ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Senhor Rosalino...


SENHOR ROSALINO

   
  (CONTO DE FICÇÃO - INSPIRADO EM FACETAS REAIS)
A vida declama poemas inaudíveis a quem perdeu a graça de ouvir os sons existentes atrás dos detrases. A mesma vida torna essa poética imperceptível a quem sufocou a competência de enxergar o invisível. Ter a capacidade de torná-los audíveis e visíveis comprova que a verdadeira visão vem da alma, e reside nos recônditos mais inesperados da simplicidade.
Uma antologia poética não significa simplesmente uma coletânea de poesias e poemas guardados nos livros. Ela precisa ser outros, como escreveu o poeta Manoel de Barros, sobre ele. O “eu” das antologias precisa ser dividido com os “eus” existentes da alma de pessoas e coisas especiais. Uma declamação poética pode ser o agir dessas pessoas. Pode ser o enxergar das coisas julgadas insignificantes. Essas pessoas precisam ser lidas, pois são livros expostos nas prateleiras invisíveis da vida.
O senhor Rosalino foi uma dessas antologias de carne e osso que me impressionam até hoje. Conheci-o quando ele contava 93 anos. A experiência de sua amizade reforçou intensamente o meu modo de interpretar o homem comum, habitante dos campos, roçados e lugares interioranos. No bojo desse livro vivo, a própria velhice revelou uma face que eu não conhecia tão bem. Nunca me despedi dele sem levar pepitas de ouro, furtadas despercebidas, enquanto ele exalava poesia. 
Os europeus aprenderam a se curvar aos seus reis e rainhas. Os japoneses se curvam aos professores. Exatamente o que sempre fiz, reverenciando os idosos, muitos deles invisíveis por boa parte das pessoas. Os velhos são co-autores de quase tudo o que escrevo. Não há como escrever sem vê-los e ouvi-los. Precisamos jogar fachos de luz aos velhos poemas feitos de velhos.
Os lugares rurais ou as áreas periféricas das cidades facilitam as relações com pessoas antigas. Elas estão sempre defronte às suas casas, muitas vezes esparramadas numa cadeira, ou mesmo sobre um tronco de árvore envernizado pelo uso. As diversas nuanças do regionalismo têm lugar cativo na minha vida.  Os modos de falar e a sabedoria dos velhos instigam a minha curiosidade. Creio que nos meus de dentros há uma Ecléa Bosi. Enxergar velhos talvez seja meu defeito de nascença.
Ao longo da vida nós amealhamos um patrimônio no que diz respeito à nossa existência. É o patrimônio cultural, afetivo, experimental que, segundo Nélida Piñon, vai se avolumando, vai se fundindo continuamente ao que temos. Creio que o patrimônio de pessoas iguais ao senhor Rosalino é mágico, pois concentra uma antologia de práticas quase inexplicáveis. É o livro da vida. É a poética da sabedoria. “Nunca vi ventos do Sul que aos três dias não chovesse”. Como sabe disso o homem que nasceu e morreu num sítio e nunca pisou na escola?
O senhor Rosalino nasceu e alcançou incríveis 103 anos de idade no mesmo município. Chamava a passagem dos anos de primavera. Morava no Sítio Bananeira. O máximo que se afastou do seu torrão natal foi quatro quilômetros rumo à cidade vizinha. Viveu suas primaveras a dezoito quilômetros do mar, mas o desconhecia. Declarava ter vontade de ver “aquele marzão de água de sal que passa na televisão”. Mas certamente a vontade nunca foi prioridade. Lombo de jumento não faltou à sua mocidade. Ônibus e bestas tem à vontade no presente. A justificativa do senhor Rosalino é história de Trancoso, como ele próprio sentencia aos fatos que não acredita.
A infância, juventude e velhice desse alfarrábio de sabedoria tiveram como palco os roçados de macaxeira, batata-doce, inhame, milho, enfim os incontáveis ciclos de vida da agricultura e criação de animais. Ele nunca foi um engenho de fogo morto. Vivia aceso e crepitante, moendo, moendo. Foi assim aos seus antepassados. Era assim com ele. As estações do ano representavam as novidades que renovavam as suas forças e espiritualidade.
Um ano chovia acanhado, no outro o inverno gritava. Num mês morria uma bezerra, no outro berravam três. Eram novidades que reivindicavam o seu envolvimento constante. Pediam trabalho, força, suor, garra. O sítio, em suas infinitas demandas, emanava poesias sem fim. Ele alegava que tudo aquilo era a sua vida. Eis uma resposta a pergunta sobre a praia. Se ele fosse à praia, deixaria a sua vida.
Perguntei se ele gostava daquela lida. Respondeu que se nascesse novamente queria a mesma vida e a mesma mulher, dona Janoca, de 93 anos de idade. Assim existia o senhor Rosalino.
Nem sempre ele respondia as perguntas de maneira óbvia. Quase sempre devolvia outra pergunta. Outra vez sua resposta não correspondia ao questionamento. Depois, através da convivência, nossa amizade fortaleceu e entendi melhor o exemplar autêntico de poesia viva. Descobri que ele não vai à praia por estar colado na Bananeira. Ele não se imagina distante de seu lugarejo. As respostas não respondidas no momento da pergunta se revelavam no dia-a-dia. Nem sempre através de palavras, mas pelos atos.
“Quer conhecer tudo da pessoa, coma um saco de sal junto dela”, dizia. Seu adágio servia para ele. Que pena ter experimentado tão pouco desse sal. Imagino se eu tivesse apreciado todo o saco ao seu lado.
O filósofo espanhol Jorge Larrosa-Bondía, defendeu que experiência não é o que nos passa, o que toca ou o que acontece. É o que me passa, é o que me toca e o que me acontece. Todos os dias passam diversas coisas, mas, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Resumindo: tudo o que se passa está organizado para que nada nos aconteça. A experiência de vida daquele livro de sabedoria, chamado Rosalino, se explica nesse filosofar. O sítio acontecia nele, passava nele, através dele. O sítio o tocava. Ele vivia o sítio. O sítio era as carnes dele.
Pilares centenários de aroeira sustentavam o alpendre de sua assobradada casa de taipa. Exemplar caiado com janelas em azul Royal tal qual o pai deixou. Ainda resiste na mão dos filhos. Ambiente aconchegante e confortável. Não parecia feito daquele material. Construção alta de quatro águas, coberta de telhas. Seu pai nasceu e morreu exatamente ali. Ao bisavô não foi diferente. Declamava que o sítio lhe bastava. Aqui tem de tudo e mais um pouco. O que não tem eu mando buscar no comércio. Não posso viver no mundo, pois tenho criação. Quem vai dá o cumê dos porco, das galinha? Quem vai olhá as pranta? Saia poesia do senhor Rosalino.
