ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

terça-feira, 20 de abril de 2021

Livro "A saia do amor", de Ana Catarina Silva Fernandes - Uma obra adiante...


Antes de ontem fui presenteado com “A SAIA DO AMOR”, ofertada pela autora Ana Catarina Silva Fernandes, lindamente bordada pelos pinceis de Roberto Silva. Já a conhecia de ler, à ocasião que ela me mostrou assim que saiu da figurinista. A primeira impressão que tive ao julgar o livro pela capa, é que a história falaria de saias, portanto um filme de saias diversas saltou do meu imaginário. Vi, primeiro, os “dervixes rodopiantes” de Istambul com suas saias que os fazem quase flutuar. Eles rodam incontinenti em torno do próprio corpo num ritual com música e vestimentas próprias, acreditando que assim atingem o nirvana. Mas parece que a autora de fato atinge esse nirvana em sua obra... meu imaginário não parece errado.

 

Os "Dervixes", de Estambul, Turquia.

Veio as imagens das belas saias armadas dos pais e mães de santos, sob possessões e batuques, e Ana Catarina pareceu-me possuída de fato pelo verbo, quando divaga coisas, quando diz sem dizer... Lembrei-me das batinas sacerdotais, quais saias, farfalhando nas procissões. E Ana Catarina também mostra-se sacerdotiza das palavras apoucadas, que dizem o bastante, que sugerem... Reportei-me às saias das cirandeiras. E Ana Catarina, de fato vive numa ciranda a partir de sua própria vida dinâmica e suas próprias saias diferenciadas... Ocorreu-me as HQ nas saias esvoaçantes da Madame Mim sobre sua vassoura voadora que povoou a minha infância. E Ana Catarina também traz umas doses de feitiço, pois ela nos enebria e nos confunde às vezes. Visualizei a saia da Virgem Maria, a Mãe De Deus, exatamente como se apresentava numa imensa peanha de mogno que ficava na entrada da Matriz da minha cidade natal. E Ana Catarina também é mãe, portanto possui essa santidade... Enfim lembrei-me das saias da minha mãe e de minhas cinco irmãs...

Madame Mim

Ao lado da autora, quando da primeira apresentação de sua obra, li-a saborosamente, e encontrei uma escritora sensível, que serviu-se das saias de sua mãe para falar de amor, em especial uma saia de bolinhas coloridas. Parecida com o poeta Manoel de Barros, “que era da invencionática”, a personagem imaginária da obra era da Matemática, e passava horas contando as bolinhas coloridas da saia. De fato, no sentido mágico da infância, as crianças viajam no inimaginável. Quando eu era criança, viajava no piso de taco de peroba rosa e grapia da casa dos meus padrinhos. Sua geometria me permitia imaginar degraus, então eu descia e subia mentalmente aquelas escadarias infinitas que tomavam conta da sala. Aquele chão lúdico combinava com os meus nove anos, assim eu disfarçava assistir televisão. 

 


Pois bem, “A SAIA DO AMOR” é uma obra encantadora pelas infâncias contidas nela. Suas letrinhas de macarrão quais formiguinhas inquietas, atiçam os olhinhos das crianças e adultos que tem o poder de se permitir essa viagem. Seus desenhos buscam a mesma ingenuidade contida em Miró. A história desperta um caudal de outras histórias de amor. Amor materno. Amor filial. 


A obra não pintou a mãe, a dona, ou o dono da saia de bolinhas, mas sugeriu ao leitor reconhecer a sua mãe, o seu pai-mãe e outros modelos de mães reais. Acabo de lembrar, nesse exato momento, da minha mãe contando histórias antigas de família, estórias de Trancoso, de assombração, coisa de fazer medo, e sempre de saia abaixo do joelho. 

 


“A SAIA DO AMOR” é um poema de amor, cuidadosamente traduzido de forma trilíngue, com um apelo artístico, externando o sentimento da autora em três belos idiomas. Mas uma observação não vou revelar – apenas vou divagar – e devagar – pois não sou o autor. Assim como Machado de Assis magistralmente construiu um cipoal que não deixa clara a traição entre Capitu e Bentinho, “A SAIA DO AMOR” deixa para o leitor sugerir um detalhe que não vou contar, pois não percebi na primeira leitura. Percebi ontem, quando recebi um exemplar da autora e me sentei para viajar. Então notei uma intenção. Se é que estou certo. 


 

 A autora, cavilosamente filosofante, não quis ser óbvia e divagou alguns pontos. Ela diz mais do que está escrito. Suas palavras ecoam, como se tivessem sido escritas dentro daquele imenso caramujo Búzio que ela exibe na fotografia. Não diz o ditado que “para o bom entendedor, meia palavra basta”? Acho que ela foi por esses desvios. A mãe é mãe? É pai-mãe, é mãe-mãe? Seus filhos são adotivos? O resto não vou dizer... Um educador ou mediador de leitura viajará muito  n“A SAIA DO AMOR”. Em síntese, como apaixonado por livros de crianças em plenos 53 anos de idade, constato que o Rio Grande do Norte possui autores maravilhosos e literatura infantil de grande bom gosto e qualidade. Parabéns, Ana Catarina! Parabéns, Roberto Silva! Viva o livro!

Obra "Olho", do pintor espanhol Juan Miró.
 

sábado, 17 de abril de 2021

Com os povos indígenas Guarani-Kaiowá - Mato Grosso do Sul - Viva os povos indígenas!

 


COM OS INDÍGENAS GUARANIS-KAIOWÁS - MATO GROSSO DO SUL - VIVA OS POVOS INDÍGENAS! 

