ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

HOJE É DIA DO FOLCLORE, MAS ONDE ESTÁ O FOLCLORE DA CIDADE?

 

Vivemos na terra onde nasceu e bem viveu uma das mais geniais figuras da história do Brasil: Luís da Câmara Cascudo. E esse homem - graças a ele - salvou um planeta inteiro de informações que, se não tivesse sido Cascudo, tudo teria desaparecido. E, nesse planeta, o insigne potiguar salvou um país inteiro em sua Cultura Popular. Esse estado, o Rio Grande do Norte, tem o dever moral e histórico de ser referência na existência da plenitude de sua cultura popular. Esse dever deve ser sagrado e a cada dia ser reconstruído dentro das crianças, nos anos iniciais. 

Esse dever deve ser o arroz e feijão de toda autoridade potiguar e de todo gestor cultural. Esse dever deve pertencer a todas as instituições culturais e educacionais do Brasil. Como pode, na terra que nasceu um intelectual louvado em todo o Brasil, pai da preservação da nossa cultura popular, ver desaparecer elementos do nosso Folclore.      

Pois bem, o dia do Folclore nos convida a contemplar uma das mais profundas fontes da nossa humanidade: a cultura popular que, em sua pluralidade, nutre identidades, afirmações coletivas e o sentido de pertencimento. O folclore não é uma poção estática de costumes isolados; é um organismo vivo que pulsa nos gestos, nas palavras, na alimentação, na dança, na música, nos ritos e nas narrativas que atravessam gerações. Enquanto houver humanidade, haverá o folclore, porque a cultura popular é a memória em movimento, um mapa vivo das inúmeras formas de sentir e viver comuns a cada região do nosso imenso Brasil.


Porém, é necessário reconhecer uma dolorosa fragilidade: ao longo dos anos, a salvaguarda da cultura popular de cada município não recebeu, de forma sistemática, as estratégias que o seu valor exige. Em muitos lugares ouvimos manifestações de esquecimento e perda: “antigamente havia o Pastoril”, “antigamente havia a Lapinha”, “antigamente contavam histórias de assombração”, “antigamente existia a festa tal”.



Essas falas refletem uma transição que não decorreu apenas do tempo, mas de políticas públicas ausentes, de lacunas de planejamento cultural e da fragilidade de transmissão entre as gerações. Mestre e brincantes, detentores de saberes que custaram vida e memória, muitas vezes partiram sem que houvesse uma passagem bem delineada para seus herdeiros. O resultado é uma erosão silenciosa: tradições que, sem registro, sem continuidade, podem desaparecer.


Diante desse quadro, surge uma convicção poderosa: a proteção efetiva da cultura popular exige, de modo inadiável, um arcabouço institucional que a reconheça como patrimônio vivo e dinâmico. A proposta de ações legislativas em nível municipal não é meramente administrativa; é um compromisso ético com a identidade do povo. A criação de leis municipais que institua a apresentação folclórica como parte obrigatória de aberturas de eventos públicos e privados, a priorização de programas educativos que incorporem dança, música, dramaturgia e artes do corpo ligadas ao folclore, e a publicação de obras que registrem a histórica e a contemporânea expressão popular, são passos inaugurais para assegurar orçamento, continuidade e formação de novos praticantes.

É indispensável que cada município crie mecanismos para registrar, valorizar e perpetuar as manifestações locais. Quando houver mestres idosos, deve-se documentar integralmente o folguedo: coreografia, vestimentas, origem e trajetória da dança, história do mestre, bem como a criação de grupos mirins que preservem a prática para as futuras gerações. Folclore, afinal, é planeta que cabe na nossa rotina: está na alimentação, nos gestos, nos fazeres, na música, na dança, em tudo. A grande missão é preservar e revitalizar: não engessar a expressão, mas salvaguardá-la, relê-la, recriá-la com fidelidade à sua essência e com a ousadia de sua renovação.

Ao afirmar que “hoje é dia do Folclore” com seriedade, precisamos que haja, antes de tudo, uma sensibilidade pública e uma estrutura legal que assegurem esse compromisso. Leis que garantam a existência do folclore não significam congelamento da tradição; significam proteção para que o conhecimento tradicional não seja apenas lembrança, mas fonte de vida contínua para as comunidades. O respeito à diversidade é o caminho, e a preservação responsável é a ponte entre memória e futuro.

