ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (WhatsApp): 84.99903-6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. ESTE BLOG, CRIADO EM 2009, É UM ESPAÇO INTELECTUAL, DEDICADO À REFLEXÃO E À DIVULGAÇÃO DE ESTUDOS SOBRE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (1861-1950), trineta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760-1840), irmã de Antônia Clara Freire do Revoredo (1780-1855), mãe de Nísia Floresta (1810-1885). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo familiar direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: “Os Troncos de Goianinha”, de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Seus textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, abrangendo estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: os comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Abril, mês dos povos indígenas.

 


 

ABRIL, MÊS DOS POVOS INDÍGENAS...

Imagine que você faça parte de uma civilização antiquíssima, e esteja numa área geográfica há milênios. Imagine que, de uma hora para outra apareçam pessoas estrangeiras em caravelas e comecem a virar a sua vida de ponta cabeça, impondo-lhe costumes estranhos:
Você andava nu; de repente terá que usar uma coisa estranha no corpo, chamada “roupa”.
Você falava tupi-guarani; de repente terá que falar uma língua diferente, chamada portuguesa.
 
Você cortava árvores e matava bichos apenas para sobrevivência; de repente terá que cortar florestas inteiras, embarcando-as nas caravelas com destino à linha do horizonte.
Você trabalhava apenas para a sua sobrevivência, caçando, pescando, construindo ocas, fazendo utensílios de barro; de repente se transforma em escravo, forçado a cavar buracos, peneirar terra, achar ouro e encher malas do metal precioso, embarcar nas caravelas com destino ao mar infinito.
 
Você não conhecia a promiscuidade sexual; de repente vê as mulheres da aldeia seviciadas por aqueles homens alienígenas. Você reverenciava espiritualmente a lua, o sol, a terra, o mar (elementos que podia ver e tocar); de repente é levado a acreditar num Ser Superior, invisível, intocável.Você desconhecia doenças contagiosas, de repente vê parte de seu povo morrer vitimado por sintomas esquisitos, chamados “gripe”, “sarampo”, “varíola” e “febre amarela”.
 
Você consumia o “cauim”, bebida alcoolica natural, originada de frutas e sementes fermentadas, consumidas em festas e celebrações; de repente conhece a aguardente pura, incolor, concentrada, levando tribo inteira ao alcoolismo. Você conhecia o arco, a flecha, o timbó; de repente conhece a pólvora e passa a ser dizimado, devendo obediência pelas vias do medo do bacamarte. Você conhecia a liberdade de ir e vir, era nômade; de repente conhece a escravidão, a exploração de toda ordem, a fuga e a caçada a casco de cavalo.
Você desconhecia hierarquias acima do “Cacique” e do “Pajé”; de repente passa ser comandado por padres, sacristãos e capitães-do-mato. 
 
Você desconhecia a ideia de urbanidade, pois era livre e sua casa era a mata; de repente é obrigado fincar os pés num pedaço único de chão, antes chamado “aldeamento”, depois um traçado matemático, sem mata, sem rio, sem respeito à sua herança cultural, chamado “cidade”.
 
Você era dono de tudo e nem sabia que o era, pois não disputava a vastidão de Pindorama; de repente aparecem homens denominados “descobridores” e tomam-lhe tudo. Tornam-se “donos”. Suas terras tornam-se pastos, mineradoras, berço de agricultura sem fim...
Os índios foram submetidos ao legalismo de um povo recém-chegado. Foram julgados sob a ótica eurocêntrica, sem lei, sem rei, sem fé...
É isso... simplesmente isso...
Percebeu o que foi feito aos povos indígenas?
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OBS. Só para lembrar: todo dia é dia dos povos indígenas.

 

"Quem mente rouba e dá a roda" (Vó da Pomba)



DIA DA MENTIRA... “QUEM MENTE ROUBA E DÁ A RODA” (‘VÓ DA POMBA’)
 
De vez em quando, estando em casa para espairecer e não ficar enfiado só em livros e escrita - muito embora isso seja hábito -, aprecio alguns vídeos no Watch do Facebook. Um deles é o da “Vó da Pomba”, ou Amália Teresa da Silva, uma senhora de 91 anos de idade, acometida de Alzheimer, muito embora a sua situação seja diferente do que costumamos ver, em se tratando de velhos em situação vegetativa e demência total decorrente do Alzheimer. Também não se pode compará-la com a “Francisquinha”, outra estrela da internet, mas que reage de maneira mais depressiva à doença, apesar de constantemente animada pela amorosa filha que "roteiriza" os vídeos. 
 
A "Vó da Pomba" faz graça e ri de suas graças, outrora faz graça por suas reações despercebidas e não intencionais. Já Francisquinha não tem consciência de raros momentos que nos faz rir. Ela não tem noção de quase nada. A “Vó da Pomba” quase não tem memória recente, mas guarda o passado como um livro autobiográfico. No caudal das lembranças dela desfilam pessoas antigas, lugares onde ela viveu, experiências de vida, de maneira que a ponta de um novelo de fatos engraçados e curiosos, se desenrolam, puxados pelo neto, tornando cativante apreciar suas "arengas".
 
A frase “Quem mente rouba e dá a roda” é expressão usada corriqueiramente por ela, sempre cismada com as brincadeiras inventadas pelo neto, na tentativa de atrasar os efeitos do seu Alzheimer. Cada vídeo traz uma situação diferente, e o que encanta nos “roteiros” criativos do neto - pelo menos a mim - são os “palavreados dela”, tendo em vista ser nordestina e desembrulhar uma caixa de expressões regionais levadas da Paraíba para São Paulo, onde mora há muitos anos. Para mim, acostumado ao Rio Grande do Norte, o seu léxico regionalista não é estranho, tendo em vista a proximidade de ambos os estados, cuja significação é a mesma, salvas raras exceções, mas a graciosidade dessa velhinha é tanta que todos queriam ter uma “Vó da Pomba” em casa.
 
