ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que passeiam levemente por essas águas. Os textos são de autoria de Luís Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. Esse parentesco corre pela parte da mãe do autor, Maria José Gomes Peixoto Freire, cujas informações estão no livro "Os Troncos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti. O referido livro desenrola o novelo genealógico das famílias originárias de Goianinha, município próximo, de onde originou-se a família de Nísia Floresta, e pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de crônicas, artigos, fotos poemas, etc. O autor ministra palestras e pode ser convidado através do e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com.br. Fone: 99827.8517 - É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA.

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O CARNAVAL NA PRAIA DE CAMURUPIM, ONTEM


A praia de Camurupim é uma extensão de Papari. A história é testemunha que nenhuma outra praia se fez mais presente na vida dos nativos desse pedacinho do litoral potiguar, principalmente no carnaval. É amor antigo, desde a época em que se iam ao lombo dos jumentos, rasgando veredas, desafiando as garrancheiras.

Famílias inteiras empreendiam essas viagens épicas, levando nos cestos toda sorte de alimentos: farinha, rapadura, macaxeira, café, batata doce, fruta-pão, inhame, banana, laranja, carne-de sol, miúnça de feira. As garrafas de Pitú ou a famosa “cabumba” do Timbó iam escondidas das crianças; coisa de adulto.

Cada um levava a feira da temporada. Quem fazia o controle rigoroso dos almoços e jantares era a matrona, sempre sábia na partilha. Pobre a rico se juntavam nesse vavavu que fazia a alegria da meninada. Era época de se fartar de peixe, pegos quase nas mãos pela abundância. Boldo não faltava, em caso de empanzinamento, aliás, ninguém se esquecia das meizinhas.

As casinhas de taipa ou palha emolduravam a língua de areia branca, distando poucos metros umas das outras. Às fogueiras alumiavam as noites escuras e estreladas, ardendo até altas horas, circundadas pelas famílias que eram felizes e não sabiam. Outrora, os “luais” inesquecíveis se encarregavam de trazer uma luz cheia de feitiços.

Os mais velhos embalavam essas noites mágicas com incontáveis histórias de “trancoso”, levando muito menino a dormir cheio de fantasias e medos. O silêncio da noite era quebrado quando em vez pelos evangélicos que – na famosa “Rua dos Crentes”, entoavam as canções da Harpa Cristã. Os coqueirais sem fim se encarregavam de dar a paisagem um tom de cartão postal. Imagens e histórias de rara beleza, engolidas pela urbanidade. 

Era assim o “carnaval” antigo da Praia de Camurupim. Assim me contou dona Leonísia (in memorian), aos 90 anos, avó de Lurdinha Lemos.

 

O CARNAVAL NA PRAIA DE CAMURUPIM, HOJE

Como dizem os nisiaflorestenses, “pense numa coisa louca”; tem diversão para todos os gostos, mas nada lembra o bucolismo e a tônica singela d’outrora. As florestas de coqueirais gigantescos perderam lugar para as casas e ruelas desconexas, as quais forraram as dunas como um lençol eterno de metralhas e cimento. Camurupim vira cidade durante o carnaval.

Há casos de casas minúsculas que abrigam até 100 foliões. Na hora da dormida o terraço se transforma um tapete humano. A madrugada é hora dos gatunos que, tais quais os “pés-de-lã”, passeiam mansos, silenciosos, recolhendo roupas de marca, carteiras e celulares. Alguns fazem do varal alheio o seu Midway.

O trânsito de carros, motos, bicicletas e pedestres divide espaço com vendedores ambulantes, carrinhos de sorvete, cachorros... é a Índia do Brasil.

A “Rua dos crentes” quase não tem mais crente, mas eles adoram estar ali. Nem tanto para orar, e sim, para curtir a fuzarca. São os primeiros a se sentarem nas muretas das varandas, assistindo a tudo o que por ali aparece. Morrem de rir. Ninguém sabe quem é crente, quem é macumbeiro, quem é ateu, quem é católico... todos ficam iguais ou parecidos no Carnaval.

Quem buscar sossego ou tiver um grau maior de pudor e recato, não apareça ali, pois a “Rua dos crentes” treme. A Harpa Cristã deu lugar ao terremoto dos carros de som. As aparelhagens nas casas ou os paredões nos carros fazem uma orquestra louca, que atiça até os velhinhos.

As músicas típicas de carnaval quase desapareceram. Soam acanhadas, engolidas pelas “swingueiras” com letras de cunho sexual, normalmente apelativa. A marchinha perdeu espaço para coreografias eróticas, por vezes mais lembram uma cópula que uma dança. Cada um expõe o seu gosto musical, numa palreira louca.

Ali passa o desfile do “Barreta Gay”, cujas fantasias e apetrechos vão desde uma simples e ingênua máscara a vestidinhos ousados, que aventam os dotes masculinos numa tônica de malícias, insinuações ditos picantes e muita zombaria.

Não apareça com ares de remoque que poderá ser “linchado”, pois, naquele momento o “diabo” está solto. Carros, pessoas, muros e até os postes ficam tingidos de araruta, trigo, espuma de spray, tinta e água. As “caras e bocas” de homens vestidos de mulher provocam uma “risadagem” sem fim.

Mas nem tudo é “modernidade”. Sobrevive, intacto, os encantadores “papangus”; normalmente meninos em busca de trocados ou refrigerante, conforme reza a tradição. Eles percorrem Camurupim, Barreta e Barra de Tabatinga, despercebidos da sua conotação de carnaval genuíno.

Camurupim vira a metrópole de Momo, com direito à coleta de lixo que quase não acaba. Aparecem padarias, bares, restaurantes, pousadas com freguesias intermináveis. Entregadores de água requebram lá e cá, sem parar, a dança do dinheiro. Dizem até que alguns ficam ricos nessa época. A novidade deste ano – dizem – é uma campanha contra o “zica vírus”. É a modernidade.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

CEMITÉRIO "PAGÃO" DO CURURU - GEOGRAFIA DOS EXCLUÍDOS

Uma velha cruz é o único sinal do antigo Cemitério dos Pagãos - do Cururu


No cimo de altíssima duna - quase sufocado pela vegetação - jaz o "cemitério dos pagãos", no lado esquerdo do "cemitério oficial" do extinto povoado de Cururu, distrito de Campo de Santana, em Nísia Floresta/RN. O lugar foi despovoado do dia para a noite, durante a famosa "cheia de 74". Os casarios de taipa sucumbiram à ação das águas chegadas de surpresa, instigadas por uma sucessão de represas estouradas pela força das chuvas torrenciais. Restaram unicamente alguns alicerces e as grossas paredes de pedra e tijolos da capela. As únicas construções intocadas foram esses dois cemitérios, justamente por estarem no pináculo da duna mais alta da região - lugar de difícil acesso. Exatamente ali está o “cemitério pagão”do Cururu.
            Tenho em meus arquivos uma coleção de slides dessa época - presenteada por um velho fotógrafo de "Mãe Luísa" - hoje falecido. São imagens impactantes, que registram a inundação na comunidade do Porto (Nísia Floresta) na mesma época. O fenômeno abrangeu uma área ampla, compreendendo outros municípios. As imagens são impactantes e confirmam os depoimentos que ouvi de alguns idosos de Campo de Santana, em 1992. Foram-me contados episódios tristes, sentidos durante muitos anos. As casas - todas de taipa - "desmancharam-se" do dia para a noite. Nem os seus entrançados de madeira resistiram. Roças de milho, jerimum, batata-doce, inhame e macaxeira desapareceram sob as águas, deixando um grande prejuízo. Sem contar o sepultamento de incontáveis memórias e tradições.
            De acordo com os que vivenciaram tal acontecimento, todos ficaram desprovidos de quase tudo. Sequer tinham o que comer nos dias seguintes, pois a rapidez da inundação fê-los escolher entre salvar a vida ou os alimentos, animais, cacarecos etc. As canoas, em quantidade insuficiente, não atendiam a demanda. Os referidos slides mostram, inclusive, flagrantes dessas embarcações abarrotadas de pessoas e seus pertences. Pretendo, futuramente, mandar transformar esse material em fotografias, digitalizá-lo e disponibilizá-lo neste blog, pois significam um dos raros registros. Como curiosidade, vale registrar que são imagens coloridas. O fotógrafo contou-me que foi uma das primeiras pessoas da região a fazer imagens em cores.
Resquício de uma estaca que fazia parte da cerca do cemitério pagão.
            Visitando o antigo cemitério oficial do Cururu em caráter de pesquisa, passei despercebido pelo cemitério dos pagãos. O local faz jus à sua gênese, inclusive é marcado acanhadamente por uma cruz de pau ferro (caesalpinia ferrea), a propósito muito antiga e tosca. 
Outra estaca
Olhando cuidadosamente os seus arredores, observei duas estacas dessa madeira, engolidas pelo mato. Parece ser o que sobrou da cerca que protegia o local.
            Mas o que significa "pagão"? O dicionário Houaiss (2004) traz a seguinte acepção:

