SSS
ANTES DE LER É BOM SABER...
Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020
MEMÓRIA DE PARANÁ-MIRIM – 1942-1946... A PROIBIÇÃO DE PRETOS NA BASE AÉREA.
MEMÓRIA DE PARANÁ-MIRIM – 1942-1946...
A PROIBIÇÃO DE PRETOS NA BASE AÉREA.
Assim como os norte-americanos se instalaram aos poucos nas plagas de Manoel Machado, dando a origem à Base Leste, encostada à Base Oeste (dos brasileiros), o mesmo ocorreu durante a partida de volta aos Estados Unidos. Devagarinho eles foram embora, levando diversos pertences.
Os americanos chegaram em Natal em 1942 e foram em 1946. A Base Aérea montada pelos americanos é usada até hoje. A instalação da maior Base militar norte-americana fora dos EUA ocorreu em Natal, mais precisamente entre 7 de julho (data oficial do início das atividades) e 1946, ano ao longo do qual os norte-americanos foram deixando gradativamente a base administrada só por brasileiros.
Chegaram a pernoitar na base 22.000 homens e o movimento diário de aviões era em torno de 500 a 700. Os americanos chegaram em Natal em 1942 e foram em 1946. Deixaram mais de 700 galpões, grande quantidade de Jipes, armas e munições.
A História muitas vezes se prende aos fatos maiores, preocupando-se com começo, meio e fim, sem destaque a detalhes, muito embora eles possam significar uma história muito maior. Principalmente quando as minúcias ferem a ética e a lei. É exatamente sobre isso que comentarei abaixo. Trata-se de uma página meio esquecida na História dos norte-americanos durante s Segunda Guerra Mundial, e que aconteceu nessa plagas.
Durante os preparativos para referido projeto, apareceu um imbróglio complicado, principalmente aos olhos do século XXI. Houve a necessidade de que o pessoal da 194th Quarter-Master Truck Company fosse enviado ao Brasil para diversas demandas.
Com o fim da Guerra, vários despachos e demandas aconteceram paulatinamente. Surgiu o Projeto Verde (Geen Project), um programa de transporte que levava o pessoal norte-americano de volta aos Estados Unidos.
Ocorre que todos os membros da companhia 194th Quarter-Master Truck Company (soldados, oficiais, funcionários comuns, corpo técnico etc) eram de cor preta. Por aqui não existiam pretos. Pelo menos não se viam militares brasileiros nessa cor. A Marinha americana disponibilizou marinheiros negros no Brasil, mas nem o ATC nem o Quartel-General importou-se em servir-se de seus trabalhos. A partir dessa observação, suspeitaram que o general Walsh tinha feito acordo com as autoridades brasileiras para não trazer soldados pretos para o Brasil. Teria sido um pedido de Vargas? Não se sabe.
Diante disso o chefe da Divisão de Pessoal enviou documento ao Quartel-General do ATC orientando o unicamente o envio do equipamento necessário, mas que não viesse o pessoal da Divisão, ou seja, que não viessem profissionais pretos.
Certamente para que não ficasse feio e muito notório, criaram uma série de justificativas com relação a tal proibição. Enfim, proibiram a vinda de soldados pretos para o Nordeste do Brasil, cujos argumentos foram, aparentemente, considerados favoráveis, pois posteriormente comunicaram que o equipamento seria enviado, mas sem militares pretos.
terça-feira, 28 de janeiro de 2020
DEPREDAÇÃO DA HISTÓRIA E O SILÊNCIO ENSURDECEDOR DE ALGUNS NISIAFLORESTENSES...
DEPREDAÇÃO DA HISTÓRIA E O SILÊNCIO ENSURDECEDOR DE ALGUNS NISIAFLORESTENSES...
Ao longo desses últimos anos venho pontuando uma série de atitudes equivocadas, pertinentes à descaracterização da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Tudo começou em 2008, com uma denúncia que fiz à Fundação José Augusto durante a construção de um altar e nicho do lado direito no corredor a caminho da sacristia. Em 2014 denunciei a descaracterização do forro do altar-mor, no qual inseriram um forro de madeira preta, ao invés de refazerem do mesmo material e com os mesmos detalhes.
Na oportunidade denunciei uma série de descaracterização em outros espaços e elementos da Matriz. Para todos os casos houve abordagens dos órgãos que receberam as denúncias, mas infelizmente a abordagem dos profissionais não têm surtido efeito. Paulo Heider, arquiteto especialista da Fundação José Augusto disse-me que tudo o que orientou aos responsáveis pela reforma não foi feito. Ele demonstrava profunda revolta, pois é um especialista e sabe da importância do templo.