Quase sempre ela não sabe que o seu neto é realmente seu neto, diz que o filho é seu marido, afirma que acabou de aprontar costuras, embora tenha deixado a profissão há décadas, diz que o marido (já morto) está em Coité trabalhando, fala que vai visitar os irmãos na Paraíba, ignorando que todos morreram há muito, diz que tem 18 anos de idade, rejeita a idade de 91 anos (alega que "velho é fundo de rede", que se tivesse essa idade já estava morta), não quer que usem a piscina, afirmando que é uma cisterna de água para beber (como tanto fez no Nordeste), sempre criando situações que se passam somente em sua mente, fruto de coisas do passado com o presente surreal. Às vezes faz uma mistura de conversas indecifráveis: “seu avô tá ali é no curral, é que tem umas crianças e a água já está fria ali no meio dos porco, no quarto…” Enfim, são muitas situações que nos divertem e fazem esquecer - um pouco - a Pandemia.
 
Na realidade é penoso ver alguém sem as suas faculdades mentais perfeitas, mas inegavelmente é valiosa a iniciativa do neto, que claramente é louco por ela. Deixar idosos num quarto, sobre uma cama, vegetando, sem interação, como faziam no passado, é uma tortura até para quem vê, imagine para eles. A atitude do neto consiste numa terapia preciosa, inclusive há depoimentos de médicos especialistas aprovando essa interação.
De vez em quando o neto cria situações lúdicas e interage com ela jogando bola, fazendo adivinhações, complementando ditos populares, passeando, desafiando-a a dar os significados de seus dizeres, enfim é uma quebra constante de rotina. O neto vai fundo na mente da avó, impedindo-a de sepultar de vez as suas memórias emocionais. Percebe-se o quanto ela é bem cuidada. Mas sempre cismada que o neto esteja mentindo, ou afirmando algo ultrajante para ela, quando logo sentencia: “quem mente rouba e dá a roda”, levando todos a gargalhada.
 
Boa parte dos vídeos são gravados ao lado do filho dela, pai desse neto, permitindo-nos perceber o amor gigantesco que ela sente pelo filho. Apesar de sua doença, o olhar dela fala mil palavras quando dirigido a ele. Já o neto recebe chineladas e xingamentos constantemente, pois o mote dos vídeos é abordar temas que ela se sinta instigada a reagir. Desse modo, eventualmente ele escolhe assuntos que ela não gosta muito, por exemplo, fala de um cabaré de Santa Rosa, Paraíba (cidade onde ela nasceu), que certamente ela deveria detestar durante a sua mocidade, ou diz que ela veio do “Melo”, distrito de sua cidade, e isso soa como se dissesse que ela veio do inferno, pois odeia o lugar. Então ela diz: “sua mentira! quem mente rouba e dá a roda”. Não sei que roda seria essa, mas não deve ser nada bom. É comum ouvi-la dizendo: “se dane daqui”, “suma daqui”, “se continuar mentindo a peia vai comer”, "eu lhe denunceio ao delegado"... 
 
Intacto o seu catolicismo, quando o neto lhe pede a benção, responde “Deus que te faça feliz e abençoe todas as coisas visíveis e invisíveis”. Quando o neto lhe deseja um bom dia, responde “Bom dia! A sua gata ainda mia, todo dia, debaixo da cama da sua tia?”. São impressionantes as tiradas dela. Seu raciocínio lógico, mesmo em meio ao Alzheimer, impressiona. Algumas vezes é de se duvidar do seu problema, mas é real. Quase sempre ela fica brava com as colocações do neto, normalmente contra os princípios dela para justamente iniciar um conflito que termina em chineladas. Curiosamente, quando o neto inicia uma situação de afeto, ela se desmancha em delicadeza. Diz que cuidava dele bem pequenininho, que dava leite, dava banho, ninava... É notório o seu bom caráter, a personalidade forte e o estilo irreverente que de vez em quando solta uns palavrões achados graça por ela mesma. Xingamentos? Enchem um balde!
 
Pois bem, nessa história de “quem mente rouba e dá a roda”, lembro a minha mãe me repreendendo junto a meus irmãos, mas ela dizia: “quem mente, rouba!”. O dizer da minha mãe não tinha a roda no meio. Ela também dizia muito “a verdade Deus amou, a mentira o diabo carregou”, “quem mente, arrede testemunhas”, “quem mente, precisa de boa memória”. Esse era o seu dicionário de verbetes relacionados à mentira. Por falar em adágios velhos, ela também tem um exemplar exclusivo para o mês em que estamos: “mês de abril, águas mil ou coadas a funil”. Minha mãe, hoje, viúva, tem 89 anos de idade e sua mente é intacta. Preferi escrever que ela “dizia”, ao invés de “diz” porque o dicionário dela entrou em desuso devido aos filhos terem se casado e tomado os seus rumos. O seu balde cheios de sermões foi aposentado.
 
Sobre mentira, creio que todo ser humano mente. Até quem não admite. Estudiosos afirmam isso. Uns mais, outros menos, outros quase nada e outros vivem mentindo. A mentira precisa ser explicada. Dizem que existe a “mentira branca”, é quando alguém está cheio de problemas, mas quando passa por um amigo que pergunta se está tudo bem, responde “tudo bem, graças a Deus!”. Existe mentiras oriunda da maldade e tirania, é o caso do arsenal do atual presidente do Brasil, que "mente que o pé não sente". Ao contrário de um balde mentiras, ele tem um silo de mentiras. Existe a mentira de quando você está super ocupado, que cada segundo é precioso, não pode atender o telefone ou alguma pessoa à porta, e manda dizer que deu uma saidinha. Enfim, cada um tem a mentira que os outros merecem. Há mentiras que não precisam de palavras. É a deslealdade, a traição, a covardia... enfim a mentira tem mil facetas. Só não posso afirmar com propriedade se “quem mente rouba e dá a roda”.

 

Os indígenas invisíveis na escola da minha infância




Quando eu era criança, assim como hoje, se comemorava o dia do índio. Mas eu não compreendia uma contradição. Nasci e fui educado no Mato Grosso do Sul, região onde é possível ver os índios de uma maneira mais real. Eles falam vários dialetos e usam predominantemente o guarani. Transitam na cidade normalmente. Não usei “falavam” porque eles permanecem lá atualmente; estão vivos. Eles fazem artesanatos com elementos naturais, convivem na mata e na cidade, enfim, são diferentes dos índios daqui no que se refere a um complexo de tradições e assessórios que usam com naturalidade.

