ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que passeiam levemente por essas águas. Os textos são de autoria de Luis Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. Esse parentesco corre pela parte da mãe do autor, Maria José Gomes Peixoto Freire, cujas informações estão no livro "Os Trocos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti. O referido livro desenrola o novelo genealógico das famílias originárias de Goianinha, município próximo, de onde originou-se a família de Nísia Floresta, e pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui inúmeros trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de crônicas, artigos, fotos poemas, etc. O autor ministra palestras e pode ser convidado através do e-mail: brasilcentauro@yahoo.com.br. É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA.

sexta-feira, 24 de julho de 2015


ESTAÇÃO FERROVIÁRIA "PAPARY"

“THE GREAT WESTERN OF BRAZIL RAILWAY COMPANY LIMITED”

OS BASTIDORES

DA HISTÓRIA

Por muitos anos essa locomotiva atravessou as terras nisiaflorestenses e mipibuenses entre Natal Nova Cruz e depois  o estado da Paraíba. (Créd. L.A.C.)

 

Abeleza da Estação "PAPARY" chama a atenção de quem passa


LUÍS CARLOS FREIRE
Nísia Floresta – RN –  Trabalho escrito entre 2003/2010

DEDICATÓRIA


Este trabalho é dedicado à memória de Nilvan, pescador de verdade, que morreu abandonado numa canoa na lagoa Papari. 

INTRODUÇÃO


     Em 2003 veiculou-se no programa “Conversando com José Maria, da FM Executivo, 87,9 - emissora de rádio comunitária de Nísia Floresta - discussões sobre o prédio da Estação "PAPARY". Questionavam se o mesmo pertencia a esse município ou a São José de Mipibu. Houve um burburinho e diversos ouvintes telefonaram para o programa para externar suas opiniões.
    Diversos professores e alunos indagavam-me sobre o caso, tendo em vista pesquisas que desenvolvo ao longo de vinte anos sobre a intelectual Nísia Floresta e o município homônimo - experiência esta que naturalmente acaba me envolvendo com a história de São José de Mipibu e região. É impossível pesquisar sem contextualizar. Quem pesquisa sabe que durante as "garimpagens" se depara com materiais que nem sempre é o seu objeto de interesse, mas que vale a pena colecioná-los.
    No dia 19 de agosto de 1996 fui procurado por um jornalista do Diário de Natal.O objetivo era fazer uma reportagem sobre o assunto. Eu havia reunido um interessante acervo, tendo realizado pesquisas na Superintendência da Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA), em Recife, no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, em Natal, no Arquivo Público do Natal, na biblioteca particular do Dr. Protásio de Melo, Enélio Petrovich e nos livros integrantes da minha própria biblioteca. Forneci as informações necessárias ao jornalista, mas a reportagem nunca foi publicada e o assunto dissipou-se.
    Infelizmente não foi prática comum ao município de Nísia Floresta conservar documentos antigos, livros, fotos, papéis avulsos, jornais et. Não existem nativos que tenham realizado trabalhos de história oral nas últimas décadas. Somado a isso lastimemos sobre o acervo da Prefeitura Municipal de Nísia Floresta, incinerado na década de 1960, alegando-se tratar-se de "papéis velhos", e sua quase completa destruição entre 2003 e 2004, quando esfacelaram o arquivo e, como se não bastasse, uma infiltração destruiu documentos do final do século XVIII e XIX. Essa última teve os meus olhos como testemunha. Tais fatos fizeram com que eu - e inúmeros pesquisadores, inclusive o renomado Dr. Erich Geimeinder - encontrasse um grau maior de dificuldade na busca de elucidação de lacunas históricas. Este senhor pesquisava Antonio de Sousa.

    Também pesquisei nos arquivos da Igreja Matriz de Santana e São Joaquim e no Cartório de São José de Mipibu - entre 1993 a 1998 - embora assuntos de outra natureza. Neles deparei-me com livros manuscritos e jornais que eram verdadeiros tesouros, mas, no que se refere à igreja, voltei no local algum tempo depois e já não existiam vários deles. É certo que alguns estavam deteriorados, mas jamais deveriam ter sido descartados. Recordo-me que ainda levei o assunto ao departamento de História da UFRN - no LABRE, tendo falado com a coordenadora do curso sobre a preciosidade dos acervos de ambos os municípios e sua fragilidade. Muito tempo depois um grupo de estagiários dessa instituição veio fazer uma espécie de levantamento, limpeza e restauração dessas peças, mas Nísia Floresta nunca os recebeu.

    A presente pesquisa, disponibilizada no meu blog "nisiaflorestaporluiscarlosfreire" - desde 2009 - que, inclusive foi publicada no Jornal O Alerta, a pedido do seu diretor, contém informações raras, garimpadas ao longo dos meus estudos sobre Nísia Floresta. Também inseri material que foi fruto de História Oral, iniciado em 1993, no qual entrevistei pessoas de mais de 80 anos - muitas hoje falecidas. Esse pequeno opúsculo em nenhum momento pretende esgotar o assunto. Pelo contrário, é apenas uma breve contribuição à História, a qual deve ser ampliada por quem queira.