É uma construção rara e com acervo que não se repete em nenhuma cidade do RN. Nem na catedral de Natal nem na catedral velha. E o templo segue sofrendo descaracterizações e objetos mexidos leigamente, ao invés de restaurado e analisado por especialistas e pessoas experientes. Fiz um documento e pedi o tombamento, o qual vem sendo providenciado (está no meu blogue). Um das ações mais desnecessárias é a retirada das janelas e portas, ao invés da restauração.
A notícia mais trágica é a pintura desse lampadário de prata maciça (peça portuguesa do final do século XVIII). É algo tão tosco que chega a ser inacreditável. O ideal para essa peça é única e exclusivamente limpeza e polimento. É inadmissível sujá-lo com tintas a oleo ou outro material. A peça já possui a sua cor natural.
Para somar a essa depredação, o lustre de cristal, que ficava no centro do forro da matriz, infelizmente corre o risco de nunca mais ser reinstalado, pois suas peças principais se quebraram por não ter sido manuseado nem guardado de forma conveniente. É outra peça de grande valor. Guardam as peças como cadeiras velhas de plástico. A ponta do manto de uma das imagens de cedro folheado a ouro se quebrou. Todas essas imagens devem ser revestidas com plástico bolha ou tecido, e guardadas em espaço seguro, separada individualmente sem se tocarem. Mas não foi feito.
É muito triste isso. E mais triste saber que muitos não se importam. Acham normal. E mais drasticamente pior é saber que alguns nisiaflorestenses estão revoltados, mas a cultura local os impede de assumidamente darem um basta. Há nativos que estão a ponto de ter um infarto. A igreja pertence ao povo. Os administradores passam, mas o povo ficará para sempre, se renovando, pois são os donos reais.
De todas as denúncias que fiz a única que rendeu lucro foi dirigida à Arquidiocese, pois consegui sensibilizar as autoridades para criarem um curso e uma disciplina para os seminários, cujos futuros padres de agora em diante estudarão sobre o patrimônio histórico das igrejas. Inclusive fui convidado pela Arquidiocese para fazer o curso (publiquei isso no meu blogue, inclusive mostro todos os contatos que a Arquidiocese fez comigo). As instituições recebedoras das denúncias tomaram providências, mas tudo tem sido ignorado e as ações de descaracterização continuam.
IMPLORO AO POVO NISIAFLORESTENSE QUE GUARDE CARINHOSAMENTE ATÉ OS CISCOS E FREPAS QUE FOREM RETIRADAS DA MATRIZ, GUARDEM AS MADEIRAS, OS PREGOS, FECHADURAS... ENFIM TUDO ISSO DEVERÁ SER RESTAURADO E REPOSTO NO SEU LUGAR ORIGINAL. NÃO PERMITAM QUE NADA DISSO SEJA JOGADO FORA OU VENDIDO. ESTAMOS EM PLENO SÉCULO XXI. NÃO DÁ MAIS PARA ASSISTIR A ATOS DESSE TIPO EM SILÊNCIO, NEM TAMPOUCO ENTENDER O MEU GESTO COM A INGÊNUA INTERPRETAÇÃO DE QUEM BUSCA AUDIÊNCIA. É MUITA LEVIANDADE PENSAR DESSA FORMA. SOU UMA PESSOA DE 52 ANOS COM TESTEMUNHO DE PROFUNDO RESPEITO AO PATRIMÔNIO HISTÓRICO, À MEMÓRIA, À EDUCAÇÃO À CULTURA, E NÃO SEPULTAREI ISSO POR CAUSA DE EQUÍVOCOS. ESTAMOS DIANTE DE UM CRIME ASSISTIDO. RESTA AO POVO NISIAFLORESTENSE RECONHECER A GRAVIDADE DO FATO E IMPEDIR QUE A DESTRUIÇÃO CONTINUE. NÃO PERMITAM QUE AS CRIANÇAS DO FUTURO OS CRUCIFIQUEM POR TAL SILÊNCIO....
segunda-feira, 20 de janeiro de 2020
O homem da cobra
![]() |
| Esta fotografia é atual. Foi retirada da internet para ilustrar o texto. Ela é um bom exemplo, embora no meu caso a multidão era maior e juntava homens, mulheres e crianças. |
O HOMEM DA COBRA
Quando criança e adolescente, privilegiei-me de experiências típicas dos que nascem
nos recônditos emoldurados de abundante fauna e flora, às margens dos gigantescos
rios Pardo e Paraná, região berço dos Guaranis-Kaiowás e Ofaiés-Xavantes no
estado de Mato Grosso do Sul. O mais simples acontecimento roubava a cena até
mesmo de adultos. A cidade, apesar de planejada, guardava todas as pinceladas
de cenário interiorano, diferente da potência que se tornou atualmente.
