ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

terça-feira, 9 de abril de 2019

O dia da descida de "Emanoel"


O DIA DA DESCIDA DE “EMANOEL”

Era mais ou menos nove horas. O episódio passaria despercebido, não fosse o cuidado do cura em celebrá-lo com alegria junto ao povo, eternizando-o nas lembranças de quem o testemunhou, até que a morte os conduza aos sete palmos, e os sinos “batam”.
Era um dia muito especial para mim. Minha mãe estava em Papari, berço de nossos ancestrais. Ela deixara o estado do Mato Grosso do Sul, dias antes, e passou uma manhã comigo. Acostumado desde jovem a andar com máquina, registrei o momento ao lado desse meu tesouro de incalculável valor. As imagens não são perfeitas, pois descuidei-me de regular a velha Kodak, mas falam muito.

Além do padre João Batista Chaves da Rocha – amante da História, portanto peça rara nos dias atuais, havia seminaristas, coroinhas, delegado, prefeito, professores, promotora de justiça (ainda me lembro do seu nome: Yádia Gama Mayo, uma gaúcha que marcou história nessas plagas); juíza (Drª Eliane); também faziam côrte vereadores, alguns secretários municipais, demais autoridades e pessoas comuns. 


O sacerdote passava cá e lá, apressado, fechando os últimos detalhes para a descida do sino da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Na terra da intelectual Nísia Floresta, tudo é transformado em festa, assim como ela o fazia em seus colégios no Rio de Janeiro, assustando os pais desacostumados ao lúdico.

O povo aparecia de todos os lados, cheios de curiosidade. Um vuco-vuco interminável. O sino, maciço, fabricado em bronze misturado a ferro, com peso aproximado a uma tonelada, viera de Recife há mais de cem anos. Os infinitos rebimbares, banhos de sol e chuva, segundo alegavam, causou-lhe uma rachadura crítica, comprometendo o som, justificando a sua retirada.



O som, agora, tá gasguito, não vai nem nos conjunto; antigamente as badaladas respondia longe”, explicou o Sr. Bambão, responsável por décadas pelo toque do sino durante as celebrações. Esse mister foi herdado do pai e já fora transmitido ao filho Vicente.
Cansei de estar no cercado e me guiar pelo sino. Houve um tempo em que o sino informava hora, não era toda hora, mas algumas horas. Lembro que próximo a Currais o som chegava para a gente”, contou-me o senhor José Moreira do Nascimento, 85 anos.
Em Tororomba, eu era pequena, menina, quando mamãe mandava a gente ir pro banho; na primeira badalada do sino a gente corria pro banho, jantava e fazia carrera pra rua pra missa; antes da última badalada nóis já tava na igreja nas missa de Domingo”, explicou Natália Gomes do Nascimento, 90 anos.

Os depoimentos revelam o simbolismo todo especial acerca do sino da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, cuja responsabilidade ia além do convite para a missa. Ao longo de sua trajetória, a monumental peça serviu para comunicar ao povo incontáveis eventos que se davam nos assobradados cômodos superiores da Matriz. Era “o rádio” de Papari, assim posso comparar. 

Blem...blem...blem...blem...blem...blem...blem... o bispo Dom Perdigão adentrara na vila com comitiva, em visita pastoral. As paróquias potiguares eram subordinadas ao Bispado de Olinda. O evento, raríssimo, devia ser espetaculoso. A entrada do lugarejo fora decorada com guirlandas de flores, fitas coloridas e o sino fechavam o papel de tornar radiante o episódio. Seus badalos eram ensurdecedores.

Blem...blem...blem...blem...blem...blem...blem... o alistador chegara à cidade para alistar jovens para a Guerra do Paraguai. O imperador Dom Pedro não poupou província alguma. Duque de Caxias e Conde D’Eu garantiam que retornariam vitoriosos, mesmo que custasse a vida de quase toda população masculina jovem daquele país. 


A Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, em seus primórdios, era o centro das atenções. Tudo acontecia na Matriz. Muitas vezes coincidiam datas. Todos os cômodos eram usados. Pudera! Num tempo cuja cidade não tinha imóveis administrativos, exceto prefeitura, a igreja cumpria papel de abrigar todos os serviços vindos de fora para beneficiar o povo. A Matriz era auditório, escritório, berço de reunião abolicionista, enfim centralizadora de tudo.

Durante décadas o serviço militar foi realizado ali. As primeiras eleições deram-se exatamente sob a cumplicidade das paredes da Matriz. O sino chamava os eleitores para a eleição no primeiro andar da Matriz. A cidade, predisposta, já sabia o que aconteceria, portanto aguardava apenas identificar o badalar. Era hora de ir para a Matriz.


Poucas pessoas sabem, mas os sinos da Matriz tinham nome. Uma das duas torres é o campanário, onde ficava uma espécie de carrilhão. Ali moravam juntos o sino principal, ou sino-mor, frontal, batizado de “Emanoel”, Deus Conosco, portanto Deus chamava todos a toda hora para a sua casa. À sua direita jazia o sino médio, “Joaquim”, o avô de Jesus. O sininho menor, ao fundo, Maria, a Mãe de Jesus. Por último, o sino “Menino Jesus”. Eram quatro peças de tamanhos diferentes. O soar dos sinos da velha Papari era pleno de sacralidade. O rebimbar consistia em bênçãos levadas pelo vento a quantos casebres de taipa alcançassem.
Do alto do campanário, Emanoel, o velho de bronze, viu de tudo. Aliás, a família testemunhou séculos de história. Viram os novo-fascistas se aglomerarem diante de seu Cruzeiro quando do Integralismo. Viu a chegada dos despojos de Nísia Floresta. Viu os negros escravos que em seus cômodos escuros eram guardados por bondoso – e corajoso – padre abolicionista. Viu padres em conflito com políticos, padres apaixonados por políticos, padres fazendo corridas de jumento, freiras-vigárias escandalizando os católicos conservadores simplesmente por serem mulheres, Campanha da Fraternidade sendo parida debaixo de uma mangueira, enfim não houve episódio que ele não testemunhasse.

Tudo o que dizia respeito aos paparienses tem as paredes da Matriz como testemunha, e convocados pelos sinos. Sendo que nem todos eram badalados simultaneamente para todas as situações. Por tudo isso a igreja é intocável. Tudo o que for tocado para descaracterizá-la, consiste em afronta e mutilação à sua essência histórica e, por que não dizer cristã.
Quando o povo era convocado, o gesto se dava por toques específicos, extintos depois que a cidade começou a ver erigidas as suas instituições públicas. Assim, os espaçosos cômodos da Matriz foram sendo esquecidos.
No aspecto ritualístico, havia outra simbologia nos toques do sino. Obviamente falo de um tempo também remoto, anterior a 1996, ano que o sino foi arreado. Havia toque para enterro de anjo, toque para enterro de pagão, toque pra enterro de “moça-virge”, toque para enterro de gente idosa, enfim, os toques informavam a cidade inteira sobre quem estava indo para a “terra dos pés juntos”.

Os três sinos, tocados simultaneamente, só aconteciam durante eventos festivos. O primeiro toque da Hora do Angelus era anunciado por Emanoel. Maria se encarregava de continuar chamando o seu povo nos demais toques anteriores ao início do terço. Joaquim e Jesus sempre dormiam nesses momentos. Não se incomodavam com a voz da filha. Certamente era música para os ouvidos deles. Creio. O som de Maria, embora delicado, não era menos audível. Atingia a mesma distância do Pai. Mas completamente diferente do som clangoroso de Emanoel. Pudera! Até nisso os “engenheiros” medievais pensaram. Digo assim porque seu contexto arquitetônico, embora do século XVII, é desse período.



