ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sábado, 9 de agosto de 2025

REQUALIFICAÇÃO DO CEMITÉRIO FREI HERCULANO, UM ATO DE REPARAÇÃO À HISTÓRIA DO MUNICÍPIO DE NÍSIA FLORESTA

Fotografia: Jorge Januário de Carvalho

No dia 31 de julho de 2025, o município de Nísia Floresta foi palco de um momento de grande relevância cultural e histórica, representado pelo "Ato de entrega da requalificação do Cemitério Frei Herculano", uma iniciativa encabeçada pela Secretaria Municipal de Cultura, sob os auspícios da Prefeitura Municipal de Nísia Floresta. O evento não apenas simboliza a valorização do patrimônio local, mas reafirma o compromisso de resgatar e preservar a memória de uma cidade que, ao longo de sua história, foi palco de figuras e acontecimentos de grande relevância para o Brasil e o mundo. É um ato de reparação à História e à Memória do município.

O Cemitério Público de Nísia Floresta é um museu vivo a céu aberto, e representa uma verdadeira galeria de nomes que marcaram a história do município e do país. Entre seus sepulcros repousam personalidades como Ferreira Nobre, Trajano Leocádio de Medeiros Murta, Roque Maranhão — um dos primeiros prefeitos de Papari —, além de figuras de destaque como Coronel José Joaquim de Carvalho e Araújo, o primeiro presidente da então intendência de Papary e familiares do “Cavaleiro da Roza”. Estes e outros nomes, que carregam a história de uma comunidade, representam a essência de uma memória coletiva que precisa ser preservada e valorizada.


A requalificação do espaço, portanto, é uma iniciativa que transcende a simples restauração arquitetônica; ela simboliza o reconhecimento de que o patrimônio histórico é uma ponte viva entre o passado e o presente. É uma aula viva de História e Memória. Como afirmou o historiador Sérgio Buarque de Holanda, “a história de uma nação é feita de memórias que, quando preservadas, fortalecem a identidade e o sentimento de pertencimento de seu povo”. Assim, o cuidado com o cemitério é uma forma de honrar esses nomes e suas histórias, garantindo que suas memórias não se percam no esquecimento.

A propósito desse relevante fato, quantas e quantas pessoas que um dia tiveram o gesto amoroso de me contar suas histórias a partir de 1992, quando andei por toda a Nísia Floresta, coletando histórias e memórias, e desse modo pude salvar pérolas da História do Município de Nísia Floresta, graças a essas pessoas que hoje dormem nesse espaço tão bem cuidado para as quais externo meu respeito e gratidão.


Túmulo de Luiz França Leocádio de Medeiros Murta (1862), filho do coronel Trajano Leocádio de Medeiros Murta que também está enterrado no local. Sua história está nesse link:
NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Trajano Leocádio de Medeiros Murta, o "Velho Trajano de Engenho Pavilhão"
Fotografia: Jorge Januário de Carvalho

Destaco, ainda, a dedicação de pessoas que, ao longo dos anos, fizeram a diferença na preservação da história local. Como o professor Jorge Januário de Carvalho, merecedor de estar no Templo de Zeus da Olímpia nisiaflorestense. Homem que, há cinquenta anos dedica-se voluntariamente ao cuidado da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, tratando o acervo como uma extensão de sua própria casa. E esse gesto, hoje, como secretário municipal de cultura, com certeza se estenderá a outros elementos e outras atividades culturais de Nísia Floresta. Jorge Januário é, não apenas na minha impressão, mas na impressão de toda pessoa justa, um baluarte da memória, exemplo de cidadão nisiaflorestense preocupado com a preservação do patrimônio local.

Túmulo de Luiz França Leocádio de Medeiros Murta (1862), filho do coronel Trajano Leocádio de Medeiros Murta que também está enterrado no local. Sua história está nesse link:
NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Trajano Leocádio de Medeiros Murta, o "Velho Trajano de Engenho Pavilhão"
Fotografias: Jorge Januário de Carvalho

O Cemitério Frei Herculano, além de sua importância histórica, é um espetáculo arquitetônico que impressiona por sua fachada e pelos túmulos antiquíssimos, alguns com quase duzentos anos de existência. Sua arquitetura remete às tradições e ao estilo de uma época em que a arte funerária tinha um papel de destaque na expressão cultural e religiosa de uma comunidade.

Nísia Floresta, como cidade que guarda pérolas preciosas — desde o túmulo da própria Nísia Floresta, intelectual de renome internacional, até o monumento dedicado à sua memória, passando pela Casa de Pedra de Piranji, datada de 1570 — demonstra, através de sua história, uma riqueza cultural e patrimonial que precisa ser continuamente reconhecida e preservada.

Capela (erguida em1954) Fotografias: Jorge Januário de Carvalho

A cidade foi também palco do surgimento da Campanha da Fraternidade, há mais de meio século, destacando-se o ato pioneiro das irmãs vigárias –únicas no mundo - e que marcaram a história religiosa e social do município, sendo um exemplo de dedicação e amor ao próximo. Essas ações e memórias reforçam a importância de Nísia Floresta como um verdadeiro patrimônio vivo, cuja história deve ser preservada com respeito, cuidado e orgulho por toda a sociedade.

Detalhe do túmulo do Cel. José Joaquim de Carvalho e Araújo, onde se observa o primor e o zelo nessa iniciativa - Fotografias: Jorge Januário de Carvalho

Ao celebrar a requalificação do Cemitério Frei Herculano, reconheço que quem preserva a história e a memória de seu povo está, na essência, cultivando a identidade e o legado de uma nação. Em tempos de tantas mudanças e desafios, é fundamental que gestores públicos, agentes culturais e toda a comunidade se unam na missão de proteger esses símbolos de nossa história, garantindo que as futuras gerações possam conhecer, valorizar e se inspirar na riqueza de suas raízes.

Parabenizo o prefeito Gustavo da Silva Santos pelo empenho e visão de valorizar o patrimônio cultural de Nísia Floresta, demonstrando que o respeito à história é uma prioridade que deve permear todas as ações de uma gestão comprometida com o desenvolvimento sustentável e cultural de seu povo. Que este momento seja um marco de renovação do compromisso de todos com a memória do município de Nísia Floresta, reafirmando que a preservação do patrimônio histórico é uma responsabilidade de todos nós, essenciais para fortalecer a identidade e orgulho do povo nisiaflorestense.