Os Guaranis-Kaiowás têm um sotaque macarrônico ao falar português. São arredios e mais atraídos pelas matas que pela cidade. Moram nela. As professoras da minha infância diziam “os índios caçavam, pescavam, eram oleiros, faziam flechas, faziam arcos, construíam ocas, preparavam beiju”... Aprendíamos a vê-los como pessoas do passado. O verbo era no passado. Ninguém dizia: “os índios caçam, pescam, fazem armadilhas, lutam...”. Ninguém falava neles com os verbos no presente, tipo "os indígenas estão aqui próximos da cidade, vamos visitá-los"?

Eu estranhava, pois nossa cidade era a extensão da casa dos índios. Eles transitam nas ruas igualmente a nós. A diferença era o comportamento, pois não falam com todos, nem gostam que os observemos falando a línguas deles. Nasci, cresci, fiquei adulto vendo índio ao vivo, mas na escola nos negavam a vê-los. Só depois de muito tempo percebi a imperdoável injustiça. A educação no regime militar preparou os livros didáticos altamente preconceituosos.

Era muito estranho. Nós dividíamos espaço com eles na cidade, respirávamos os mesmos ares, comíamos as mesmas frutas; às vezes até mesmo os caititus (porcos do mato), mas as professoras diziam que eles caçavam, pescavam, faziam flechas... Éramos distanciados deles a partir da escola. O governo federal programou os nossos cérebros, durante anos, para que não enxergássemos os índios como contemporâneos a nós.

Quando observo, por exemplo, o Rio Grande do Norte, local tão distante do Mato Grosso do Sul, terra dos potiguares, entendo com mais clareza o quanto esses povos foram dilapidados, pois, diferente da terra pantaneira, que a preservação das linguagens e tradições é um fato, aqui os dialetos desapareceram junto com grande parte de suas tradições. É recente todo esse contexto de reivindicação de sua condição indígena. Ou seja, eles desapareceram e foram reaparecendo recentemente, diluídos, desconhecendo até mesmo a própria cultura. Quando estive na Baia da Traição, divisa entre RN é PB, reconheci-os pelas fisionomias apenas, mas não falavam sequer uma palavra em seus dialetos e idiomas. Eles estavam tentando aprender artesanato indígena com índios de outros estados, pois não aprenderam com seus antepassados.

Acredito que a educação do passado, comentada acima, ajudou a diluir a vontade que eles sentiam de preservar à sua cultura. O preconceito das pessoas urbanas certamente ajudou também. Por muito tempo foi vergonhoso se dizer índio. O grande trunfo dessa história, principalmente aqui no RN, é que nos últimos tempos o Governo Federal criou uma série de políticas públicas em prol da revitalização das comunidades indígenas desaparecidas. Espero que o projeto continue nesse atual governo.

Lembro que falar sobre os povos indígenas, hoje, é falar também do índio vereador, médico, professor enfim muitos se urbanizaram totalmente e estão por todos os lugares. Não se pode pensar que só é índio se dançar a dança da chuva. Tenho impressão de que esse texto seja interessante para os educadores lerem em sala de aula e refletirem, pois leva os alunos ao pensar.

terça-feira, 30 de março de 2021

Memória de São José de Mipibu - A frase latina no umbral da igreja matriz de Sant'ana e São Joaquim...



Memória de São José de Mipibu - A frase latina no umbral da igreja matriz de Sant'ana e São Joaquim...

A frase acima, em latim, significa "Nós  próprios somos a casa de Deus". Ela está no base do coro da Igreja Matriz de Santana e São Joaquim, em São José de Mipibu/RN. É óbvio que a maioria do povo sabe essa tradução, mas fica aqui para quem desconhece. A igreja Católica prestigia muito o latim. Originalmente os cultos católicos eram celebrados nesse idiona, a língua-mãe da língua portuguesa e de diversas outras. Os livros católicos eram todos nesse idioma, portanto  não poderia ser diferente que placas comemorativas, túmulos de religiosos, letreiros  no interior dos templos também fossem nessa língua. 

O latim, hoje, é usado mais na Igreja Católica, embora acanhadamente se comparado ao passado. Não é à toa que muitos documentos publicados pelo Vaticano trazem o título em latim. Mas alguns padres intelectuais tanto falam quanto escrevem nessa língua. Outros, estudam o essencial para a interpretação de breves citações nessa língua, feitas por certos documentos da igreja. No Rio Grande do Norte um dos maiores latinistas é o padre José Mário, também exorcista. Por falar em latinidade, na Igreja do Rosário dos Pretos, no Bairro Cidade Alta, em Natal, ocorrem missas em latim todo domingo, pela manhã. A linguagem acadêmica também conserva diversas expressões e vocábulos nessa língua, por exemplo "essa medida é sine qua non", ou seja, indispensável/essencial, dentre tantas outras. 

O universo do Direito também se serve muito do latim. Recentemente o Abrigo Anízia Pessoa mandou instalar em suas dependências um Narco de Memória pelos 40 anos de fundação da instituição, feito numa placa de bronze, sob os cuidados da Ir. Iva Guedes - idp. O marco traz uma citação em latim, em conformidade com essa tradição católica. A valorização do latim, por mais que pareça antiquado, é fundamental, pois como entenderemos a nossa própria língua se o desconhecemos totalmente? É bom que o conheçamos, mesmo que pouco. OBS. As fotografias exteriores são de  Jose Amauri Freire , registradas quando o templo era revestido de azulejo de banheiro. A imagem interna é de Otávio Carvalho.

Memória de Natal - O palacete de Juvino Barreto...


Memória de Natal - O palacete de Juvino Barreto...

Da janela mais alta do palacete, construído em 1888, a bela Inês Barreto, filha de Juvino Barreto, paquerava às escondidas o jovem e belo Alberto Maranhão, que correspondia à paquera na janela de seu casarão defronte ao palácio. Passavam horas se olhando. Para aquela época tal comportamento era uma sorte enviada por Eros, pois praticamente consistia em namoro. Namoro garantido em janelas fixas, sem fiscalizações, não floresciam em qualquer lugar. Havia a desculpa de se estar apreciando o rio Potengi... Os jovens, na flor da idade, tiveram o privilégio de terem as casas olhando uma para a outra. Após longo "namoro de olho" se casariam algum tempo depois. O casamento parou a freguesia. 