adj. s.m. (sXIII cg. fichIVP) 1 que ou aquele que não foi batizado 2 adepto de qualquer religião que não adota o batismo ou adota o politeísmo - ETIM. lat. paganus,i 'homem da aldeia, aldeão; cidadão que não é soldado, paisano; pagão, gentio'; ver pagan; f. hist. sXIV pagaãos, a1664 pagano - SIN/VAR ver sinonímia de herege ANT ver antonímia de herege (p.2103).

            Para o presente texto nos serviremos da primeira acepção, ou seja, que ou aquele que não foi batizado. Desse modo trataremos sobre o costume católico de denominar "pagã" a criança que morria antes de ser batizada. Os bebês que se encontravam nessa situação não podiam ser enterrados em cemitérios oficiais, pois não eram considerados cristãos, como veremos adiante.
            Os nativos católicos que visitam o "cemitério pagão" do Cururu demonstram devoção às almas ali sepultadas. Fazem o sinal da cruz, quebram brotos verdes de algum mato e o depositam ao pé da referida cruz. É uma maneira de externar respeito aos pagãos. Ninguém sabe informar quantos bebês foram enterrados no local, nem a idade de ambos os cemitérios, mas não é difícil supor que o local tenha muito mais de duzentos anos, como perceberemos adiante.
            Não é difícil supor que Cururu seja mais adiantado em idade que o próprio centro de Papari, hoje Nísia Floresta. Moradores idosos de Campo de Santana, nascidos no Cururu, contaram-me que seus avós e bisavós nasceram ali. Só nessa conta vão quase duzentos anos. De onde vieram os pais desses bisavós? Curiosamente tais pessoas disseram-me que têm pagão na família enterrado ali. Infelizmente não há nada escrito sobre esse histórico lugar. A única instituição do referido distrito que preservou a sua história foi um time de futebol, o "Cruzeiro do Sul Futebol Clube", fundado aos 21 de dezembro de 1894, ou seja, há 121 anos. Veja, abaixo a foto da sua sede. O fato de ter existido sociedade organizada há mais de um século - a ponto de se fundar um clube de futebol - deixa visível a antiguidade do referido povoado, reforçando a suposição de ser muito mais antigo do que se supõe. 
Logomarca do time "Cruzeiro do Sul Futebol Clube", fundado aos 21 de dezembro de 1894 (Foto: Robson Bezerra)
            O fato de o "cemitério pagão" ter resistido até hoje, embora em estado precário, denota a força da religiosidade e das tradições católicas - e as crendices dos nativos - talvez ainda mais fortes. Se não existisse essa carga toda o local não teria ficado sequer na memória popular. Nesse mesmo blog (ver postagens antigas) escrevi sobre tal povoado e o cemitério oficial (não pagão), que infelizmente se encontra em ruínas.
"Geto" em momento de devoção ao Cemitério Pagão. Assim que chegamos ao local, ele retirou um ramo verde, benze-se e depositou-o na cruz.
            A devoção a esse lugar é externada apenas por quem sabe da existência de tal cemitério, inclusive “Geto”, o jovem senhor que me acompanhou, fez o ritual acima explicado. Por se tratar de uma pessoa de quarenta quatro anos, fica visível a transmissão dessa tradição à nova geração, muito embora a um público restrito, pois nem todos têm conhecimento desse cemitério, tampouco sabem o significado de "pagão".
            Luís da Câmara Cascudo escreveu sobre os "pagãos" em seu Dicionário do Folclore Brasileiro (1998), dando detalhes curiosos. Não se trata de uma abordagem exclusiva sobre os pagãos do Cururu, mas uma visão geral, até porque, embora haja uma predominância dessa tradição no Nordeste, ela ocorria em todo o Brasil. Leiamos o registro:

A criança sem batismo está cercada, universalmente, de respeitos e determina uma série de superstições comuns a todo o Brasil. São sobrevivências vindas de Portugal e capitalizadas de todo o mundo. Sem vício e sem virtude, sem pecado e sem merecimento, o pagão não é responsável. O diabolismo medieval respeitava-o pelos seus poderes individuais, sem as águas cristãs, não vindos da comunidade, a que não pertencia, nem da religião em que ainda não fora iniciado. Eram poderes decorrentes do seu estado especialíssimo de anjo sem culpa, criatura inocente, mas com o pecado original. O pagão livra de raio na casa onde estiver. Faz deter-se a chuva, erguendo os dois pés, como se fosse suster o firmamento. Morrendo, só pode ser enterrado junto à porteira dos currais, porque o gado é abençoado e assistiu ao nascimento do Salvador, ou nas encruzilhadas, porque estão em forma de cruz. No diário de Natal (27.1.1948) há o registro dessa tradição. O homem sepultou o pagão que a polícia encontrara, explicando que o fizera porque no interior do estado os natimortos não eram enterrados no "sagrado" e só o deviam ser nos currais e encruzilhadas. Sete anos depois de sepultado, o pagão chorará no fundo da cova, e ouvirão o choro. Tudo quanto lhe pertence, objetos de uso direto e o seu corpo, pertence à classe dos amuletos. Osso de menino pagão multiplica os bens materiais de quem o possui. "Para o pescador do alto-mar ser feliz e apanhar o maior quantidade de peixes deve levar consigo um pedaço de osso de menino pagão e nunca deixar de enfeitá-lo com fita-de-santo" (Barão de Studart, Antologia do Folclore Brasileiro, nº 318). A fita-de-santo é a fita medindo o comprimento da imagem ou a ela amarrada com promessa. Depois de algumas semanas, no segundo caso, retiram a fita do corpo do santo e fica servindo para muitos atos provocadores do milagre ou da benção divina. O pagão não dorme no escuro. Não se deve por na sua boca uma pedrinha de sal. Deve ter debaixo do travesseiro uma tesoura aberta para espantar as bruxas. Deve ser chamado unicamente por nome de santo e jamais por apelido ou diminutivo. Como não pode ir para o céu, porque não é cristão, nem para o inferno, porque não pecou, o pagão vagará pelo Limbo e reaparecerá sempre, nas encruzilhadas, esquinas de cemitérios, pátios de fazendas, entradas solitárias, choramingando pelo batismo. O viajante de coragem deve então atirar água na direção do choro e dizer as palavras rituais: Eu te batizo em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo! Ouvirá risos e os pagãos, tornados anjos de Deus, serão protetores do padrinho. "Na casa em que se enterrou um menino pagão que morreu ao nascer ou nasceu morto, no fim de sete anos ele chora em sua sepultura de um modo rouco e abafado. Ouvido o choro por qualquer pessoa, deve batizá-lo, se assim se fizer, não chora mais e vai habitar no céu com os anjinhos do Senhor." (Studart, Antologia do Folclore Brasileiro, 332) (p.658, 10ª ed).

