ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Escolas militarizadas e a "Síndrome de vira latas"



Há pessoas que só valorizam o que é dos outros. Só é bom e bonito o que está nos outros, a roupa, a casa, até mesmo os filhos. Não há elogio para os próprios filhos, mas há elogios para os filhos alheios. Essas pessoas normalmente se impactam com o novo como uma anunciação divina. “Síndrome de vira lata” é a frase cunhada por Nelson Rodrigues para traduzir esse comportamento. Ele, sempre frio em suas colocações, mas verdadeiro, real.  Meu pai dizia que “a ignorância é um câncer”, pois em seu tempo era a pior doença do mundo. Hoje eu diria que a ignorância é pior que todas as doenças do mundo.

Dia desses assisti a um programa em que um casal  era entrevistado e fazia elogios rasgados a uma escola estadual  que se tornou militarizada, cujo filho deles estava matriculado. A esposa e o marido endeusavam a mudança. A palavra de ordem era “disciplina”, “respeito”, eles elogiavam até a farda das crianças como se elas estivessem vestidas com algo que as blindasse de todos os males do planeta.

Não vi preocupação com o conhecimento e com a qualidade da educação. O casal estava profundamente satisfeito e impactado  pela nova imagem dos filhos que, antes, trajavam calça jeans e camiseta branca, e que agora estavam parecidos com militares dado àqueles acessórios todos. Parecia que aquela aparência bastava para eles. Fiquei perplexo com aquilo, e mais perplexo quando a mãe da adolescente disse que era uma professora civil. Para mim ela assinava a sua incompetência naquela atitude.

Nada contra os militares, principalmente os poucos que demonstram um comportamento  realmente civilizado - que são poucos -, mas o lugar deles não é na escola civil. Essa nova postura do Governo Federal de militarizar as escolas é uma forma de dizer que a escola civil não funciona. É uma forma de humilhar o professor civil, portanto o professor que concorda com isso se auto-define como incompetente. A última pessoa a aceitar essa mentira deve ser o professor, aliás, jamais um professor deve assim fazê-lo. O Governo quer passar a ideia absurda e equivocada dizendo que os professores fracassaram e agora chegaram os militares para "salvar" o Brasil. E isso não é verdade.

O Governo não quer investir nas escolas civis para deixá-las fracas, e quer investir pesado nas escolas militarizadas para fortalecê-las, para justamente dar a impressão de que o militarismo é uma solução para o Brasil, e que os professores civis são incompetentes. Só mesmo um idiota cai nessa.

A trama militar é sustentar a tese de que a solução para o Brasil está nos militares. Eles amarguraram décadas ensaiando tomar o poder, e o conseguiram mediante ao golpe feito à Dilma, agora se valerão de tudo - até de armas - para não largar o poder. Duro e vergonhoso é ver alguns professores aceitando isso. Ainda bem que é uma minoria. Justamente essa minoria com a Síndrome de vira latas.

Espero dos educadores e do povo brasileiro a resistência e a resiliência. Os ignorantes que estão dando cartaz  para essa tática do presidente da república, ao invés de cederem, deveriam ser resilientes e lutarem para uma escola civil de qualidade, ao invés de aplaudir essa estupidez.

Jamais a escola militarizada terá o mesmo nível de cidadania, de politização, de formação completa da juventude que a escola civil garante. A educação militar é limitada. Não valoriza diversas áreas do conhecimento. Áreas que levam os jovens ao pensar político, como: filosofia, antropologia, artes e sociologia. Elas são fundamentais para a formação de todo homem.

Tomem cuidado com essa aparência militar. Reveja os seus conceitos sobre o que de fato é disciplina, respeito e educação de qualidade, pois esse reluzir não é ouro, é apenas uma parte bem pequena de uma grande trama que levará o Brasil a uma desigualdade terrível.

Valorize os professores, valorize a escola civil. Não se deixem enganar pela aparência dos soldadinhos de chumbo que inocentemente serão os homens e mulheres do futuro, mas com cérebros limitados. O uniforme civil é lindo, embora não é isso que importa. O que importa é o devido investimento nas escolas, do ensino infantil ao médio, e a aplicação do conhecimento em toda a sua plenitude, sem limitar disciplinas, nem proibir tipos de cabelos, tipos de roupas, tipos de comportamentos etc.

O militarismo pretende formar uma nação fraca, à mercê dos poderosos. O que esse governo quer é que o seu filho seja sempre o empregado, jamais o patrão. Quer babões, lambe botas, puxa sacos, ao invés de homens e mulheres realmente esclarecidos e visionários, que fomentem uma nação plural, sem preconceito, sem tabus e estigmas.

Lugar de militar é nos quartéis, pelotões e nas Forças Armadas. O pior cego é aquele que vê fingindo que não vê.

domingo, 28 de agosto de 2022

Alzheimer - Se as paredes falassem...


ALZHEIMER - SE AS PAREDES FALASSEM…


Geraldo era médico. Aos cinquenta e seis anos de idade começou a apresentar um comportamento atípico. Ele se flagrava em situações esdrúxulas, como procurar os óculos para ler mesmo estando com o óculos no rosto. Esquecia qual era a sua toalha de banho e usava a da esposa que se irritava, perguntando se ele estava demente. Em plena pandemia, saia sem máscara, era barrado nos locais onde ia, e voltava para buscá-la ou comprava numa farmácia. 

Aquelas experiências incomuns o irritavam, mas eram involuntárias. Ele tinha consciência da situação apenas no momento que acontecia, depois esquecia. Uma vez, ao passar as compras do mês pelo caixa do supermercado, percebeu que não havia trazido a carteira e precisou ir para casa pegar o dinheiro. Ao chegar ao apartamento, a esposa havia saído e levado a chave. Ele também esqueceu o celular e precisou aguardar a metade da manhã até que ela voltasse. Após receber fortes críticas da esposa, foi buscar suas compras, mas o supermercado havia devolvido tudo nas prateleiras. E lá foi Geraldo pegar ítem por ítem. 

Foi uma manhã e um pedaço da tarde nessa demanda, e quando chegou escutou os mesmos xingamentos da esposa: “você só pode estar ficando doido”, “cuidado que isso é coisa de gente maluca”, “preste mais atenção nas coisas”, “você está muito desligado, está pensando em quê?”.

Geraldo gostava muito de chá ‘in natura’, e numa noite colocou uma porção de folhas de hortelã na água, ligou a boca do fogão e foi ler. Após uns sessenta minutos a esposa gritou lá do quarto “Geraldo, que cheiro de queimado é esse?”. Ele correu para o fogão. A vasilha estava preta por dentro e meio contorcida. Intrigada com o cheiro, a esposa desceu e disse “homem, você está demente, é? preste mais atenção, deixe de ser descuidado!”.

Diante da frequência daquelas experiências, Geraldo percebia que alguma coisa estranha acontecia em sua mente. Às vezes supunha se tratar de cansaço mental, mas ultimamente não estava tão ocupado nem preocupado com problema algum exceto aquele comportamento. Às vezes ele mesmo ria ou ficava irritado quando se flagrava em situações como pegar um livro para ler e, mesmo com o livro na mão, ir até a estante procurar o dito livro. A irritação se ampliava quando, depois de uns cinco minutos procurando o livro, dava conta de que ele estava em sua mão.

Ele ouvia a esposa criticando o seu comportamento quando falava ao telefone com os irmãos dela, sempre usando palavras ofensivas e que o constrangiam muito: “dia desses aquele maluco quase incendiou a casa esquecendo uma vasilha no fogo”, “ele vive com a cabeça no mundo da lua”, “parece um doido”.

Geraldo sentia que sua situação era grave, pois esquecia até mesmo o nome dos vizinhos. Quando encontrava amigos no shopping, no supermercado e em outros lugares, reconhecia apenas a fisionomia, mas não sabia com quem estava falando, entrava na livraria, comprava livros e saía sem a sacola. Esquecia de eventos importantes, ia ao supermercado e não sabia o que comprar, esquecia palavras quando conversava e ficava olhando para o horizonte tentando lembrar, esquecia o que estava falando e perguntava o que estava dizendo, enfim nada lembrava aquele homem inteligente, autor de livros, que falava a grandes públicos e tinha uma mente brilhante. Como ele ainda tinha consciência de que estava com algum problema, passou a sofrer muito, pois ficava envergonhado com os vexames e gafes que cometia.

