ANTES DE LER É BOM SABER...

CONTATO: (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico. Fruto de um hobby, é uma compilação de escritos diversos, um trabalho intelectual de cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos de propriedade exclusiva do autor Luís Carlos Freire. Os conteúdos são protegidos. Não autorizo a veiculação desses conteúdos sem o contato prévio, sem a devida concordância. Desautorizo a transcrição literal e parcial, exceto breves trechos isolados, desde que mencionada a fonte, pois pretendo transformar tais estudos em publicações físicas. A quebra da segurança e plágio de conteúdos implicarão penalidade referentes às leis de Direitos Autorais. Luís Carlos Freire descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. O parentesco ocorre pelas raízes de sua mãe, Maria José Gomes Peixoto Freire, neta de Maria Clara de Magalhães Fontoura, trineta de Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, descendente do Capitão-Mor Bento Freire do Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra, dos quais descende a mãe de Nísia Floresta, Antonia Clara Freire. Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, um dos maiores genealogistas potiguares. O livro pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade de nome homônimo. Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. 'A linguagem Regionalista no Rio Grande do Norte', publicados neste blog, dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não está concluída, inclusive várias são inéditas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-las, visando contribuir com o conhecimento, pois certos assuntos não são encontrados em livros ou na internet. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ, bem como o A Linguagem Regional no Rio Grande do Norte, fruto de 20 anos de estudos em muitas cidades do RN, predominantemente em Nísia Floresta. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Há muita informação sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, lendas, crônicas, artigos, fotos, poesias, etc. OBS. Só publico e respondo comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone.

quinta-feira, 21 de julho de 2022

Sanderson Negreiros e Tarcísio Medeiros, uma faceta histórica...



Ano que vem completará meio século da primeira edição de “Aspectos geopolíticos e antropológicos da História do Rio Grande do Norte”, uma das obras de Tarcísio Medeiros, insígne escritor norte-rio-grandense. Li-a em 1993, então aluno na UFRN, na aula de Cultura Brasileira, por orientação do também ilustre potiguar Sanderson Negreiros. 

Sanderson tinha um modo interessante de construir o conhecimento com seus alunos. Lembro-me que certa vez, em sala de aula, quando ele citava Dorian Gray Caldas, disse “querem ir em sua casa, conhecê-lo”. E fomos naqueleinstante. Assim conheci outro renomado mito da terra de Câmara Cascudo. Aquilo me marcou. 


Outra vez eu havia faltado na semana anterior. NÃO EXISTIA WHATSAPP.  Quando voltei, soube que teríamos que ler alguns livros para, depois, discutí-los. A dinâmica seria assim: a pessoa que leu discorreria sobre a obra. Sanderson Negreiros, o professor, faria possíveis observações, e o restante da turma, que não havia lido aquele livro, ouviria a explanação fazendo perguntas e outras abordagens. Assim, todos saberiam sobre todos os livros.

Como eu havia faltado, sobrou para mim “História da Alimentação no Brasil”, de Câmara Cascudo. Ninguém quis ficar com ele, pois é tão grande que algumas editoras o publicam em dois volumes. No caso, li todo num livro só. As obras eram de Sanderson. Li como uma criança degustando o seu sorvete preferido. É simplesmente fascinante e foi um dos livros que mais me marcaram. 



Essas foram duas passagens marcantes com o professor Sanderson, na UFRN...

Eis que chega em minhas mãos, ontem, a obra “Aspectos geopolíticos e antropológicos da História do Rio Grande do Norte”, de autoria de Tarcísio Medeiros. Até aí, nada demais além da importante obra. Mas ela continha esses invisíveis que a mim, pelo menos, impressionam e que acho digno dar-lhes  visibilidade. 

O livro, apesar de carregar 49 anos de idade, está intacto, mas o que mais chamou a minha atenção foi um cartão onde está datilografada uma mensagem escrita pelo autor, dirigida a Sanderson Negreiros, além da dedicatória.

O texto traz informações preciosas em que é possível viajar até a Redinha e ver esses dois mitos sentados no alpendre de uma espaçosa varanda jogando conversa fora. Dentre elas as ideias que ele findou escrevendo nessa obra. 