Certa
vez a cidade acordou com a notícia de um curandeiro que fazia cirurgias sem
cortes, e se instalava provisoriamente no centro. Entregavam um papelzinho nas
residências com uma espécie de resumo dos prodígios do forasteiro. Sobre ele, contavam
estranhas histórias. Uma grande fila se formou defronte à casa do homem que
“recebia o espírito de um médico”. Comentavam que ele mexia as mãos sobre o
corpo das pessoas e retirava doenças. Extirpava pedaços de coisas com sangue. Outras
vezes saiam pequenos objetos, bolas de cabelos, pedacinhos de coisas enferrujadas e outras indecifráveis. A
maioria dos casos era alegado como “coisa feita”, ou seja, magia negra de algum macumbeiro.
Os
dias amanheciam e anoiteciam com feixes de novas histórias do curandeiro. Povo perplexo e entusiasmado daquele estranho homem.
Minha mente pré-adolescente, desentendida desses assuntos fora da caixa, legava-me um misto
de medo e curiosidade, mas agradava-me a novidade. E com certeza toda a
meninada local. Minha mãe, adepta do mesmo proceder de São Tomé, ignorou o homem
estranho, colocando freio na minha vontade de se plantar ali para contemplar a
atração.
Quando
um circo se arranchava, tínhamos a sensação de que a felicidade fizera morada
na cidade. Saber que uma das maravilhas da infância se avizinhava com nossas
casas, tornava-nos radiantes como o sol. A montagem era parte das atrações. Lona
subindo, homens marretando os eixos de caminhões terra adentro para suster as
bases da tenda colossal, elefante degustando cana-de-açúcar, bichos selvagens
esturrando nas jaulas, macacos guinchando... tudo promovia um estado avançado
de felicidade. A estreia transcendia esse bem-estar. Quando o circo partia, acendia o terrível sentimento de quando morre alguém da família. As pessoas daquela casa de pano soavam nossas parentes. Todos queríamos sê-las porque eram de outro planeta. Um vácuo de banzo acometia-nos.
O
que ocorresse na pequena cidade parecia ter saído de um imenso alto falante.
Todos sabiam a tempo e hora, buzinado pelo boca-a-boca de um e outro. O show de Teixeirinha e
Mary Terezinha, a chegada de Milionário e José Rico na estreia do espetáculo, a aterrissagem do bimotor trazendo
o governador no poeirento “campo de avião”, o acidente de carros na rodovia que
cortava a cidade, o pneu que estourou na borracharia e fez as ruas tremerem, a
serraria que pegou fogo, as moças que foram jogadas da ponte, o mendigo estranho que apareceu, a imensa ponte de
madeira que quebrou com um caminhão de soja, as máquinas Caterpillar
terraplenando as ruas de barro vermelho, alheias ao asfalto... enfim tudo que
diferisse do dia anterior consistia em atração, principalmente para meninos movidos ao exercício da curiosidade. Não bastava saber, urgia ver...
Mas
o que me impressionava talqualmente fato sobrenatural era o “Homem da Cobra”.
De escrever sobre isso toma-me um arrepio de lembranças. Lembranças lindas.
Lembranças emocionantes. Nenhuma novidade sobrepujava aquela presença
excitante, transbordando a cidade de magia. Normalmente o homem misterioso
aparecia numa Rural ou Combe, veículos grandes, cujos estrados do teto vinham
abarrotados de mercadorias e segredos tocando as nuvens, amarrados por uma lona.
O
adagiário popular traz uma máxima que classifica as pessoas que falam demais
como quem “fala igual ao homem da cobra”, ou seja, conversa igual papagaio. Era
assim o dito cujo. Sua chegada se percebia pelos auto-falantes do veículo,
anunciando a solução para muitas doenças, e que se instalaria na esquina da
praça, local de boa movimentação. Enquanto o carro gastava pneus – e as bocas de
ferro matracavam – a meninada corria atrás, comendo poeira, ansiosa para
conhecer o mundo maravilhoso que se revelariam daquele carro, igual coelhos saltando de
cartolas.
O
homem misterioso parava no local anunciado, abria as portas laterais, nas quais
se dependuravam feixes de raízes e cascas, pacotes com folhas, sementes, flores
secas, pós, emplastros, latas com ungüentos, resinas, garrafadas, enfim uma ampla medicina
natural. Nesse interim o povo se aglomerava. O veículo exalava um cheiro
diferente. Eram os matos misturados.
Logo o condutor desenrolava o fio e pegava
do microfone, destrinçando suas mercadorias. Antes, anunciava o “peixe-elétrico” guardado a sete chaves, “perigosíssimo”. Ressaltava mil vezes
que acenderia lâmpadas no animal para todos verem e comprovarem. Falava de cobras
venenosas desconhecidas, vindas de lugares intransponíveis do Pantanal, em que um
pingo de veneno matava dez homens. Avisava que exibiria uma sucuri de doze
metros, trazida numa caixa. Segundo ele, “ela já ouvia toda aquela conversa”.
Se
verdade, creio que a pobre cobra não se sentia numa lata de sardinha. Doze metros? Impressionava
a teatralidade do “Homem da Cobra”. Impressionava sua impostação de voz.