Mas, no tocante a tais simbologias, hoje restaram os toques pertinentes aos rituais da missa, procissões, festividades externas. Aparentemente sino tem relação apenas com alegria.
Não!
No curso de um enterro o sino toca. Enterro dado à tardinha tem aura misteriosa de tristeza. O ocaso e o momento fúnebre ampliam a sensação. A cor dourada da tarde, sob o som letárgico da morte deixa uma sensação de vazio. Imagino o que deve sentir quem enterra familiares nessas horas. Se eu morresse, queria enterro com dia nascendo, pássaros cantando, sol vivo e cidade nervosa.
Mas, retomando o assunto da retirada do sino. Há décadas que “Joaquim”, o gigante de bronze e seus familiares, perderam o seu modo original de ser acionado. Escavacando informações em 1992, os antigos não souberam me informar o ano dessa mudança. Ninguém mais o tocava por via das cordas manuseadas no térreo, através de adequados “puxavantes” ou “mucicas”...
É! Havia toques embalados, lentos, nervosos e repinicados.
O sino fica seguro através de uma estrutura muito fornida de madeira, atravessada por um eixo de ferro encaixado na estrutura de alvenaria da própria torre. É o contrapeso. Essa peça tem fundamental importância. O sino fica preso através de sua coroa atravessada por esse eixo, depois encaixada na parede, num relevo convexo. Um mecanismo o impede de deslizar horizontalmente. É uma mecânica interessante, servida das leis da física.
Em algum tempo do passado – ou desde a sua inauguração – o espetacular objeto e os demais passaram a soar por via dos braços fortes dos sineiros, ou “mestres de sino”, os quais seguravam (literalmente) o pinguelo interno, batendo-o contra sua campânula. Esse pinguelo, em formato fálico, em sua função original, ficava preso a um eixo abaixo da coroa, de modo que se movimentava livremente, conforme as puxadas da corda.
Considerando que em todos os lugares do planeta Cristianismo há um sino rebimbando através de uma corda – livre, leve e solto – balançando em torno de um eixo horizontal de 360º, exceto os elétricos e o de Nísia Floresta, suponho que algo de grave aconteceu no passado, e pôs em risco os fiéis e o próprio “Emanoel” e seus familiares, pois todos adoeceram. Seja o que for, nunca mais o sino retomou a sua característica original. Nunca mais dobrou. Sempre recebeu pancadas por força das mãos humanas.
Creio que a rachadura, que teve comprometida a qualidade e dimensão de sua sonoridade, foi ocasionada exatamente por isso. A pancada direta, dada pela força do homem é incomparável à força provocada pela movimentação da corda. Há uma física na reverberação dos sons, a qual se dá através do manuseio original, por via das cordas.
As pancadas que assisti ao vivo, algumas vezes, por curiosidade, se dão através de força descomunal. E saber que Jesus, Maria e Joaquim também eram acionados dessa forma, entende-se claramente porque se despedaçaram. Jesus, por incrível que pareça, foi o que se danificou primeiro, a ponto de não existir nem rastos para se fazer um chá (coisa de padres que não davam valor à História). Só resta saber se Joaquim e Maria permanecem guardados, pois os vi até 2012. São peças de valor estimativo incalculável. É a memória das raízes de Papari.
A excelência dos sons só acontece por intermédio de sua mecânica original. Observe o soar de sinos em algum filme. É um som melodioso, musical, harmônico, agradável. Isso ocorre porque o sino, em sua essência, funciona assim. Talvez os sinos foram inventados por poetas e músicos. Creio que em meio a tantas interferências na referida Matriz, ao longo dos anos, esqueceram de devolver ao sino sua gênese mecânica original. Esse reparo passa despercebido há séculos. É algo a ser analisado e quem sabe empreendido por futuros padres.
Pois bem, sua retirada, em 1996, ficou a cargo da Marinha, como se vê nas fotografias. Os marinheiros quebraram a alvenaria em sua parte convexa, onde se encaixava o eixo de ferro, peça principal na sustentação do objeto, e o caminhão-guindaste fez vir abaixo Joaquim, já idoso, combalido e apiedado pelo povo que o aplaudia com emoção. Todos sabiam que ele estava indo para o hospital dos sinos, no Pernambuco. A Marinha montou uma equipada UTI, pois tinha noção do notável paciente.
“Joaquim” retornaria remoçado e curado da fratura.
Houve muita alegria aplausos, falas, agradecimentos. Mas quando “Joaquim” deixou a cidade, causou uma rachadura em todos os corações que ali estavam. O buraco deixado na torre se estendeu a todos os distritos. Um vazio tomou conta de Papari. Saiu dali o pai amado. Joaquim e Maria ficaram na UTI, acamados na caminha detrás do altar-mor. Aguardam até hoje uma campanha. O povo não se preocupa tanto com a História. É mais fácil dinheiro sair do bolso para coisas supérfluas. Autoridades? Nem se fala. Boa parte quer coisa em troca. Fica difícil. O Papa orienta que não é bom os religiosos se misturarem.
Dona Maria do Carmo, esposa do Sr. Bambão, sineiro, não se conteve vendo o caminhão deixando o Átrio da Matriz. Perguntei por que ela se emocionava. Respondeu: “tenho medo de ele não voltar... de mandarem outro”.
Pessoas com idades entre 80 a 90 anos, chorosas, contaram-me que não tinham noção de quando Emanoel subira ao campanário. Óbvio que não se deu em 1755, data da “conclusão” da igreja. Mas eu perguntei porque queria saber se ele havia sido retirado antes. Se isso houvesse ocorrido anteriormente, os mais velhos saberiam. E diante dessa informação passei a acreditar que o sino havia descido uma única vez após a sua instalação original, há mais de cem anos.
Tudo isso reforçam duas hipóteses: 1ª ele ter se rachado devido às pancadas dadas através do pinguelo manuseado com as mãos; 2ª no ato da colocação já teria sido constatado possíveis riscos de acidentes e, devido à gigantesca dificuldade de retirá-lo e recolocá-lo novamente – através de força humana – adotaram o toque por via das mãos, abolindo as cordas.
Isso significa que, provavelmente, o sino de Papari nunca dobrou de fato. Ou seja, nunca foi tocado do térreo da igreja, por via de corda com um sacristão se dependurando e o objeto em pêndulo, em harmonia com o contrapeso. Em outro momento contarei aqui mesmo como se deu a subida do sino quando da sua instalação, há mais de cem anos.
Pois bem, algum tempo depois o sino retornou. Foi outra festa. Parecia que o sol estava sendo colocando no campanário. Emanoel reluzia mais que essa estrela de quinta grandeza. Um senhor perguntou se ele era de ouro. Com certeza Emanoel é de ouro! A restauração e o polimento deram-lhe coloração de ouro puro. Não se percebia sinal algum de enxerto de bronze e ferro em sua campânula.
O sino foi recolocado em seu local original após um único passeio. E Emanoel se fez Deus Conosco. Nunca mais o viram tão belo. E os toques foram retomados ao longo do tempo. As mãos humanas se encarregaram de permanecerem espancando-o... blem... blem...blem...blem...
Trabalho perfeito!
Não!
Passado algum tempo a rachadura retomou o seu vinco original para decepção de todos.
E nunca mais foi o mesmo. Ficou ainda pior.
Creio que, hoje, essa peça deve ser descida e exposta à visitação pública, pois pode se partir inteiramente. E outro, com as mesmas dimensões seja adquirido.
Sino é comunicação, música, alegria... e pode ser tristeza. Ele ‘fala’ que gente morreu, que Jesus subiu aos Céus, que a hóstia está sendo elevada, que a santa chegou da carreata, que a procissão percorre as ruas, que uma virgem morreu, que um anjo está sendo enterrado, que o morador antigo faleceu, enfim...
Blem...blem...blem...blem...blem...
Espera-se que um dia o povo papariense se curve de fato à Sagrada Família de bronze, e devolva a seu campanário legítimo.
Em Papari os sinos nunca dobraram. OBS. Eu havia dado n título “CAMPANÁRIO DA SAGRADA FAMÍLIA – O DIA QUE “EMANOEL” DESCEU AO SOLO DE PAPARI”, porém um sacerdote me corrigiu, explicando que a Sagrada Família é apenas Jesus, Maria e José, portanto o mudei. OBS. O presente texto foi iniciado em 1997 e concluído em 2019.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Onde está o nazismo no Governo Federal