Que este dia seja, portanto, uma celebração consciente: um chamado à ação que envolve educação, cultura, políticas públicas e participação da comunidade. Que cada município veja no folclore não apenas um repertório de apresentações, mas um patrimônio vivo que requer cuidado, registro, estudo e reapropriação criativa. Assim, o folclore permanece, resistindo às amarras do esquecimento, porque, enquanto houver humanidade, haverá cultura popular que nos conecta, ilumina e transforma.








































































































































quinta-feira, 21 de agosto de 2025

LANÇAMENTO DO LIVRO "REZADEIRAS DO RIO GRANDE DO NORTE", DE GUTEMBERG COSTA...


Hoje, às 15h00, houve o lançamento do livro "Rezadeiras do Rio Grande do Norte", do amigo escritor e folclorista Gutemberg Costa... Na mesa também estavam presentes os folcloristas Iaperi Araújo, Rogenildo da Silva e dona Salete Barros, ambos benzedores. O evento contou com um público grande, inclusive Daliana Cascudo, neta do genial Câmara Cascudo. As falas foram incríveis. Recebi a graça de ter ao meu lado a benzedeira, d. Salete, um ser iluminado (há uma santidade nessa senhora), inclusive ela fez uma oração para mim.


O livro é uma riqueza e, conforme declarou Gutemberg Costa, é resultado de 30 anos de pesquisa, iniciada no início da década de 90. O evento foi extraordinariamente aconchegante, assim como nos transportar ao passado e estar num alpendre em noite morna de lua cheia, ouvindo nossos avós contando histórias...


Benzedeiras e benzedeiros não são coisas do passado. Eles resistem apesar de tudo e seguem fazendo o bem para muitos. Minha mãe, lá no Mato Grosso do Sul, nos educou a buscar sempre essas pessoas, as quais são normalmente muito simples, mas muito espirituais, e suas rezas são muito poderosas.

 
Lembro-me, em 1993, em Nísia Floresta, quando passei três dias com uma "espinha" de peixe enganchado na garganta. Eu já estava me organizando para ir ao médico quando me orientaram a procurar "D. Estelita de Oliveira", bisneta do "Cavaleiro da Roza". Ela me benzeu mais ou menos às 09h00 e disse: "Vá para casa. Antes do almoço você não estará sentido nada". 

Recordo-me que somente quando me sentei para almoçar que percebi que a "espinha" havia descido. É impressionante. Recordo-me também da d. Joaninha Bajal, de Nísia Floresta. Meu filho F. entrava em sua casa, mole, febril, e saia rindo. Isso em minutos, logo após o benzimento. Dona Joaninha era uma santa.

Para mim as benzedeiras são pessoas muito especiais - algo como que santificadas - e essa capacidade (que é um espécie de dom) não se explica com palavras. Ainda não entendemos o que é uma benzedeira, nem o que há numa benzedeira. Eu não saberia explicar o que torna uma benzedeira, benzedeira. É muito complexo. 



Dona Salete Barros (benzedeira).

Gutemberg, parabéns por esse presente tão precioso, ofertado ao Rio Grande do Norte!




UM MONTEIRO LOBATO FEMINISTA...


A literatura brasileira do século XIX, marcada por tradições patriarcais e pela construção de papéis sociais rigidamente delimitados, apresentava a mulher de maneira quase uniforme: a dona de casa, mãe e esposa submissa, tal como descreveu Gilberto Freyre em Sobrados e Mucambos.

No campo da leitura, poucas mulheres tinham acesso a obras de maior densidade intelectual. As leitoras, em sua maioria pertencentes às elites urbanas, restringiam-se a missais, a traduções de romances sentimentais franceses ou a compilações moralistas. A representação feminina no espaço literário, seja como leitora ou como personagem, ainda era de forte dependência em relação ao universo masculino.

Na Europa, algumas vozes já começavam a tensionar essa tradição. Escritoras como George Sand e personagens icônicas, como Madame Bovary, de Flaubert, revelavam as contradições da mulher burguesa diante da ordem patriarcal. Contudo, a imagem dominante permanecia a da esposa dócil e da filha obediente. Esse cenário começa a ser transformado, no Brasil, pela intervenção ousada de Monteiro Lobato, que, ao inserir personagens femininas de destaque em sua literatura infantil, projeta uma representação social inédita para o seu tempo.