Impressionava a maneira gilgomesca na qual ele exaltava a farmácia e os
segredos guardados no veículo. As
palavras ora eram suavizadas por tons de mistério. O escandir das vogais espichadas dentro de algumas palavras... Tudo impactava até mesmo aos
adultos. Nós, crianças, congelávamos nossas caras, ou melhor, caretas. Ficávamos
abismados, ansiosos para ver a conversa tão demorada se transmutar em realidade diante de nós.
Era comum alguma dona de casa reclamar “ai meu Deus! Que demora, tenho que ir
pra casa fazer as coisas”...
Espertíssimo,
em meio a esse suspense e anunciação de produtos milagrosos, ele despertava a curiosidade em todos. As mercadorias saiam como banana em feira. Os bichos consistiam
em estratégia para segurar a atenção da multidão curiosa. Quem chegasse se prendia nos grilhões da
palavra falada com profusão de feiticeiro. O homem agarrava as pessoas nos anzóis de seus dizeres. Todo mundo ficava ali, preso... e cada veza chegando mais...
Ciente
das doenças e sintomas comuns ao Brasil, alardeava a pomada milagrosa de
gordura de sucuri “excelente para reumatismo”, garrafadas “para animar os
velhos e velhas que não estavam mais querendo fazer aquele negócio”, ungüentos para
“desaparecer qualquer dor de pancada”, tônicos para fortalecer “menino guenzo”,
outro para os “lombriguentos”, “remédios para solteironas nervosas”, óleo para “matar empingis”... tudo anunciado como rádio que não se desligava. Homens, mulheres,
velhos e crianças eram laçados pelas conversas persuasivas, potentes quanto
visgo de pegar passarinho.
Todo
“homem da cobra” era simpático e extrovertido. Em curto tempo adquiria foros de
pessoa de nossa família. Suas falações por vezes pareciam saltadas de almanaque
decorado. Sempre tinha exemplos acontecidos com pessoa de alguma cidade, e sua
cura milagrosa. Alguém que estava morrendo e praticamente ressuscitou com a
garrafada erguida ali de suas mãos como troféu, menino que “pôs um ninho de lombrigas” por
conta do óleo contido num vidrinho escuro. Eu detestava essa parte, pois nossa
mãe nos obrigava a tomar um tal “Sulfato Ferroso” e um demoníaco “Óleo de
Rícino” – insuportáveis. Ela dizia que era para não adoecermos e termos que ir para o hospital. Aquilo era uma morte, pois o hospital ficava do outro lado da ponte sobre o gigantesco rio Paraná. A sorte era que nossa mãe não se atraía dessas novidades.
Seu
repertório de palavreados, ditos populares, frases de efeito e brincadeiras
fazia o povo chorar de rir. De quando em vez ele quebrava o gelo com a história de velho
que não “dava mais no couro", ou que "o ponteiro só marcava seis horas", mas ficou tinindo depois da
garrafada”, e batia na garrafa para traduzir o efeito, levando os adultos às gargalhadas.
Os homens adultos e velhos se
comportavam de maneira mais avacalhada. As mulheres adultas e velhas guardavam
as risadas nos bolsos de seus pudores, embora uma ou outra escondia o sorriso nas mãos.
Nós, crianças – inocentes naqueles tempos – desapercebíamos daquelas malícias.
Achávamos engraçado o contexto, as brincadeiras, as risadas... acabávamos
gostando do “homem da cobra”, pois ele enchia a cidade de felicidade. Trazia
alegria para todos.
O
“homem da cobra” era um “show-man”. O volume de sua fala se alternava de acordo
com a ênfase que ele dava ao produto ou a alguma história que sempre tinha
testemunhado. Tudo convergia para o favorecimento de seus milagrosos produtos.
Impossível alguém se desconcentrar, pois suas palavras encantavam, agarrando o
povo.
Logo ele pegava de uma caixa e chamava algum menino para ajudá-lo. De
repente saltava uma cobra espevitada. O povo desaparecia. Então percebiam que a
peçonhenta era de borracha. Quem era doido de checar antes? Outrora ele pegava de uma
caixa maior e arrastava para meio das pessoas. Era cobra de verdade. Uma grande
cascavel manipulada com maestria com ferro próprio. Dizia que sua picada fazia
a vítima vazar sangue por todo o corpo. O povo ficava petrificado, sem muita
aproximação. De repente guardava os segredos e partia para as propagandas dos produtos. Repetia uns, anunciava outros, novos.
Tinha
remédio para gastrite, azia, má digestão, corrimento, frieira,
queda de cabelo, coceira, fraqueza, lombriga, dor desviada (o povo entendia "dor de viado"), febre, micoses, tônicos para homens... ele viera para curar a cidade inteira. E o povo comprando sem
parar. Não havia intervalos para suas conversas sem fim.