Parabéns ao povo pelo precioso presente!

A IMPORTÂNCIA DE ESTRATÉGIAS LEGAIS PARA A PRESERVAÇÃO DA CULTURA POPULAR BRASILEIRA


A cultura popular brasileira é um patrimônio que não morrerá nunca. Isso é óbvio, mas não garante que em diversos municípios do Brasil já não se veem mais tradições que eram comuns no passado. As autoridades e pessoas comuns - que deveriam ser baluartes dessa causa - se descuidaram ou não se importaram, e hoje se somam àqueles que falam das tradições usando verbos do passado: "antigamente havia a festa tal, antigamente existia a dança folclórica tal, antigamente as pessoas faziam muito a brincadeira tal...". Isso é preocupante e deve mudar.

A cultura popular brasileira é um patrimônio vivo, que reflete a diversidade, a história e a alma de cada região do nosso imenso país. No entanto, em muitos municípios, essa riqueza vem sendo dilapidada, esquecida ou até mesmo abandonada, resultando na perda de tradições, danças, estilos musicais e manifestações que fazem parte da identidade de comunidades inteiras. Essa situação não é apenas uma questão de nostalgia, mas uma ameaça à essência cultural que nos diferencia e nos enriquece enquanto nação. 

Diante desse cenário, é fundamental que as instituições públicas, especialmente as secretarias de educação e de cultura, assumam um papel ativo na formulação de estratégias legais que promovam a preservação e revitalização da cultura popular. Uma das ações mais eficazes seria a parceria entre essas secretarias e as Câmaras Municipais para a criação de leis específicas, que garantam a valorização da cultura em todos os espaços públicos e privados.

Por exemplo, uma legislação que obrigue a realização de apresentações culturais — como danças folclóricas, teatro, balé, quintetos musicais, entre outros — na abertura de eventos civis e militares, ajudaria a inserir a cultura regional de forma natural e constante na rotina da comunidade. Além disso, leis que incentivem a realização de festivais, feiras culturais e atividades educativas voltadas à tradição local podem fortalecer o sentimento de pertencimento e orgulho pela identidade regional.

Infelizmente, há municípios onde as manifestações culturais tradicionais já se perderam, seja pela ausência de políticas de preservação ou pela priorização de interesses que valorizam apenas o que vem de fora. Essa perda de identidade é uma anomalia. Vejo-a como um crime contra a cultura, pois faz parte de um povo, portanto, o mínimo que deve ser feito, é investigar o passado e pelo menos fazer releituras (de uma dança antiga, por exemplo), revitalizando e trazendo aos palcos e praças o que se perdeu. É possível. É só querer.

Resgatar o que foi perdido ou preservar as expressões culturais antigas não é uma questão de congelar o passado, mas de garantir que a essência cultural de cada lugar seja reconhecida, respeitada e transmitida às novas gerações. Afinal, a cultura é o fio que conecta o passado ao presente, e sua preservação é uma responsabilidade de todos nós. Falamos da identidade, da impressão digital de um povo.

As autoridades públicas têm, em primeiro lugar, o dever moral de liderar essa causa, atuando como principais defensores da cultura local. Os professores também desempenham papel fundamental na preservação e revitalização dessas manifestações dentro das escolas, transmitindo às crianças e jovens o valor de suas tradições. Além disso, órgãos e entidades que fomentam a cultura devem assumir uma postura proativa, promovendo ações de incentivo, capacitação e valorização das expressões culturais regionais.

Infelizmente, muitas secretarias municipais e estaduais ainda demonstram uma negligência preocupante com a cultura de suas regiões, priorizando ações que valorizam o que vem de fora, muitas vezes ignorando o potencial cultural local. Essa postura precisa ser revista, pois fortalecer a cultura regional é fortalecer a identidade de cada comunidade, promovendo o orgulho e a autoestima de seus habitantes.

Em suma, a criação de leis que incentivem a valorização da cultura popular, aliada a uma atuação conjunta entre secretarias, câmaras e a sociedade civil, é essencial para que o Brasil preserve sua diversidade cultural. Não se trata de engessar o passado, mas de garantir que suas raízes permaneçam vivas, pulsantes e presentes no cotidiano de todos nós. Afinal, nossa cultura é o maior patrimônio que temos para construir um futuro mais rico, plural e autêntico.


sexta-feira, 8 de agosto de 2025

PADRE JOSÉ MANUEL DOS SANTOS BRÍGIDO: O AUTOR DA LEI QUE CRIOU A VILA IMPERIAL DE PAPARY...


Nada começa do nada. Quando um fato se deflagra há bastidores anteriores, há nuanças históricas que muitas vezes ficam sepultadas para sempre, pincipalmente se tratam de projetos de lei que dão origem a algo. Quem é nisiaflorestense sabe que Resolução Provincial nº 242, de 18 de fevereiro de 1852, foi sancionada pelo Presidente da Província, Dr. José Joaquim da Cunha, que desmembrou a povoação de Papary do município de São José de Mipibu e a elevou à categoria de vila sob a denominação oficial de Vila Imperial de Papary. Todos conhecem a lei e o nome do Presidente da Província à época. Mas quem é o autor da lei? Quem batalhou para que a vila fosse emancipada?

O município de Nísia Floresta tem duas peculiaridades similares nesse sentido. Já contei aqui sobre os bastidores que deflagraram a mudança do nome de Papary para Nísia Floresta em 1948. A história é muito interessante e vale a pena conhecê-la. Para quem tiver curiosidade, eis o link: NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Acta Noturna - Como se deu a mudança do nome do município de Papary para Nísia Floresta em 1948... É fato, embora fosse desconhecida aqté aquela data da publicação, principalmente aos nisiaflorestenses. Digo isso porque nunca ouvi de ninguém dali tal informação.

Mas o assunto de hoje é sobre a criação da Vila Imperial de Papary e o autor da ideia. O homem que construiu a ideia de autonomia política de Papary. Um vigário e deputado provincial, articulador atento das necessidades da população e responsável pela emancipação política da vila.