As personagens femininas do Sítio do Picapau Amarelo não podem ser analisadas apenas como figuras literárias. Elas constituem discursos sociais encarnados em corpos narrativos, que desafiam normas de gênero vigentes. Dona Benta, a matriarca culta e leitora voraz; Tia Anastácia, guardiã do folclore e da memória popular; Narizinho, menina curiosa e autônoma; e Emília, a boneca de pano dotada de alma e espírito crítico, rompem com os estereótipos da passividade e inauguram uma nova pedagogia literária para a infância brasileira.

Sob a perspectiva da crítica literária feminista, pode-se argumentar que Lobato introduziu uma epistemologia alternativa do feminino. Suas protagonistas não se restringem ao espaço doméstico; pelo contrário, ocupam o lugar do saber, da fala e da crítica. Dona Benta assume funções tradicionalmente masculinas - a do erudito, do educador e do gestor - sendo uma mediadora entre o saber científico e a experiência cotidiana. Emília, por sua vez, encarna o espírito questionador e subversivo, antecipando debates sobre a autonomia e a subjetividade feminina.

A ligação entre Monteiro Lobato e Nísia Floresta não se dá apenas pelo reconhecimento explícito de sua obra. Ambos partilham de uma consciência crítica sobre a desigualdade de gênero. Nísia Floresta, considerada a primeira feminista da América Latina, publicara, ainda em 1832, Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens, obra de forte caráter iluminista e emancipatório. Em seus romances e ensaios, Nísia reivindicava a educação feminina, a autonomia da mulher e a igualdade de direitos - pautas revolucionárias para a época.

Ao incorporar referências à autora potiguar em seus ensaios e ao desenhar protagonistas femininas dotadas de autonomia, Lobato revela-se não apenas leitor de Nísia, mas continuador de sua visão. Pode-se dizer que Lobato “traduziu” para o universo infantil aquilo que Nísia defendera no campo político e filosófico: a necessidade de naturalizar a presença da mulher no espaço do conhecimento, da crítica e da liderança. Vale ressaltar que em uma de suas obras, Monteiro Lobato cita Nísia Floresta de forma elogiosa, provando que ele a conhecia bem.

Do ponto de vista sociológico, é relevante destacar que Lobato direcionou essa transformação ao público infantil. A pedagogia subjacente a sua obra atua como um mecanismo de socialização: crianças que crescem lendo sobre mulheres fortes e independentes constroem uma visão de mundo distinta daquelas expostas apenas a narrativas patriarcais. Nesse sentido, o Sítio do Picapau Amarelo não é apenas um espaço de fantasia, mas um laboratório social em que novos papéis de gênero são experimentados e legitimados.

Essa pedagogia feminista antecipada pode ser lida à luz das teorias de Pierre Bourdieu, especialmente no que se refere ao conceito de habitus. A literatura infantil, ao modelar práticas simbólicas e valores, ajuda a formar disposições cognitivas e comportamentais que se prolongam na vida adulta. Portanto, as personagens femininas de Lobato, ao destoarem da tradição, desempenham um papel ativo na modificação do imaginário social brasileiro.

É impossível, contudo, analisar Lobato sem reconhecer as ambiguidades de sua obra. O tratamento dado a personagens negras, como Tia Anastácia, reflete tanto o avanço de inseri-las em posição de relevância — guardiã da tradição oral, da sabedoria popular e do folclore brasileiro — quanto as limitações do discurso racial de sua época, permeado por estereótipos hoje considerados racistas.

A crítica contemporânea insiste, com razão, na necessidade de problematizar esse aspecto. Entretanto, do ponto de vista histórico, é igualmente válido reconhecer que, ao colocar uma mulher negra como depositária da memória cultural nacional, Lobato rompeu barreiras simbólicas e deu voz a segmentos sociais até então silenciados na literatura infantil.

Monteiro Lobato pode ser considerado um dos pioneiros na introdução de narrativas feministas na literatura infantil latino-americana. Ao criar personagens femininas autônomas, críticas e protagonistas, aproximou-se do projeto emancipatório inaugurado por Nísia Floresta no século XIX. Sua obra não apenas diverte, mas também educa - e educa para a igualdade, para a ciência e para o respeito às diferenças.