Lembro-me, com saudade, dos indígenas Kaiowás. Vê-los sempre em alguma diligência nas ruas da minha cidade natal significava um filme ao vivo. Passavam despercebidos aos urbanos por serem a própria paisagem. Eram arredios, desconfiados, iguais a alguns estrangeiros. (estrangeiro na própria terra?!). Os Kaiowás falavam macarronicamente a língua portuguesa, pois o idioma mater deles é o guarani; não exatamente o guarani falado no Paraguai. Existe diferença tal qual o português brasileiro e o de Portugal. Eles também falam uma compilação de dialetos, dos quais muitos se extinguiram com a morte dos idosos. Alguns ainda resistem,arranhados pelos mais novos. Porém, fluente mesmo é o guarani. Na divisa do estado do Mato Grosso do Sul, onde nasci e fui educado, é comum o povo se comunicar em português, espanhol e guarani, por influência do Paraguai.
Eu adorava flagrar os kaiowás em conversação. Não sei explicar o motivo. Simplesmente gostava de vê-los proseando aquela língua de árvore, língua de água, língua de terra, língua silvestre. É gostoso ouvi-la. Em especial, é encantador apreciar as crianças conversando com os mais velhos. Seus nhenhenhens têm sotaque de passarinho. Para mim é encontro dos primórdios do Mundo com o tempo atual. É passado e presente frente a frente, vivos, fluentes, palpitantes, tal qual um coração.
 
 
 
O pensador Jean Jacques Rousseau nos contou sobre o mito do“bom selvagem”em sua obra. Defendeu a ideia de que o homem primitivo é bom por natureza. Disse que a sociedade o corrompe e o torna mal. Em partes. A nossa própria Nísia Floresta, em seu livro “A lágrima de um Caeté” retrata o índio pernambucano,há quase duzentos anos,chorando a sua derrota contra o homem branco. Mas vamos para frente que explicarei sobre os índios que conheci ao vivo e em cores.
Como cresci junto a muitos índios Kaiowás e os vi “in loco”, adquiri profunda admiração e respeito a eles. Não é à toa que possuo uma extensa biblioteca sobre os povos indígenas do Brasil, tema que me fascina desde que eu era quase um deles, pois cresci numa cidade emoldurada por natureza abundante, cujas araras e papagaios tapavam as nuvens à tardinha, em voejos inacabáveis.
Meu desenvolvimento se deu em meio às seriemas. Era fácil alcançá-las em tempo chuvoso, à custa de um desabalado galope de cavalo. Elas ficavam pesadas de água. Hoje, meninos brincam alisando dedo no vidro do esmarte. Cansei de ver onças saltando do braço de ingazeiras e caindo nos rios. Corri desabalado dentro dos túneis de capivaras com esta irmã da foto. Um dia meu pai atropelou um bando de tamanduás-bandeira na escuridão de uma estrada rural. Nunca esqueci o susto e a nossa tristeza. Foi inesperado. Inúmeras vezes vi bandos sem fim de caititus barulhentos, rangendo os marfins mata adentro. Enfim eu era um branco índio.Creio. Por tal razão, entendo a personalidade dos nossos índios exatamente igual a qualquer pessoa que cresce afastada dos hábitos urbanos. Há muita inocência e simplicidade na maioria. O índio primitivo por questões culturais, espirituais etc, sob visão antropológica, também teve o que podemos afirmar como “lado mal”. Mas isso é outro tempo. Exige outras reflexões que não cabem aqui.
Como sabemos, índio tem uma inclinação natural pela guerra. Uns com mais e outros com menos intensidade. É algo que está nos seus genes, pois como eram nômades muito antes de chegarem às terras que seriam o Brasil -ou “Pindorama” - não poderiam ser avessos à luta. E isso acontece a nós, urbanos. Se formos inocentes e ingênuos, mesmo no contexto entendido como “civilizado”, seremos engolidos pelos maus e oportunistas. A vontade de brigar é o natural instinto de sobrevivência. Não é à toa que existem diversas “práticas esportivas” inventadas por todas as comunidades indígenas. Eles promovem brincadeiras para agilidade e fortalecimento do físico e psicológico para o possível enfrentamento às tribos inimigas.
Talvez você me pergunte “mas então porque eles comiam uns aos outros”? Entenda que nem todos eram canibais. Assim como nós, urbanos, apelidados de “civilizados”, podemos abominar certos comportamentos em algumas comunidades estrangeiras, eles agem iguais. Você comeria barata assada? Comeria um bom guisado de cachorro? Apedrejaria uma mulher que traiu o marido? É mais ou menos isso.
A data de hoje deve ser tratada com ênfase em todos os lugares, lembrando que a cultura afro-brasileira e indígena, segundo a lei, deve ser assunto fluente nas escolas, independente de data comemorativa.
Dia desses alguém falava em tom depreciativo sobre índio que possuía avião, índio que promovia prostituição, índio que cobrava pedágio, enfim a pessoa desenrolava um novelo de situações sobre índios de determinadas regiões para crucificá-los, generalizando. É um grande erro, pois a maioria das ações que os índios executam, nesse contexto, foi ensinado pelo homem urbano. E isso parece irreversível, pois as relações entre ambos jamais deixará de acontecer.
 