O inimaginável emanava daquele homem. Suas palavras encantavam. Suas atitudes cativavam. Era um encantador de pessoas. Agia o impossível para a propriedade lhe bastar. Fez galinheiro, chiqueiro, cerca, porteira, jirau, roça, leirão, cacimbão, hortas no chão, hortas suspensas, pequenos açudes, forno, fogão à lenha. Represou água do pequeno riacho, desviou para os leirões de inhame. Todo dia um reparo. Sempre algo de novo, arrancado de suas lâmpadas invencionáticas. o Professor Pardal brasileiro. 
Sabia remédio e mezinhas para qualquer doença. Tudo tirado de sua terra ou mandado buscar na feira local. Conhecia variados meles. Percorria a propriedade a pé, ora no lombo de cavalo, ora na carroça, veículo de transporte de safras. Perdeu as contas das experiências realizadas com plantas tentando adaptá-las às suas terras, lugar cheio de invencionices. Criou uma floresta silvestre e frutífera, verdadeiro Augusto Ruschi. Funcionou o seu mesmo amor aos bichos domésticos e silvestres.
Conhecia muitas espécies de borboletas, cobras, sapos, formigas, passarinhos, calangos e lagartas. Identificava as vozes da passarada, traduzindo o que diziam para ele ou para a mata. Sabia mais da vida daquelas miudezas florestais que da vida da cidade. Essas coisinhas insignificantes enverdeciam informações preciosas sobre a dinâmica do sítio. “Esse vem-vem cantando sem parar... tem gente estranha chegando”. Dito e feito. Conservava mania de andar na mata. Dizia sentir-se bem. Seria o parente nordestino do poeta Manoel de Barros?
Amava conversar. “Gosto de jogar conversa fora”. Guardava histórias impensáveis sobre os antes do seu município. Era fascinante ouvir suas trovas luso-nordestinas, ibéricas e medievais relativas a príncipes, princesas, coronéis, figuras cômicas, “malassombros”, cangaceiros, reis, santos e tramas de poderosos. Seu HD mental armazenava romances datados de mais de setecentos anos, vindos nas caravelas europeias, abancadas ali não sei como. Creio que o leitor tenha constatado a razão do meu fascínio pelo senhor Rosalino. Era um homem cheio de páginas.
Vê-lo acontecendo esses saberes punha-me perplexo. Muitas de suas páginas, segundo ele, eram assinadas pela avó Sinhazinha. Outras, pelo avô Simplício. Muitas dessas trovas, quase sempre trágicas, como a nau catarineta, traziam poesias de reinos distantes e desconhecidos. Não tinha fim a sua Enciclopédia Sitiânica. Enciclopédia da vida.
Quem passasse pela estradinha de barro vermelho, batido, sinuosa, depois da ponte de madeira do Roncador, florescida de ipês, se sentia atraído pelo cartão postal em formato de sítio. Era a terra do senhor Rosalino da Silva, como diziam os moradores dali. Se aquele Éden me pertencesse, o mar não seria um meu conhecido.
Nunca vi pessoa igual para interpretar os fenômenos naturais. Quase tudo tinha explicação que fluiam com espontaneidade. Mestre ou doutor da vida seria título ideal ao senhor Rosalino. “As formigas tão trilhando desde antonti. É chuva boa; elas pendem pro sul”. Outra vez sentenciava “céu talhado, chão molhado”. Explicou-me que se o céu estiver parecendo leite coalhado, é chuva naqueles dias. A chuva será muita, senhor Rosalino? “Mais ou menos, tá meio esfacelado o céu, mas vai molhar. Os carão não tão cantando muito. Quando pegam cantar tão chamando inverno franco”.
Nunca visitei o senhor Rosalino para não levar para casa um novo conhecimento. Era um baú de sabedoria. Certa vez, o apanhei fincado no seu canavial. Estava agachado, cutucando os brotos novos de cana. Tive uma aula que nunca me esqueci. Ele disse para os seus botões: “essa já é a ressoca!”. Aquilo chamou a minha atenção. Perguntei sobre o assunto ele explicou que quando se planta um olho de cana pela primeira vez, está-se fazendo a “planta”. Ela brota, cresce e é colhida. Fica a touceira. Ela vai dar vergônteas. É a “soca”, ou seja, as raízes que ficaram da primeira colheita. Quando você repete o corte da cana adulta e deixa novamente a touceira, partirá para a “ressoca”, que é a terceira versão. Quando corta pela terceira vez e brota novamente teve-se a contra-soca. Como saberia disso sem conviver com aquele tesouro preciosíssimo?
Um dia, o avistei pingando um líquido avermelhado num ferimento do dedo. “É Barbatimão”, o melhor remédio do mundo para fechar ferida”. Explicou que o produto não deixava o machucado inflamar. Vinha da casca de uma árvore, curtida em álcool até ficar escura. Passou uma hora desenrolando o novelo de suas propriedades curativas.
Explicou que barbatimão “bota abaixo qualquer doença de mulher”, infecções urinárias, “coisas na pela”, “ursa”, inflamação, infecção, “probremas de veia”. Destacou que, curtido em água, através de garrafadas, podia-se beber em doses pequenas. Servia para curar diarréia, inflamação da garganta, hemorragias, escorbuto, complicações pulmonares e respiratórias.
“Os estudante vem aqui buscá prá esses negócio de pele”. Relatou que o uso popular do barbatimão vem das cascas, do caule ou entrecascas na forma de decocção, infusões e tinturas. Corri no “Dr. Google”. Descobri que a farmacopéia brasileira usa esse produto na fabricação de antibióticos e até pomadas. Impressionante!
O velho Rosalino tinha uma saúde de ferro. “Meu filho, eu não sei o que é doença. Se uma dôzinha nas perna vez em quando for doença, é a única que tenho; basta pegá trabaiá e some tudo”. Ele possuía uma vitalidade admirável. Não parecia ser tão espichado na idade. Agilidade, destreza e lucidez eram sinônimos daquele homem antigo. Proclamava: “o que adoece o povo novo é dormir demais e não trabaiá. Quem cedo se deita e cedo se levanta, doença, pobreza e velhice espanta. As pessoa têm que se movimentá”. Ao dizer isso, sentou-se no chão e suspendeu as duas pernas atrás do pescoço. Fiquei perplexo!
Condenava visitas cheirando votos. Atendia bem. Não fazia questão de se demorar com elas. Alegação de sempre: o sitio precisado dele. “Esses povo vive aqui pigorando apoio, eu só tenho o meu voto; não arrebato eleitô, se bicho e pranta votasse eu até ajudava”. O velho era uma reserva moral no pacato município. Nunca se envolveu com nada que não fosse da porteira para dentro. “Quem se mistura com esse povo perde a cor”.
Quando convidado para convenções e comícios, a pedido dos figurões políticos, alegava sem cerimônias: “eu que não vô prá comiçu. Acolá prá cá tem a mesma passada. Quem vai cuidá dos meus bicho?”. Seu modo sincero, longe de soar grosseiro, não antipatizava, certamente pela serenidade. Assim despertava respeito e admiração. Ele não se via fora do seu habitat.
