ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos nesse aspecto. Os textos são de autoria de Luis Carlos Freire, o qual é um dos descendentes da família de Nísia Floresta pela parte da mãe, Maria José Gomes Peixoto Freire, cujas informações estão no livro "Os Trocos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti. O referido livro desenrola o novelo genealógico das famílias originárias de Goianinha, município próximo, de onde originou-se a família de Nísia Floresta, e pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade. Luís Carlos Freire é membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui inúmeros trabalhos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre a história do município homônimo e folclore regional. Uma pequena parte dessas publicações ainda não está completa e aguardam novos estudos, cujo autor entendeu ser útil disponibilizá-la. Algumas são inéditas. O acesso permite que os interessados tenham ao menos boa noção daquilo que buscam na internet, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de crônicas, artigos, fotos poemas, etc. O autor ministra palestras e pode ser convidado através do e-mail: brasilcentauro@yahoo.com.br e pelo fone (84) 8162.9323. SÓ É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A TRANSFIGURAÇÃO DAS FESTAS JUNINAS E ELEMENTOS DO FOLCLORE BRASILEIRO SOB O CRIVO DO PODER PÚBLICO E ALGUMAS DOUTRINAS EVANGÉLICAS - UM ESTUDO DE CASO



Eventualmente ouvimos pesquisadores, estudiosos e até mesmo pessoas comuns lastimando o desaparecimento ou a diluição de alguns elementos da cultura popular. Esses insights ocorrem quando é observada a ausência ou o desaparecimento de certas manifestações folclóricas, como por exemplo, uma dança, a festa que deixou de acontecer em certo bairro, os hábitos de determinada comunidade, aquelas palavras faladas pelos mais velhos, alguns ditos populares, o vendedor de beiju, a mulher que fazia cestos, a ‘louceira’, a benzedeira...
Essa constatação não parece ser exclusiva desse público, mas também das instituições governamentais de incentivo à cultura, as quais vem fazendo o possível para a sua preservação.
Parte considerável da juventude vê os elementos folclóricos com certo desprezo, principalmente quando conservam intactas a sua originalidade. Casos desse tipo podem ser constatados dentro das próprias famílias onde pais ou avós participam de grupos folclóricos. 
Nota-se maior aceitação quando se trata de grupos parafolcloricos, certamente pela diluição de muitas de suas características originais, as quais parecem não exercer o mesmo encantamento do passado. A impressão que se dá é que a juventude está mais atraída pela plasticidade moderna aplicada aos folguedos, além de não demonstrar receptividade aos atores originais, os quais, normalmente são pessoas humildes, desprovidas de vaidades de modo geral.
Normalmente os grupos parafolcloricos são oriundos de instituições culturais organizadas, universidades e escolas, cuja maioria dos atores não descendem de brincantes originais de algum folguedo. Esses grupos, quase sempre, recriam essa plasticidade com materiais modernos, que soam “agradáveis” aos olhos da juventude, em detrimento da rusticidade dos elementos usados por grupos originais. Essas constatações servem de termômetro, pois também revelam facetas de preconceito.
Acabamos de sintetizar uma observação sobre o modo como boa parte da juventude brasileira vem entendo a cultura popular, mas existe um fenômeno muito mais forte e que leva grupos folclóricos e elementos afins à extinção, como veremos adiante.
Muitos descendentes de brincantes de alguma manifestação folclórica sequer admitem ouvir falar da prática folclórica dos próprios parentes pelo fato de ter nascido num lar evangélico, ou ter aderido posteriormente alguma religião não católica, outros, por entenderem-na como “coisa de 12”, ou seja, antiquada, portanto ultrapassada.
As pessoas comuns - “povão” - que gostam de folclore - normalmente se comportam com certa nostalgia, buscando explicações para essa realidade, mas aqueles que lidam diretamente com alguma atividade folclórica, sabem que nas últimas décadas algumas religiões evangélicas vem causando a sua decadência gradual. Isso se torna mais sério quando a coordenação de grupos folclóricos ou os próprios brincantes são aqueles que deixam a sua antiga religião – ou a sua não-religião – para abraçar doutrinas evangélicas. Por mais que se perceba a abnegação dos responsáveis por tais grupos, as dificuldades para a continuidade são muitas.
É importante ressalvar que ao se fazer essa constatação não se quer condenar as religiões evangélicas que não toleram o folclore, mas registrar um fenômeno concreto promovido por elas. A propósito sequer serão mencionadas as denominações religiosas mais fundamentalistas nesse sentido.
Sabe-se também que existe desprezo ou interferência equivocada por parte do poder público no trato com a cultura popular, embora há exceções, mas a questão religiosa sobrepuja, pois é irreversível.
O poder público, ao ignorar as manifestações folclóricas pode até dispersar os brincantes e silenciá-los, mas não expurgará neles o talento nem a possibilidade de uma revitalização a qualquer momento, mas quando isso cai na alçada de algumas religiões evangélicas, ocorre realmente a extinção.
Para entender essa constatação é necessário ir a fundo e analisar quem são os cidadãos que protagonizam - ou protagonizavam - as festividades populares e qual o seu perfil. Seriam evangélicos, católicos, ateus, ricos, pobres, brancos, negros, índios, estrangeiros? ... Estariam os brincantes concentrados em áreas periféricas, nobres, no litoral, no interior do Brasil, nas capitais? ... Quem são os atores das manifestações mais significativas do folclore brasileiro? 
BRINCANTE DO "BUMBA-MEU-BOI" DE SÃO LUIZ - MA
Constata-se, facilmente, que não é possível encontrar evangélicos integrando ou coordenando grupos folclóricos, como o Boi-de-Reis, o Pastoril, a Lapinha, o Coco de Roda, o Bambelô etc. A maioria - se não toda - entende que a partir do momento que um cidadão adere alguma religião evangélica, “torna-se uma nova pessoa”, deixando de lado o que passa a chamar de “coisas mundanas”. Alguns são fundamentalistas e vão mais adiante, interpretando o folclore como “coisa do demônio”, haja vista o seu universo fantástico, lendário e mítico, no qual desfilam seres inumanos, capetas, bruxas, lobisomens... portanto “merecedores de desprezo” e dignos de serem combatidos.
Observe que esse fenômeno protagonizado pelos avangélicos interfere negativamente na cultura popular. Nesse aspecto, diante de exemplos de grupos folclóricos que recebem esse tratamento, destaca-se o drama “O Pirão-Bem-Mole”, da Comunidade do Porto, e um grupo de Pastoril, do distrito de Campo de Santana, os quais integram o universo folclórico do município de Nísia Floresta, Região Metropolitana de Natal, distando 36 Km, no estado do Rio Grande do Norte.
 O referido município, detentor de um patrimônio material e imaterial admiráveis, é exemplo clássico a engrossar o caldo da depredação.
O Drama “Pirão Bem Mole” é encenado por uma dupla: dona Raimunda, atualmente com 97 anos, que apresentava o folguedo até dois anos passados, e Salete, de 63 anos. O drama exibido de forma cantada e dançada, conta a história de uma senhora de 200 anos (é isso mesmo: duzentos anos!), a qual, ignorando a avançada idade, diz ao filho que deseja se casar. O rapaz a reprova, considerando errada a sua atitude. A discussão entre mãe e filho perpassa toda a canção com enredo hilário, levando o público a gargalhadas.
O autor do presente estudo incentivou longamente a exibição do referido drama – que já esteve quase extinto no meado de 1992 – tentando sensibilizar alguns filhos e netos a continuar a tradição, mas não logrou êxito, pois os seus descendentes de convívio diário tornaram-se evangélicos.
O AUTOR DO TEXTO E O GRUPO "PIRÃO-BEM-MOLE" (RAIMUNDA E SALETE)
A outra situação refere-se ao grupo de Pastoril, do distrito de Campo de Santana, que era coordenado pelo professor Gisaldo do Nascimento. A referida manifestação folclórica, formada por moças da localidade, alegrou durante vários anos as festividades locais, sofrendo lenta decadência que culminou com a sua dispersão.
O referido professor alegou que vários fatores colaboraram com o fim do grupo, sobressaindo-se o fato de algumas jovens terem se tornado evangélicas, outras, por proibição dos pais que se tornaram evangélicos e, por último, o desencantamento em virtude do encantamento promovido pelos modismos atuais, novos estilos musicais, enfim a mudança de pensamento da juventude sobre vários assuntos etc. O professor Gisaldo alegou que se esforçou para reunir o grupo por diversas vezes, mas os fatores negativos sobrepujaram a causa.