 
Na realidade há um contexto infinitamente complexo. No tocante ao madeireiro, aos latifundiários e posseiros, eles se tornam “amigos” dos índios e usam a “amizade” apenas para levar vantagem. O relacionamento com os índios é praticado exclusivamente para atender aos interesses deles. E fazem o mesmo perante as autoridades protetoras da natureza e com o próprio povo. Isso é popularmente chamado por alguns de “jogo de cintura”. O que explica ser submetido a tanta enganação senão ingenuidade? Parece contraditório, mas não. Esses senhores equivocados educam e instigaram os índios, por exemplo, a cobrar pedágio (pedir dinheiro aos motoristas que atravessam suas terras) e, por trás, os denunciam.
Para eles, estar do lado dos índios é vantajoso para se ter acesso aos recursos naturais cobiçados. Veja como são raposas velhas. Até parecem certos políticos que a gente conhece. Ou seja, eles aparentam estar do lado dos índios, aparentam estar do lado dos órgãos protetores do meio-ambiente, e por último,aparentam estar do lado do povo que se revolta com os índios. Mas, na realidade, eles estão só de um lado: o lado deles próprios. Agem única e exclusivamente em prol de seus interesses pessoais, que é explorar madeira de lei, minérios e terras para criar gado ou plantar. Pedágio é uma invenção do homem branco. Se os índios copiaram isso é preciso entender como se deu. Na realidade os índios praticam essa e outras ações por uma série de razões. E todas são explicadas pela interferência maliciosa e interesseira do homem branco, do homem “civilizado”.
Uma coisa eu tenho certeza absoluta: o índio verdadeiro possui uma inocência admirável. Chega a ser puro. Muitas vezes os índios adultos mais parecem crianças, por mais que sofram influência da urbanidade. Não falo de uma inocência débil, mas uma inocência racional nas suas práticas corriqueiras. Inocência boa. Por exemplo, quando os visitei com a minha irmã, que faz um trabalho junto a eles, era mais de 17 horas. Joge saia para buscar lenha. Quando abordado por nós, disse serenamente e em português macarrônico: “é hora de catar lenha; não é hora para visitar, senão amanhã não faz fogo; visita índio é antes do pôr-do-sol”.
Ele dizia isso quando uma jovem índia apareceu num rompante e debulhou uma espiga de palavreados estranhos n’outro dialeto. Ela implicava por ele estar conversando conosco na hora errada de ir para a mata fazer o que devia. Em outras palavras ele nos deu um ‘esbregue’, e foi reforçado pela índia. Curioso é que em meio a tanta pureza eles são gigantes e donos de uma sabedoria que jamais o homem branco sobrepujará. OBS. Eu, minha irmã e Joje estamos nessa fotografia postada, ocasião que os visitei há nove meses, quando estive no Mato Grosso do Sul.
Lembro-me dos Kaiowás com muita saudade e sinto-me chocado com as injustiças que fizeram e permanecem fazendo a todas as etnias indígenas brasileiras. OBS. Este texto é dedicado a Darcy Ribeiro, apaixonado pela causa indígena, o qual tive o prazer de conhecê-lo em 1995.
Nas fotos apareço com Joje minha irmã Regina e sua amiga Elizete que trabalham com eles...
Parabéns
pelo amor a esse povo forte. Nossos ancestrais... nosso presente! Respeitemos os filhos dessa terra. Os donos do Brasil!

Rolete: tradição antiga do Nordeste...

 


ROLETE: TRADIÇÃO ANTIGA DO NORDESTE...
 
Quando estive na Paraíba, recentemente, contemplei esse poema da gastronomia popular antiga. Só existe no Nordeste. Chamam-no "rolete". São "rolos", "rodinhas", ou "bolachas" de cana-de-açúcar. Cada cidade tem o seu modo próprio de expô-lo à venda. A granel, espalhado numa bacia de alumínio, (vendido por pedaço), ensacado em plásticos ou redinhas (saquinhos de laranja), espetado por um curioso dispositivo feito de bambu (como o exemplo na fotografia) enfim. 
 
No Rio Grande do Norte foi comum em quase todas as cidades, mas aos poucos a tradição foi desaparecendo. Talvez ainda se vê em Ceará-Mirim, no Rio Grande do Norte. Vi-o ali em 1999. O rolete é hábito saído de mãos pretas, resquício escravo. Meio de vida para gente muito pobre, que via na abundância dessa fruta alternativa para obter alguns patacões. As fazendas emolduradas de engenhos, repletas desses buquês chamados cana-de-açúcar tinham nessa fruta muitas alternativas. Dela veio a cachaça, a rapadura, o melaço, o mel-de-furo e o puxa-puxa. Cana-de-açúcar "in natura", na planta, é fruta feia, difícil de manusear. Diferente da laranja cravo, que se descasca com duas risadas, a cana-de-acúcar é fruta trabalhosa, solta micropelos que provocam coceira; às vezes a palha vira navalha, traz formigas... enfim a cana-de-acúcar arrancada na toceira é coisa para gente experiente. 
 
Certamente por isso o "rolete" - que é meio caminho andado - caiu na graça do povo, num tempo que ninguém sabia o que era chiclete, confeito etc. Os doces vinham da própria natureza. Vendedor de rolete fazia plantão defronte às igrejas, circos, cinemas, nas praças e qualquer lugar que tivesse "vavavu", no dizer do Dr. Antonio de Souza. Menino que tivesse bom faro arrastava logo o pai para próximo de um vendedor de rolete. Alí passava as horas. Saia depois que o chão ficava branco. 
 