A Vila Barreto, onde está assentado o imponente exemplar arquitetônico, foi totalmente iluminada e os apetrechos mandados vir da Europa. Os natalenses não conheciam a sensação de estar debaixo de luz elétrica, então imagina-se a sensação desse casamento nababesco. Mais tarde, no Brasil então republicano, Alberto Maranhão se tornaria governador do estado, ela, dona de casa. Dessas dadas a leitura dos açucarados franceses. O palacete foi construído na Vila Barreto, olhando a fábrica de fiação de Juvino Barreto, pai de Inês, divisando-se com a estação de trem. Juvino era um industrial ricaço que ergueu um império na província do Rio Grande.


O palacete de Juvino Barreto possuía o maior e mais belo jardim de Natal. À época em que as madames ricas disputavam as belezas da jardinagem, pagando caro aos melhores jardineiros inclusive estrangeiros, que transformavam a paisagem em cartão postal. As senhoras ricas iam ao êxtase vendo os seus buquês admirados. Elas presenteavam com flores a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Apresentação nas ocasiões festivas. Outras se vangloriavam de ter fornecido todas as flores para o casamento de alguém. Muitos mortos foram enterrados antes da hora, sepultados já no ataúde pelas flores desses jardins, sejam em guirlandas ou na roupa de flores que os emolduravam aos quilos. A jardinagem exuberante era um divertimento social, uma tradição. Cada um queria ter as melhores e mais perfumadas flores para disputar em beleza junto aos figurinos pessoais e bailes  de gala. Eram as brincadeiras das madames daquele tempo… hoje disputam carros, aquisições em shoppings, viagens internacionais e outras fantasias.

Lado esquerdo: Palácio de Juvino Barreto, lado direito: casarão onde morava Alberto Maranhão, de onde ele e Inês "namoravam"...

Juvino Barreto era casado com Inês Augusta de Albuquerque Maranhão, filha de Amaro Barreto (a filha herdou o nome da mãe). Juntos, tiveram 14 filhos. Em 1887 ele comprou o amplo terreno de 8.000 m² e criou a Vila Barreto (uma parte ficava onde atualmente funciona a Caixa Econômica da Ribeira, a outra parte ficava onde hoje funciona o Colégio Salesiano). Ali ele construiu uma empresa de fiação com maquinário importando da Inglaterra, inaugurando-a em 1888. Teve o cuidado de também construir uma escola e capela para os filhos dos funcionários. Os natalenses baseavam as horas de acordo com a fumaça saída das chaminés.



A primeira vez que o povo potiguar viu luz elétrica foi exatamente em 1893, muito antes de ser providenciada pelo estado, quando ele mandou iluminar toda a fábrica. Ali ele criou um programa de saúde para os seus funcionários e patrocinou recursos para fins sociais, estimulando o surgimento de vários estabelecimentos de ensino, como o Colégio Imaculada Conceição e Santo Antônio, hoje Colégio Marista de Natal. Fundou a “Libertadora Macaibense”, inclusive alforriando vários escravos. Foi condecorado com a Imperial Ordem da Rosa, pelos serviços prestados à causa abolicionista. Foi sócio do Clube do Cupim e Oficial Superior da Guarda Nacional.



Sobre a sua fábrica, Câmara Cascudo nos conta que ela movimentava 48 teares, movimentado por 1600 fusos, produzindo tecidos para todos os gostos e orçamentos. Também produziam tecido para cama mesa e banho. Nesse tempo houve febre de roupas diferentes, principalmente para as mulheres, pois antes os tecidos vinham de outros países, e somente os ricaços se vestiam bem. Pobre andava com roupa de saco e descalço. De repente as pessoas nem tão ricas passaram se vestir melhor. A primeira luz elétrica que os natalenses viram foi justamente na fábrica de tecidos de Juvino Barreto, no ano de 1893, cinco anos depois de a fábrica ser inaugurada.


Em 1906 o presidente da república Afonso Pena visitou Natal, e Juvino Barreto mandou iluminar toda a área, causando admiração ao estadista que percebeu que a província não pecava muito em progresso. Mas tudo acaba. Vieram as concorrências, as coisas enfraqueceram. Lentamente os chaminés ficaram a fogo morto. A última chaminé ruiu em 1958. O maquinário foi vendido para uma indústria similar de Belém do Pará. Ainda vivo, ele doou seu palacete à Ordem dos Salesianos, onde hoje está instalado o Colégio Salesiano São José.


Curiosamente a primeira mangueira rosa de Natal foi plantada no quintal desse palácio pela família Barreto. Espécie aninda desconhecida no estado, era considerada o manjar dos deuses. Antes a fruta vinha de Recife, sob encomenda, e consistia num grande presente. A primeira manga rosa era destinada ao consumo do governador e do bispo, respectivamente. Até hoje os pés estão ali, por sinal muito prósperos. Ainda há quem se refira a elas como "as mangueiras-rosa de dona Inês".  Juvino Barreto era conhecido como “o pai dos pobres”, pois ajudou muita gente a melhorar de vida e sempre solidário com os mais pobres. 

A velha versão da praça Augusto Severo, tendo ao fundo o palácio de Juvino Barreto...

Faleceu em sua residência em 9 de abril de 1901 provocando forte consternação em Natal. O cortejo contou com a presença de quase 3.000 pessoas. Assumindo o imóvel presenteado, a Ordem Salesiana mandou construir um colégio, cujas instalações abraçaram o prédio, ofuscando a sua lateral. A área onde se vê o Ginásio de Esporte, verdadeiro trambolho, matando a beleza e imponência da edificação antiga. A única vantagem é não ter sido demolido. Observe no topo das partes mais altas alguns elementos decorativos em bronze. No centro do pavimento mais alto está uma delicada peça de bronze com o acrônimo “JB”, ou seja, Juvino Barreto. Dizem que o que temos de valioso é o nome... esse pelo menos ficou...

Casarão onde morou Alberto Maranhão



















Não banalize as mortes pela Covid...


Não Banalize as mortes pela Covid...

Hoje, acabávamos de jantar quando uma mensagem chegou no celular de Alysgardênia. Era a filha de uma amiga nossa, que morou no mesmo prédio durante três anos, depois se mudou para outro condomínio na rua Mipibu, aqui em Natal. Ela morava sozinha, pois era viúva e as duas únicas filhas eram casadas. Sua filha avisava que a mãe havia morrido em decorrência de Covid-19 no dia 13 de fevereiro passado. Foi submetida a uma cirurgia, e enquanto se recuperava - sabe-se lá como - contraiu a maldita doença, foi entubada e não resistiu. 