ESSE É UM "PASTORIL" DE OUTRO MUNICÍPIO, POIS NÃO ACHEI IMAGENS DO ACIMA CITADO - MAS ERA ALGO MUITO SEMELHANTE, PROTAGONIZADO POR MOÇAS E ADOLESCENTES
Após os dois exemplos acima, motivados por razão religiosa, analisa-se o segundo fenômeno. Pode parecer equívoco, mas o mesmo é motivado pelo Poder Público Municipal. O fenômeno é nada mais que a mudança de uma data comemorativa, cujo evento principal é arrancado do seu contexto original e jogado num contexto absolutamente sem nexo.
Essa prática recebe o nome de “fora de época”, por exemplo, “Carnaval fora de época”, “São João fora de época” etc. Mas nesse caso nos ateremos ao contexto junino, especificamente em Nísia Floresta onde tal “modismo” foi adotado há pouco tempo.  O evento, no caso, é um dos mais originais do Nordeste brasileiro, com forte carga de tradição: as festas juninas.
A cidade citada - Nísia Floresta - como não bastasse, mais uma vez protagoniza esse fenômeno. Nesse caso o advento do “fora de época” não é um grupo folclórico, mas um evento público tradicional, denominado originalmente de “São João do Interior”.
Criado em 1997, pelo poder público desse município, a referida festa se desencadeava justamente no mês nacionalmente junino. Iniciava-se no dia 12, data de Santo Antonio (o santo casamenteiro), e encerrava-se no dia 24 do mesmo mês, data de São João (batizador de Jesus), cuja deferência popular é ainda mais forte.
Nota-se que as festividades ocorriam no auge tradicional dos folguedos, considerando que mesmo depois de encerrada a festa promovida pela prefeitura, o clima junino continuava até o dia 29, data de São Pedro (o dono da chave do Céu), haja vista que as festas juninas, na realidade, compreendem o mês de junho apenas.
Em 2005 a Prefeitura Municipal, desse município, sob outra administração, mudou o nome do evento para “Festa do Balão” e o transferiu para o mês de setembro, período em que instituições públicas, pela lógica, deveriam comemorar o aniversário da Independência do Brasil, e não as festas juninas. No ano passado a “Festa do Balão”, sob terceira administração, ocorreu nos dias 1, 2 e 3 de setembro.
CARTAZ DA "FESTA DO BALÃO" DE 2013
A referida festa - quando da sua origem - primava pela valorização de elementos puramente juninos, desde a decoração com as tradicionais bandeirinhas, à animação motivada por quadrilhas e grupos de forró “pé de serra”. Nas primeiras horas da noite apresentavam-se os grupos musicais do próprio município e cidades vizinhas.
Uma das atrações eventuais dessa festa era a cantora nisiaflorestense Maria da Soledade, a qual fez fama no Rio de Janeiro cantando forró. A artista chegou a se apresentar durante duas vezes no Programa do Faustão, na Rede Globo e até hoje anima grandes eventos na “cidade maravilhosa”, sendo presença constante nos palcos da famosa Feira de São Cristóvão.
No auge da festa “São João no Interior” exibiam-se bandas atuais de forró para equilibrar os gostos, sem que a originalidade e os artistas da terra fossem relegados.
Curioso era o fato de a referida festa primar pelo que atualmente a sociedade denomina de “politicamente correto”, dissociando a imagem do ‘balão’ com o objetivo de não fazer apologia ao “brinquedo” causador de incêndios e danos a aviões. A festa “São João no Interior”, que passou a se chamar “Festa do Balão” não mudou apenas o nome original, mas a sua plástica, dando ênfase justamente aos balões, cuja ornamentação predomina o referido brinquedo desde a entrada do município ao centro do evento.
PREDOMINÂNCIA DO BALÃO
A propósito, os meios de comunicação, com destaque para a televisão, fazem campanhas contra o ato de soltar balão, justamente para dissociar a sua imagem das festas juninas. É interessante ressalvar que o citado evento não promove o ato de soltar balões, mas a sua imagem não deixa de ser incentivo.
Observa-se que o segundo fenômeno causador da degradação da cultura popular não é mais o público evangélico, mas uma instituição organizada, ou seja, a Prefeitura Municipal.  Curiosas são as nuanças de ironia que pincelam o cenário desse evento, pois justamente um órgão que deveria promover e incentivar uma festa popular – no período original – muda a data – e furta-lhe as suas características originais.
Curiosamente, a referida festa, que pela lógica “mundana” não deveria contar com o público evangélico, pelo fato de os mesmos não enxergar o evento com bons olhos, tem boa parte deles como fiéis apreciadores. Nota-se nesse caso um fenômeno esdrúxulo, ou seja, os evangélicos não podes promover as “coisas profanas”, mas ironicamente podem prestigiá-las e admirá-las. Em outras palavras não é correto praticar o pecado, mas é correto assisti-lo.
Se toda pessoa pudesse assistir as festividades juninas em cada região do Brasil, constataria serem incomparáveis às do Nordeste. Enquanto nos estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil, as festividades juninas nada lembram a beleza, originalidade e criatividade existentes unicamente no Nordeste - em plena Nísia Floresta, município nordestino bicentenário e repleto de riquezas folclóricas - o poder público local adere a um modelo equivocado de comemorar o São João.
Como não há nexo nessa transferência de data, resta-nos questionar o que motiva os governantes a fazê-la. Há uma explicação, obviamente, mas não parece justa, pois não é ocasionada por fenômeno histórico ou algo convincente, mas, infelizmente, pelo lado destrutivo da política partidária.
O fenômeno de mudar as comemorações juninas de junho para setembro, mês da Independência, no qual ocorrem desfiles cívicos e eventos afins, impinge ao povo a prática desapercebida de se matar a tradição original. Nota-se claramente o antagonismo dessas duas datas comemorativas e a notória incapacidade de fundi-las, até porque não há encantamento nem graça em associá-las. O advento do “fora de época”, ao atender a interesses políticos e econômicos equivocados, acaba significando uma prática inconsequente, cujos causadores não se importam em prejudicar as tradições folclóricas.
A mudança pode até parecer algo insignificante por consistir apenas numa transferência de data, mas tal barganha traz fortes prejuízos para a cultura popular, haja vista que se transfere uma festa, mas não se transfere as suas simbologias. Move-se uma data mas não segue junto a magia das suas significações. O sentimento popular original, cheio de riquezas vai se definhando paulatinamente por não receber a deferência tradicional.
Isso pode passar despercebido aos que não têm olhos para a cultura popular ou não a valorizam, mas consiste num dano sem precedentes. Tal mudança deseduca as novas gerações e lhes tira a oportunidade de vivenciar o encantamento promovido pelo seu contexto original.
Lembremos alguns detalhes, antes de nos aprofundar nas reflexões. Entendamos que o município de Nísia Floresta, assim como outros municípios do Nordeste, traz as festas juninas “no sangue”. Sabe-se, obviamente, que o povo não precisa de uma instituição pública para se sentir motivado a comemorar as Festas Juninas. Mas a partir do momento que um órgão público transfere um evento típico de determinado momento para outro, inicia-se um processo gradual de descaracterização, o qual pode levar à sua extinção.
Isso ocorre porque a nova geração absorve a nova proposta sem questionamentos, pois desconhece as suas características originais. Para a maioria da nova geração não é interessante contemplar o que ficou para trás, pois soa ultrapassado. No caso da festa junina, mesmo que seja transferida para julho, agosto ou setembro, a perda de sua essência é a mesma.
As crianças e os jovens se moldam naturalmente ao ambiente onde se desenvolvem e fortalecem os seus laços sociais e culturais. A partir do momento que estão nesse contínuo e equivocado processo, passam a entendê-lo como normal e obviamente irão perpetuá-lo aos seus filhos.
Diante dessa transfiguração, percebe-se a perca sofrida pela cultura popular, pois não se compara o mês de junho – com toda a sua carga folclórica – com setembro – propenso ao contexto de civismo. Ademais, cada mês têm as suas evocações e características. Como dizem: “Cada mês têm o seu romantismo”.
O mês de junho possui uma riqueza de elementos folclóricos, os quais formam um cenário mágico: as comidas típicas de milho, as fogueiras, as ruas enfumaçadas, as bombinhas, os cordões de bandeirolas, as promessas, as canções, as lamparinas penduradas nas janelas, as simpatias, as quadrilhas matutas e estilizadas, e outras atrações que afloram naturalmente nas casas e ruas.
ASPECTO DE UMA FOGUEIRA NUM CLIMA PURAMENTE TRADICIONAL