 

 
Hoje em dia a tradição está cambaleante. Os doces modernos tomaram o lugar dos roletes. Os shoppings têm chocolate e marshmelow. Jamais alguém pagaria mico de vender ou comprar - acaso existisse - roletes no Midway, por exemplo. Hoje, a cultura raiz, ao invés de provocar atração, causa repulsa, salvas as raras exceções. Para ajudar, os quintais foram impermeabilizados pelos azulejos. Quem tem cana-de-açúcar no quintal de casa levanta a mão! Ah! E tem mais: quem disse que cana-de-açúcar estraga os dentes? Pelo contrário, cana-de-açúcar, ou melhor, o rolete, arranca todo o tártaro do dente, fortifica a gengiva e exercita o maxilar. Sem contar que a flor da cana-de-açúcar é uma das mais belas do Mundo. Experimente encher um vaso com flores da cana-de-açúcar, alternando-as com outras flores e rosas. Por certo lhe perguntarão de qual floricultura requintada veio o buquê. Mas voltando ao rolete, depois desse inventário todo, estou salivando só de pensar nessa deliciosa iguaria nordestina. 
 
 

 
OBS. Após publicar esse texto, recebi uma fotografia do jornalista José Alves (Dedé do Alerta"), o qual mandou a fotografia de sua esposa mostrando um pacote de roletes adquirido num ponto na praia de Tambaú, estado da Paraíba, coincidentemente num local onde eu frequento quando vou àquele estado. Fica o meu agradecimento por essa colaboração.
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Escrito em 2018

 

Acta Noturna - Embarque dos norte-americanos mortos durante a segunda guerra - Porto de Natal - Rio Grande do Norte

 


Acta Noturna - Embarque dos norte-americanos mortos durante a segunda guerra - Porto de Natal - Rio Grande do Norte

Cerimônia de embarque para os Estados Unidos da América, dos caixões com os restos mortais dos soldados norte-americanos, mortos em diversas partes do mundo, durante a Segunda Guerra Mundial, mas que foram sepultados em Natal como uma espécie de acomodação temporária para serem trasladados juntos ao final da guerra. Outros, chegavam aqui muito feridos e aqui morriam. À ocasião do translado, todos foram cobertos com a bandeira daquele país. A Guerra trouxe alguns avanços para Natal e imediações, por mais irônico que pareça. Foi momento elétrico. Muita vida. Muita transformação. Muita novidade. 
 

Os natalenses, ainda sob efeito do maior choque até então – proveniente da “Intentona” Comunista – tremeram com toda sorte de novidades. Os norte-americanos também. Conheceram as presepadas dos potiguares. Quase até comeram urubu. Compraram saguis selvagens, meigos e doces sob efeito de cachaça, mas, despertados da água que passarinho não bebe, ‘tascaram’-lhes mordidas nos dedos, arremessados longe. Por sorte havia antirrábica em estoque. Aprenderam que brasileiro é criativo. Aprenderam que o povo potiguar levanta uma casa em um dia. Daqui levaram centenas de botas de um desconhecido sapateiro que enriqueceu depois que sua invenção agradou aos filhos do Tio Sam. 
 

 
Casamentos? Houve muitos. Mas muitos pais e mães norte-americanos choraram a perda de seus filhos, os quais saíram alegres e esperançosos de diversas regiões dos Estados Unidos, dizendo “vou para a guerra, mas volto!” E voltaram, mas mortos. Assim também foi o caso de muitos brasileiros, no céu, na terra e no mar. Dentre poucos americanos mortos   exatamente em solo natalense, um permaneceu enterrado no Alecrim, vítima de meningite. Foi Tom Browning, de 22 anos (fotografia). A noiva brasileira pediu. Os pais do noivo aceitaram aquela espécie mórbida de casamento. Com certeza isso amenizava dores de ambos os lados...

Igrejas evangélicas interferindo negativamente na vacinação dos indígenas

 


Aproveitando o mês dedicado aos povos indígenas do Brasil, compartilho uma história muito preocupante, que tomei conhecimento, hoje pela manhã. Por uma questão ética, não vou nominar o local nem as pessoas envolvidas, mas afirmo com convicção, que uma história dessa precisa ser contada. Eu iria escrever tal episódio amanhã, mas não aguentei. Não dá!

Ontem uma equipe de agentes de saúde deslocou-se até uma determinada comunidade indígena Guarani-Kaiowá para vaciná-los e teve uma surpresa desagradável e preocupante. A maioria correu para o mato e desapareceu. Um dia antes, os mais velhos da comunidade inventaram uma viagem para uma outra aldeia. Na realidade, foi uma desculpa para fugir da vacina. 
 
Os indígenas que ficaram e atenderam a equipe da saúde também não quiseram ser vacinados. A equipe ficou indignada, e com muito cuidado, usou todos os argumentos possíveis para tentar sensibilizá-los. Estou dizendo “muito cuidado” porque os povos indígenas referidos são muito hostis com aquilo que não gostam. E por “não gostam” entendam até mesmo ser salvar a própria vida e outras coisas mais. Na realidade é algo imprevisível. 
 
Outro detalhe: não se generaliza, mas estes indígenas, em especial (trazendo tal comportamento para a cultura do homem branco) são muito desconfiados. Não sei o que o fator “ser desconfiado” significa exatamente para a cultura deles, mas realmente agem dessa forma com facilidade. Interpretam e fazem leituras sobre o que vem do homem branco sem que seja exatamente o que supõem. Mas o pior dessa história é a justificativa que eles usaram para não tomarem a vacina. Disseram que o pastor disse na igreja que eles não tomassem, pois teriam desagradáveis consequências tendo em vista ser um vírus chinês, fruto de laboratório e coisa de comunistas.
 
