ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos nesse aspecto. Os textos são de autoria de Luis Carlos Freire, o qual é um dos descendentes da família de Nísia Floresta pela parte da mãe, Maria José Gomes Peixoto Freire, cujas informações estão no livro "Os Trocos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti. O referido livro desenrola o novelo genealógico das famílias originárias de Goianinha, município próximo, de onde originou-se a família de Nísia Floresta, e pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade. Luís Carlos Freire é membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui inúmeros trabalhos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre a história do município homônimo e folclore regional. Uma pequena parte dessas publicações ainda não está completa e aguardam novos estudos, cujo autor entendeu ser útil disponibilizá-la. Algumas são inéditas. O acesso permite que os interessados tenham ao menos boa noção daquilo que buscam na internet, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de crônicas, artigos, fotos poemas, etc. O autor ministra palestras e pode ser convidado através do e-mail: brasilcentauro@yahoo.com.br e pelo fone (84) 8162.9323. SÓ É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

IGREJA MATRIZ DE NÍSIA FLORESTA SOFRE REFORMA SEM PROJETO COM ACOMPANHAMENTO DE PROFISSIONAIS DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO





IGREJA MATRIZ DE NOSSA SENHORA DO Ó SOFRE REFORMA SEM PROJETO DE ACOMPANHAMENTO DE PROFISSIONAIS DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO

            Sexta-feira, 14.11.14, pela manhã, estive na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, movido por um telefonema que recebi, na noite anterior, de uma nativa, preocupada com a reforma do templo. O prédio é o exemplar mais antigo de Nísia Floresta. Peça única do século XVIII, com sua arquitetura praticamente intacta. Depois desse telefonema não dormi mais.
            Não acesso as mídias de Nísia Floresta e São José de Mipibu (acaso o assunto aqui tratado já tenha sido neles abordado), portanto foi surpresa tal “reforma”. Chegando à “obra” fui bem recebido por um trabalhador que, não perguntei, mas pareceu o mestre. Sem que eu o indagasse, ele explicou-me como estava ocorrendo a retirada as telhas, do forro e do madeiramento.
            Por uma questão de educação, não entrei em detalhe sobre a indignação que senti ao ver se descortinando aquele cenário absurdo . Até porque não havia muito o que conversar com a equipe que conduzia os trabalhos etc.
Eles foram contratados para fazer o serviço e estavam ali exercendo o seu mister. Não é regra que devam entender peculiaridades da história, nem as metodologias exigidas para reforma de patrimônios históricos.  Nísia Floresta tem muitas pessoas esclarecidas, que poderiam ter dado rumo diferente a essa fatalidade. Senti falta delas.
            Falamos do prédio mais antigo do município, erigido em 1735 e sua parte mais significativa concluída em 1755 (conforme um velho manuscrito que creio ainda se encontrar na Matriz). Não estamos falando de uma casinha de palha construída no “leirão” do engenho São Roque feita pelo “Seu Zé Preá”.
            Para os equivocados, a minha atitude pode denotar “estar atrás de confusão” etc. Nada disso! Revolto-me pela ausência de providências essenciais, que deveriam ter ocorrido antes da retirada de única telha. Faltaram reuniões com a participação de engenheiros civis e arquitetos especializados em patrimônio histórico, museólogos, estudiosos da história local e pessoas que sabem o valor daquela construção de 280 anos.
            O primeiro passo seria chamar uma equipe especializada no assunto, pois reformar algo excelso como a Sagrada Matriz de Nossa Senhora do Ó, prediz-se cuidado minucioso e extremado.
O piso, de azulejo hidráulico, deveria ser revestido inteiramente por lona grossa para não ser danificado; as imagens teriam que ser retiradas por equipe cuidadosa e guardada em lugar seguro. Foi inacreditável ver imagens raras, dignas de atenção minuciosa, ainda nos nichos, sob sol, vento, pó, fagulhos... e até mesmo acidente, pois peças de madeira podem despencar e atingi-las.
     NICHOS PERMANECEM COM AS IMAGENS CENTENÁRIAS EXPOSTAS A TODO TIPO DE DANO






