Ao longo do tempo ele assistia o seu problema se agravando e lhe colocando em situações vexatórias. Para piorar, a esposa, que deveria perceber que seu comportamento não era loucura, mas algum sinal de demência ou alzheimer, o irritava constantemente: “você só pode ser um idiota, esquecer onde está a chave com a chave no bolso!”, “procurar o óculos com ele na cara”, “assistir reportagem e não ser capaz de dizer o que acabou de ser exibido!”, enfim, não havia compreensão da parte da esposa. Ao invés de ela contornar algumas situações para evitar que ele passasse vergonha diante dos amigos, ela ampliava o vexame: “Geraldo agora deu para esquecer de tudo”.

Um ano se passou e Geraldo perdeu a noção de quase tudo. quando almoçava, demorava o triplo do tempo, caminhava mais devagar, tropeçava com frequência, batia nos móveis da casa, quebrava louças na pia, urinava na roupa quando ia ao banheiro, perdia a noção do tempo quando tomava banho. A essa altura a esposa se irritava constantemente com ele, usando xingamentos ofensivos, como “FDP”, “idiota”, “demente”, “louco”, “maluco”, “por que eu casei com esse troço?”, “sua família devia vir te buscar”, “vou lhe jogar num asilo”, “esse troço não morre”.

Foi justamente nesse estágio que ela o levou ao médico. Geraldo estava em estágio avançado de Alzheimer. Daí em diante o seu caso só se agravaria, mas nada era mais grave que a falta de paciência e compreensão da esposa. A essa altura ela passou a agredi-lo fisicamente, dando-lhe bofetadas quando precisava fazer algo como alimentá-lo na boca. Muitas vezes o deixava no banho por horas. Eram comuns os seus gritos que às vezes assustava algum vizinho, mas que não provocava reação alguma no marido. Ele estava apático. Nem mesmo os tapas no rosto ou os empurrões lhe provocavam reação.

Foi providenciado um cuidador que ficava 12 horas com ele. Das dezoito às seis horas. Durante a manhã e tarde, ele ficava com a esposa, ou melhor, vegetava, pois era deixado num sofá ou na cama. Qualquer necessidade do marido era tratada com estupidez, gritos, empurrões, tapas, puxões de cabelo. Lá fora ninguém sabia de nada, apenas que “seu Geraldo estava com Alzheimer”. A esposa não o levava a lugar algum, nem para um banho de sol. Os parentes dele moravam em outro estado. Um dos irmãos o visitou certa vez, quando a esposa fez um excelente teatro de cuidados, mas somente enquanto durou a visita. Lá fora, dona Elisa, a esposa, era vista como uma “santa mulher”, que vivia para o marido.

Dentro de casa ela não o medicava com a devida regularidade, o deixava com fome, com sede, com a fralda suja, esquecido no quarto. O único cuidado correto era feito pelo cuidador que não imaginava a monstruosidade da esposa.

Hoje é dia 7 de maio de 2021. O senhor Geraldo acabou de ser sepultado. A casa está cheia. Dona Elisa, a esposa, chora como uma criança, dizendo que queria ter sido enterrada com o marido. A família dele a consola, agradecendo pela bondade dela, pelos cuidados que teve durante a sua doença. Durante a noite o filho telefonou para a mãe, dizendo que a editora Cruzeiro do Sul havia ligado para ele há duas semanas e tinha uma proposta milionária relativa aos livros do doutor Geraldo, e havia marcado uma reunião na capital para assinar a papelada. Na manhã seguinte, dona Elisa se arrumou impecavelmente, entrou em sua Land Rover e foi ficar milionária, graças às obras do marido.

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A imagem aqui postada foi obtida com inteligência artificial, portanto essa pessoa  não existe.




 


   

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Sanderson Negreiros e Tarcísio Medeiros, uma faceta histórica...



Ano que vem completará meio século da primeira edição de “Aspectos geopolíticos e antropológicos da História do Rio Grande do Norte”, uma das obras de Tarcísio Medeiros, insígne escritor norte-rio-grandense. Li-a em 1993, então aluno na UFRN, na aula de Cultura Brasileira, por orientação do também ilustre potiguar Sanderson Negreiros. 

Sanderson tinha um modo interessante de construir o conhecimento com seus alunos. Lembro-me que certa vez, em sala de aula, quando ele citava Dorian Gray Caldas, disse “querem ir em sua casa, conhecê-lo”. E fomos naqueleinstante. Assim conheci outro renomado mito da terra de Câmara Cascudo. Aquilo me marcou. 


Outra vez eu havia faltado na semana anterior. NÃO EXISTIA WHATSAPP.  Quando voltei, soube que teríamos que ler alguns livros para, depois, discutí-los. A dinâmica seria assim: a pessoa que leu discorreria sobre a obra. Sanderson Negreiros, o professor, faria possíveis observações, e o restante da turma, que não havia lido aquele livro, ouviria a explanação fazendo perguntas e outras abordagens. Assim, todos saberiam sobre todos os livros.

Como eu havia faltado, sobrou para mim “História da Alimentação no Brasil”, de Câmara Cascudo. Ninguém quis ficar com ele, pois é tão grande que algumas editoras o publicam em dois volumes. No caso, li todo num livro só. As obras eram de Sanderson. Li como uma criança degustando o seu sorvete preferido. É simplesmente fascinante e foi um dos livros que mais me marcaram. 



Essas foram duas passagens marcantes com o professor Sanderson, na UFRN...

Eis que chega em minhas mãos, ontem, a obra “Aspectos geopolíticos e antropológicos da História do Rio Grande do Norte”, de autoria de Tarcísio Medeiros. Até aí, nada demais além da importante obra. Mas ela continha esses invisíveis que a mim, pelo menos, impressionam e que acho digno dar-lhes  visibilidade. 

O livro, apesar de carregar 49 anos de idade, está intacto, mas o que mais chamou a minha atenção foi um cartão onde está datilografada uma mensagem escrita pelo autor, dirigida a Sanderson Negreiros, além da dedicatória.

O texto traz informações preciosas em que é possível viajar até a Redinha e ver esses dois mitos sentados no alpendre de uma espaçosa varanda jogando conversa fora. Dentre elas as ideias que ele findou escrevendo nessa obra. 




O que me encanta é a humildade. Ele fala do livro como se não fosse o tesouro que é. Dá impressão que é um desses livros que você lê, lê e não há o novo, o inédito, o fascinante... só mesmices.

O cartão foi escrito no dia 22 de maio de 1973. Tarcísio tinha 55 anos de idade e Sanderson 34. 21 anos de experiência a mais carregava Tarcísio, e ele acolheu sugestões do jovem Sanderson. Humildade e respeito a um jovem que com certeza muito cedo se revelou genial.

Ele assina o cartão e com a mesma caneta Bic diz “N.B. Releve os erros tipográficos”.Quem daria importância para “erros tipográfico” diante daquele pergaminho de conhecimentos?

O que está ali que foi sugestão de Sanderson? Quais as lacunas dos “grandes mestres” citadas por Tarcísio? São esses invisíveis que nuterm a minha imaginação... Fico pensando o que conversaram esses notáveis.

O clipe estava se desmanchando; deixou nódoas no cartão e na página. Senti-me como os egiptólogos descobrindo câmara em pirâmide ao retirar a peça metálica e imprestável, ali colocada por Tarcísio e retirada por mim. Sanderson foi tão bom que deixou para alguém esse presente.

Tarcísio partiu em  2003, aos 85 anos. Sandersou se encantou em 2017, aos 78 anos. Ambos deixaram obras preciosas para o Rio Grande do Norte e para o Brasil, tanto assinadas por eles quanto contidas em suas bibliotecas.

Limites e perímetro urbano de Nísia Floresta e na área urbana isolada



Em 2013 um amigo, funcionário da Prefeitura de Papari, mandou-me esse documento, o qual quis compartilhar, pois é  bastante útil no  aspecto histórico, permitindo o conhecimento de topônimos geográficos.