Na realidade esses indígenas em especial, não fazem ideia do que seja “vírus”, “chineses”, “laboratório” e tampouco “comunistas”, pois embora transitem na cidade e se misturem aos brancos, são 90% pessoas do mato. É algo deles. Não se explica. Mas a palavra do pastor é como se fosse uma palavra divina. Tanto é que todos os argumentos usados pela equipe da Saúde não tiveram efeito nenhum sobre eles, pois eles não são pastores evangélicos, ou seja, não são "ungidos". Vejam até que ponto um pastor pode influenciar equivocadamente uma igreja. A irresponsabilidade desse cidadão é imensa, pois ele está indo contra a Saúde Pública e colocando esses indígenas em risco de morte.
 
A equipe da saúde se retirou da comunidade. As autoridades ligadas à defesa dos indígenas estão tomando providências, até porque é um caso muito crítico. Tais vacinas são direcionadas para eles. O que fazer com essas vacinas? Desviá-las? O que fazer para conseguir convencer os indígenas a se vacinarem? Se continuarem hostis deverão ser vacinados à força? Até que ponto isso é ético/legal etc?
 
Na minha insignificante opinião tal pastor deveria ser convocado a ir até a comunidade indígena e desdizer a sua fala, até porque ele criou um problema muito grave. É uma opinião pessoal dele, mas ele a incutiu na mente de pessoas ingênuas. Não bastasse um presidente da república dizer que quem tomar a vacina vai virar jacaré, aparece um pastor com tal desserviço. 
 
A garantia da vacinação a todos os brasileiros é uma forma de garantir dos direitos preconizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). São direitos de acesso universal e integral à saúde, que atendem às necessidades das comunidades e envolvem os indígenas em todas as etapas do processo de planejamento, execução e avaliação das ações em saúde. Ninguém pode intervir nisso, impedindo o direito de se imunizar nossos irmãos indígenas em nome de delírios religiosos.
 
Pois bem, é complicado essa questão de igrejas interferirem em ações do estado. O pior é que tais pastores, salvo raras exceções, são danados para dizer que tiveram uma revelação divina. Outras, pelo que se vê, parecem ter o número do telefone de Deus. Para uma mente ingênua ou sem muita leitura, a persuasão é instantânea. É nessas sandices que findam causando tamanho imbróglio. Finalizando, sobre os indígenas que desapareceram na mata, eles reapareceram muito tempo depois que a equipe da saúde se retirou.
 
OBS. A imagem é meramente ilustrativa (domínio público)

Nísia Floresta e o surto de febre amarela na província do Rio de Janeiro

 


Em 1855 a febre amarela retomou sua maldição sobre a cidade do Rio de Janeiro. Houve muitas mortes. Nísia Floresta havia perdido a mãe - Antonia Freire - nesse ano. Estava muito abalada. O Rio de Janeiro parou. Nesse tempo suas ruas eram insalubres. As carruagens e carroças puxadas por cavalos promoviam uma lama de fezes e urina pelas avenidas e becos. O Rio fedia. A doença, assim como hoje, promoveu total isolamento social. Mas Nísia Floresta não conseguiu ficar em reclusão. Ela se apresentou como voluntária na enfermaria do Hospital Nossa Senhora da Conceição, que ficava na rua da Quitanda, n. 40, tornando-se uma grande colaboradora dos médicos e enfermeiros (Câmara). 
 

 
A epidemia foi anunciada no Brasil em maio de 1855, logo depois que aportou em Belém, no Pará, uma embarcação de Portugal, O Defensor, que trazia colonos do Porto, onde já grassava a epidemia. Os registros oficiais apontariam a galera como o ponto de propagação da infecção, tendo falecido durante a viagem 36 passageiros. O alerta inicial sobre a epidemia foi entretanto refutado pelo médico que atuava como inspetor local, e o navio, liberado. Logo em seguida, os casos se alastraram por Belém, totalizando 1.009 mortes na cidade e mais cinco mil na província do Pará. 
 

 
De lá, a epidemia rumou para outras províncias do norte do Império, incluindo Amazonas e Maranhão. Da Bahia, onde surgiu devastadora, ela atingiu Alagoas, Sergipe, Rio Grande do Norte e Pernambuco. Quatro meses após o anúncio da presença do cólera nas províncias do norte do Império, ele se havia alastrado para diversos municípios da província do Rio de Janeiro. Só no Rio de Janeiro morreram 4.828 pessoas. A peste findou em maio de 1856. Essa é uma página curiosa da vida da nossa Nísia, e nesse momento de pandemia, nada mais oportuno que trazer luz sobre a mesma, pois reforça a sua personalidade altruísta e corajosa, afinal não é para todos se meter numa multidão moribunda, vitimada por algo transmissível. E saiu ilesa. Esse registro nos foi dado por Adauto da Câmara, primeiro biógrafo de Nísia Floresta. Como sabemos, ele recebeu um amplo material manuscrito de Henrique Castriciano, que esteve com Lívia Augusta de Faria Rocha, filha de Nísia. Esse encontro permitiu-lhe recolher um vasto material sobre ela, inclusive algumas minúcias, detalhes esparços, que jamais saberíamos se alguém muito próximo não os tivesse dito. Castriciano pretendia escrever essa biografia, mas era muito doente e vivia em constantes crises. Bom que ele teve a generosidade intelectual de repassar o acervo para Adauto. Inclusive os retratos que se têm de Nísia Floresta foram repassados por ele. Sem Henrique, sem Adauto, diríamos "sem retratos de Nísia".

 

Ref. "História de Nísia Floresta, Câmara, Adauto da, ed. Pongetti, 1941. RJ

terça-feira, 13 de abril de 2021

Memória de Papari ´- Frontão dos cemitérios de Nísia Floresta, Arez e Goianinha - Histórias dentro de histórias...