Os nichos deveriam ser guardados da mesma forma; as peças fixas de madeira de lei, com detalhes folheados a ouro deveriam ser encobertas por plástico de bolhas de ar (para impedir que partículas e entulhos agridam a película do referido metal). Há um procedimento rigoroso que faltou aos trabalhadores que ali estão, os quais não têm culpa, pois não existe acompanhamento competente por parte de especialistas na área histórica.
            Diante da significação histórica desse templo, todos os elementos retirados da sua estrutura, seja uma pedra, uma linha de ipê, um pedaço de viga, uma dobradiça, um prego, uma telha, uma tábua de forro, devem ser minuciosamente inspecionados por especialistas para análise sobre sua reutilização, restauração, e o retorno - ou não - para o lugar original.
            Pessoas equivocadas, que veem algumas peças retiradas da Matriz como “coisa velha”, “feia”, “descangotada”, “inválida” etc – portanto necessitadas de serem “jogadas no lixo” – devem se conscientizar que são peças únicas, que não podem ser manuseadas nem descartadas sem rigorosa análise (mesmo um pedaço aparentemente inválido de madeira).
Tudo o que está ali são pedaços de homens e mulheres, escravos, índios, enfim da comunidade católica que há séculos, arrastou com as maiores dificuldades do mundo, peça a peça para ser ali colocada, sem imaginar o que aconteceria no futuro.
É inacreditável que o coração da história de Nísia Floresta esteja sendo flechado pelo instrumento mais deplorável de um povo: a ignorância.
            Observei que existem pontos extremamente críticos na estrutura de madeira, podendo culminar com futuro desabamento. As fotos comprovam. Mas nada justifica o que está acontecendo.
Há muito tempo que as estruturas da igreja revelam necessidade de reforma. Isso não é de se estranhar, mas o grande segredo chama-se programação com devida antecedência.
Não precisa muito raciocínio para saber que mexer numa igreja desse porte exige mil olhares, inclusive de autoridades em Patrimônio Histórico.
            O povo nisiaflorestense precisa da garantia de que os novos materiais ali repostos – impossíveis de serem preteridos – sejam de madeira de lei. E para isso necessita-se de uma programação muito antecipada, pois gera despesa altíssima. A não ser que se queira substituí-los por pinus/eucalipto.
Nísia Floresta é um município humilde. A maioria dos católicos não têm condição de custear despesa desse porte. A dificuldade de arrecadação é grande, portanto precisa de programação. Já participei de várias e sei como é.
            Lembro-me, em 1992, quando o Padre João Batista Chaves da Rocha convocou o povo de Nísia Floresta para programar a reforma do citado templo.
Um ano antes de se mexer em qualquer detalhe da Matriz, foram convidadas os mais respeitáveis entendedores do patrimônio histórico.
Houve, posteriormente, de forma deliberada e programada, a organização de eventos para angariar fundos no próprio município, mas o grosso da reforma veio de incontáveis empresas privadas do Natal, pois o referido sacerdote empreendeu verdadeira via-sacra para arrecadar recursos muito antes de deflagrá-la.
Muitas empresas de Natal, Parnamirim e São José de Mipibu fizeram consideráveis doações. Somado a isso foram feitos pedidos de doações às famílias mais ricas do Rio Grande do Norte.
A reforma também abrangeu variadas restaurações, desde as portentosas linhas de ipê, colocadas ali há mais de duzentos anos, pelas mãos cuidadosas de marceneiros que as esculpiram à mão, aos moveis de cedro, mogno e outras madeiras nobres, além de restaurações de diversos objetos, imagens, inclusive com banhos de ouro puro, recuperação dos adornos de madeira de lei que embelezam as naves principais, cristais etc.
Aquela reforma significou um marco devido à dimensão, e porque o povo participou e foi provocado a participar. E todos os passos foram acompanhados por doutores no assunto. Cada detalhe original ficou intocável. Não se modificou nada que não tenha integrado a planta original de 1735.