Dado momento ele pedia que alguns homens o ajudasse a retirar a grande e pesada
caixa de madeira sobre o assoalho do veículo. Era a sucuri. O tamanho da cobra
assustava. Primeiramente ele apresentava uma latinha contendo uma pomada para dor nos ossos. As propriedades medicinais eram tão extraordinárias nos seus falares que ninguém duvidaria se ele alegasse terem vindo do céu. Logo vendia umas vinte latinhas. Objetivo alcançado, ele começava a desenrolar um novelo de histórias sobre o
animal.
Naquele tempo não existia internet, portanto suas narrações se
apresentavam como filmes que imaginávamos conforme suas contações. Assim ele
falava ter presenciado uma sucuri que acabara de engolir um boi inteiro no rio
Paraguai. Outra engoliu um homem que pescava sozinho no rio Paraná. Contou sobre
uma sucuri que foi morta por mais de dez homens após engolir um menino, cujo
pai a perseguiu até encontrá-la. Eram histórias arrepiantes, observadas pela
gigantesca sucuri que parecia nos encarar, movimentando sua lingüinha para
dentro e fora da bocarra. Ele transformava aquela serpente num monstro.
Depois
de um congestionamento infinito de palavras, caras e bocas –,e consequentemente a venda de
sortidas mercadorias – ele anunciava a grande atração: o “peixe
elétrico”. Então, convocava mais homens e pegava de uma tina redonda, toda em madeira,
e o colocava no centro da roda. A tampa era aberta lentamente, sob um discurso
que mais lembrava um filme de terror.
A enguia, enfim, aparecia, ou melhor, era
vista num balé lento e sinuoso sob a lâmina d'água. Então, sabe-se lá de que jeito, o
“homem da cobra” pegava uma espécie de abajour com lâmpada, esticava um fio
semelhante aqueles que se agarram às baterias de carro, tocava o peixe e a lâmpada se acendia. O abajour funcionava como estratégia para que a claridade do sol
não ofuscasse a lâmpada acendendo.
A
multidão ia ao delírio. Inacreditável! Em fração de segundos daquela exibição, parecia que mais
de cem rádios se ligaram. Todos viraram o “homem da cobra”. Todos falavam ao
mesmo tempo. Todos tinham um parecer... uns alegavam ser um truque, havia
até quem dissesse ser “coisa do diabo”, cada um que dizia uma coisa... a galhofança lembrava uma feira
movimentada. A maioria acreditava no fenômeno da lâmpada acendida no peixe, e
parecia gostar muito. Eu era dos tais.
O
“homem da cobra” aproveitava esse encantamento e debulhava um rosário de fatos
que alegava ter testemunhado. Dizia que aquela espécie era capaz de dar um
choque igual ao das tomadas das residências. De repente, como que um dispositivo tivesse sido ligado dentro dele como fazem aos aparelhos eletrônicos, ele era todo emoção. Passava a falar de maneira mansa, demonstrando tristeza.
Contava que viu uma mulher que lavava roupa na beira de um rio com uma criança de seis anos, cujo peixe elétrico se agarrou numa roupa e sem querer ela o puxou para si, sendo eletrocutada instantaneamente junto ao filho... que chegou a ver pescadores morrendo e se debatendo nas águas escuras do Amazonas, após ter pisado ou tocado no peixe elétrico... que presenciou um jacaré morrer
ao abocanhar aquela espécie... Para cada morte era um bordado diferente e triste, despertando comoção.
Algumas velhinhas choravam aos cântaros, emocionadas com as mortes que talvez
nunca aconteceram, mas cumpriam o papel importantíssimo de dar credibilidade ao
“homem da cobra”. Eu olhava de longe. Temia que aquele demônio saltasse dali e me atingisse.
Enfim,
chegava a hora do almoço e havia o intervalo para o seu repasto. Na
cidade não existe a sesta, portanto a movimentação de transeuntes é
ininterrupta. O “homem da cobra” retomava ao ofício e voltava a arremessar
palavras ao vento. Logo, inchava a multidão vespertina. Muitos eram da turma da
manhã, os quais retornavam instigados pela curiosidade inquietante. Ver duas
vezes era privilégio.
O homem vendia, brincava, contava histórias, vendia, instigava
a curiosidade sobre seus bichos, fazia caras e bocas, vendia, mostrava a cobra,
exibia o peixe-elétrico, vendia, enfim repetia com pequenas diferenças a mesma novela
matinal. Ele
se demorava até o sol avisar da sua partida. Então se despedia... Então o “homem da
cobra” fechava o veículo e desaparecia na rodovia...