Seus textos, apesar das contradições, revelam um compromisso com a transformação social e com a construção de um Brasil mais justo. Ao delegar a mulheres fictícias - Dona Benta, Emília, Narizinho, Tia Anastácia - a tarefa de conduzir debates filosóficos, científicos e políticos, Lobato subverteu a ordem patriarcal e ensinou às novas gerações que a inteligência humana, como ele mesmo sublinhou, não tem sexo.

Assim, pode-se afirmar que a literatura infantil lobatiana, ao mesmo tempo em que dialoga com o passado, projeta um futuro. Um futuro em que as mulheres, como já reivindicava Nísia Floresta, não seriam coadjuvantes, mas protagonistas de sua própria história. 21.8.2025


quarta-feira, 20 de agosto de 2025

NÍSIA FLORESTA E O MÊS DE AGOSTO...

 

Nísia Floresta tinha má impressão com o mês de agosto, mês em que ela perdeu o pai, o esposo e a mãe. Na verdade o mês de agosto é pautado de superstições. No Mato Grosso do Sul, por exemplo, minha mãe (hoje com 93 anos), tinha a mania de dizer que "agosto é mês de cachorro louco". Por incrível que pareça era em agosto que havia surtos de raiva na cidade, num tempo em que os recursos públicos praticamente não chegavam de Cuiabá devido à distância descomunal (antes do Mato Grosso ser dividido), levando os pobres animais à morte.

Meu pai falava que não é bom fazer plantio em agosto por causa dos ventos fortes, inclusive é em agosto que acontecem forte tempestades na região. Com relação à nossa Nísia, ela, inclusive, criticou agosto, dizendo que esse mês havia levado familiares dela. Não sei se Nísia Floresta era supersticiosa com o mês de agosto ou se era apenas uma cisma devido a essa triste coincidência, mas, de fato, é um mês que impressiona a muitas pessoas...

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LICOR DE JENIPAPO...

 


Minha mãe fazia muito licor de maracujá, pequi, guavira (goivira,guabiraba) e jabuticaba. Ela lavava bem as frutas, enxugava, rasgava com as mãos, despedaçando-as e mergulhava numa cachaça boa. Ela usava uma vasilha plástica. Deixava guardada num armário que ficava numa área isolada da casa, de pouco uso, durante seis meses.


Passados os seis meses, ela escoava tudo numa peneira fina, dava umas leves apertadinhas no bagaço para que o álcool bem curtido saísse totalmente e jogava fora. Depois, ela pegava um funil daqueles bem grandes, de zinco, acamava um tufo de algodão (desses que se compra em farmácia) na parte fina do funil, ajeitando bem, mas sem apertá-lo. 


Esse funil tem que ser acomodado numa vasilha onde ficará o líquido pronto, após ser coado lentamente (e bote lentamente nisso) pingando na vasilha de baixo. Às vezes demora considerável tempo, às vezes é mais rápido, mas quanto mais lento, melhor ficará o licor. Sem borra. Depois de coado no algodão era a hora de ela preparar o licor. É simplesmente delicioso!

DETALHE IMPORTANTE: minha mãe e meu pai nunca ingeriram álcool. O licor era para as visitas... Eu já não obedeci minha mãe. Faço e bebo com moderação, inclusive ainda resta por aqui um licor de jabuticaba que fiz há uns dois anos...

Seis meses depois...


terça-feira, 19 de agosto de 2025

APELO AO PRIMEIRO PREFEITO DE PARNAMIRIM - POR LUÍS DA CÂMARA CASCUDO (1959)

 

APELO AO PRIMEIRO PREFEITO DE PARNAMIRIM - POR LUÍS DA CÂMARA CASCUDO (1959)

O texto a seguir tem 66 anos. Foi publicado no jornal "A República" do dia 13 de janeiro de 1959, foi escrito por Luís da Câmara Cascudo. É uma saudação à administração do primeiro prefeito de Parnamirim, Dioclécio Marques de Lucena. Cascudo fala um pouco sobre o que era Parnamirim e, como historiador experiente - tentando plantar a semente de uma árvore preciosa -, orienta-o sobre como garantir ao futuro que a História e a Memória daquele povo que já se encontrava ali, e a história que passaria a ser escrita a partir daquele momento, fosse para o papel, bem documentada. Para mim, esse é um dos mais importantes documentos sobre Parnamirim, pois ter recebido esse conselho de um homem do cabedal de Cascudo, consistia num privilégio inenarrável.