A idade avançada legou-lhe uma alimentação mais comedida, obviamente pelo ritmo de seu metabolismo, mas comia de tudo, priorizando os produtos do sítio. Cansei de vê-lo sob as árvores, comendo mamão, goiaba, chupando cana. Era uma graça! Escondia um menino dentro dele. Creio que há um novo nas entranhas dos velhos. Alguns permitem serem carregados pelo menino. Outros, não. São os idosos rabugentos, como dizem. Ou aqueles cuja doença os aquietou. Muitas vezes acompanhei os seus almoços e me descobri numa aula de gastronomia. O sítio tinha um academicismo. Foi quando o encontrei almoçando com a esposa. Faziam uns bolos amassados com as mãos. Misturavam feijão verde com farinha de mandioca. De quando em vez, sorvia seu caldo numa xícara de louça. Ele dizia “loiça”.
Perguntei da iguaria. “É raposa”, nome do bolo moldado nos dedos. Almoço com “raposa” é exclusividade na mesa do povo daquele lugar. Não se comia outra coisa. Alegava que a iguaria já era o “conduto”. Findado o banquete, mastigava um naco de rapadura e bebia água de pote. Às vezes, rapava o doce com faca e jogava as pazadas na boca. Dona Janoca o imitava, depois ia para o jirau lavar as caçarolas. Uma multidão de galinhas, patos, perus, chafurdava a água escorrente no rego. Hora da merendinha dos bichos. O velho ganhava cadeira de balanço, sesteando meia hora. Nunca esticou mais que isso. Cena antiga, começada com seus antepassados.
Havia uma rotina no sítio. Na verdade era literalmente um novo dia. O leitor vai entender adiante. Todos acordavam às quatro e meia. Um dos filhos ordenhava, serviço que o velho tinha condições de fazer, mas, por prudência, abandonara. Dona Janoca molhava as plantas que emolduravam a casa. A luz do dia chamava para o café passado pela esposa ou alguma filha. O velho ficava cheirando o que fazer. Era sempre depois do café. Então ganhava o sítio. Ele apreciava cuscuz com ovo, carne guisada com fruta-pão, macaxeira com peixe. Não gostava de pão, exceto o que a esposa fez durante a vida toda. Abandonara recentemente o fabrico devido a idade.
O forno à lenha caiu para filhos, genros e noras, em ocasiões especiais, atrás de assar leitão, bolo de macaxeira, bolo preto e outros pratos de festa. Encerrado o café matinal o senhor Rosalino ganhava o sítio, sempre misturado com filhos ou netos. Retornavam às onze horas. “Bora merendar”, assim dizia.  Jantavam às dezoito horas. No frigir dos ovos o dia fora diferente, pois duas porcas pariram, o pé de pupunha desabara sobre o galinheiro. O touro da vizinhança fora visto no milharal à tardinha. Os dias diferiam em sua rotina.
Havia uma televisão na sala. Sentenciava que televisão estragava a pessoa. “Essa tal tem coisa boa, mas a maior parte é milacria”. Priorizava o rádio para ouvir a Hora do Brasil. A família seguia a cartilha espontaneamente. Aprendiam vendo. Dona Janoca se corava quando assistia certas cenas de novela. O lugar da televisão era gasto com um toco na porta da casa. O velho espalhava histórias de Trancoso em quem chegasse. Senhor Chicó, vizinho, estava ali quase toda noite, agarrado àquelas viagens, muitas vezes com “the end” de malassombros.
Encerrada a programação, ele dormia igual a um anjo. A madorna se esticava até a hora do primeiro canto dos galos. Como foi dito no início, ele não trocava a lida do sítio por nada. A esposa não fazia diferente. Pareciam engenho em movimento o dia todo. Isso o afastava de televisão e outros inventos que porventura algum neto lhe apresentava, talvez tentando aquietá-lo em casa. Quando lhe foi mostrado o aparelho de celular, disse “isso faz é má, desassossega a gente; eu quero é paz aqui no sítio”.
Na época junina o sítio formigava diferente movimentação. O milharal, plantado em março, após o dia de São José, explodia espigas gigantes. Uma multidão de familiares e vizinhos alegrava a colheita, preparando canjica, bolo e pamonha. O fogão a lenha ardia até a boca da noite. O processo começava pela manhã. O sítio cheirava a comida de milho. A casa não tinha lugar para espalhar travessas, pratos, quartinhas e panelas cheias de acepipes.
O empreendimento se dava na antevéspera de São João. O dia seguinte era exclusivo para espalhar varais de bandeirinhas, fazer fogueira e outros preparativos para o festeiro que tinha início às dezenove horas e adentrava na madrugada. O evento se regava a forró com sanfona, triângulo, zabumba e pandeiro. As girândolas do fogueteiro “Mané Catinga” tinham lugar cativo. Engenharia precisa. As explosões eram obedientes ao velho Rosalino que comandava o ritual junto ao fabricante. Havia anunciação para que todos despejassem os olhos na engenhoca. O resto... o resto era poema.
Encerrado o foguetório o senhor Rosalino ganhava a cama às onze horas. Nunca excedia. Os demais caiam no forró. Data de dormir tarde também era a véspera do Natal. Um dos únicos dias que deixava o sítio à noite. A família assistia a missa do galo.
“Elia disse a Elói e Elói disse a Elia, que o cobreiro se cura com arruda e água fria”. Assim o encontrei certo dia, explicando a um vizinho mezinha contra cobreiro. Em seus raros dias de peixe fora d’água, se abalava à cidade para resolver assuntos de escritório, cartório ou “nos lugar de dotô”, como dizia. Era quando gastava cerimônias. Os modos corteses, nem por isso despidos do pitoresco se revestiam de polidez. 
Nesse dia emborcava o chapéu para o peito. Diante de tais “doutores” usava a expressão “falando com pouco ensino”, ou “com licença da palavra” antes de abordar o assunto que o arrastava ali. Já na rua roubava a cena. A cidade inteira corria para vê-lo. “Seu Rosalino... Ô, Seu Rosalino... Seu Rosalino...” O velho era reverenciado por sua decência e o fato de espalhar a poesia gostosa dos seus palavreados, suas sintaxes tortas, enfim tudo o que ele falava era singular e atraente. O transeunte daquele dia não era uma pessoa qualquer. Era “Seu Rosalino!”.  Nessas visitas reclamava dos preços de tudo “foi-se embora a caridade, só ficou a carestia”. Ele não falava. Ele poesiava.
Três anos sem vê-lo. Soube da sua morte. Deus lhe concedeu 103 primaveras. Quase morri. O dia foi de lembranças em meio a risos, choro e contemplação do horizonte. Não era para pessoas daquela qualidade partir. É desperdício. Enterraram uma biblioteca viva. Desapareceram para sempre infinitos adágios, neologismos, frases de efeito, poesias, invencionices verbais, brincadeiras, sermões, comparações, interpretações sobre a natureza, pessoas, bichos, vida...
Não dá para listar o que foi perdido. Dá pena ver morte de pessoas-ouro, pessoas-baú... pessoas sábias iguais ao senhor Rosalino. Ele que, gratuitamente, e sem perceber, me outorgou um certificado de conclusão do curso de Pessoas-Poemas... disciplina raríssima, quase extinta. “O ser humano é uma amostra no tempo da natureza humana”. Assim escreveu o psicanalista inglês Donald Winnicott...
LUÍS CARLOS FREIRE - 2001