Até
hoje não entendo por que o “homem da cobra” não era chamado de “homem do
peixe-elétrico”. E hoje, pensando sobre as artimanhas e perspicácias daquele
homem que na minha infância foi misterioso, reconheço que ele apenas usava os
instrumentos possíveis para vender o seu peixe... era um João Grilo da vida...
esperto... só isso... esperto à sua maneira, esperto segundo o que estava guardado dentro dele...
sexta-feira, 17 de janeiro de 2020
O "Tanque" de Limoeiro, botija preciosa
O
TANQUE DE ‘LIMOEIRO’, BOTIJA PRECIOSA
Na cidade de Lagoa d’Anta, 100 km de Natal, área de caatinga, região
agreste potiguar, há um reservatório natural de águas da chuva, chamado pelos
nativos de “tanque”. Fica no povoado de “Limoeiro”, 3 km do centro.
O “tanque” me impressionou. As águas fluviais descansam sobre
um lajeiro da idade do Planeta Terra. Imenso. É uma gigante bacia de pedra
emoldurada por cactos diversificados, como cardeiro (ou mandacaru), xique-xique,
gogóia, umbu, facheiro. Vê-se muita algaroba, algumas quixabeiras, enfim as
espécies típicas dali. A parte seca do lajeiro se espraia entre a mata,
testemunha secular da história daquele município.
No
passado, segundo me contou um casal que mora próximo ao lajeiro, era a única
fonte de água da região, portanto era sagrado. Ninguém se banhava no tanque.
Tudo era cercado por faxina, impedindo o acesso do gado e animais domésticos,
os quais bebiam em local reservado para não sujar a água.
Os
moradores vinham de todas as localidades vizinhas e levavam água no lombo de
jumentos. Assim enchiam as cisternas que tinham em suas casas. O “tanque” era referência
para todos. O fato de as águas estarem sobre uma obra impermeabilizada pela
própria natureza, garantia água por uma longa jornada.
O
lugar é paradisíaco em sua condição semi-árida. Obviamente que o conheci numa
época que choveu, portanto havia água considerável. Mas o contexto era belo. A
mata rasteira, a terra de arisco, os sem-fim de pedras de todos os formatos e
tamanhos – espalhadas pelo mato - davam à paisagem uma visão espetacular. Contam
que no inverno, época de chuvas demoradas, ele transborda.
Olhando
o “tanque”, pensei como deve ter sido difícil a vida dos nativos de antigamente.
Naquele tempo não havia a Adutora Monsenhor Expedito, a qual abastece muitas
cidades do agreste ao sertão. Hoje a água sai da lagoa do Bonfim, em Nísia
Floresta, município da região metropolitana de Natal, percorre mais de cem kms e
escorre nas torneiras de Lagoa d’Anta. Fato impensável até o início da década
de 1990, quando os nativos armazenavam águas de chuva em cisternas, latas, baldes,
tanques, enfim, onde podiam.
Água
era coisa escassa e preciosa. Criança crescia aprendendo a economizá-la.
Reservava-se água para animais, para banho, para louça e plantas. As plantas
eram as que mais sofriam, portanto se viam tanta secura a partir dos quintais.
Verde, somente os pequenos jardins das casas e o jirau de coentro e cebolinha.
Verde apenas as plantinhas ribeirinhas dos regos de água. Verde também a
esperança eterna de um bom inverno.
O
futuro foi bondoso com Lagoa d’Anta, pois a história de águas carregadas nos
lombos de jumentos é passado. Soa pitoresca e folclórica. As crianças, com o
mundo nas mãos, talvez darão risada de ouvir um idoso abrindo seu livro da
vida. Não entenderão como era tão difícil a água, se hoje ela escorre abundante
nas pias e chuveiros. Mas quem conhece a história do “tanque”, e que ele era
mais precioso que botijas, com certeza terá um acervo infinito de memórias sofridas,
engraçadas, tristes e de muito suor e trabalho.
O “tanque”,
apesar de estar quase esquecido, foi um pai bondoso, que reservou vida para dar
vida a tudo o que o emoldurava.
Creio
que ali deveria estar afixada uma pedra de mármore com uma placa de bronze com
um resumo de sua história. Ou simplesmente escrito “aqui jaz uma botija mais
preciosa que ouro. Aqui está a vida”.
quinta-feira, 9 de janeiro de 2020
A menina do vestido roxo - Acta Noturna - 1954 - Quando os despojos de Nísia Floresta chegaram a sua cidade natal.
A menina do vestido roxo...
Você sabia que em Nísia Floresta ainda é viva a menina que vestiu um vestido feito com o tecido que enrolou o caixão de Nísia Floresta?
Parafraseando
Clarice Lispector: “há muitas histórias nos detrás dos detrases das histórias”...
Essa pérola é um exemplo... um achado. Escutei-a pela primeira vez em fevereiro 1993, na voz doce da própria protagonista, Lúcia
Elisa do Nascimento, 73 anos de idade, moradora no bairro Porto, em Nísia Floresta, estado do Rio Grande do Norte. Mas vamos entrar na "máquina do tempo" para entender como foi que Lúcia tinha um vestido que veio da França, no caixão de Nísia Floresta... Era assim que diziam as pessoas da época... isso há 66 anos...