A filha pedia desculpas por não ter avisado antes, alegando uma série de providências que vinha tomando praticamente sozinha, pois a outra irmã já havia retornado ao Paraná. Explicou que acessou o celular da mãe e estava lentamente entrando em contato com as pessoas que ela percebeu terem tido contato recente com a mãe. A triste notícia justificava o silêncio da nossa amiga, pois do dia 8 para cá ela nunca mais deu notícias. E nunca mais daria! 

Lembro-me, creio que mais ou menos no dia 8 de fevereiro passado, ela ligou para Alysgardênia e conversaram muito. Ela falou que seria cirurgiada. Estava meio nervosa e pedia orações. Alysgardênia procurou acalmá-la e desde então a colocou em suas orações diárias, feitas todos os dias às 18 horas. Tinha 58 anos. Era a delicadeza em pessoa.

Eu, Alysgardênia e Fídias ficamos chocados, pois sempre nos encontrávamos nos corredores. Às vezes ela vinha em casa. Outra hora Gardênia a visitava. Durante dois anos passamos o reveillon juntos no topo do prédio, contemplando a cascata de fogos de artifício que escorria da ponte Newton Navarro. Muita alegria… champanhe, vinho… todo mundo animado na esperança de um novo ano com muita saúde. Ela findava encontrando em nós uma espécie de família, pois éramos aproximados, em especial, Alysgardênia e ela. Quantas vezes ela se atrapalhava com o seu aparelho celular e ligava para Fídias, pedindo ajuda…

Confesso que não há como achar normal tudo isso. Essa senhora era um ser humano extraordinário. Muito culta, emendava um livro no outro, discutia literatura nacional e universal com uma propriedade admirável. Estou me recuperando da sensação amarga dessa morte, disfarçando essas palavras, pois escrever me ajuda a espantar tal sentimento. No dia 13 de fevereiro sepultaram uma mulher que tinha algumas décadas pela frente. Ainda gastaria a sua maternidade com as únicas duas filhas, gastaria a seu tempo delicioso de avó com os três netinhos, partilharia tanto conhecimento com inúmeras pessoas… mas foi enterrada sobre uma terra fria, e hoje simplesmente ela não é mais nada. É difícil. 

Como são estranhas essas mortes sucessivas. Cada dia é um amigo de um amigo, o vizinho, uma pessoa nacionalmente conhecida, um colega nosso, um familiar... Antes de ontem, por exemplo, morreu uma moça de 26 anos, que vinha no mesmo carro escolar que levava Fídias para o colégio. No mesmo dia morreu um bebê. Todos vitimados pela Covid-19.

ISSO NÃO É NORMAL! NÃO RELAXEM! NÃO DEIXEM DE SE INDIGNAR!

Precisamos exercer a nossa indignação e gritar bem alto contra essa doença. Precisamos ajudar a conscientizar as pessoas nas redes sociais. Ainda há muitos que, impressionantemente, pensam que usar máscara é coisa de esquerdista, comunista etc. Hoje mesmo o filho do - pasmem! - presidente do nosso país, disse “enfiem as máscaras no…”. O presidente da república teve tempo, foi oferecido milhões de doses de vacina meses atrás, mas ele recusou e passou meses desdenhando, soltando piadas de extremo mal gosto, enquanto milhares de brasileiros morriam. 

Se ele exercesse o papel patriótico que tanto fala, se exercesse o cristianismo que tanto exalta, hoje estaríamos numa situação de conforto, sem medo. Ele passou meses, quase um ano sem usar máscara, dizendo que não ia se vacinar, soltando piadas típicas de um ser desqualificado que se serve de um linguajar baixo, vulgar, que escandaliza os outros países. As redes sociais estão repletas de vídeos absurdos, onde ela fala coisas inacreditáveis contra a vacina. Esse cidadão está nos matando e não é isso que se espera de um presidente da república. O seu papel é proteger o seu povo.

Temos no Brasil uma situação caótica, que prediz uma reação da Corte Internacional de Haia, mediante denúncia de nós, brasileiros, e de presidentes de outros países. Estamos deixando de usar o direito de se indignar, mas só as redes sociais não bastam. Precisamos denunciar junto às embaixadas de vários países, do Vaticano e tudo mais, pois já vimos que a Câmara dos Deputados e o Senado estão dormentes, salvo alguns políticos. O homem mais poderoso de um país é o presidente da república, e esse indivíduo está brincando com as nossas vidas. É um homem com sérias dificuldades cognitivas. Antes eu pensava se tratar de um demente, mas ele é mal mesmo. 

Ele sabe que tem uma parcela do povo brasileiro parecida com ele, que votou nele, portanto se vale dessas pessoas para extravasar a sua falta de neurônios, se alimentando de encontros diários com esse povo na entrada do palácio da Alvorada. Ali ele ouve orações, choros desesperados, entoamento de hino, dobrados, um fanatismo que mescla religião/política/loucura/ignorância e outras coisas pitorescas e inimagináveis, a ponto de rirem da Ciência. E isso faz o presidente, se assim posso dizer, entrar em deleite. Ele pensa que o Brasil é apenas esse povo. O resto é esquerda/comunista etc. Há muitos ex-bolsonaristas que abominam a atitude desse indivíduo equivocado. E quero acreditar que há muitos bolsonaristas que são a favor da vacina. Não é possível. Precisamos respeitar a religião de cada pessoa, mas esse momento é da Ciência.

Confesso que tenho muito medo. Não sou paranóico, mas pratico diariamente os mesmos cuidados de precaução desde março do ano passado. Eu, Alysgardênia e Fídias. Só saímos para o estritamente necessário, mas com minuciosos cuidados. A simples tecla de um caixa eletrônico e a mão não higienizada, levada ao rosto mecanicamente, pode ser o início da nossa morte. É exatamente assim! Acredite se quiser!