            Como se nota, o universo cultural que envolve o "pagão" é fruto da religião católica antiga, daí a idealização de uma convenção cartográfica própria. Mas a mesma igreja, ao inventar essa tradição, perdeu o controle sobre outras crendices e superstições que foram acercando os "pagãos" ao longo do tempo, e tudo o que dissesse respeito a eles. Isso é deduzível - num exemplo isolado - no fato de que jamais a igreja católica fomentaria a coleta de ossos de um pagão para fins de amuleto, dentre outras crendices. Mas há católicos que iam a tais extremos. E a igreja fazia vistas grossas, pois não podia - nem conseguiria -  combater o imaginário popular e, pior, com foros de "coisas da fé".
Outro detalhe que convém ressaltar é sobre os evangélicos, já que o leitor poderia perguntar como ficavam os bebês mortos de famílias não católicas. Sabe-se que os protestantes batizam os seus filhos a partir da pré-adolescência. Na realidade, segundo os antigos moradores, o povoado de Cururu nunca teve evangélicos. Eles chegaram à localidade muito depois da "cheia de 74", já para morar no distrito de Campo de Santana. Significa dizer que o "cemitério dos pagãos" nunca teve sepultamentos de bebês não católicos por dois motivos: 1º) eles não acreditam nessa tradição; 2º) Cururu foi um povoado cem por cento católico, inclusive o "cemitério oficial" do Cururu nunca recebeu um evangélico.
De acordo com a pesquisa de Cascudo (1998), "(...) O pagão livra de raio na casa onde estiver. Faz deter-se a chuva...”. Esse detalhe é curioso, pois embora se trate de um ser que não está nem no céu nem no inferno - cujo único fator desfavorável é possuir o pecado original - tenha tamanhos poderes.
            Ninguém sabe precisar a partir de quando o "cemitério dos pagãos", do povoado do Cururu, deixou de receber enterros, mas foi justamente a extinção dessa tradição que legou quase abandono ao local, a ponto de passar despercebido. Se porventura a velha cruz de pau ferro ruir sem imediata substituição, estará sepultado para sempre esse ponto de memória.
            É justamente para impedir isso que devemos provocar discussões sobre a importância desse recorte da memória de Nísia Floresta. Sabe-se que o "cemitério oficial", onde só eram enterrados os batizados, continuou servindo a população após o fenômeno da cheia. As políticas públicas para a implantação do distrito de Campo de Santana – situado num planalto próximo – foram ocorrendo gradualmente, inclusive o imóvel do cemitério foi liberado quase um ano após a instalação do novo distrito.
            O único "cemitério pagão" que restou em Nísia Floresta foi exatamente o do Cururu, daí a necessidade da sua preservação, pois é um registro precioso e pleno de significados. O mínimo que se poderia fazer no momento é cercá-lo e identificá-lo com uma placa.
            Na acepção do vocábulo "pagão", conforme registro acima, vê-se a palavra "herege" já no final. É importante conhecermos tudo o que está relacionado ao "pagão" para entendermos as justificativas da tradição católica de criar uma geografia própria para os assim denominados. Leiamos o que o dicionário Houaiss (2008) nos diz sobre tal vocábulo:

Herege: adj.2g..s.2g (s XIII cf. FichIVPM) 1 que ou quem professa uma heresia; que ou quem professa doutrina contrária ao que foi estabelecido pela igreja como dogma 1.1 diz-se de ou cristão católico que, de forma tenaz, nega ou põe em dúvida verdades da fé católica 2 p. ext. que ou quem adota ou sustenta ideias, opiniões, doutrinas etc. contrárias às admitidas (por um grupo) 3 p. ext. que ou aquele que não tem fé religiosa ou que não tem respeito ou deferência para as crenças religiosas alheias; ímpio, ateu, incrédulo ETIM provç. ant. herege.