terça-feira, 9 de abril de 2019

E tome, e tome, e tome, tome, tome...


E TOME, E TOME, E TOME, E TOME E TOME...


(História real)

         Habituado a descer ao bairro Ribeira para fotografar, tomei, aliás, topei com uma cena que me fez repensar sobre alegria, felicidade e jovialidade. Normalmente, quando escolho um tema fotográfico, esquadrinho o local com a acuidade. Assim, compilo fachadas, portas, janelas, portões, parasitas, enfim uma plêiade de elementos históricos invisíveis para muitos. Pois bem, sábado elegi os ladrilhos hidráulicos sobreviventes nos pisos do bairro aonde Natal veio ao Mundo no dia de Natal.
         Eu registrava um chão de esquina, com nódoas de pisadas de bailes antigos. O desenho era primoroso, lembrando minhas aulas  universitárias de Geometria Descritiva. As cores sobrepostas davam excelente noção de profundidade à maravilhosa arte. Estabelecimento antigo, comandado por sobejos de famílias que resistem ali.
Deixei o local e segui contemplando. De repente uma música foi se intensificando conforme a minha aproximação. Ouvi, nitidamente: “e tome, e tome, e tome, tome, tome...”
A “cantiga de grilo” não tinha fim. O refrão comandava a melodia, sufocando o restante da letra, se é que havia.
E tome, e tome, e tome, tome, tome... 
Um transeunte falou-me: cuidado, andar por esses becos tirando fotografia o senhor pode ser roubado... acontece muito. Agradeci.
E tome, e tome, e tome, tome, tome...
O mantra reverberava mais alto, mesclado a cheiro de peixe frito. Logo senti um cheiro de bar e, mais próximo, cheiro de gente esquecida. Muitas cadeiras e mesas emolduravam o ambiente. Entrei e pedi um guaraná. Foi difícil a balconista entender. Música, risada, gritos, entre e sai de gente, conversa alta...
E tome, e tome, e tome, tome, tome...
No dancing, uma velha contando uns sessenta e cinco anos se remexia num frenesi pleno. Nem todas adolescentes mostrariam tanta malemolência. Morena, metida numa blusinha desses tecidos moles, agarrados ao corpo (creio fosse um top), mini-saia nos mesmos conformes, cabelos negros ao estilo tintura, unhas escarlates, roídas no toco como quem lava muita roupa. Lábios realçados por batom lamacento na mesma cor dos dedos. Todos apreciavam o bailado da dançarina velha. Velha igual aos casarios da Ribeira. 
O público era diversificado. Gente de todas as idades. Um jovem parecia ser uma espécie de namorado da velha. Quando iam dançar juntos, o rapaz a reivindicava com bastante autoridade, rodopiando o seu corpinho com firmeza. Comparada ao porte do partner, ela se tornava boneca levada pelo compasso. Havia muita obediência nela. 
E tome, e tome, e tome, tome, tome...
A música era intensa. Quando em vez o rapaz a deixava no saloom e se abancava à mesa para um trago. Os clientes apreciavam Pitu e Devassa em meio a pratos variados, guiados a farinha. Uns com peixe, outros com galinha. Poucos com camarão. A velhota seguia o jovem imitando-o no deguste. Após o gole, dava uma rabissaca, fazia uma espécie de charme com os cabelos, e retomava o embalo de sábado à tarde na Ribeira velha e abandonada. Era a atração do boteco. Seus trejeitos de dançarina roubavam a cena, totalmente despreocupada com possíveis censuras. Acho que não havia julgamentos ali. Sua plateia talvez a enxergasse como poderosa.
E tome, e tome, e tome, tome, tome...
Nada de a música parar. E nem de a velha deixar de dançar. Se por ali passasse gente dada a recatos, enxergaria devassidão. Não pela beberagem, creio, mas pela alegria e desenvoltura desmedidas. Nada que não lembrasse muita felicidade. Todos gargalhavam, falavam alto, gritavam, comiam sem etiquetas, brincavam. Algumas mulheres, sentadas sobre as pernas dos homens, prováveis namorados, davam gaitadas demoradas, cujas bocas pareciam engolir o Céu. A velha levantava o braço, variando a coreografia.  Bamboleava os quadrios e ventre, ora de maneira amaciada, ora com caráter desenfreado. Havia uma moça eletrizante dentro dela.
E tome, e tome, e tome, tome, tome...
A velha dançava a incessante música como se fosse a derradeira tarde com o seu bem. Haviam franguinhas jovens no cenário. O rapaz nutria fidelidade incomum para com a sua deusa. Beijavam-se cinegraficamente com volúpia que coraria os pudorados. Esquecia de informar: contava no máximo uns dezenove anos o rapaz. Era transparente não existir obstáculos naquela paixão espetaculosa, acariciada, clamante de olhares.
E tome, e tome, e tome, tome, tome...
Dado momento, o rapaz retornou à mesa, pôs-se a degustar pedaços fornidos de galinha e a jogar colheradas de uma farinha amarela na boca. A velha, apegada ao dancing, dançava, dançava, dançava. Havia charme no jogo de corpo da velha. Era um físico esquálido, obediente à sua coreografia particular. Ela meneava a cabeça, segurava as mechas aneladas como para fazer um rabo de cavalo. Os cabelos ondulados colaboravam com o charme. De repente, penteava-os freneticamente, fazendo as vezes de pente seus dedos abertos. Sacudia-os lá e cá, conforme os tomes. Era muito charmosa a velha. Charme estranho, mas inegavelmente atraente. Havia uma preocupação constante em sensualizar. A intensidade de sua graciosidade, mesmo esdrúxula, alçava volume à medida que era admirada. Os olhares nutriam o seu poder de odalisca cheia de charme. Charme de velha alegre. Feliz. Jovem. Havia plenitude nela e na dança.
 E tome, e tome, e tome, tome, tome...
A música era real, muito presente. Após alguns instantes bailando sozinha a velha reivindicava o parceiro. Fazia um rodopio e, tal qual uma franguinha, se amunhecava nas pernas do namorado. Surgia um beijo hollywoodiano. Ares levemente erotizados escapavam à platéia. Logo retomavam o dancing. Dessa vez a coreografia emanava ares voluptuosos. Ela curvou o tronco para o chão, fez como se acocorasse, colocou as mãos sobre os joelhos e jogou toda a sua energia para as nádegas, tremelicando-a com fazia Carla Peres em seus tempos áureos. Desabaladamente. A velha aproximava o bumbum o máximo possível das frentes do rapaz. Ele colocava as mãos em concha sobre o bumbum da velha e o segurava com firmeza. Era parte da coreografia. Outrora o rapaz mengava, ora agia um tremelique na cintura. Era dança de intimidades.
E tome, e tome, e tome, tome, tome...
A música saia das paredes. Estava impregnada no boteco. Presa nas bocas dos presentes. Após essa coreografia que pareceu exigir mais energia, retornaram a mesa para um reabastecimento de cerveja e nacos de frango. O rapaz denunciava-se glutão e sorvia goles mais generosos. A velha aparentava apenas molhar a língua como uma cobrinha pesquisando cheiro.  Logo se abancou novamente. Dona de uma energia admirável, a velha riscou destino ao dancing. Passou a dançar freneticamente uma mistura de coreografias fluídas de sua criatividade e dos eflúvios da água que passarinho não bebe. Creio. Ela possuia uma criatividade admirável ao se movimentar,
E tome, e tome, e tome, tome, tome...
O rapaz demorou-se na consumação dos acepipes. A velha, agora, fazia charmes. Colocou o dedo indicador na boca e fez cara insinuante. Não havia pista alguma de alcoolismo naquele corpo antigo. O rapaz sorriu com as pálpebras querendo despencar. Ela piscou como piscam moçoilazinhas apaixonadas. Fez rodinhas contínuas com o dedo indicador, chamando-o ao seu posto. A dança continuou intensa como se iniciasse naquele instante. A festa continuou. A velha continuou. Deixei o boteco, admirado pelo show gratuito. Se me perguntarem o que aprendi naquela tarde de boteco velho, diria: aprendi que felicidade e alegria são relativas.
No prenúncio do ocaso não houve mais registros de ladrilhos-hidráulicos.
E tome, e tome, e tome, tome, tome...

O dia da descida de "Emanoel"


O DIA DA DESCIDA DE “EMANOEL”

Era mais ou menos nove horas. O episódio passaria despercebido, não fosse o cuidado do cura em celebrá-lo com alegria junto ao povo, eternizando-o nas lembranças de quem o testemunhou, até que a morte os conduza aos sete palmos, e os sinos “batam”.
Era um dia muito especial para mim. Minha mãe estava em Papari, berço de nossos ancestrais. Ela deixara o estado do Mato Grosso do Sul, dias antes, e passou uma manhã comigo. Acostumado desde jovem a andar com máquina, registrei o momento ao lado desse meu tesouro de incalculável valor. As imagens não são perfeitas, pois descuidei-me de regular a velha Kodak, mas falam muito.

Além do padre João Batista Chaves da Rocha – amante da História, portanto peça rara nos dias atuais, havia seminaristas, coroinhas, delegado, prefeito, professores, promotora de justiça (ainda me lembro do seu nome: Yádia Gama Mayo, uma gaúcha que marcou história nessas plagas); juíza (Drª Eliane); também faziam côrte vereadores, alguns secretários municipais, demais autoridades e pessoas comuns. 


O sacerdote passava cá e lá, apressado, fechando os últimos detalhes para a descida do sino da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Na terra da intelectual Nísia Floresta, tudo é transformado em festa, assim como ela o fazia em seus colégios no Rio de Janeiro, assustando os pais desacostumados ao lúdico.

O povo aparecia de todos os lados, cheios de curiosidade. Um vuco-vuco interminável. O sino, maciço, fabricado em bronze misturado a ferro, com peso aproximado a uma tonelada, viera de Recife há mais de cem anos. Os infinitos rebimbares, banhos de sol e chuva, segundo alegavam, causou-lhe uma rachadura crítica, comprometendo o som, justificando a sua retirada.



O som, agora, tá gasguito, não vai nem nos conjunto; antigamente as badaladas respondia longe”, explicou o Sr. Bambão, responsável por décadas pelo toque do sino durante as celebrações. Esse mister foi herdado do pai e já fora transmitido ao filho Vicente.
Cansei de estar no cercado e me guiar pelo sino. Houve um tempo em que o sino informava hora, não era toda hora, mas algumas horas. Lembro que próximo a Currais o som chegava para a gente”, contou-me o senhor José Moreira do Nascimento, 85 anos.
Em Tororomba, eu era pequena, menina, quando mamãe mandava a gente ir pro banho; na primeira badalada do sino a gente corria pro banho, jantava e fazia carrera pra rua pra missa; antes da última badalada nóis já tava na igreja nas missa de Domingo”, explicou Natália Gomes do Nascimento, 90 anos.

Os depoimentos revelam o simbolismo todo especial acerca do sino da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, cuja responsabilidade ia além do convite para a missa. Ao longo de sua trajetória, a monumental peça serviu para comunicar ao povo incontáveis eventos que se davam nos assobradados cômodos superiores da Matriz. Era “o rádio” de Papari, assim posso comparar. 