Entre os diversos sacerdotes que passaram pela antiga Freguesia de Nossa Senhora do Ó de Papary, poucos exerceram influência tão profunda e duradoura sobre os destinos da comunidade quanto o Padre José Manuel dos Santos Brígido. Sua trajetória transcende os limites do exercício religioso e o coloca entre os principais personagens da história política e administrativa do atual município de Nísia Floresta. Se muitos vigários deixaram sua marca na vida espiritual do povo, Padre Brígido destacou-se por contribuir diretamente para a transformação institucional da localidade, tornando-se uma figura central no processo que culminou com a emancipação política de Papary e sua elevação à categoria de vila.

Sua atuação à frente da freguesia ocorreu entre os anos de 1843 e 1855, período marcado por importantes mudanças na organização territorial e administrativa da Província do Rio Grande do Norte. Ao mesmo tempo em que desempenhava as funções sacerdotais inerentes ao cargo de vigário, Padre José Manuel dos Santos Brígido também participava da vida política provincial, exercendo o mandato de Deputado Provincial, cargo para o qual tomou assento na sessão de 21 de outubro de 1847. Essa dupla condição de líder religioso e representante político conferia-lhe uma posição privilegiada para compreender as necessidades da população e atuar em favor das demandas da região.

Para compreender a dimensão de sua importância, é necessário recordar o contexto da época. Durante o período imperial, os municípios possuíam extensões territoriais enormes e frequentemente apresentavam dificuldades administrativas. A antiga Papary encontrava-se subordinada à cidade de São José de Mipibu, cuja jurisdição abrangia vastas áreas do litoral e do agreste potiguar. A distância entre as localidades, a precariedade das vias de comunicação e as limitações dos serviços públicos tornavam a administração extremamente complexa. A própria Igreja enfrentava obstáculos para atender adequadamente às populações espalhadas por um território tão amplo. Até hoje há certa dificuldade nesse sentido em Nísia Floresta. Imagine quando pertencia à São josé de Mipibu.

Foi nesse cenário que Padre Brígido percebeu a necessidade de uma reorganização administrativa. Diferentemente de muitos movimentos emancipacionistas surgidos em outras regiões do Brasil, frequentemente motivados por disputas entre grupos oligárquicos ou interesses econômicos particulares, a proposta defendida pelo sacerdote possuía forte componente prático e administrativo. Sua experiência pastoral permitia-lhe testemunhar diariamente as dificuldades enfrentadas pelos habitantes da freguesia. Como conhecedor da realidade local, compreendeu que a criação de um município autônomo permitiria maior eficiência administrativa, fortalecimento institucional e melhor atendimento às necessidades da população.

Graças à sua influência política e à sua atuação junto à Assembleia Provincial, foi elaborado o projeto que resultou na criação da Vila Imperial de Papary. Por essa razão, muitos estudiosos consideram Padre José Manuel dos Santos Brígido o verdadeiro patrono, padrinho ou fundador político do município. Embora seu nome nem sempre receba o destaque merecido nas narrativas históricas locais, é difícil imaginar a emancipação de Papary sem sua participação decisiva.

O processo concretizou-se por meio da Resolução Provincial nº 242, de 18 de fevereiro de 1852, sancionada pelo Presidente da Província, Dr. José Joaquim da Cunha, que desmembrou a povoação de Papary do município de São José de Mipibu e a elevou à categoria de vila sob a denominação oficial de Vila Imperial de Papary. A medida representou um marco na história regional. Pela primeira vez, a comunidade passava a possuir administração própria, autonomia política e representação institucional independente.

A instalação da nova vila ocorreu em 7 de janeiro de 1853, transformando-se em um dos momentos mais festivos da história local. Os vereadores eleitos organizaram uma grande solenidade na antiga Rua do Fogo para recepcionar o Tenente-Coronel Antônio Basílio Ribeiro Dantas, então Presidente da câmara Municipal de São José de Mipibu. Os relatos da época registram um clima de entusiasmo popular. Houve fogos de artif´cio, girândolas e diversas manifestações comemorativas. A população compreendia que estava testemunhando o nascimento político de uma nova municipalidade.

Após a abertura oficial da sessão, procedeu-se à chamada dos vereadores e ao juramento das autoridades eleitas, seguindo-se a instalação formal da Câmara Municipal da Vila Imperial de Papary. A ata foi lavrada pelo escrivão Alexandre Francisco de Sales e Silva, oriundo de São José de Mipibu, sendo assinada pelos vereadores e autoridades presentes. Entre os primeiros dirigentes da nova vila figuravam importantes representantes da sociedade local: Tenente-Coronel Urbano Égide da Silva Costa Gondim Carneiro de Albuquerque, Luís Bezerra Augusto da Trindade, Francisco de Araújo Correia, Francisco Fernandes Lima, Francisco Lopes Galvão, Lourenço Joaquim de Barros e Antônio Maximiano Cruz.

A criação do município determinou que todo o território pertencente à Freguesia de Nossa Senhora do Ó de Papary passasse a integrar a nova unidade administrativa. Nos anos seguintes, novas medidas legais foram necessárias para consolidar sua estrutura institucional. A Resolução nº 272, de 14 de abril de 1853, estabeleceu que o patrimônio pertencente à Câmara Municipal de São José de Mipibu e situado dentro dos limites da nova vila passaria a servir de patrimônio à Câmara Municipal de Papary. Em seguida, a Lei nº 288, de 11 de agosto de 1854, autorizou a liberação de um conto de réis para a abertura da Barra de Camoropim, obra considerada importante para a economia e para a circulação de pessoas e mercadorias na região. Já a Resolução nº 234, de 10 de setembro de 1855, redefiniu a divisão patrimonial entre São José de Mipibu e Papary, determinando que determinados bens fossem repartidos em partes iguais entre as duas municipalidades.

Essas medidas demonstram que a emancipação não foi um ato isolado, mas um processo gradual de construção institucional. Padre Brígido acompanhou de perto essa fase decisiva, contribuindo para a consolidação administrativa da nova vila e para a organização de suas estruturas políticas.

Um dos aspectos mais notáveis de sua trajetória foi a forma como exerceu o poder. Em uma época marcada pela influênci dos grandes proprietários rurais, dos coronéis e das famílias dominantes, o sacerdote possuía prestígio suficiente para assumir protagonismo absoluto na política local. Poderia ter indicado diretamente os dirigentes da nova vila ou utilizado sua posição para ampliar sua influência pessoal. No entanto, não agiu dessa forma. Suaatuação sugere que seu principal objetivoera assegurar melhores condições administrativas para a população e não construir uma plataforma de poder pessoal.

