ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que navegam nessas águas. Os textos são de autoria de Luís Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. O parentesco ocorre pela parte das raízes da mãe do autor deste blog, Maria José Gomes Peixoto Freire, neta de Maria Clara de Magalhães Fontoura, trineta de Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, descendente do Capitão-Mor Bento Freire do Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra, dos quais descende a mãe de Nísia Floresta, Antonia Clara Freire. Essas informações podem ser encontradas no livro "Os Troncos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti, um dos maiores genealogistas brasileiros. O referido livro pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade de nome homônimo. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de lendas, crônicas, artigos, reproduções de reportagens de interesse nacional, fotos poesias, etc. É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA. Posso enviar alguns textos por e-mail, já que é um blog protegido. OBS. Só publico comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone, pois repudio anonimato.

sábado, 8 de agosto de 2020

Lenda da Lagoa do Bonfim

LENDA DA LAGOA DO BONFIM 


Essa é uma estória velha, dos tempos da Papari emoldurada de indígenas e roças de milho e macaxeira. Antes de contá-la, é bom saber que o nome original dessa lagoa era Puxi, de “ipu-xim”, que significa: a fonte, o manadouro brilhante, faiscante, pelo aspecto das águas transparentes; ou ipo-xi: água-má, imprestável por não ser piscosa. Era a sua denominação oficial até 1762, quando a Vila de São José foi fundada. Frei Serafim da Catânia não gostou do nome e o mudou para Bonfim - ou Bom-Fim, em 1863. Os padres proibiram que os nativos usassem o nome "Puxi", dizendo que era indecente. Assim os nativos foram obrigados a usar a denominação religiosa.

Os moradores antigos contam que, ao despontar os primeiros raios de sol, uma moradora abalou-se até um “olho d’água” existente próximo de sua choupana de palhas de coqueiro. Era hábito dos nativos apanharem a primeira aguada matinal para a serventia da casa. Diziam ser mais pura. Eles enchiam vários potes de barro, cabaças, e levavam para casa. Como era de costume, a nativa foi com os filhos pequenos, abasteceu as vasilhas e aproveitou para lavar roupas numa pedra grande, deixada ali com essa finalidade.

“Olho d’água” é uma expressão muito usada na região para se referir a nascente natural de água (fonte). E nela os nativos recolhiam água para abastecimento humano, dos animais, roças e lavagem de roupas. A região onde aflora “olho d’água” estende umidade nas proximidades, onde correm fiapos de água à flor da terra. Esse “olho d'águaebulia vistosamente, cuja água, de tão transparente, deixava visível as pedrinhas fazendo malabarismos, como se flutuassem. Contam que quando uma pessoa pulava em pé no “olho d’água” e permanecia com todo o corpo ereto, flutuava. As golfadas de água empurravam a pessoa para cima. Nada afundava ali.

Pois bem, enquanto a mãe lavava roupas, a meninada se divertia, pois a água mais afastada dava no tornozelo, sem perigo de se afogarem. Eis que logo as crianças começaram a brincar com umas cabaças de “coité”, deixadas ali por outras lavadeiras. Elas enchiam as vasilhas e jogavam água umas nas outras, e a mãe ali, atenta de ouvido... 

Eis que elas sentaram na água e começaram a bater o fundo da cabaça na lâmina de água... pá...pá...pá...pá...pá...pá...pá...pá... Conforme batiam, a água espirava longe. Assim eles brincavam e gritavam muito, como fazem as crianças nesses paraísos deliciosos de infância. Não perceberam nada até então. Porém teve início um fenômeno estranho: as águas começaram a se avolumar muito. Os jorros borbulhavam com força em vários pontos assustando as crianças. Assustada, a mãe correu desesperada, gritando para que todos saíssem dali. Era tarde. 

Eles correram, desesperados, mas parece que o destino lhes reservava o encantamento. Seja qual fosse a direção que tomassem, eram surpreendidos por redemoinhos rebentando, engolindo o que tivesse próximo. Eles ainda conseguiram correr em sete direções, mas as águas eram implacáveis. Logo não sentiam mais o chão. Em poucos minutos a lagoa se espraiou assustadoramente, num formato de sete pontas diferentes, sepultando árvores e terras incontinenti.