Helena Meirelles, uma história que nos impressiona...


Helena Pereira da Silva Meirelles nasceu na fazenda Jararaca, Mato Grosso do Sul, em 1924. Compositora, cantora e violeira. Aprendeu a tocar viola com seu tio Leôncio, em festas promovidas por seu avô paterno. A família reprovou rigorosamente a sua vontade de manusear instrumentos musicais. Alegavam que "não era coisa para moça de família". Naquele tempo lugar de mulher era na cozinha. Como escreveu Gilberto Freyre em sua obra “Sobrados e Mucambos”, “a mulher saia de casa três vezes: para casar, batizar e enterrar”. 


As mulheres, já desde meninas, cresciam ouvindo a sua sina -  ou sentença - que sua vida se resumiria às prendas domésticas, cozinha, fogão, do bordado e afins. Uma espécie de catequese machista legava à mulher nada mais que a casa. Quem quebrasse a sentença pagariam caro. O preço era a desonra e  difamação que já começava em casa, pelo pai. Ele precisava “defender a honra da família”. Desse modo, muitas mulheres foram condicionadas a uma vida muitas vezes reprovada pela moral social, a começar pelo próprio lar hostil e cheio de preconceitos e rótulos depreciativos descarregados sobre a mulher, desde pequenina. Já o menino era criado solto como um cachorro.



Nesse tempo nasceu a menina Helena. Já nasceu no formato de um violão - ou viola. Andar com um violão para cima e para baixo não pegava bem nem para um homem, pois passava a imagem de pessoa descompromissada, sem responsabilidade, “um vagabundo”, diriam. Imagine uma mulher dedilhando um violão! O pai reprovava o seu dom, não permitindo que ela chegasse nem perto de uma viola. Aos 9 anos de idade, aproveitando as saídas do pai, ela pegava a viola do tio (todos músicos) e ia para o mato “tocar para as onças e passarinhos”, como me disse uma vez que esteve em minha casa, no Mato Grosso do Sul (já famosa). O gosto pela música era tão grande que ela resolveu se casar  aos 17 anos de idade com um peão de boiadeiro, vizinho, e passou a residir próximo dos pais. Viu no casamento uma alternativa para manusear o instrumento com liberdade, longe da reprovação paterna. Helena amava os instrumentos de corda, e sentia na alma a necessidade de lidar diariamente com a música, como se ela saísse de suas entranhas, como se o próprio corpo fosse uma nota musical.


O casamento foi uma tragédia. O marido não queria que ela tocasse viola, e ela o tocava diariamente, após os deveres domésticos. Helena tentou sustentar o casamento e fez o possível para que o marido entendesse o seu gosto pela música, mas apanhou muito, chegando ao ponto de ser espancada e rotulada com os nomes mais baixos que se pode dirigir à uma mulher. Assustada, ela abandonou o lar, deixando para trás um filho nascido no meio do pasto, tendo em vista que o marido se ausentava durante meses, levando comitivas de gado para os sertões sul-matogrossenses. Na sua mente ela entendia que levar a criança para um mundo incerto era muito mais perigoso.


Sem ter a quem recorrer, sem familiares próximos,  sem maturidade e experiência alguma - praticamente uma adolescente - ela foi trabalhar em casas de família. Voltar à casa paterna era o mesmo que matar o seu talento musical. Como empregada doméstica, Helena Meirelles comeu o pão que o diabo amassou, sendo humilhada constantemente, tratada como no passado tratavam as escravas. Os “patrões” queriam pagá-la apenas com o almoço e a janta oferecidos diariamente, restos de roupas usadas, migalhas, sem contar que só em dizer que gostava de moda de viola, era execrada, como se gostasse de algo ilícito. Em algumas casas, ela dormia na cozinha, sobre um couro de boi para justamente acordar bem cedo, muitas vezes chutada, para deixar tudo pronto para os patrões.


Enquanto suas patroas queriam os seus serviços domésticos, os patrões queriam o seu corpo. Helena vivia numa constante resistência contra assediadores, sendo enxergada como um objeto sexual por muitos patrões perversos, tarados, que não respeitavam mulher alguma que não fosse suas filhas. Desestimulada, ela teve a ideia de buscar ambientes onde desse vazão ao seu talento musical. “Se no lar onde nasci não pude tocar, se no meu casamento não pude tocar, se em casa de família não posso tocar e sou explorada, resta-me tocar no mundo”. Certamente pensou assim. 


A viola estava  grudada nela como pele. Assim passou a trabalhar em estabelecimentos comerciais, como bares, restaurantes e pousadas de beira de estrada e ponto de peões de boiadeiro. Esses lugares se abriram para o seu talento musical. Helena causava perplexidade onde passava. Os donos dos estabelecimentos imploravam que ela se estabelecesse ali, mas ela era indomável. Cismada. Muitos homens iam às lágrimas ao vê-la solando a alma do Mato Grosso e os ares paraguaios tão comuns àquela região.


O tempo foi passando, ela perdeu totalmente o contato com a sua família, mas começou a ser conhecida por suas polcas, chamamés, rasqueados, fandangos , guarânias e outros ritmos sul-mato-grossenses. Constantemente era convidada para participar de festas e bailes no interior do Mato Grosso do Sul, na região do Pantanal, Campo Grande, mas a menina dos seus olhos era o Porto XV de Novembro, local onde ela reinou plenamente. O fato de se tratar de uma mulher musicista que se apresentava em qualquer lugar – algo extraordinário para aquela época - consistia numa verdadeira atração, pois não se via em todo o Mato Grosso uma mulher com tal comportamento.


Obviamente que não podemos ser hipócritas de negar a sua fama de biscate meramente pelo fato de viver no meio de homens e de bar em bar. Ela colecionava razões para assim ser rotulada: abandonou a casa dos pais, vivia com um violão debaixo do braço, tocava em casas noturnas e em qualquer biboca, casava e descasava quando queria, deixava alguns filhos com conhecidos, vivia no meio de homens. Não poderia ser diferente a uma sociedade hipócrita, que faz juízo de valor do portão para fora e tampa o sol com a peneira do portão para dentro, ignorando as “biscates de família”, filhas de gente rica, que se forem criticadas, processam na justiça. Helena era uma “ninguém” perto das biscates ricas. Os juízes da vida alheia não perguntam a Helena Meirelles os bastidores de sua vida e o que ela passou num tempo em que quase ninguém respeitava uma mulher que abraçasse o mundo sozinha.


Deixando de lado a parte que os hipócritas preferem enaltecer, a sua fama de artista impecável corria pelos sete cantos, levada de boca a boca pelos peões que arrastavam gado em todo o rincão do Mato Grosso do Sul. Não havia quem não falasse de Helena Meirelles por toda a Estrada Boiadeira. No Pouso Sapê, Pouso Guassu, Pouso Matinha e Porto XV de Novembro não faltavam os seus acordes. Todo mundo queria saber quem era aquela mulher singular. Centenas de pessoas se arranchavam nos lugares  onde ela se apresentava para vê-la tocar. 


Nesse ínterim, aos 21 anos, ela se junta novamente a outro homem. Sua vida conjugal sempre foi problemática devido a sua paixão pela música, que para ela era a prioridade. Bastava um marido fazer nariz torto para o seu violão, e o casamento estava rompido sem traumas. Isso a empurrou para um mundo condenável pela sociedade. Entre um lugar e outro, entre um marido e outro, Helena pariu vários filhos e os deixou nas casas de comadres e pessoas conhecidas, sempre dizendo que um dia os reivindicaria. 


A sociedade, como sabemos, mata e cura, apedreja e afaga. Mas como não somos juízes, e as vidas particulares são insignificantes diante  dos nossos legados, O legado monstruoso de Helena - hoje reconhecido internacionalmente - é superior à sua vida pessoal que, diga-se de passagem, precisou ser exatamente daquele jeito. Inegavelmente o seu lado de mulher musicista foi magnânimo. Basta.