O INÍCIO 


    Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, e depois visconde, foi o responsável pela construção da primeira ferrovia brasileira através de uma concessão dada pelo príncipe regente D. Pedro II. A ferrovia era conhecida por Estrada de Ferro Petrópolis ou Estrada de Ferro Mauá. A estação ferroviária localizada no Centro do Rio de Janeiro hoje leva o nome de Barão de Mauá.
    A primeira viagem de um trem em terras brasileiras deu-se no dia 30 de abril de 1854, puxado pela famosa locomotiva "Baronesa". O veículo percorreu a distância de 14 Km entre o Porto de Estrela, situado ao fundo da Baía da Guanabara e a localidade de Raiz da Serra, em direção à cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro.  
    Se compararmos a velocidade como o progresso - em suas diversas nuanças - ocorria no Brasil, podemos afirmar que a Província do Rio Grande do Norte não ficou tão atrasada com relação a construção de ferrovias. Até porque muitas outras províncias foram receber esse moderníssimo meio de transporte - à época - muito tempo depois dos potiguares. Sabemos que os ingleses, autores dos primeiros modelos de locomotivas, foram os responsáveis por sua instalação principalmente no Nordeste do Brasil, o que explica a suntuosidade inglesa vista na Estação "PAPARY" e a empresa construtora denominada “THE GREAT WESTERN OF BRAZIL RAILWAY COMPANY LIMITED". A semente burocrática desse empreendimento foi lançada no solo potiguar em 1873, ou seja, dezenove anos após a "Baronesa", como veremos abaixo.
    A ferrovia que passa pela Estação “PAPARY” teve sua história iniciada no dia 1º de outubro de 1878, data em que começaram as obras. O Presidente da Província do Rio Grande do Norte, João Capistrano Bandeira de Melo Filho autorizado pela Lei Provincial nº 682, de 8 de agosto de 1873, mandou contratar uma empresa para construir uma ferrovia que sairia da Província de Natal com destino a Vila de Nova Cruz.
    O Presidente da Província abriu concorrência de prazo suficiente para a apresentação de propostas. A partir de 1873 foram promulgados vários decretos; ocorreram várias prorrogações e muitos aditivos, se demorando sete anos para a sua inauguração.
    A Lei Provincial nº 682, de 8 de agosto de 1873 concedia os direitos e a de 2 de julho de 1874 assinava-se o contrato com Cícero de Pontes, Luiz Pedro Drago, José de Sá Bezerra e Francisco Manuel da Cunha Júnior. A Estrada teve a garantia de juros de 7% sobre o capital máximo de 6.000:000$ pela Lei Imperial nº 2.450, de 24 de setembro de 1873, e Decreto 5.977, de 20 de fevereiro de 1875, referendado pelo Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, sendo conselheiro José Fernandes da Costa Pereira Júnior.
    Curiosamente, a primeira notícia sobre o assunto ocorreu no Correio do Norte, órgão do Partido Conservador, publicado no Rio de Janeiro, aos 12 de dezembro de 1877, sob a direção do padre João Manuel de Carvalho, dedicado aos interesses do Rio Grande do Norte, cujo texto segue abaixo, ipsis literis: “Estrada de Ferro do Natal a Nova Cruz – Por Decreto nº 6.614, de 4 de julho deste ano (1877), foram aprovados os Estatutos da Companhia da Estrada de Ferro do Natal a Nova Cruz, devidamente organizada em Londres, autorizando-a a funcionar no Brasil. Este ato do Governo Imperial vem confirmar a convicção em que nos achamos de que ninguém se revela mais sincero do que ele no empenho de favorecer essas empresas, que devem trazer o engrandecimento e prosperidade ao país. A Província do Rio Grande do Norte é testemunha dos esforços que os concessionários dessa estrada têm empregado para torná-la uma feliz realidade. “Na província se acha uma comissão de engenheiros ingleses que vieram de Londres com o único fim, de procederem os estudos definitivos que já devem estar em via de conclusão”.
    A 20 de outubro e a 6 de novembro de 1877 o Presidente Nicolau Tolentino de Carvalho concedeu prorrogação e modificações contratuais. Os contratantes eram os mesmos, exceto José de Sá Bezerra e Luiz Pedro Drago que tinham vendido sua parte ao padre João Manuel de Carvalho e a Manuel Pedro Drago.
    Outros decretos alteravam disposições e fixavam em 5496:052$544 o capital garantido e davam prazo de cinco anos para a conclusão das obras. Finalmente outro decreto imperial (“nº 7.084, de 16 de novembro de 1878) autoriza a transferência do primitivo privilégio à IMPERIAL BRAZILIAN NATAL AND NOVA CRUZ RAILWAY COMPANY LIMITED”.
    No dia 1º de outubro de 1878, o engenheiro inglês Jason Rigby fez o serviço inicial no lugar denominado “Nau Refoles”, conforme registrou o vice-presidente Bezerra Montenegro.
    Em 1880 o Presidente Rodrigo Lobato Marcondes Machado inaugurou os trabalhos e o primeiro deslocamento da locomotiva sobre os trilhos. À ocasião houve uma grande festividade que contou com diversas autoridades civis, militares e eclesiásticas do Estado, além de inúmeros ingleses, aclamados por uma multidão.
    No dia 28 de setembro de 1881 foi inaugurado o primeiro trecho, passando pelas Estações Pitimbu (12 Km), Cajupiranga (12,140Km), São José de Mipibu (37,850 Km) e “PAPARY” (48,800Km).
    Como podemos perceber, o trecho inicial compreendia três estações, inclusive a de São José de Mipibu. Esse assunto trataremos mais adiante. O segundo trecho foi entregue ao público no dia 31 de outubro de 1882, compreendendo a Estação “PAPARY” a Lagoa de Montanhas, com as estações de Sapé, Trairi (45, 150Km de Natal), Baldun (52, 920Km), Estivas (60Km), Goianninha (63, 500Km), Penha (80, 300 Km), Piquiri (86, 700 km), Curimataú (Pedro velho: 92 Km) e Lagoa de Montanhas (101, 800 Km).
    O terceiro trecho a ser inaugurado foi da Lagoa de Montanhas a Nova Cruz, no dia 10 de abril de 1883, numa extensão de 18, 800 Km. De natal a Nova Cruz contavam 120,600 Km. O preço por 1 km de linha construída, entre 1881 a 1883 era de 43:421$920.
    No dia 6 de agosto de 1901 a “GREAT WESTERN OF BRAZIL RAILWAY COMPANY LIMITED” arrendou várias ferrovias, entre elas a “NATAL AND NOVA CRUZ”. No contrato estava implícito a construção do trecho entre Nova Cruz, no estado do Rio Grande do Norte, a Independência (Conde d’Eu antigo: Guarabira), no estado da Paraíba, que era o ponto terminal, compreendendo uma distância de 50 Km, pago em títulos de 4% valor nominal da libra 170.000. A “GREAT WESTERN OF BRAZIL RAILWAY COMPANY LIMITED” construiu o trecho inaugurando-o no dia 1º de janeiro de 1904. Esse contrato foi revisto a 28 de julho de 1907.
          Até a década de trinta a Estação "PAPARY" era a mais movimentada do Rio Grande do Norte no desembarque de açucar. O Decreto-Lei nº 1.475, de 3 de agosto de 1939, ordenou a encampação da “GREAT WESTERN OF BRAZIL RAILWAY COMPANY LIMITED” (1901-1939) no trecho norte-riograndense, sendo entregue à ESTRADA DE FERRO CENTRAL DO RIO GRANDE DO NORTE, em 5 de novembro do mesmo ano.
    Ao ser entregue à ESTRADA DE FERRO CENTRAL DO RIO GRANDE DO NORTE, a Estação “PAPARY” foi transformada em um posto de abastecimento de locomotivas. Com o advento das máquinas a diesel, a mesma foi desativada como posto de abastecimento, passando então a licenciar trens de passageiros e de transportes de cana-de-açúcar, para a Usina Estiva.
    A Lei nº 1.155, de 12 de junho de 1950 mudou seu nome para ESTRADA DE FERRO SAMPAIO CORREIA, permanecendo até 1957, ocasião em que foi criada a REDE FERROVIÁRIA FEDERAL SOCIEDADEANÔNIMA - RFFSA, exatamente no dia16 de março de 1957, através da Lei n.º 3.115. A RFFSA tinha como finalidade administrar, explorar, conservar, reequipar, ampliar e melhorar o tráfego das estradas de ferro da União a ela incorporadas, servindo as regiões Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste e Sul, inclusive atravessou o país. Aos de 7 de dezembro de 1999, por intermédio do Decreto n. 3.277, o Governo Federal dissolveu, liquidou e extinguiu a Rede Ferroviária Federal S.A. - RFFSA, baseado na Resolução n.º 12, de 11 de novembro de 1999 do Conselho Nacional de Desestatização.
    A Estação “PAPARY” foi utilizada durante muitos anos como posto telegráfico, de onde comunicava-se com Natal, Nova Cruz, Goianinha e Canguaretama. De 1976 a 1981 funcionou também o desembarque de açúcar, tendo encerrado o transporte de passageiros em meado de 1976.
    Em 1981 foi totalmente desativada. O prédio, em desuso, foi invadido por uma família humilde que ali residiu até 1994. 


CARACTERÍSTICAS ARQUITETÔNICAS E TOMBAMENTO


    A Estação “PAPARI”, pela suntuosidade, sempre mereceu destaque. Trata-se de uma edificação majestosa, de inspiração neoclássica, construída em alvenaria de grandes tijolos. Apresenta partido de planta retangular, desenvolvido em um único pavimento.
    A fachada principal do prédio, emoldurada por cunhais e cornija, foi concebida simetricamente. Apresenta frontão triangular com um óculo central vazado, com função decorativa. Possui duas portas centrais ladeadas por outras duas mais estreitas e duas janelas, as quais imitam as portas dos trens. Todas as esquadrias são de madeira, com bandeiras fixas, e estão assentadas em vãos de arcos ogivais.
    O prédio apresenta cobertura de quatro águas, arrematada por platibanda inspirada nos castelos medievais. Internamente o edifício sofreu algumas modificações, como a construção de paredes divisórias, a substituição do piso original por ladrilhos hidráulicos e a instalação de uma marquise (espécie de mão-francesa). Sobre esse último detalhe o arquiteto Paulo Heider Feijó fez uma denúncia junto ao Ministério Público de Nísia Floresta, alegando que originalmente o prédio não possuia tal detalhe. Na realidade o prefeito de Nísia Floresta, na ocasião, tinha outro objetivo sobre esse anexo, como veremos adiante. Houve polêmica, pois outras pessoas diziam o contrário.
O ALERTA divulgou a polêmica sobre a marquise

        Sua estrutura é marcada por elementos simbólicos da arquitetura antiga como o frontão e a simetria. Possui uma simbologia gótica nos arcos e envasaduras, cujo cimo é completado por uma sequência de redentados que forma o retângulo de toda a estrutura. Complementando essa plástica despontam suas amélias e cunhais lembrando os pontos de vigia dos castelos medievais.  

     No lado oeste da Estação “PAPARY” está instalada uma imensa “caixa d’água”, de ferro, a qual servia de reservatório para abastecimento das locomotivas a vapor. Em sua base lê-se “Ransomes & Rapier London”, empresa inglesa construtora de locomotivas e assessórios para estações ferroviárias como também a maior parte dos giradores de locomotivas. A localização dessa caixa d'água junto aos trilhos, facilitava abastecer a locomotiva no início ou no final das manobras para o retorno do trem. Atualmente a Estação “PAPARY” é tombada pelo Patrimônio Histórico Estadual, desde 6 de dezembro de 1984.



SIMBOLOGIA DO PRÉDIO

    O prédio onde funcionou a Estação "PAPARY" trata-se de uma das raras edificações ferroviárias que conservaram suas características originais. Essa edificação possui grande importância e simbologia, pois além de ser um exemplar raro na história das ferrovias brasileiras, foi o instrumento que propulsionou  a economia e o desenvolvimento de toda essa região nesse período áureo.
    Imagine uma época na qual a "Maria Fumaça" e, depois, o trem eram os mais velozes meios de transporte que se podiam contar. Não há como negar a importância que esses veículos tiveram na vida de todos, sejam os próprios trabalhadores da ferrovia e do prédio, comerciantes, donos de engenhos, políticos, cacheiros viajantes, vendedores ambulantes, viajantes, estudantes, enfim não há quem não tenha se servido dos préstimos dessa instituição, a qual era um verdadeiro formigueiro.
    O prédio da Estação "PAPARY" era o ponto de chegada de muitas novidades. Ali desembarcavam mercadorias que abasteciam o comércio de toda a região: tecidos, aviamentos, roupas, cofres, chapéus, sapatos, louças, porcelanas, querosene, móveis, cereais, estivas, materiais de construção etc. Muitas dessas mercadorias vinham de Recife, por sua vez, oriundas de São Paulo. Outras chegavam pelo Porto de Natal e para ali eram escoadas.
    Muitas famílias aguardaram seus filhos, vindos da Capital Federal, da Bahia ou  de Recife, onde estudavam. Políticos potiguares foram recepcionados ali, sob salva de fogos e ao som da banda de música do mestre Betlhein e, depois, Tonheca Dantas.
    De seus vagões desceram pelotões de policiais, enviados pelo governador da província, a pedido do Cel. José de Araújo para conter os ânimos dos que faziam oposição ao seu governo. Enfim, a estação "PAPARY", berço de tantos acontecimentos, sobreviveu intacta às intempéries do tempo. Restou ilesa ao gosto asqueroso que muitos ainda nutrem de destruir o patrimônio público.
     No blog acima citado você poderá conhecer a história da professora Maria do Carmo Bezerra Dias, conhecida como “dona Marinha”, falecida aos 107 anos. Pobre, viúva e abandonada pelo pai, teve na Estação "PAPARY" o lugar onde tirou o sustento da sua família. Diariamente fazia o percurso à pé, com um tabuleiro, do centro de Nísia Floresta até a estação. Ali passava o dia vendendo bolo, café, cuscuz, tapioca, doces e pamonha. Foi uma forma inteligente de “ganhar a vida”, pois o fluxo de pessoas era grande, diferente do centro de Nísia Floresta. Assim como “dona Mariinha”, outros nativos também sobreviveram nesse ofício.