Essas manifestações espontâneas normalmente têm outros fatores que ampliam a alegria e a beleza do momento: as chuvas ligeiras, os milharais espalhados pela zona rural, as montanhas de milho transportadas em carroças e caminhões, despejadas nos comércios ou nas ruas, onde o as famosas “mão de milho” são vendidas incontinentes. Há quem diga que aguarda com ansiedade dois momentos imperdíveis do ano. O Natal, por seu mistério, e o mês de junho, por sua magia.
Diante do fenômeno de mudança de data, surge o questionamento: qual o motivo de se transferir uma festa junina para um período totalmente fora do seu contexto original?
É exatamente nesse momento que detalharemos o aspecto da política partidária e seus vícios, citado anteriormente. A mudança de data visa única e exclusivamente atender os interesses políticos/partidários dos governantes, haja vista a proximidade com o mês das eleições que se dá em outubro. A festa, portanto, se transforma numa espécie de palanque eleitoral.
Observa-se que essa mudança visa tirar proveito na conquista dos eleitores, haja vista que uma parcela considerável entende a sua cidadania como “pão e circo”. É justamente nessa festa que desfila a representação do poder executivo, os vereadores, senadores, deputados e governador (a) - todos visando a reeleição. A festa sai do campo do folclore para o campo da politicagem, atingindo assim o seu tendencioso objetivo.
A festa, nesse caso, é usada como instrumento de promoção de candidatos a cargos políticos. É até compreensível tal encenação – à luz da ausência de uma educação crítica – não fosse a injustiça cometida contra um momento tão significativo da cultura popular.
Nota-se nesse equívoco a total falta de criatividade da maioria dos governantes. Nesse caso, já que boa parte não valoriza ou apenas dilapida a cultura popular, deveria usar uma data comemorativa em seu contexto original.  Se tais governantes fossem criativos, deixariam a festa junina nos seus conformes originais - fazendo ou não politicagem - e criariam um evento específico para o seu desfile político/partidário, inclusive numa data ainda mais próxima da eleição.
O dia 7 de setembro calharia muito bem, justamente por consistir numa prática formal, com solenidade, palanque etc, na qual os candidatos estariam expostos a massa popular. Ao invés de promover uma distorção cultural, eles estariam promovendo uma data significativa e, como são oportunistas, teriam nesse evento o momento certo do seu exibicionismo político/partidário.
DESFILE COMEMORATIVO AO DIA DA INDEPENDÊNCIA - CLIMA CONTRADITÓRIO COM FESTA JUNINA

A “Festa do Balão” versão 2014 ocorreu nos dias 29, 30 e 31 de agosto, ou seja, não se deu no mês dos desfiles da independência. Estaria resolvido o problema? Não! Sabe-se que a partir de meados de agosto as instituições educacionais e militares estão direcionando esforços para os projetos da semana da pátria, os quais culminam obviamente com o desfile cívico. Agosto é mês alusivo aos pais, ao estudantes e ao folclore. O espírito junino pertence ao mês de junho, portanto, seja qual for o mês do “fora de época”, a descaracterização é a mesma.
Sabemos que a cultura popular, de certo modo é flexível, pois a necessidade obriga. Mas há exceções. Alguns grupos folclóricos deixam de lado pequenos detalhes de suas manifestações folclóricas por motivo justo, mas resistem quase que intactos. O folguedo “Pau-Furado”, por exemplo, não usa mais o tronco de madeira, nem o couro de raposa para a percussão por razões de preservação do meio ambiente. Seu lugar foi ocupado pelo atabaque, que é um instrumento industrializado, mas o efeito do som é o mesmo.
O referido folguedo originalmente usava lenha cortada nas matas para fazer uma fogueira que esquentava o ‘pau-furado’, tornando o som mais audível. Não havia preocupação com a preservação da natureza. Desse modo colaboravam com o desmatamento, inclusive de madeiras nobres. Hoje, o grupo se serve de madeira de árvores frutíferas que apresentam problemas - como cupins ou velhice - e exigem o corte.  
Existem manifestações que resistem há séculos intactas, outras, como o exemplo do “Pau-Furado”, necessitaram de pequenas mudanças feitas com racionalidade. Pesquisadores e folcloristas reconhecem a necessidade de interferências do tipo acima, desde que não cause danos e não descaracterize a essência.
FLAGRANTE DE UM GRUPO DE PAU FURADO