No Brasil oitocentista, os sacerdotes figuravam entre os indivíduos mais respeitados da sociedade. Eram frequentemente os únicos homens instruídos de determinadas localidades e desempenhavam funções que ultrapassavam o âmbito religioso. Atuavam como conselheiros, educadores, mediadores de conflitos e, muitas vezes, agentes políticos. O caso de padre José Manuel dos Santos Br´gido encaixa-se perfeitamente nesse contexto histórico. Sua influência derivava não apenas de seu mandato parlamentar, mass também da confiança que inspirava enquanto líder espiritual da comunidade.

Sua contribuição torna-se ainda mais significativa quando se considera a importância histórica de Papary. Foi nessa terra que nasceu Dionísia Gonçalves Pinto, a futura Nísia Floresta Brasileira Augusta, uma das maiores intelectuais do Brasil do século XIX. A emancipação da vila representou um passo importante no fortalecimento das instituições locais e na construção da identidade política do município que, décadas mais tarde, receberia o nome da ilustre escritora.

Embora muitas informações biográficas sobre Padre José Manuel dos Santos Brígido com certeza permaneçam dispersas em documentos paroquiais, registros legislativos e fontes históricas pouco conhecidas, sua atuação encontra-se profundamente associada a um dos acontecimentos mais importantes da história do município: a criação da Vila Imperial de Papary. Mais do que um simples vig´rio ou deputado provincial, ele foi um articulador político, um observador atento das necessidades da população e um dos responsáveis pela reorganização administrativa de uma região que buscava construir seu próprio destino.

Por tudo isso, Padre José Manuel dos Santos Brígido deve ser lembrado não apenas como sacerdote da Freguesia de Nossa Senhora do Ó, mas como um dos principais construtores da autonomia política de Papary. Sua obra permanece viva na própria existência do município que ajudou a criar, constituindo um legado que atravessa gerações e ocupa lugar de destaque na memória histórica de Nísia Floresta.

Referências Bibliogr´ficas

FREIRE, Luís Carlos. Os Sacerdotes de Papary num Contexto Histórico. Blog Nísia Floresta por Luís Carlos Freire.

FREIRE, Luís Carlos. Pesquisas e levantamentos sobre a história da antiga Papari e da Paróquia de Nossa Senhora do Ó.

RIO GRANDE DO NORTE. Resolução Provincial nº 242, de 18 de fevereiro de 1852.

RIO GRANDE DO NORTE. Resolução Provincial nº 272, de 14 de abril de 1853.

RIO GRANDE DO NORTE. Lei Provincial nº 288, de 11 de agosto de 1854.

RIO GRANDE DO NORTE. Resolução Provincial nº 234, de 10 de setembro de 1855.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

ESTE MÊS DE AGOSTO (HÉLIO SEREJO) - FOLCLORE DO MATO GROSSO DO SUL...

 

ESTE MÊS DE AGOSTO (HÉLIO SEREJO).

O mês que não é bom para muita coisa, na observação sadia dos folclórogos: fazer viagem de negócios, plantar planta de semente escura, cruzar, encruzilhada depois das seis horas da tarde, fazer jogo de baralho tendo mulher como parceira, contar conta de rosário com os olhos abertos, discutir com negro macho, noivar na primeira quinzena, brincar de roda, matar porco de chiqueiro e pedir dinheiro emprestado para pagar contas.

Isso tudo é do folclore e das crendices, que se explica assim: viagem para negócio é deliberação condenável, isto porque derno não quer estar em seu caminho, pois esse mês é todo seu; plantando-se semente de cor escura nunca dá plantação compensadora, é paiol que fica vazio para tristeza da família; não se deve “cruzar encruzilhada” na hora do “anoitecendo”, perigo topar satanás que nesse momento, gosta de pregar peçanos descuidados e abelhudos; jogo de baralho, no mês de agosto, tendo mulher como parceira, o “azarão” vem para cima do macho, porque é o mês mais perigoso das mulheres; pra se contar contas do rosário – é prática sagrada milenar – os olhos devem permanecer cerrados, porque, assim, o pensamento vai até os “guardiões do espaço”, morada sublime dos que nos protegem dia e noite; negro homem, no mês, têm sangue “apurado”, isto é, sangue que “esquenta à toa”, não sendo nada discussão com o mesmo, porque o “coisa ruim” atua o mesmo, gerando briga de morte; noivado em agosto, de “um a quinze”, não prenuncia felicidade, pois, na contagem a era antiga desse mês de tradição universal comprovam – são: três, sete, onze, treze; demônio, ou o “irmão mais velho”, o tinhoso Mefistófeles, ficam apavorados com o vermelho, tanto seja o vestidor homem, mulher ou criança. É que a cor berrante – sangue em pano – destroça os sentidos das feras, fazendo brotar, a qualquer hora do dia ou da noite, o dia é fúrias que estão acumuladas no corpo satânico; não se deve batizar neguinho, seja macho ou fêmea, porque, com o tempo, o negrume do corpo fica muito mais negro do que o negrume da noite; o brinquedo “brincar de roda”, que vem dos tempos imemoriais, não traz saúde, nem alimenta o corpo, porque o rodar constante roda a cabeça, amolecendo os miolos, transformando o “rodante” num “gira mundo”, inconstante e desatinado; matar “porco de chiqueiro”, em agosto, é um ato que “pode chamar desgraça”, e “desgraça” das brabas. E qual a causa, no ótica folclórica? É que porco de chiqueiro engorda bem e com “sustança” com a força do vento do mês que “aumenta a fome e faz a gordura crescer”.

Quanto à “desgraça”, é que o “mal da fome” pode arruinar a família, com ato da matança na ocasião condenada; não pense nunca em “pedir dinheiro emprestado” neste mês, para pagar suas contas, pois, se o fizer, o “ganho futuro” enchafurdará, no lodo, a paz familiar

Agosto – não há quem tenha conhecimento disto – é mês de cachorro louco, mês que atassalha os nervos, ante o vento irritador, mês de chirriar agourento da coruja, do cantar rouquenho da siriema na chaca, da ronda desesperada do corvo faminto e do passar do caminhante sem destino.

Quando, em agosto, o vento, cabuloso e enervante vem do Nascente, já se sabe que a caníncula vai cozinhar as folhas da lixeira ereta, rachar o chão, e secar a orla dos brejos. É quando os pássaros procuram outro “viveiro”, porque o solão brabo matou, ali, o que servia para encher, fartamente, o papo.