Após trinta anos sem ver os seus familiares, já na casa dos 60 anos, na década de 70, Helena reencontrou a sua família. Em seguida ela mudou-se para Santo André, São Paulo, onde passou a residir com o marido que a acompanharia até a sua morte, e alguns dos filhos. Apesar de tudo, ela nunca perdeu o contato, mesmo em sua vida conturbada. Sempre procurou notícias através de pessoas conhecidas que passavam nos locais onde ela tocava. A exceção foi apenas uma filha, que ela deixou com uns amigos que desapareceram e ela nunca mais a viu. Helena realizava pequenas apresentações na casa da irmã e reunia outros violeiros. Incentivada por um sobrinho, ela gravou algumas de suas músicas em um pequeno estúdio que enviou-as em fitas K7 para rádios e gravadoras brasileiras.


Pouco depois foi convidada por Inezita Barroso (1925-2015) para uma apresentação em seu programa Mutirão, exibido pela Rádio da Universidade de São Paulo (USP). Participou, posteriormente, do programa Viola, minha Viola, da TV Cultura, também apresentado por Inezita. O seu modo de tocar era peculiar, diferenciando de tudo o que se conhecia sobre instrumentos de corda. Talvez a opressão sofrida convergiu toda para a sua potência musical, onde ela construía os seus acordes solitariamente, silenciosamente, e fez disso grandes composições, como quem recebe espinhos e dá flor.


O sucesso e o reconhecimento nacional veio depois que o mesmo sobrinho enviou algumas fitas para a revista norte-americana Guitar Player, dedicada a instrumentos populares de corda. A revista escolheu-a como instrumentista revelação de 1993, colocando sua palheta  num museu inglês, ao lado de nomes como o dos ingleses Eric Clapton (1945) e Jimmy Page (1944) e dos norte-americanos B.B King (1925-2015) e Carlos Santana (1947). Depois disso, o Brasil quis saber quem era Helena Meirelles. Em 1994, ela lança, pelo selo Eldorado, seu primeiro CD, intitulado Helena Meirelles, com destaque para dois chamamés compostos por ela, “Fiquei Sozinha” e “Quatro Horas da Madrugada”, e outras músicas de domínio público, como “Araponga” e “Chalana”, sucessos de Mário Zan (1920-2006), além de histórias e causos de sua vida, nas faixas finais do CD. 


Em 1996, lançaram "Flor da Guavira", com músicas instrumentais de sua autoria e algumas canções folclóricas mato-grossenses-do-sul. No ano seguinte, lança mais um CD, também pela Eldorado, intitulado "Raiz Pantaneira", com treze composições suas, e participação de Sérgio Reis (1940) na canção “Guiomar”, de Haroldo Lobo (1910-1965) e Wilson Batista (1913-1968). Em 1998, apresentou-se na EXPO Mercosul em Canela, Rio Grande do Sul, e em diversas unidades do Sesc pelo Brasil. Em 2002, lançou o seu quarto e último CD, "Helena Meirelles ao Vivo", gravado em Campo Grande, com destaque para “Flor Pantaneira”, de sua autoria, e participação de Zezinho Nantes, na gaita. 


Em 2004, é lançado o documentário "Helena Meirelles a Dama da Viola", com direção de Francisco de Paula (1962) e trilha-sonora da própria Helena. Ainda neste ano, participa do CD Os Bambas da Viola, da gravadora Kuarup, ao lado de Chico Lobo (1964), Roberto Corrêa (1957), Heraldo do Monte (1935), Almir Sater (1956) e Renato Andrade (1932-2005). 


Helena Meirelles alcançou o auge da fama, muitas vezes não conseguindo atender a todos os convites, pois já contava com 80 anos cujo corpo alquebrado não era mais aquele que não tinha hora para repouso, ocupado com sua viola que não se aquietava, atravessando madrugadas, sob os acalourados "sapucays" (gritos típicos dos ambientes com música ao vivo), tão comuns em todo o Mato Grosso do Sul, herança paraguaia.


Em 2005, Helena Meirelles não resistiu às complicações pulmonares, vindo a morrer em Campo Grande, aos 81 anos de idade. Em 2006,  é lançado o documentário Dona Helena em sua homenagem, com direção de Dainara Toffoli. Foram exatos 10 anos de fama absoluta, construída sobre o exercício constante, desde os 9 anos de idade, quando certa vez ela pegou o violão do tio e saiu correndo mata adentro para dedilhar magicamente tudo aquilo que havia aprendido "de olho". Certa vez um tio a flagrou em sua peripécia musical e ficou perplexo. Só de ver os tios e a peonada mato-grossense e paraguaia tocando, ela construiu o seu próprio concerto de corda.


A história de Helena Meirelles traduz a audácia de uma criança que escolheu a música como o alimento da alma. Um gesto de coragem extrema e grandes renúncias em nome do amor à arte. Já dolescente, ela quebrou as correntes do machismo  reinante que a impediam de voar. E voou. Voou alto. Como pássaro cantador foi a sua viola, sua companheira eterna. Sua decisão audaciosa custou-lhe caro - tomada num tempo cuja mulher se tornava facilmente mal vista por razões banais - e quem rompesse os tabus e preconceitos carregaria para sempre os piores rótulos, não importando se tivesse culpa ou não. A história de Helena é um exemplo claro de que, muitas vezes, os próprios pais empurram os seus filhos para a tragédia. Qual seria a desonra de se ter uma filha que tocava violão? Mas foi assim...


Quantas e quantas mulheres, por esse Brasil afora, foram instigadas a buscar outros rumos nem sempre apreciados pela sociedade, mas que foram os únicos encontrados numa sociedade machista, patriarcalista e  conservadora, que sentenciava o ser de cada pessoa. Ela não teve alternativa. Para onde corria surgiam lobos.


Independente de julgamentos e sentenças preconceituosas, Helena é um dos maiores exemplos da busca por um sonho. Para Helena, as piores agruras da vida não consistiram em obstáculos. Inegavelmente ela foi uma criança-prodígio. Se tivesse cedido às sentenças injustas dos juízes populares, jamais teria sido esse patrimônio da música brasileira. Jamais teria dado ao Brasil e, em especial, ao estado do Mato Grosso do Sul a honra de ter levado o nome desse estado para o mundo. Quem, mais do que ela, projetou o nome de sua cidade para os quatro cantos do Mundo? 


Hoje Helena é objeto de estudo dos mais respeitáveis músicos, e também é tema de estudos acadêmicos de importantes universidades do Brasil. É citada por renomados intelectuais das mais diversas áreas. Hoje o seu nome estampa até mesmo um museu, reservando-lhe um espaço muito especial e digno. Foi uma das maiores ideias do município onde ela desabrochou e reinou. Helena Meirelles é um dos grandes orgulhos do estado do Mato Grosso do Sul. (Texto inspirado em publicações do Museu Helena Meirelles).

sexta-feira, 15 de julho de 2022

 

Sanderson Negreiros

INVISÍVEIS VISÍVEIS...

Ano que vem completará meio século da primeira edição de “Aspectos geopolíticos e antropológicos da História do Rio Grande do Norte”, uma das obras de Tarcísio Medeiros, insígne escritor norte-rio-grandense. Li-a em 1993, então aluno na UFRN, na aula de Cultura Brasileira, por orientação do também ilustre potiguar Sanderson Negreiros. Sanderson tinha um modo interessante de construir o conhecimento com seus alunos. Lembro-me que certa vez, em sala de aula, quando ele citava Dorian Gray Caldas, disse “querem ir em sua casa, conhecê-lo”. E lá fomos. Assim conheci outro renomado mito da terra de Câmara Cascudo. Aquilo me marcou.

Outra vez eu havia faltado na semana anterior. NÃO EXISTIA WHATSAPP.  Quando voltei, soube que teríamos que ler alguns livros para, depois, discutí-los. A dinâmica seria assim: a pessoa que leu discorreria sobre a obra. Sanderson Negreiros, o professor, faria possíveis observações, e o restante da turma, que não havia lido aquele livro, ouviria a explanação fazendo perguntas e outras abordagens. Assim, todos saberiam sobre todos os livros.

Como eu havia faltado, sobrou para mim “História da Alimentação no Brasil”, de Câmara Cascudo. Ninguém quis ficar com ele, pois é tão grande que algumas editoras o publicam em dois volumes. No caso, li todo num livro só. As obras eram de Sanderson. Li como uma criança degustando o seu sorvete preferido. É simplesmente fascinante e foi um dos livros que mais me marcaram.