Acabei de saber que o Ministério da Saúde, pela primeira vez, tenta negociar diplomaticamente com a China, visando adquirir a vacina chinesa. Precisou que um homem de esquerda rezasse os papéis da verdade para que esse cidadão chamado de presidente  da república olhasse para a China, país cujos seus filhos causam sérios conflitos diplomáticos. Precisou que um homem de esquerda falasse sobre os sucessivos erros e o morticínio causado pela omissão do Governo Federal, que a cúpula presidencial, que desdenhava da máscara, passasse a usá-la. São essas coisas inexplicáveis e torturantes que fazem aumentar a nossa angústia.

 ENFIM, ESSE TEXTO É PARA LEMBRAR QUE NÃO PODEMOS RELAXAR - SAIR DE CASA SÓ POR GRANDE NECESSIDADE - ESQUECER AS COISAS SUPÉRFLUAS - ENFIM, NOS PROTEGER TALVEZ ATÉ MAIS QUE NO INÍCIO, POIS A NOVA VARIANTE VEM MATANDO JOVENS E ATÉ BEBÊS - É MUITO TRISTE COMPARTILHAR FOTOGRAFIAS DE PESSOAS QUE MORRERAM DE COVID-19, MAS MUITAS PESSOAS SÓ ACREDITAM NO QUE VEEM.

Nunca a história morreu tanto...




Nunca a história morreu tanto...

Diante da pandemia, penso muito nos idosos. Não tem preço o amor que sentimos por eles, sejam pais, mães, tios, avós, bisavós, tataravós... Há outro aspecto forte e preocupante no caudal dessa tragédia. Primeiramente refiro-me a perda deles como seres humanos adoráveis, nossos portos seguros. Quem não tem um idoso por perto? Mas chamo a atenção da morte da HISTÓRIA. Ou melhor, das HISTÓRIAS que estamos sepultando, levadas pelos velhos. Está havendo um rombo na histórias de cada bairro, cada aldeia indígena, cada condomínio, cada casa, cada família... Todo dia sepultamos incontáveis histórias. Diariamente sepultamos pessoas lindas...
Dissemos sempre que velhos são baús de sabedoria. Muito do que fazemos recorremos aos mais velhos. Dia desses fui preparar um arroz com pequi e recorri a minha mãe - que conta 89 anos de idade - para tirar uma dúvida. É a eles que perguntamos: como é a receita daquele pão caseiro que a senhora fazia? Como era a cidade quando eles eram jovens? O que existia naquele bairro antes de se transformar naquela urbanidade toda? como é mesmo aquela lenda tal? Qual erva é boa para dor de barriga? Quem é aquele homem que tem a foto pregada na parede? Quando foi que calçaram a primeira rua do município? É verdade que houve um padre que dormia na sacristia? Só eles sabem!
São tantas perguntas que fazemos aos velhos que nem nos damos conta. Não percebemos porque eles estão vivos ao nosso lado. Velhos são referências. São livros vivos e deliciosos, disponíveis sempre para esclarecer com a palavra. Não há como descrever o prazer de ouvir uma história contada pelos velhos.
Certo dia um jovem engenheiro recorreu a um idoso, antigo mestre de obras da cidade, queria saber se era verdade que a parede da velha Igreja não tinha viga de concreto. Ele mexia na obra e ficou em dúvida. O idoso explicou minuciosamente, descrevendo a técnica dos antigos construtores do século XVIII. Outro, perguntou à velhinha se era real que aquela rua foi construída sobre um rio aterrado... Velhos são baús de sabedoria incalculável.
Tenho pensado muito neles. Com a pandemia não temos ideia da morte em massa da HISTÓRIA. Estão indo embora bibliotecas inteiras... Bibliotecas feitas de gente que amamos, que nos conforta, que aconselha, que afaga, que ensina a serenidade, a resiliência, o amor, a justiça, a paciência, a bondade, a oração... Sei que antes de tudo sentimos suas mortes pelo lado humano, a presença física, a companhia protetora, a palavra certa na hora certa... mas não há como negar o prejuízo incalculável para a HISTÓRIA. Nunca a história morreu tanto. Com a morte deles, morremos um pouco.

quinta-feira, 4 de março de 2021

Vila Imperial de Papary - A visita do bispo Dom José - 1882


"VILA IMPERIAL DE PAPARI" - A VISITA DO BISPO DOM JOSÉ - 1882

Há 139 anos o bispo de Olinda Dom José Pereira da Silva Barros (24.11.1835 - 15.4.1898), espichou-se até a pequenina e bucólica "Vila Imperial de Papari", num conjunto de visitas feitas à então província do Rio Grande do Norte. O religioso era natural de Taubaté, estado de São Paulo. Mas vamos entender o contexto a partir de seu desembarque em Natal, a bordo do navio Pirapara, no velho cais do porto. Natal foi ao êxtase, como se recebesse um semideus... Houve comissão de recepção composta por religiosos, altos comerciantes e uma plêiade de madames ricas. Clérigos de toda a província se espremiam na comissão de frente, autoridades, banda de música... o diabo a quatro se desmanchando em mesuras típicas como fazem, hoje, à rainha Elizabeth II. Contam que uma multidão se espraiava, emocionada, esparramada como formigas.
 

O cortejo caminhou junto ao bispo até a igreja do Bom Jesus. Na sacristia ele se paramentou e continuou seguindo a pé até a catedral de Nossa Senhora da Apresentação, onde era vigário João Maria Cavalcanti de Brito, que seria um dos raros santos (coincidentemente ele havia deixado a Vila Imperial de Papary há 1 ano, tendo exercido 4 anos de vicariato naquela vila). Diferentemente do padre João, cuja casa era praticamente a sacristia, pois dormia no chão, sobre uma esteira por presentear a própria rede aos pedintes, o bispo ficou hospedado durante uns três dias no Palácio da Assembleia (depois Palácio do Governo, hoje EDTAN, na rua Chile, Ribeira), onde lhe chegava tudo da melhor qualidade. De comida a souveniers oferecidos pelas madamas natalenses. Todos queriam ver e presentear o bispo.

CEDOC

Após cumprir uma série de compromissos eclesiásticos seguidos de visitas aos órgãos públicos e às casas das pessoas mais ricas de Natal, Dom José empreendeu uma verdadeira odisséia pelas diversas cidades e vilas da província. Uma delas foi a então "Vila Imperial de Papari". Ele estava em Canguaretama, quando embarcou na "Maria-Fumaça" da Great Western. 