O MUSEU QUE VIROU RESTAURANTE

    Em 1995 fui procurado pelo então prefeito de Nísia Floresta, George Ney Ferreira, o qual disse-me que tinha intenção de restaurar o referido prédio e transformá-lo num museu. Ele deu-me carta branca para que eu montasse uma equipe para viabilizar o que dissesse respeito à constituição do museu, a qual a reconheceria oficialmente e daria todo o apoio para a instalação da referida proposta. 
SURPRESA: O restaurante - que ficaria do lado do prédio - conforme proposta original - tomou o lugar do Museu
    Dessa forma, convidei Hélio de Oliveira (Museólogo da FJA), Maria das Graças Lucena de Medeiros (Presidente do NEPAM-UFRN - onde pesquisei muito), Diva Cunha Pereira de Macedo, Françoise Dominique Valéry (Cônsul Honorária da França) e Dr. Diógenes da Cunha Lima. Tivemos reuniões na UFRN e na Fundação José Augusto. No dia 6 de março de 1995 foi oficialmente constituida a "Comissão de Implantação do Museu da Mulher Norte-Riograndense", através da portaria n. 045/95, assinada pelo referido gestor. Veja, abaixo:

Documento original da portaria de nomeação das pessoas voluntárias

    A proposta original do museu era evidenciar com maior destaque a imagem de Nísia Floresta, reconstruir um mobiliário de época, garantir uma biblioteca com as obras de autoras potiguares, inclusive toda a obra de Nísia Floresta e completar o ambiente com imagens de mulheres norte-riograndenses que se destacaram na história, além de recursos áudio-visuais. À ocasião todos os integrantes da Comissão passaram a ter uma função na construção da proposta museológica - todos de forma voluntária. Eu entraria com pesquisa e acervo, o qual já possuía naquela época.

O JORNAL, do meu primo João Maria Freire anunciou o fato em primeira mão
Em seguida a Tribuna do Norte e Diário de Natal divulgaram o acontecimento

E assim - com recursos da Prefeitura Municipal de Nísia Floresta - iniciou-se a restauração, a qual preservou quase todas as suas características originais. Todos os gastos ficaram a cargo do município de Nísia Floresta (Sessenta mil reais). Os trabalhos foram acompanhados pela Fundação José Augusto – FJA, sob os cuidados do arquiteto Paulo Heider Forte Feijó. À época houve polêmica, pois alguns alegavam que a marquise que foi projetada sobre a plataforma de embarque e desembarque de passageiros (uma espécie de “mão francesa") descaracterizava o prédio. Porém os pedreiros afirmavam que sob o reboco retirado ficou evidenciada a sua existência no dois lados.

    Aproximando-se o final da restauração os contatos com o referido gestor passaram a ficar impossíveis. Os membros da comissão tentavam falar com George Ney e não conseguiam. Entravam em contato comigo para que eu tentasse o contato, mas era tudo em vão. Logo veio a explicação para essa dificuldade de contato: o prédio, totalmente reformado, foi entregue ao empresário Fernando Bezerril, o qual montou ali um restaurante especializado em camarão, cuja inauguração configurou um acontecimento político, conforme se percebe nos registros fotográficos de época, afixados nas paredes do referido prédio.

    Todos nós, integrantes da Comissão de Criaçãodo Museu, ficamos constrangidos com a mudança súbita da finalidade do prédio, até porque o referido projeto cultural era esperado com ansiedade pelo Estado e fora notícia em diversos jornais.

    Contatado o prefeito - a muito custo -  o mesmo disse que, se quiséssemos continuar com a ideia do museu, poderíamos servir-nos do espaço onde funcionou a "Bilheteria", proposta inviável diante do projeto original, idealizado para ocupar todas as dependências. A "Bilheteria" é um cômodo minúsculo. A proposta do restaurante realmente estava inclusa no projeto, mas o gestor cederia para algum comerciante um anexo ao lado, fora do prédio (conforme foi construído), uma espécie de "praça de alimentação". Mas tudo se encerrou diferente. 

Resultado? 

Tudo foi abortado, haja vista ser impossível alojar o museu numa "Bilheteria".

    Há poucos anos fui procurado pela equipe do DN Educação - Diário de Natal, para contribuir com um Caderno Especial sobre a intelectual Nísia Floresta, em parceria com o Projeto Memória. Os jornalistas mesclaram o legado de Nísia Floresta com seu patrimônio material. Dentre os depoimentos referentes à Estação "PAPARY", fiquei sem entender quando li um depoimento dos proprietários do referido restaurante dizendo que "compraram o prédio". 
A jornalista Angélica Timbó - residente em Nísia leva a denúncia ao Ministro da Cultura
Complemento da reportagem acima


  Essa informação esdrúxula - a qual está em meu acervo -  só faz engrossar o caldo do desrespeito à nossa história, pois pois trata-se de uma edificação federal. Não pode pode ser vendida, e sim doada a órgãos públicos unicamente para fins educacionais/culturais, mediante um projeto e as políticas públicas pertinentes. Os nisiaflorestenses até hoje não entendem essa patuscada.

“O FENÔMENO PÓS-REFORMA”
  
A tradição diz que "o que não é visto não é lembrado" - nem considerado. Após a restauração, a esquecida e despercebida Estação “PAPARY” adquiriu uma beleza singular, em contraste com a aparência anterior de um casarão mal-assombrado e "invisível". A imponente edificação, em estilo inglês, emoldurada por paisagem rural e um conjunto de casarios simples, personificava uma poesia bucólica. Quem passava era atraído pela suntuosidade do prédio recém-restaurado. Era impossível ignorar tanta beleza.
O prédio chama atenção por sua beleza

O advento da reforma e o “troféu turístico" que ressurgiu das cinzas tal qual a Fênix - frente ao cenário antes despercebido - despertou cobiças. A partir daí, o prédio que não era visto por quase ninguém, fez surgir as discussões sobre os limites geográficos de ambos os municípios. Todos queriam ser donos.

    Os nisiaflorestenses vislumbravam nele o local ideal para as instalações do Memorial Nísia Floresta, mesmo após o fracassado projeto. Porém, algumas autoridades mipibuenses, embora poucas e de forma sutil, passaram a questionar o assunto, tendo como base estar construído antes da linha ferroviária - que é “marco divisório dos municípios”. O entrave provocou a imprensa, como me referi na introdução deste trabalho, mas nunca veiculou-se sequer uma nota. Atualmente o prédio está envolto entre árvores e arbustos, como se quisessem que ele novamente não fosse percebido.

    Olhando as partes laterais vê-se em alto relevo o nome Estação “PAPARY”, que é o antigo nome do município, como sabemos. A inscrição “PAPARY”, em letras garrafais, anunciava que aquela era a parada da Vila Imperial de Papari. O trem parava trazendo pessoas, malas, mercadorias e os malotes dos Correios para Papari. Tudo seguia para o centro da vila, sob os lombos dos jumentos, cavalos, nos carros-de-boi e mesmo a pé, tendo em vista a proximidade.


ESTAÇÃO SÃO JOSÉ DE MIPIBU - MAZAPA


         Diz também a tradição que muitos só dão valor a algo quando o perdem. A Estação São José de Mipibu, conhecida como Estação "MIPIBU", infelizmente hoje está resumida a menos que ruínas. O alicerce, ainda visível, está coberto por “sarsa”, como denominam os nativos, uma planta silvestre, cujas folhas são semelhantes as da batata-doce. Fica no início da estrada de terra que vai para a lagoa do Bonfim (antiga lagoa “Puxi”), exatamente à direita, na entrada para a Mazapa.