Essas foram duas passagens marcantes com o professor Sanderson, na UFRN...

Eis que chega em minhas mãos, ontem, a obra “Aspectos geopolíticos e antropológicos da História do Rio Grande do Norte”, de autoria de Tarcísio Medeiros. Até aí, nada demais além da importante obra. Mas ela continha esses invisíveis que a mim, pelo menos, impressionam e que acho digno dar-lhes  visibilidade. O livro, apesar de carregar 49 anos de idade, está intacto, mas o que mais chamou a minha atenção foi um cartão onde está datilografada uma mensagem escrita pelo autor, dirigida a Sanderson Negreiros, além da dedicatória.

O texto traz informações preciosas em que é possível viajar até a Redinha e ver esses dois mitos sentados no alpendre de uma espaçosa varanda jogando conversa fora. Dentre elas as ideias que ele findou escrevendo nessa obra. O que me encanta é a humildade. Ele fala do livro como se não fosse o tesouro que é. Dá impressão que é um desses livros que você lê, lê e não há o novo, o inédito, o fascinante... só mesmices.

O cartão foi escrito no dia 22 de maio de 1973. Tarcísio tinha 55 anos de idade e Sanderson 34. 21 anos de experiência a mais carregava Tarcísio, e ele acolheu sugestões do jovem Sanderson. Humildade e respeito a um jovem que com certeza muito cedo se revelou genial.

Ele assina o cartão e com a mesma caneta Bic diz “N.B. Releve os erros tipográficos”.Quem daria importância para “erros tipográfico” diante daquele pergaminho de conhecimentos?

O que está ali que foi sugestão de Sanderson? Quais as lacunas dos “grandes mestres” citadas por Tarcísio? São esses invisíveis que nuterm a minha imaginação... Fico pensando o que conversaram esses notáveis.

O clipe estava se desmanchando; deixou nódoas no cartão e na página. Senti-me como os egiptólogos descobrindo câmara em pirâmide ao retirar a peça metálica e imprestável, ali colocada por Tarcísio e retirada por mim. Sanderson foi tão bom que deicou para alguém esse presente.

Tarcísio partiu em  2003, aos 85 anos. Sandersou se encantou em 2017, aos 78 anos. Ambos deixaram obras preciosas para o Rio Grande do Norte e para o Brasil, tanto assinadas por eles quanto contidas em suas bibliotecas.

domingo, 29 de maio de 2022

Universidade Federal paga?


Nunca vi uma pessoa tão rasgadamente contra os pobres como esse atual presidente da república. Não vou dizer que ele “é o meu presidente” porque mesmo sendo presidente do Brasil, nunca me representou, e não tenho o costume típico dos escravizados dos engenhos que diziam "meu patrão”, meu sinhozinho”, “meu dotô”, e hoje dizem “meu presidente”, meu prefeito”, “meu vereador, “meu deputado”. 
 
Um cidadão civilizado deve entender que políticos são bem pagos para viabilizar cidadania e governar com justiça. E não é o caso desse cidadão que desgoverna o Brasil. Mesmo que fossem grandes gestores e nos representassem, não são nossos. Observe que todos os que chamam políticos de “meu”, são babões e puxa-sacos. Não estão nem aí com os pobres, são amigos do rei no fatiamento do queijo e produção de maquiagens.
 
Pois bem, findo esse prólogo, estou horrorizado com a PEC que propõe a cobrança de mensalidades a alunos de universidades públicas, mesmo com exceção dos que, comprovadamente, não têm recursos financeiros. Enxergo isso como uma tacada, tipo “vamos fazer essa jogada, e devagarinho a gente corta os pobres”. NÃO SE ENGANEM, É UMA TACADA! E A PRÓXIMA É O SUS PAGO!
 
Essa PEC é de autoria nada mais do que um general por nome de Peternelli. Não sei por que diabos esses generais estão tão preocupados com as Universidades, ao invés dos quartéis. E vejam que é somente para o mal. A vantagem é que ele está sofrendo forte rejeição até mesmo do “UNIÃO”, seu partido. 
 
É bom que todos saibam também que ele vai relatar na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara a proposta de emenda constitucional (PEC) que determina o afastamento dos militares da ativa que assumirem funções civis caso tenham menos de 10 anos de serviço. Caberá ao deputado dar um parecer ao projeto (ou segurá-lo, impedindo a votação). 
 
Ele também defende a tese que é inconstitucional a sociedade não admitir militares nos cargos civis, mas fica a pergunta: POR QUE OS MILITARES SÓ QUEREM CARGOS ESTRATÉGICOS, OU CARGOS ALTOS, COMO DE REITORES, MINISTROS, CHEFES DE GABINETES E DIRETORES DE ESTATAIS, POR EXEMPLO? POR QUE ELES NÃO QUEREM CARGOS SIMPLES E DIGNOS DE COVEIROS, OPERADORES DE GUINDASTES, GARIS? 
 
O Brasil deve ficar de olho, pois os militares estão comendo pelas beiradas, se organizando pelas retaguardas para arquitetar o plano do presidente da república. Ele vem atacando cotidianamente a lisura das eleições e insinuando a possibilidade de fraudes nas urnas eletrônicas. Coisa de gente que passou a vida corrompendo pessoas costuma praticar o “quem disso usa, disso cuida”. Sabe-se que ele será derrotado, portanto ele visa o golpe. A ideia é permanecer 35 anos no poder. Pesquisem sobre isso!
 
Universidade federal paga, não se enganem, é estratégia de comer pelas beiradas. Não precisa ser um cientista social para saber que a universidade federal tem ensino de excelência, e não se tem acesso a ela pelo “pagou-passou”. Se eles conseguirem aprovar essa PEC, transformarão as universidades federais nas “pagou-passou” tão comuns. E porque eles querem isso? Ora! Para transformar a extraordinária estrutura das universidades federais a favor dos ricos. Não se permitam iludir: UNIVERSIDADE FEDERAL PAGA É UM ATAQUE AOS POBRES QUE COM MUITO CUSTO CONSEGUEM ACESSO A ELA. LUTEM CONTRA ISSO!

O presidente da república pode andar de moto sem capacete?


No dia 25 de maio de 2022, em Umbaúba, estado de Sergipe, o Brasil assistiu, estarrecido, um homem preto - e esquizofrênico - ser asfixiado dentro de uma viatura da Polícia Rodoviária Federal. Mesmo se contorcendo, implorando ajuda e não tendo reagido à abordagem da PRF, ele foi torturado e assassinado com sadismo típico de gente perversa, que sente orgasmo vendo a dor somada com impossibilidade de defesa. 
 
Genivaldo de Jesus Santos, 38 anos, estava em sua motocicleta quando foi abordado pela Polícia Rodoviária Federal. Ele tomava remédios controlados há 20 anos, e estava com cartelas de medicamentos no bolso. O crime dele? O mesmo crime do presidente da república: andar sem capacete em rodovias e BR’s. Acontece que Genivaldo não tinha como - criminosamente - usar o "poder presidencial" para pilotar moto sem capacete.
 
Genivaldo, indignado, reagiu com a palavra, dizendo que estava indo comprar os seus remédios. Mas os policiais rodoviários, totalmente despreparados (como mostram as imagens), trataram esse homem indefeso com truculência estarrecedora. Ele foi jogado no porta-malas da viatura juntamente com uma bomba de gás. Depois o Instituto Médico Legal atestou a sua morte por asfixia mecânica e insuficiência respiratória aguda. Lógico! 
 

 
O gás lacrimogêneo é um mecanismo de defesa da polícia, quando está dispersando pessoas AO AR LIVRE, EM ESPAÇOS ABERTOS, justamente para que os protestantes tenham como se defender, correndo, tendo o direito natural de respirar. Nesses casos as pessoas têm a chance de não se sufocar, pois o gás lacrimogêneo não pode ser respirado. Não há como morrer em consequência desse gás no meio da rua, pois há como buscar ar puro na mesma profusão.
 