Infelizmente, como um tangolomango, a mãe e as crianças se transformaram numa imensa serpente multicolorida que desapareceu no leito da lagoa. Foi a partir do surgimento da lagoa que os antigos deram-lhe o nome de lagoa “Puxi”. Contam que em noites de lua a serpente costuma emergir e vagar nas águas. Já houve pescador que saiu dali desesperado, assustado com o tamanho bizarro da serpente. Raramente ela é vista, pois a luz da lua, refletida nas águas em constante movimento, emite milhões de pontos de luz. Assim o ente fantástico vagueia despreocupado, camuflado nas águas faiscantes.

Durante muitos anos todos buscavam explicações sobre o surgimento misterioso de tanta água. Mas um velho cacique, muito sábio, contou que as crianças realizaram o mistério que acordou o mar submerso naquelas areias brancas. Ao baterem na água as crianças despertaram um encanto do início da criação da Terra, gerando o fenômeno que criou a lagoa. O mistério estava exatamente nas batidas sucessivas das cabaças na água. Por esse motivo as profundezas da terra se sentiram despertadas a explodir-se em lagoa. Sem querer, as crianças desencantaram um manancial. E fazia parte do encanto que quem despertasse a lagoa se transformasse em serpente.

Assim surgiu a lagoa “Puxi”, nome dado pelos indígenas, depois mudado pelos padres Jesuítas que ali chegaram para evangelizar. Batizaram-na “Lagoa do Bonfim”. 

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OBS. Ouvi essa versão do meu tio Júlio Amaro Freire, em junho de 1992. Ele faleceu aos 98 anos, em 2018. Existem outras versões, inclusive registradas aqui mesmo neste blog, pois sempre respeito  forma como os nativos me contam, mas é importante ressaltar que todas têm a mesma arquitetura. O que muda é o conjunto de elementos que essa arquitetura recebe. É isso que torna bela a oralidade. Aqui você encontrará também uma releitura minha sobre a lenda. Se você tiver curiosidade, é só buscar na lupinha, lado esquerdo, acima... Boa leitura!

Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto Fontoura, herói durante a Guerra do Paraguai.

 Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto Fontoura, herói durante a Guerra do Paraguai. 


VISITANDO A MINHA PRIMA MAIS IDOSA: MARIA DOLVES...
 
Maria Dolves, nome que aprendi a ouvir desde criança na voz da minha mãe Maria. Quantas lembranças de suas infâncias e mocidades. Maria Dolves, 88 anos, cérebro privilegiado. Ela narra episódios antiquíssimos com riqueza de detalhes. Sua marca registrada é acolher muito bem as visitas e retirar poeira de velhas histórias. Como deve ser bom envelhecer com o cérebro intacto. Sua casa é uma espécie de museu. Guarda uma galeria antiga dos nossos antepassados, onde se inclui o nosso lendário tio-tataravô Major Manoel Cornélio Barbosa Cordeiro Peixoto Fontoura, herói durante a Guerra do Paraguai. 
Observe que numa das fotografias ele está num palco, onde é homenageado por Getúlio Vargas em Belém do Pará. Major Cornélio também fundou a cidade de Santo Antonio do Tauá, no Pará, conforme registram os anais da História, também dispostos em toda a internet. Com relação a Guerra do Paraguai, acho esse episódio deplorável, mas se ele foi considerado herói foi por um contexto daquela época. Teve os seus motivos. As demais fotografias são do marido de Maria Dolves José Soares, ex-combatente, grande homem. OBS. A visita deu-se a exatos 12 meses, bem antes da Pandemia, por isso estamos sem máscaras.

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

"Loucomotivas" da Great Western Co. ltd.

 



'LOUCOMOTIVAS' DA GREAT WESTERN... 
 