Observei que a nave central está totalmente descoberta. Está ao relento. Se acaso chover (que Deus não permita isso), teremos uma tragédia histórica em Nísia Floresta, pois as paredes são feitas com pedras, barro amassado com cinza e sangue de baleia. Não há como a parede suportar o encharcamento, podendo ruir.
O procedimento correto para a reforma do teto é destelhá-lo a cada três metros, recompondo-o com os materiais pertinentes e assim sucessivamente, a cada três metros, tendo disponível mediante chuva, um esquema de lonas especiais, muito bem amarradas para não voar. Isso evita a infiltração de água pluvial. O espaço destelhado e sem madeiramento – como se encontra hoje – dificulta a cobertura com lona. Diante disso a igreja deve ser totalmente esvaziada, desde as imagens aos bancos.
Não me importo com quem não vai gostar deste texto, alegando bobagens, tipo “ele queria que desabasse na cabeça do povo” ou o que quer que seja.
O meu ponto de vista está explicitado acima, pois, diferente daqueles que são dados à apócrifos, costumo assinar meus escritos. Não o faço por rebeldia ou heroísmo, mas por abominar a forma equivocada dessa reforma. E não tenho medo ou receio. Ainda não nasceu quem me faça senti-lo. Ademais, não ajo por qualquer razão má.
Há pessoas que se rasgam em elogios de corpo presente – para agradar – mas, intimamente abominam o que elogiam. Estas, elogiam apenas para cultivar, não diria uma amizade, mas o poder de outrem.
Tenho impressão que Paulo Heider, Hélio de Oliveira (ambos da Fundação José Augusto), o Departamento de História da UFRN, e o IPHAN-Natal não estão sabendo dessa reforma.
Perguntei sobre o administrador da Paróquia de Nossa Senhora do Ó, disseram que não estava no município naquele momento.
Deixei a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó de Nísia Floresta, sábado passado, muito abalado, pois nunca imaginei que uma das construções mais antigas e bem conservadas do Brasil pudesse receber tratamento tão equivocado. Não pensem que vou agir com apostasia meramente pelo fato de me sentir revoltado. Pelo contrário!
A reforma realmente é necessária, mas é inconcebível – em pleno século XXI – se ignorar a metodologia correta de se lidar com o Patrimônio Histórico.
Por falar nisso, o que vão fazer com as telhas de mais de cem anos que estão no quintal da Matriz, muitas já esmigalhadas? Em 1992 todas foram arriadas – uma a uma – deslizando num mecanismo de tábuas, aparadas por um colchão velho.
O que farão com as imensas linhas de ipê de mais de duzentos anos que inacreditavelmente dizem que vão tirá-las? Espero que os nativos não saiam com eles nas costas para arder suas trempes. Soube que mudarão a posição do forro! Essa decisão parte de que tese? Todos poderiam concordar se tivesse fundamento histórico. Com a palavra Paulo Heider (mas cadê ele?).
            Não acredito em má fé de qualquer pessoa ligada direta ou indiretamente à reforma, mas o senso comum não pode sobrepujar o conhecimento e a cientificidade perante uma peça de incalculável valor histórico. Não há o que se discutir diante disso.
O fato de quem quer que seja não ter sensibilidade educacional, cultural e histórica, seja pedreiro ou quem quer que seja, não pode ser justificar tamanha insanidade.
Penso que os seminários pecam por não oficializar uma disciplina sobre o trato com o patrimônio histórico. Se houvesse tal cuidado não veríamos tantos equívocos praticados pelos próprios sacerdotes.
Foi nesses conformes que uma igreja secular, muito maior que a de Nísia Floresta – e de extraordinária beleza arquitetônica, foi demolida no início do século XX em Santa Cruz/RN para dar origem a um templo tosco e frio.
            A Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó de Nísia Floresta não pertence a um grupo ou a uma pessoa. Ela é de todos, portanto todos devem ser convocados (seja através das missas, das redes sociais, dos Correios, das emissoras de rádio etc) para deliberar a forma correta de empreender reforma e restauração.
            Onde está o povo de Nísia Floresta?
            Onde está o Bispo de Natal?
Onde anda o conhecimento?





