Essa linha de pensamento não apregoa que não devam ser valorizados os grupos totalmente descaracterizados, os grupos parafolcloricos ou as releituras, mas clama sobre a necessidade do devido cuidado com a originalidade daquilo que se quer promover como folclore tradicional.
Muitos podem alegar que outros fatores também devem ser responsabilizados com a descaracterização ou extinção de elementos da cultura popular, mas nenhum é mais forte que os dois acima analisados, pois são fatos.
Sabe-se que a mídia exerce um poder indescritível sobre a juventude, e não há como reverter isso, pois tal fenômeno não é inteiramente negativo. Informações de todo tipo chegam instantaneamente aos jovens. As músicas exercem um poder viral em todas as demais formas de comunicação. Junta-se a elas a questão da dança e da roupa (a moda).
É exatamente a música, a dança e a roupa o ponto chave da questão. Os grupos folclóricos trabalham com música, dança e figurinos diversos, os quais destoam anos-luz do que se vê na mídia.
Tal modernidade encanta a juventude de forma admirável. É mais fácil ver meninas e meninos cantando, imitando e se propondo a dublar nas escolas e em ambientes promotores da cultura as artistas Beyonce, Lady Gaga, Shakira, Madonna etc, que usando a mesma energia para apresentar um “Pastoril”, uma “Lapinha”, um “Congo de Carçola”, nos quais as canções, as roupas e as danças soariam “bizarras” diante da sua formação educacional e cultural. E elas não podem ser apedrejadas por isso, pois são fruto do meio.
Pode-se afirmar, nesse caso, que o próprio povo acaba sendo promotor dessa descaracterização, até porque é maioria. Mas quando se constata que esse povo reflete a educação que recebe, e que nas escolas e nos ambientes culturais não se enaltece com ênfase as raízes populares, não se pode atribuir responsabilidade tão somente ao povo.
Faz-se necessária, portanto, a reeducação na juventude. Urge aos governantes assumir concretamente a responsabilidade de preservar o seu patrimônio material e imaterial, construindo com a juventude o devido zelo, respeito e identificação. E esses governantes nunca devem abrir mão de comemorar as festividades folclóricas no seu período tradicional.   
 Quando as pessoas são educadas a conhecer e se identificar com as suas raízes, com certeza terão prazer em promovê-la. A salvação do Brasil está em sua cultura popular. LUÍS CARLOS FREIRE



terça-feira, 2 de setembro de 2014

CASO BERNARDO - O REFLEXO DE "PAIS" MONSTROS

Assisti a reportagem do “Caso Bernardo”, ontem, no Fantástico. Revoltante! Percebe-se claramente que o pai e a madrasta foram os causadores do seu comportamento agressivo. O fato de dois adultos trocarem juízo o tempo todo com a criança gerou um menino aparentemente violento. O que esperar de uma criança educada num lar infernal?
Todas as fotos divulgadas na mídia mostram uma criança que se socializava bem com todos. Por vezes alegre e feliz. Isso deixa claro que fora do lar ela se sentia bem. Creio que o seu comportamento “violento” era um grito de desespero e medo. Era a solução que ela encontrou para se defender do pai e da madrasta com fortes indícios de psicopatas. O garoto vivia diariamente acuado, tenso e numa pressão psicológica infernal.
Normalmente, madrastas e padrastos são pessoas estranhas (principalmente quando estas são crianças). É natural que sejam rejeitadas. O grande segredo está na conquista dos filhos alheios (até porque será formada uma nova família). Quem se propõe e se casar com pessoa que possui filhos, deve se preparar para formar uma nova família, aceitando-os e conquistando-os naturalmente. Há casos de madrastas do bem, mas essa assumiu mesmo a porção mostrada no clássico conto de Perrault.
Percebe-se que enteado e madrasta se rejeitavam. O inexplicável da questão é que ela, por ser adulta (e “ocupar” o lugar da mãe falecida), deveria buscar maneiras de conquistar a criança aos poucos. O garoto era carente em aspectos fundamentais para a sua formação. Um deles era a afetividade. Como se não bastasse, assistia o casal se desdobrar em carinho com o bebê, filho da madrasta com o pai. Para a mente de uma criança tão maltratada, isso era outro tipo de tortura.
O pai, médico e dono de clínica, a madrasta enfermeira. Ambos reuniam todas as condições possíveis para construir uma saudável família. Mas, pelo contrário, se uniram contra o ser mais frágil da família. O pai é tão pior quanto a madrasta, pois permitia e instigava o sofrimento do filho.
O comportamento da madrasta demonstra uma pessoa problemática e incapaz de assumir o filho não biológico. Faltou a ela sensibilidade para conquistar a criança cuja mãe biológica cometer o suicídio.
O pai provoca o filho de forma assustadora, acuando-o como uma fera atrás da presa. Sua voz traduz prazer em provoca-lo. Não dá para acreditar nem para compreender se não se tratasse de dois psicopatas. Num dado momento a gente se assusta com a atitude da criança, a qual pega uma faca e depois um facão e mostra como quisesse se defender. Nota-se pelo olhar, que o garoto revestiu-se desse “menino violento” para sobreviver na “selva perigosa” que era seu próprio lar, mas seu olhar pedia socorro.
O casal incita o garoto a morrer. Num dado momento o menino realmente pede para morrer. A madrasta fala com a criança com sarcasmo e deboche, xingando a mãe biológica e chamando-a de “vagabunda”. O garoto parece enlouquecer ao escutar ofensa a quem ele mais amava. Crueldade pura! A cena na qual ele se tranca num armário denota uma convivência infernal com o casal. Stress máximo. A criança vivia em constante desespero. A madrasta ameaça-o, dizendo “você não sabe do que eu sou capaz”. Justamente o lar era uma escola de violência e humilhação.
Pessoa equivocada pode achar que o garoto era mal ou tinha índole ruim. Quem sabe até supor tratar-se de um forte candidato a matar os pais no futuro (inclusive ouvi isso de alguém), mas tenha certeza que não! Ele era fruto do ambiente onde vivia. Estava sendo moldado pela estupidez de dois adultos que se satisfaziam de forma doentia. O que desse errado no futuro – acaso ele não fosse assassinado – seria consequência desse casal diabólico. Precisa inferno pior?
Mesmo que essa criança agisse assim por consequência de alguma patologia, jamais mereceria tal tratamento. Por ser sadio, pelo menos se defendeu o quanto pode. Infelizmente nada pode fazer quando a madrasta o dopou. Suponho que ela ainda tenha dito horrores em seu ouvido, quando ele entrava em estado de letargia e nada mais podia fazer.
Enquanto educador e pai, vejo tais pessoas como psicopatas. Senti muito a morte dessa criança. Sinto por saber que existem muitos Leonardo por esse Mundão de Deus, sofrendo nas mãos desses seres doentes, cruéis e covardes. Pais ou padrastos devem proteger os filhos – biológicos ou adotados – e não torturá-los ou matá-los.
Infeliz dessa criança que foi parar justamente nas mãos de psicopatas. Meus sentimentos aos seus familiares. Espero que haja justiça! LUIS CARLOS FREIRE

terça-feira, 29 de julho de 2014

ARIANO SUASSUNA: PILAR DA NOSSA BRASILIDADE

                                                                  OBRIGADO, MESTRE!

