrantes da repressão que o arrastaram até o carro e o levaram imobilizado para o Campo de Concentração da Base Aérea.26
Foram presos pela Aeronáutica, em Natal, de fevereiro a dezembro de 1952, os civis Vulpiano Cavalcanti de Araújo, Luiz Ignácio Maranhão Filho, José Costa, Eider Toscano de Moura, Poty Aurélio Ferreira, Adauto R. Sales, Adauto Fernandes de Figueiredo, José Cabral de Oliveira, Hermínio Alves de Brito, José Gomes da Silva, Pedro Celestino Neves, Luiz Simeão Ferreira, Simplício Teixeira Peixoto, José Renovato dos Santos, Severino Miranda, Tasso de Macedo Wanderley, Joaquim Miguel da Costa Filho e Nazareno Rodrigues”.
“(...) Algumas vezes eram levados para uma cela em total isolamento, lá permanecendo por vários dias, sem sanitários, etc. Essas celas eram de cimento-armado, medindo 1,90m de altura, 1,90m de comprimento, e 0,90m de largura, com porta inteiriça de aço. O teto, também de aço, possuía dois orifícios circulares com 5cm de diâmetro. Um possante alto-falante emitia sons agudos e estridentes, dia e noite. Todos passaram por essa cela, mas o preso Vulpiano Cavalcanti, cirurgião agraciado pela Academia de Ciências por desenvolver uma técnica de sutura em cirurgias de apendicite, e que teve os dedos quebrados para que nunca mais pudesse exercer a profissão, passou 135 dias. Saía somente para interrogatórios seguidos de espancamentos…”.
“(...) Foi numa madrugada de muito calor, naquele dezembro de 1952, que o comerciante Poty Aurélio Ferreira, preso desde outubro, foi acordado e levado para a “sala dos suplícios”, na prisão da Base Aérea de Natal, em Parnamirim. Ao entrar, viu aquele moço sentado no chão, com o rosto inchado, “papudo”, os olhos vermelhos, os cabelos raspados na cabeça e nas sobrancelhas. Antes de tomar consciência da situação, o major Roberto Hipólito, subcomandante da base, gritou: “Conhece esse filho da puta?” Poty respondeu que nunca tinha visto. O major, então, virou-se para o moço e disse: “Filho da puta, diga o seu nome!” O jovem falou: “Luiz Maranhão Filho”. Lembra Poty que, mesmo após essa confissão, foi difícil reconhecer naquele homem disforme pelas pancadas recebidas no rosto o jovem alegre que possuía a mais sonora risada da cidade. Foram colocados, depois, na mesma cela, onde já se encontravam outros…”.
“(...) No mesmo dia foi à presença do coronel Koeler, comandante da Base, que ordenara sua prisão. Exigia o coronel Koeler “explicações” sobre várias reportagens publicadas na Folha do Povo do Recife, sobre torturas a presos políticos em Parnamirim. No dia seguinte foi levado, à meia-noite, para o que chamavam uma “sessão espírita”, sendo então espancado e torturado por um grupo de oito oficiais e um sargento. Nessa noite, foi espancado até clarear o dia, sendo colocado despido com fortes refletores sobre o rosto. Espancaram-no brutalmente a cassetetes de borracha em todo o corpo, inclusive na cabeça e garganta. Foi esmurrado no rosto até sangrar pelo nariz e pela boca. Essas torturas prosseguiram durante quinze dias. Por ordem do major Hipólito foi metido em camisa de força e amarrado. Depois de assim imobilizado, teve o saco escrotal amarrado a um cordão, que era puxado pelo tenente Câmara e ao qual o mesmo oficial pendurou um peso de madeira. Pelo major Hipólito foi espancado a cassetetes até cair sem sentidos, após o que era levantado do chão pelos cabelos. Teve, depois, a cabeça e sobrancelhas raspadas. Sofreu de parte dos tenentes Câmara e Correia Pinto, durante vários dias, torturas a golpes de jiu-jitsu, em consequência das quais seus braços ficaram deformados pelas inchações. Numa das noites de suplício, quando um oficial o segurava, o major Souza Mendes o espancava na cabeça, o sargento Correia o espancava na planta dos pés, e o tenente Câmara queimava seu corpo com um cigarro aceso. Em consequência o seu corpo ficou cheio de queimaduras e bolhas, a ponto de os soldados da guarda se mostrarem atemorizados, imaginando tratar-se de varíola. Durante os espancamentos foi obrigado a ingerir doses de óleo de rícino. Sentado diante de uma mesa, teve os braços imobilizados por um oficial, que se postou sobre seus braços. Isso serviu para que o tenente Câmara, rindo sadicamente, introduzisse agulhas em suas unhas, das quais várias apodreceram. Na cela, era constantemente espancado a pontapés nas costelas e nas pernas. Também batiam violentamente a sua cabeça nas paredes de cimento-armado, ficando em estado de delírio…”
Quando eu era ainda mais criança,
Praticava os meus pensos tortos que só!
