ACTA NOTURNA - 26.3.2022
AS AUTORIDADES TÊM O DEVER MORAL DE DEVOLVER OS CORETOS QUE PERMITIRAM DESTRUIR
Há vários anos observo de perto o patrimônio histórico de Natal em queda livre. Obviamente que, nessa observação, soma-se a mim outras pessoas sofrendo com a depredação. Juro que meu coração chora. Vou ali não para sofrer, mas me certificar do que sobrou e me reencantar com o que resiste. Frequento a Cidade Alta e a Ribeira constantemente e a cada semana desaparece um detalhe. A julgar pelo que se vê, em cinquenta anos não teremos mais nada desses imóveis incríveis, raríssimos, como a “Samaritana”, por exemplo. Não entendo como há milhões para a política e nada para a aquisição e revitalização desses espaços.
Meu objetivo, hoje, é falar sobre os velhos coretos de Natal que, de tão belos, faziam literalmente parte dos cartões postais que os velhos fotógrafos vendiam. Ainda bem que as fotografias resistiram. Os coretos - cada um mais belo que o outro - desapareceram sob o passe de mágica da falta de zelo, da falta de restauração, da falta de reformas… da ignorância. Natal tem dessas “mágicas”. Ainda não pesquisei quais intendentes/prefeitos os construíram - nem os que destruíram - mas eram impressionantemente belos. Verdadeiros poemas arquitetônicos.
Dia desses, contemplando a fotografia postada pelo historiador Eduardo Alexandre Garcia, um arqueólogo da imagem da velha Natal, impressionei-me com uma nova fotografia do coreto da praça André de Albuquerque, exatamente onde surgiu a cidade de Natal. Meus olhos brilharam e as lágrimas desceram. Essas coisas me entristecem profundamente. Não é diferente da morte de uma pessoa querida. Entendo como covardia e egoísmo perverso negar às crianças o direito de conhecer o seu passado. É como não ter identidade.
Não entendo como muitos perdem tempo ‘enfeiando’ Natal (ou apapagaiando, como queiram!), construindo praças e logradouros que mais parecem um campo de aviação, sem beleza alguma, sem atrativo algum, sem flores, sem árvores adequadas, e casas que lembram caixas de sapato. O que passa na mente dos arquitetos, engenheiros, paisagistas, urbanistas de Natal? Não se vê um diferencial, algo que alguém diga “que obra mais extraordinária!”. Esses profissionais não parecem se dar conta que estão lidando com uma das cidades mais antigas do Brasil. A propósito, Natal, por ser capital, é muito acanhada em monumentos. Entendam por Natal, Natal. Natal não é apenas o centro.
As praças antigas de Natal, aquelas que ocupavam uma quadra inteira, exibiam poemas arquitetônicos que roubavam a cena. Eram incrementos que noivos, passantes e turistas faziam deles o cenário de uma fotografia que estaria para sempre no álbum fotográfico da família. O coreto era praticamente um personagem. Ele somava beleza aos registros. E hoje? Você já viu alguém fazendo uma fotografia em alguma praça de Natal?
O povo natalense, em especial, e depois os visitantes, querem um atrativo dos seus logradouros públicos. Isso está na alma de qualquer ser humano. Se não fossem alguns monumentos que restaram, descuidados, Natal não seria fotografada pelos visitantes. A exemplo o busto do padre João Maria (na praça com o mesmo nome), o busto de John Kennedy (próxima ao C&A, que tentaram roubar recentemente), a estátua do Monumento à Independência, na praça Sete de Setembro (defronte à Pinacoteca), a estátua de Augusto Severo (praça Augusto Severo), a escultura em bronze de Pedro Velho (Praça Pedro Velho), o obelisco em homenagem a Tavares de Lira (defronte ao horroroso e abandonado cais), o obelisco na praça André de Albuquerque (que roubaram todas as placas de bronze originalmente afixadas), Coluna Capitolina (defronte ao IHGRN), a escultura de Câmara Cascudo (defronte a Biblioteca) e uma fonte de ferro no formato de uma menina indígena (pátio interno da Pinacoteca, mas essa não está exposta como as demais). Enfim, se eu estiver esquecido algo, que me perdoem. Nesse caso, não me refiro aos monumentos que estão guardados dentro de espaços institucionais.
Lembrando que o obelisco a Jerônimo de Albuquerque Maranhão (avenida Circular) evaporou com placa e tudo. Comportamento que me choca é dos prefeitos natalenses que veem os monumentos ruindo e não refazem.
As autoridades com poder de salvaguardar o patrimônio histórico costumam alegar que é difícil tombar, reformar, revitalizar ou meramente pintar determinadas edificações históricas porque são particulares, cujos donos impõem dificuldades. Isso é compreensível, embora não justifique. Até porque é só comprar. Há dinheiro para tantas ações supérfluas. O que é comprar um prédio com mais de 100 anos, como a “Samaritana” por exemplo? É só ir comprando aos poucos e transformando em órgãos públicos, lentamente.
Já imaginou a Ribeira tornada um centro administrativo do estado e município no tocante às instituições de menor porte? Até um ano atrás resistia ali a Delegacia da Mulher. Mas se mudaram. O prédio, muito bonito e conservado, ao invés darem vida, abandonaram, dentre tantos, intactos em meio às ruínas de outros.
Mas, com relação aos coretos, minha opinião é que pessoas com o mesmo respeito que traduzo aqui - pertinente ao patrimônio histórico - além de se preocuparem urgentemente com a sua salvaguarda, que abraçassem, doravante, a ideia de reivindicar às autoridades a devolução dos coretos originais de Natal, inclusive, dois deles teriam mais de um século se não o tivessem demolido para - pasmem! - modernizar Natal. Esses coretos existiam em locais públicos. Não haveria a objeção dos donos, pois o povo é o dono e o quer de volta. Não haveria imbróglio algum em reconstruí-los tais quais eram. Não faltam fotografias para servir de base.
O coreto da Praça Augusto Severo, por exemplo, em estilo francês, era uma obra de arte. Já imaginou esse poema arquitetônico reconstruído exatamente onde era? Não devolveram a pontezinha do rio aterrado? Obviamente que mudaram o estilo, mas não repetiriam esse erro aos coretos. Eram três coretos que já foram explicados acima, lembrando que a Praça Pio XII, onde foi erguida a Catedral Católica, ficaria fora por faltar espaço. Mas pode ser refeita em outra praça central. Por que não?
Pois bem, fica o registro meu para a história. Reconheço que palavras são incomparavelmente mais fáceis de acontecer do que obras concretas. Mas é necessário outra visão. E, melhor, é possível a palavra virar coreto. É só querer. É dever moral de todas as autoridades políticas, institucionais, sejam civis, militares ou eclesiásticas, universidades, município e estado. Cada uma tem um papel antes e depois. Todos podem ser simpatizantes e lutar pela proposta, levando-as à Assembleia Legislativa para que primeiramente se torne um projeto. O que você teria a dizer?
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