Sempre admirei Ariano Suassuna, antes mesmo de o “Auto da Compadecida” se tornar um clássico da TV brasileira. Não há como não tirar o chapéu para esse escritor genial, que, ao contrário do que alguns pensam, deixou vasta obra. Sua inteligência, seu bom humor, suas críticas, a maneira de se expressar, a voz, o sotaque... tudo isso lhe emprestava um contorno especial e prendia a atenção de quem assistia a suas palestras, suas “aulas espetáculo” e suas entrevistas. Tive o privilégio de assisti-lo por duas vezes. Bastava o homem falar que não tinha como não prestar atenção com admiração.
Atrás do criador de “Chicó” e “João Grilo” existia o criador de diversas personagens de grande significação para a brasilidade com ênfase à ‘nordestinidade’. Sua aparência, seu jeito aparentemente simplórios escondiam um filósofo que escrevia com a finalidade de instigar o homem ao pensar, sem poupar opiniões muitas vezes ácidas e incômodas a quem quer que fosse.
O “Auto da Compadecida”, por exemplo, carregado de humor, permite ao leitor (e telespectador) fazer sérias reflexões sobre diversos assuntos. Um deles é a hipocrisia de alguns religiosos.
Quando Ariano Suassuna publicou tal obra, teve problemas com a Igreja Católica pelo fato de mandar para o inferno justamente aqueles que, aparentemente, tinham lugar certo no céu – e mandar para o céu aqueles que, aparentemente, tinham lugar certo no inferno. Óbvio que ele precisou de ‘panos de fundo’ para ambientar sua criatividade, pois a forte carga de hipocrisia contida em muitos personagens é a mesma em pleno século XXI. E permanece obviamente em muitos religiosos, com exceções, independente de igrejas.
O paraibano radicado há décadas no Pernambuco é autor de ensaios, crônicas, artigos, romances, peças de teatro além de ter criado o “Movimento Armorial”, cuja proposta é interessantíssima. Em vida publicou 16 livros.
Alguns o criticam pelo fato de ele ser conservador e tradicionalista no que se refere às manifestações folclóricas e a Música Popular Brasileira. Não o vejo assim. É certo que vivemos num mundo globalizado e com influências instantâneas em tudo (moda, música, dança, linguagem, gestos etc), mas enquanto os demais países vivenciam tudo isso e preservam a sua própria cultura, nós, brasileiros, esquecemos da nossa, vivenciando apenas a cultura dos outros.
Tem muita gente que torce o nariz quando se fala de “Boi-de-Reis”, “Pastoril”, “Bambelô”, “Congada”, “Boi-de-Mamão”, Agnaldo Rayol, Maria Betânia, Caetano Velozo, Núbia Lafaiette, Nelson Gonçalves, Maysa etc etc etc. Ele nos levou a pensar que boa parte dos jovens brasileiros tem vergonha da sua brasilidade. O que não é novidade, mas quando um homem da sua dimensão atinge as massas e os ambientes mais acadêmicos com tal discurso, é ótimo. Grosso modo, era simplesmente isso o que Ariano Suassuna criticava de forma ácida.
Sobre boa parte do repertório da MPB (clássicos, bregas etc) ele não poupava ironias, levando as plateias ao delírio com colocações fantásticas, tipo “é uma esculhambação da mulesta”. Se ele dava uma exagerada em algumas opiniões sobre x ou y, é digno que o tenhamos relevado mediante tudo o que ele foi.
Até parece que ele queria que tudo tivesse parado no tempo, mas engana-se quem assim pensa. Ariano Suassuna criticava o fato de o Brasil negar a sua raiz e enaltecer o que veio de fora. Ele entendia que o Brasil deve valorizar o que veio de fora desde que tenha qualidade, mas sem que a “internacionalidade” sobrepuje a “brasilidade”. Esta deve estar em primeiro lugar.
Ariano Suassuna detonava o lixo colocado onde quer que seja. Ele fazia reflexões sérias e importantes sobre a linguagem chula, vulgar, pornográfica e sem nexo que chega ao povo através de diversas manifestações artísticas, alienando as pessoas ao invés de despertar nelas o espírito crítico. Ele dizia que “lixo não é arte”, “lixo não é música”, “lixo não é cultura”. Na concepção dele o “velho” deve caminhar junto com o “novo”, desde que esse “novo” seja algo que possa somar positivamente, e não enaltecer o lixo. O “velho” pode até sofrer mudanças, mas do tipo que você lerá abaixo.
Não há como evoluir sem sofrer mudanças - nem mesmo a arte - mas que as mudanças não interfiram na essência, nem agridam a estética. Era mais ou menos assim que ele pensava. E que boa parte de nós pensamos.
Dia desses eu conversava com uma pessoa sobre uma manifestação rara, ainda em voga em São José de Mipibu, chamada “Pau Furado”. No passado os brincantes se serviam de toras de uma madeira hoje em extinção, a qual era ‘ocada’. Essa peça fazia as vezes de um atabaque para batucar as canções. A pele era de raposa ou algo assim. A todo instante os dançantes esquentavam a pele de tal instrumento numa fogueira que faziam ao redor. Desse modo o som ficava mais audível.
Hoje, eles usam instrumentos musicais modernos, e nas raras vezes que fazem fogueiras, adquirem gravetos de mangueiras ou árvores frutíferas velhas, pois não se pode destruir as matas para fazer zabumbas ou fogueiras. E assim vai. Porém, a essência não morre, que são as canções, o bailado, a indumentária, a mesma alegria contagiante de séculos passados.
Ariano criticava a acanhada falta de políticas públicas em prol da cultura, principalmente em governos anteriores, a ausência de uma reeducação para a tal brasilidade a partir dos primeiros anos escolares etc.
Tenha certeza que esse genial intelectual era um dos pilares da nossa cultura, da nossa história, da nossa literatura, da nossa brasilidade.
Torço para que com a sua morte não se definhe o patrimônio que ele tanto defendeu, e que, com certeza, deve estar dentro de cada um de nós, aliás, ele próprio era um patrimônio monumental. LUIS CARLOS FREIRE.

domingo, 27 de abril de 2014

EM TEMPO: ANIVERSÁRIO DE MORTE DE NÍSIA FLORESTA

EM TEMPO: ANIVERSÁRIO DE MORTE DE NÍSIA FLORESTA
          
Eu havia preparado uma homenagem para Nisia Floresta no início do mês, mas não foi possível publicar no período certo, pois precisei ir ao Mato Grosso do Sul e ao interior de São Paulo, onde passei 15 dias. Creio que ainda esteja valendo, afinal o seu aniversário de morte deu-se no dia 24 de abril de 1884. Estamos no referido mês. Na realidade esta homenagem não é para a sua morte. A data da sua morte serve para lembrarmos dessa importante intelectual brasileira, cujos feitos servem de exemplo para todos aqueles que não aceitam injustiças sociais e gritam bem alto contra os tiranos e opressores da sociedade. OBSERVAÇÃO: As fotos são aleatórias e trazem explicações nelas mesmas. Outras têm legendas ou textos pertinentes.


            
        Inaugurado em 12 de outubro de 1909, para celebrar a passagem do 1º centenário do nascimento de Nísia Floresta. Em suas faces está escrito:
         A leste: Deste Ninho, até agora ignorado, levantou voo altaneiro a notável norte-riograndense a quem a mocidade rende esta homenagem.
  Lado Oeste: “Votre touchante composition est irrévocablement placée dans le tiroir sacré qui ne contient que la correspondence exceptionelle. Respect e sympathie. AUGUSTE COMTE”. Carta de 29 de agosto de 1857.
   Lado Norte – NÍSIA FLORESTA. 1809-1909. 12 de outubro. Papari.
       Lado Sul: O Congresso Literário, reunido em Setembro de 1909, sob os auspícios do exmº dr. Alberto Maranhão, seu presidente de honra e Governador do estado, resolveu erigir este monumento.