Quando um homem sábio como Cascudo com vasta experiência, chega até um prefeito, sem experiência, e lhe transmite informações que farão a diferença no futuro, está-se precavendo de problemas, ou seja, evitando que lacunas futuras permeiem a História, porém, mesmo tendo tido orientação desse sábio, não houve a sábia obediência. Não houve um trabalho de História Oral àquela época. Não existiu uma política de registro da história dos primeiros habitantes, da cultura popular, da própria história do próprio prefeito, enfim, não se construiu esse raciocínio. Não se plantou a semente ofertada por Cascudo.

Obviamente que Parnamirim tem a sua história. Uma história genérica como tem todos os municípios do Brasil com suas peculiaridades. Mas Cascudo quis que Parnamirim fizesse a diferença, e tivesse incontáveis histórias dentro da história. E que o surgimento de Parnamirim significasse também o surgimento do amor à história.

Não ter existido essa preocupação não desmerece o povo parnamirinense, povo altivo, trabalhador, idôneo, e que não teve culpa. Mas deixa uma grande lacuna. Lacuna que torna a história incompleta.

Se não tivesse existido Cascudo, o Brasil seria menor, pois ele doou a sua vida ao registro de tudo o que pôde. O inimaginável foi pensado por ele. História não é apenas a história política de uma cidade, mas a história do povo e de suas peculiaridades, e isso não foi feito. Houve, anos depois, tentativas de se escrever histórias e memórias com idosos que "sobraram", mas muitos já haviam partido e levado com eles verdadeiros baús repletos de ouro histórico.

Conselho bom não faltou. Conselho que teria colocado Dioclécio Duarte no panteão dos homens mais notáveis do Rio Grande do Norte pelo gesto nobre de ter plantado a semente da preservação irrestrita da história. Ele pode ter sido um homem e um profissional de bem, obviamente, mas no aspecto de ter feito a diferença que Cascudo aconselhou, infelizmente não aconteceu. Dioclécio não ficou para a história.

Esse apelo feito por Cascudo, segue atual. É atemporal e serve como exemplo para muitos. L.C.F. Sócio efetivo do IHGRN.

Vamos à carta de Cascudo...

APELO AO PRIMEIRO PREFEITO DE PARNAMIRIM 

Por Luís da Câmara Cascudo 

Muito me alegrei com o nascimento do município de Parnamirim e a nomeação do tenente Dioclécio Marques de Lucena para seu primeiro prefeito.

Todos os municípios criados, ou recriados, têm história velha mas Parnamirim é de ontem, o filho mais moço da Província, com testemunhas vivas de sua festa natalícia.

Em 1927 era uma campina deserta. E, 1958 é uma cidade.

Centenas e centenas de pessoas sabem a história de Parnamirim como se estivessem lendo um compêndio.

É justamente o ponto que me sugere este apelo ao prefeito de Parnamirim, tenente Dioclécio Marques de Lucena.

Faço um apelo para que ele possa incluir, patriótica e inteligentemente (porque há patriotas que nada têm de inteligentes e inteligentes que não são patriotas) no seu programa de colheita de informações seguras para a história de Parnamirim.

Esta colheita não implica despesa alguma e terá como colaboradores quantos sabem, real e positivamente, como a povoação começou, como a vila cresceu e como a cidade vive.

Essencial é que o prefeito não deixe perder-se a oportunidade única e valiosa de registrar e guardar no arquivo da prefeitura os documentos que amanhã serão preciosos e insubstituíveis para a história indiscutível do município.

Hoje há centenas de pessoas que sabem. Amanhã todos ignoram.

O que se deve fazer agora?

Escolher algumas pessoas mais antigas, dignas de crédito, residente no local, participantes da existência funcional de Parnamirim, e tomar a cada um o depoimento, assinado, firma reconhecida, e recolher estes documentos ao arquivo municipal.