O que me encanta é a humildade. Ele fala do livro como se não fosse o tesouro que é. Dá impressão que é um desses livros que você lê, lê e não há o novo, o inédito, o fascinante... só mesmices.

O cartão foi escrito no dia 22 de maio de 1973. Tarcísio tinha 55 anos de idade e Sanderson 34. 21 anos de experiência a mais carregava Tarcísio, e ele acolheu sugestões do jovem Sanderson. Humildade e respeito a um jovem que com certeza muito cedo se revelou genial.

Ele assina o cartão e com a mesma caneta Bic diz “N.B. Releve os erros tipográficos”.Quem daria importância para “erros tipográfico” diante daquele pergaminho de conhecimentos?

O que está ali que foi sugestão de Sanderson? Quais as lacunas dos “grandes mestres” citadas por Tarcísio? São esses invisíveis que nuterm a minha imaginação... Fico pensando o que conversaram esses notáveis.

O clipe estava se desmanchando; deixou nódoas no cartão e na página. Senti-me como os egiptólogos descobrindo câmara em pirâmide ao retirar a peça metálica e imprestável, ali colocada por Tarcísio e retirada por mim. Sanderson foi tão bom que deixou para alguém esse presente.

Tarcísio partiu em  2003, aos 85 anos. Sandersou se encantou em 2017, aos 78 anos. Ambos deixaram obras preciosas para o Rio Grande do Norte e para o Brasil, tanto assinadas por eles quanto contidas em suas bibliotecas.

Limites e perímetro urbano de Nísia Floresta e na área urbana isolada



Em 2013 um amigo, funcionário da Prefeitura de Papari, mandou-me esse documento, o qual quis compartilhar, pois é  bastante útil no  aspecto histórico, permitindo o conhecimento de topônimos geográficos.

Helena Meirelles, uma história que nos impressiona...



Helena Pereira da Silva Meirelles nasceu na fazenda Jararaca, Mato Grosso do Sul, em 1924. Compositora, cantora e violeira. Aprendeu a tocar viola com seu tio Leôncio, em festas promovidas por seu avô paterno. A família reprovou rigorosamente a sua vontade de manusear instrumentos musicais. Alegavam que "não era coisa para moça de família". Naquele tempo lugar de mulher era na cozinha. Como escreveu Gilberto Freyre em sua obra “Sobrados e Mucambos”, “a mulher saia de casa três vezes: para casar, batizar e enterrar”. 


As mulheres, já desde meninas, cresciam ouvindo a sua sina -  ou sentença - que sua vida se resumiria às prendas domésticas, cozinha, fogão, do bordado e afins. Uma espécie de catequese machista legava à mulher nada mais que a casa. Quem quebrasse a sentença pagariam caro. O preço era a desonra e  difamação que já começava em casa, pelo pai. Ele precisava “defender a honra da família”. Desse modo, muitas mulheres foram condicionadas a uma vida muitas vezes reprovada pela moral social, a começar pelo próprio lar hostil e cheio de preconceitos e rótulos depreciativos descarregados sobre a mulher, desde pequenina. Já o menino era criado solto como um cachorro.



Nesse tempo nasceu a menina Helena. Já nasceu no formato de um violão - ou viola. Andar com um violão para cima e para baixo não pegava bem nem para um homem, pois passava a imagem de pessoa descompromissada, sem responsabilidade, “um vagabundo”, diriam. Imagine uma mulher dedilhando um violão! O pai reprovava o seu dom, não permitindo que ela chegasse nem perto de uma viola. Aos 9 anos de idade, aproveitando as saídas do pai, ela pegava a viola do tio (todos músicos) e ia para o mato “tocar para as onças e passarinhos”, como me disse uma vez que esteve em minha casa, no Mato Grosso do Sul (já famosa). O gosto pela música era tão grande que ela resolveu se casar  aos 17 anos de idade com um peão de boiadeiro, vizinho, e passou a residir próximo dos pais. Viu no casamento uma alternativa para manusear o instrumento com liberdade, longe da reprovação paterna. Helena amava os instrumentos de corda, e sentia na alma a necessidade de lidar diariamente com a música, como se ela saísse de suas entranhas, como se o próprio corpo fosse uma nota musical.