O banhadão, com isso se enche de tristeza, porque a desolação encampou a paisagem que era arrebatadora e festiva.

Mês de agosto está nas páginas de valiosos livros do passado remoto. Foi superstição marcante na época caraveleiros. Chegou a mudar hábitos de raças. Desnorteou exércitos em movimentação de guerra. Dividiu reinos. Nunca teve dono. Pertence à humanidade. SEREJO, Hélio. Balaio de bugre: edição especial. Tupã, SP: Gráfica e Editorial Singral, 1992.

 UM ADENDO...

Quando criança ouvia muito minha mãe, Maria José, dizer que "agosto é mês de cachorro louco". Por incrível que pareça surgiam cachorros "loucos" em Bataguassu. Obviamente que estavam acometidos de 'raiva'. Mas o curioso da história é ter-se a certeza de que tal mês traz cachorro louco. É mês de ventania constante, mês do diabo a quatro, e ninguém melhor para nos contar sobre as folcloridades do Mato-Grosso-do-Sul do que o nosso conterrâneo Hélio Serejo. Essa crônica acima é uma dentre o seu vasto balaio de bugre.

Como nos lembra o calendário cultural brasileiro, o mês de agosto é tradicionalmente associado ao folclore, e não por acaso. Desde os tempos coloniais, esse mês carrega consigo um imaginário negativo — reforçado por eventos históricos, climáticos e por narrativas orais. Hélio Serejo, com seu olhar arguto e profundo conhecimento das tradições regionais, compõe um verdadeiro tratado poético das crendices do interior, muitas das quais ecoam em diversas partes do país.

O texto é um desfile de superstições e prescrições folclóricas: não cruzar encruzilhadas, evitar o jogo de baralho com mulheres, não plantar sementes escuras, não noivar na primeira quinzena... Todas essas interdições revelam um universo simbólico rico e estruturado, no qual a vida cotidiana está entrelaçada com o sagrado, o profano e o misterioso. Há um código cultural implícito que visa preservar o equilíbrio com as forças invisíveis que regem a natureza e o destino humano. 

Além disso, a linguagem — ora popular, ora elaborada — confere força literária ao texto. Palavras como “derno”, “tinhoso”, “sustança”, “enchafurdar”, “gira-mundo”, “anoitecendo”, “siriema”, “banhadão” — revelam um compromisso de Serejo com a oralidade e com a manutenção do vocabulário regional, ao mesmo tempo em que constroem imagens poéticas que dialogam com o real e o fantástico.

O uso da linguagem popular — com suas inflexões, neologismos, metáforas e imagens — é um dos grandes méritos do texto. Hélio Serejo não escreve sobre o povo; ele escreve como o povo, resgatando o seu modo de falar, de crer, de narrar o mundo. Essa opção estilística não é mera reprodução folclórica: é um gesto de valorização da cultura oral como forma legítima de conhecimento e de expressão estética.

O que poderia parecer, à primeira vista, apenas uma coleção de crendices, revela-se, na verdade, uma estrutura simbólica complexa. Cada interdição, cada “não fazer” tem uma razão de ser, e, mais ainda, está ancorado em percepções sensíveis da realidade: o vento, o calor, o comportamento dos animais, a colheita, a doença, o azar. Assim, o texto opera entre o mítico e o empírico, entre o religioso e o ecológico, evidenciando como o povo interpreta e responde ao ambiente que o cerca.

Hélio Serejo (1908–1993) é um dos maiores expoentes da cultura e da memória popular do Centro-Oeste brasileiro, sobretudo do atual estado do Mato Grosso do Sul. Seu legado literário, etnográfico e folclórico é de inestimável valor para a preservação das identidades regionais, frequentemente esquecidas nos discursos hegemônicos da cultura nacional. Escritor, pesquisador, cronista e memorialista, ele dedicou a vida à coleta, interpretação e divulgação das manifestações populares, especialmente aquelas ligadas ao sertão, ao Pantanal e aos povos ribeirinhos.

Obras como “Balaio de Bugre”, de onde foi extraído o texto citado, são exemplos notáveis de como a literatura pode ser ao mesmo tempo documento histórico, testemunho cultural e arte literária. Serejo nos convida a olhar para o Brasil profundo, para o “país real” que sobrevive nas falas, nos gestos, nas lendas e nas práticas do povo.

Em tempos de homogeneização cultural e apagamento das expressões locais, textos como este nos lembram da importância de valorizar o folclore não como algo ultrapassado ou supersticioso, mas como forma viva de conhecimento, de resistência e de identidade. As crendices aqui narradas não precisam ser interpretadas literalmente, mas simbólica e culturalmente, como respostas coletivas a medos ancestrais, como tentativas de dar sentido ao que é incerto — o clima, a sorte, a morte, o amor.

Celebrar o mês do folclore é, portanto, celebrar a alma popular do Brasil — e, com ela, vozes como a de Hélio Serejo, que souberam escutá-la, compreendê-la e eternizá-la em palavras.

A DESCONSTRUÇÃO DO SILENCIAMENTO: AMÉLIA DUARTE MACHADO...

Banner de Amélia Machado artisticamente construído para integrar o espetáculo

Em 1993, quando me transferi de São Paulo para a UFRN – e iniciei um trabalho de História Oral acerca de Cultura Popular, na região metropolitana de Natal, com destaque para os municípios de Nísia Floresta, São José de Mipibu e Parnamirim –, dei-me com uma pérola que instigou minha curiosidade.

Primeira postagem que fiz neste blog, em 2009, há 16 anos...

Ouvi a lenda sobre Amélia Duarte Machado, surgida entre Natal e Parnamirim, e que assombrou a infância de muitos. Até hoje ouço relatos de homens e mulheres cinquentões contando sobre o pavor que tinham quando passavam próximo ao Engenho Pitimbu, as matas de Passagem de Areia, terras que pertenciam a ela, bem como o horror que sentiam quando passavam próximos ao palácio onde Amélia residiu.

Publicação no blog em 2017

Então, senti a necessidade de uma reflexão crítica sobre a invisibilização histórica de Amélia Duarte Machado, mulher de atuação marcante em seu tempo, mas cuja trajetória foi obscurecida por narrativas difamatórias. Coincidentemente, eu já estudava a vida e a obra de Nísia Floresta, portanto comecei a fazer paralelos, pois, enquanto Amélia estava encoberta pela poeira da desconsagração, Nísia era louvada, embora merecidamente, mas que faltava consagrar Amélia ao panteão da história, tendo em vista sua significativa história.