    Em 2007 ainda existia o exemplar de um anexo da Estação "MIPIBU" em perfeito estado de conservação, inclusive com características análogas às da Estação “PAPARY”. Mas, em meado desse mesmo ano, um grupo de moradores da localidade, incentivado por uma nativa, o derrubou, alegando ser esconderijo de marginais. Posteriormente todos souberam que a finalidade dessa criminosa demolição foi outra. E nesse gesto truculento sepultaram o último vestígio da ESTAÇÃO MIPIBU.
O único resquício considerável da Estação foi - pasmem! - demolido em 2007 

    O referido anexo era o almoxarifado da Estação "MIPIBU" e abrigo para o "trole", um mecanismo movido a força humana, adaptado aos trilhos, usado pelos trabalhadores que faziam a manutenção em todo o seu curso.

    A Estação "MIPIBU", tal qual a "PAPARY", era o ponto de embarque e desembarque de passageiros e mercadorias, oriundas de Natal, de Guarabira, na Paraíba, muitas provenientes de Recife. Tais produtos abasteciam o rico e próspero comércio mipibuense. Ali também desciam retirantes da seca, ávidos por uma vida melhor e autoridades que vinham para eventos, destacando-se inúmeros políticos que eram recebidos com grandes festividades. Tal estação era cercada por algumas bodegas, cujos comerciantes dependiam do fluxo de passageiros que passavam por ali.

    Infelizmente, apesar de vasculhar ambientes afins, não encontrei "explicações" para o que costumo denominar de mais um "crime histórico" que foi a demolição da Estação "MIPIBU". Tanto a Estação "MIPIBU" quanto a Estação “PAPARY” enquanto prédios distintos, têm grande significado para a história e a cultura de toda essa região. Por falta de conhecimentos das autoridades mipibuenses faltou-lhes o cuidado de tê-la preservado, pois hoje restaurada com certeza abrigaria um espaço cultural. Como se não bastasse há o caso da moradora que demoliu o resto do que restou.



O TRILHO RETIRADO

     A ideia de "pertencimento" é algo muito subjetiva, pois qualquer pessoa, povo, cidade, estado, instituição etc pode sentir-se proprietário de algo que não precisa necessariamente estar dentro de raias geográficas. Existe atualmente o conceito de Geografia humana, a qual alarga mais a compreensão dessa posse. As coisas nos pertencem enquanto construtores - e zeladores - de patrimônios. Reconhecemos esse pertencimento quando existe zelo, manutenção, restauração etc. As coisas nos pertencem quando nós pertencemos a elas. Pertencemos a elas quando nos doamos a elas. Por isso, no caso da Estação "PAPARY" entra o fator bom-senso, o dever moral e ético, e a questão histórica.
    Refletir sobre o direito de propriedade e usufruto do prédio da Estação “PAPARY” - se acaso for para uma instância superior - é uma questão que está na alçada da Justiça, na qual deve ser levado em conta o bom-senso decorrente de fatores que analisaremos ao longo deste estudo. Nesse caso valo-me de estudos de Le Goff. É conveniente lembrar-se de detalhes de extrema importância e pouco conhecidos.
    Refiro-me ao trilho que existia do lado Norte, o qual foi retirado. Como podemos constatar, a Estação “PAPARY” possui dois lados exatamente iguais. O lado Norte (que faz fundos com o rio Mipibu), também possuía um trilho anexado ao trilho atual. Ele servia para deslizar outra “Maria Fumaça” (locomotiva) para fazer o retorno, ou desviar outra que seguiria para Natal ou Nova Cruz/Guarabira. As portas do lado Norte - exatamente iguais - tinham a mesma função das frontais, ou seja, embarcar ou desembarcar passageiros ou mercadorias. Significa dizer que o prédio da Estação PAPARY ficava como um "sanduíche" em meio a dois trilhos.
    Para que o leitor entenda melhor, imagine um trem vindo de Natal. Ele parava defronte a estação e tinha a parte da frente desengatada (locomotiva). Essa parte deslizava para o outro lado da Estação PAPARY através dos referidos trilhos - hoje inexistentes - retomava a linha de origem e era engatada novamente no que seria a parte traseira do trem (a sequência de vagões), a qual passava a ser a frente. E assim o trem voltava para Natal.
    A SAMPAIO CORREIA retirou o trilho do lado norte assim que passou a operar com apenas uma locomotiva e quando encerrou o ciclo de viagens que vinha somente até a Estação "PAPARY". As viagens passaram a ser apenas Natal/Paraíba. A empresa, despretensiosamente cometeu um dano geográfico. E o nó-górdio reside exatamente nesse detalhe, pois tornou invisível o marco divisório evidenciado na delimitação, que é exatamente o trilho.
    Uma maneira de evitar esse equívoco é recolocar os trilhos originais apenas para a questão visual, até porque o que não é visto não é lembrado e tampouco reconhecido, embora, como já foi dito, há muita subjetividade nisso. 
    Na realidade é necessário o bom senso dos cidadãos de ambos os municípios, principalmente porque hoje existe uma residência (um pequeno sítio) no lado oeste da Estação “PAPARY”, o que impede a reinstalação da linha naquele trecho.
    Acaso haja compreensão das autoridades envolvidas, no sentido de recolocar os trilhos, cabe desapropriar o sítio ou repensar outra forma de definir os marcos.
    Um exemplo nesses moldes é a "Capela do Século", situada na Mazapa, em Nísia Floresta, exatamente defronte a linha férrea, há poucos metros de onde existiu a Estação São José de Mipibu.Trata-se de um marco construído durante a virada do século XIX para o século XX, conforme nos conta Cascudo. Quem a restaurou? Quem zela? Quem a mantém?
    Trata-se de um elemento do patrimônio material de grande valor histórico e que Nísia Floresta mal sabe da sua existência. Em 1992 levei um grupo de alunos nisiaflorestenses para conhecê-la, os quais ficaram surpresos.
    Outra detalhe: São José de Mipibu já teve sua geografia muito modificada ao longo dos séculos. Em 1852 a Vila Imperial de Papari foi emancipada, desmembrando-se da Freguesia de São José de Mipibu, através da Lei nº 242, de 18 de fevereiro. No dia 3 de setembro de 1874 o governador da província promulgou a lei nº 712 determinando os limites, cujo texto segue abaixo, ipsis literis: “A lei nº 712, de 3 do mesmo mez – determinou que os limites da freguezia de São José de Mipibu com os da de Papari fossem os seguintes: ao sul principiando do rio denominado Mipibú pela estrada que vae para a província de Pernambuco até o corredor dos engenhos Ribeiro e Porteiras, dahí seguindo em frente pela estrada do Urucará até o rio do mesmo nome. Ao norte do rio Mipibú, seguirá a divisão em linha reta até a estrada que segue da estrada de São José para Pirangi, dahi pela mesma estrada atravessando os alcançuz até o mesmo Pirangi a sahir na gameleira grande, ficando ao norte da linha o sítio Jardim, e pelos demais logares subsistindo a antiga direção com a freguezia de Natal.”
    A transcrição acima mostra um marco divisório pouco conhecido, embora não seja mais o mesmo - óbvio. Evidenciei-o apenas  em caráter de reflexão diante do que expus mediante as ideias de Le Goff.