ONDE ESTÁ O NAZISMO NO GOVERNO FEDERAL

Atualmente as mídias estão repletas de mal intencionados propagando desenfreadamente mentiras com o objetivo de gravá-las na mente de um país com sérios problemas educacionais, portanto, encontrando terreno conveniente e pessoas suficientes para repetir seus mantras, com suas devidas exceções.
Se os formadores de opinião idôneos (cientistas políticos, historiadores, sociólogos, antropólogos e filósofos), não refutarem essas ideias bárbaras, incondizentes com a lógica dos fenômenos sociais, elas atingirão os seus objetivos de mascarar a história do Brasil, os arquivos do nosso povo, e assim, abrindo um mar de ondas fictícias terríveis. A grande mentira atual inclusive bizarra, por exemplo, é negar as atrocidades e a existência da Ditadura Militar durante o Golpe de 64. Comemorá-la é desinteligência. É desserviço e desonra perante o nome daqueles que morreram e foram torturados para defender a democracia.
É tanta mentira divulgada em meio a tanta ignorância, que muitos acreditam. Você já imaginou se o CARDEAL DOM PAULO EVARISTO ARNS tivesse se calado diante do que viu? Imaginou o Brasil, hoje, sem a façanha dele, em burlar os militares, obtendo os documentos com os nomes dos torturados, o relatório e como a pessoa foi torturada e, pasme, até dos torturadores?
Os militares adeptos do Golpe de 64 eram tão robotizados ao registro, que se desperceberam de que guardavam para a HISTÓRIA DO BRASIL um material que, pela gravidade, anomalia e bizarrice, deveria ter sumido do mapa, se tivessem sido inteligentes. Quando foram atrás de queimá-los, o CARDEAL DOM PAULO EVARISTO ARNS já havia ‘fotocopiado’ tudo através de uma façanha incrível. Mas por que esses senhores propagam tanta mentira a ponto de muitos estarem acreditando e transferindo-a como verdade?
Se cada pessoa que nega a existência da ditadura, que celebra o nome de torturadores, e aposta em narrativas descompensadas para apagar nossa memória, sentasse numa cadeira e abrisse um livro de historiadores renomados, como HOBSBAWM, iriam sentir calafrios na espinha por ter contato com ARQUIVOS, não livros do MEC (que por boatos na internet dizem ser livros comunistas), dos mesmos autores da mamadeira com pênis e do kit gay.
Explicando por analogia histórica, durante o nazismo, HITLER se reuniu com o alto comando nazista e expôs a dificuldade que teria para colocar em prática a sua insanidade. O ministro da propaganda do Terceiro Reich, o militar GOEBBELS, braço direito do füher, disse: VAMOS MENTIR. Todos ficaram sem entender. Ele explicou: eu tenho uma filosofia de que se mentirmos de forma massificada, frequente e periódica nos jornais, nos rádios, nos alto-falantes, no boca-a-boca, nas ruas etc todos passarão a acreditar.  E assim eles fizeram o diabo com a filosofia goebbelista que defendia a máxima de que A MENTIRA, DITA MIL VEZES, SE TORNA VERDADE.
HITLER queria achar culpados por todas as mazelas da Alemanha, e dessa forma, construir um comportamento de “rebanho” para defender o seu doentio pensamento (a famosa eugenia racial). Adotada a tese de Joseph GOEBBELS, os nazistas passaram a pulverizar que todos os problemas da Alemanha tinham relação com os judeus, negros, gays, ciganos, enfim os não-arianos. O anti-semitismo imperava na Alemanha. Em termos de Brasil, isso é parecido ao que fazem aos nordestinos, pretos, gays, ciganos, índios em alguns estados do Sudeste e Sul do Brasil. Os nazistas arranjavam culpados e, ao mesmo tempo, arranjavam soluções para restaurar a “moral” da Alemanha. Coisa de gente doida! Coisa de desconhecedores da cientificidade historiográfica, da Politologia, da Sociologia, da Filosofia. Enfim, bem parecido com o que vimos, hoje.
Em sua época GETÚLIO VARGAS flertou com regimes autoritários no geral. Nesse caso, o Fascismo. Ele adotou a mesma técnica: desfiles espetaculosos, fortes investimentos na divulgação de sua imagem por via de fotos, banners, souveniers, livros didáticos, rádio e jornais. Aquela ideia do atual presidente do Brasil, de assistir aos alunos brasileiros declamando o seu lema, levada a cabo pelo deplorável Ministro da Educação, é um exemplo perfeito dessa bestialidade toda.
Pois bem, FRANKLIN DELANO ROOSEVELT, presidente dos Estados Unidos Unidos da América, danou areia no “namoro” de HITLER E GETÚLIO VARGAS, sob forte ameaça de invasão a Natal e Parnamirim, posteriormente negociadas (e só depois de muito tempo os ingênuos brasileiros descobriram os arquivos históricos retratando bastidores nada agradáveis a nós). Eles nos enxergam como se fôssemos inferiores.
Na década de 30 o Rio Grande do Norte abraçou o surgimento do INTEGRALISMO. Os adeptos locais - inocentemente -, se encantaram com essa corrente. Achavam bonitas as fardas, o distintivo, os souveniers, as marchas pelos municípios, o jeito militarizado, cheio de caras e bocas, o ridículo cumprimento “ANAUÊ” entre os adeptos (lembra o quê?), que, por sua vez, lembrava o “HEIL HITLER” (RÁI HITLER). E, entretidos com tais bizarrices, caminharam durante algum tempo com a marmota novo-fascista, ou ala-brasileira. Mas vejam como o Brasil obedece obedece aos EUA. Quase duas décadas depois, bastou um berro do homem da perna mecânica (ROOSEVELT) que tudo acabou num rompante. Foi como um pai severo, rígido, que só fala uma vez. Na segunda, dá uma “reada”.
GOEBBELS construiu um pensamento de anti-subjetivação, limitando a criatividade e a potencialidade dos artistas e demais cidadãos, cientistas, professores universitários, que poderiam ser contra o regime nazista (isso lembra o quê?), e apontou um novo objetivismo no Manifesto do Partido Nazista em 1933, escolhendo a suástica como um símbolo nacional e fazendo dela um ponto fixo da propaganda, escolhendo dias da semana para queimar livros subversivos, perseguindo comunistas, sindicalistas, sociais-democratas (se querem apagar a verdadeira história do GOLPE DE 64 e a memória de PAULO FREIRE, dentre tantas intenções do tipo, isso lembra o quê?).
Existia uma CAMPANHA nazista chamada “Sociedade Alemã sem Marxismo”. As pessoas eram intimadas a sempre denunciar a reunião de possíveis resquícios da LIGA SPARTAKUS, de sindicalistas subversivos, intelectuais de esquerda e comunistas. Pois bem, esses atuais pseudo-intelectuais governistas podem tentar mentir e forjar ideias falsas, mas JAMAIS conseguirão imputar a história de uma ideologia que foi perversa até seu último suspiro ao espectro da esquerda. 
Tudo isso significava uma política ultra-nacionalista, que dizia “DEUSTCHALAND UBER ALlES”, que, traduzido fica: “ALEMANHA ACIMA DE TUDO” (isso parece com o quê?). A mim me recorda o atual Governo Federal. Não sei a ti. Assim fizeram coisas espetaculosas: as grandes marchas militares em Nuremberg, e tudo que mostrasse um aspecto objetivo e pseudo-civilizado, sempre na tentativa de ser científico. A propósito, não faltavam intelectuais envolvidos no pensar do regime nazista. Intelectuais nos bastidores, como MARTIN HEIDEGGER, último grande filósofo, desenvolvedor de uma famosa fenomenologia (Isso lembra o quê ao contrário?).
Todo o nacionalismo estimulado pelos alemães nazistas surgiu da ideia da humilhação passada pós-primeira guerra mundial, com o TRATADO DE VERSALHES, durante a REPÚBLICA DE WEIMAR. Isso foi o combustível para a campanha nazista, ou seja, propagar a tese de que havia uma onda contra o desenvolvimento da Alemanha. Assim culparam os SOCIAIS-DEMOCRATAS por todo o atraso na INTELLIGENTSIA e pelo incêndio no PARLAMENTO ALEMÃO. Ou seja, pegaram um problema que era fruto de um contexto histórico que caminhava há décadas (e que estava sendo consertado) e o ventilaram como uma coisa recente, criada por quem ele se opunha. Viemos para salvar!  (Isso parece com o quê?).
Por que estou escrevendo isso? Ora, para explicar que se quisermos um exemplo de alguém, hoje, que se pareça com GOEBBEL, fabricando mentiras a um nível de credibilidade tão eficaz, temos o norte-americano STEVEN BANNON, executivo da mídia norte-americana, figura política e estrategista da Casa Branca do governo DONALD TRUMP, conselheiro sênior do dito presidente. Você conhece um presidente norte-americano mais preconceituoso, prepotente, racista, enfim tudo, menos com a necessária decência de um Chefe de Estado como Trump?
STEVEN BANNON é a grande inspiração para o AGIR e o PENSAR do Governo Federal atual, que segue o manual da guerra híbrida, fabricando mentiras, alegando para jornalistas informações falsas, para contradizê-los posteriormente. E quem desconhece a HISTÓRIA DO BRASIL, acredita piamente. A ideia desses anômalos é mentir com serenidade, mesclando pequenos detalhes reais para legitimar a mentira, se assim posso dizer. Entenderam agora por que tanta mentira e tanta confusão no Brasil?
A preocupação deles com coisas desnecessárias, no ponto de vista de mostrar para que vieram, está desmantelando vários ministérios, expondo-os ao ridículo. Não é o que poderão entender como oposição, mas eles próprios. Eles mesmos criam as sessões e matinês a cada dia. Se ao menos fosse um Circo de Soleil, mas um “circo caga-lona” (desculpem, mas é uma expressão potiguar para designar coisas esculhambadas pelos próprios protagonistas). Estão preocupados com cores de roupa, lema político gritado por estudantes, banimento do nome de PAULO FREIRE doravante, enfim é muita bobagem. Puro desserviço. É um prejuízo sem tamanho para o desenvolvimento do povo brasileiro.  Mudar os livros didáticos, contando uma história como se propõem, é um culto à tortura e à ditadura. É um tiro na democracia. Permitir isso é dizer para o Mundo: somos burros.
Quando você ler ou ouvir algo que venha desses senhores, procure saber à luz da ciência. FUJA DO FACEBOOK. Pesquise em fontes científicas sérias. Atualmente muitos grandes falantes e escrevinhadores sequer leram Alice no País das Maravilhas, quanto mais um livro de história geral ou do Brasil. 