Pela primeira vez a história real de Amélia Duarte Machado foi a público (Recorte do espetáculo "Nísia Floresta Brasileiras Augustas" - Dez.2024).

Passei anos estudando, ouvindo pessoas, reuni material e escrevi “Amélia Machado, uma mulher desconsagrada”, mas só publiquei em 2017. Resolvi romper com o silêncio historiográfico e denunciar os mecanismos de opressão simbólica, responsáveis pela marginalização da figura de Amélia e outras personalidades norte-rio-grandense. Meu estudo enfatiza a importância da revisão historiográfica e da restituição de protagonismos femininos apagados pela tradição patriarcal.

Espetáculo "Nísia Floresta Brasileiras Augustas", exibido dias 16 e 17 de dezembro/2025

A história oficial, muitas vezes moldada por valores patriarcais e interesses hegemônicos, tem silenciado inúmeras vozes femininas que ousaram transgredir normas sociais estabelecidas. Amélia Duarte Machado é uma dessas figuras. Embora tenha desempenhado um papel relevante em sua comunidade, foi alvo de um processo sistemático de deslegitimação, marcado por maledicências e pela construção de uma lenda que visava difamar sua imagem para negar – ou tentar – negar a sua capacidade intelectual e gestora.

Recorte do blog: 2017

Meu estudo, sem que eu imaginasse, findou sendo um marco na reabilitação histórica de Amélia Machado, pois até então não havia texto algum, nem na internet, nem obras publicadas reconhecendo o pioneirismo de Amélia Machado, inclusive tratando-a como a primeira empresária do Rio Grande do Norte. O que se ouvia e se lia era a fatídica lenda. A proposta foi inaugurar um movimento de justiça historiográfica ao reivindicar a memória e o legado de uma mulher até então excluída da narrativa oficial.

Espetáculo "Nísia Floresta Brasileiras Augustas", exibido dias 16 e 17 de dezembro/2025

No meu estudo abordei Amélia Duarte Machado como a mulher que, em determinado contexto social, ocupou espaços de poder e de influência, surpreendendo o pensamento patriarcal e machista de até então, o que se configurava como transgressor para os padrões conservadores da época. Sua postura firme, sua liberdade de pensamento e sua atuação ativa foram elementos que despertaram reações adversas por parte de setores que viam no seu comportamento uma ameaça à ordem estabelecida.

Outdoor do espetáculo "Nísia Floresta Brasileiras Augustas" (2024), com destaque para Amélia Duarte Machado

A resposta a essa transgressão foi a difamação. Por meio da construção de uma “lenda terrível”, conforme escrevi no blog, que forjou-se em torno dessa mulher notável e pioneira, transmutada numa imagem negativa e estigmatizante. Esse processo de difamação não apenas comprometeu sua reputação em vida, mas também a afastou dos registros históricos formais, reduzindo sua memória a boatos e preconceitos.


Foi nesse estudo escrito por mim que se encontrou o primeiro esforço consistente de revisão da narrativa sobre Amélia Duarte Machado. Ao intitulá-lo “Amélia Machado, uma mulher desconsagrada”, denunciei, desde o título, a injustiça histórica que pesa sobre a personagem. Quis, intencionalmente, que minha abordagem combinasse rigor investigativo com sensibilidade ética, resgatando a trajetória dela a partir de documentos, relatos e interpretações críticas, dissociando-a totalmente do fabulário local, pois dela nada se sabia além das fantasias.

Espetáculo "Nísia Floresta Brasileiras Augustas", exibido dias 16 e 17 de dezembro/2025

Reconfigurei a percepção pública sobre Amélia, apresentando-a não como um mito difamatório, mas como uma mulher de coragem, inteligência e autonomia. Nesse sentido, meu trabalho inaugurou uma nova perspectiva interpretativa, que se opôs frontalmente às versões tradicionais e misóginas. Mais do que um simples resgate biográfico, meu estudo representa um gesto político de reparação histórica. Poe essa razão sempre digo que precisamos revisar e reparar a história sempre.

Folder onde se observa a fotografia de Amélia Duarte Machado

Em um cenário ainda marcado pelo conservadorismo e pela naturalização de narrativas excludentes, posicionar-se em defesa da memória de uma mulher estigmatizada constitui um ato de ruptura com o silêncio cúmplice da história. Inclusive, em dezembro de 2024, escrevi um espetáculo intitulado “Nísia Floresta Brasileiras Augustas”, e quando alguém supunha que era um erro de gráfica, eu dizia: “não, as brasileiras augustas são as tantas mulheres injustiçadas e até mesmo, apedrejadas pelo machismo reinante, apesar de serem augustas brasileiras, portanto, ‘brasileiras augustas’ são essas mulheres em que lendas, calúnias e até equívocos tentaram desconsagrá-las”. Esse espetáculo foi ao público nos dias 13 e 14 de dezembro/24.


Ao apresentar a “nova” Amélia Duarte Machado ao Rio Grande do Norte, outrora desconsagrada pela tradição, eu quis que fosse encontrado no meu estudo um novo lugar na memória coletiva: o de uma pioneira injustiçada. O reconhecimento tardio de sua relevância social e simbólica é um convite à reavaliação crítica de outras tantas figuras femininas que, como ela, foram apagadas por um discurso histórico excludente, portanto o espetáculo a abordou com profusão, demoradamente.

E uma das experiências mais interessantes foi ouvir do público o agradecimento por terem tomado conhecimento de uma Amélia Duarte que eles desconheciam e passaram a sentir orgulho. Ela, inclusive, descansava na Fazenda Pitimbu, em Parnamirim, e seus convescotes eram na lagoa Parnamirim, como era chamado esse manancial que hoje fica nas dependências da Base Aérea.

A revisão da memória histórica, como se observa nesse caso, é não apenas um exercício de justiça, mas também um imperativo ético para a construção de uma sociedade mais consciente de suas contradições e omissões. A história de Amélia Machado, recontada por mim, convida-nos a repensar quem escolhemos lembrar — e por quê.



terça-feira, 5 de agosto de 2025

AGOSTO LILÁS É MÊS DE INTENSIFICAR REFLEXÕES SOBRE CONSCIENTIZAÇÃO E ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER...