Pensava que poesia só existia agarrada aos livros.
Que poesia legislava estar escrita.
Gastei infância inocentando que poetas eram quais artistas de televisão,
Seres inatingíveis, importantes que estavam com lápis e papel.
Matutava-os ocupados em lugares longínquos e insabidos.
Entortadamente, lesava que eles se resguardavam hibernando inspiração.
Mas o tempo escorreu e resplandeceu-me que poesia mora no mundo,
Que urge sentidos para compô-las.
Se a Philos diz que vemos o que somos, logo sentimos a poesia onde estamos.
Então desapareci na mata que emoldurava a cidade,
Ali pratiquei os meus sentimentos,
Vi um tapete bordado de folhas secas.
Cheirei das flores da ceiba que me levitava,
Degustei o filete de mel que escorria do tronco,
Toquei o azul de uma arara...
Confesso que chorei...
Fiquei todo emocionado de poesia.
Um índigena, agachado que estava junto a ceiba, me perguntou:
Ei, menino, chorando ai no corixo por quê? Você não é chuva para chorar!
Enlouqueci!
Entrei para fora daquilo num raio instante,
Tudo ali brotava poesia.
Voltei pra casa com um cesto cheio,
Descobri que poesia realmente mora no mundo...
Como não carece ornitologia,
mas olhogia para mestrado em pássaros, desperdiço os meus vagos à passarada,
Amo-os como quem ama a mãe.
E digo-vos: jamais passará pássaro
sem que os meus vejos se desvejam deles.
Sem que os meus amores se
desamem deles.
A natureza é antídoto,
livradora dos males todos.
Sou dos que menosprezam
compromissos em entretimento da vida silvestre.
Contemplá-la é reinar-se de
poesia,
Um adentro em poemas.
Dia desses, aos primeiros
fios de sol, acordou-me o zumbido de um sem-fim de abelhas voejando a
pitangueira em buquê.
Gastei ali, abençoando-me
delas uma meia hora... juro!
Hoje, dei-me com uma dúzia de
anus brancos às 7 em ponto.
Mais andavam que voavam.
Mansos como criados na mão.
Íntimos o bastante para
fisgar insetos sob o meu sapato.
Não sei o porquê da
intimidade, mas o bando era amigável e despreocupou-se de mim.
Encanta-me a singularidade
dos anus, plenamente os brancos.
Anoto-os muito simpáticos e
bonitos.
Pássaro grande, exótico, despenteado,
listrado, rabo comprido e olhos grandes da cor de mel.
Nas matas eles praticam
repasto como padres.
São gulosos com pererecas,
pássaros novinhos, lagartos, camundongos e miudezas de rios.
Erradicados nas praças,
merendam frutas, bagas, coquinhos, sementes e insetos.
Contemplo-os sempre banqueteando-se
de um cupinzeiro.
Anus fazem freguezia em olho
de coqueiros e palmeiras, onde espenicam as palhas e devoram rango de insetos
miúdos e até catitas.
Expertos, arquitetam ninhos
em altos três vezes superior que um homem.
Os ovos são verdes,
aclarinhados de azuis com uma camada calcária em relevo branco.
É comum ninhos com duas ou
três anus chocando numa irmandade de comadres íntimas.