PANFLETOS IGUAIS A ESTE, NUMA QUANTIDADE DE 10.000, FORAM DESPEJADOS DE UM AVIÃO SOBRE O CORTEJO QUE ACOMPANHOU A SOLENIDADE DA CHEGADA DOS  DESPOJOS DE NÍSIA FLORESTA, EM 1954, NO MUNICÍPIO QUE JÁ POSSUÍA O NOME DE NÍSIA FLORESTA/RN.

ESSA EFÍGIE FOI O QUE RESTOU DO MONUMENTO DE 1911,  DESTRUÍDO POR VÂNDALOS, CUJA IMAGEM VOCÊ VERÁ ABAIXO.

VEJA A IMAGEM DE NÍSIA FLORESTA, LOGO ATRÁS DOS DEMAIS PRECURSORES DA LUTA EM PROL DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA BRASILEIRA - O MONUMENTO PODE SER VISTO NA 'PRAÇA DA REPÚBLICA' - RIO DE JANEIRO.







            Monumento a Nísia Floresta, em Natal. Inaugurado em 19 de Março de 1911, na Praça Augusto Severo. Obra de Corbiniano Vilaça e do escritor francês Edmond Badoche. Medalhão de bronze aposto a uma stela de granito, com incrustrações em bronze; uma palma e datas do nascimento e morte. Feito em Paris, sob a orientação de Henrique Castriciano.

HISTÓRIA DO TÚMULO DE NÍSIA FLORESTA NO BRASIL



         O documento abaixo, intitulado “O TÚMULO DE NÍSIA FLORESTA” foi transcrito, portanto seu teor foi preservado conforme o original. Por esse motivo o leitor poderá observar algumas palavras escritas/ou acentuadas diferente da atualidade. O mesmo raciocínio de aplica ao fato de o autor ter usado duas formas para se referir ao município onde Nísia Floresta foi sepultada: “Ruão” ou Rouen. O correto é a segunda.

O TÚMULO DE NÍSIA FLORESTA

Comunicação ao INSTITUTO HISTÓRICO e GEOGRÁFICO do Rio Grande do Norte, pelo sócio ADAUTO MIRANDA RAPOSOS da CAMARA, em 31 de maio de 1950.
O jornalista Orlando Ribeiro Dantas, diretor do <>, do Rio, excursionando pela Europa, viajou até Ruão, especialmente para localizar a sepultura de Nísia Floresta Brasileira Augusta, a insigne norte-riograndense, que, nascida em Papari, se impôs ao respeito e à consideração de um escol intelectual europeu, na centúria passada.
Quando partiu pra o Velho Mundo, em Fevereiro último, o ilustre conterrâneo, que estremece a nossa Província e a conduz no coração para toda a parte, me confiou que ia visitar Nísia em seu eterno abrigo, que vagamente se sabia existir naquela cidade francesa. Henrique Castriciano, certa vez, me declarou possuir uma fotografia do túmulo, mas nunca tive a oportunidade de ver, alegando ele que se extraviara.
Por intermédio da Federação das Academias de Letras do Brasil, procurei, em 1938, obter uma certidão ou atestado do enterramento de Nisia Floresta, interessando-se, nesse sentido, o Itamarati, a que se forneceram minuciosos elementos para diligências junto às autoridades francesas. A resposta, solícita e gentil, foi, no entanto, desalentadora: o Consulado Geral do Brasil no Havre, apesar de sua boa vontade, nada logrou de satisfatório, pois que a Prefeitura de Ruão informara haver mandado proceder as buscas nos registros do Estado Civil, <>.
Foi preciso que um rio-grandense do Norte, do Ceará-Mirim, se trasladasse até lá, em 20 de abril de 1950, sessenta e cinco anos após a morte de Nisia, disposto a reencontrar o túmulo esquecido. Em circunstanciada carta que me dirigiu, da qual, em seguida, transcrevo em longo trecho, teve a gentileza de comunicar o feliz êxito de seus beneméritos esforços a este seu coestaduano e velho amigo, autor de uma biografia de Nisia Floresta.

"Regressei ontem de EU, depois da visita que fiz a Rouen, ao Havre e a Dieppe. Cheguei a Rouen a 20 de e me hospedei no “Hotel de La Poste”. Logo depois, rumei ao cemitério. Tomei o bonde nr. 19, para apreciar melhor o panorama da cidade. Lá do alto, onde fica Bonsecours, pude ver, em conjunto, quase toda Rouen. Ao chegar ao portão do cemitério, dirigi-me a uma senhora velha, que ali vende postais e todas essas pequenas coisas que agradam aos turistas. Disse-lhe que ia visitar o túmulo de Nisia Floresta Brasileira Augusta, ao que ela me declarou que não havia ali esse túmulo. Estranhei a segurança com que dava sua informação, ao que explicou: - Moro aqui há 40 anos, conheço todo o cemitério e nunca vi essa sepultura”. Como eu insistisse, mandou a velha que uma rapariga que a ajudava, me acompanhasse à casa do sr. Menard, que tinha, ao que disse, todos os assentamentos relativos ao cemitério, pelos quais iria verificar que ela estava certa. O velho Menard, muito atencioso, procurou, eu a seu lado, os apontamentos, notas, e registros que possuía. Não encontrou o nome de Nisia Floresta. Falou, a seguir, da Mairie de Bonsecours, para a qual, depois das 14 horas, poderia eu apelar. Advertiu-me, entretanto, que os seus apontamentos eram sempre mais completos que os da Mairie.

Ma Mère
Nisia Floresta Brasileira
Augusta
Née le 12 octobre 1810
Décédée
Le 24 Avril 1885
--
Livia Augusta

Gade
Le 26 Avril 1912
À l’âge de 82 Ans.
CONCESSION PERPETUALLE
           
O túmulo, embora nunca visitado por ninguém, está em ordem e relativamente limpo. Dei à velha e à menina 400 francos e fiz as minhas recomendações a elas e ao secretário. Enviei, nestes poucos dias, cópias das fotografias tiradas. Como disse, em cartão-postal enviado de Rouen, deixei, à beira da sepultura de Nisia, duas lagrimas, uma sua e outra minha, ambas, sem dúvida, por nós e por todos os nossos conterrâneos. Madame Gade, depois Veuve Gade, née De Faria, morou em Rouen, na Route Paris, 121.