COMPLEXO HISTÓRICO/CULTURAL - UM OLHAR PARA AS RAÍZES  NO SÉCULO XXI

    O prédio onde funcionou a Estação "PAPARY", pelo contexto que você está acabando de ler, tem know-how para sediar um complexo histórico/cultural. Poderia-se fazer um projeto arquitetônico com grande valorização para o aspecto paisagístico, levando-se em conta elementos da cultura nordestina típicos de nossa região. Delimitaria-se uma extensa área no entorno do prédio, faria-se os aterros necessários calçando-a com cantaria ou um tipo de pré-moldado combinando com o ambiente.
    Plantaria-se dezenas de pau-brasil e ipês, equilibrando a vegetação com plantas ornamentais representativas. Faria-se uma réplica de um engenho, numa evocação a São José de Mipibu e Nísia Floresta, berço de inúmeros engenhos. Restauraria-se o poço que existia do lado (inclusive a vertente está em perfeito estado). Faria-se um projeto em parceria com o Governo Federal, restaurando-se uma locomotiva para deixá-la exposta nos trilhos originais, protegida por um galpão feito de forma que se harmonizasse com o contexto. Essa peça poderia ser conseguida em Recife e junto dela montaria-se um mini-museu paralelo cujo acervo, conseguido na Superintendência da RFFSA, contaria a história das ferrovias do Rio Grande do Norte.
    Construiria-se toda uma estrutura imitando casas-de-taipa nas quais alojaria-se artesãos e comerciantes para venda do artesanato mipibuense e nisiaflorestense, além de comidas típicas. Teria-se mulheres rendeiras e labirinteiras produzindo in loco seus trabalhos. Faria-se uma casa de farinha e um engenho de melado para funcionar apenas no período do veraneio. Isso permitiria ao turista e ao nosso próprio povo - que vê destruída a sua cultura - o resgate das raízes nordestinas. Ali poderia-se adquirir desde iguarias mais primitivas como rapadura, melado, beju, tapioca, grude, pecado-maneiro, farinha, sucos da terra etc, a uma gastronomia contemporânea à base de camarão, siri, aratu, caranguejo peixes e afins.
    Esse espaço também seria polo de exibições de artistas locais e de outras regiões - priorizando-se as raízes nordestinas. Manifestações da cultura popular como o Boi-de-reis, o Pastoril, o Coco-de-roda e o Pirão-bem-mole de Nísia Floresta, e o Coco-de-roda de São José de Mipibu seriam atrações fixas, dentro de uma política pública organizada, com mestres ensinando as danças e a confecção de roupas e instrumentos musicais utilizados.
    Construiria-se um complexo semelhante a um balneário e todos os elementos integrantes desse espaço seguiriam uma linha rústica. Enfim, daria-se a esse espaço uma dignidade visionária.  
    Esse projeto seria feito numa parceria encabeçada entre o poder público de São José de Mipibu e Nísia Floresta, com apoio de instituições especializadas em patrocínio desse tipo de projeto, em nível estadual e federal.
    O prédio, especificamente, seria uma espécie de museu ou memorial para abrigar as histórias de São José de Mipibu e Nísia Floresta, com fotos, livros, ferramentas, instrumentos, acervos e objetos pessoais dos personagens evocados, dando destaque às figuras de Nísia Floresta e o Barão de Mipibu.
    Teria-se um anfiteatro com exibições pré-divulgadas de peças teatrais contando a história de Nísia Floresta e do Barão de Mipibu (especificamente) e outras histórias locais.
    Mais que direcionar uma visão apenas para um museu, esse complexo seria um pólo que convergiria amplamente a cultura genuína da região, sendo referência para estudos nacionais e internacionais com uma fluente produção áudio-visual, fotográfica e oficinas (todo um contexto digital/tecnológico).
    O êxito desse projeto implicaria em fortes investimentos no que se refere a divulgação, uma política de turismo contínua e providências. Até porque a poucos metros desse prédio tem uma galeria do esgoto de São José de Mipibu desaguando no rio Mipibu, que por sua vez deságua na lagoa Papari, a qual está seriamente prejudicada. Não dá certo um projeto desse ao lado de um rio de esgoto (tem que se resolver isso, inclusive nesse mesmo blog têm artigos desde 2010 sobre esse assunto e a destruição da lagoa Papary).

CONCLUSÃO


    É improcedente afirmar que a Estação de Mipibu é a Estação “PAPARY”, conforme já ouvi, pois, como foi exposto, a Estação Mipibu e o anexo lateral foram criminosamente demolidos. Se a Estação "PAPARY" fosse a Mipibu, as letras garrafais moldadas em sua parede seriam "MIPIBU". Como já foi exposto, o fato de terem retirado o trilho de retorno transmite a ideia de que o marco divisório é o atual trilho.
    Diante dessas considerações entendo que a Estação “PAPARY”, mesmo que não tenha os trilhos recolocados, e mesmo que as letras garrafais “PAPARY” sejam arrancadas, é parte integrante do patrimônio histórico/estimativo de Nísia Floresta.
    A Câmara Municipal de Nísia Floresta - que com certeza lerá este estudo - tem um dívida moral com a Estação "PAPARY" e com o patrimônio nisiaflorestense de modo geral. Cabe à mesma a idealização de um projeto que reja a questão de restauração e manutenção  do patrimônio tangível e intangível nisiaflorestense de modo geral. Há anos proponho em vão essa medida simples.
    No tocante à Estação "PAPARY", resta às autoridades devolver-lhe o direito de sediar um ponto de cultura, um museu ou memorial. Até porque trata-se de uma edificação restaurada com recursos oriundos de Nísia Floresta - conforme documentos comprobatórios disponíveis. Quem tem o direito de usufruir o prédio nessa concepção histórico/cultural é o povo e não uma empresa particular. E, mais que isso, trata-se de um prédio federal, que não pode ser vendido (como nunca foi). Sobre o "drible" da reforma do museu que se tornou restaurante, cabe ao responsável os esclarecimentos pertinentes.

CURIOSIDADES

Na gestão de João Lourenço Neto consegui sensibilizá-lo acerca da nova tentativa de retomarmos o projeto - houve os primeiros passos mas o projeto que se apresenta superior à cultura e à história - personificado em forma de um mero restaurante  - parece superior.


     - A locomotiva "Baronesa", por seu importante papel, como pioneira, constitui pedaço da história do ferroviarismo brasileiro. Foi construída em 1852 por Willian Fair Bairns & Sons, em Manchester, Inglaterra, fazendo, atualmente, parte do acervo do Centro de Preservação da História Ferroviária, situado no bairro de Engenho de Dentro, na cidade do Rio de Janeiro.


    - Quando da Proclamação da República, em 1889, já existiam no Brasil cerca de dez mil quilômetros de ferrovias, mas foi no início do século 20 que se deu um grande passo no desenvolvimento das ferrovias, tendo sido construídos entre 1911 e 1916 mais cinco mil quilômetros de linhas férreas. A expansão ferroviária do início do século 20 trouxe então desenvolvimento econômico e social para inúmeros municípios do interior brasileiro.



    - A única linha de passageiros que ainda preserva serviços diários de longa distância, com relativo conforto, liga Belo Horizonte, em Minas Gerais, a Vitória, no Espírito Santo. Os serviços ferroviários de passageiros ficaram restritos aos subúrbios nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Maceió, João Pessoa, Natal, Recife, Fortaleza e Teresina. Entretanto, ainda existem algumas ferrovias que servem ao turístico como a Curitiba-Paranaguá, Paraná; a Campinas-Jaguariúna, São Paulo e a linha urbana do Memorial do Imigrante, também em São Paulo.



- Hoje é sabido que o transporte ferroviário é o mais ecológico e social existente. Isso porque, além de transportar o maior número possível de carga e pessoas, a construção de estradas de ferro causa menos danos ao meio ambiente que a construção de rodovias.

- As ferrovias não compactam e impermeabilizam solos e, mesmo suas locomotivas sendo a diesel, poluem menos que a quantidade de veículos que trafegam por rodovias. Seja transportando carga ou pessoas, o trem é um transporte seguro, confortável e custo menor por quilômetro transportado.

REFERÊNCIAS

    As cópias de documentos avulsos, a documentação original e os registros audio-visuais de História Oral utilizados para a construção deste documento encontram-se no acervo particular de Luís Carlos Freire.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

UM GRANDE "ENIGMA" EM NÍSIA FLORESTA

UM GRANDE "ENIGMA" EM NÍSIA FLORESTA

DOSSIÊ ESTAÇÃO PAPARY - FIQUE POR DENTRO DA HISTÓRIA REAL E COMPROVADA DOCUMENTALMENTE.


ABAIXO - JORNAL O GRANDE NATAL, 2001. ANA ANGÉLICA TIMBÓ, NUM GESTO DE CORAGEM E OUSADIA, DENUNCIA AO MINISTRO DA CULTURA O MUSEU QUE SÓ FICOU NO PAPEL.



JORNAL "O ALERTA" - DURANTE AS REFORMAS A FUNDAÇÃO JOSÉ AUGUSTO DENUNCIA A DESCARACTERIZAÇÃO DO PRÉDIO. A REFERIDA DESCARACTERIZAÇÃO ERA UM AÇÃO DESCONHECIDA PELO GRUPO RESPONSÁVEL PELA ORGANIZAÇÃO DA POLÍTICA MUSEOLÓGICA. A INTENÇÃO ERA REALMENTE TORNAR O PRÉDIO UM RESTAURANTE, E NÃO MUSEU.
A NOTÍCIA DO PERIÓDICO "O JORNAL", DE 1993 DIZ: "NÍSIA FLORESTA É HOMENAGEADA E GANHA MUSEU HISTÓRICO". VOCÊ CONHECE O MUSEU?




A NOTÍCIA ABAIXO, PUBLICADA PELA TRIBUNA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE NO DIA 19 DE FEVEREIRO DE 1995, ANUNCIA QUE "NÍSIA FLORESTA VOLTA A PAPARY". OS MAIS VARIADOS JORNAIS ANUNCIARAM A INSTALAÇÃO DO MUSEU, MAS, NA REALIDADE O LOCAL SEMPRE ABRIGOU UM RESTAURANTE. NINGUÉM NUNCA DEU EXPLICAÇÕES, POIS, COM CERTEZA TÊM A CONVICÇÃO DE QUE O POVO SEMPRE SE DÁ POR VENCIDO E NÃO PROTESTA CONTRA TAIS INJUSTIÇAS. ATÉ QUANDO?
DIÁRIO DE NATAL - 26 DE NOVEMBRO DE 1994 - ANUNCIA A NOVIDADE QUE NUNCA ACONTECERÁ.POUCO DEPOIS DA REFORMA O PRÉDIO É APRESENTADO AO PÚBLICO... MAS... QUE SURPRESA!!! O MUSEU VIROU RESTAURANTE. A MATÉRIA DIZ: "ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE PAPARY GANHA UM RODÍZIO DE CAMARÃO". O POVO PERGUNTA: - "NÃO ERA UM MUSEU?" VEJAM SÓ QUEM ESTÁ ERRADO NESSA HISTÓRIA. O PREFEITO OU OS FATOS? O PREFEITO OU O POVO?