Blem...blem...blem...blem...blem...blem...blem... o bispo Dom Perdigão adentrara na vila com comitiva, em visita pastoral. As paróquias potiguares eram subordinadas ao Bispado de Olinda. O evento, raríssimo, devia ser espetaculoso. A entrada do lugarejo fora decorada com guirlandas de flores, fitas coloridas e o sino fechavam o papel de tornar radiante o episódio. Seus badalos eram ensurdecedores.

Blem...blem...blem...blem...blem...blem...blem... o alistador chegara à cidade para alistar jovens para a Guerra do Paraguai. O imperador Dom Pedro não poupou província alguma. Duque de Caxias e Conde D’Eu garantiam que retornariam vitoriosos, mesmo que custasse a vida de quase toda população masculina jovem daquele país. 


A Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, em seus primórdios, era o centro das atenções. Tudo acontecia na Matriz. Muitas vezes coincidiam datas. Todos os cômodos eram usados. Pudera! Num tempo cuja cidade não tinha imóveis administrativos, exceto prefeitura, a igreja cumpria papel de abrigar todos os serviços vindos de fora para beneficiar o povo. A Matriz era auditório, escritório, berço de reunião abolicionista, enfim centralizadora de tudo.

Durante décadas o serviço militar foi realizado ali. As primeiras eleições deram-se exatamente sob a cumplicidade das paredes da Matriz. O sino chamava os eleitores para a eleição no primeiro andar da Matriz. A cidade, predisposta, já sabia o que aconteceria, portanto aguardava apenas identificar o badalar. Era hora de ir para a Matriz.


Poucas pessoas sabem, mas os sinos da Matriz tinham nome. Uma das duas torres é o campanário, onde ficava uma espécie de carrilhão. Ali moravam juntos o sino principal, ou sino-mor, frontal, batizado de “Emanoel”, Deus Conosco, portanto Deus chamava todos a toda hora para a sua casa. À sua direita jazia o sino médio, “Joaquim”, o avô de Jesus. O sininho menor, ao fundo, Maria, a Mãe de Jesus. Por último, o sino “Menino Jesus”. Eram quatro peças de tamanhos diferentes. O soar dos sinos da velha Papari era pleno de sacralidade. O rebimbar consistia em bênçãos levadas pelo vento a quantos casebres de taipa alcançassem.
Do alto do campanário, Emanoel, o velho de bronze, viu de tudo. Aliás, a família testemunhou séculos de história. Viram os novo-fascistas se aglomerarem diante de seu Cruzeiro quando do Integralismo. Viu a chegada dos despojos de Nísia Floresta. Viu os negros escravos que em seus cômodos escuros eram guardados por bondoso – e corajoso – padre abolicionista. Viu padres em conflito com políticos, padres apaixonados por políticos, padres fazendo corridas de jumento, freiras-vigárias escandalizando os católicos conservadores simplesmente por serem mulheres, Campanha da Fraternidade sendo parida debaixo de uma mangueira, enfim não houve episódio que ele não testemunhasse.

Tudo o que dizia respeito aos paparienses tem as paredes da Matriz como testemunha, e convocados pelos sinos. Sendo que nem todos eram badalados simultaneamente para todas as situações. Por tudo isso a igreja é intocável. Tudo o que for tocado para descaracterizá-la, consiste em afronta e mutilação à sua essência histórica e, por que não dizer cristã.
Quando o povo era convocado, o gesto se dava por toques específicos, extintos depois que a cidade começou a ver erigidas as suas instituições públicas. Assim, os espaçosos cômodos da Matriz foram sendo esquecidos.
No aspecto ritualístico, havia outra simbologia nos toques do sino. Obviamente falo de um tempo também remoto, anterior a 1996, ano que o sino foi arreado. Havia toque para enterro de anjo, toque para enterro de pagão, toque pra enterro de “moça-virge”, toque para enterro de gente idosa, enfim, os toques informavam a cidade inteira sobre quem estava indo para a “terra dos pés juntos”.

Os três sinos, tocados simultaneamente, só aconteciam durante eventos festivos. O primeiro toque da Hora do Angelus era anunciado por Emanoel. Maria se encarregava de continuar chamando o seu povo nos demais toques anteriores ao início do terço. Joaquim e Jesus sempre dormiam nesses momentos. Não se incomodavam com a voz da filha. Certamente era música para os ouvidos deles. Creio. O som de Maria, embora delicado, não era menos audível. Atingia a mesma distância do Pai. Mas completamente diferente do som clangoroso de Emanoel. Pudera! Até nisso os “engenheiros” medievais pensaram. Digo assim porque seu contexto arquitetônico, embora do século XVII, é desse período.