            Do Gesto de Orlando Ribeiro Dantas resultou sabermos agora:
a)    que Nisia Floresta está realmente sepultada em Ruão;
b)    que sua tumba não está abandonada;
c)    que a inhumaram cristãmente. Nisia sucumbiu a uma pneumonia aos 24 de abril de 1885, recebeu o conforto da Religião Católica. (V. minha História de Nisia Floresta, Rio 1941, Pongetti Edits, 211 pgs.
d)    Que ela nasceu a 12 de outubro de 1810, e não em 1809, conforme supunham quase todos os que estudaram a sua vida. Devo dizer que, naquele citado livro, aceitei a versão generalizada, por falta de documentos em contrário, mas sempre fiz minhas ressalvas, sempre manifestei minhas desconfianças, conforme se encontra em uma conferência que fiz em março de 1938, no Rio, e publicada no 2º Vol. De Conferências da Federação das Academias. Disse eu, então (pg. 105 – “Vários autores se equivocaram quanto à data do falecimento, dando-o como tendo ocorrido a 20 de Maio de 1885 (Vieira Fazenda, Blake, etc). Lendo-se O PAIZ, de 27  de Maio e o convite para missa feito por José da Silva Arouca, dissipar-se-ão todas as dúvidas. A controvérsia pode girar em torno do ano exato em que nasceu, que há motivos para afirmar ter sido em 1810.
A lápide funerária, cuja inscrição conhecemos, graças a Orlando Ribeiro Dantas, é uma fonte de história. A filha devotíssima é que ditou os dados referentes a Nísia, gravados no granito, e certamente ninguém saberia melhor, naquela época, o genetlíaco da excelsa potiguar.
Daqui se conclui que as comemorações de 1909, no Rio Grande do Norte, promovidas pelo Congresso Literário, foram antecipadas de um ano... mas por culpa da mesma filha, que, aos 79 anos, com a memória enfraquecida, prestou “esclarecimentos” à comissão do centenário de Nísia.
Na laje foi insólitamente estampada a idade de Lívia, 82 anos, ao falecer em Cannes, aos 26 de abril de 1912. Ela nasceu em Recife, em 12 de Janeiro de 1830, pelas nove e meia da noite, a mesma hora em que Nísia nasceu, conforme se lê nos Conselhos à Minha Filha (Rio, 1842). Aproveito a oportunidade para retificar um lapso tipográfico constante de minha História de Nísia Floresta, pelo qual a data natalícia de Nísia teria sido 12/1/1832. Aliás, Augusto Comte, a quem Nísia há de ter transmitido a indicação, a deu como nascida em 1835 (o pai se finara em Porto Alegre, em 1833...), pois que lhe atribuiu a idade de 22 anos, em 1857, como se lê na carta de 29 de março de do mesmo ano a G. Audiffrent.
Orlando Ribeiro Dantas prestou mais um meritório serviço aos que investigam sobre a grande vida da maior mulher de letras do Brasil, de quem o Rio Grande do Norte se orgulha de ter sido o berço.
Êle é talvez o primeiro norte-riograndense que foi homenagear sua memória, nas terras da França, - representante legítimo dos sentimentos de seus comprovincianos, - depois de uma paciente peregrinação pelas repartições públicas de Ruão e pelas avenidas silenciosas do Campo Santo de Bonsecours.

Rio de Janeiro, 31 de Maio de 1950.

Adauto Miranda Raposo da Câmara

Colégio Metropolitano – R. Dias da Cruz, 241. Meyer.

P.S. Remeto cópia das fotografias com que Orlando Ribeiro Dantas me obsequiou. Mandei fazer ampliação da que representa a laje sepulcral. Com o auxílio de uma lente, a inscrição poderá ser claramente lida".
                                    Adauto da Câmara


HISTÓRIA DO TÚMULO DE NÍSIA FLORESTA NO BRASIL - RELATÓRIO DO PRESIDENTE DA ACADEMIA NORTE-RIOGRANDENSE DE LETRAS SOBRE A CONSTRUÇÃO DO MAUSOLÉU DE NÍSIA FLORESTA.

           
“Não havia transcorrido dois meses da nossa posse quando surge na imprensa desta capital uma campanha contra as autoridades do município de Nísia Floresta, com tentativa de envolver, mais tarde, a Academia de Letras, pelo fato daquelas autoridades não terem providenciado a construção do mausoléu da escritora Nísia Floresta Brasileira Augusta, cujos despojos há quase dois meses haviam sido depositados na igreja daquela cidade, onde permaneciam, ainda, insepultos, por falta de uma providência naquele sentido.
            Em face da campanha da imprensa e da impassibilidade da Prefeitura Municipal de Nísia Floresta, resolveu a Academia, por unanimidade dos seus membros, assumir a responsabilidade da construção do Mausoléu, promovendo os meios de torna-lo realidade. Tomada essa deliberação seguimos na mesma semana para aquela cidade onde, em companhia do contador Jovino dos Anjos, do professor Gonzaga Galvão, do construtor Alvaro José de Melo e do pedreiro José Cirino dos Santos, entramos em contato com o Prefeito local, Sr. José Ramires, e o Presidente da Câmara Municipal, Coronel João Marinho de Carvalho pondo-os ao corrente da situação e comunicando-lhes a resolução da Academia. Aquelas autoridades se solidarizaram de pronto com a iniciativa, e, embora não fizessem de prático para remover a situação criada, em parte por elas, não se opuseram, porém, à ação da nossa entidade. Nada mais exigia também a Academia para Nísia Floresta, senão que lhe dessem liberdade de ação e meios para realizar aquele objetivo. E foi o bastante. Voltamos no mesmo dia a Natal e no dia seguinte publicamos a primeira notícia no Diário de Natal, anunciando o começo do trabalho. Desta data em diante nunca mais deixamos de trabalhar pelo Mausoléu da escritora. Havia ali no sítio onde nasceu a escritora um monumento construído em cimento armado e alvenaria, cercado por um muro em péssimas condições. O Monumento era baixo, medindo, se muito, dois metros e meio de altura. Demos ordem para o construtor para elevar o monumento à altura compatível com a sua estética, revestindo-o ainda de marmorito harmonizando-o com a vestimenta do Mausoléu que é idêntica à do monumento. O muro velho foi igualmente derrubado, construindo-se um outro mais amplo e espaçoso, de acordo com as necessidades do conjunto. A natureza do trabalho, em grande parte do marmorito, exigia operários especializados, contratados em Natal, encarecendo, portanto, a mão de obra. Ao lado dessa circunstância devemos lembrar a inconveniência de um serviço feito na ausência do seu principal responsável. Além da falta de transporte, lutávamos ainda com a exiguidade de verbas para esse fim, só podendo visitar o serviço de oito em oito dias, ora em automóvel de aluguel, ora em carros de amigos particulares. Logo após os primeiros preparativos para a construção do Mausoléu, verificamos a necessidade de mandar confeccionar uma planta, tendo o construtor Alvaro José de Mélo, autorizado por nós, convidado o engenheiro Sousa Lelis para apresentar o projeto, sendo esse feito pelo referido profissional, nada custando à Academia. O mesmo, diga-se de passagem, aconteceu com o construtor Alvaro José de Mélo que, tomando a direção técnica do serviço a nosso pedido nada exigiu da nossa entidade prestando-lhe os mais relevantes serviços durante a construção do Mausoléu e a reforma do Monumento. Conforme prometemos, pessoalmente, e em notícias veiculadas em jornais da cidade, aqui deixamos a demonstração dos auxílios recebidos para a construção do Mausoléu e a sua respectiva aplicação, firmadas nos documentos da despesa. Os auxílios recebidos durante toda a campanha foram os seguintes: 