 

 


O Agosto Lilás é um marco anual de conscientização e enfrentamento à violência contra as mulheres e, em 2025, ganha ainda mais força com a campanha "Não deixe chegar  ao fim da linha. Ligue 180.

Esse momento pertence a todas as pessoas, independente de sexo, pois cada um pode educar e conscientizar sobre esse preocupante assunto. Recentemente o Brasil se chocou com um episódio em que um homem, alterofilista, socou 62 vezes o rosto de uma mulher, quebrando diversos dentes e vários ossos da face. Ninguém quer ver sua mãe, irmã, tia, avó apanhando. É um ato de gente não-civilizada. A conscientização das crianças, adolescentes, enfim de toda a sociedade é papel de todos nós em prol de uma humanidade cada vez mais civilizada. Não deixe em silêncio!

quarta-feira, 30 de julho de 2025

NÃO VOS CURVEIS AOS VERDADEIROS DITADORES...




Nísia Floresta Brasileira Augusta sempre teve lado. Não foi de muros, tampouco de silêncio. Ela atravessou o século XIX com uma visão pioneira e transparente sobre educação, direitos das mulheres, IGUALDADE SOCIAL e JUSTIÇA. Como sabemos, ela enxergava além de seu tempo. Dotada de uma percepção aguçada, sabia interpretar a sociedade em suas camadas mais profundas. Seu olhar sociológico buscava compreender as estruturas que oprimiam, seu olhar jornalístico narrava os fatos com precisão e coragem, e sua sensibilidade filosófica refletia sobre a dignidade humana e a necessidade de se construir um país justo e soberano. Por esse pioneirismo plural Nísia tem-me sido muito providencial nesse momento delicado que vivemos.

Se estivesse entre nós hoje, Nísia certamente se indignaria com as feridas abertas no Brasil nos últimos anos, promovidas por homens e mulheres que se proclamam patriotas mas, contraditoriamente, elogiam e reivindicam a deplorável Ditadura Militar. No bojo desses infelizes há até o neto de um ex-presidente brasileiro, ditador, e um ex-presidente admirador da ditadura militar (Figueiredo e Bolsonaro). Eles tiveram a insanidade de ir aos EUA trabalhar contra o Brasil. Ambos têm postura de ditadores, elogiam a ditadura, proclamam nos EUA que o Brasil vive uma ditadura, mas, débil e contraditoriamente, estão ali reivindicando democracia para o brasil. Loucos ou simplesmente maus? Ou não se conformam em terem perdido uma eleição?

Pois bem, com toda certeza, Nísia assistiria, com perplexidade, essa tentativa do desmonte de políticas públicas, o desserviço de tentar destruir a diplomacia  que sempre existiu entre o Brasil e os EUA, a intenção de fragilizar as instituições e polarizar o pensamento brasileiro. Esses seres equivocados são resquícios de um desgoverno que ameaçou a democracia e segue sem dar paz ao país. São autores da tentativa de golpe de 8 de janeiro, incitação ao ódio e os constantes ataques ao Governo Federal, portanto teriam em Nísia uma firme defensora da ordem constitucional e do respeito às leis.

Com seu faro jornalístico, Nísia denunciaria com veemência o desserviço promovido por figuras públicas que, como Eduardo Bolsonaro, espalham desinformação e inflamam a sociedade contra suas próprias instituições, tentando minar a confiança nas bases democráticas - pasmem! - em nome do que chamam e proclamam com veemência de "patriotismo". Ela não toleraria discursos que atentam contra a harmonia social, pois sempre acreditou que a educação e a verdade são os maiores antídotos contra a tirania e a manipulação. Num recorte rápido - quando ela escreveu o livro intitulado O BRASIL - teve como objetivo desmanchar as ideias erradas escritas e divulgadas principalmente na Europa sobre o Brasil (feitas por alguns viajantes que escreviam e publicavam seus diários). Ela não se conformou com os ataques que faziam à sua pátria e disse "alto lá!".

Nísia - hoje - não se deixaria levar pela desesperança. Ela reafirmaria sua fé na Constituição brasileira, nas leis que regem a República e no senso de justiça que pulsa no povo. Lembraria que a história é feita de lutas e superações, e que mesmo nos momentos mais sombrios a democracia brasileira já demonstrou sua força.

Nísia Floresta diria, com a lucidez que lhe era peculiar, que o futuro depende do fortalecimento da cidadania e da educação. Nísia usaria todas as redes sociais para desmascarar os algozes que, inconformados por terem perdido uma eleição legítima, agem como ditadores, tendo o desplante de reivindicar a ditadura militar e ao mesmo tempo cobrar democracia num devaneio que só cabe na cabeça desses seres.

Nísia estaria na rua, sem papas na língua - assumidamente - sem covardia e sem estar em cima de muros - ela convocaria a sociedade a se unir pelo bem comum, a defender as instituições, a valorizar o conhecimento e a promover o diálogo que reconstrói pontes. Seu olhar filosófico nos lembraria que o bem é mais resistente do que parece, que as leis existem para proteger a liberdade e que cabe a cada um de nós mantê-las vivas.

O bem vencerá o mal. Esta seria a sua mensagem. Não por um idealismo ingênuo, mas por acreditar na força de um povo que, ao compreender seu papel, não se curva diante de projetos autoritários. Nísia Floresta, se estivesse entre nós, seria um farol de resistência e esperança, lembrando que uma nação só se fortalece quando não abre mão de seus princípios democráticos, de sua humanidade e de sua fé no futuro.


sábado, 26 de julho de 2025

UM SÁBADO REGADO À BOLINHO DE BACALHAU...


Há certos pratos que são deliciosos sempre. Como se você o comesse pela primeira vez e amasse, e dissesse "jamais me afastarei de você". Desde criança sou apaixonado por bacalhau e não penso duas vezes quando vem aquela vontade como trem descarrilado. Dizem que há pessoas que deixam de comer por causa do preço. Algumas até brincam comigo quando digo que fez bolinho de bacalhau, dizem que é "coisa de rico". E rico lá como bolinho de bacalhau! Rico come fantasia! Quando falo comer bolinho de bacalhau significa fazê-lo passo a passo... Isso rico não faz. Rico compra no restaurante, inclusive alguns vêm com casca de barata...