Findadas as obras da "Estação Papary", e mais adiante, a "Estação Mipibu", as esdrúxulas locomotivas trilharam os ferros da Great Western... idos de 1881. Tais quais "Café Com Pão”, eram barulhentas pra Bandeira! Ao longe estrondavam aproximação. Discrição nunca lhes foi característica. Pudera! Comiam lenha e arrotavam fumaça! Surgiam em cúmulos-nimbos preto e branco sombreando matas, impingindo fuligem aos roupões dos passageiros, salvo os que usavam "guarda-pó". Respeite os abastados! Modernas Marias-Fumaça, “lajeslizando” dia inteiro, ligeiras, ora Guarabira... ora Natal... ora pro nobis... (quando vinha o bispo Dom Adauto!). Assim restou o tempo, hoje amarelado em retratos...
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OBS. As fotografias registram locomotivas inglesas UFSC, dos tempos que transitavam os trilhos da Great Western e Sampaio Correia, aqui no Rio Grande do Norte.
 

Memória de Papari - 1937 - A chegada do trem

MEMÓRIA DE PAPARI -1937... 

Deputados estaduais, prefeito, autoridades militares, civis e eclesiásticas acompanham obras de saneamento, próximos à Estação Ferroviária em Natal.

De repente a locomotiva "Catita" número 3 rouba a cena. Surge, barulhenta, bufando seu fumacê, "lageslizando" nos trilhos, rastando vagões de ferro e gente... Uns, descerão na Estações Mipibu, mas as mulheres vendedeiras de mangaba, camarão, grude e pecado maneiro, apearão na Estação Papari.
Até onde houver trilhos, haverá gente cuidando da vida, ganhando a vida... gente de ganho... Apesar de miúda, força de gigante. Catita é potente. Arrasta toneladas de ferro...Desde 1906 cumpre árdua missão. 

Fabricada na Inglaterra em 1902, chegou ao Rio Grande do Norte com quatro anos de caixa. Cheirava a London! Nunca mais parou. Parou foi Natal... povo assustado...
"chegou um bicho de ferro, que se move sozinho... É mais forte de que mil cavalos... mas mil cavalos não levam a responsabilidade da Catita.. fim dos tempos... Bem disse mo pai... haverá um dia que a roda grande entrará dentro da rosa pequena..."

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Nordestinidade em decadência.