Os policiais, sádicos, improvisaram uma câmara de gás dentro da viatura, como faziam nos campos de concentração nazista. Em plena luz do dia, e sendo filmados! 
 
O sobrinho de Genivaldo disse que eles pediram para Genivaldo levantar as mãos e encontraram no bolso dele cartelas de medicamentos. Nesse instante ele ficou nervoso e perguntou o que tinha feito. Ele avisou aos policiais que seu tio sofria de esquizofrenia, mas não houve sensibilidade alguma.
 
Há poucos dias, fiquei chocado quando, no Ceará, um mendigo tomou a arma de um policial rodoviário federal e o matou juntamente com outro PRF. Qual brasileiro não se solidarizou com a PRF e com suas famílias naquela ocasião? O Brasil inteiro sentiu aquelas mortes, afinal são dois trabalhadores, pais de família, vitimados pelo banditismo.
 

 
Mas o que esses dois casos nos dizem? Ora, é fácil: DESPREPARO TOTAL DA PRF (pelo menos nesses dois casos). São duas situações chocantes e muito parecidas. No caso do Ceará, como um mendigo conseguiu tomar a arma de um PRF e matar dois desses profissionais com total controle da situação? É simplesmente inacreditável a falta de preparo.
 
No caso do Sergipe, onde os assassinos, ironicamete, são os PRF’s que mataram um homem indefeso e esquizofrênico, a razão é a mesma: DESPREPARO TOTAL. Esses homens não têm treinamento físico? O policial precisa ter força para imobilizar e algemar certas situações. Se Genivaldo fosse um “Incrível Hulk”, justificaria o uso mais potente da força. 
 
A polícia é treinada para esses casos, cujos policiais sabem imobilizar um homem de porte forte sem precisar matá-lo. Pelo menos é o que falam. Mas cadê a força dos policiais? Cadê a inteligência emocional? As imagens mostram os policiais xingando o homem, chutando o seu estômago e sua perna. É esse o treinamento? 
 
Confesso que tenho até medo de andar na rua e me deparar com alguma situação assim. Todos nós estamos sujeitos a isso, pois estamos lidando com policiais despreparados, sem condições emocionais de distinguir um homem de bem de um bandido de alta periculosidade. É o que se vê.
 
Inegavelmente a polícia não pode ser ‘macia’ em algumas situações. Não significa que deva ser estúpida, violenta, sádica e truculenta. O porte físico de Genivaldo não pedia uso total de força física dos policiais, e muito menos o uso impensável de um gás - que é instrumento de defesa deles - mas jamais dentro de uma viatura. Um cubículo.
 
Muito triste essa morte. Monstruosa. Percebe-se requintes de crueldade intencional da PRF, como se vingasse dos verdadeiros bandidos. Homens frios. Ignoraram os apelos do povo. Quantas pessoas ali gritavam por piedade para aquele homem indefeso, que nem bandido era. E mesmo que o fosse, que usassem a força física e o colocassem na viatura algemado, sem uso de gás.
 
Não podemos generalizar, mas, confesso, está difícil confiar e acreditar em todas as polícias. Os fatos falam por si. Se todo brasileiro que pilotar motocicleta sem capacete for assassinado, o que será do Brasil? Não estou justificando o erro da falta do uso desse equipamento salvador de vidas, mas façam uma reflexão sobre a terrível ironia: a Polícia Rodoviária Federal aborda um homem que não usava o equipamento que salva vidas, visando conscientizá-lo que ele poderá morrer por não usar esse equipamento e, pasmem, finda sendo ela, a própria Polícia que mata esse homem, e não a falta do capacete. É impressionante!
 
Finalizo com uma pergunta dirigida a todas as autoridades do Brasil e em especial à Polícia Rodoviária Federal: O QUE VOCÊS FARÃO COM O PRESIDENTE DA REPÚBLICA DE AGORA EM DIANTE, QUANDO ELE PROMOVER OS SEUS ESPETÁCULOS CIRCENSES E CRIMINOSOS EM CIMA DE MOTOCICLETAS E SEM CAPACETE? CONVERSARÃO COM ELE NA BOA? USARÃO GÁS LACRIMOGÊNEO? USARÃO UM PESO E DUAS MEDIDAS?

sexta-feira, 27 de maio de 2022

História do túmulo da escritora Nísia Floresta no município de Nísia Floresta

 HISTÓRIA DO TÚMULO DE NÍSIA FLORESTA NO BRASIL

Observação importante: Nesse Conjunto Histórico vemos dois elementos diferentes. Em primeiro plano vemos o Mausoléu, construído em 1955. Atrás, a peça maior é o Monumento, erguido em 1909.

O documento abaixo, intitulado “O TÚMULO DE NÍSIA FLORESTA” foi transcrito, portanto seu teor foi preservado conforme o original. Por esse motivo o leitor poderá observar algumas palavras escritas/ou acentuadas diferente da atualidade. O mesmo raciocínio de aplica ao fato de o autor ter usado duas formas para se referir ao município onde Nísia Floresta foi sepultada: “Ruão” ou Rouen. O correto é a segunda.

O TÚMULO DE NÍSIA FLORESTA

Comunicação ao INSTITUTO HISTÓRICO e GEOGRÁFICO do Rio Grande do Norte, pelo sócio ADAUTO MIRANDA RAPOSOS da CAMARA, em 31 de maio de 1950.

O jornalista Orlando Ribeiro Dantas, diretor do Diário do Rio, excursionando pela Europa, viajou até Ruão, especialmente para localizar a sepultura de Nísia Floresta Brasileira Augusta, a insigne norte-riograndense, que, nascida em Papari, se impôs ao respeito e à consideração de um escol intelectual europeu, na centúria passada.

Quando partiu pra o Velho Mundo, em Fevereiro último, o ilustre conterrâneo, que estremece a nossa Província e a conduz no coração para toda a parte, me confiou que ia visitar Nísia em seu eterno abrigo, que vagamente se sabia existir naquela cidade francesa. Henrique Castriciano, certa vez, me declarou possuir uma fotografia do túmulo, mas nunca tive a oportunidade de ver, alegando ele que se extraviara.

Por intermédio da Federação das Academias de Letras do Brasil, procurei, em 1938, obter uma certidão ou atestado do enterramento de Nisia Floresta, interessando-se, nesse sentido, o Itamarati, a que se forneceram minuciosos elementos para diligências junto às autoridades francesas. A resposta, solícita e gentil, foi, no entanto, desalentadora: o Consulado Geral do Brasil no Havre, apesar de sua boa vontade, nada logrou de satisfatório, pois que a Prefeitura de Ruão informara haver mandado proceder as buscas nos registros do Estado Civil.

Foi preciso que um rio-grandense do Norte, do Ceará-Mirim, se trasladasse até lá, em 20 de abril de 1950, sessenta e cinco anos após a morte de Nisia, disposto a reencontrar o túmulo esquecido. Em circunstanciada carta que me dirigiu, da qual, em seguida, transcrevo em longo trecho, teve a gentileza de comunicar o feliz êxito de seus beneméritos esforços a este seu coestaduano e velho amigo, autor de uma biografia de Nisia Floresta.

"Regressei ontem de EU, depois da visita que fiz a Rouen, ao Havre e a Dieppe. Cheguei a Rouen a 20 de e me hospedei no “Hotel de La Poste”. Logo depois, rumei ao cemitério. Tomei o bonde nr. 19, para apreciar melhor o panorama da cidade. Lá do alto, onde fica Bonsecours, pude ver, em conjunto, quase toda Rouen. Ao chegar ao portão do cemitério, dirigi-me a uma senhora velha, que ali vende postais e todas essas pequenas coisas que agradam aos turistas. Disse-lhe que ia visitar o túmulo de Nisia Floresta Brasileira Augusta, ao que ela me declarou que não havia ali esse túmulo. Estranhei a segurança com que dava sua informação, ao que explicou: - Moro aqui há 40 anos, conheço todo o cemitério e nunca vi essa sepultura”. Como eu insistisse, mandou a velha que uma rapariga que a ajudava, me acompanhasse à casa do sr. Menard, que tinha, ao que disse, todos os assentamentos relativos ao cemitério, pelos quais iria verificar que ela estava certa. O velho Menard, muito atencioso, procurou, eu a seu lado, os apontamentos, notas, e registros que possuía. Não encontrou o nome de Nisia Floresta. Falou, a seguir, da Mairie de Bonsecours, para a qual, depois das 14 horas, poderia eu apelar. Advertiu-me, entretanto, que os seus apontamentos eram sempre mais completos que os da Mairie.