O casamento foi uma tragédia. O marido não queria que ela tocasse viola, e ela o tocava diariamente, após os deveres domésticos. Helena tentou sustentar o casamento e fez o possível para que o marido entendesse o seu gosto pela música, mas apanhou muito, chegando ao ponto de ser espancada e rotulada com os nomes mais baixos que se pode dirigir à uma mulher. Assustada, ela abandonou o lar, deixando para trás um filho nascido no meio do pasto, tendo em vista que o marido se ausentava durante meses, levando comitivas de gado para os sertões sul-matogrossenses. Na sua mente ela entendia que levar a criança para um mundo incerto era muito mais perigoso.


Sem ter a quem recorrer, sem familiares próximos,  sem maturidade e experiência alguma - praticamente uma adolescente - ela foi trabalhar em casas de família. Voltar à casa paterna era o mesmo que matar o seu talento musical. Como empregada doméstica, Helena Meirelles comeu o pão que o diabo amassou, sendo humilhada constantemente, tratada como no passado tratavam as escravas. Os “patrões” queriam pagá-la apenas com o almoço e a janta oferecidos diariamente, restos de roupas usadas, migalhas, sem contar que só em dizer que gostava de moda de viola, era execrada, como se gostasse de algo ilícito. Em algumas casas, ela dormia na cozinha, sobre um couro de boi para justamente acordar bem cedo, muitas vezes chutada, para deixar tudo pronto para os patrões.


Enquanto suas patroas queriam os seus serviços domésticos, os patrões queriam o seu corpo. Helena vivia numa constante resistência contra assediadores, sendo enxergada como um objeto sexual por muitos patrões perversos, tarados, que não respeitavam mulher alguma que não fosse suas filhas. Desestimulada, ela teve a ideia de buscar ambientes onde desse vazão ao seu talento musical. “Se no lar onde nasci não pude tocar, se no meu casamento não pude tocar, se em casa de família não posso tocar e sou explorada, resta-me tocar no mundo”. Certamente pensou assim. 


A viola estava  grudada nela como pele. Assim passou a trabalhar em estabelecimentos comerciais, como bares, restaurantes e pousadas de beira de estrada e ponto de peões de boiadeiro. Esses lugares se abriram para o seu talento musical. Helena causava perplexidade onde passava. Os donos dos estabelecimentos imploravam que ela se estabelecesse ali, mas ela era indomável. Cismada. Muitos homens iam às lágrimas ao vê-la solando a alma do Mato Grosso e os ares paraguaios tão comuns àquela região.


O tempo foi passando, ela perdeu totalmente o contato com a sua família, mas começou a ser conhecida por suas polcas, chamamés, rasqueados, fandangos , guarânias e outros ritmos sul-mato-grossenses. Constantemente era convidada para participar de festas e bailes no interior do Mato Grosso do Sul, na região do Pantanal, Campo Grande, mas a menina dos seus olhos era o Porto XV de Novembro, local onde ela reinou plenamente. O fato de se tratar de uma mulher musicista que se apresentava em qualquer lugar – algo extraordinário para aquela época - consistia numa verdadeira atração, pois não se via em todo o Mato Grosso uma mulher com tal comportamento.


Obviamente que não podemos ser hipócritas de negar a sua fama de biscate meramente pelo fato de viver no meio de homens e de bar em bar. Ela colecionava razões para assim ser rotulada: abandonou a casa dos pais, vivia com um violão debaixo do braço, tocava em casas noturnas e em qualquer biboca, casava e descasava quando queria, deixava alguns filhos com conhecidos, vivia no meio de homens. Não poderia ser diferente a uma sociedade hipócrita, que faz juízo de valor do portão para fora e tampa o sol com a peneira do portão para dentro, ignorando as “biscates de família”, filhas de gente rica, que se forem criticadas, processam na justiça. Helena era uma “ninguém” perto das biscates ricas. Os juízes da vida alheia não perguntam a Helena Meirelles os bastidores de sua vida e o que ela passou num tempo em que quase ninguém respeitava uma mulher que abraçasse o mundo sozinha.