            Lê-se na terceira acepção a palavra "herege". Como se vê, a igreja católica parece implacável em seus dogmas, pois deixa subentendido que o pagão é um possível "herege". Constata-se que um bebê, muitas vezes recém-nascido, é colocado no mesmo patamar do ímpio, do idólatra, do infiel e do ateu, conforme o desenrolar das sinonímias do dicionário. A igreja reconhece que aquele cadáver recém-nascido traz - segundo o Cristianismo - apenas o "pecado original, mas, mesmo assim, divide a sua significação com o ímpio, idólatra, ateu e o herege.
            A ausência do batismo consistia em parâmetro para justificar essa determinação aparentemente radical. Por que o "pagão" não podia ser sepultado no "cemitério oficial"? Passaria mal exemplo às famílias católicas? Qual seria o objetivo da igreja ao ser implacável com os bebês pagãos? Essa postura não seria uma estratégia para despertar uma espécie de medo e, consequentemente, fidelidade às orientações da igreja? Construir esse raciocínio era uma forma de ter controle sobre as pessoas e sobre a sua fé?
            Como se vê, não apenas as pessoas ingênuas - católicas - criavam tradições e crendices, mas a própria Igreja de Pedro, pois não seriam meras raias geográficas para enterros de "pagãos" que garantiriam ou não a sua redenção. Veja que a transcrição de Cascudo (1998), acima, diz que essa tradição é remota, que chegou-nos via Portugal, e cada lugar - seja aqui ou em outro continente - imputou-lhe suas peculiaridades. Como o catolicismo veio nas caravelas e se instalou por aqui, Cururu não poderia se comportar diferente.
            O fato de cercarem o "pagão" de deferência e adereços simbólicos - do momento da sua morte até o enterro - denota uma espécie de piedade e clemência por sua salvação. Parece uma forma de camuflar a verdade que ninguém aceitava de bom grado. A verdade de não ser nem do céu, nem do inferno. Na realidade, parecia estar-se mascarando o "pagão" - dando-lhe o aspecto de "anjo" - para enganar a si (familiares) e a outrem (o povo). Era uma cumplicidade que soava como um bálsamo.
            Denominá-lo "anjo" parece uma forma de depurá-lo do tal "limbo", que era um estado intermediário. Quem garantiria que o tão esperado choro seria ouvido e o "pagão" seria transmutado em cristão nos anos seguintes? Valia tudo - ou seja - as tradições e crendices eram as mais incontáveis - para transformar o "pagão" em cristão.
            Isso justifica, conforme a tradição católica, a necessidade de não sepultar “pagãos” junto aos batizados, pois enquanto o primeiro estava no limbo, o segundo estava no céu. A crença de o "pagão" não estar nem no céu nem no inferno legitimava o surgimento de um espaço próprio. Mas por que crianças inocentes, que nunca experimentaram qualquer forma de pecado, eram separadas de pessoas que, com certeza, cometeram muitos pecados em vida? Não deveria ser o contrário?
            Enquanto o "pagão", queira ou não, era discriminado, o bebê batizado antes de morrer era chamado de "anjinho", ou seja, havia a certeza do céu para os bebês receberam o sacramento do batismo. Por tal motivo o "pagão" - condenado ao limbo até segunda ordem - não poderia ser sepultado junto dos sacramentados pelo batismo.
            Teria algum pagão chorado durante a noite, pedindo batismo?
            Teria alguém ouvido esse choro e batizado, livrando-o dessa agonia?
            Estariam todos os pagãos do Cururu no céu hoje, depois de tantos anos?
            O "cemitério dos pagãos" nunca teve túmulos, diferente do "cemitério oficial", onde há túmulos imponentes. É como se fosse um espaço clandestino. Lugar de pessoa não-digna do espaço sagrado, portanto discriminada até que alguém tivesse piedade da alminha que porventura chorasse.
            Veja como as diferenças eram gritantes. Ao pagão não era reservado mais que uma cova fria, o curral de gado, uma encruzilhada ou a biqueira de uma casa. Mas ao mesmo tempo há uma lógica nisso tudo. A Igreja Católica, no momento que é implacável na regra de não aceitar o sepultamento de bebezinhos nos cemitérios oficiais, dá uma lição aos fiéis. É maneira de despertar-lhes o interesse pelo catolicismo, de reconhecer seus dogmas, enfim de buscar a salvação no batismo. Em outras palavras ela passa a mensagem de que, se um mero bebê recebia tratamento aparentemente tão rigoroso, a exigência para o adulto seria incomparavelmente maior. Isso levava os católicos a ter zelo pelas orientações da igreja, buscando uma vida mais regrada.
            O costume de enterrar pessoas fora do cemitério não se dava única e exclusivamente com bebezinhos indefesos. Ocorria também com pessoas poderosas, ricas ou influentes, mas, nesse caso a justificativa estava anos-luz uma da outra. O mérito estava na alçada do privilégio, da seletividade e da discriminação social. Os tais ricos eram sepultados dentro das próprias igrejas, ou seja, num local cuja dimensão do sagrado parecia incomparavelmente maior. É o caso do "Cavaleiro da Rosa", Iaiá Paiva e meia dúzia de gente importante, cujos ossos repousam nas grossas paredes de pedra da Matriz de Nossa Senhora do Ó, centro de Nísia Floresta. Sabe-se que num passado remoto, apenas reis e pessoas muito poderosas recebiam tal privilégio.
            Creio que o costume católico de enterrar gente importante dentro de igreja, que vigorou até meados do séc. XX era a maneira de garantir ao morto a certeza imediata do céu. Ao mesmo tempo parecia garantir aos parentes e amigos a certeza de que o morto estaria próximo deles. Na realidade tudo isso era uma manifestação clara de discriminação social ofuscada pelos mais esdrúxulos discursos.
            Quem chega ao cemitério urbano de Nísia Floresta, próximo à Igreja Matriz, encontra um antiquíssimo túmulo, justamente o primeiro à direita. Ali está enterrada muita gente antiga, inclusive uma prima legítima de minha mãe: Luzia Peixoto Maranhão (que morou no Engenho São Roque durante boa parte da vida). Nesse túmulo também foi enterrado um padre de Papari. (PESQUISAR NOME)
            Por que justamente um padre - falecido muitos anos antes de Yayá Paiva - ainda sob o calor da tradição, não foi sepultado dentro da Igreja Matriz? Isso é um caso a ser explicado.
            Mas, retomando o assunto, nota-se uma fusão religiosa, política e social para justificar tais sepultamentos, ou seja, enquanto o reino dos céus era garantido de imediato aos ricos e batizados - e até o privilégio de ser sepultado dentro da casa de Deus - o natimorto era condenado a um enterro sem qualquer vênia e num espaço mal merecedor de cerca.
            Segundo o historiador Luiz Lima Vailati (2010), a Igreja Católica determinou os locais onde se deveriam sepultar judeus, pagãos, homicidas, hereges, excomugados e suicidas, os quais jamais deveriam estar junto aos batizados.
            Morrer como “anjo”, ou seja, após o batismo, era talvez uma graça. Parecia garantir aos familiares a certeza de ter um "anjo" no céu olhando por eles. Isso justifica o esmero e os excessos durante o seu enterro. Para os "anjos" reservavam-se caixõezinhos brancos ou azuis da cor do céu, roupinhas brancas adornadas com rendas e fitas. As mãozinhas eram envolvidas num terço de cor clara e o rosto corado artificialmente por papel arrebique, uma espécie de papel crepom que soltava com facilidade a coloração vermelho/rosa. O ataúde era enfeitado com as mais belas e delicadas flores. Tais criancinhas eram conduzidas em andores que pertenciam à igreja, assim como o famoso "caixão da misericórdia", que existiu em Nísia Floresta até o final da década de 1970.
            Em 1853, no centro de Papari, hoje Nísia Floresta, houve o sepultamento de um "anjinho", filho do coronel Trajano, do Engenho Pavilhão. O evento parou a vila, pois o cortejo teve aspecto triunfal. O corpinho do morto foi enfeitado como o de um príncipe. A cadáver foi colocada de pé numa charola - uma espécie de andor. A procissão deslocou-se pelas principais ruas da vila, animadas por uma banda musical. O povo ficou perplexo e comentou por muitos anos o acontecimento. Sobre esse episódio há que se investigar as origens do velho Trajano, embora podemos supor que tal tradição tenha vindo de sua quase certa origem lusitana.
            Como já foi dito acima, por mais que o enterro de um anjo comovesse, havia uma espécie de júbilo, haja vista ser mais um no céu a olhar pelos que ficaram. Cascudo (1998) traz a seguinte acepção para anjo: anjinho, criança, cadáver de criança menor de cinco anos. O mesmo em Portugal (p.85). Mais adiante escreveu:

"... contou-me em Timbaúba o ex-deputado federal Jader de Andrade que, há tempos, naquela cidade, um negro apareceu, todo choroso. Queria inumar no cemitério público os despojos de um filhinho menor e pedia, para isso, os devidos esclarecimentos aos empregados do serviço funerário. Quando um destes indagou, pernóstico, de que morrera o cadáver, o pai, lacrimoso, apostrofou: 'cadave o quê, diabo! Tu chama meu filhinho de cadave só porque ele era preto e pobre. Se ele fosse filho de branco rico, tu chamava era de 'anjo', cabra sem vergonho!'(p. 85/6, apud Leonardo Mota - Violeiros do Norte, 255,256, S. Paulo, 1925).

            Nessa mesma acepção o mestre do folclore brasileiro continua:

"menino só é anjo e vai para o céu três dias depois de morto, e espera no limbo, mansão etérea e sombria, onde não há pena nem glória, pelo decorre desse tempo; e quando uma criancinha adormecida no seu berço está a sorrir, conversa, em sonhos, com outras criancinhas, como ela, que morreram pagãs" (p.86).

            O referido folclorista traz em seguida a versão do enterro de um "anjo" ocorrido na Argentina. Observe como o cortejo fúnebre é parecido com o fato ocorrido em Nísia Floresta. Observe como a criança foi enfeitada com riqueza de detalhes. E isso é óbvio, afinal tratava-se de um "anjo", conforme a tradição católica. Mas no caso do enterro dos hermanos, não posso garantir que o episódio de Nísia Floresta tenha sido regado à "água que passarinho não bebe". Vejamos:

Na Argentina, descreve Orestes di Lullo (El Folklore de Santiago del Estero, Tucúman, 1943): El velório del Angelito. - a la notícia del fallecimiento de un "angelito" niño de cierta edad -, la gente acude a la casa mortuária como a una fiesta. Se le hace a forma un "cielo" con sábanas, espécie de pálio, se adorna un ricón en colchas floreadas, flores naturales y artificiales, y sobre una mesa que colocan debajo de un palio, ponem el cadaver de la criatura al cual le adosan un par de alitas de papel para facilitarle el vuelo. Durante la noche beben, cantan e bailan. El padrino ou la madrina deben costear el baile porque si no los ángeles del cielo no lo recibirán con musica celestial. Al amanecer lo conducen al cementerio al son del bombo, guitarra y violín. Y la cañita pa'l camino que no falte" (70). 