Aos
11 de setembro de 1954, às 15 horas, a imensa caixa com os restos mortais de Nísia
Floresta, foi desembarcada do navio “Pirapiá”, ou "Pirá-Pirá", um caça da Marinha de Guerra do
Brasil, aportado nas docas da Ribeira, em Natal. Uma multidão se espraiava até
a Praça André de Albuquerque Maranhão. Houve homenagens na Base Naval e seguiu-se
uma verdadeira peregrinação para as devidas homenagens, inclusive no Instituto
de Educação. Já escrevi aqui mesmo neste blog sobre o episódio com Chicuta Nolasco etc.
No
dia seguinte o cortejo se deslocou para a terra natal de Nísia Floresta, cujo
município já havia recebido o nome dela por força de um projeto
idealizado pelo deputado estadual Arnaldo Barbalho Simonetti, seis anos antes. Mas
haveria uma história de bastidores preciosíssima que se daria oito meses após a
espetaculosa chegada. Registrei-a em 1993, e agora presenteio os leitores em
primeira mão. O fato é um misto de curiosidade, comicidade e inocência... não deixa de ser um precioso achado que fica aqui registrado para a posteridade.
Como
todos sabem, assim que a "grande caixa" chegou ao município de Nísia Floresta,
aos 12 de setembro, houve um impasse, pois todos aguardavam uma pequena caixa com os ossos da intelectual Nísia Floresta, jamais um caixão tradicional. E pior, o caixão tradicional veio dentro de uma caixa ainda maior, toda em madeira de ébano. A falta de comunicação fez com que
construíssem uma base quadrangular de alvenaria para sepultar os restos mortais, ao invés de construírem o túmulo para acomodar
o caixão normal. Na realidade, é comum que restos mortais vêm de fato sejam guardados numa pequena caixa, portanto não havia necessidade de se fazer um mausoléu tradicional. E ninguém avisou. Comunicação naquele tempo era complicada. O que fazer? Onde colocar aquela imensa caixa?
Logo
na missa de corpo presente presidida pelo esdrúxulo cônego Rui Miranda, perceberam
que não seria possível o “enterro”, portanto resolveram guardar o caixão sobre uma mesa nos corredores
da igreja, na entrada da sacristia. E ficou ali no período de quase uma gestação humana.
A grande caixa passou
o natal e ano novo sob a sentinela da Senhora do Ó, que coincidentemente é a versão católica de Nossa Senhora Grávida ou Nossa Senhora da Expectação. Assim aguardaram a construção
do túmulo, mediante um acordo feito entre o prefeito José Ramires e autoridades natalenses. Nesse interim "chovia" de gente para ver e apalpar o objeto, conforme me contou a senhora Natália Gomes do Nascimento, 90 anos: "Papai dizia que ela tinha sido mulher muito importante, então eu fui lá só ver, mas era uma caixa sem pintar, bem grande, ficava quase na porta da sacristia".
Após o jogo de
empurra, imbróglios, descumprimentos de acordos para a execução da obra, a
Academia Norte-Rio-Grandense de Letras irritou-se e fez uma vaquinha envolvendo
centenas de instituições e pessoas influentes. O parto do túmulo se deu a exatos
oito meses e meio após a chegada dos restos mortais. É nessa data que entrará na história a pequena Lúcia Elisa, que depois seria a menina do vestido roxo.
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| Monumento em homenagem a Nísia Floresta, construído em 1909. |
“Ainda me lembro de meus tios prá lá e prá cá...
um pedia uma coisa, outro pedia outra... era um monte de gente naquele dia,
parecia que Natal veio toda ‘pralí’... tava até o ‘véi’ Zé Ramires, mas para
mim aquilo era uma festa... eu não entendia aquelas coisas... não sabia que ali
tinha uma morta, ficava só brincando e olhando o povo... coisa de criança...”, contou-me Lúcia Elisa.
Foi
exatamente nesse evento que surgiu a deliciosa história. Ao abrirem a grande caixa
(essa da foto) encontraram literalmente um caixão de ébano envolto em cetim de
seda roxa. “Era um ‘panão’ grande... brilhoso... a coisa mais linda do mundo...
fiquei olhando aquilo muito admirada, doida pra pegar... era brilhoso, bonito que só...”, contou Lúcia.
Hoje,
a juventude não associa muito a cor roxa à morte devido aos modismos, mas a
tradição católica sempre a relacionou a tecidos mortuários, acessórios de féretro,
caixão etc. Talvez seja uma derivação da ritualística católica que associa o
roxo à penitência, cujos tecidos com tal cor prevalecem nas roupas clericais,
nos templos e procissões na “Sexta-Feira da Paixão”, quando o “Senhor-Morto” é
envolto em tecido roxo.