POUCO DEPOIS DA INAUGURAÇÃO, O SR ALFRDO LOBO, UM TURISTA QUE PASSOU PELO RESTAURANTE ESCREVEU O ARTIGO ACIMA DETONANDO O RESTAURANTE, INCLUSIVE QUESTIONA AS RAZÕES PELAS QUAIS O DONO DO RESTAURANTE OBTEVE O TÍTULO DE CIDADÃO NISIAFLORESTENSE. CURIOSIDADE: ATÉ TURISTA ENXERGA A VERDADE.


A PORTARIA ABAIXO, ASSINADA PELO PREFEITO GEORGE NEY FERREIRA, EM 1995, NOMEIA VÁRIAS PESSOAS (PROFESSOR LUÍS CARLOS FREIRE, CONSTÂNCIA LIMA DUARTE, FRANÇOISE DOMINIQUE VALÉRY, DIVA CUNHA PEREIRA DE MACEDO, HÉLIO GALVÃO E ENÉLIO PETROVICH), NA OCASIÃO DA IMPLANTAÇÃO DO MUSEU DE NÍSIA FLORESTA. OBSERVAÇÃO: AS OBRAS COMEÇARAM, HOUVE MUITA DIVULGAÇÃO JORNALÍSTICA, O PRÉDIO FOI "RESTAURADO", O PREFEITO DESAPARECEU, E ASSIM QUE O PRÉDIO FICOU PRONTO... A SURPRESA: O MUSEU VIROU RESTAURANTE! AS PESSOAS ENVOLVIDAS, SEM CONSEGUIR CONTATO COM O PREFEITO, FICARAM FRUSTRADAS, POIS FORAM USADAS PARA DAR UM CARÁTER DE SERIEDADE AO PROJETO


EM 2001, O ENTÃO PREFEITO JOÃO LOURENÇO, RETOMANDO A IDÉIA DO PROJETO, BAIXA NOVA PORTARIA, ELEGENDO NOVOS NOMES, DENTRE ELES O PROFESSOR LUÍS CARLOS FREIRE. OS CONTATOS SÃO REFEITOS, REUNIÕES ACONTECEM... MAS NADA SAI DO PAPEL, POIS ENQUANTO OS GESTORES PÚBLICOS QUISEREM USAR A CULTURA OU EDUCAÇÃO COMO CATAPULTA, ESSAS ÁREAS NOBRES NÃO FLUIRÃO COM TODA A PLENITUDE. O GESTOR PÚBLICO TEM QUE QUERER REALMENTE.



segunda-feira, 18 de maio de 2015

O BAOBÁ E EXUPÈRY


Essa história de Antoine-Marie-Roger de Saint-Exupèry ter buscado inspiração para o seu famoso “O Pequeno Príncipe” no Baobá da rua São José ou no Baobá de Nísia Floresta é mera “lenda”, inclusive  o poeta Dr. Diógenes da Cunha Lima insiste que Exupèry esteve em Natal. Isso também é dito Por Chicuta Nolasco, que informa que ele hospedou-se na casa da Viúva Machado".
Os baobás desenhados pelo próprio Exupéry no livro O Pequeno Príncipe
Na realidade Exupèry nunca esteve no Rio Grande do Norte. E isso está provado por um estudioso da documentação aeronáutica da época. Ele perquiriu toda a documentação aeronáutica de voos da Europa para o Brasil, compreendendo todo o período de vida profissional de Exupèry, e não existe comprovação documental.
Até um bebê sabe que aviões e navios empreendem viagens via carta – espécie de mapa que deve ser seguido. E tais não existem em nome de Antoine de Saint-Exupèry.
Mas a maior ingenuidade é saber que Exupèry - que sobrevoou Dakar, no Senegal, incontáveis vezes - que se fartou de admirar inúmeros pores-do-sol e viu a beleza de vários baobás de todas as formas e tamanhos naquele país - tenha cismado justamente com um acanhado baobá fincado no meio de uma mata emoldurada por dunas (na época). Li alguns livros de Exupéry e ele relata a beleza descomunal do pôr do sol nesse país africano. O pôr do sol rio Potengi é belíssimo, mas é ingênuo continuarmos propagando a “tese” de alguns potiguares que afirmam que Exupèry ficou maravilhado com esse fenômeno potengiense. Lembremos que em Dakar os baobás estão para eles como bananeiras, mangueiras, jaqueiras e coqueiros estão nisiaflorestenses.
Esse é o Baobá de Nísia Floresta. Existiam 4. Restam 2, ou melhor, há 3, contando um exemplar bebê plantado num dos seus distritos.
Por que propagar uma história criada em detrimento da verdade. Só porque se trata de um genial escritor francês?
Esses oportunismos infantis normalmente são criados para dar um aplomb a alguma causa defendida por alguém em busca de cristalização de sua própria memória em detrimento da história real. A propósito do baobá de Nísia Floresta especificamente, aplica-se o mesmo raciocínio essencial dessa reflexão. É bom que as pessoas pesquisem mais e valorizem as verdadeiras lendas tricentenárias em detrimentos de lendas criadas por antigos clãs falidos que querem se reafirmar usando “lendas” direcionadas – intencionais – oportunistas.
Existem notícias e instituições que falam mais de quem a escreve que do fato em si. Isso não é política, jornalismo e sequer profissionalismo.
É bom que as pessoas não permitam serem enganadas, até porque a nova história orienta-nos a nós educadores construirmos a história com criticidade, e não com a mesma ingenuidade que costuma receber a alcunha de um bichinho que tem uma cruz natural desenhada nas costas. 

O BAOBÁ DE NÍSIA FLORESTA E O MITO EXUPÉRY
Exupéry

A África é o berço dos baobás, árvore diferente por seu aspecto singular. Uns acham-na feia e esquisita, outros vêem-na como exótica, bela e atraente. Mas algo é certo, um baobá não passa despercebido. Nativo das regiões tropicais da África, o baobá pode viver até dois mil anos. Também é conhecido por outros nomes. 
Dentro da cápsula parecida com um pinguim há bagas com polpa seca, muito azeda. O suco é delicioso com leite.
No Guiné-Bissau é fruta-pão-de-macaco, cabaceira, calabaceira; no Cabo Verde é embondeiro, imputeiro; em Moçambique é licondo; na Angola é melambeira e micondó; em São Tomé e Príncipe é molambeira; em Moçambique é molambo e na Angola é nebondo.
Essa é a bela flor do Baobá. Ela despenca por um tendão e fica virada para baixo.
Etimologicamente falando, o “baobá” é vocábulo de origem latina: “baobab”, em francês e “bu-ibab”, em árabe.

O Rio Grande do Norte possui dezenas de baobás espalhados em pontos distintos, como Apodi, Macaíba, Natal e outros municípios, testemunhando um passado remotíssimo, quando as placas tectônicas do Continente Americano ainda não tinham se separado do Continente Africano, onde os baobás são tão abundantes como são para nós tantas espécies brasileiras comuns.
Esse é o fruto do Baobá. Quando seca, as pessoas fazem pinguins (ave das zonas geladas do planeta). Depois de lixada e pintada vira belo artesanato.

Poucas pessoas sabem, mas o município de Nísia Floresta possui dois baobás adultos, e até na década de 1970 possuia três exemplares. O maior está no centro da cidade, outro na Fazenda Mãe-Ia, no Sítio Floresta, exatamente na divisa com a estrada, na altura do distrito de Golandi. O terceiro baobá – extinto – ficava próximo a entrada do município, nas imediações do engenho São Roque, num declive íngreme. Com o advento da terraplanagem e urbanização, a terra da sua base foi deslizando, facilitando seu tombamento, após uma forte chuva do meado de 1970. Se naquela época existisse um nível de consciência mais cidadão por parte das autoridades, teria-se feito um trabalho de recolocação da espécime, às custas de tratores e guindastes, pois boa parte de suas raízes permaneceram fincadas no solo. A preciosidade de tal exemplar permitiria tais esforços. Faltou apenas visão.
Baobá nas savanas africanas.

O baobá pertence à família das bombacáceas, cujo nome científico é Adansonia digitata. Possui tronco extremamente grosso, galhos curtos, folhas comestíveis e flores branco-róseas, cujo branco se sobressai. Na África sua madeira, mole e porosa, é usada para confecção de embarcações e na produção de fibras, cordas, papel e tecido. A árvore do centro de Nísia Floresta costuma florescer de janeiro a março. Segundo se percebeu em 2010, sua floração superou todas as anteriores, conforme observaram os mais idosos. Supostamente isso aconteceu em decorrência da forte temperatura desse ano, fenômeno este também nunca visto.
Aqui a flor está completamente aberta.

Não apenas o visual do baobá é diferente. Suas flores são singulares. Elas despencam de um talo de aproximadamente 20 cm e se abrem como se estivessem de cabeça para baixo.