Mas, no tocante a tais simbologias, hoje restaram os toques pertinentes aos rituais da missa, procissões, festividades externas. Aparentemente sino tem relação apenas com alegria.
Não!
No curso de um enterro o sino toca. Enterro dado à tardinha tem aura misteriosa de tristeza. O ocaso e o momento fúnebre ampliam a sensação. A cor dourada da tarde, sob o som letárgico da morte deixa uma sensação de vazio. Imagino o que deve sentir quem enterra familiares nessas horas. Se eu morresse, queria enterro com dia nascendo, pássaros cantando, sol vivo e cidade nervosa.
Mas, retomando o assunto da retirada do sino. Há décadas que “Joaquim”, o gigante de bronze e seus familiares, perderam o seu modo original de ser acionado. Escavacando informações em 1992, os antigos não souberam me informar o ano dessa mudança. Ninguém mais o tocava por via das cordas manuseadas no térreo, através de adequados “puxavantes” ou “mucicas”...
É! Havia toques embalados, lentos, nervosos e repinicados.
O sino fica seguro através de uma estrutura muito fornida de madeira, atravessada por um eixo de ferro encaixado na estrutura de alvenaria da própria torre. É o contrapeso. Essa peça tem fundamental importância. O sino fica preso através de sua coroa atravessada por esse eixo, depois encaixada na parede, num relevo convexo. Um mecanismo o impede de deslizar horizontalmente. É uma mecânica interessante, servida das leis da física.
Em algum tempo do passado – ou desde a sua inauguração – o espetacular objeto e os demais passaram a soar por via dos braços fortes dos sineiros, ou “mestres de sino”, os quais seguravam (literalmente) o pinguelo interno, batendo-o contra sua campânula. Esse pinguelo, em formato fálico, em sua função original, ficava preso a um eixo abaixo da coroa, de modo que se movimentava livremente, conforme as puxadas da corda.
Considerando que em todos os lugares do planeta Cristianismo há um sino rebimbando através de uma corda – livre, leve e solto – balançando em torno de um eixo horizontal de 360º, exceto os elétricos e o de Nísia Floresta, suponho que algo de grave aconteceu no passado, e pôs em risco os fiéis e o próprio “Emanoel” e seus familiares, pois todos adoeceram. Seja o que for, nunca mais o sino retomou a sua característica original. Nunca mais dobrou. Sempre recebeu pancadas por força das mãos humanas.
Creio que a rachadura, que teve comprometida a qualidade e dimensão de sua sonoridade, foi ocasionada exatamente por isso. A pancada direta, dada pela força do homem é incomparável à força provocada pela movimentação da corda. Há uma física na reverberação dos sons, a qual se dá através do manuseio original, por via das cordas.
As pancadas que assisti ao vivo, algumas vezes, por curiosidade, se dão através de força descomunal. E saber que Jesus, Maria e Joaquim também eram acionados dessa forma, entende-se claramente porque se despedaçaram. Jesus, por incrível que pareça, foi o que se danificou primeiro, a ponto de não existir nem rastos para se fazer um chá (coisa de padres que não davam valor à História). Só resta saber se Joaquim e Maria permanecem guardados, pois os vi até 2012. São peças de valor estimativo incalculável. É a memória das raízes de Papari.
A excelência dos sons só acontece por intermédio de sua mecânica original. Observe o soar de sinos em algum filme. É um som melodioso, musical, harmônico, agradável. Isso ocorre porque o sino, em sua essência, funciona assim. Talvez os sinos foram inventados por poetas e músicos. Creio que em meio a tantas interferências na referida Matriz, ao longo dos anos, esqueceram de devolver ao sino sua gênese mecânica original. Esse reparo passa despercebido há séculos. É algo a ser analisado e quem sabe empreendido por futuros padres.
Pois bem, sua retirada, em 1996, ficou a cargo da Marinha, como se vê nas fotografias. Os marinheiros quebraram a alvenaria em sua parte convexa, onde se encaixava o eixo de ferro, peça principal na sustentação do objeto, e o caminhão-guindaste fez vir abaixo Joaquim, já idoso, combalido e apiedado pelo povo que o aplaudia com emoção. Todos sabiam que ele estava indo para o hospital dos sinos, no Pernambuco. A Marinha montou uma equipada UTI, pois tinha noção do notável paciente.
“Joaquim” retornaria remoçado e curado da fratura.
Houve muita alegria aplausos, falas, agradecimentos. Mas quando “Joaquim” deixou a cidade, causou uma rachadura em todos os corações que ali estavam. O buraco deixado na torre se estendeu a todos os distritos. Um vazio tomou conta de Papari. Saiu dali o pai amado. Joaquim e Maria ficaram na UTI, acamados na caminha detrás do altar-mor. Aguardam até hoje uma campanha. O povo não se preocupa tanto com a História. É mais fácil dinheiro sair do bolso para coisas supérfluas. Autoridades? Nem se fala. Boa parte quer coisa em troca. Fica difícil. O Papa orienta que não é bom os religiosos se misturarem.
Dona Maria do Carmo, esposa do Sr. Bambão, sineiro, não se conteve vendo o caminhão deixando o Átrio da Matriz. Perguntei por que ela se emocionava. Respondeu: “tenho medo de ele não voltar... de mandarem outro”.
Pessoas com idades entre 80 a 90 anos, chorosas, contaram-me que não tinham noção de quando Emanoel subira ao campanário. Óbvio que não se deu em 1755, data da “conclusão” da igreja. Mas eu perguntei porque queria saber se ele havia sido retirado antes. Se isso houvesse ocorrido anteriormente, os mais velhos saberiam. E diante dessa informação passei a acreditar que o sino havia descido uma única vez após a sua instalação original, há mais de cem anos.
Tudo isso reforçam duas hipóteses: 1ª ele ter se rachado devido às pancadas dadas através do pinguelo manuseado com as mãos; 2ª no ato da colocação já teria sido constatado possíveis riscos de acidentes e, devido à gigantesca dificuldade de retirá-lo e recolocá-lo novamente – através de força humana – adotaram o toque por via das mãos, abolindo as cordas.
Isso significa que, provavelmente, o sino de Papari nunca dobrou de fato. Ou seja, nunca foi tocado do térreo da igreja, por via de corda com um sacristão se dependurando e o objeto em pêndulo, em harmonia com o contrapeso. Em outro momento contarei aqui mesmo como se deu a subida do sino quando da sua instalação, há mais de cem anos.
Pois bem, algum tempo depois o sino retornou. Foi outra festa. Parecia que o sol estava sendo colocando no campanário. Emanoel reluzia mais que essa estrela de quinta grandeza. Um senhor perguntou se ele era de ouro. Com certeza Emanoel é de ouro! A restauração e o polimento deram-lhe coloração de ouro puro. Não se percebia sinal algum de enxerto de bronze e ferro em sua campânula.
O sino foi recolocado em seu local original após um único passeio. E Emanoel se fez Deus Conosco. Nunca mais o viram tão belo. E os toques foram retomados ao longo do tempo. As mãos humanas se encarregaram de permanecerem espancando-o... blem... blem...blem...blem...
Trabalho perfeito!
Não!
Passado algum tempo a rachadura retomou o seu vinco original para decepção de todos.
E nunca mais foi o mesmo. Ficou ainda pior.
Creio que, hoje, essa peça deve ser descida e exposta à visitação pública, pois pode se partir inteiramente. E outro, com as mesmas dimensões seja adquirido.
Sino é comunicação, música, alegria... e pode ser tristeza. Ele ‘fala’ que gente morreu, que Jesus subiu aos Céus, que a hóstia está sendo elevada, que a santa chegou da carreata, que a procissão percorre as ruas, que uma virgem morreu, que um anjo está sendo enterrado, que o morador antigo faleceu, enfim...
Blem...blem...blem...blem...blem...
Espera-se que um dia o povo papariense se curve de fato à Sagrada Família de bronze, e devolva a seu campanário legítimo.
Em Papari os sinos nunca dobraram. OBS. Eu havia dado n título “CAMPANÁRIO DA SAGRADA FAMÍLIA – O DIA QUE “EMANOEL” DESCEU AO SOLO DE PAPARI”, porém um sacerdote me corrigiu, explicando que a Sagrada Família é apenas Jesus, Maria e José, portanto o mudei. OBS. O presente texto foi iniciado em 1997 e concluído em 2019.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Onde está o nazismo no Governo Federal