            O sepultamento em cemitérios pagãos era um legado católico, o qual controlava as práticas de inumação. Ficava nítido que o cemitério oficial significava um local sagrado, onde só os batizados - ou seja, os cristãos - poderiam ser enterrados.
            Não existe uma literatura ampla sobre cemitérios de pagãos e detalhes sobre as tradições que os circundava. Câmara Cascudo (1998) debruçou-se sutilmente sobre o assunto, conforme citação acima. Mas o folclorista Alceu Maynard Araújo (2004) escreveu sobre os cemitérios pagãos no Nordeste brasileiro da década de 1960 com maiores detalhes.
            Ele explica que o hábito de sepultar os "pagãos" nas encruzilhadas, sob as biqueiras de residências e em lugares próximos de parentes, ocorria dessa forma para que, se a criança chorasse, alguém faria o batismo de imediato, salvando o pagão do eterno limbo. Segundo a crença, os "pagãos" poderiam chorar antes de completar sete anos e somente uma pessoa batizada poderia batizá-lo com água benta (Araújo, 2004, p.78).
            O fato de a encruzilhada também ser local de se enterrar "pagãos" acaba instigando reflexões, pois o próprio Cascudo (1998) escreveu:

Encruzilhada: Onde os caminhos se cruzam, quadrifurcus, quatrivium, lugar clássico de invocações e encantamentos para todos os povos. Local dos demônios, chamados pelo poder rogatório, e dos deuses noturnos, sinistros e misteriosos. Aí deixavam, gregos e romanos, oferendas a Hècate, viajando de noite, saudada pelo ulular dos cãos espavoridos. Aí depositavam dádivas aos espectros dos fantasmas, lêmures, almas dos corpos sem sufrágios e que se haviam tornado agressivas e malfazejas Lemuraria, Lustratio. Recanto dos bruxedos, reunião de feiticeiras, pouso do Diabo. Seis séculos antes de Cristo, o profeta Ezequiel, viu o rei da Babilônia consultar a sorte numa encruzilhada: Rex Babilonis in bivio, in capite duarun viarum, divinationem quaerens" (XXI 21). A feiticeira Genebra Pereira no Auto das Fadas (Gil VIcente, Lisboa, 1511), confessava: "Ando nas encruzilhadas/Às horas que as bem fadadas/Dormem sono repousado".Terreno constantemente trilhado, recomendam o lixo das encruzilhadas como elemento mágico, pela participação do contacto humano. A tradição foi trazida pela superstição portuguesa ao Brasil. Os indígenas não a possuiam e os escravos africanos já a encontraram, poderosa, no Novo Mundo (p.371).

            Tendo a encruzilhada toda essa significação, torna-se aparentemente confuso entender porque "pagãos" eram ali sepultados. A citação diz que nas encruzilhadas também eram depositadas as "almas dos corpos sem sufrágios". Embora tal assunto não seja objeto desse texto, acabamos constatando que há muitas informações equivocadas em literaturas do ramo. Há quem informe ter sido os africanos que trouxeram tal hábito para o Brasil onde faziam os seus famosos despachos de encruzilhada.
            A modernidade foi diluindo lentamente a tradição dos "cemitérios pagãos". E não é difícil entender como isso ocorreu. Antes da proclamação da república, ou seja, antes de 1889, a Igreja Católica estava fortemente atrelada ao Estado. O próprio Rio Grande do Norte é exemplo claro, pois os nossos primeiros políticos eram predominantemente padres e bispos. Essa condição traduzia exatamente um ranço monárquico, pois quase não havia distinção entre Estado e Igreja. O museu da Assembleia Legislativa do RN, criado recentemente, que o diga. Desse modo, os sacerdotes tinham uma aura real, muito diferente de hoje.
            A influência da Igreja Católica na sociedade era tão forte que, apesar da sua separação do Estado, há tantos anos, ainda se vê seus eventuais fragmentos. Em caráter de exemplo isolado, cito uma experiência que vivi recentemente. Durante a missa de encerramento da Festa da Padroeira do Natal/RN, em 2014, via-se em primeiro plano o prefeito Carlos Eduardo Alves numa espécie de palanque defronte à catedral. Ele  acenava para os fiéis, "roubando" as atenções. Ao seu lado estavam a sua esposa, o ministro Garibaldi, o senador Agripino, o deputado federal Felipe Maia e o deputado estadual Walter Alves. O celebrante Dom Jaime vinha em terceiro plano junto com o altar improvisado.
            Todos estavam em cadeiras estrategicamente perfiladas ao lado do altar. Via-se claramente que suas presenças eram apenas físicas, pois exceto nos "pais-nossos" e "saudemos uns aos outros", eles sequer balbuciavam qualquer coisa durante a celebração. Percebia-se - salvo engano - que tais políticos estavam ali mais por conveniência política, que pela fé e piedade. Não há como comparar a relação entre Igreja e Estado no passado com o presente, mas ainda se vê uma deferência da Igreja Católica (e de outras doutrinas, inclusive evangélicas) para com os políticos e pessoas que detém algum poder.
            A ruptura gradual entre Igreja Católica e Estado, provocada pelo regime republicano, gerou um olhar diferenciado - e de precaução - aos "cemitérios pagãos", provocando discussões sérias, inclusive por parte da Segurança Pública. O Estado passou a exercer controle rigoroso nos cemitérios e, automaticamente, nos enterros. Antes esse controle ocorria apenas com o cemitério oficial, pois os "pagãos" eram enterrados onde bem queriam - desde que em lugares relacionados às crendices já vistas acima. Não existia qualquer controle. Sequer eram apuradas a circunstâncias das mortes. Desse modo, nada garantia que tais cemitérios não fossem também local de sepultamento crianças abortadas, assassinadas pelos próprios pais, dentre outras práticas criminosas
            As novas políticas públicas para os cemitérios - vamos dizer assim - acabaram lapidando o pensamento dos sacerdotes, os quais passaram a recomendar que os "pagãos" fossem enterrados nos cemitérios oficiais. Enfim, "pagãos" e "anjinhos" ficaram juntos. Por incrível que pareça, houve resistência das famílias, as quais, diferentes de estarem mal intencionadas, queriam a garantia de ter seus "anjinhos" próximos de casa na esperança de ouvir o seu choro.
            Para elas o correto era respeitar as tradições e crendices - haja vista a aura de mistério que imputavam - e não as orientações de simples mortais. Mas tais pessoas não podiam desrespeitar as leis, pois estariam à margem da sociedade. Assim a tradição dos "cemitérios pagãos" foi se diluindo. Como justificar que de uma hora para a outra "pagãos" e "anjos" ficariam juntos? E a igreja? Como ficaria tal dogma? Ou não seria um dogma? Se não era um dogma era uma crendice? Seja o que for, igreja e povo tiveram que se adaptar às regras do Estado.
            Talvez o leitor pergunte: onde estão outros cemitérios pagãos de Nísia Floresta, já que essa tradição existiu nessa localidade?
            Não sei. Estou pesquisando e em outra ocasião retomarei o assunto.
            De acordo com idosos que entrevistei em 1992, existia no centro de Nísia Floresta um cemitério no lado sul da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Com o passar do tempo os nativos o deixaram de lado, as cruzes foram arrancadas e tudo se resumiu a um imenso espaço de barro batido. Algum tempo depois o local foi calçado e deu lugar à Praça dos Velhos, como é chamada.
            Certa vez eu estava na referida praça conversando com o Sr. Mauro "Piaba" (in memorian), um senhor muito querido, que adorava declamar poesias. De repente, num rompante, ele disse: "a gente tá em cima de um monte de osso". Perguntei-lhe detalhes, mas ele não sabia nada além dessa informação. Sua casa fica exatamente defronte ao extinto cemitério. Ou também sobre ele? Esse episódio deu-se em 1999, mas nunca pesquisei o assunto.
            Não é difícil levantar hipóteses sobre esse cemitério, pois o atual cemitério oficial que ainda funciona é antiquíssimo. Significa que existiam simultaneamente dois cemitérios no centro de Nísia Floresta. Por quê? O que foi extinto seria o "cemitério pagão"? Quem sabe?!
           Retomando sobre a extinção dessa tradição em Nísia Floresta - e creio que em todo o Brasil, salvas raras exceções - outros fatores nos ajudam a entender as mudanças desencadeadas pelo tempo, e que causaram tal decadência. Não me refiro à proibição de enterros fora dos cemitérios oficiais - até porque tal assunto é da alçada do Estado, refiro-me às crendices que foram se fortalecendo em torno essa prática e a devoção que permaneceu até hoje nos "cemitério pagãos", mesmo em ruínas. Percebe-se que muitos têm devoção sem sequer saber do que se trata. Isso mostra a força da tradição.
São muitas mudanças que foram ocorrendo na sociedade de modo geral. A própria igreja católica foi se despindo de uma série de rituais e costumes antigos. Após o Concílio Vaticano II, deixaram de celebrar a missa em latim, reduziram as imagens dentro das igrejas, aboliram o ouro em seus adornos, aboliram o uso de instrumentos musicais de sons leves e adotaram baterias e guitarras, reduziram o número de procissões, extinguiram o uso de paramentos ricamente adornados, uma ala de padres passou a se casar, houve divisões de ideologias dentro da própria igreja, inclusive fala-se que o "movimento carismático" da Igreja Católica é a ponte para a passagem de católicos para a doutrina evangélica.
            Na realidade a Igreja Católica deixou de ser aquele local onde o padre falava mil coisas em latim e os fiéis não entendiam nada, e passou a ser a igreja que os padres - com exceções obviamente - passaram a ter um discurso rebuscado e novamente distanciado do povão. Muito diferente da pregação direta, popular e apelativa dos pastores e outros líderes de outras denominações religiosas. Algumas, inclusive, priorizam uma pregação pautada no discurso da prosperidade e só falam em bens materiais. Certo ou errado, o número de evangélicos já é quase igual ao de católicos.
           Ao longo do tempo não apenas os hábitos religiosos sofreram mudanças. O comportamento da sociedade mudou. Raros são os filhos que pedem a benção aos pais e se benzem quando passam defronte a uma igreja ou cemitério. Boa parte dos que se autodenominam católicos, não sabem acompanhar com nitidez o ritual de uma missa. O Papai Noel tomou o lugar do Redentor.
            Muitas pessoas altamente dedicadas às coisas da igreja, ou seja, fiéis autênticos, não conseguem levar os próprios filhos a uma missa ou procissão. Isso também acontece com evangélicos, onde se percebe que alguns filhos vão ao culto forçados, talvez instigados pelos apelos das novas tecnologias e nos novos comportamentos sociais.
            As escolas mudaram, os professores mudaram, a educação mudou, as famílias mudaram, os meios de transporte nos surpreendem a cada dia, o imediatismo das informações, a mídia, a política etc.
            O advento da energia elétrica trouxe claridade aos povoados longínquos, anteriormente pautados de noites escuras que instigavam a imaginação. Os nativos estavam habituados à luz acanhada de lamparinas mal "alumiando" um palmo além do nariz, amedrontados por estórias de malassombros, lobisomens, fogo-batatão, mula sem cabeça e etc. Esse medo foi diminuindo gradativamente. As luzes fortes dos postes afugentaram tais “visagens”.
            O advento da televisão, da internet, do rádio, etc foi despertando outras visões (evoluídas?). Consequentemente vieram as novelas, os filmes, as novas culturas e costumes. As doutrinas evangélicas - com raras exceções - combatem veemente as crendices, manifestações folclóricas e afins. Hoje há quem tome um susto quando alguém fala sobre "cemitério pagão", inclusive muitos católicos. Perguntei a dez pessoas católicas de idades aproximadas de 30 anos, em quatro cidades da Região Metropolitana do Natal. Nenhuma soube responder.
           A Igreja Católica, hoje, parece mais interessada em esquecer alguns tipos de tradições - no caso as mundanas - em detrimento de uma visão mais sacra - ou bíblica. Como vimos, a própria legislação descarta o velho hábito católico dos "cemitérios pagãos". A criação de um cemitério exige uma série de critérios e licenças diversas. Não há espaço para pagãos, há espaços para todos. Ninguém fala mais nos pagãos depois que eles passaram a ser enterrados em cemitérios oficiais. É como não houvesse mais a tão visada diferença.
            A cada dia a mídia divulga bebês encontrados mortos após aborto ou por ter sido deixado em lagoas ou latas de lixo pelas próprias mães.
            A que categoria - de religiões e crendices - pertencem esses bebês?
            Mereceriam alguma deferência?
            Mereceriam orações?
            Parecemos muito ocupados para pensar sobre isso.


ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional III: ritos, saberes, linguagens, artes populares e técnicas tradicionais. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
CASCUDO, L. da Câmara. Dicionário do Folclore Brasileiro, Col. Terra Brasilis, 10ª ed. ed. Ediouro, 1998. RJ.
DICIONÁRIO HOUAISS. ed. Objetiva, Rio de Janeiro, 2004; 1ª reimpressão com alterações.
REZENDE, Angélica de. Nossos avós contavam e cantavam Ensaios folclóricos e tradições brasileiras, 2ª ed. Carneiro & Cia. Editores, Belo Horizonte, 1950.
VAILATI, Luiz Lima. A morte menina: Infância e morte infantil no Brasil dos oitocentos (Rio de Janeiro e São Paulo). São Paulo: Alameda, 2010.




quarta-feira, 18 de novembro de 2015

CEMITÉRIO DO CURURU - POLÍTICAS PÚBLICAS DE TURISMO COM A PARTICIPAÇÃO DOS NATIVOS


            No dia que estive no antigo povoado do Cururu, "Geto", o jovem senhor que me acompanhou, informou-me que dia desses um rapaz subiu com uma motocicleta a mesma vereda que nos servimos para chegar até o cemitério daquela localidade, situado no ponto mais alto de Campo de Santana.
            Ele narrou o episódio admirando a destreza do piloto, pois, como escrevi no texto anterior, o caminho é muito íngreme e permeado de cajueiros, obstáculos quase intransponíveis por uma pessoa a pé, imagine uma moto.
            "Geto", que é agricultor e trabalha na localidade, disse que eventualmente ouve o ronco dos motores em outros pontos de dunas, assinalando a presença de praticantes de esportes. O objetivo deste texto é exatamente provocar reflexões sobre o trânsito de veículos nessa localidade.
            É muito importante o incentivo às práticas esportivas, mas, mais importante é construir previamente políticas públicas no âmbito das secretarias municipais de esporte, turismo e meio ambiente locais. E, principal: os moradores de Campo de Santana devem ser chamados a participar de tal projeto. Se isso “virar moda”, as consequências negativas virão logo em seguida.

            Observei que boa parte dos nativos, por serem pessoas simples - comporta-se com muita ingenuidade quando veem veículos transitando nas dunas (embora não seja regra, pois "Geto" manifestou preocupação). Essa ingenuidade é preocupante, pois os nativos ficam olhando os motoqueiros ou os motoristas de "bugues" com uma espécie de contemplação. Há passividade. Ninguém os aborda para, educadamente dizer que não é adequado percorrer aquela área com qualquer tipo de veículo. Assim faziam, em 1500, os povos indígenas quando os europeus apareceram por aqui saqueando tudo. A presença desses "seres extraterrestres" parece promover um espetáculo para quem está habituado apenas a ouvir o canto dos pássaros e o farfalhar das palhas de coqueiro.
            Precisamos reconhecer que é inviável promover o sobe e desce nessas dunas sem amenizar a sua depredação. Só as pisadas humanas já são o bastante para forçar a descida de suas areias, imagine de motos e, pior, de veículos "bugues". Foi por esse motivo que, em Natal, proibiram esse tipo de trânsito nas areias desse belo ponto turístico.
            Na realidade falta um projeto de turismo para o local. Desse modo os nativos seriam despertados a interagir com os turistas e corrigir situações de desrespeito às regras de conservação do local. Haveria mais legitimidade na abordagem. A ingenuidade dos seus habitantes é até compreensível, pois os mesmos não foram despertados para isso. A partir do momento que existir algo bem elaborado, cria-se o respeito. O olhar do turista (e do nativo ingênuo) muda.
            Não sou especialista, mas na minha insignificante opinião deveria-se fazer uma escadaria rústica - com troncos de coqueiros colocados horizontalmente, fazendo as vezes de escadaria. Para isso, bastaria-se podar as ramagens finas dos cajueiros, sem cortar seus galhos grossos, permitindo a subida apenas de pessoas. Quem chegasse com motos, estacionaria para ter acesso ao cemitério.
            Desde que o homem surgiu no planeta Terra usa de técnica parecida para plantar suas roças sem sofrem erosões e - obviamente - para subir as regiões montanhosas. Todas permanecem intactas até o presente. No caso eles faziam uma espécie de muros de pedra ao longo da área, numa sucessão interminável, até chegar a sua base.