Essa é a tradução para suas
anchas mansões dependuradas.
Com certos pássaros maiores
exercem amizade de vizinho.
Tem bom compadrio com bem-te-vi,
anu-preto, sabiá e outros pássaros.
Exímios poliglotas, proseiam
como diplomatas e embaixadores,
Praticam excelentes relações
internacionais com outras espécies.
Essa é a poesia amanhecida de
hoje, sentida e catada na praça.
Mas julgo providencial esclarecer que contemplo
os anus desde a minha verde infância,
Por isso florestou essa
poética divinizada aos anus.
Do contrário passariam anos, e
nada eu saberia sobre os anus.
Por isso é verdade e dou fé.
Certa vez Benthoven se apresentaria num dos mais imponentes e sofisticados teatros de Berlin (Alemanha). Então ele recebeu um bilhete em que se lia:
“Toque tal peça. Barão Fulano de Tal (proprietário das maiores plantações de uvas locais, donos de cinco castelos, terras e animais a se perder de vista)”.
Beethoven leu e escreveu n’outro bilhete:
“Não vou tocar.
Ludwig Van Beenthoven (proprietário de um cérebro)”.
Coreto originalda praça Augusto Severo, há décadas demolido.
Quando eu era criança, havia um coreto no centro da praça, ao lado da minha casa, no Mato Grosso do Sul. Acontecia de tudo naquele espaço, desde atividades escolares e políticas às solenidades religiosas. Lembro-me que durante a Ditadura Militar aconteciam as solenidades do “Fogo Simbólico", e fui um dos inúmeros alunos que ficavam de cara para cima, sem poder se mexer, guardando aquele archote quente como o inferno, enquanto a bandeira era arriada. Um dos lados da face ficava todo vermelho, por causa da aproximação da tocha. Mas tinha que ser assim.
Coreto é um cartão postal de qualquer cidade. Os lugares de gente civilizada e respeitadora da História ainda conservam os seus coretos. Em João Pessoa, na Paraíba, por exemplo, dentre alguns, há um coreto belíssimo na parte histórica da capital. É denominado “Pavilhão do Chá”. Projetado pelo arquiteto italiano Paschoal Fiorillo, esse Coreto, que fica da Praça Venâncio Neiva apresenta forma circular, com um entablamento rebuscado com ricos adornos em argamassa, refletindo estilo eclético, com marcantes características neoclássicas. Ali a sociedade joãopessoense passava horas conversando, tomando chá com “raivinha” ao lado de deliciosas companhias.
Dia desses, conversando com o professor Jorge Januário de Carvalho, falei sobre a possibilidade de construírem um coreto no centro da praça Coronel José de Araújo, e dentro desse coreto ser instalada uma escultura de Nísia Floresta, em bronze, em tamanho natural (do tipo dessas que estão na moda, cujas pessoas interagem com elas, abraçando-as e fazendo poses para fotografias). Foi uma sugestão. Jorge Januário achou fantástico. Espero que ele leve adiante a ideia.
Já imaginou um coreto daqueles típicos do século XIX, em estilo francês (em homenagem ao país que tão bem acolheu Nísia Floresta) e com a escultura dela no interior. A escultura pode ser baseada naquela fotografia em que Nísia Floresta aparece de pé, ao lado de um pilar, segurando um livro. Seria uma atração turística diferenciada, já que por ser uma peça de interação com as pessoas, já imaginou quantas fotografias apareceriam mundo afora de pessoas clicadas “ao lado de Nísia Floresta”?
Coreto é lugar de sarau de poesia, de música, de literatura, dança, circo, teatro, convocações populares. Até os loucos poderiam usá-lo para os seus discursos.
Natal, cidade do “já teve”, já teve belos coretos, mas não houve quem chamasse a atenção das autoridades sem visão para preservá-los. Viraram pó. O mais lindo deles ficava na praça Augusto Severo.
Essa postagem traz fotografias de coretos pelo mundo inteiro. Fica a reflexão sobre a importância de se preservar não apenas os coretos, mas o patrimônio histórico em geral. Se bem que se as autoridades quiserem, podem resgatar essa tradição, afinal modelos e inspiração não faltam.