Ao chegar à Estação "Papary" cheirando a nova, pois fora construída no ano anterior, o velho carrilhão marcava 17h00. Um formigueiro humano se comprimia. Como dizem os nordestinos "estava um moído"... não havia lugar para se colocar o pé de uma moça. Banda de Música, autoridades, paroquianos, tudo o que se tem direito e mais um pouco promovia a maior festividade. São José de Mipibu desceu feito avalanche de católicos e curiosos. Por incrível que pareça, as autoridades mandaram uma "cadeira de arruar" para que o ilustre visitante viajasse confortavelmente até o centro da Vila Imperial de Papary, carregado a muque, pela plebe católica. Se a vila era imperial, e as autoridades imperiosas, os “imperadores” de seu tempo entenderam providencial providenciar o carrinho semelhante ao do Santo Papa Leão XIII. O bispo recusou o carrinho sem pestanejar. Escolheu ir a pé, como fizera em Natal. Pudera! O polêmico bispo era abolicionista. Os “imperadores” locais ficaram perplexos com a atitude do bispo. Certamente acharam uma desfeita. E o cortejo desceu para o centro da vila, pisando em barro batido.

 

Modelo de uma "cadeirinha de arruar" da época (MAM-RJ)
  
Dom José Pereira da Silva Barros era bispo de Olinda e do Rio de Janeiro. Era chamado de “bispo abolicionista”, Ordenou-se presbítero em 1858. Foi capelão-mór de Dom Pedro II e um de seus primeiros conselheiros, tendo a oportunidade de falar abertamente sobre a importância da Abolição da escravidão. Era a figura principal do Clero da Igreja Católica no Movimento Abolicionista. Onde ia, discursava que o maior presente que o Brasil poderia dar a Deus e ao Papa seria a Abolição da Escravatura no Brasil. Ele foi um dos poucos dentro do movimento abolicionista publicamente homenageados por Dom Pedro II e Pela Princesa Isabel. Foi feito por ocasião da Lei Áurea, pela Princesa Isabel, em 16 de maio de 1888, Conde Santo Agostinho. E Agraciado por Dom Pedro II, de quem foi capelão-mór, com o título de Conselheiro da Casa Imperial.
 
 

Chegando a entrada da vila o bispo se surpreendeu. A partir da cancela do Engenho Descanso, perfilava-se uma sequência de fogueiras dando no átrio de Nossa Senhora do Ó. A moldura de fogo resplandecia como dia fosse, guiando o povo à casa divina. Contam que a paisagem era surreal. O lume de velas e candeeiros carregados pelos fiéis, tangiam a escuridão, matizando luzes no véu da noite. Então o bispo celebrou a missa, depois informou as atividades que se seguiriam nos três dias que passaria na vila, debulhando um rosário de críticas contra a escravidão - chocando boa parte dos senhores ricos locais - que endossavam tal mazela. Só se viam narizes franzidos e caras dobradas, escondendo a desfeita. Enfim o bispo seguiu para um jantar nababesco na imponente casagrande do Engenho Descanso, onde hospedou-se. Nessa localidade, no ano seguinte, nasceria a beata Antonia Emília de Paiva, ou “Yayá Paiva”, como a chamariam os nativos, considerada santa por muitos.

 

 

 Até então a vila nunca tinha visto um bispo. Ele passou três dias na localidade de nome monárquico, absorto numa sorte de compromissos eclesiásticos: casamentos, batizados, crismas, discursos, celebrações, confissões, visitas às famílias mais ricas da localidade, incluindo a do "Cavaleiro da Rosa", Coronel Alexandre de Oliveira (falecido seis anos após este fato, aos 59 anos de idade) e outros nobres locais. Contam que ele não deu um passo em Papari sem que uma multidão o acompanhasse, como que para levá-lo ao colo... um misto de curiosidade impactada pela novidade, a imagem de semideus e esses costumes pitorescos todos. Cada dia era uma festa. Não havia lugar para um mosquito no centro da vila em polvorosa. Uma parte dos senhores de engenho locais o viam com reservas, mas faziam corte ao bispo, pois de certo modo não deixavam de estar enodoados por esse clima pitoresco de estender tapetes pelpudos para quem era o poder em pessoa. Eles não podiam fazer cara feia para uma autoridade que também era conselheiro do Imperador Dom Pedro II. Teatro puro!    

 

Modelo de "Maria Fumaça" usada à época da visita de Dom José (RRFESA - Ferrovias do Brasil império).

O religioso cumpriu a sua missão e chegou o dia da despedida. As últimas horas foram comparadas a fechamento de ataúdes funerários. Parte da multidão chorava copiosamente. Dom José  seguiu para a estação "Papary", sob forte comoção popular. O cortejo deslizou  mansamente até a estação Papary. Foi outro vavavu com banda musical, cumprimentos às autoridades, novo diabo a quatro. No dia seguinte a vila acordou como se alguém morrera. A monotonia reivindicou o seu panteão de imediato. Em Natal, Dom José passou mais uns dias e embarcou para o Pernambuco. 

 

Naquela época, a província do Rio Grande era subordinada à Diocese de Olinda. Dom José Pereira da Silva Barros foi o primeiro e único conde de Santo Agostinho. Era de São Paulo. Foi bispo de Olinda e do Rio de Janeiro. Foi o último bispo de S. Sebastião do Rio de Janeiro. Sua visita à Vila Imperial de Papary rendeu assunto para um mês inteiro. Pudera! Naquele tempo, padres e bispo - casados com o Estado - tinham foros de reis. E os fiéis, de plebe. 

 


Estátua em bronze de Dom José, em Taubaté/SP.
 