            Quando eu caminhava no sopé da duna onde está fincado o cemitério, passei por uma porteira, à esquerda, já chegando à referida vereda. Vi uma cena esdrúxula. A cancela traz uma placa com a seguinte informação: "Preserve a natureza".
            Poderia não ser esquisito se dentro desse terreno não houvesse uma cratera imensa cavada na base de uma duna. Dela saíram algumas carrocerias cheias de areia para alguma obra. Só espero que tal absurdo não seja uma iniciativa do poder público local - não é possível! Tanto lugar para retirar areia e escolher logo a base de uma duna. Pior: num lugar paradisíaco.
Detalhe da antiga Capela do Cururu
            Só para raciocinarmos melhor: observe que o cemitério do Cururu é murado. Isso reforçou ainda mais a integridade do local, pois impede que a ação do vento arrie aos poucos as suas areias, fragilizando os túmulos. Há - logicamente - a barreira natural formada pela vegetação nativa, que "freia" o vento, mas o muro reforça a preservação do local.
            O leitor cuidadoso poderá pensar que estou sendo contraditório, pois no texto que escrevi sobre o Cemitério do Cururu, externei a minha revolta com o estado de abandono do local, no qual se encontram belos túmulos. Mas estado crítico. Um deles, inclusive, tombou quase inteiro.

            O estado caótico dos túmulos que restaram decorre da própria antiguidade. São peças esquecidas no tempo, como se nem parentes restassem para o devido zelo. O reboco de dois deles se desprendeu totalmente. Jaz seu esqueleto de tijolões. Vê-se um leve deslizamento da areia do alicerce, mas nada que um breve reparo não resolva. Um dos mais bonitos foi literalmente empurrado por um cajueiro nativo que invadiu a área com a intenção de retomar o local.
            Curiosamente veem-se muitos túmulos com suas cruzes quase soterradas pelas areias. Esse fenômeno ocorre apenas com os que são desprovidos de alguma construção de alvenaria sobre eles, como mostram as fotos. Nesse caso a ação do vento, ao invés de varrer as areias, avoluma-se mais.

            Finalizando, fica este texto como um convite para que Nísia Floresta tenha olhos civilizados para esse tesouro de valor incalculável. Quiçá o poder público local destine parte do seu portentoso IPTU para um projeto de turismo, junto à secretaria específica e coligadas, como às de educação, cultura e meio ambiente. Com certeza não faltará apoio do MINC.
            O povoado do Cururu precisa de uma estrutura adequada para acolher o turista. Nela devem existir ambientes de gastronomia (limitado, pois se abrir para todos vira bagunça), banheiros limpos e confortáveis, lojinhas para venda de artesanato, comidas e bebidas típicas. O acesso deve ser melhorado com o mínimo de dano possível. 
Minha mão virou 'mão de criança'. Usei-a para que o leitor percebesse o tamanho incomum do tijolo, digno se ser estudado.
Tudo deve ser bem sinalizado a partir da pista de entrada de Campo de Santana. Toda a área deve ser servida de lixeiras e serviço regular de coleta. Somado a isso o turista deve contar com guias de turismo muito bem capacitados, guias turísticos e guardas para possíveis intervenções. As instituições de educação tem papel fundamental na construção de um olhar civilizado para esse e outros espaços locais. Essa tarefa pertence ao poder público.
"Geto", o jovem senhor que gentilmente me acompanhou.
            Em primeiro lugar o povo nisiaflorestense precisa conhecer (e reconhecer) o cemitério do Cururu e as ruínas da velha capela como um monumento de história e memória. Na realidade toda essa área é um complexo turístico formidável, pois está emoldurada por um cenário natural de rara beleza. Um bom projeto turístico deve ser elaborado. Depois disso, que o lugar seja de livre acesso aos turistas e a quem quer que seja. Ficar como está é prejuízo para a história e a economia local.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

O CEMITÉRIO DO CURURU - Retalhos da História de Nísia Floresta


Um dos túmulos engolidos pelos cajueiros, os quais reivindicam a propriedade.