 

Nísia Floresta

MEMÓRIA DE PAPARI - FRONTÃO DOS CEMITÉRIOS DE NÍSIA FLORESTA, AREZ E GOIANINHA - HISTÓRIAS DENTRO DE HISTÓRIAS... (POR LUÍS CARLOS FREIRE)


Para refletirmos um pouco sobre o belíssimo frontão, portal (ou frontispício) do cemitério de Papari, vamos fazer uma viagem imaginária a Arez, Goianinha e Nísia Floresta, cidades das mais antigas do estado do Rio Grande do Norte. Nesses municípios se encontram os portais de cemitério mais lindos que já  vi. Lembro-me com riqueza de detalhes quando avistei  o de Arez, pela primeira vez, de longe, pensei se tratar da entrada da propriedade de algum senhor de engenho. Impressão semelhante tive quando defrontei-me com o frontispício do cemitério de Nísia Floresta, cidade próxima a Natal, distando 42 km, embora esse último tem uma aura levemente moura em seus cimos. Até brinquei, perguntando qual o sultão morava ali. O mesmo ocorreu quando vi o frontão de Goianinha. São três obras de arte expostas a céu aberto, provavelmente construídas quase simultaneamente ou em datas muito próximas. Tesouros impagáveis.


O de Arez, erigido em 1882, está impregnado de nuanças rococós, enquanto o de Nísia Floresta carrega um misto de indígena e barroco. Mas se você perquiri-los com atenção, verá que embora as características dos três exemplares se diferem, há semelhanças na aplicação de alguns elementos e nos detalhes em alto e baixo relevos, assim como os floreios. Observe que nos portais de Nísia Floresta, Arez e Goianinha os ornamentos (composições/desenhos/óculo) se dividem por colunas. Duas delas são ‘óculo’ (espécie de janela).

 

Arez 


As de Arez são seis colunas sem uma base quadrangular, são planas, estreitas e bem mais altas que as dos demais cemitérios. As de Papari são quatro colunas com base quadrangular, são um pouco maiores que a altura de um homem adulto, e saltam abauladas para fora, formando a metade de uma coluna redonda, sendo pontilhadas de pequeninos sulcos. Esse mesmo efeito acontece com as duas colunas de Goianinha, muito embora são suspensas, tem uma base quadrangular, são quase do tamanho de um homem adulto. Observe que em ambos os lados da lateral do portão do frontão de Goianinha há uma cruz bastante estilizada em alto e baixo relevos, a qual se repete após as duas colunas de ambos os lados. Observe que sobre essas cruzes estilizadas há uma espécie de mandala de flores que se encontram muito parecidas nos outros dois frontões.


Um detalhe interessante difere o portal de Arez dos outros dois. Seu portal é uma peça única, vazada pelo pórtico de entrada, onde fica o portão, lembrando um nicho de igreja. E sobre ele há um ornamento que lembra um sino de igreja com uma cruz em seu pináculo. Já os frontões de Nísia Floresta e Goianinha, são peças separadas pelo portão. Elas independem uma da outra. Dentre os três frontões, o portão de ferro de Nísia Floresta é uma obra de arte à parte, diferente do de Goianinha, que com certeza não é o original, pois é uma peça leve e moderna. Já o de Arez também não apresenta uma ornamentação tão especial quanto o de Nísia Floresta e é mais moderno.


Nos cimos de todos eles há pinhas (espécie de flor de lótus). As de Arez são seis pinhas esguias e simples. As de Papari são quatro pinhas sulcadas em sentido vertical, e mais rechonchudas. O de Goianinha traz quatro pinhas iguais às de Arez. O de Papari e o de Arez trazem uma determinada flor redonda, que lembra uma mandala, exatamente igual. Observe a lateral da base da coluna do cemitério de Papari e constatará a similar no de Arez. O de Papari traz uma faixa divisória acima, permeada de margaridas trabalhadas em alto e baixo relevo. O de Arez também traz a faixa, mas com pequenos retângulos em alto relevo. Observe que o ornamento lateral de Goianinha, que encerra a peça, é exatamente igual ao de Nísia Floresta. Um detalhe que diferencia o portal de Goianinha dos demais é um belo ornamento engensoso, feito numa faixa que pega a base de toda a peça.

 

 Goianinha


Por que três construções tão distantes, feitas com concepções de Escolas Artísticas diferentes trazem semelhanças? Ora! É porque o autor é  o mesmo. É nada mais que Frei Herculano, um Capuchinho que exerceu o seu pastoreio em Papari e Mipibu durante alguns anos, tendo exercido diversos trabalhos nas vilas vizinhas, assim como Arez e Goianinha. 


Com relação a Nísia Floresta, gosto de lembrar sempre que os nisiaflorestenses são os donos reais disso. Podemos até cobrar cuidados e zelo por parte dos prefeitos, vereadores, secretários etc, muito embora nem todos deem o devido valor, além de a maioria estar ali de passagem (diferente do povo). Os verdadeiros cuidadores atendem pelo nome de “povo”. Se o povo não enxergar esse pertencimento em primeiro lugar, ninguém enxergará. Se o povo não reconhece verdadeiramente a singularidade e o precioso valor histórico impregnado nessa obra de arte da arquitetura, quem reconhecerá? Lembrem que essa peça é um dos grandes tesouros históricos de Papari, e tem mais de um século e meio.