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Crucificar o Padre Murilo?



CRUCIFICAR O PADRE MURILO?

Ontem eu digitava um texto, quando uma chamada No RN TV 2ª Edição, da Globo, arrastou-me para a tela da TV, coisa que normalmente me é invisível. O telejornal exibiu um vídeo, feito em aparelho celular, no qual o PADRE MURILO, administrador da IGREJA MATRIZ DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA, em Parnamirim, estoura uma champanhe defronte ao altar, durante uma celebração, como quem comemora. A propósito, a missa tinha aspecto festivo.
Após abrir a garrafa, ele faz como fazem os noivos e motoristas de carros de Fórmula 1, quando sobem ao pódio. Espargiu a bebida. A diferença é que o espargimento não foi em seu próprio corpo e nas pessoas que o circundavam, como manda a tradição, mas adiante de si, no chão.
A apresentadora informava que os fiéis estavam perplexos, alegando que o gesto do sacerdote não integrava o ritual inviolável de uma missa.
Alguns pingos da bebida atingiram a estátua de uma santa, a qual suponho ser Nossa Senhora de Fátima (perdoem se não a identifiquei).
Para os reclamantes a atitude do sacerdote consistiu numa blasfêmia, pelo fato de o champanhe conter álcool.
Não quero adentrar no mérito da possível blasfêmia, mas refletir sobre uma curiosidade percebida no vídeo exibido. Confesso que se eu fosse um padre, não permitiria uma igreja inteira me enchendo de flashes de incontáveis celulares. Eram tantos fiéis espargindo luz incomodativa sobre o padre, que forma-se um sol dentro da igreja. Creio que aquilo desconcentra qualquer homilia. Era para as igrejas fazerem como as emissoras de rádio que se filmam ao vivo. Quem tiver interesse em guardar a imagem, é só solicitar. Acredito que celular dentro de igreja (e em outros ambientes sérios) é coisa que ainda não foi discutida como se deve. Entendo que o aparelho dessantifica a missa. No máximo, quando em caso de grande necessidade deveria ficar em modo avião. Já vi cenas espetaculosas protagonizadas por gente com celular que, às vezes me sinto no século XII, pensando “será que isso é normal e eu que estou ficando velho?”.
Tenho impressão de que quem se entretém a pegar um celular, programá-lo para filmar e colocá-lo em riste adiante de uma pessoa, não está verdadeiramente assistindo a uma missa. Eu sou de um tempo em que uma missa ou um culto, pede pessoas sentadas, atenciosas, ouvindo o padre/pastor ou cantando em conformidade com o ritual. Fora isso, tudo dilui o sentido da contrição. Desconcentra. Perde a essência.
Se os fiéis que se revoltaram se enquadram nesse público contrito e realmente santificado, até teriam autoridade para estranhar a atitude do sacerdote, acaso, de fato, tenha consistido numa blasfêmia. Mas a cena revela mais gente preocupada em filmar do que em conceber no Mistério, salvas as devidas exceções.
       Mas, confesso, o que mais despertou a minha necessidade de refletir, foi outro detalhe.
       PADRE MURILO é um padre-intelectual (embora, diga-se de passagem, não quero dizer que isso seja parâmetro para ser padre, afinal boa parte dos sacerdotes o são). Padre Murilo é autor de uma infinidade de livros. Suas obras são recheadas de imagens que registram um trabalho admirável. Não é uma coisa de marqueteiros, ficciosa, para impressionar. É uma obra com cheiro de amor ao ser humano.
       PADRE MURILO é dos padres que, no seu tempo de seminarista, não foi adotado por madames da “alta society” banhando-se com perfumes do Boticário, usando celulares “top de linha”, camisas brooksfield etc. Desconheceu clausuras. Foi seminarista que percorreu as favelas e arrabaldes de Natal, pisando em coco de gente, suando de fio a pavio, saltando os regos de água podre, assistindo ao filme real da fome e evangelizando ainda com mais ênfase.
PADRE MURILO é fundador da ONG ILEAÔ, instituição vinculada à PJMP que fornece cursos profissionalizantes e cultura ara jovens humildes. ILEAÔ é uma palavra ioruba. (Significa CASA DA PLENITUDE, lugar de acolhida de qualquer pessoa, lugar onde se entra chorando e sai sorrindo). Veja só: ao escolher o nome ILEAÔ, constata-se o seu olhar respeitoso para com uma etnia apedrejada há séculos. Por mais que façamos aos povos pretos, ainda será pouco perante o crime da escravidão inclusive endossada por alguns vigários do passado, em meio a outros que os defenderam com a própria vida. Isso fala por si.
PADRE MURILO é fundador da CASA ABRIGO, instituição que acolhe uma multidão de pessoas em situação de risco. Crianças abandonadas ou vítimas de violência pelos próprios pais, vítimas de pedofilia ou abandonadas por terem alguma deficiência física e psicológica.
PADRE MURILO é presidente do CEDESC (Centro de Desenvolvimento e Cultural), instituição que acolhe...
PADRE MURILO foi presidente do COMDICA durante muito anos.
PADRE MURILO oferece dois reais aos moradores de rua que “moram” ao lado da Matriz de Nossa Senhora de Fátima, após a missa, para que eles comprem sopa. Alguns podem dar destino diferente ao dinheiro, mas isso não impede o sacerdote (ou qualquer pessoa) de permanecer firme no propósito de dar sem olhar a quem. As pessoas são livres para o bem e para o mau. Elas responderão por essa liberdade que é inviolável. Isso não tem preço.
Enquanto muitos condenam o referido padre por acolher pessoas entendidas pela “alta sociedade” como “marginais”, padre Murilo os acolhe (e deve acolhê-los, sempre), oferecendo-lhes a mínima dignidade, que é a atenção e o respeito. Ninguém olha para pobre! Onde estão os holofotes dos celulares que não se voltam para eles? Onde estão os que os acolhem no lugar necessário?
Mas, para finalizar, deixo as perguntas abaixo:
Quem filmou a Casa Abrigo e mostrou o trabalho social do Padre Murilo?
Quem filmou o padre Murilo doando dinheiro para os ditos “marginais” comparem sopa?
Quem filmou o padre Murilo atuante, pleno em suas ações sociais no COMDICA?
Quem leu os inúmeros livros do Padre Murilo?
Quem filmou os inúmeros mendigos e pedintes que fazem fila na Casa Paroquial da Cohabinal?
Quem filmou as atividades de arrecadação de recursos, feitas na casa Paroquial, cujo dinheiro é aplicado em ações em prol dos pobres?
Quem filmou os trabalhos feitos na Casa Ileaô e os divulgou pelo menos nas redes sociais ou na própria TV Cabugi?
Aos meus olhos a sociedade está meio louca. Muitos buscam conflitos onde eles não existem. Não seria melhor juntarem as forças e gritarem por um Brasil verdadeiramente melhor? Onde estão os “arrastões”? Onde estão os “bate panelas”? Onde estão...
O vinho original é alcoolico, pois a química da fermentação assim o torna. Nem por isso Jesus ficou bêbado. Seu grau de álcool é delicado, pois tanto Jesus quanto os sacerdotes da antiguidade sorviam menos de que uma colher de sopa. Portanto ninguém se alcoolizava para celebrar missa. A tecnologia atual, por via de produtos químicos, torna o vinho sem álcool. Mas sua química não seria nociva?
Até um recém-nascido sabe que abrir um champanhe e sacudi-lo, espargindo-o sobre si e outras pessoas simboliza comemoração, alegria, festa (exatamente o que a igreja praticava naquele momento que filmaram). Creio que o sacerdote, ao praticar o gesto tão condenado, o fez pela alegria do momento, pela significação de o que é abrir um champanhe.
Ninguém sabe se a bebida continha álcool, mas mesmo que contivesse, não é motivo para tal espetaculização.
Mesmo que ele o tenha feito por ingenuidade ou não, ele celebrava a alegria daquela comemoração. Se isso foi um erro, que os fiéis o tivessem questionado com diplomacia, na sacristia, depois, ao invés de o exporem, alargando os fatos, demonizando-o.
Eu não conheço o Padre Murilo pessoalmente, de conversa. Apenas li seus livros. Vi-o apenas uma vez, numa missa alusiva a um dos aniversários de Parnamirim. Contemplei uma homilia das mais belas que já assisti. Vi no altar o PADRE VIEIRA, tanto pela palavra poética e carregada de amor, quanto pela profundidade intelectual e clerical.
Confesso que estranhei o fato de atirarem o Padre Murilo ao Coliseu para ser degustado por feras, ao invés de jogarem os potenciais blasfemadores que ignoram os pobres e tratam as crianças desprotegidas como invisíveis. Essa deveria ser a oração verdadeira.
Esse episódio lembrou-me a história cristã, quando, diante de Jesus, gritaram: “crucifica-o... crucifica-o... crucifica-o...”.
Minha mãe costumava dizer que muitas vezes o capeta visita a igreja e leva colegas. Creio que esse foi um dia. A comunidade católica de Parnamirim, que tem culpa no cartório, com suas devidas exceções deve um pedido de desculpa ao Padre Murilo.


quarta-feira, 27 de março de 2019

Comemorar o golpe de 64 é o mesmo que:

COMEMORAR O GOLPE DE 64 É O MESMO QUE:
1) comemorar o exílio de homens notáveis como Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Leonel Brizola, Miguel Arraes, dentre tantos pensadores, intelectuais, cientistas, artistas e políticos brasileiros vítimas da Ditadura Militar. Lembremos que o AI-5, inclusive perseguiu e torturou – pasme – os próprios militares contrários à arbitrariedade do golpe. Tudo muito bem apoiado, como sempre, pelos Estados Unidos da América. Imagine o prejuízo causado a essas pessoas, as quais deixaram de executar relevantes projetos em prol da sociedade brasileira.
2) Comemorar o golpe de 64 é reacender a imbecilidade aprendida durante a Velha Escola, onde ouvíamos que o golpe de 31 de março e 1º de abril foi uma “revolução destinada a salvar a democracia brasileira ameaçada pelos comunistas”.
3) comemorar o golpe de 64 é comemorar a morte de centenas de jovens, pais de família, intelectuais e outros cujos ossos nunca foram encontrados.
4) Comemorar o golpe de 64 é comemorar a queima e a proibição da impressão de milhares de livros que poderiam estar sendo úteis, hoje.
5) Comemorar o golpe de 64 é comemorar o fechamento de inúmeras empresas jornalísticas por todo o Brasil, acusadas de inimigas da ordem social.
6) Comemorar o golpe de 1964 é comemorar o fechamento de inúmeros teatros na maioria das grandes cidades brasileiras, cujos enredos mesmo não o sendo, eram acusados de arbitrários e atentadores da moral e dos bons costumes.
7) comemorar o golpe de 64 é atacar os direitos humanos e o estado democrático de direito.
8) comemorar o golpe de 64 é comemorar a censura, o escárnio, o deboche e o desrespeito a inúmeras letras de música que levavam ao povo brasileiro ao pensar.
9) comemorar o golpe de 64 é comemorar a covarde cassação de mandatos de homens eleitos legalmente para pensar o Brasil, enfim é comemorar tanta injustiça que encheriam laudas...
10) comemorar o golpe de 64 é endossar a noite de 31 de março, quando o pesadelo desabou sobre as forças comprometidas com as reformas sociais, dentro e fora do governo. Enormes expurgos varreram todos os setores sociais importantes, das Foras Armadas aos serviços públicos em geral, atingindo também a imprensa, os profissionais liberais, os meios acadêmicos e culturais. Os militares leais ao governo democrático pagaram caro pela falta de resistência, pois foram perseguidos implacavelmente por seus colegas no poder, como disse acima, até os próprios militares, muitos deles, eram contrários à insanidade que inauguravam no Brasil. E estamos vendo isso, hoje. Obviamente que não me refiro à Ditadura Militar, mas às mais variadas patuscadas oriundas do Executivo Federal e que retardam o Brasil. É um tal de “ele não quis dizer isso”, “ele vai dar um jeito na rapaziada dele”. É um tal de publica-se leis e decretos no Diário Oficial da União e no outro dia “despublicam”, desmanchando uma coisa feita no dia anterior, demonstrando total falta de falta de assessoria competente e visão diante da pasta ocupada.
       11) comemorar o golpe de 64 é concordar que no dia 9 de abril de 1964 o Ato Institucional cassou mandatos, suprimiu direitos políticos por até dez anos, para decretar estado de sitio sem aprovação parlamentar e para obrigar o Congresso a aprovar emendas constitucionais. Na prática, o Executivo transformava o Legislativo em um mero carimbador de decretos-leis.
12) comemorar o golpe de 64 é assinar embaixo de quando em Recife a “Operação Limpeza”, gesto selvagem e truculento, espancou e arrastou pelas ruas, seminu, o presidente da Liga Camponesa. Os presídios ficaram superlotados em quase todo o Brasil. Pessoas de bem, sem mais nem menos, ou mediante a simples discordância de ideias políticas eram consideradas subversivas eram submetidas à tortura como: telefone (tapas aplicados simultaneamente, com as mão em concha, nos dois ouvidos da vítima, muitas vezes lhe estourando os tímpanos); o “pau-de-arara” (pedaço de madeira roliço que, depois de passado entre ambos os joelhos e cotovelos flexionados, é suspenso em dois suportes, ficando a vitima, geralmente nua, de cabeça para baixo e como que de cócoras, submetida a pancadas e choques elétricos); e o “banho chinês” (mergulhar a cabeça da vítima em uma tina de água fervida ou óleo até virtualmente sufocá-la).
13) comemorar o golpe de 64 é dar como certo que em todos os centros urbanos brasileiros ocorreram episódios de extrema humilhação, como invasão de milhares de residências, prisões arbitrárias, insultos, delações em massa, espancamentos e assassinatos “acidentais”. As prisões foram tantas, que foi preciso encarcerar uma parte dos capturados em navios presídios, no Rio de Janeiro e em Santos. A propósito, e quando sabemos que o militar que desencadeou o golpe, general Mourão Filho, era um energúmeno, desprestigiado na própria corporação, que definia a si próprio como uma “Vaca Fardada” (como registra a História) o vemos bem parecido com o fantasma atual que envergonha a nação por sucessivas fabricações de furos, gafes, cortinas de fumaça e incompetência junto a sua trupe circense, a exemplo o Ministério da Educação, o qual encontra-se parado e envolto numa grande confusão interna (demissões, atribuição de pessoas despreparadas para funções diversas, falta de sintonia nas equipes etc.).
14) comemorar o golpe de 64 é desconhecer que os militares que chegaram ao cume do estado em 1964 não foram somente os testas-de-ferro privilegiados das elites brasileiras e estrangeiras. E nunca estiveram sozinhos. Eles foram a sustentação de um pilar de poder econômico, social e político muito bem construído pela maioria dos setores empresariais, juntamente com os técnicos civis que manipulavam os comandos da máquina administrativas financeira estatal (os famosos tecnocratas) e amplos grupos formadores das elites políticas. Tudo isso legitimado, durante um bom tempo pelo menos, pela mediocridade das camadas médias em suas mais variadas expressões, cuja palavra de ordem era proibir e dizer “não pode” sem qualquer questionamento.