Deixando de lado a parte que os hipócritas preferem enaltecer, a sua fama de artista impecável corria pelos sete cantos, levada de boca a boca pelos peões que arrastavam gado em todo o rincão do Mato Grosso do Sul. Não havia quem não falasse de Helena Meirelles por toda a Estrada Boiadeira. No Pouso Sapê, Pouso Guassu, Pouso Matinha e Porto XV de Novembro não faltavam os seus acordes. Todo mundo queria saber quem era aquela mulher singular. Centenas de pessoas se arranchavam nos lugares  onde ela se apresentava para vê-la tocar. 


Nesse ínterim, aos 21 anos, ela se junta novamente a outro homem. Sua vida conjugal sempre foi problemática devido a sua paixão pela música, que para ela era a prioridade. Bastava um marido fazer nariz torto para o seu violão, e o casamento estava rompido sem traumas. Isso a empurrou para um mundo condenável pela sociedade. Entre um lugar e outro, entre um marido e outro, Helena pariu vários filhos e os deixou nas casas de comadres e pessoas conhecidas, sempre dizendo que um dia os reivindicaria. 


A sociedade, como sabemos, mata e cura, apedreja e afaga. Mas como não somos juízes, e as vidas particulares são insignificantes diante  dos nossos legados, O legado monstruoso de Helena - hoje reconhecido internacionalmente - é superior à sua vida pessoal que, diga-se de passagem, precisou ser exatamente daquele jeito. Inegavelmente o seu lado de mulher musicista foi magnânimo. Basta.


Após trinta anos sem ver os seus familiares, já na casa dos 60 anos, na década de 70, Helena reencontrou a sua família. Em seguida ela mudou-se para Santo André, São Paulo, onde passou a residir com o marido que a acompanharia até a sua morte, e alguns dos filhos. Apesar de tudo, ela nunca perdeu o contato, mesmo em sua vida conturbada. Sempre procurou notícias através de pessoas conhecidas que passavam nos locais onde ela tocava. A exceção foi apenas uma filha, que ela deixou com uns amigos que desapareceram e ela nunca mais a viu. Helena realizava pequenas apresentações na casa da irmã e reunia outros violeiros. Incentivada por um sobrinho, ela gravou algumas de suas músicas em um pequeno estúdio que enviou-as em fitas K7 para rádios e gravadoras brasileiras.


Pouco depois foi convidada por Inezita Barroso (1925-2015) para uma apresentação em seu programa Mutirão, exibido pela Rádio da Universidade de São Paulo (USP). Participou, posteriormente, do programa Viola, minha Viola, da TV Cultura, também apresentado por Inezita. O seu modo de tocar era peculiar, diferenciando de tudo o que se conhecia sobre instrumentos de corda. Talvez a opressão sofrida convergiu toda para a sua potência musical, onde ela construía os seus acordes solitariamente, silenciosamente, e fez disso grandes composições, como quem recebe espinhos e dá flor.


O sucesso e o reconhecimento nacional veio depois que o mesmo sobrinho enviou algumas fitas para a revista norte-americana Guitar Player, dedicada a instrumentos populares de corda. A revista escolheu-a como instrumentista revelação de 1993, colocando sua palheta  num museu inglês, ao lado de nomes como o dos ingleses Eric Clapton (1945) e Jimmy Page (1944) e dos norte-americanos B.B King (1925-2015) e Carlos Santana (1947). Depois disso, o Brasil quis saber quem era Helena Meirelles. Em 1994, ela lança, pelo selo Eldorado, seu primeiro CD, intitulado Helena Meirelles, com destaque para dois chamamés compostos por ela, “Fiquei Sozinha” e “Quatro Horas da Madrugada”, e outras músicas de domínio público, como “Araponga” e “Chalana”, sucessos de Mário Zan (1920-2006), além de histórias e causos de sua vida, nas faixas finais do CD. 


Em 1996, lançaram "Flor da Guavira", com músicas instrumentais de sua autoria e algumas canções folclóricas mato-grossenses-do-sul. No ano seguinte, lança mais um CD, também pela Eldorado, intitulado "Raiz Pantaneira", com treze composições suas, e participação de Sérgio Reis (1940) na canção “Guiomar”, de Haroldo Lobo (1910-1965) e Wilson Batista (1913-1968). Em 1998, apresentou-se na EXPO Mercosul em Canela, Rio Grande do Sul, e em diversas unidades do Sesc pelo Brasil. Em 2002, lançou o seu quarto e último CD, "Helena Meirelles ao Vivo", gravado em Campo Grande, com destaque para “Flor Pantaneira”, de sua autoria, e participação de Zezinho Nantes, na gaita. 