NICHOS PERMANECEM COM AS IMAGENS CENTENÁRIAS EXPOSTAS A TODO TIPO DE DANO

















terça-feira, 11 de novembro de 2014

RIBEIRA PEDE SOCORRO!



RIBEIRA... BERÇO DA HISTÓRIA DO NATAL
O que você pode fazer para salvá-la?

Sábado à tarde, 31 de outubro de 2014, estive na parte baixa da Ribeira, em Natal, acompanhado pelo meu filho que foi fotografá-la para amadurecer um projeto escolar para 2015. Enquanto ele fazia os registros foi aflorando em mim o desejo incontrolável de gritar contra tudo o que eu via.
O que prometia ser uma experiência agradável tornou-se uma sensação incômoda. Enquanto era bonita - artisticamente falando - a tonalidade envelhecida das paredes, harmonizando-se com o lodo ressequido, as parasitas, as rachaduras, as ruínas etc, era deprimente testemunhar o assassinato da história. Percebi que a Ribeira também grita. A Ribeira chora!
Como todos sabem, Natal começou por ali e é exatamente nesse lugar que resistem, embora quase em ruínas, suas construções mais antigas. Restam, em meio aos seus velhos armazéns, depósitos e casas comerciais – sobrados residenciais imprensados entre paredes centenárias, alguns em estado caótico. O cenário aflige a qualquer cidadão consciente das significações daquilo tudo.
Tendo ruído o telhado e o reboco, e desaparecidos belos frontões em alto e baixo relevos, vê-se apenas tijolões brancos, rejuntados com barro vermelho. Restam grades de ferro bordadas em rebuscados desenhos, sacadas com portas e janelas de madeira nobre, carcomidas, escadarias que findam no nada... vidros e cristais que despencariam ao leve toque.
Algumas paredes contam a sua história de maneira mais clara, pois conservam em alto relevo o ano da construção (alguns em algarismos romanos), os letreiros com o nome do comércio e até mesmo os produtos que vendiam. Num deles se lê: “objectos de escriptorio”, “accessórios para desenho”, e até mesmo a curiosa expressão “livros em branco” etc.
Certos prédios, apesar de deteriorados, não perderam a imponência. Uma das mais belas fachadas, e que aparenta não durar mais meia década, é a famosa “Samaritana”, onde o “Mamão-São-Caetano” se dependura na janela da sacada. Na sua lateral se enraizou uma árvore que resistiu anos dependurada. Recentemente sua raiz foi cortada e hoje está seca. O conjunto é fantasmagórico.
As ruas, como se sabe, não são ruas, mas becos. Alguns tão estreitos que somam doze palmos. Se um homem adulto abrir os braços entre as paredes que se defrontam, por pouco encosta as mãos em ambas. Alguns são intransitáveis devido ao lixo despejado pelos poucos comerciantes que restaram. Ruas e vielas fedem a urina e fezes. O lugar torna-se ainda mais – diríamos – sombrio, devido a quantidade de felinos que passeiam por ali, justamente pela proximidade do porto e do comércio de peixe.
Parasitas e trepadeiras invadiram as paredes e se entrelaçaram às grades de ferro. Muitos telhados ruíram. Sobrou apenas o frontão. Algumas fachadas escondem detalhes interessantes devido ao lodo seco e sucessivas demãos de tinta. Nos locais melhores conservados, mendigos e drogados fizeram “morada”.
Essa área antiga da Ribeira parece mais um cemitério que sepultou boa parte da história do Natal. Percorrê-la é se encontrar com a nostalgia. Chega a ser deprimente. Não há como não dar asas à imaginação e ficar pensando no “ruge-ruge” e no “vuco-vuco” que foi aquilo por séculos a fio... verdadeira “25 de março”. Vale lembrar que toda a movimentação acontecia a pé, pois em muitos becos não entra sequer uma carroça.
Saber que a “veia nervosa” do Natal foi a Ribeira soa inacreditável aos olhos atuais. Parece mais a Pripyat de Saraievo depois do fenômeno Chernobyl. Com a diferença de a “radiação” daqui ter o nome de “indiferença à história”.
Observei também que em meio a esse resto histórico que envergonha os órgãos públicos de fomento à cultura, sobram ruínas humanas. São homens e mulheres – jovens – vagando por ali, tais quais “malassombros”... restos de gente... muitos sob o transe do crack. Eles invadiram os prédios melhores conservados, onde dormem como ratos.
Dói na alma.
Quantos episódios marcantes ocorreram na Ribeira. Restam ainda a casa onde nasceu Pedro Velho há 154 anos... o Palácio do Governo (felizmente recuperado – é uma escola de balet), o “Sport Club do Natal” (cenário de tantos episódios do “Gizinha”, de Polycarpo Feitosa - Antônio de Sousa); o prédio da alfândega... a casa do Frei Miguelinho. Em sua parede esburacada encontra-se uma placa afixada ali há 108 anos, dizendo: “QUOD SCRIPSI SCRIPSI - 17 de novembro 1867 – 12 de junho 1817- Ao insigne patriota Miguel Joaquim de Almeida Castro - Frei Miguelinho - Ao povo do Rio Grande do Norte em commemoração cívica, no 89º anniversário de tua morte gloriosa, ufana-se de perpetuar nessa lápide, solenemente posta no próprio lugar em que nasceste, teu nome imortal de heróe e martyr” – 1906”. Pouco adiante, geográfica e temporalmente, a famosa casa de Câmara Cascudo, cujas palavras tornam-se insignificantes para descrevê-lo.