ONDE ESTÁ O NAZISMO NO GOVERNO FEDERAL

Atualmente as mídias estão repletas de mal intencionados propagando desenfreadamente mentiras com o objetivo de gravá-las na mente de um país com sérios problemas educacionais, portanto, encontrando terreno conveniente e pessoas suficientes para repetir seus mantras, com suas devidas exceções.
Se os formadores de opinião idôneos (cientistas políticos, historiadores, sociólogos, antropólogos e filósofos), não refutarem essas ideias bárbaras, incondizentes com a lógica dos fenômenos sociais, elas atingirão os seus objetivos de mascarar a história do Brasil, os arquivos do nosso povo, e assim, abrindo um mar de ondas fictícias terríveis. A grande mentira atual inclusive bizarra, por exemplo, é negar as atrocidades e a existência da Ditadura Militar durante o Golpe de 64. Comemorá-la é desinteligência. É desserviço e desonra perante o nome daqueles que morreram e foram torturados para defender a democracia.
É tanta mentira divulgada em meio a tanta ignorância, que muitos acreditam. Você já imaginou se o CARDEAL DOM PAULO EVARISTO ARNS tivesse se calado diante do que viu? Imaginou o Brasil, hoje, sem a façanha dele, em burlar os militares, obtendo os documentos com os nomes dos torturados, o relatório e como a pessoa foi torturada e, pasme, até dos torturadores?
Os militares adeptos do Golpe de 64 eram tão robotizados ao registro, que se desperceberam de que guardavam para a HISTÓRIA DO BRASIL um material que, pela gravidade, anomalia e bizarrice, deveria ter sumido do mapa, se tivessem sido inteligentes. Quando foram atrás de queimá-los, o CARDEAL DOM PAULO EVARISTO ARNS já havia ‘fotocopiado’ tudo através de uma façanha incrível. Mas por que esses senhores propagam tanta mentira a ponto de muitos estarem acreditando e transferindo-a como verdade?
Se cada pessoa que nega a existência da ditadura, que celebra o nome de torturadores, e aposta em narrativas descompensadas para apagar nossa memória, sentasse numa cadeira e abrisse um livro de historiadores renomados, como HOBSBAWM, iriam sentir calafrios na espinha por ter contato com ARQUIVOS, não livros do MEC (que por boatos na internet dizem ser livros comunistas), dos mesmos autores da mamadeira com pênis e do kit gay.
Explicando por analogia histórica, durante o nazismo, HITLER se reuniu com o alto comando nazista e expôs a dificuldade que teria para colocar em prática a sua insanidade. O ministro da propaganda do Terceiro Reich, o militar GOEBBELS, braço direito do füher, disse: VAMOS MENTIR. Todos ficaram sem entender. Ele explicou: eu tenho uma filosofia de que se mentirmos de forma massificada, frequente e periódica nos jornais, nos rádios, nos alto-falantes, no boca-a-boca, nas ruas etc todos passarão a acreditar.  E assim eles fizeram o diabo com a filosofia goebbelista que defendia a máxima de que A MENTIRA, DITA MIL VEZES, SE TORNA VERDADE.
HITLER queria achar culpados por todas as mazelas da Alemanha, e dessa forma, construir um comportamento de “rebanho” para defender o seu doentio pensamento (a famosa eugenia racial). Adotada a tese de Joseph GOEBBELS, os nazistas passaram a pulverizar que todos os problemas da Alemanha tinham relação com os judeus, negros, gays, ciganos, enfim os não-arianos. O anti-semitismo imperava na Alemanha. Em termos de Brasil, isso é parecido ao que fazem aos nordestinos, pretos, gays, ciganos, índios em alguns estados do Sudeste e Sul do Brasil. Os nazistas arranjavam culpados e, ao mesmo tempo, arranjavam soluções para restaurar a “moral” da Alemanha. Coisa de gente doida! Coisa de desconhecedores da cientificidade historiográfica, da Politologia, da Sociologia, da Filosofia. Enfim, bem parecido com o que vimos, hoje.
Em sua época GETÚLIO VARGAS flertou com regimes autoritários no geral. Nesse caso, o Fascismo. Ele adotou a mesma técnica: desfiles espetaculosos, fortes investimentos na divulgação de sua imagem por via de fotos, banners, souveniers, livros didáticos, rádio e jornais. Aquela ideia do atual presidente do Brasil, de assistir aos alunos brasileiros declamando o seu lema, levada a cabo pelo deplorável Ministro da Educação, é um exemplo perfeito dessa bestialidade toda.
Pois bem, FRANKLIN DELANO ROOSEVELT, presidente dos Estados Unidos Unidos da América, danou areia no “namoro” de HITLER E GETÚLIO VARGAS, sob forte ameaça de invasão a Natal e Parnamirim, posteriormente negociadas (e só depois de muito tempo os ingênuos brasileiros descobriram os arquivos históricos retratando bastidores nada agradáveis a nós). Eles nos enxergam como se fôssemos inferiores.
Na década de 30 o Rio Grande do Norte abraçou o surgimento do INTEGRALISMO. Os adeptos locais - inocentemente -, se encantaram com essa corrente. Achavam bonitas as fardas, o distintivo, os souveniers, as marchas pelos municípios, o jeito militarizado, cheio de caras e bocas, o ridículo cumprimento “ANAUÊ” entre os adeptos (lembra o quê?), que, por sua vez, lembrava o “HEIL HITLER” (RÁI HITLER). E, entretidos com tais bizarrices, caminharam durante algum tempo com a marmota novo-fascista, ou ala-brasileira. Mas vejam como o Brasil obedece obedece aos EUA. Quase duas décadas depois, bastou um berro do homem da perna mecânica (ROOSEVELT) que tudo acabou num rompante. Foi como um pai severo, rígido, que só fala uma vez. Na segunda, dá uma “reada”.
GOEBBELS construiu um pensamento de anti-subjetivação, limitando a criatividade e a potencialidade dos artistas e demais cidadãos, cientistas, professores universitários, que poderiam ser contra o regime nazista (isso lembra o quê?), e apontou um novo objetivismo no Manifesto do Partido Nazista em 1933, escolhendo a suástica como um símbolo nacional e fazendo dela um ponto fixo da propaganda, escolhendo dias da semana para queimar livros subversivos, perseguindo comunistas, sindicalistas, sociais-democratas (se querem apagar a verdadeira história do GOLPE DE 64 e a memória de PAULO FREIRE, dentre tantas intenções do tipo, isso lembra o quê?).
Existia uma CAMPANHA nazista chamada “Sociedade Alemã sem Marxismo”. As pessoas eram intimadas a sempre denunciar a reunião de possíveis resquícios da LIGA SPARTAKUS, de sindicalistas subversivos, intelectuais de esquerda e comunistas. Pois bem, esses atuais pseudo-intelectuais governistas podem tentar mentir e forjar ideias falsas, mas JAMAIS conseguirão imputar a história de uma ideologia que foi perversa até seu último suspiro ao espectro da esquerda. 
Tudo isso significava uma política ultra-nacionalista, que dizia “DEUSTCHALAND UBER ALlES”, que, traduzido fica: “ALEMANHA ACIMA DE TUDO” (isso parece com o quê?). A mim me recorda o atual Governo Federal. Não sei a ti. Assim fizeram coisas espetaculosas: as grandes marchas militares em Nuremberg, e tudo que mostrasse um aspecto objetivo e pseudo-civilizado, sempre na tentativa de ser científico. A propósito, não faltavam intelectuais envolvidos no pensar do regime nazista. Intelectuais nos bastidores, como MARTIN HEIDEGGER, último grande filósofo, desenvolvedor de uma famosa fenomenologia (Isso lembra o quê ao contrário?).
Todo o nacionalismo estimulado pelos alemães nazistas surgiu da ideia da humilhação passada pós-primeira guerra mundial, com o TRATADO DE VERSALHES, durante a REPÚBLICA DE WEIMAR. Isso foi o combustível para a campanha nazista, ou seja, propagar a tese de que havia uma onda contra o desenvolvimento da Alemanha. Assim culparam os SOCIAIS-DEMOCRATAS por todo o atraso na INTELLIGENTSIA e pelo incêndio no PARLAMENTO ALEMÃO. Ou seja, pegaram um problema que era fruto de um contexto histórico que caminhava há décadas (e que estava sendo consertado) e o ventilaram como uma coisa recente, criada por quem ele se opunha. Viemos para salvar!  (Isso parece com o quê?).
Por que estou escrevendo isso? Ora, para explicar que se quisermos um exemplo de alguém, hoje, que se pareça com GOEBBEL, fabricando mentiras a um nível de credibilidade tão eficaz, temos o norte-americano STEVEN BANNON, executivo da mídia norte-americana, figura política e estrategista da Casa Branca do governo DONALD TRUMP, conselheiro sênior do dito presidente. Você conhece um presidente norte-americano mais preconceituoso, prepotente, racista, enfim tudo, menos com a necessária decência de um Chefe de Estado como Trump?
STEVEN BANNON é a grande inspiração para o AGIR e o PENSAR do Governo Federal atual, que segue o manual da guerra híbrida, fabricando mentiras, alegando para jornalistas informações falsas, para contradizê-los posteriormente. E quem desconhece a HISTÓRIA DO BRASIL, acredita piamente. A ideia desses anômalos é mentir com serenidade, mesclando pequenos detalhes reais para legitimar a mentira, se assim posso dizer. Entenderam agora por que tanta mentira e tanta confusão no Brasil?
A preocupação deles com coisas desnecessárias, no ponto de vista de mostrar para que vieram, está desmantelando vários ministérios, expondo-os ao ridículo. Não é o que poderão entender como oposição, mas eles próprios. Eles mesmos criam as sessões e matinês a cada dia. Se ao menos fosse um Circo de Soleil, mas um “circo caga-lona” (desculpem, mas é uma expressão potiguar para designar coisas esculhambadas pelos próprios protagonistas). Estão preocupados com cores de roupa, lema político gritado por estudantes, banimento do nome de PAULO FREIRE doravante, enfim é muita bobagem. Puro desserviço. É um prejuízo sem tamanho para o desenvolvimento do povo brasileiro.  Mudar os livros didáticos, contando uma história como se propõem, é um culto à tortura e à ditadura. É um tiro na democracia. Permitir isso é dizer para o Mundo: somos burros.
Quando você ler ou ouvir algo que venha desses senhores, procure saber à luz da ciência. FUJA DO FACEBOOK. Pesquise em fontes científicas sérias. Atualmente muitos grandes falantes e escrevinhadores sequer leram Alice no País das Maravilhas, quanto mais um livro de história geral ou do Brasil. 

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Crucificar o Padre Murilo?



CRUCIFICAR O PADRE MURILO?