Em 2004, é lançado o documentário "Helena Meirelles a Dama da Viola", com direção de Francisco de Paula (1962) e trilha-sonora da própria Helena. Ainda neste ano, participa do CD Os Bambas da Viola, da gravadora Kuarup, ao lado de Chico Lobo (1964), Roberto Corrêa (1957), Heraldo do Monte (1935), Almir Sater (1956) e Renato Andrade (1932-2005). 


Helena Meirelles alcançou o auge da fama, muitas vezes não conseguindo atender a todos os convites, pois já contava com 80 anos cujo corpo alquebrado não era mais aquele que não tinha hora para repouso, ocupado com sua viola que não se aquietava, atravessando madrugadas, sob os acalourados "sapucays" (gritos típicos dos ambientes com música ao vivo), tão comuns em todo o Mato Grosso do Sul, herança paraguaia.


Em 2005, Helena Meirelles não resistiu às complicações pulmonares, vindo a morrer em Campo Grande, aos 81 anos de idade. Em 2006,  é lançado o documentário Dona Helena em sua homenagem, com direção de Dainara Toffoli. Foram exatos 10 anos de fama absoluta, construída sobre o exercício constante, desde os 9 anos de idade, quando certa vez ela pegou o violão do tio e saiu correndo mata adentro para dedilhar magicamente tudo aquilo que havia aprendido "de olho". Certa vez um tio a flagrou em sua peripécia musical e ficou perplexo. Só de ver os tios e a peonada mato-grossense e paraguaia tocando, ela construiu o seu próprio concerto de corda.


A história de Helena Meirelles traduz a audácia de uma criança que escolheu a música como o alimento da alma. Um gesto de coragem extrema e grandes renúncias em nome do amor à arte. Já dolescente, ela quebrou as correntes do machismo  reinante que a impediam de voar. E voou. Voou alto. Como pássaro cantador foi a sua viola, sua companheira eterna. Sua decisão audaciosa custou-lhe caro - tomada num tempo cuja mulher se tornava facilmente mal vista por razões banais - e quem rompesse os tabus e preconceitos carregaria para sempre os piores rótulos, não importando se tivesse culpa ou não. A história de Helena é um exemplo claro de que, muitas vezes, os próprios pais empurram os seus filhos para a tragédia. Qual seria a desonra de se ter uma filha que tocava violão? Mas foi assim...


Quantas e quantas mulheres, por esse Brasil afora, foram instigadas a buscar outros rumos nem sempre apreciados pela sociedade, mas que foram os únicos encontrados numa sociedade machista, patriarcalista e  conservadora, que sentenciava o ser de cada pessoa. Ela não teve alternativa. Para onde corria surgiam lobos.


Independente de julgamentos e sentenças preconceituosas, Helena é um dos maiores exemplos da busca por um sonho. Para Helena, as piores agruras da vida não consistiram em obstáculos. Inegavelmente ela foi uma criança-prodígio. Se tivesse cedido às sentenças injustas dos juízes populares, jamais teria sido esse patrimônio da música brasileira. Jamais teria dado ao Brasil e, em especial, ao estado do Mato Grosso do Sul a honra de ter levado o nome desse estado para o mundo. Quem, mais do que ela, projetou o nome de sua cidade para os quatro cantos do Mundo? 


Hoje Helena é objeto de estudo dos mais respeitáveis músicos, e também é tema de estudos acadêmicos de importantes universidades do Brasil. É citada por renomados intelectuais das mais diversas áreas. Hoje o seu nome estampa até mesmo um museu, reservando-lhe um espaço muito especial e digno. Foi uma das maiores ideias do município onde ela desabrochou e reinou. Helena Meirelles é um dos grandes orgulhos do estado do Mato Grosso do Sul. (Texto inspirado em publicações do Museu Helena Meirelles).

quarta-feira, 25 de maio de 2022



O BAOBÁ QUE PLANTAMOS EM 1996 JÁ ULTRAPASSA O DOBRO DO TAMANHO MOSTRADO NA PRIMEIRA FOTOGRAFIA - QUAL SERIA O SEGREDO?