Há dois dias fui ao Nordestão e escolhi uma peça inteira. Igualzinho a minha mãe fazia, rasguei-o e deitei-o na água à noite. Bastante água numa panelona. No outro dia é só peneirar e lavar. Não precisa de lavar muito, pois a delícia do bacalhau é sentir aquele salzinho lá nos submundos da língua. Obviamente que sem exagero.



Eu e Alysgardênia gostamos muito de bacalhau. Normalmente fazemos com massa de macaxeira cozida, e misturamos o bacalhau na massa; ele fica meio carrapicho. O cheiro toma conta do quarteirão.



Hoje resolvemos fazê-lo com recheio, tipo coxinha, mas no formato tipo a "linguiça gaúcha do Bola". Ficou delicioso. Deu  uns 25 bolinhos. Como ficou muito, congelamos uma parte.



Estava eu e Alysgardência ali, preparando, ouvindo um chamamé, quando o telefone toca lá de Moscou. Era F. nosso filho. Ele disse, "Ah, meus Deus, que saudade! Que delícia! Como eu queria estar aí!". 


F. adora bolinho de Bacalhau. Quando ele esteve em casa - há justo 1 ano - fizemos para ele e K. Ela também adorou. Disse que preparamos de um jeito bem diferente do modo russo. Lá eles gostam na sopa, tipo creme. Qualquer dia vou tentar, afinal sopa de peixe é uma maravilha...


Pois, bem, hoje o prato foi bacalhau e arroz com legumes. Acompanhou-me uma Stela Artois. Alysgardênia não bebe bebida alcoolica alguma. Eventualmente toma uma água tônica, pois não mistura líquido nas refeições. Só uma vez em dez anos. 

Mas... como estava dizendo no prefácio, tem gente que deixa de comer o que gosta por ter formatado no cérebro a ideia idiota: "é caro". Lógico que não é como comprar um kg de carne, mas "quem quer o barato, caro lhe sai". Digo isso porque conheço gente que deixa de comer algo que muito aprecia para comer esses alimentos-lixo, tipo fast food, esses lanches americanos que prestam tanto quanto Trump.



Há idiotas que amam bacalhau, mas são sovinas. Guardam dinheiro para os parentes e aderentes mais novos herdarem e jogarem tudo no ralo. Morrem e não levam nem o prazer de terem se alimentado com o melhor que existe. Há também os equivocados, que deixam de desfrutar as delícias de uma comida boa e saudável - feita em casa - para viver comendo comidas muito mais caras nos shoppings, sem saber que muitas cozinhas desses locais mais parecem chiqueiros de porcos. 

Agora, dando uma fofocada: dia desses um colega de trabalho contou-me sobre uma figura que deixa de comer para pagar o carro. Anda como não andam as filhas de Elon Musk. Impecáveis: cabelo na seda, trajes das mais caras marcas, bolsas que a princesa Kate usa, relógio do gosto da esposa de Trump, perfumes de três salários mínimos, iphone de última geração... mas em casa é todo dia cuscuz com salsicha... Se essa figura souber o que tem dentro das salsichas... só não é pior do que a mesma tem dentro do cérebro...

Pois bem, eis que estou aqui contando uma receita e aparece tempo para falar da vida alheia...






segunda-feira, 9 de junho de 2025

TREINAMENTO DOS PILOTOS BRASILEIROS EM ORLANDO, FLÓRIDA - ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA (1943-1944)



Como sabemos, não somos um país beligerante. Guerreamos contra o Paraguai, mas é uma história tão triste que é melhor ficarmos quietos. A nossa participação na Itália - como Força Expedicionária Brasileira - foi uma guerra em que fomos tomados emprestados para brigar pelos outros. E ainda bem que os nossos soldados foram vitoriosos, peças importantes para a vitória. Essa história precisa ser contada nas escolas, pois temos os herois.



Lucramos a Usina Nuclear no Rio de Janeiro, prédios, veículos, maquinários e equipamentos em Natal e Parnamirim, Rio Grande do Norte, influências culturais e, para muitos, foi bom enquanto durou. A presença dos Estados Unidos também aconteceu no Pará não se limitava a um único local. Havia uma rede de bases militares e instalações aéreas espalhadas pela região, incluindo Belém e outras cidades. Mas vamos ao que importa... 


Durante a Segunda Guerra Mundial, o treinamento dos pilotos brasileiros foi uma jornada que combinou experiências no Brasil e nos Estados Unidos. Eles aprenderam a pilotar aviões como o Curtiss P-40 e o P-47 Thunderbolt, além de terem acesso a técnicas modernas de instrução. A Força Aérea Brasileira (FAB) formou 558 oficiais aviadores no Brasil e também promoveu a formação de mais de 281 oficiais da reserva nos Estados Unidos.


O início do treinamento aconteceu no Brasil, onde os pilotos começaram pilotando aviões de caça Curtiss P-40. Além disso, a Aviação de Patrulha também teve seu papel, operando aviões como o PBY-5 "Catalinas" e o A-28 "Hudsons". Para fortalecer a força, a FAB criou diversas esquadrilhas, como o 1º Grupo de Aviação de Caça (1º GAVCA), fundado em 1943 para atuar na Itália.


Depois, os pilotos brasileiros tiveram a oportunidade de fazer um treinamento mais avançado, com acesso a sistemas e técnicas modernas, muitas vezes separados dos grupos americanos para um preparo mais específico. O foco em aviões de caça, especialmente o P-47 Thunderbolt, foi fundamental para prepará-los para as missões de combate na Itália. Além disso, houve um intercâmbio de experiências, onde os pilotos brasileiros aprenderam técnicas de sobrevivência na selva e participaram de voos de combate, fortalecendo suas habilidades e conhecimentos.


O 1º GAVCA destacou-se na campanha na Itália, realizando 682 missões de guerra e ajudando a coordenar o tiro de artilharia da FEB. Esses pilotos participaram ativamente dos combates, enfrentando perigos e, infelizmente, alguns foram abatidos pela artilharia inimiga. Um exemplo de coragem é o tenente Danilo Moura, que, após seu avião ser abatido, caminhou impressionantes 386 km.


A bravura e o esforço desses pilotos brasileiros foram reconhecidos ao longo do tempo. Uma celebração especial foi feita pelos 75 anos da participação da FAB na Segunda Guerra Mundial, com um símbolo comemorativo que homenageia essa história de coragem e dedicação.