NORDESTINIDADE EM DECADÊNCIA 
Há 27 sete anos, quando coloquei pela primeira vez os meus pés no Rio Grande do Norte, encontrei praticamente “outro país”. Da mesma forma seria o potiguar fazendo viagem contrária, pois somos países dentro de um país. Como não poderia ser diferente, as diferenças culturais variam na linguagem, alimentação, música, danças, formas de relações humanas, tradições, hábitos etc etc etc. Essa é a maior riqueza do Brasil: suas peculiaridades. 
Câmara Cascudo escreveu em 1934 que haveria um dia que o homem do interior estaria falando igualzinho ao homem da capital, atribuindo esse processo ao fenômeno do rádio. As ondas sonoras acessíveis a todo o estado, levavam o modo de falar do natalense a todos os rincões norte-rio-grandenses. Desse modo espalhava-se as gírias, os vícios de linguagem, os neologismos, e as sintaxes novas, enfim a “modernidade” natalense chegava ao homem do campo, o qual, muitas vezes nem sabia onde ficava a sua capital, mas agia como se ali morasse. 
Analisando essa reflexão, emprego o mesmo raciocínio na questão de uma espécie de decadência da nordestinidade em terras potiguares. Poderia ser apenas influência externa sem grandes impactos, mas observo que de fato é decadência mesmo, pois já é possível enxergar muitos grupos modificados culturalmente. Às vezes observo pessoas que nasceram e cresceram aqui no estado e tenho dúvidas se elas de fato são mesmo potiguares. Não entendam que defendo o engessamento da cultura, ou que, saudosista, quero o passado de volta. Não é isso, afinal nem tive esse passado, pois não nasci aqui. Minha observação diz respeito a minuciosa observação sobre mudanças impactantes na cultura norte-rio-grandense, fruto da influência do eixo Sul/Sudeste e de outros países. É fenômeno impressionante. 
Essa desnordestinização está presente na música, na literatura, na linguagem falada, na cultura popular, na dança e numa sucessão de tradições e hábito conforme veremos. Quando cheguei ao Rio Grande do Norte, em 1991, recordo-me que trouxe muitas fitas cassetes com músicas predominantemente da minha região. Eventualmente eu pegava o aparelho de som e deixava a música rolar, principalmente aos sábados. Lembro-me que vários vizinhos me perguntavam que músicas eram aquelas. Uns detonavam. Outros achavam interessantes. Não entendiam como alguém podia ouvir Tonico e Tinoco, Almir Sater, Tetê Espíndola, Hermano Irmãos, Chico Rey e Paraná, Dino Rocha, Zé Correia, Tião Carreiro e Pardinho, Elinho, Irmãs Galvão, As Marcianas, Lourenço e Lourival, Milionário e José Rico e outros. Sempre gostei do sertanejo de raiz, o chamamé (que é uma influência paraguaia desde que o MS surgiu na geografia do Brasil), assim como as guarânias. 
Nascido na terra de Almir Sater, eu não poderia trazer em minhas memórias o gosto musical por bandas como Forrozão Chacal, Banda Grafite, Ferro na Boneca, Forró do Muído, Impacto Cinco, Terríveis, Cavaleiros do Forró, Colo de Menina, Banda Líbanos, Desejo de Menina, Mala Sem Alça e uma infinidade de outras bandas e grupos musicais que embalavam o Rio Grande do Norte desses últimos tempos. É óbvio que não há brasileiro que não conheça Luiz Gonzaga, Elba Ramalho, Fagner, Zé Ramalho e uma infinidade de clássicos da música nordestina, mas estou me referindo às bandas locais que tocavam dia e noite nas emissoras de rádio no período entre 1991 a 2000 mais ou menos. 
Certa vez uma professora perguntou quase se benzendo: “como você consegue ouvir esse tipo de música”? Uma amiga às vezes zombava de mim, dizendo que eu adorava “choradeira e cantor miando”. Tinha aversão aos ritmos sertanejos (estou falando do sertanejo dos anos 90 para trás: música de verdade). Na realidade, gosto de todos os estilos musicais: clássico, sertanejo tradicional, rock, orquestras, enfim todo tipo de música predominantemente dos anos 90 para trás, pois depois disso surgiu um sertanejo esquisito, tão esquisito que denominaram “sertanejo universitário”. Hoje, aparece uma pérola no sertanejo! Na realidade, nunca mais vi nem pérolas. 