Creio que os baobás têm algum fenômeno que ainda não entendemos. Em Papary há um baobá plantado no sítio Traque há mais de dez anos, e hoje está quase do mesmo tamanho. O baobá plantado pelo Sr. Kenedy, Juiz de Direito, avançou bem, mas nem tanto. O baobá de Morrinhos também prosperou, mas sem nada de extraordinário. Tudo isso se explica pelo que nos ensinam os cientistas que estudaram essa espécie, em especial Adanson. Para eles os baobás se desenvolvem muito lentamente, e para se chegar a determinado diâmetro, necessita-se muito anos, às vezes duas ou três centenas de anos para ter o diâmetro de uma roda de carro-de-boi. Mas esse baobá visto nas fotografias é um verdadeiro fenômeno. Cresce a olhos vistos. Surpreende. Suponho que, se continuar com esse desenvolvimento tão incomum, em 20 anos será um dos maiores do Rio Grande do Norte. Creio que algo explique isso, talvez a terra, a altura acima do nível do mar, algum acidente genético produzido pela própria cápsula... não sei. Só sei que esse que plantamos, foi plantado com tanto amor que engorda aos olhos do dono... Antigamente, contavam-se os baobás do Rio Grande do Norte. Hoje são inúmeros... Esse, tive o prazer de ajudar a plantar...
 
Maio de 2022

Maio de 2022

Folha nova do baobá, tem formato de dedos, por isso Adansonia Digitata S.

Fevereiro de 2014

Fevereiro de 2014

Fevereiro de 2014

Maio de 2022

Maio de 2022

Fevereiro de 2014

Maio de 2022

Maio de 2022

 

 

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Literatura - escrever no escuro


LITERATURA: ESCREVER E LER NO ESCURO

    O fenômeno das redes sociais tem despertado uma espécie de patologia em boa parte dos internautas/leitores. A síndrome prioriza textos rápidos e com escrita fácil. Como os textos na internet escorrem verticalmente, percebo que as pessoas não vão adiante quando passam de dez centímetros. As pessoas não querem ler muito, assim como não assistem a vídeos que passam de dez minutos. O encantamento de se ter o mundo à nossa frente desperta uma pressa injustificável. As pessoas querem ler/ver assistir o maior número de coisas e com rapidez. Esse fenômeno faz com que muitos não leiam/assistam produções/obras de qualidade, presos ao banal e fútil. Uma parte condiderável da juventude está propensa ao vazio na música, na literatura, na arte etc.


    Observo que o preocupante sintoma tem saltado da internet e caído no corpo da Literatura com força. Tenho a impressão de que escrever uma narrativa tradicional nos tempos atuais tem ficado cada vez mais difícil e por incrível que pareça, artificial, obrigando o escritor a ir além da superficialidade do discurso literário. É algo parecido com “se reinventar” para agradar um público/leitor em decadência, principalmente o público jovem. Aí reside o desafio/problema/perigo.


Na realidade, além do fator “leitor apressado”, há outros fatores, como o problema da comunicação entre a obra e o público. O desafio de quem escreve é o de comunicar a incapacidade de expressar-se nos seus textos, pois a estética pós-moderna não aceita mais um escritor que explica tudo. Muitos autores trocaram a escrita que deixa subentendido, que diz sem dizer, que sugere, que divaga, pela escrita do lugar-comum. Prenderam-se ao óbvio, entregando tudo mastigado ao leitor. A metáfora, a poesia, a descrição, a discrição e uma série de considerações que deveriam ser prioridade ao escritor foram abortadas para atender leitores apressados, contaminados pelas mídias. 


Outro imbróglio que trava até mesmo a capacidade criadora do autor - que se torna um impasse da narrativa contemporânea - é a dependência do escritor diante do mercado da editoração. A Editora Sextante, por exemplo, priorizava clássicos da literatura. Hoje só publica autoajuda. Há editores que não arriscam se o autor não estiver contaminado pelo fútil. Ele entende que o autor deve escrever algo que lembre/pareça com algo. “Escreva algo que lembre Harry Potter”, “Pegue um gancho em alguma coisa de Nárnia”. As próprias capas das obras não parecem com o Brasil.