Não sei exatamente o que mais me impressionou... se foi o visual histórico jogado ao léu pelos governantes e pelas pessoas “esclarecidas”, muitas delas ocupadas por toda sorte de corrupção... não sei se foram as ruínas humanas destruídas pela droga e hipocrisia de governos, ONG’s, igrejas etc...
Ao longo de décadas as pessoas foram (e vem) saindo dali. A cada prédio “abandonado” aumenta o incômodo nos que ficaram. É uma reação em cadeia. O cenário parece incomodar aos que insistem em ficar. Recentemente o que saiu foi o Cartório. E assim segue a Ribeira velha...
Alguns entendem a Ribeira meramente como o projeto voltado para a “Rua Chile”. Não diria que foi ruim, mas houve uma restauração acanhada. Sua movimentação tem hora e data marcadas. Não é fluente... É só ir lá e checar.
O que sei é que precisamos fazer algo pela Ribeira.
Se for apresentado ao governo do Rio Grande do Norte um projeto à altura da Ribeira, esse bairro ressuscitará diferente. Não me refiro a trazer de volta o passado. Não se trata de preservar por preservar, mas dar funcionalidade, tornando-a um espaço vivo, útil e agradável em sua perspectiva histórica, turística, cultural, comercial e educacional. Falta à Ribeira rumo e utilidade.
Enquanto a Europa e diversos países têm sua economia fortalecida em becos e vielas medievais, a Ribeira, berço de Natal, verdadeiro tesouro, jaz abandonada. É um pedaço morto do Natal.
Em Marrocos existem espaços comerciais de cinco mil anos, mas cheio de vida, fortalecendo a riqueza do país. Curioso é que ali só transitam pessoas. O segredo está num conjunto de fatores que convergem para que todos – sejam turistas ou não – sintam-se atraídos pelo local.
O segredo é simples: comércio (que vende uma infinidade de produtos obviamente dentro da cultura deles, como ouro, tapetes tecidos, roupas etc), arte em suas múltiplas formas, artesanato, comidas e bebidas para todos os gostos... As atrações são incontáveis.
É lastimável que um espaço tão significativo como a Ribeira, reste ilhado, quase inútil. Essa situação serve de termômetro para entendermos nossos governantes e a nós mesmos enquanto povo. Esse desprezo é um ataque à história do Brasil. Tenham certeza que não demorará muito para que tudo aquilo vire pó.
Muitos alegam que suas ruas não comportam trânsito fluente, mas isso é ingênuo e mal intencionado diante das infindáveis significações desse bairro e de incontáveis soluções. Basta querer. É muito pequeno alegar questões de trânsito.
Urge aos governantes, às instituições diversas, à iniciativa privada e órgãos internacionais darem as mãos e construir um projeto ousado, levando para lá os comerciantes com diversidade de mercadorias e comes-e-bebes, o artesanato, as agências de turismo, os camelôs, os meninos com os seus tabuleiros, o teatro de rua, as vendedoras de tapioca recheada, as doceiras, os engraxates... o samba, o folclore, o batuque... as coisas dos shoppings. Por que não? Há tantas formas de revitalização..
Esse projeto deve estar atrelado às agências de turismo nacional e internacional, às instituições educacionais e culturais e a diversos órgãos governamentais. É imperdoável esse olhar míope e acanhado dado à Ribeira. Restam por ali, intactos, em meio a construções bicentenárias e de valor incalculável, prédios razoavelmente antigos como o BANDERN dentre outros, nos quais deveria funcionar até mesmo órgãos públicos, secretarias de turismo, cultura, educação etc. Ou até mesmo a administração da Ribeira, até porque se trata de um projeto amplo de revitalização.
A partir do momento que as partes de direito se sentarem para tal projeto, verão que o mesmo consistirá numa audácia diante das burocracias criadas por nós mesmos, mas não serão superiores à significação da Ribeira. Nem ao retorno que dará.
A Ribeira tem tudo para ser um espaço vivo de comércio, turismo e cultura. Mas que seja algo intenso, forte, fluente. A Ribeira pode se transformar num dos mais ousados, amplos e prósperos projetos de cultura e economia do Brasil, capaz de servir de modelo para outros estados e países.
Com o novo governo que se aproxima, com a nova equipe e com pessoas sérias que se descortinam no cenário político atual, creio que o momento é esse.
Vamos salvar a Ribeira! LUIS CARLOS FREIRE