O povo deve dizer: "isso é  nosso, somos nós que devemos cuidar disso primeiramente”, impedindo que outros o descaracterizem. Confesso que temo de uma hora dar problema no portão de ferro e algum desajuizado trocá-lo por um portão de ferro tubular. Estejam antenados com esse tesouro. Zelem-no. 


Para finalizar, nesse cemitério há um dos túmulos mais antigos de Papari encostado justamente nesse portal, do lado direito (para quem está  de frente ao portão). Alí está  enterrada uma prima legítima de minha mãe: Maria Luísa Peixoto Maranhão (Engenho Morgado), esposa de Roque Maranhão (Engenho São Roque). Ele, que também está sepultado ali, foi Intendente de Papari após a gestão do Coronel José  de Araújo. Ela faleceu aos 103 anos. Era conhecida como "Lula Maranhão". Nasceu no Engenho Morgado, cuja casa é datada de 1750 e ainda está no mesmo lugar. É a construção mais antiga de São José de Mipibu, de acordo com informações que colhi com o historiador mipibuense Tamires Ítalo Trigueiro Peixoto, (meu primo por parte de minha mãe). Quando a Vila de São José do Rio Grande foi instalada, a 22 de fevereiro de 1762, pelo Dr. Miguel Carlos Caldeira de Pina Castelo-Branco, Juiz de Fora e Provedor, este ficou ali hospedado.


Alí nasceram os antepassados da minha mãe. Contam os antigos da família que quando Roque  Maranhão era rapaz, ele passava defronte ao Engenho Morgado no seu belo cavalo branco com destino ao Engenho São Roque, e acenava para a menina Luísa, que ficava na janela do solar, olhando o horizonte. Era pré-adolescente nesse tempo. Ele dizia a todos "um dia eu vou me casar com aquela menina". E a profecia se concretizou. Alguns anos depois eles se casaram. Ele era mais velho que ela, mas o velho Ezequiel Peixoto e dona Janoca permitiram. E viveram juntos até o fim de suas vidas. Tiveram muitos filhos. 


Naquele tempo era comum um homem feito se casar com uma pré-adolescente. Via-se tanto isso como hoje vemos adolescentes se juntarem. A literatura registra incontáveis fatos de meninas de 12, 13 anos que se casavam com homens acima de 20 anos, e até já muito maduros. Minha bisavó, por exemplo, casou-se quando ia completar 12 anos. Na realidade, diferente dos meninos, como acontece até hoje, a maioria das meninas era muito desenvolvida fisicamente. O corpo de mulher destoava da infância trazida dentro delas. Minha mãe conta, por exemplo, que, já em sua casa, vivendo com o meu bisavô (marido dela) ela brincava de boneca, e teve uma senhora para acompanhá-la durante alguns anos nas coisas do lar. Ela só deixou o hábito quando os filhos começaram a nascer e ela precisou exercer o que aprendera com suas bonecas nas pessoas dos próprios filhos, bonecas e bonecos de carne e osso.

 

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Plágio e generosidade intelectual.

 


Generosidade intelectual é o nome dado ao gesto de compartilhar o conhecimento.  É o contrário de ter o conhecimento (escritos/acervos/Histórias de vida/testemunhos etc) só para si e retê-lo. É a ação de produzir informações e oferecê-las ao público sem cobrança. O meu blog é um exemplo disso. Creio que todos já perceberam que até a minha página no Facebook é usada com essa proposta.

 

Há autores que "pegam pesado" com relação a plágio, inclusive é tema até mesmo de TCC's. Casos de processos etc etc etc. Veja o que Caetano Veloso escreveu sobre: "Alguém ganha dinheiro com esse negócio. Por que o autor não vai ganhar? (Revista Época, 28 de fevereiro de 2011).


Muitos me perguntam por que não conservo inédito muitos dos meus escritos, deixando para divulgá-los no blog só depois de compilá-los em livro, já que vários deles trazem informações inéditas e outros são criações originais.


Na realidade tenho muito material a ser publicado realmente em livro, mas são coisas completamente diferentes do que divulgo em meu blog. Optei pela divulgação das minhas pesquisas (no caso, as que se referem ao município de Nísia Floresta) porque constatei que o referido município é muito carente em informações relacionadas à História e à Memória de seu povo. Já foi mais. Incomparavelmente mais.  Como leio e pesquiso muito, sempre tropeço em informações relacionadas a Nísia Floresta (fatos, personagens etc). Tudo o que encontro vou reservando num canto, e conforme o tempo passa, transformo em textos, contrito e calmamente. Muitas vezes meus textos (históricos) são construídos como uma colcha de retalhos: fragmentos encontrados em vários lugares, ou ouvidos de gente velha. Se eu fosse escrever só com único retalho, o texto ficaria vago, portanto prefiro oferecer uma colcha mais ampla, que permita ao leitor aquecer-se de conhecimentos.


É certo que meu blog é protegido, ou seja, se alguém quiser copiar uma informação ou fotografia sem autorização, terá que usar meios mais avançados e o fará com facilidade. Mas, uma pessoa honesta, que conhece a legislação sobre direitos autorais, jamais se servirá do "control c/control v". Prova disso é que recebo muitos contatos, via telefone e e-mail, de pessoas interessadas em minhas pesquisas e a querem usar como referência. E eu as envio por e-mail.


Há alguns anos, visitando uma feira de ciências, encontrei uma de minhas pesquisas transcrita "ipsis literis", assinada por outrem. E todos sabem que isso é plágio e plágio é crime. Tenho quase certeza que a pessoa não o fez por maldade, ou seja, agiu como fazem aqueles alunos que não gostam de estudar, que usam o "control c/control v" quando um professor solicita algum trabalho escolar. É por isso que sou favorável que Direitos Autorais deve ser um tema muito presente em sala de aula desde as séries iniciais. Imagine você copiar uma música de Roberto Carlos – por exemplo – e divulgá-la como sua. Com certeza você terá sérias complicações.