Enfim o bispo foi-se, e foice deixou contra a escravidão. Restou aos senhores poderosos juntar os cacos deixados pelo visitante nem tanto ilustre para eles. E sobre a “cadeirinha de arruar”, não há registros de quem fora o autor da espalhafatosa ideia. Suponho - suponho! - pelo emaranhado de coisas velhas guardadas nesse cérebro de meio século, lidas nesses acervos quase esquecidos, que pudesse ser uma sugestão do Coronel José de Araújo, chefe político da Vila Imperial. Mas ressalvo que nesse tempo ele ainda não era presidente da Intendência, mas literalmente o “chefe político” conforme chamavam à época. E isso não era pouco. Ele receberia tal titulação nove anos adentro. Coronel José de Araújo foi um homem imperioso, representante da Oligarquia Maranhão, fiel até os dentes. Sua história está na ponta da agulha. A qualquer hora coloco sua música para tocar. Dramática por sinal!
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Texto de autoria de Luís Carlos Freire, baseado nas obras de Dom Rodovalho e Dom José de Felix  e Francisco Fernandes Marinho; Jornal "O Caixeiro", documentos avulsos (Arquivo Estadual de Natal) e Documentos Governamentais da Província do Rio Grande do Norte.

terça-feira, 2 de março de 2021

Memória de Lagoa Salgada - 1931 - Cordel do filho que matou a mãe

Meu tio Júlio Amaro Freire, aos 94 anos, em sua casa, em São José de Mipibu.

 
CORDEL DO FILHO INGRATO (AUTOR DESCONHECIDO)
 
I
 
Neste pequeno folhete
Contarei um caso estranho
E tanto para contar
Como enversar me acanho
De um caso que se deu
Nunca vi desse tamanho
 
II 

Há muito tempo que dizem
Que filho não mata pai
Pois se matar não é filho
Leitor, atenção prestai
Que o coração alheio
É terra que ninguém vai
 
III
 
E agora o segundo Nero,
Novamente apareceu
Na povoação Salgada
Esse ano aconteceu
O filho pródigo matou
A mãe que Deus lhe deu
 
IV
 
No ano de 31 José Joaquim faleceu
Foi um pranto amargurado
O dia que ele morreu
Deixando para a família
Tudo quanto era seu
 
V
 
E João Zózimo, filho mais velho
Do senhor José Joaquim
Desde que seu pai morreu
Aos seus bens pegou dar fim
Tanto tinha o pai de bom
Quanto o filho de ruim
 
VI
 
E dona “Sindá” lhe pedia:
- Meu filho João
Não acabe com seus bens!
Ele mal dava atenção
E passava 10, 12 dias
Sem lhe tomar a benção
 
VII
 
E dona “Sindá” lhe dizia:
- Meu filho não gaste tanto!
Ele ficava zangado
Se amuava em um canto
Dizendo lá um dia
Se acabava o seu pranto
 
VIII
 
E uma noite que seus filhos
Vieram para Salgada
Já com medo de João Zózimo
Dormiam em outra morada
E dona “Sindá” ficou só
Com uma filha e mais nada
 
IX
 
Às onze horas da noite
João Zózimo em casa chegou
A sua mãe abriu a porta
E ele calado entrou
Nao tirou o chapéu
E nem na rede se deitou
 
X
 
E dona “Sindá! recolheu-se
No seu quarto de dormida
E fez as suas orações
Por Maria Concebida
Pedindo a Deus por seus filhos
Felicidade na vida
 
XI
 
E dona “Sindá” terminou
De fazer as suas orações
Nesse momento entra Zózimo
Com uma faca na mão
Deu-lhe uma facada
Em cima do coração
 
XII
 
- Não me mate, filho ingrato!
Chorava e pedia ela
Deu-lhe a segunda facada
Em cima da espinhela
A outra em cima do peito
Saiu atrás na costela
 
XIII
 
Correu ao seu morador
Ainda tremendo a fala
Que um ladrão tinha morto
A sua mãe para roubá-la
Ele que estava dormindo
Não viu, não pode salvá-la
 
XIV
 
O morador José Gerônimo,
Homem digno, de confiança
Prendeu João Zózimo na hora
Por haver desconfiança
Pois ele jurava ela
Em tomar uma vingança
 
XV
 
E o nome deles eu já lhe digo
Mauro, Paulo e Severino
Aristides um bom filho
desde o tempo de menino
João Zózimo o filho mais velho
Verdadeiro assassino
 
XVI
 
 
O nome das duas filhas
Chama-se a mais velha Vanda
A outra de sete anos
É a caçula Yolanda
A derramar suas lágrimas
Que a consciência lhe manda
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TEXTO EXPLICATIVO: Essa história é real. Ouvi-a desde criança, narrada no formato de História Oral por minha mãe Maria Freire. Ela dizia, inclusive, que quando frei Damião colocou os pés, pela primeira vez, em Lagoa Salgada, passado esse fato, ele dizia "Vejo uma nuvem negra sobre essa cidade". Minha mãe nasceu em 1932, um ano após o deplorável fato, mas cresceu ouvindo essa história, narrada por sua genitora, que, segundo ela, amedrontou a cidade durante muitos anos. Ela própria dizia que se arrepiava só de ouvi-la. Hoje minha mãe tem 88 anos. O fato aconteceu em 1931, portanto há exatos 90 anos, em Lagoa Salgada, quando a localidade era distrito de São José de Mipibu. Algum tempo após ter chegado a esse município, fiquei admirado quando ouvi meu tio Júlio Amaro Freire declamando a história, dizendo ser um cordel que ele aprendeu na infância. Ele estudou com Severino, um dos filhos da vítima. Meu tio decorou esse cordel em 1929, aos 8 anos de idade. Ele o declamou para mim outras vezes, até que numa ocasião o copiei, conforme ele ia recitando vagarosamente, enquanto eu checava alguns trechos, pedindo-lhe que repetisse para ter a exatidão das palavras. Meu tio nasceu em 1921, e se encantou em 2018, aos 97 anos de idade. Seu encantamento se deu com a mesma lucidez da juventude, tanto é que sabia inúmeros cordéis, decorados com perfeição, declamando-os com o seu jeito expansivo e alegre. Dono de uma memória prodigiosa, guardava informações importantes de inúmeros fatos do passado, inclusive trechos completos de histórias que lia nos livros escolares de seu tempo. Sabia os títulos de todas as cartilhas e livros que usava. Eram impressionantes as suas narrações sobre a escola do passado. Era preciso nas datas. Com certeza fui displicente em não pedir-lhe a autoria e o título desse cordel, portanto conto com algum leitor que porventura conheça o presente cordel e possa colaborar para que eu mencione a autoria. Obs. No primeiro verso é mencionada a palavra “folhete” (folheto), portanto o referido cordel foi impresso, inclusive meu tio dizia que o adquiriu na feira.