15) comemorar o golpe de 64 é ignorar que a alternativa dos golpistas para as reformas sociais era uma “modernização conservadora”, que afastava a pressão das massas (povo era como disse o General Figueiredo, “prefiro os cavalos”) e permitia a expansão da economia associada a maiores liberdades para o capital externo e para a grande propriedade em geral. Como definiu um líder político perseguido após 64, a ideia dos conspiradores, influenciados pelo programa norte-americano da “Aliança para o Progresso”, era a de que a “senzala seria caiada, teria o seu “playground”, e os negrinhos receberiam mais comida. Mas permaneceria senzala”. Isso é tão atual!
Vale, pelo menos, tentar deixar vivo o registro dos anos da ditadura militar e dos desmandos do poder absoluto, com certeza de que a luta pela democracia é também a luta da memória contra o esquecimento. O golpe de 1964 jamais deve ser lembrado como um triunfo militar, como o quer o presidente da república, mas lembrado por todos como uma página vergonhosa do nosso país. Prova maior da abominação que é comemorar o golpe de 64 é que os próprios militares, tenham certeza, se consultados, não concordariam com essa insana comemoração, exceto meia dúzia de gatos pingados ao estilo do insano autor da ideia.

segunda-feira, 25 de março de 2019

Dia da água: e Daí!




Na sexta-feira passada, dia 22 de março, o Brasil comemorou o dia da água. Não sei o que exatamente as autoridades nisiaflorestenses vem fazendo em termos de projetos sobre a preservação de suas águas. Refiro-me de sua costa marítima, seus rios, fontes e lagoas. Com certeza as escolas lembraram dessa importante data, mas o assunto é tão sério que precisamos construir com a sociedade, em especial com as comunidades escolares, ações concretas sobre os problemas que afetam as nossas águas. 
São vários problemas, mas a poluição tem sido o maior deles. É o caso da galeria de esgoto que escorre de São José de Mipibu, deságua no rio Mipibu e finaliza na lagoa Papari. O problema é sério, pois essa lagoa é fonte de sustento de muitos nativos de Nísia Floresta. A lógica é que esse despejar constante irá afetar gradualmente a saúde dos pescadores e de quem se serve dela para outras finalidades, como lazer.
A lagoa Papari já sofre muito com o assoreamento. A poluição despejada por São José de Mipibu agrava a situação. As crianças precisam ser educadas a entender que se o povo não preservar seus mananciais, como fontes, pequenos rio, riachos, lagoas e o mar que costeia Nísia Floresta, ficará sem água no próximo século. 
É essa a herança que será deixada para os filhos e netos? Não seria muito egoísmo e falta de educação?
Algumas pessoas, completamente equivocadas, inclusive determinadas autoridades, alegam que isso é bobagem, que é invenção, que é coisa de gente de esquerda etc. Mas não! Os fatos são graves. Pergunte aos seus pais como era a temperatura de Nísia Floresta há dez anos. Peça para ele comparar a como está hoje.
Não tem nada de brincadeira. É sério. Há menos de dez anos, quando você caminhava na estrada que liga Nísia Floresta a São José de Mipibu, sentia uma brisa fria. Durante a noite a temperatura era tão amena que pelas seis horas da manhã via-se a intensidade do sereno.
Algum bobão poderá dizer: "ah! essa temperatura alta acomete o planeta inteiro". Mas tenha certeza que isso é uma soma. Se Nísia Floresta fizer a sua parte terá uma temperatura melhor, pois árvores preservam águas e juntos ÁGUA/MATA ajudam a diminuir grandemente a temperatura.
Até pouco tempo a relva era deliciosa para quem descia de São José de Mipibu a adentrava a caminho de Nísia Floresta. A vegetação parecia ter recebido uma borrifação, pois eram pingos minúsculos de água ao longo dos arbustos pela manhã. Durante a tarde era possível sentir no rosto a friagem diferenciada. Isso acabou. Sabe por quê? Por que em Nísia Floresta também estão acabando com as matas. Você não vê reflorestamento e arborização. E a mata ciliar, aquela que deve emoldurar os rios, lagoas e fontes.
Você já olhou a fonte que fornece água para a “Bica”? Dê uma olha com urgência. E faça alguma coisa. Não basta olhar. A relação ÁGUA/MATA é fundamental para a pureza dos mananciais e sua vivacidade. Sem eles a temperatura se eleva e as águas desaparecem lentamente.
Os mais velhos contam que o rio que corta a comunidade do Porto era mais caudaloso. Dali se pescava camarão e caranguejo à vontade. Veja como está! Você concorda?
Uma coisa é certa: as autoridades têm muita culpa nesse processo degradante. Mas e o povo? Será que o povo não está direcionando o seu esgoto para esse rio e outros? Tenham certeza que muito mais importante que pensar em culpados é acordar para o problema e reconhecer que ele é ocasionado por nós, e somente nós podemos mudar essa realidade. E com urgência!
Quem está causando a poluição? O que deve ser feito para reverter o quadro? Compete a quem? Há uma parte que é das autoridades: o que se refere às leis, projetos e políticas públicas. Outra é do povo: não jogar nada nos rios, nas lagoas e no mar, cobrar das autoridades e até mesmo criar ONGS e associações pertinentes. Na realidade é papel de todos, pois denota civilidade e cidadania
Dê uma olhadinha nas águas e nas matas de Nísia Floresta. Quais são os problemas? Saiba que é muito egoísmo constatar um problema e se calar. Não é coisa de um cidadão civilizado.
Que tal agir?
Vamos cuidar das nossas águas, pois a nossa vida depende delas.