Pois
bem. Ocorreu que um dos presentes na abertura da caixa era o senhor Antonio
Amador do Nascimento, conhecido como “Tetéu”, tio da menina Lúcia, irmão de seu
pai. Ela contava oito anos de idade. Estava por ali em
visita aos tios. O tecido era novo e ainda cheirava. Então ele pegou a bela fazenda e jogou
sobre a menina, dizendo “pega prá tu!... eu nem acreditei, fiquei assim, olhando, abestalhada com o pano... Saí doida, correndo pra mostrar pra mãe". É preciso esclarecer que esse tecido não tocou nos restos mortais. Veio sobre o caixão e era uma peça nova, muito grande.
“Nunca vi um tecido tão lindo... emboloei no
corpo e fui correndo pro quarto... era grande... bastante pano... mamãe logo escondeu de mim. Quando fomos no Porto, no outro dia, mamãe lavou o tecido, e vovó Geminiana fez
um vestido e uma camisolinha pra mim... eu adorava vestir o vestido e ficar sentada
no alpendre... queria que as outras meninas me vissem com o vestido... achava bonito, era o vestido mais bonito de Nísia Floresta... eu parecia uma menina rica... corria até a cancela, subia nas árvores,
pulava... o vento voava o vestido, às vezes enganchava nas árvores, mamãe dava
brava ‘menina, tu vai rasgar o vestido’... para mim o vestido dava alegria, não
tinha nada de morte... achava linda a cor... quando eu usava a camisolinha nem
sabia que dormia com os paninhos de Nísia Floresta... eu lá sabia quem era
Nísia Floresta... o povo só dizia que era uma mulher muito sabida...”.
Lúcia
Elisa do Nascimento nasceu no dia 27 de novembro de 1946, filha de João Amador
do Nascimento e Naura Elisa do Nascimento, neta de Geminiana
Elisa do Nascimento gente antiqüíssima de Papari. Francisco Amador do Nascimento
era pai de “Maria de Zuza”, era irmão do pai de Lucia Elisa. “Tio Tetéu mangava
muito d’eu por causa desse vestido roxo... dizia que eu tinha usado o vestido
de Nísia Floresta... depois dizia que o meu vestido tinha vindo no caixão de
Nísia Floresta... depois dizia que eu tinha usado o vestido de uma morta...
ficava me caningando”, comentou Lúcia, explicando que durante muitos anos o tio
“mangava” dela devido ao singular episódio.
“Só
depois de muito tempo eu dei conta daquela marmota, mas como era criança, nem
percebi, achei foi bom. Até brincava, dizendo que o tecido de meu vestido tinha
vindo da França. Quando eu ia pra rua com a minha mãe, vestia logo o vestido, ia bem
importante.. exibida que só! Na minha cabeça todos estavam achando lindo”.
Aproveitando a narração deste fato, esclareço que o terreno onde se encontra o túmulo e monumento não foi
doado pela família Gondim, pois a propriedade não pertencia a ela à ocasião da
construção, datada de 1909. Luiz Bezerra Augusto da Trindade o havia comprado - por procuração - à Srª Antonia Freire, mãe de Nísia Floresta, em 1857, pela importância de 400$. Luiz Bezerra faleceu em 1881 e o sítio foi repartido entre os herdeiros. A maior parte ficou para Francisco Teófilo Bezerra da Trindade, falecido em 3 de outubro de 1838. Ele foi o doador do referido terreno. Algum tempo depois a propriedade foi vendida para Pedro Paulo de Carvalho. Até hoje o terreno pertence aos Carvalho. O dono atual é José Paulino de Carvalho.
Como já escrevi outras vezes, conservo guardados muitos registros orais de pessoas antigas, as quais as encontrei ainda muito lúcidas quando cheguei a Nísia Floresta, em janeiro de 1992. Algumas presenciaram a chegada dos despojos de Nísia Floresta, inclusive, em 2002, quando fiz a reconstituição, convidei a educadora dona Noilde Ramalho. Nesse dia ela me contou que viu duas vezes a chegada dos despojos de Nísia Floresta. A primeira, quando era aluna, e todas se deslocaram para o evento, e a segunda, na dramatização. O professor Jorge Januário de Carvalho era criança nesse tempo e se recordou de detalhes valiosos, inclusive ornamentou o cajado com flores para o documentário. Conservei guardada, assim como
incontáveis anotações sobre essa fato. Quando me
dá vontade, pego dos velhos papéis amarelecidos e digito o texto conforme os
depoimentos colhidos, muitos deles há 27 anos.
Externo
a minha eterna gratidão à senhora Lúcia, por me presentear com sua história tão linda. Para mim a sua história é um o seu poema
de vida... a propósito peguei dos pincéis e das tintas e pintei com
exclusividade sua experiência, retratando “a menina do vestido roxo” na ilustração aqui publicada... (março de 2012).
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