Estes depoimentos trarão informações pessoais de como Parnamirim começou a constituir-se povoação, primeiras casas, onde foram construídas, os primeiros comerciantes fixos, as primeiras ruas, as primeiras autoridades, as famílias mais antigas residentes, os homens que lutaram sinceramente pela vida de Parnamirim, tudo quanto possa, de futuro, documentar o passado que agora é presente mas, como verificarão, já estará sujeito a debates e controvérsias quando começarem a recolher os dados históricos.

Faço este apelo porque o prefeito prestará um serviço assinalado e de alto valor, libertando Parnamirim das mentiras e das falsidades históricas, dos patriotas e “fundadores” que, possivelmente, nada tiveram com a história material do novo município.

Repito. Hoje centenas e centenas de pessoas sabem a verdade sobre Parnamirim. Amanhã, verdade e mentira estarão misturadas, confusas e sem possibilidade de identificação.

Agora é o tempo exato e legítimo do prefeito fazer guardar no arquivo municipal os primeiros documentos para a história de Parnamirim.

Depois, a história estará à mercê de reminiscências sem verificação e talvez sem autoridade idônea.

Este apelo é dirigido a todos os municípios novos.

Não se trata de um obséquio solicitado por um historiador, mas um apelo em favor da História do Rio Grande do Norte. 

(JORNAL “A REPÚBLICA”, 13 DE JANEIRO DE 1959)


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segunda-feira, 18 de agosto de 2025

quarta-feira, 13 de agosto de 2025

CARTA DE APELO ÀS AUTORIDADES COMPETENTES DE PARNAMIRIM, NATAL E INSTITUIÇÕES CULTURAIS E DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO

 

Tendo tomado conhecimento de que uma empresa construtora adquiriu a Fazenda Pitimbu, onde está localizado o casarão histórico que pertenceu à pioneira Amélia Duarte Machado, viúva de Manoel Machado (doadores das terras onde se ergueu a Base Aérea de Natal e, depois das terras onde se ergueu o município de Parnamirim), redigi o documento abaixo e enviarei amanhã a cada vereador, pois o assunto interessa em primeiro lugar ao povo desse município que faz divisa aqui com Natal. Vamos aguardar o retorno e quais providências serão tomadas.

CARTA DE APELO ÀS AUTORIDADES COMPETENTES DE PARNAMIRIM, NATAL E INSTITUIÇÕES CULTURAIS E DE PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO

Assunto: Urgente proteção do casarão de Amélia Duarte Machado e Manoel Machado – defesa da memória histórica de Parnamirim e Natal

O presente documento tem como primeira finalidade chamar a atenção para o risco iminente de demolição do casarão histórico que pertenceu a Amélia Duarte Machado, esposa de Manoel Machado, e a necessidade de adoção de medidas urgentes. Inicialmente – diante da eminente construção de um Conjunto Residencial por parte da empresa que adquiriu a fazenda –, é imprescindível, tomar-se conhecimento dos fatos junto aos atuais proprietários, intervindo e impedindo a possibilidade de demolição, para, em seguida, deliberar e executar as medidas cabíveis por parte das autoridades competentes e de pessoas e instituições interessadas na preservação desse patrimônio.

Amélia Duarte Machado e Manoel Machado são figuras centrais na história de Parnamirim. Eram deles as terras que deram origem ao campo de pouso na década de 1920 (Hoje Base Aérea) e, posteriormente, toda a onde se construiu o município de Parnamirim. O imóvel está situado na Fazenda Pitimbu, exatamente na divisa de ambos os municípios, às margens do Rio Pitimbu. É uma propriedade rural ampla, sem informações claras sobre a salvaguarda do casarão que, no momento, está intacto. Diante disso, expresso urgentemente o pedido de união de esforços para – urgentemente e como prioridade - impedir sua possível demolição para, em seguida, deliberar projetos para restauração e transformação do imóvel em um espaço de uso público.

Justificativa histórica

Na verdade, a família Machado é parte fundamental da memória de Parnamirim e Natal, tendo em vista que Manoel Machado, um dos homens mais ricos do Rio Grande do Norte nas décadas de 10 a 30, foi responsável por dar a Natal uma característica de progresso, tendo em vista que sua empresa vendia de tudo, inclusive artigos importados e do mais alto luxo.