quinta-feira, 21 de março de 2019

Memória de Parañá-Mirim - "Vela Branca" - 1934



ACTA NOTURNA
MEMÓRIA DE PARAÑA-MIRIM – 1934 – “VELA BRANCA"...
 
Em 1934 alguns franceses visitaram essas terras com o objetivo de encontrar uma área ideal para construir o Campo de Pouso da “Air France”, pioneira da aviação comercial através do Atlântico. O local, diga-se de passagem, ainda não se chamava Parnamirim. Era uma extensão despovoada, um prado de alecrim silvestre e tabuleiros, parte de cidades imiscuídas a Natal, Papari e São José de Mipibu. Cada qual, em suas peculiares convenções geográficas. 
 
O topônimo tupi “Paraña-Mirim” como sabemos, era o nome dado pelos indígenas locais a um pequeno rio, por sinal até hoje envolto em controvérsias sobre a sua localização. O famoso mapa de Marcgraf (Marcgrave para uns), desenhado em 1643, traz apenas o nome “paraña-mirim”, sem precisão diante de vários veios d’água. Mas isso é outra história…
Pois bem, tais franceses andaram por aqui sondando o local exato para comprar terras e aplainar o Campo de Avião. A opção foi construí-lo em Macaíba, onde localizaram uma imensa esplanada com excelentes condições aeronáuticas. Ficaram loucos pelo terreno. Maravilha!
 
Mas houve um problema: os proprietários, ao darem fé que eram estrangeiros adoraram a propriedade, acharam por bem explorá-los, pedindo um valor exorbitante. Queriam dinheiro de puxar de rodo.
 
Os gauleses se assustaram e retornaram ao país de origem. Certamente foram estudar outros empreendimentos. Infelizmente esse tipo de exploração nos preços dos imóveis é comum até hoje, mesmo prejudicando os próprios brasileiros.
 
A estada dos europeus virou notícia à época, chegando aos ouvidos de Manoel Machado, um dos homens mais ricos da região, empresário e exportador português, dono de diversos empreendimentos comerciais e muitas terras. A maior propriedade rural da região era dele: “Fazenda Pitimbu”, onde havia um engenho de cana de açúcar, portanto também conhecida como “Engenho Pitimbu”. 
 
A estância possuía uma casa assobradada, de alvenaria com energia elétrica, geladeira à gás e rádio. Verdadeiros adventos da modernidade para a realidade da ápoca. O casarão era emoldurada por uma floresta nativa, cujo rio Pitimbu, piscoso e perene, dava água potável.
A sede do engenho era permeada de árvores frutíferas, destacando-se mangueiras, fruta-pão, cajá-manga, jaca, dendê, abacate, coco, graviola, carambola, limão, laranja, mamão. 
 
Havia uma pequena criação comandada por uma quantidade razoável de empregados. A fazenda era o local onde o imigrante português recarregava as suas baterias ao lado de sua esposa Amélia Machado, que se tornaria, depois, “Viúva Machado” e em torno dela criariam uma terrível e injusta lenda (isso também é outra história; quem quiser conhecê-la é só pesquisar no meu blog https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/...
 
Como estava dizendo, ao saber do interesse dos franceses por terras na região - que a essa altura haviam retornado a Paris -, Manoel Machado deslocou-se à França, localizou os ditos franceses e ofereceu, gratuitamente, uma grande extensão de terras nos fundos da
 fazenda Pitimbu.
Os gauleses ficaram surpresos, mas dessa vez por bom motivo. Eles se sensibilizaram, e acharam por bem oferecer uma espécie de contrapartida pelo gesto altruísta do conterrâneo europeu. Propuseram contratar equipamentos do doador para fazer a derrubada das matas, terraplenagem e comprar em seus armazéns o material de construção e tudo mais que fosse necessário à concretização do empreendimento. Assim seguiram os trabalhos…
 
Naquela época havia uma estrada de rodagem ligando Natal a Fazenda Pitimbu através de Guarapes. A distância era grande. Quem viajasse de caminhão precisava dar uma volta demorada e cansativa para chegar a “Parnamirim”.
 
Como sabemos, a “rodovia” asfaltada só viria em 1942, construída pelos norte-americanos, mas também é outra história. Lembre-se que estamos no início da década de 30. É outro tempo. As imediações externas da fazenda eram rasgadas por veredas e pequenas estradinhas sobre a areia fofa e alva, difícil percorrê-las até mesmo pelos animais de trabalho, imagine veículos modernos.
 
Enfim os técnicos europeus, responsáveis pela construção do “Campo de Pouso”, chegaram a Natal e se organizaram com grandes equipamentos. Na data acordada para o início da marcação do terreno, todos viajaram num caminhão das empresas Manoel Machado até a Fazenda Pitimbu. 
 
Sua residência seria o porto seguro para o desenrolar dos negócios, pois era bem próxima. Mas havia um grande problema. A estrada boa era somente até o engenho Pitimbu. Eles precisariam prosseguir mais seis quilômetros adiante nas veredas e atalhos de areia fofa.
Era muito equipamento pesado. Não havia como o caminhão se deslocar até o local escolhido para eles montarem um acampamento provisório e iniciarem a demarcação do Campo de Pouso, pois atolaria na areia. 
 
A mata era fechada, cortada apenas pela velha Great Western, onde a “Maria-Fumaça” apelidada de “Catita”, apitava diariamente, borrifando os seus vapores sobre as copas das árvores, ligando Natal a Paraíba. A solução foi viajar no lombo de cavalos ou jumentos.
Eis que os europeus se assustaram. Nenhum deles era familiarizado ao mais antigo transporte da humanidade. Não conseguiam cavalgar. “Vamos caminhando! Colocaremos tudo sobre uma tropa de mulas e jumentos e caminharemos devagar!” 
 
Dessa vez os brasileiros se assustaram. Para eles a distância era um pulo, mas para um grupo de “doutores” desacostumados a tais “aventuras” o desgaste seria grande. E mesmo sabendo que seria sacrificante fazer a caminhada, era a única opção. 
 