O mesmo fenômeno da multiplicação das flores ocorreu com os frutos, pois nunca se viu tantos como em 2010. Os frutos têm o formato de cápsulas oblongas (parecida com o corpo de um pinguim) e pubescentes (semelhantes ao veludo). Dentro se formam uma espécie de fibra que produz bagas secas, comestíveis. Em Nísia Floresta ouvi depoimento de pessoas que fazem suco do pó que sai dessas fibras e, segundo dizem, é delicioso, adquirindo uma consistência leitosa com facilidade. O sabor, exótico, lembra o gosto do tamarindo.
Dificilmente se encontrará um baobá igual Sua única característica em comum é parecer que está de cabeça para baixo 

O baobá de Nísia Floresta é tombado pela lei federal nº 4.771/65 e pela lei municipal nº 169/79. Consta em sua lateral uma placa informando que o exemplar foi plantado por um cidadão chamado Manoel de Moura Júnior, no ano de 1877. Acredito que isso seja pura pretensão, tendo em vista que a árvore é muito mais antiga do que informa a ingênua placa, conforme podemos constatar lendo mais aprofundadamente sobre tal espécie, a qual necessita de mais tempo de vida para ter o diâmetro e a altura atuais. O conteúdo da placa soa mais como uma lenda, dentre tantas que povoam o imaginário popular.
FANTASIAS CONTADAS POR NATALENSES QUE SONHAM DEMAIS
"Baobá do Poeta" situado em Natal/RN, Rua São José 
Diógenes, em sua Natal Biografia de Uma Cidade, p. 278 a 279 diz que Antoine de Saint-Exupéry esteve na América do Sul, entre outubro de 1929 a janeiro de 1931, trabalhando para a Lattécoère como diretor da subsidiária Cia. Aeroposta Argentina. E diz que Pery Lamartine registrou a sua presença:


“Como diretor e também aviador profissional, ele tinha um avião à sua disposição para fazer visitas a todas as bases de linha. Natal era uma das principais, pois aqui se faziam a baldeação das malas postais entre os navios (avisos) e os aviões e vice-versa. Assim sendo, Natal hospedava constantemente tripulações completas para substituir os pilotos da escala de voo. Essas tripulações conviviam cordialmente com a sociedade natalense, a exemplo de Jean Mermoz, que deixou aqui uma lembrança.”
Dr. Diógenes da Cunha Lima

Segundo o autor, Rocco Rosso, encarregado do setor de rádio e comunicação da Lattécoère, bateu fotos do escritor herói em Natal. Diga-se de passagem, tais fotos são desconhecidas pelos os historiadores. D. Amelinha Machado (viúva Machado), dona Nati Cortez e dona Nair Tinoco confirmam a importância da presença. Dona Nair lembra, em Outras recordações, as suas subidas à torre da matriz para apreciar o por-do-sol. Nilo Pereira foi-lhe apresentado por Jean Mermoz.

Diz ainda, o autor, que o escritor José Rafael de Menezes, em seu Amizades Bibliográficas, que não havendo tempestades nas costas nacionais, beber água de coco não seria tema de grandes manifestações literárias para o piloto, que se alternava entre duas paisagens: o deserto e as montanhas.

Rafael fala da “poética valorização do ser humano” e destaca: “O maior deles na década de 40, Antoine de Saint-Exupéry”. José Rafael registra ainda que “somente os colegas oriundos de Natal exibiam um autógrafo com o retrato do homem”. Alguém já viu uma cópia desse retrato em algum livro?

As mentes férteis comentam que foi em Natal que Exupéry fez os desenhos de O pequeno príncipe, seu livro mais famoso, lançado em Nova Iorque, em 1943. Diz-se que o francês viu com estranheza o baobá da rua São José, em Natal. Haja imaginação! Exupéry já se fartara de ver baobás na África tão conhecida por ele, inclusive era rota de voo.
O Brasil possui muitos Baobás. A maioria está no Pernambuco. Esse está no Rio de Janeiro.

Há até quem pontue tópicos para reforçar a lenda. Leiamos os mesmos, na visão de Diógenes:

- O aviador hospedou-se na casa de dona Amelinha Machado, proprietária do terreno onde está o baobá;

- Há depoimentos que Exupéry teria declarado que o por do sol do Potengi é o mais lindo do mundo.

- O elefante, um dos desenhos do livro, é o símbolo do Rio Grande do Norte (a semelhança com o mapa do estado é sempre estilizado).

- Há desenhos de falésias, de dunas e de estrelas, que é o símbolo da cidade de Natal;

- No livro póstumo Cartas à sua mãe, há um trecho onde Exupéry diz que “Dacar é bem feia, mas o resto da linha, uma maravilha”. O resto da linha começava em Natal.
Uma espécia, na África.

É prudente analisarmos uma série de detalhes, tanto dos tópicos acima quanto do contexto da época. Fernando Hipólyto da Costa, um historiador respeitado, fez um levantamento de época, de todos os vôos Paris/Brasil e Argentina/Natal, tendo em vista a relação profissional de Exupéry com as plagas pampas, e sequer foi encontrado um registro de voo do citado francês para Natal.

Como Exupéry estranharia uma árvore a qual estava acostumado a ver em abundância e em todas as nuanças na África?

Por que Exupéry baseou seu elefante num mero mapa do Rio Grande do Norte – com diferenças gritantes do desenho real de um elefante – se ele estava habituado a ver elefantes ao vivo e em cores, na África?

Atribuir os desenhos de falésias, dunas e estrelas existentes no livro a Natal é muita imaginação, considerando que Exupéry era acostumado a ver tal cenário por quilômetros a fio quando sobrevoava a África. De dia e de noite.

Por outro ângulo, devemos entender – sem precisar se esforçar – que as estrelas do livro são óbvias ao contexto do desenho, pois ele retratou o planeta Terra com direito a céu. Por que tais estrelas, que existem no mundo inteiro, haveriam de ter sido inspiradas justamente nas de Natal/RN? O argumento “símbolo da cidade” é muito ingênuo. Ainda sobre céus e estrelas, o primeiro livro escrito por Exupéry, Correio Sul, é repleto de referências poéticas aos céus da África.

Sobre as palavras escritas pelo autor, no livro Cartas à sua mãe, “o resto da linha, uma maravilha”, Exupéry poderia ter feito a peripécia de, em voo para a Argentina, ter passado sobre Natal, pois é caminho. Mas isto não significa dizer que as linhas divisórias imaginárias retratassem um elefante passível de ser visto lá de cima.

Sobre o francês ter se hospedado na casa da dona Amelinha Machado – justamente encostada ao baobá – segundo o citado autor, e sobre todas essas suposições, fica uma lacuna incompreensível. Por que Luís da Câmara Cascudo, que registrou em livros sobre inúmeros viajantes brasileiros e estrangeiros ilustres que passaram em Natal, se esqueceu justamente de Exupéry?

Até hoje o clássico de Exupéry encanta crianças e adultos.
TROCANDO SUPOSIÇÕES POR DOCUMENTOS

Fernando Hipólyto da Costa, Coronel-aviador, historiador e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, escreveu que certa vez um cidadão lhe perguntou se tinha sido Exupéry quem plantara o baobá da rua São José, em Lagoa Seca, Natal. Ele riu, pois não podia ser diferente.

Segundo ele, Exupéry nunca foi partícipe dessa fase dourada da aviação comercial francesa, no que se refere às travessias Dakar-Natal-Dakar (3.200 km em cada trecho), ocasiões em que os tripulantes enfrentavam condições meteorológica diversas, o capricho dos ventos alíseos, os frios das Madrugadas e a imensidão de céu e água em viagens que consumiam 15 a 20 horas de voo.

O historiador recomenda a leitura detalhada da publicação francesa “Répertoire des Traversés Aériennes De L’Atlantique Sud Par L’Aéropostale Et Air France (1930-1940)”, escrita por Perre Labrousse em Paris em 1974. O livro lista todas as travessias, as quais, acaso Exupéry tivesse feito, estariam ali evidenciadas. Hipólyto, chamando esse contexto mítico de “absurdidades”, diz: “Se tudo passa na vida, a História fica e ela não perdoa os que não lhe entendem a lição”.
Baobá inspira até nome de Banda Musical...

No livro citado, é possível constatar 512 travessias (256 em cada sentido: Dakar-Natal ou Natal-Dakar), onde somente 4 não foram cumpridas, veja:

- Viagem 001-regresso, de 8 para 9 de julho de 1939. Motivo: amerrissagem forçada a 700 km de Dakar, em conseqüência de um vazamento de óleo de motor. Tripulantes e malotes do correio recolhidos pelo navio Phocée (“Aviso”). Foram voadas 14 horas a partir de Natal.

- Viagem 035-regresso, em 10 de fevereiro de 1936. Perdido no oceano depois de 7 horas de voo, na etapa Natal-Dakar. Perda total da aeronave e dos tripulantes, além de 1 passageiro.

- Viagem 074-ida, em 7 de dezembro de 1936. Motivo: Perdido no oceano depois de 3 horas e 57 minutos de voo. Perda total da aeronave e dos 5 tripulantes.

- Viagem 074-regresso. Não foi cumprida devido ao acidente constante na travessia anterior (074-ida). Seria a etapa Natal-Dakar.