Governo do estado...................................................5.000,00
Prefeitura de Natal...................................................1.000,00
Luís Velga................................................................1.000,00
Dr. Aldo Fernandes..................................................1.000,00
Aguinaldo Vasconcelos............................................1.000,00
Santos & Cia Ltda............................................1.000,00
Imp. Severino Alves Bila S/A....................................1.000,00
Imp. Dinarte Mariz S/A.............................................1.000,00
Miguel Carrilho........................................................1.000,00
Dr. Roberto Bezerra Freire.......................................1.000,00
Luís de Barros.........................................................1.000,00
Sebastião Correia de Melo..........................................500,00
Pedro Augusto Silva...................................................500,00
Wandick Lopes...........................................................300,00
Sebastião Ferreira de Lima.........................................300,00
Oton Osório de Barros................................................200,00
Walter Pereira.............................................................200,00
Araújo Freire & Cia. ............................................200,00
Cunha &Maia......................................................200,00
Álvaro d’Araújo Lima...................................................100,00
Enico Monteiro............................................................100,00
Gurgel Amaral & Cia. .........................................100,00
Henrique Santana.......................................................100,00
João Rod....................................................................100,00
Sergio Severo.............................................................100,00
Euclides Vidal de Lira... .............................................100,00
Severino Souza Ribeiro.................................................50,00
Bruno Batista................................................................50,00
Lindolfo Gomes Vidal....................................................50,00
TOTAL:..............................................................C$18.250,00

      Esses auxílios foram angariados por uma comissão composta do Presidente da Academia, do Acadêmico Hélio Galvão, do industrial Luis Veiga e do contador Jovino dos Anjos: o terceiro, amigo devotado das letras, cujo interesse pelas coisas do espírito e da inteligência não será preciso ressaltar porque é de todos conhecido; o quarto, natural da cidade de Nísia Floresta, colocou desde os primeiros momentos a serviço da causa comum, cooperando por todos os meios para a sua realização.
        As despesas que se elevaram ao total de Cr26.710,00, conforme documentos arquivados, tiveram por objetivo os seguintes serviços: - destruição do muro velho e construção de um muro em alvenaria rebocado, caiado e pintado; elevação do antigo monumento, de dois metros e meio (2’2) para cinco (5) metros de altura todo revestido de marmorito; iluminação elétrica de todo o conjunto, com material novo e de primeira qualidade; construção do piso interno e da calçada ambos a mosaico.
           Confrontando-se a Despesa e a Receita do Mausoléu e do Monumento, ver-se-á que houve um déficit de Cr$8.460,00, coberto pelas rendas ordinárias da Academia.
            Os documentos assinados pelas casas fornecedoras do material e pelo mestre da obra, José Cirino dos Santos, dirão melhor, na mudez dos seus algarismos, do que a linguagem dos relatórios com todas as suas minúcias.
         Devemos lembrar que nessas despesas não foram incluídos os trabalhos técnicos e de administração do engenheiro Souza Lelis e do construtor Álvaro José de Melo, cujos serviços foram gratuitos e porisso mesmo merecedores da nossa gratidão e do nosso reconhecimento. Não foram igualmente computados aqui os tijolos e a areia fornecidos gratuitamente pelo Capitão João Marinho de Carvalho, Presidente da Câmara Municipal de Nísia Floresta.
            Não foram incluídos mais os seguintes materiais e obséquios, doados e prestados por várias pessoas, cuja menção manda a justiça que se faça: -
1.Pedro Paulino de Carvalho, terreno para ampliação da área do muro;
2.Carlos Gondim, um portão e uma grade de ferro;
3.João Suassuna, seis alqueires de cal;
4.Galvão Mesquita, Ferragens S/A, quarenta quilos de ferro e dois quilos de arame fino;
5.Casa Lux Ltda. Quatro tubos de ferro de ¾ para eletricidade, fora o que foi comprado posteriormente; 
6.Antonio Justino & Cia. Dezessete latas de mármore, fora o que foi comprado posteriormente.
7.José Silva, dois sacos de cimento “Zebú”, fora o que foi comprado posteriormente;
8.José Martins, seis alqueires de cal para traço e uma lata da cal virgem;
9.Um anônimo, viagem de carro para Nísia Floresta;
10.Wandick Lopes, viagem de Jeep a Nísia Floresta;
11.Um anônimo, viagem de Jeep a Nísia Floresta;
12.Dr. Raimundo França, viagem de Jeep a Nísia Floresta;
13.Prefeitura de Natal, viagem de um caminhão a Nísia Floresta;
14.Carlos Gondim, trouxe e levou várias vezes, material de construção para o Mausoléu de Nísia Floresta;
15.Base Aérea de Natal, viatura posta à disposição da Academia para condução dos convidados no dia da inauguração do Mausoléu e do Monumento;
16.Pedro Augusto Silva, Carlos Gondim e Tenente Barros e Senhora, lanche preparado e servido em Nísia Floresta no dia da inauguração do Monumento;
17.Osório Dantas, viagem de Jeep a Nísia Floresta, com a colaboração do jovem estudante Walter Lopes que serviu de motorista;
18.Instalação da luz do Monumento e do Mausoléu, a cargo do eletricista Manuel Silva e do seu respectivo auxiliar;
19.Prefeitura Municipal de Nísia Floresta, placa em alto relevo, confeccionada por importante firma de Belo Horizonte, Minas Gerais, cuja doação muito recomenda o bom gosto e a compreensão do Prefeito José Ramires, e do Presidente da Câmara Municipal, Coronel João Marinho de Carvalho. É de justiça salientar o interesse do contador Otacílio Ximenes Jales, representante da referida firma, nesta capital, que tudo fez para que a confecção da placa de Nísia Floresta se realizasse na presente gestão da Academia de Letras.
Não foram incluídas, enfim, muitas despesas miúdas que pela sua natureza escapam ao registro de quem dirige. Concluído o trabalho do Mausoléu e do Monumento reuniu-se a Academia, marcando a sua inauguração para o dia 3 de abril de 1955. Efetivamente, naquela data, daqui partiu a Academia em viatura gentilmente cedida pelo Comando da Base Naval de Natal, ali chegando às 9 horas e fazendo logo depois o trasladamento dos restos mortais da escritora da Igreja local para o Mausoléu a ser inaugurado. O acontecimento está registrado no livro de Atas da Academia que por sua vez recolhe as assinaturas das pessoas presentes.”


PLACA DE NÍSIA FLORESTA

“Neste final de relatório cabe-nos uma referência especial à Prefeitura Municipal de Nísia Floresta que, por intermédio do seu prefeito, Sr. José Ramires, e do seu Sub-Prefeito, Capitão João Marinho de Carvalho, deu uma demonstração que poucas vezes se tem visto neste pedaço do território brasileiro que é o Rio Grande do Norte. Queremos nos referir ao gesto nobre e elegante que teve aquela edilidade fazendo doação à Academia Norte-Riograndense de Letras de uma belíssima placa em alto relevo para ser afixada no Mausoléu da insigne escritora e educadora e patrícia. A placa será colocada brevemente e não é sem emoção e sem um profundo reconhecimento de gratidão que agradecemos àquelas autoridades, em confiança e solidariedade que deram à nossa instituição, como que premiando-a pelos grandes esforços que dispendera na realização de tão árdua e difícil missão. Não deve ser esquecido aqui o nome do Sr. Otacílio Ximenes Jales, representante da firma de Belo Horizonte, que tanto se interessou pela confecção e pelo aprimoramento da placa em questão”.
Natal, 26 de janeiro de 1956