Amélia Machado, pioneira como empresária no Rio Grande do Norte, exerceu papel exemplar como mulher de negócios junto à Base Aérea de Natal em uma época desafiadora para o sexo feminino, gesto que inspira e deve ser preservado.

O casarão conecta duas narrativas urbanas: Natal e Parnamirim, refletindo a relação histórica entre os municípios e o papel histórico da família Duarte.

No casarão da Fazenda Pitimbu ainda resistem alguns móveis de época que pertenceram ao casal Machado, como escrivaninha, mesa e cama (as imagens podem ser vistas nos links abaixo). Estive no local em 2013 e em 2024, e tais peças permanecem no local. Existe uma fotografia clássica de Amélia Machado sentada ao lado dessa escrivaninha, hoje esquecida no interior do casarão. Esses artefatos agregam valor museológico, documental e afetivo à memória dessa família tão importante e que muito colaborou com os municípios de Parnamirim e Natal.

É necessário, no momento, que as instituições e autoridades competentes provoquem a articulação entre MINISTÉRIO PÚBLICO, UFRN, IHGRN, IPHAN, PREFEITURAS DE PARNAMIRIM E NATAL, IFRN’s, FJA, CONSELHO ESTADUAL DE ARQUITETURA E A PRÓPRIA EMPRESA QUE ADQUIRIU O CASARÃO DE AMÉLIA MACHADO, BEM COMO INSTITUIÇÕES AFINS, VISANDO impedir a possível demolição do casarão, já que mesmo tendo procurado, desconheço até o momento o nome da empresa que adquiriu a fazenda.

Como o conjunto residencial ainda não foi construído, torna-se fácil um planejamento urbanístico que não traga prejuízo para o casarão nem para o projeto da empresa que o construirá. É fundamental desenvolver em seguida um plano de restauração que o torne espaço de uso comum e de memória, preservando o patrimônio como bem público.

O imóvel pode ter o caráter de Memorial, dedicado ao casal Manoel e Amélia Machado, reconhecendo seu papel histórico em ambos os municípios, ou Museu Municipal de Parnamirim, tendo em vista que o acervo do Centro Cultural (que funciona no antigo aeroporto Augusto Severo) aborda a Segunda Guerra Mundial e a presença norte-americana na região, portanto, em transformando o casarão no Museu Municipal de Parnamirim, seria berço da história dos pioneiros que nesse município se instalaram na década de 40, vindos de diversas cidades potiguares e estados vizinhos (suas histórias, seus saberes, suas tradições e afins, expondo material museológico doado pelas tantas famílias de pioneiros locais).

O casarão de Amélia Machado é uma das mais antigas construções de Parnamirim – com a sorte de estar praticamente intacto – e representa não apenas um bem arquitetônico, mas um elo entre as comunidades de Natal e Parnamirim, fortalecendo a identidade regional e o turismo cultural.

A defesa desse casarão não é apenas uma questão de conservar uma construção antiga, mas de honrar uma trajetória de doação, empreendedorismo e compromisso com a história. Que nos unamos para impedir sua possível demolição e propor um caminho de restauração, memória e uso público que beneficie as populações de Natal, Parnamirim e região. Coloco-me à disposição para colaborar nesse projeto.

Parnamirim, 14 de agosto de 2025

Com respeito e urgência,

Luís Carlos Freire - Sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte - IHGRN

Telefone (Whatsapp): 84 99903 6081

ABAIXO: LINKS SOBRE O CASÃO E A PERSONAGEM AMÉLIA DUARTE MACHADO

Link sobre o casarão na Fazenda Pitimbu:

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: CASARÃO DE AMÉLIA MACHADO - UM MUSEU INVISÍVEL

Link sobre a história de Amélia Machado, conhecida como “Viúva Machado”.

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Viúva Machado, uma mulher desconsagrada

Link sobre o pioneirismo de Amélia Duarte Machado:

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: A DESCONSTRUÇÃO DO SILENCIAMENTO: AMÉLIA DUARTE MACHADO...

Links outros sobre Amélia Machado:

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: As mangueiras da viúva Machado...

OUTRO:

NISIAFLORESTAPORLUISCARLOSFREIRE: Resultados da pesquisa https://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/search?q=.+O+CASAR%C3%83O+DE+AM%C3%89LIA+DUARTE+MACHADO+ESQUECIDO+NA+FAZENDA+PITIMBU