A primeira travessia foi efetuada de 12 para 13 de maio de 1939, com o monomotor Late 28, matrícula F-AJNQ, sendo o primeiro voo realizado para o Brasil com malas postais. Apenas 3 tripulantes: Mermoz (piloto), Darby (navegador) e Gimié (radiotelegrafista).

A última (512, ou 256-refresso) ocorreu em 2 de julho de 1940, voando o F-AQCX de Natal para Dakar, com cinco tripulantes e tempo de voo de 15 horas e 51 minutos. A Air France suspendeu as atividades por se encontrar a Europa imersa na 2ª. Guerra Mundial.

O nome de Exupéry não consta nas relações de viagens. A empresa, que contava com treze aeronaves, destinava-se unicamente ao transporte de malas postais; em apenas dezenove travessias foram incluídos vinte e dois passageiros e esses somente viajaram com autorização expressa do presidente da companhia. E Exupéry não consta nessa relação.

O quadro de pessoal “aeronavegante”, na época pesquisada (1930-1940), compunha-se de dezessete comandantes, quarenta e um copilotos, 12 navegadores, dez radiotelegrafistas e 15 mecânicos; desse grupo de noventa e cinco tripulantes que operavam no Atlântico Sul, não é encontrado o nome de Exupéry.

O historiador Hipólyto pesquisou toda a documentação antiga referente a vôos de chegada e saída de Natal para outros países. E o nome de Exupéry não está entre os demais. Pesquisou também nos anais da Air France e informaram que ele nunca fez tal voo.
Formato curioso de um Baobá na África.

Interessante é o fato de Exupéry, enquanto escritor portador de uma verve literária de extrema sensibilidade, não ter registrado nada sobre Natal, acaso aqui tivesse colocado os pés. Concordam?

Diante desse quiprocó, por que insistem tanto se existem provas que ele nunca veio ao Rio Grande do Norte. Segundo o autor, a explicação é simples. Exupéry foi convidado pela Argentina a ocupar a gerência da Companhia Latécoère em Bueno Aires. Exupéry deixou a França viajando em navio de grande porte, chegando a capital portenha em outubro de 1929. Na ida o navio fez escala no Rio de Janeiro e Santos. No Rio ele teve algumas horas para conhecer a cidade, prosseguindo a viagem rumo a Argentina.

Regressando à França, após pouco mais de um ano, novamente por via marítima, Exupéry passou pelas mesmas localidades da ida. Tanto na vinda da Europa como no regresso para a França. Tanto na vinda de Europa como no regresso para a França, não ocorreu atracação no porto de Natal.

No livro “O caminho do avião”, de autoria de Luís da Câmara Cascudo, ele apresenta uma série de reportagens escritas de 1922 a 1933, acerca de 33 reides famosos com passagem para Natal. Por que o mestre da história do Rio Grande do Norte haveria de ter esquecido justamente de nome tão famoso e representativo? É lógico, ele não esqueceu, afinal Exupéry não esteve por aqui.
Avenida dos Baobás

Os aviadores franceses também participaram das travessias aéreas do Atlântico Norte, existindo registros de 12 viagens de longa duração, consideradas “experimentais” e decorridas nos anos de 1938 e 1939.

As informações constam da publicação “La Ronde S’Arrête”, de autoria de George Bouchard, o qual tomou parte de todas as viagens.
Um registro importante na viagem n. 7 transcorrida de 7 a 10 de julho de 1939, Saint-Exupéry viajou como passageiro em aeronave de matrícula F-NORD, sob comando de Guillaumet, umas das “estrelas” da aviação francesa.
Regressou à França (viagem n. 8) deixando os Estados Unidos em 14 de julho de 1939, com a mesma tripulação e novamente na condição de passageiros.


         E, AFINAL, QUEM FOI EXUPÉRY?

Antoine-Marie-Roger de Saint-Exupéry, seu nome de batismo, tinha a aviação como fonte de ação heróica e novo tema literário: exalta a aventura com riscos de vida como suprema realização humana. Sua obra é o testemunho singular de um piloto de guerra com a alma de poeta.
Antoine-Marie-Roger de Saint-Exupéry

Nasceu em Lyon, na França, em 29 de junho de 1900, oriundo de família aristocrática empobrecida. Obteve licença de piloto em 1922, no serviço, e quatro anos depois ingressou na aviação pela Latécoère. Ajudou a implantar rotas de correio aéreo na África, América do Sul e Atlântico Sul, além de ter sido pioneiro nos vôos Paris-Saigon e Nova York-Terra do Fogo. Nessa época, publicou seu primeiro livro Courrier-Sud (1929 – Correio Sul).

Exupéry soube aliar – e daí talvez a razão do seu permanente sucesso – a sensibilidade do artista a uma visão de mundo caracterizada pela autenticidade de quem só escreveu sobre o que de fato viveu. Permanentemente preocupado com os acontecimentos que o circundaram, seus livros refletem os problemas da sociedade e dos indivíduos de sua época.

O despojamento do estilo, a narrativa direta, a linguagem depurada de tudo que não contribui para a expressão concreta e imediata do que o escritor deseja contar, estão a serviço de um objetivo presente na obra inteira de Exupéry: o de dignificar a condição humana, o de reivindicar a sua essencial liberdade, sem abrir mão da complexidade – não raro feita das mais dramáticas contradições – que a define.

Na década de 1930, trabalhou como piloto de provas, adido de publicidade para a Companhia Aérea Air-France e repórter do Paris-Soir. Nomeado diretor da Cia. Aeroposta Argentina, exerceu o cargo até 1931. Em seu segundo romance, Vol de nuit (1931 – Voo noturno), exaltou os primeiros pilotos comerciais, que enfrentavam a morte no cumprimento do dever. Registrou suas próprias aventuras em Terre dês hombres (1939 – Terra dos homens).

Em 1939, apesar das dificuldades físicas causadas por acidentes aéreos, serviu na aviação aliada. Com a queda da França em poder dos Nazistas, fugiu para os Estados Unidos. Ali, escreveu Lettre à um otage (1943 – Carta a um refém), exortação a unidade dos franceses, e Le petit prince (1943 – O pequeno príncipe), fábula infantil para adultos , traduzida no mundo inteiro. Seu pessimismo aparece em Citadelle (1948 – Cidadela), volume póstumo de reflexões, no qual expressa a convicção de que o homem deve ser repositório dos valores da civilização.

Em 1943, voltou à força aérea no norte da África e morreu em missão, 31 de julho de 1944, participando de uma esquadrilha de bombardeiros da libertação da Sicília. Tendo ultrapassado o limite de idade para continuar pilotando, recebe a permissão para realizar mais cinco missões de reconhecimento. Numa delas desapareceu para sempre no mar.

Exupéry nunca se sujeitou à classificação de escritor profissional. De personalidade irriquieta, nada em sua formação (foi péssimo aluno) fazia crer que viesse a se tornar autor dos excepcionais livros que escreveu. Herói da segunda guerra mundial, dedicou todo o seu trabalho literário à defesa daquilo que o levou a morrer: a liberdade do homem.

CONCLUSÃO

Ficam aqui as provas de que Antoine de Saint-Exupéry esteve em Natal, sim, mas na imaginação fértil de tantos que preferem acreditar na “história da carochinha”, se pautando pelo hábito de dizer “foi fulano quem falou”, “ouvi dizer”, “dizem que” ou “o povo é quem diz”. Tal comportamento me recorda o depoimento de Rita Ribeiro, uma professora da UFMA, a qual, durante o lançamento do seu polêmico livro “Ana Jansen” – ocasião em que estive presente – informou à platéia que sofreu muitas críticas e até ameaças por ter revelado em seu livro a verdade sobre a referida personagem.

Nas suas pesquisas aprofundadas ela descobriu (com provas documentais) que figurões da história do Maranhão, com os seus nomes dados à diversas instituições, com direito a placas de bronze e enormes letreiros, foram verdadeiros crápulas. Nesse caso não me refiro a Exupéry, mas ao fato de existirem pessoas que, mesmo descobrindo a verdade, provada por documentos, preferem contar e recontar mentiras em livros e em palestras, prestando desserviço à história. Isso se agrava quando quem o faz muitas vezes atende ao adjetivo de “historiador ou “escritor”.

Ao apresentar as provas documentais, Hipólyto finalizou dizendo “E o tempo se encarrega de transmitir às novas gerações disparatados epílogos que não traduzem a realidade. De minha parte, posso afirmar à luz da História e com o apoio da documentação em meu poder, e ainda sem qualquer vacilação, que Antoine de Saint-Exupéry nunca esteve em Natal”.

Um fato bem curioso ocorreu em Natal, recentemente, quando o ex-prefeito Carlos Eduardo Alves, muito sensato e prudente, cancelou o projeto de colocar uma estátua do aviador francês na “Praça-do-pôr-do-sol” – que atendia sugestão justamente das pessoas que prestam desserviço à história -, as quais afirmavam que naquele lugar Exupéry costumava “assistir o crepúsculo vespertino sobre o rio Potengi”. Carlos Eduardo, com certeza constatou que, de todas as informações que dizem do Francês, ditas como passadas em Natal, nenhuma foi comprovada – nem com fotos – nem com escritos.