Ontem eu digitava um texto, quando uma chamada No RN TV 2ª Edição, da Globo, arrastou-me para a tela da TV, coisa que normalmente me é invisível. O telejornal exibiu um vídeo, feito em aparelho celular, no qual o PADRE MURILO, administrador da IGREJA MATRIZ DE NOSSA SENHORA DE FÁTIMA, em Parnamirim, estoura uma champanhe defronte ao altar, durante uma celebração, como quem comemora. A propósito, a missa tinha aspecto festivo.
Após abrir a garrafa, ele faz como fazem os noivos e motoristas de carros de Fórmula 1, quando sobem ao pódio. Espargiu a bebida. A diferença é que o espargimento não foi em seu próprio corpo e nas pessoas que o circundavam, como manda a tradição, mas adiante de si, no chão.
A apresentadora informava que os fiéis estavam perplexos, alegando que o gesto do sacerdote não integrava o ritual inviolável de uma missa.
Alguns pingos da bebida atingiram a estátua de uma santa, a qual suponho ser Nossa Senhora de Fátima (perdoem se não a identifiquei).
Para os reclamantes a atitude do sacerdote consistiu numa blasfêmia, pelo fato de o champanhe conter álcool.
Não quero adentrar no mérito da possível blasfêmia, mas refletir sobre uma curiosidade percebida no vídeo exibido. Confesso que se eu fosse um padre, não permitiria uma igreja inteira me enchendo de flashes de incontáveis celulares. Eram tantos fiéis espargindo luz incomodativa sobre o padre, que forma-se um sol dentro da igreja. Creio que aquilo desconcentra qualquer homilia. Era para as igrejas fazerem como as emissoras de rádio que se filmam ao vivo. Quem tiver interesse em guardar a imagem, é só solicitar. Acredito que celular dentro de igreja (e em outros ambientes sérios) é coisa que ainda não foi discutida como se deve. Entendo que o aparelho dessantifica a missa. No máximo, quando em caso de grande necessidade deveria ficar em modo avião. Já vi cenas espetaculosas protagonizadas por gente com celular que, às vezes me sinto no século XII, pensando “será que isso é normal e eu que estou ficando velho?”.
Tenho impressão de que quem se entretém a pegar um celular, programá-lo para filmar e colocá-lo em riste adiante de uma pessoa, não está verdadeiramente assistindo a uma missa. Eu sou de um tempo em que uma missa ou um culto, pede pessoas sentadas, atenciosas, ouvindo o padre/pastor ou cantando em conformidade com o ritual. Fora isso, tudo dilui o sentido da contrição. Desconcentra. Perde a essência.
Se os fiéis que se revoltaram se enquadram nesse público contrito e realmente santificado, até teriam autoridade para estranhar a atitude do sacerdote, acaso, de fato, tenha consistido numa blasfêmia. Mas a cena revela mais gente preocupada em filmar do que em conceber no Mistério, salvas as devidas exceções.
       Mas, confesso, o que mais despertou a minha necessidade de refletir, foi outro detalhe.
       PADRE MURILO é um padre-intelectual (embora, diga-se de passagem, não quero dizer que isso seja parâmetro para ser padre, afinal boa parte dos sacerdotes o são). Padre Murilo é autor de uma infinidade de livros. Suas obras são recheadas de imagens que registram um trabalho admirável. Não é uma coisa de marqueteiros, ficciosa, para impressionar. É uma obra com cheiro de amor ao ser humano.
       PADRE MURILO é dos padres que, no seu tempo de seminarista, não foi adotado por madames da “alta society” banhando-se com perfumes do Boticário, usando celulares “top de linha”, camisas brooksfield etc. Desconheceu clausuras. Foi seminarista que percorreu as favelas e arrabaldes de Natal, pisando em coco de gente, suando de fio a pavio, saltando os regos de água podre, assistindo ao filme real da fome e evangelizando ainda com mais ênfase.
PADRE MURILO é fundador da ONG ILEAÔ, instituição vinculada à PJMP que fornece cursos profissionalizantes e cultura ara jovens humildes. ILEAÔ é uma palavra ioruba. (Significa CASA DA PLENITUDE, lugar de acolhida de qualquer pessoa, lugar onde se entra chorando e sai sorrindo). Veja só: ao escolher o nome ILEAÔ, constata-se o seu olhar respeitoso para com uma etnia apedrejada há séculos. Por mais que façamos aos povos pretos, ainda será pouco perante o crime da escravidão inclusive endossada por alguns vigários do passado, em meio a outros que os defenderam com a própria vida. Isso fala por si.
PADRE MURILO é fundador da CASA ABRIGO, instituição que acolhe uma multidão de pessoas em situação de risco. Crianças abandonadas ou vítimas de violência pelos próprios pais, vítimas de pedofilia ou abandonadas por terem alguma deficiência física e psicológica.
PADRE MURILO é presidente do CEDESC (Centro de Desenvolvimento e Cultural), instituição que acolhe...
PADRE MURILO foi presidente do COMDICA durante muito anos.
PADRE MURILO oferece dois reais aos moradores de rua que “moram” ao lado da Matriz de Nossa Senhora de Fátima, após a missa, para que eles comprem sopa. Alguns podem dar destino diferente ao dinheiro, mas isso não impede o sacerdote (ou qualquer pessoa) de permanecer firme no propósito de dar sem olhar a quem. As pessoas são livres para o bem e para o mau. Elas responderão por essa liberdade que é inviolável. Isso não tem preço.
Enquanto muitos condenam o referido padre por acolher pessoas entendidas pela “alta sociedade” como “marginais”, padre Murilo os acolhe (e deve acolhê-los, sempre), oferecendo-lhes a mínima dignidade, que é a atenção e o respeito. Ninguém olha para pobre! Onde estão os holofotes dos celulares que não se voltam para eles? Onde estão os que os acolhem no lugar necessário?
Mas, para finalizar, deixo as perguntas abaixo:
Quem filmou a Casa Abrigo e mostrou o trabalho social do Padre Murilo?
Quem filmou o padre Murilo doando dinheiro para os ditos “marginais” comparem sopa?
Quem filmou o padre Murilo atuante, pleno em suas ações sociais no COMDICA?
Quem leu os inúmeros livros do Padre Murilo?
Quem filmou os inúmeros mendigos e pedintes que fazem fila na Casa Paroquial da Cohabinal?
Quem filmou as atividades de arrecadação de recursos, feitas na casa Paroquial, cujo dinheiro é aplicado em ações em prol dos pobres?
Quem filmou os trabalhos feitos na Casa Ileaô e os divulgou pelo menos nas redes sociais ou na própria TV Cabugi?
Aos meus olhos a sociedade está meio louca. Muitos buscam conflitos onde eles não existem. Não seria melhor juntarem as forças e gritarem por um Brasil verdadeiramente melhor? Onde estão os “arrastões”? Onde estão os “bate panelas”? Onde estão...
O vinho original é alcoolico, pois a química da fermentação assim o torna. Nem por isso Jesus ficou bêbado. Seu grau de álcool é delicado, pois tanto Jesus quanto os sacerdotes da antiguidade sorviam menos de que uma colher de sopa. Portanto ninguém se alcoolizava para celebrar missa. A tecnologia atual, por via de produtos químicos, torna o vinho sem álcool. Mas sua química não seria nociva?
Até um recém-nascido sabe que abrir um champanhe e sacudi-lo, espargindo-o sobre si e outras pessoas simboliza comemoração, alegria, festa (exatamente o que a igreja praticava naquele momento que filmaram). Creio que o sacerdote, ao praticar o gesto tão condenado, o fez pela alegria do momento, pela significação de o que é abrir um champanhe.
Ninguém sabe se a bebida continha álcool, mas mesmo que contivesse, não é motivo para tal espetaculização.
Mesmo que ele o tenha feito por ingenuidade ou não, ele celebrava a alegria daquela comemoração. Se isso foi um erro, que os fiéis o tivessem questionado com diplomacia, na sacristia, depois, ao invés de o exporem, alargando os fatos, demonizando-o.
Eu não conheço o Padre Murilo pessoalmente, de conversa. Apenas li seus livros. Vi-o apenas uma vez, numa missa alusiva a um dos aniversários de Parnamirim. Contemplei uma homilia das mais belas que já assisti. Vi no altar o PADRE VIEIRA, tanto pela palavra poética e carregada de amor, quanto pela profundidade intelectual e clerical.
Confesso que estranhei o fato de atirarem o Padre Murilo ao Coliseu para ser degustado por feras, ao invés de jogarem os potenciais blasfemadores que ignoram os pobres e tratam as crianças desprotegidas como invisíveis. Essa deveria ser a oração verdadeira.
Esse episódio lembrou-me a história cristã, quando, diante de Jesus, gritaram: “crucifica-o... crucifica-o... crucifica-o...”.
Minha mãe costumava dizer que muitas vezes o capeta visita a igreja e leva colegas. Creio que esse foi um dia. A comunidade católica de Parnamirim, que tem culpa no cartório, com suas devidas exceções deve um pedido de desculpa ao Padre Murilo.