         Como sabemos, o povoado do Cururu é muito antigo. Há quem suponha remontar à época do surgimento do centro de Papari. Infelizmente, restam apenas os alicerces das poucas casas de alvenaria ali edificadas e as ruínas de uma capela, haja vista a famosa “cheia de 74”. Mas o seu velho cemitério, plantado na duna mais alta da região, resiste ao tempo, revelando uma antiguidade surpreendente. OBS. Sobre a história do povoado Cururu o leitor encontra maiores detalhes nesse mesmo blog, em postagens antigas.
         Na realidade o que me move a escrever sobre esse lugar - no momento - é mais a preocupação com o seu processo de ruína do que o necessário enveredamento por sua história. Nem por isso ela estará totalmente ausente. 
Tenho anotações colhidas em 1993, com antigos moradores, as quais ficarão para futuros textos, pois abordam o referido povoado de forma abrangente. O presente texto promete apenas instigar reflexões sobre esse detalhe da história do município de Nísia Floresta, despertando interesse e zelo por seu patrimônio, atitude esta que cabe às autoridades em primeiro lugar e ao povo.
         Os nisiaflorestenses, principalmente os professores, estudantes e em especial as instituições que trabalham com cultura e turismo, devem conhecer e reconhecer os seus espaços de história e memória. Todos devem se dar conta que a história pertence a todos, e esse pertencimento prediz zelo, garantindo às futuras gerações o usufruto de seus bens. Ignorá-los ou negá-los significa endossar o seu depredamento.
         Ontem, 15.11.15, conversando com Daniela Calixto, proprietária de uma escola de balé neste município - e que encontra-se montando um espetáculo de balé com a temática voltada para o personagem Nísia Floresta e o município - ela disse-me que buscou todas as informações que precisava no meu blog, numa sucessão de textos que escrevi sobre o Cururu, pois com exceção ao que escrevi, não há mais nada na internet que aborde o tema.
         É justamente esse o objetivo daquele e de outros textos, ou seja, informar, despertar o interesse das pessoas e servir como fonte de pesquisa e reflexão para professores e alunos.
         Mas continuando o assunto. Tendo ido ontem ao Cururu, ciceroneado por "Geto" (leia-se com acento no 'e') um nativo de 44 anos, enveredei-me por um caminho emoldurado de mata nativa, cujos cajueiros predominam. Seus galhos serpenteiam rastejantes sobre uma sucessão de dunas. Ora se equilibram altos e tortuosos, e por vezes servem de corrimão para vencer a subida íngreme.
         O chão de areia branca e fofa, qual uma "farofa" alvinegra de folhas e galhos apodrecidos - triturados - engole os pés do caminhante. As matas que ladeiam a vereda guardam túneis de garrancheiras quase intransponíveis, cuja luz do sol, mal consegue se penetrar. Vê-se nelas um tapete intocado, dourado de folhas novas, recém-caídas. Vez por outra vê-se moitas de abacaxis silvestres.
         O cemitério jaz no ponto mais alto da região de Campo de Santana (nome atual do lugar), permitindo um raio de visão cuja linha do horizonte é o limite. Nada lembra as mãos do homem. Não há casas nem construção alguma que macule o espetáculo natural.
Na realidade o cemitério é um mirante fincado num cenário paradisíaco. São sucessões de paisagens que se desencadeiam ao longo de um giro de 360 graus. Cada ponto, cada detalhe é mais belo que o outro. Não há como não se sentir numa tela pintada com maestria. É indescritível. Impossível transformar em palavras o que se vê e sente nesse lugar.
         Desse pino, desenrola-se um tapete infindável e verdejante de mata nativa, revestindo os contornos das dunas. Ora se destaca uma nuança mais forte ou mais clara desse tom, revelando as árvores mais altas ou uma clareira natural, branca como neve, assinalando uma duna.
         É nesse ponto alto que por séculos a fio foram sepultados os corpos dos mortos do Cururu. A subida é cansativa. Imagine um cortejo durante um enterro, ou mesmo o dia de finados. Supostamente os idosos chegavam ali "esbaforidos".
         Todo o encantamento com essa visão panorâmica se resume única e exclusivamente à paisagem que se perde de vista. Quando o observador mais apurado volta-se para um palmo além do nariz tem vontade de chorar. A visão é desoladora. O processo de ruína do cemitério é quase irreversível se não houver uma ação imediata. E foi durante essa observação que o cemitério de Cururu conversou comigo. Pediu socorro. Vejam só! Um cemitério pedir socorro, mas foi isso o que ocorreu.
         Fiquei perplexo quando vi três túmulos centenários, de arquiteturas singulares (únicos que sobraram) em estado caótico. Os cajueiros reivindicam a sua propriedade, invadindo-a. Suas galhadas serpenteiam o velho muro, entrelaçando-se com a alvenaria dos túmulos. Sua força pode até ser silenciosa, mas é descomunal.
Um dos mais belos e resistentes jazigos foi derrubado e já se encontra sufocado por suas galhadas robustas, que lembram gigantescas serpentes ou braços hercúleos. A leitura que fiz é que não restaram nem parentes desses mortos, pois se fosse diferente, não estariam à mercê da depredação natural.
Os túmulos que resistem, localizados no centro do “campo santo”, embora cambaleantes, revelam os seus alicerces, haja vista que a ação do tempo cavoucou suas bases. Dá-se a impressão de que não demorará a sua ruína derradeira. Há relatos de que velhas cruzes de metal, feitas com riqueza de detalhes, foram levadas por pessoas estranhas que passaram por ali, “desbravando” a região com seus motores possantes.
         "Geto" contou-me que, embora o cemitério encontra-se quase abandonado, alguns moradores ainda o visitam para prestar culto aos mortos. Mesmo após a “cheia de 1974” alguns nativos não deixaram de fazer sepultamentos ali. Só mesmo nos anos 80 é que os moradores de Campo de Santana foram percebendo que o cemitério novo lhes pertencia realmente. A distância e a dificuldade de acesso parece ter-lhes ajudado nessa escolha.
É possível constatar as palavras do cicerone lendo as inscrições em baixo relevo, gravadas nas cruzes de cimento, fincadas ao chão. Algumas datam mortes em 1976, ou seja, dois anos após a “cheia”. Restam também algumas placas de alumínio com informações típicas de um túmulo: nome completo, datas de nascimento e morte.
         O fato de ter sido construído em lugar tão alto tem uma explicação óbvia e que nos remete a uma concepção cristã e mística ao mesmo tempo. Quem está no sopé do Cururu - há trezentos metros mais ou menos, exatamente na estradinha próxima ao bueiro - e olha com bastante atenção para o seu cume, em direção ao sul, vê as ponteiras de dois túmulos mais altos, destoando da paisagem natural por sua coloração escura.
Esses túmulos por vezes parecem tocar as nuvens. Não é difícil supor ter sido intenção dos antepassados deixar os seus mortos em contato direto com o céu. Creio que essa impressão acalentava-os diante do sofrimento com a perda de um ente querido.
         Ao mesmo tempo subir tão alto, carregando um morto numa rede (parece) dar foros de penitência. É como se a caminhada cansativa e pesarosa fosse o sinal de retribuição ao pai, a mãe, e aos avós por tudo o que eles fizeram por quem ficou. Levá-los ao ponto mais alto da localidade - para a derradeira morada - era a oportunidade de rezar e repensar sobre a sua relação com o morto.
O ato consistia na oportunidade de agradecer a Deus e pedir que Ele recebesse seus mortos no Paraíso. Quem participava dessa “via crucis” sabia que um dia percorreria aquela mesma vereda, não mais conduzindo a rede, mas levado nela. E assim, fazendo jus à única certeza que se tem nessa vida, as coisas se seguiam numa sucessão interminável.
         Seja como for, sepultar um morto no Cururu de antigamente era experimentar uma indescritível comunhão com Deus. A aura do lugar pareceu oportunizar um momento singular de oração. Penso na sensação final de um enterro ao pôr do sol, tendo o morto descido os "sete palmos". Não dá para descrever. É muito forte e misterioso. A tarde de brisa agradável, pincelada pela tonalidade dourada do sol já desmaiando, certamente instigava a contrição dos participantes do féretro.
         Para quem sabe exatamente o que significa a morte, creio que o curso da descida desse pináculo ocasionava uma sensação de leveza incomum. Por vezes pensariam estar levitando até sentir o sopé da duna. Creio que nesse momento se davam conta de que a vida continuava no velho Cururu.
         A construção de um cemitério num lugar tão alto, ou melhor, no local mais alto do Cururu nos convida também a outras reflexões. Teria sido pelo temor de uma enchente? Se sim, poderíamos supor que os nativos profetizaram a cheia de 74, a qual colocou todo mundo para correr dali e nunca mais voltar. Existiriam profetas entre os habitantes do velho povoado?
         Contou-me um senhor, em 1993, que Cururu "encheu do dia pra noite". Se os nativos não tivessem sido espertos e rápidos teriam se afogado, pois a água cobriu as casas. Tudo ocorreu muito rápido. Foi uma sucessão de "estouro" de barragens quilômetros acima. Os que tinham canoas se serviram delas imediatamente, mas os que não as possuíam, correram para o alto. Ninguém morreu.
         Mas deixando a brincadeira dos profetas de lado. Levemos isso para uma reflexão racional. As pessoas mais antigas olham para a vida e a natureza de maneira destoante da nossa. Embora muitas vezes recebam o deboche dos mais novos, são muito sábias, observadoras. Elas tinham consciência que Cururu estava numa "bacia", numa depressão (geologicamente falando). Sabiam da existência de muita água "lá para cima, represada" e que, mesmo uma chuva muito forte, independente de represas estourando, poderia ser inundada.
         "Geto" contou-me que por anos a fio as estradas e veredas que ligavam o Cururu às partes mais altas - para onde as pessoas transitavam até o centro de Papari ou até mesmo em direção a Natal - ficavam submersas, e o deslocamento das pessoas era feito em canoas. Fazia parte da trajetória do povoado ficar ilhada.
         Desse modo, construir um cemitério num local tão alto e de difícil acesso, dava a certeza de que jamais as águas chegariam ali. Do contrário estariam diante de um novo dilúvio, pois haja água para cobri-lo.
         Mas é público e notório que a construção de um cemitério na "divisa com o céu", dava-lhes a certeza de que jamais as águas, seja das chuvas normais, das enchentes ou possíveis arrebentamentos de represas, o inundaria. Como tudo era feito sobre dunas, uma enchente destruiria os túmulos facilmente. Por esse motivo eu brinquei com o Sr. “Geto”, dizendo-lhe que "na cheia de 74, no Cururu, só restaram os mortos".
         Um cemitério não pertence apenas a um município, e, de certo modo, nem os próprios túmulos são propriedades exclusivas de seus donos. Cemitérios pertencem a todos nós e seus túmulos também, principalmente quando se tornam históricos.
A partir do momento que um bem passa a ter uma significação sentimental, estimativa, histórica, mitológica, lendária etc., automaticamente passa a constituir em patrimônio de todos – e deve ser preservado - portanto o cemitério de Cururu pertence a todos, inclusive a você.
O que teriam a dizer as autoridades?