Ma Mère
Nisia Floresta Brasileira
Augusta
Née le 12 octobre 1810
Décédée
Le 24 Avril 1885
--
Livia Augusta

Gade
Le 26 Avril 1912
À l’âge de 82 Ans.
CONCESSION PERPETUALLE
           
O túmulo, embora nunca visitado por ninguém, está em ordem e relativamente limpo. Dei à velha e à menina 400 francos e fiz as minhas recomendações a elas e ao secretário. Enviei, nestes poucos dias, cópias das fotografias tiradas. Como disse, em cartão-postal enviado de Rouen, deixei, à beira da sepultura de Nisia, duas lagrimas, uma sua e outra minha, ambas, sem dúvida, por nós e por todos os nossos conterrâneos. Madame Gade, depois Veuve Gade, née De Faria, morou em Rouen, na Route Paris, 121.
 

            Do Gesto de Orlando Ribeiro Dantas resultou sabermos agora:
a)    que Nisia Floresta está realmente sepultada em Ruão;

b)    que sua tumba não está abandonada;

c)  que a inhumaram cristãmente. Nisia sucumbiu a uma pneumonia aos 24 de abril de 1885, recebeu o conforto da Religião Católica. (V. minha História de Nisia Floresta, Rio 1941, Pongetti Edits, 211 pgs.

d)    Que ela nasceu a 12 de outubro de 1810, e não em 1809, conforme supunham quase todos os que estudaram a sua vida. Devo dizer que, naquele citado livro, aceitei a versão generalizada, por falta de documentos em contrário, mas sempre fiz minhas ressalvas, sempre manifestei minhas desconfianças, conforme se encontra em uma conferência que fiz em março de 1938, no Rio, e publicada no 2º Vol. De Conferências da Federação das Academias. Disse eu, então (pg. 105 – “Vários autores se equivocaram quanto à data do falecimento, dando-o como tendo ocorrido a 20 de Maio de 1885 (Vieira Fazenda, Blake, etc). Lendo-se O PAIZ, de 27  de Maio e o convite para missa feito por José da Silva Arouca, dissipar-se-ão todas as dúvidas. A controvérsia pode girar em torno do ano exato em que nasceu, que há motivos para afirmar ter sido em 1810.

A lápide funerária, cuja inscrição conhecemos, graças a Orlando Ribeiro Dantas, é uma fonte de história. A filha devotíssima é que ditou os dados referentes a Nísia, gravados no granito, e certamente ninguém saberia melhor, naquela época, o genetlíaco da excelsa potiguar.

Daqui se conclui que as comemorações de 1909, no Rio Grande do Norte, promovidas pelo Congresso Literário, foram antecipadas de um ano... mas por culpa da mesma filha, que, aos 79 anos, com a memória enfraquecida, prestou “esclarecimentos” à comissão do centenário de Nísia.

Na laje foi insolitamente estampada a idade de Lívia, 82 anos, ao falecer em Cannes, aos 26 de abril de 1912. Ela nasceu em Recife, em 12 de Janeiro de 1830, pelas nove e meia da noite, a mesma hora em que Nísia nasceu, conforme se lê nos Conselhos à Minha Filha (Rio, 1842). Aproveito a oportunidade para retificar um lapso tipográfico constante de minha História de Nísia Floresta, pelo qual a data natalícia de Nísia teria sido 12/1/1832. Aliás, Augusto Comte, a quem Nísia há de ter transmitido a indicação, a deu como nascida em 1835 (o pai se finara em Porto Alegre, em 1833...), pois que lhe atribuiu a idade de 22 anos, em 1857, como se lê na carta de 29 de março de do mesmo ano a G. Audiffrent.

Orlando Ribeiro Dantas prestou mais um meritório serviço aos que investigam sobre a grande vida da maior mulher de letras do Brasil, de quem o Rio Grande do Norte se orgulha de ter sido o berço.

Êle é talvez o primeiro norte-riograndense que foi homenagear sua memória, nas terras da França, - representante legítimo dos sentimentos de seus comprovincianos, - depois de uma paciente peregrinação pelas repartições públicas de Ruão e pelas avenidas silenciosas do Campo Santo de Bonsecours.

Rio de Janeiro, 31 de Maio de 1950.

Adauto Miranda Raposo da Câmara

Colégio Metropolitano – R. Dias da Cruz, 241. Meyer.

P.S. Remeto cópia das fotografias com que Orlando Ribeiro Dantas me obsequiou. Mandei fazer ampliação da que representa a laje sepulcral. Com o auxílio de uma lente, a inscrição poderá ser claramente lida".
                                    Adauto da Câmara


RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA ACADEMIA NORTE-RIOGRANDENSE DE LETRAS SOBRE A CONSTRUÇÃO DO MAUSOLÉU DE NÍSIA FLORESTA.

           
“Não havia transcorrido dois meses da nossa posse quando surge na imprensa desta capital uma campanha contra as autoridades do município de Nísia Floresta, com tentativa de envolver, mais tarde, a Academia de Letras, pelo fato daquelas autoridades não terem providenciado a construção do mausoléu da escritora Nísia Floresta Brasileira Augusta, cujos despojos há quase dois meses haviam sido depositados na igreja daquela cidade, onde permaneciam, ainda, insepultos, por falta de uma providência naquele sentido.
            Em face da campanha da imprensa e da impassibilidade da Prefeitura Municipal de Nísia Floresta, resolveu a Academia, por unanimidade dos seus membros, assumir a responsabilidade da construção do Mausoléu, promovendo os meios de torna-lo realidade. Tomada essa deliberação seguimos na mesma semana para aquela cidade onde, em companhia do contador Jovino dos Anjos, do professor Gonzaga Galvão, do construtor Alvaro José de Melo e do pedreiro José Cirino dos Santos, entramos em contato com o Prefeito local, Sr. José Ramires, e o Presidente da Câmara Municipal, Coronel João Marinho de Carvalho pondo-os ao corrente da situação e comunicando-lhes a resolução da Academia. Aquelas autoridades se solidarizaram de pronto com a iniciativa, e, embora não fizessem de prático para remover a situação criada, em parte por elas, não se opuseram, porém, à ação da nossa entidade. Nada mais exigia também a Academia para Nísia Floresta, senão que lhe dessem liberdade de ação e meios para realizar aquele objetivo. E foi o bastante. Voltamos no mesmo dia a Natal e no dia seguinte publicamos a primeira notícia no Diário de Natal, anunciando o começo do trabalho. Desta data em diante nunca mais deixamos de trabalhar pelo Mausoléu da escritora. Havia ali no sítio onde nasceu a escritora um monumento construído em cimento armado e alvenaria, cercado por um muro em péssimas condições. O Monumento era baixo, medindo, se muito, dois metros e meio de altura. Demos ordem para o construtor para elevar o monumento à altura compatível com a sua estética, revestindo-o ainda de marmorito harmonizando-o com a vestimenta do Mausoléu que é idêntica à do monumento. O muro velho foi igualmente derrubado, construindo-se um outro mais amplo e espaçoso, de acordo com as necessidades do conjunto. A natureza do trabalho, em grande parte do marmorito, exigia operários especializados, contratados em Natal, encarecendo, portanto, a mão de obra. Ao lado dessa circunstância devemos lembrar a inconveniência de um serviço feito na ausência do seu principal responsável. Além da falta de transporte, lutávamos ainda com a exiguidade de verbas para esse fim, só podendo visitar o serviço de oito em oito dias, ora em automóvel de aluguel, ora em carros de amigos particulares. Logo após os primeiros preparativos para a construção do Mausoléu, verificamos a necessidade de mandar confeccionar uma planta, tendo o construtor Alvaro José de Mélo, autorizado por nós, convidado o engenheiro Sousa Lelis para apresentar o projeto, sendo esse feito pelo referido profissional, nada custando à Academia. O mesmo, diga-se de passagem, aconteceu com o construtor Alvaro José de Mélo que, tomando a direção técnica do serviço a nosso pedido nada exigiu da nossa entidade prestando-lhe os mais relevantes serviços durante a construção do Mausoléu e a reforma do Monumento. Conforme prometemos, pessoalmente, e em notícias veiculadas em jornais da cidade, aqui deixamos a demonstração dos auxílios recebidos para a construção do Mausoléu e a sua respectiva aplicação, firmadas nos documentos da despesa. Os auxílios recebidos durante toda a campanha foram os seguintes: 