Conversa vai, conversa vem… decidiram que os peões conduziriam a comitiva de animais e eles iriam a pé. Os estrangeiros ficaram admirados com a força dos potiguares, os quais eram acostumados à vida pesada da fazenda. Para eles aquilo não era nada. A alternativa não era tão boa, mas… dos males, o menor.
 
Até aí tudo estava resolvido. Foi então que apareceu na história, ou melhor, reapareceu, um homem chamado Júlio Isaías de Macedo. Era nada mais que o próprio motorista do caminhão, conhecido na região como “Vela Branca”. Então Júlio Isaías disse: "eu posso dirigir o caminhão sobre os trilhos". A ‘homarada’ ficou perplexa. “Mas como?” “Ora bolas, dirigindo!” Todos se olharam. Num piscar de olhos o caminhão subiu a linha férrea.
E assim, sentindo os solavancos do caminhão vencendo os dormentes, e o ajeita aqui e ali, venceram a façanha. A maior dificuldade foi a passagem sobre os bueiros (manilhas de passagem de água do rio). Mas venceram os seis quilômetros. Ficaram exatamente onde planejaram. 
 
A linha férrea se divisava com o futuro Campo de Pouso, como ocorre até os dias atuais. Os estrangeiros ficaram surpresos com a criatividade dos potiguares. Essa história foi contada durante muito tempo por quem a presenciou ou viu a peripécia de “Vela Branca”. Escutei-a da boca de uma das filhas de D. João, o qual contava para ela. 
 
É mais um retalho histórico de Paraná-Mirim. Creio que as histórias trazem inúmeras histórias dentro delas… são fragmentos, detalhes… mas nada perdem das histórias maiores pela sua riqueza. Aqui está um exemplo… (L.C.F.)

quinta-feira, 7 de março de 2019

Homero Homem, genial escritor potiguar quase desconhecido


       JÁ OUVIU FALAR EM HOMERO HOMEM, AUTOR DO “MENINO DE ASAS”? SABIA QUE ELE É NORTERIO-GRANDENSE?
Refiro-me ao escritor potiguar HOMERO HOMEM DE SIQUEIRA CAVALCANTI, nascido em Canguaretama, cidade próxima a Natal, no estado do Rio Grande do Norte, cuja bibliografia e biografia - passam despercebidas na sua própria terra natal, exceto aos leitores mais efusivos.
Homero Homem é o único escritor norte-rio-grandense traduzido para outra língua. Nasceu o insigne personagem no Engenho Catu no dia 5 de janeiro de 1921. Formou-se em Natal, mas ainda jovem migrou para o Rio de Janeiro e só vinha ao solo potiguar a passeio. Nunca esqueceu suas origens, inclusive o cheiro delicioso de rapadura de cana de açúcar.

É um dos escritores brasileiros mais respeitados. Teve duas de suas obras contempladas durante décadas pela Coleção Vagalume. Foi assim que o conheci, quando adolescente, ao ler primeiramente “Menino de Asas”, publicado em 1980, alcançando venda superior a um milhão de exemplares permanecendo lido vorazmente fora de seu estado de origem, por incrível que pareça. Depois li “Cabra das Rocas”, a pedido dos professores.

Lembro-me que ao término da leitura, respondi a um intragável questionário pertinente a cada história. Também me recordo ter brincado com a minha genitora sobre isso: “mãe, eu estou lendo um livro de uma pessoa lá do seu Rio Grande do Norte”. “Ah! Então deve ser bom! Se é de lá, é bom” devolveu ela.
Quando passeava pelas linhas de “Cabra das Rocas” ia contando para ela os episódios mais interessantes. Então ela contou-me que em criança passava pelas Rocas, bairro de Natal, quando ia para a Praia do Meio. À época eu não entendia essa geografia. Só muito tempo depois, descobri o bairro, próximo da morada do velho Cornélio Campina, criador do “Araruna”.

Mas suas obras não param por aí. O Rio Grande do Norte é tema de todo um livro de poesia intitulado “Terra Iluminada”. Ele é autor de Além de contos e novelas e poesias, dirigidos ao público infanto-juvenil. Por exemplo, o romance “Cabra das Rocas” atingiu sucesso em todo o Brasil. Depois veio “Menino de Asas”, ambos da Coleção vagalume. Mas não pense que está encerrada a sua biografia. Alguns de seus livros caminham para a vigésima terceira edição, tornando-o o escritor potiguar mais lido dentre outros autores conterrâneos. “Cabra das Rocas”, por exemplo, virou “Gente delle Rocas” em sua tradução italiana.
Outros livros notáveis na área da ficção encantam o leitor, por exemplo: o romance “O Goleador”, (primeiro volume de uma trilogia do futebol), e a novela “O Moço da Camisa 10”.

Embora a sua prosa é extraordinária, muitos críticos reconhecem o nosso Homero Homem mais importante como poeta. No rol dos notáveis representantes da geração pós-45, o autor potiguar se destaca como um romântico fora do seu tempo. Por exemplo, o poeta Manoel de Barros (1916-2013), seu contemporâneo, pertenceu a geração pós-45, mas sua obra não evidenciava o romantismo visto em Homero Homem. Sua retórica é outra.
A obra do autor canguaretamense está imbuída de valores românticos: subjetivismo, exaltação da mulher amada, comunhão com a natureza – principalmente o mar - crítica social e política e outras. Não significa que ele seja atrasou-se. A sua escrita poética pautada de ritmos, de musicalidade, contribui com notável destaque com a poesia atual. O que o torna moderno.
A estreia de Homero Homem deu-se em 1954, no Rio de Janeiro, com um poema em prosa, “A Cidade, Suíte de Amor e Secreta Esperança”. Em 1958 publicou “Calendário Marinheiro” e a partir de então vários outros livros reunidos, em 1981, num volume sob o título “O Agrimensor da Aurora”. Pouco tempo depois, em 1983, presenteou principalmente o leitor norte-rio-grandense com “O Luar Potiguar” (Rio, 1983), uma homenagem à sua terra. Em 1990 escolheu a capital de sua terra natal para publicar “Eu sem Ego”.
Morava no Leblon. Durante anos assinou artigos no “Diário de Notícias”, no Rio de Janeiro, tratando sobre os mais variados temas. Era comunista. Fundou o Partido Socialista, ao lado de João Mangabeira. Foi secretário da União Brasileira de Escritores da Guanabara (1960-1966).  Teve três mulheres através de uniões distintas: Téia Carpen, Zaira Kemper e Alzira Figueiredo. Foi pai de Eduardo, Maria Elisa e Ana Maria. Vale ressaltar que tendo enviuvado e ficado com um filho com meros três meses de idade, assumiu a maternidade durante anos, até apaixonar-se novamente. Dizia nesse tempo que "era a mae do ano". 
Sabe-se que existem pessoas famosas, de várias áreas, que negam suas raízes. Não é o caso do nosso Homero Homem. É curioso que um escritor de tal quilate, que amou e exaltou tanto a sua terra seja estudado e lido nos chamados “grandes centros”, mas esteja esquecido na sua própria terra natal com raras exceções.
Um de seus críticos, Leo Gilson Ribeiro disse o seguinte sobre Homero Homem: “poeta de inquieta raiz social. (…) lirismo entre a emotividade, a erudição, o tom popular irônico e a musicalidade rítmica”.
Confesso que nunca vi uma escola com o nome de Homero Homem. Também desconheço que ele seja nome de alguma biblioteca, prêmio literário, comenda etc etc etc. Será que pelo menos em Canguaretama existe a devida deferência á sua obra? Não sei!
Homero Homem morreu em 1991, aos 70 anos.
Que tal abrirmos as páginas de seus livros  a partir de hoje?