Pois bem, nos anos 90 quase nenhum potiguar apreciava a música sertaneja de raiz. Confesso que naquele tempo conheci apenas uma pessoa que gostava (um pouquinho) porque tinha passado um tempo no interior de São Paulo. Atualmente parece haver uma globalização dos estilos musicais com prejuízo para o Nordeste, salvas as devidas exceções. Não estou generalizando. Digo “com prejuízo” porque se um potiguar for ao Rio de Janeiro, a São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul não verá a influência do forró por ali, tampouco sua supremacia. Mas isso ocorre por aqui – ao contrário - ou seja, os potiguares deram uma esquecida do forró de raiz para abraçar o estilo musical sertanejizado. Digo assim porque o que vemos, hoje, é uma coisa nova e esquisita denominada “sertanejo”, mas não é. O cantor cearense Wesley Safadão é um protótipo da transição do forró com um misto de sertanejo universitário e outros estilos. 
O próprio Luan Santana, que iniciou carreira com excelente influência do sertanejo tradicional no Mato Grosso do Sul, tornou-se uma espécie de Wesley Safadão do Sertanejo. Sua música não reflete mais os ares sertanejos do seu estado de origem. 
Outra figura curiosa é Michel Telló, um artista completo, mas mutante. Para quem não sabe, ele iniciou a carreira no Mato Grosso do Sul, no início da década de 90, numa banda chamada “Tradição”, coisa esquisitíssima. Era um pedaço do Rio Grande do Sul no Mato Grosso do Sul. Havia o predomínio do “Vaneirão”, ritmo gaúcho. Inclusive estudiosos de Cultura sul-mato-grossense o criticam muito pelo fato de ele ter contribuído com a diluição do sertanejo sul-mato-grossense, imputando ritmos gaúchos. Depois que Michel Teló se projetou nacionalmente o sul-mato-grossense até achou bom, pois não o viu tão presente por ali, descaracterizando a música local com uma cultura que não era do Mato Grosso do Sul. Um exemplo de artista com forte respeito às suas raízes é o genial Almir Sater. 
Mas, retornando ao Rio Grande do Norte, observa-se uma influência maciça da música sertaneja, abrangendo de norte a sul do estado, muito embora se trate de um sertanejo descaracterizado. São poucos cantores potiguareis atuais que se inspiram em Luiz Gonzaga (que é uma verdadeira enciclopédia do Nordeste). Suas músicas são poemas belíssimos, que encantam. Conhecer Luiz Gonzaga é conhecer o Nordeste. Distanciar-se de Luiz Gonzaga é distanciar-se do Nordeste. É perder a identidade e assumir identidade alheia. Suas músicas revelam a nordestinidade na sua forma mais pura. Trata-se de uma fonte inesgotável de saberes e tradições do povo nordestino, sem contar suas melodias, seu modo impressionante de se apresentar ao público etc. Poucos potiguares se inspiram em Fagner, Zé Ramalho, Belchior, Clemilda, Marinês, Dominguinhos, Elino Julião, Alceu Valença, Canários do Reino, Genival Lacerda, Rita de Cássia, Sivuca, Trio Nordestino, João do Vale, Sirano e Sirino, Flávio José e outros. Quais artistas atuais se inspiram ou estudam os forrozeiros potiguares Marcos Lopes, Forrozão cabra da Peste, As Nordestinas, Forró Meirão? Em outros estilos, quem se inspira nos artistas potiguares Ismael Dumangue, Donizete Lima, Ademilde Fonseca, Dusouto, Núbia Lafaytete etc etc? 
Não se trata de doutrinação do forró, até porque as pessoas são livres para os seus gostos musicais. Os estilos musicais são múltiplos e estão em todo o Brasil. E devem ser assim mesmo. Minha reflexão se prende a questão de o forró, que nasceu no Nordeste, sofrer considerável descaracterização - pasmem! -  provocada pelos próprios potiguares. Quando algum mecenas do forró aparece para salvar o forró verdadeiro e a nordestinidade, soa como algo folclórico e até mesmo pitoresco, como se o forró fosse uma coisa que desonrasse. E esse comportamento se justifica com a releitura das palavras de Cascudo, mas numa dimensão incomparavelmente maior e mais impactante, graças às redes sociais, canais fechados de TV, Youtube, enfim uma infinidade de mecanismo que tornam o rádio de Cascudo fichinha. O povo potiguar está se permitindo influenciar muito mais pelas coisas que vem de fora de que as coisas de sua própria identidade. O forró, que deveria estar presente nos 365 dias do ano, parece mais restrito ao período junino, como se fosse meramente um elemento folclórico. Isso se parece com a Rede Globo, a qual se lembra do Nordeste apenas durante o São João. 
Dia desses houve uma overdose de sertanejo universitário no Arena das Dunas. No segundo dia de venda de ingressos, esgotou tudo. O estádio superlotou. Contam que se formaram “pipocas do sertanejo” do lado de fora do estádio, numa quantidade quase igual aos que estavam dentro do show. No palco estava Maiara e Maraísa, Marília Mendonça, Jorge e Mateus e muitos outros. Isso não seria questionável se até hoje, na história do Rio Grande do Norte, nenhum show com artistas nordestinos gerasse tanto público. 
