ANTES DE LER É BOM SABER...
segunda-feira, 14 de março de 2022
Cantora Maria Soledade No Domingão do Faustão e no Globo Repórter - 2002...
POEMA AO ANU
Como não carece ornitologia,
mas olhogia para mestrado em pássaros, desperdiço os meus vagos à passarada,
Amo-os como quem ama a mãe.
E digo-vos: jamais passará pássaro
sem que os meus vejos se desvejam deles.
Sem que os meus amores se
desamem deles.
A natureza é antídoto,
livradora dos males todos.
Sou dos que menosprezam
compromissos em entretimento da vida silvestre.
Contemplá-la é reinar-se de
poesia,
Um adentro em poemas.
Dia desses, aos primeiros
fios de sol, acordou-me o zumbido de um sem-fim de abelhas voejando a
pitangueira em buquê.
Gastei ali, abençoando-me
delas uma meia hora... juro!
Hoje, dei-me com uma dúzia de
anus brancos às 7 em ponto.
Mais andavam que voavam.
Mansos como criados na mão.
Íntimos o bastante para
fisgar insetos sob o meu sapato.
Não sei o porquê da
intimidade, mas o bando era amigável e despreocupou-se de mim.
Encanta-me a singularidade
dos anus, plenamente os brancos.
Anoto-os muito simpáticos e
bonitos.
Pássaro grande, exótico, despenteado,
listrado, rabo comprido e olhos grandes da cor de mel.
Nas matas eles praticam
repasto como padres.
São gulosos com pererecas,
pássaros novinhos, lagartos, camundongos e miudezas de rios.
Erradicados nas praças,
merendam frutas, bagas, coquinhos, sementes e insetos.
Contemplo-os sempre banqueteando-se
de um cupinzeiro.
Anus fazem freguezia em olho
de coqueiros e palmeiras, onde espenicam as palhas e devoram rango de insetos
miúdos e até catitas.
Expertos, arquitetam ninhos
em altos três vezes superior que um homem.
Os ovos são verdes,
aclarinhados de azuis com uma camada calcária em relevo branco.
É comum ninhos com duas ou
três anus chocando numa irmandade de comadres íntimas.
Essa é a tradução para suas
anchas mansões dependuradas.
Com certos pássaros maiores
exercem amizade de vizinho.
Tem bom compadrio com bem-te-vi,
anu-preto, sabiá e outros pássaros.
Exímios poliglotas, proseiam
como diplomatas e embaixadores,
Praticam excelentes relações
internacionais com outras espécies.
Essa é a poesia amanhecida de
hoje, sentida e catada na praça.
Mas julgo providencial esclarecer que contemplo
os anus desde a minha verde infância,
Por isso florestou essa
poética divinizada aos anus.
Do contrário passariam anos, e
nada eu saberia sobre os anus.
Por isso é verdade e dou fé.
sábado, 12 de março de 2022
ACTA NOTURNA - PADRE JOÃO MARIA E A MULHER DA VIDA...
sexta-feira, 11 de março de 2022
Uma historieta de Beenthoven
Certa vez Benthoven se apresentaria num dos mais imponentes e sofisticados teatros de Berlin (Alemanha). Então ele recebeu um bilhete em que se lia:
“Toque tal peça. Barão Fulano de Tal (proprietário das maiores plantações de uvas locais, donos de cinco castelos, terras e animais a se perder de vista)”.
Beethoven leu e escreveu n’outro bilhete:
“Não vou tocar.
Ludwig Van Beenthoven (proprietário de um cérebro)”.
Onde estão os coretos de Natal?
Coreto originalda praça Augusto Severo, há décadas demolido.
Quando eu era criança, havia um coreto no centro da praça, ao lado da minha casa, no Mato Grosso do Sul. Acontecia de tudo naquele espaço, desde atividades escolares e políticas às solenidades religiosas. Lembro-me que durante a Ditadura Militar aconteciam as solenidades do “Fogo Simbólico", e fui um dos inúmeros alunos que ficavam de cara para cima, sem poder se mexer, guardando aquele archote quente como o inferno, enquanto a bandeira era arriada. Um dos lados da face ficava todo vermelho, por causa da aproximação da tocha. Mas tinha que ser assim.