Governo do estado...................................................5.000,00
Prefeitura de Natal...................................................1.000,00
Luís Velga................................................................1.000,00
Dr. Aldo Fernandes..................................................1.000,00
Aguinaldo Vasconcelos............................................1.000,00
Santos & Cia Ltda............................................1.000,00
Imp. Severino Alves Bila S/A....................................1.000,00
Imp. Dinarte Mariz S/A.............................................1.000,00
Miguel Carrilho........................................................1.000,00
Dr. Roberto Bezerra Freire.......................................1.000,00
Luís de Barros.........................................................1.000,00
Sebastião Correia de Melo..........................................500,00
Pedro Augusto Silva...................................................500,00
Wandick Lopes...........................................................300,00
Sebastião Ferreira de Lima.........................................300,00
Oton Osório de Barros................................................200,00
Walter Pereira.............................................................200,00
Araújo Freire & Cia. ............................................200,00
Cunha &Maia......................................................200,00
Álvaro d’Araújo Lima...................................................100,00
Enico Monteiro............................................................100,00
Gurgel Amaral & Cia. .........................................100,00
Henrique Santana.......................................................100,00
João Rod....................................................................100,00
Sergio Severo.............................................................100,00
Euclides Vidal de Lira... .............................................100,00
Severino Souza Ribeiro.................................................50,00
Bruno Batista................................................................50,00
Lindolfo Gomes Vidal....................................................50,00
TOTAL:..............................................................C$18.250,00

      Esses auxílios foram angariados por uma comissão composta do Presidente da Academia, do Acadêmico Hélio Galvão, do industrial Luis Veiga e do contador Jovino dos Anjos: o terceiro, amigo devotado das letras, cujo interesse pelas coisas do espírito e da inteligência não será preciso ressaltar porque é de todos conhecido; o quarto, natural da cidade de Nísia Floresta, colocou desde os primeiros momentos a serviço da causa comum, cooperando por todos os meios para a sua realização.
        As despesas que se elevaram ao total de Cr26.710,00, conforme documentos arquivados, tiveram por objetivo os seguintes serviços: - destruição do muro velho e construção de um muro em alvenaria rebocado, caiado e pintado; elevação do antigo monumento, de dois metros e meio (2’2) para cinco (5) metros de altura todo revestido de marmorito; iluminação elétrica de todo o conjunto, com material novo e de primeira qualidade; construção do piso interno e da calçada ambos a mosaico.
           Confrontando-se a Despesa e a Receita do Mausoléu e do Monumento, ver-se-á que houve um déficit de Cr$8.460,00, coberto pelas rendas ordinárias da Academia.
            Os documentos assinados pelas casas fornecedoras do material e pelo mestre da obra, José Cirino dos Santos, dirão melhor, na mudez dos seus algarismos, do que a linguagem dos relatórios com todas as suas minúcias.
         Devemos lembrar que nessas despesas não foram incluídos os trabalhos técnicos e de administração do engenheiro Souza Lelis e do construtor Álvaro José de Melo, cujos serviços foram gratuitos e porisso mesmo merecedores da nossa gratidão e do nosso reconhecimento. Não foram igualmente computados aqui os tijolos e a areia fornecidos gratuitamente pelo Capitão João Marinho de Carvalho, Presidente da Câmara Municipal de Nísia Floresta.
            Não foram incluídos mais os seguintes materiais e obséquios, doados e prestados por várias pessoas, cuja menção manda a justiça que se faça: -
1.Pedro Paulino de Carvalho, terreno para ampliação da área do muro;
2.Carlos Gondim, um portão e uma grade de ferro;
3.João Suassuna, seis alqueires de cal;
4.Galvão Mesquita, Ferragens S/A, quarenta quilos de ferro e dois quilos de arame fino;
5.Casa Lux Ltda. Quatro tubos de ferro de ¾ para eletricidade, fora o que foi comprado posteriormente; 
6.Antonio Justino & Cia. Dezessete latas de mármore, fora o que foi comprado posteriormente.
7.José Silva, dois sacos de cimento “Zebú”, fora o que foi comprado posteriormente;
8.José Martins, seis alqueires de cal para traço e uma lata da cal virgem;
9.Um anônimo, viagem de carro para Nísia Floresta;
10.Wandick Lopes, viagem de Jeep a Nísia Floresta;
11.Um anônimo, viagem de Jeep a Nísia Floresta;
12.Dr. Raimundo França, viagem de Jeep a Nísia Floresta;
13.Prefeitura de Natal, viagem de um caminhão a Nísia Floresta;
14.Carlos Gondim, trouxe e levou várias vezes, material de construção para o Mausoléu de Nísia Floresta;
15.Base Aérea de Natal, viatura posta à disposição da Academia para condução dos convidados no dia da inauguração do Mausoléu e do Monumento;
16.Pedro Augusto Silva, Carlos Gondim e Tenente Barros e Senhora, lanche preparado e servido em Nísia Floresta no dia da inauguração do Monumento;
17.Osório Dantas, viagem de Jeep a Nísia Floresta, com a colaboração do jovem estudante Walter Lopes que serviu de motorista;
18.Instalação da luz do Monumento e do Mausoléu, a cargo do eletricista Manuel Silva e do seu respectivo auxiliar;
19.Prefeitura Municipal de Nísia Floresta, placa em alto relevo, confeccionada por importante firma de Belo Horizonte, Minas Gerais, cuja doação muito recomenda o bom gosto e a compreensão do Prefeito José Ramires, e do Presidente da Câmara Municipal, Coronel João Marinho de Carvalho. É de justiça salientar o interesse do contador Otacílio Ximenes Jales, representante da referida firma, nesta capital, que tudo fez para que a confecção da placa de Nísia Floresta se realizasse na presente gestão da Academia de Letras.
Não foram incluídas, enfim, muitas despesas miúdas que pela sua natureza escapam ao registro de quem dirige. Concluído o trabalho do Mausoléu e do Monumento reuniu-se a Academia, marcando a sua inauguração para o dia 3 de abril de 1955. Efetivamente, naquela data, daqui partiu a Academia em viatura gentilmente cedida pelo Comando da Base Naval de Natal, ali chegando às 9 horas e fazendo logo depois o trasladamento dos restos mortais da escritora da Igreja local para o Mausoléu a ser inaugurado. O acontecimento está registrado no livro de Atas da Academia que por sua vez recolhe as assinaturas das pessoas presentes.”


PLACA DE NÍSIA FLORESTA

“Neste final de relatório cabe-nos uma referência especial à Prefeitura Municipal de Nísia Floresta que, por intermédio do seu prefeito, Sr. José Ramires, e do seu Sub-Prefeito, Capitão João Marinho de Carvalho, deu uma demonstração que poucas vezes se tem visto neste pedaço do território brasileiro que é o Rio Grande do Norte. Queremos nos referir ao gesto nobre e elegante que teve aquela edilidade fazendo doação à Academia Norte-Riograndense de Letras de uma belíssima placa em alto relevo para ser afixada no Mausoléu da insigne escritora e educadora e patrícia. A placa será colocada brevemente e não é sem emoção e sem um profundo reconhecimento de gratidão que agradecemos àquelas autoridades, em confiança e solidariedade que deram à nossa instituição, como que premiando-a pelos grandes esforços que dispendera na realização de tão árdua e difícil missão. Não deve ser esquecido aqui o nome do Sr. Otacílio Ximenes Jales, representante da firma de Belo Horizonte, que tanto se interessou pela confecção e pelo aprimoramento da placa em questão”.
 
Natal, 26 de janeiro de 1956