Questionável! 
Vá ao Rio Grande do Sul e veja se eles dão esse trato à cultura deles. São quase bairristas. Primeiro a cultura deles. Depois as influências externas, desde que não sobrepuje os gauchismos. O que é de fora é enxergado como efêmero de cara. Vá ao Pernambuco e verifique se o “Axé” assumiu os sons de seu Carnaval. Nunca. Primeiro o deles! Com predomínio para o frevo. Agora olhe o Carnatal local. É a Bahia no Rio Grande do Norte! Não há uma identidade local. Já nasceu sem a cara potiguar, mesmo havendo músicos e sambistas potiguares respeitáveis.  Quando criaram o Carnatal, deveriam ter colocado como critério principal elevar a cultura musical potiguar, mesmo que trouxessem material de fora. Mas que a “potiguarânia” predominasse.                          
Como disse acima desnordestinidade é um fenômeno que acomete muitos pontos da cultura potiguar, e diz respeito a literatura também. Atualmente observo os leitores potiguares mais interessados por literaturas estrangeiras de que pela literatura regional. Digo isso porque observo muito. Onde vejo gente lendo, observo o que ela está lendo. Principalmente o público infanto-juvenil. Quase todos leem quase todos os principais autores ingleses, americanos, franceses, italianos, dinamarqueses, alemães etc. Mas... e os autores do Rio Grande do Norte? Quem conhece Ana Cláudia Trigueiro, Zila Mamed, Ferreira Itajubá, Françoise Silvestre, Francisco Martins, Nei Leandro de Castro, Tarcíso Gurgel, Madalena Antunes, Clotilde Tavares, Nivaldete Ferreira, Thiago Gonzaga, Manoel Onofre Júnior, Gilvânia Machado, Salizete Freire, Otacílio Alecrim, Zila Mamed, José de Castro etc etc etc. E os grandes autores do Nordeste, como Graciliano Ramos, Jorge Amado, João cabral de Melo Neto, Rachel de Queiroz, Clarice Lispector etc etc etc? 
Não entendam nenhuma dessas reflexões como bairrismo da minha parte, até porque aprecio autores do mundo inteiro – em todas as áreas da Arte – mesmo conhecendo os grandes nomes da minha terra natal. Refiro-me aos escritores potiguares que produzem quase-cópia do que vem de fora, inclusive de outros países, negando a própria cultura. Esses, fazem jus ao “santo de casa não faz milagre”, pois os escritores locais não lhes inspiram.  
Mas no caudal dessa reflexão, também observo escritores nordestinos – embora poucos - certamente atentos a essa espécie de decadência da nordestinidade – contribuindo com a desnordestinidade. Eles assumem uma postura que é espécie de tentativa de cópia de alguém - mas alguém-estrangeiro. Quase como se quisesse ser aquele/la autor(a) famoso(a). Isso também não é bom, pois o leitor percebe o joguete! Não é legal se espojar nessa perda de identidade em busca meramente de lucro, pois prejudica a própria cultura. Todo autor tem influências. Óbvio. Mas não vem ao caso dessa análise. O bom é seguir uma linha. Todo autor famoso tem uma linha... uma característica. É por isso que de repente explode inclusive no exterior. 
Creio que faltam escritores que usem a palavra como arte. Como alguém já disse “que usem a palavra para dizer”. Faltam Gracilianos Ramos, Flaubert, Rimbaud, Baudelaire, Adélia Pardo, Padre Vieira, Graciliano Ramos, Fátima Abrantes. Nossa literatura é nova. Tem menos de 500 anos. Precisamos aprender também alguma coisa lá fora. Mas no Brasil há alguns monumentos inspiradores. Ao invés de estarem estudando grandes autores e construindo o seu próprio caminho, se diluem e se distanciam de suas raízes. 
Escrevi sobre música, de literatura, mas a desnordestinidade é visível em muitos espaços. É fácil perceber o fenômeno. Em termos de linguagem, na década de 1990, quando cheguei ao RN, todos diziam “visse!”. Tinha o efeito de “certo!” (adjetivo). O “visse” desapareceu da boca do potiguar. Naquele tempo a emissora de televisão “Rede TV” tinha um programa que usava muito a expressão “tá me tirando?” (tá zombando de mim?). Em pouco tempo os potiguares colocaram debaixo do tapete “tá mangando”, substituindo-o por “tá me tirando”. Escrevi um longo trabalho sobre linguagem. O planeta da descaracterização da linguagem regional potiguar - substituída por linguagem típica do eixo Rio/São Paulo é gigantesco. Não vou me estender no assunto agora. É muito abrangente. Em outro momento escrevo a minha opinião sobre outros pontos dentro dessa desnordestinização. E viva o Nordeste!