Coreto é um cartão postal de qualquer cidade. Os lugares de gente civilizada e respeitadora da História ainda conservam os seus coretos. Em João Pessoa, na Paraíba, por exemplo, dentre alguns, há um coreto belíssimo na parte histórica da capital. É denominado “Pavilhão do Chá”. Projetado pelo arquiteto italiano Paschoal Fiorillo, esse Coreto, que fica da Praça Venâncio Neiva apresenta forma circular, com um entablamento rebuscado com ricos adornos em argamassa, refletindo estilo eclético, com marcantes características neoclássicas. Ali a sociedade joãopessoense passava horas conversando, tomando chá com “raivinha” ao lado de deliciosas companhias.
Dia desses, conversando com o professor Jorge Januário de Carvalho, falei sobre a possibilidade de construírem um coreto no centro da praça Coronel José de Araújo, e dentro desse coreto ser instalada uma escultura de Nísia Floresta, em bronze, em tamanho natural (do tipo dessas que estão na moda, cujas pessoas interagem com elas, abraçando-as e fazendo poses para fotografias). Foi uma sugestão. Jorge Januário achou fantástico. Espero que ele leve adiante a ideia.
Já imaginou um coreto daqueles típicos do século XIX, em estilo francês (em homenagem ao país que tão bem acolheu Nísia Floresta) e com a escultura dela no interior. A escultura pode ser baseada naquela fotografia em que Nísia Floresta aparece de pé, ao lado de um pilar, segurando um livro. Seria uma atração turística diferenciada, já que por ser uma peça de interação com as pessoas, já imaginou quantas fotografias apareceriam mundo afora de pessoas clicadas “ao lado de Nísia Floresta”?
Coreto é lugar de sarau de poesia, de música, de literatura, dança, circo, teatro, convocações populares. Até os loucos poderiam usá-lo para os seus discursos.
Natal, cidade do “já teve”, já teve belos coretos, mas não houve quem chamasse a atenção das autoridades sem visão para preservá-los. Viraram pó. O mais lindo deles ficava na praça Augusto Severo.
Essa postagem traz fotografias de coretos pelo mundo inteiro. Fica a reflexão sobre a importância de se preservar não apenas os coretos, mas o patrimônio histórico em geral. Se bem que se as autoridades quiserem, podem resgatar essa tradição, afinal modelos e inspiração não faltam.
quarta-feira, 9 de março de 2022
Poema: Escrever (1998)
Antiga avenida Nísia Floresta, hoje Duque de Caxias - Natal - 21.3.1935... há 87 anos.
Praça Pedro Velho e a fragilidade dos monumentos de Natal...
terça-feira, 8 de março de 2022
Somos parte de algum cortejo?
POEMA: PALAVRA É UM ATO DE ALMA...
Admiram-me as palavras!
Verbalizá-las é incorporá-las de alma.
Letras solitárias são garatujas desalmadas,
Não falam,
Não dizem,
E não dizendo, são abortadas de espírito,
Sons de seres perdidos, indefinidos.
Há nobreza em dar alma às palavras,
É admirável acomodar o dizer nas letras inertes,
É como pescá-las numa caixinha,
E botar-lhes vida.
Tal qual os ‘tipos’ dos velhos jornalistas...
Juntando... juntando...
Dizendo... dizendo...
Almando…
Apalavrar letras é um ato de poder...
E nas mãos de um poeta, um ato divino.
Um grande artífice das letras deixou registrado que:
“palavras precisam dizer”.
E “dizer” se apalavra sob cumplicidade das letras.
Letra solitária é um risco de som adoecido,
Sonidos blesos...
Barulho de taquaral...
O que diria um Z?
O que diria um H?
Letra solitária não escande, geme.
Unidas, apalavram o espírito,
Apalavram vida...
Tornam-se poderosas.
Transmutar o pensamento em palavras é espiritualizar,
Dotar-se em capacidade de linguajar,
Escrever como quem sonha voando…
Dar empoderamento à linguagem
É vestir roupas de pensar na comunicação,
Divinizar o dizer…
Desimporta linguagem apalavrada na zona rural,
Desimporta linguagem apalavrada na universidade,
Comunicar é ato mágico,
É responsabilizar de alma as letras,
Ato de amor…