Tem muita gente por aí plagiando obras alheias, pois como não têm a repercussão de uma música, passam meio despercebidas. Alguns sabem que é crime. Outras não; agem por ignorância. É por esse motivo que as escolas devem se preocupar com isso. O assunto é sério.


O autor conhece o seu texto, esteja onde estiver, mesmo que o plagiador mude trechos ou palavras. Há outra forma de se saber se a pessoa o plagiou. Usemos como exemplo uma biografia. Se você biografou uma pessoa que nunca foi abordada para essa finalidade, se ouviu dessa pessoa peculiaridades, detalhes, confidências etc, se você transformou tais registros de história oral num texto e o divulgou, é óbvio que quem vir depois que o biografado morreu, jamais poderá reproduzir um texto igual, afinal não teve contato com a pessoa que você entrevistou. Se ele o fizer, configurará em plágio. Mas se a pessoa que o reproduziu for honesta, obviamente divulgará a fonte, ou seja, o nome do autor. Eu também já fui vítima dessa exata situação.


Muitas coisas que escrevo são fruto de informações obtidas "in loco", seja com fontes primárias, secundárias e História Oral. Às vezes me deparo com o meu exato objeto de pesquisa – seja pessoa viva, documento ou fotografia. Quando a pessoa que eu pesquiso já morreu, procuro seus familiares para construir lentamente o que for possível, como por exemplo, a história de Vicente Elísio. Desde 1997 pesquiso sobre o Dr. Antonio de Souza. E somente em 2015 consegui localizar uma pessoa – viva que teve relação com ele. É uma cunhada dele, viúva, atualmente com 99 anos, que foi casada com um irmão dele. Por sorte ela era lúcida à ocasião, e me contou peculiaridades e detalhes inéditos sobre a sua vida, inclusive me doou algumas fotografias dele e de familiares, além de alguns objetos pessoais. Isso é exatamente como encontrar um tesouro perdido. Até porque eu procurava por familiares deles desde 1997 e os encontrei por mero acaso.


Não me recordo a data no momento, mas já publiquei esse estudo no meu blogue, inclusive cedi fotografias ao Dr. Manoel Onofre Junior, que me procurou após lê-lo, tendo publicado recentemente um livro sobre Antonio de Souza. Talvez o leitor.


Não sou paranóico com isso, inclusive já vi vários trabalhos meus copiados, como já escrevi. mas, como educador, luto para que isso mude, pois é crime. Quando acesso o meu blog – com senha – tenho como conferir quais países  o acessaram, quantas vezes foi acessado naquele dia, naquela semana ou naquele mês. Há um gráfico que mostra várias informações de acesso. Desse modo eu sei quais são as postagens mais acessadas, menos acessadas etc.


Já ouvi casos de pessoas que escondem o conhecimento e não compartilham com ninguém. Algumas, dizem que é por egoísmo. Outras, por causa dos plagiadores e oportunistas. Muitos autores jamais divulgam os seus trabalhos, principalmente inéditos, justamente por causa de plagiadores. Isso é muito negativo, pois de repente morre e deixa de oferecer  uma grande contribuição principalmente aos jovens. Para que os blogues?


Noto que Nísia Floresta acessa muito o meu blog. Com muita frequência os nisiaflorestenses me ligam ou enviam e-mail para algum questionamento pertinente. Boa parte dos que o acessam são estudantes secundaristas e universitários, inclusive professores, muito embora do Brasil inteiro. Isso é maravilhoso, pois o conhecimento deve voar sem gaiolas…


Por curiosidade julgo importante escrever sobre um rapaz de São Paulo que copiou um trabalho que escrevi e o transcreveu “ipsis literis” para o site de sua empresa, e teve a audácia de dar como autores os mestres Ariano Suassuna e Câmara Cascudo. Como não sou uma pessoa grandemente conhecida, ele quis agregar valor e dar maior credibilidade ao trabalho (que merecia credibilidade sem precisar desses geniais autores), mas teve essa audácia de colocá-los como autores. Ele usou um estudo que gastei mais de 15 anos executando-o, pesquisando in loco, como cartão de visita de sua empresa. Não mudou uma vírgula.  Mas por incrível que pareça, encontrei casualmente esse embuste, liguei para uma advogada e o assunto já virou processo judicial. Está na Justiça. Não é necessário ser um gênio para perceber a má fé nesse caso. Se ele encontrou um trabalho que, inclusive, conto a história da pesquisa, e meu nome aparece em todos os lados - pois é fruto de História Oral - por que colocou como autores Câmara Cascudo e Ariano Suassuna? Vá enganar outro. A gente cansa disso.


Tempos atrás uma professora da USP me telefonou, pois queria saber com mais substancialidade a acepção nordestina do vocábulo "coivara", justamente nesse trabalho de linguística que publiquei no blogue. Essas coisas parecem impressionantes, mas isso é exatamente a generosidade intelectual. O conhecimento deve ser dispersado, discutido, questionado. O meu pai sempre disse que o homem que  guarda  o conhecimento para si é pobre de espírito. É verdade! Precisamos divulgar as nossas descobertas, as nossas ideias, mas… respeitando sempre aqueles que, tais quais garimpeiros, cavaram uma montanha inteira para encontrar uma mera pepita. Suaram! Plágio é vergonhoso. É crime!