Fazer algo que pareça ter vindo do way of life dos Estados Unidos parece sucesso garantido. Não importa o banal, o fútil. Ninguém diz "deixa eu ler a sua obra, poxa! ela faz a diferença”.


 Muitos editores pecam por escantear autores em que os alicerces se assentam no tradicional, não necessariamente reproduzindo a estrutura do cânone literário, mas se aproximando do imaginário dos clássicos europeus e latino americanos. Autores com substância, alicerçados numa vasta bagagem literária. Tenho observado muito isso e não acredito estar enganado. É uma prática cada vez mais comum, mas não é generalizada, diga-se de passagem.


Todo autor é feito de autores, de mundos, de planetas imaginários e reais. Creio que nos faltam - ou que seguem desconhecidos/desvalorizados - grandes autores em quase todos os estados do Brasil, e a culpa está nessas visões deturpadas, contaminadas pelo padrão mercadológico e industrial dos simulacros dos simulacros das cópias das cópias. E os autores regionais? Piorou! Ser regional não é defeito, é uma constante mediação entre o particular e o todo, pois no regionalismo está implícito questões universais, afinal o homem objeto de toda escrita. Não existe escrita sem homens. No regionalismo reside a Filosofia. No estado onde nasci, Mato Grosso do Sul, por exemplo, temos Hélio Serejo, um monstro literário digno de ser universal, mas desconhecido.


No Rio Grande do Norte, por exemplo, quando releio “Chão dos Simples”, extraordinária obra prima do Rio Grande do Norte, embora escrita há mais de meio século, mas publicada há 31 anos, encontro sertanejos simples, mas que não diferem de ninguém em qualquer parte do mundo, pois são universais. Para desvelar esse mundo extraordinário criado pelo autor Manoel Onofre Jr. é preciso adentrarmos o mistério cósmico ao qual ele se refere. Esse mistério nos cerca, e o sentimos, e Manoel Onofre traz à tona através da geografia do sertão e da alma tosca do sertanejo doutrora, tipos humanos que  despreocupados com o raciocínio lógico, são propensos a toda espécie de impulsos vagos,  premonições, crendices, hipocrisias religiosas, espertezas, caritós, alimárias, maldades, inocência, agruras da seca, cangaço, folclore, o mundo onírico… até mesmo o romanceiro ibérico ou uma versão sertaneja de Joãozinho e Maria passeiam na obra. É o sertanejo, habitante distante da nossa civilização urbana e niveladora. São homens e mulheres com o espírito aberto por vezes ao fantástico, ao extraordinário, ao milagre, e são elas que decifram o “Chão dos Simples”, obra que conduz o leitor ao lado misterioso da existência, revelando  que a natureza e a própria existência transmite inúmeros recados aos homens. Pressentimentos, revelações, sonhos, pesadelos, sinas, mensageiros que transmitem aquilo que precisamos ouvir, ou a resposta para coisas que pensamos não terem resposta, mensagens que, se ouvidas, podem mudar os destinos de cada um. Tristezas e situações hilárias pautam Chão dos simples. Como não dizer que isso não é literatura universal se trazem um gigantismo filosófico? O próprio e genial Guimarães Rosa escreveu que “o sertão é o mundo”. Pois bem, isso é um exemplo dentre tantos escritores potiguares excepcionais, como os atuais Pablo Capistrano, Nivaldete Ferreira, Ana Cláudia Trigueiro, enfim o Rio Grande do Norte tem referências literárias de qualidade em vários estilos.


Creio que escrever uma narrativa na atualidade, aproximando-se de noções canônicas, apesar de caminhar para o estilo não-cânone, na lógica de que toda criação é uma destruição, é trair a tendência do texto imediatista e comercial da pós-modernidade industrial em que o autor reproduz, quase como cópias, características de personagens, cenários, narrativas, tipos humanos com pouco ou nenhum desenvolvimento. 


Quantos filmes, livros, séries de livros, séries cinematográficas reproduzem o que Adorno chamou de “ausência do clássico”. Narrativas que seguem a mesma estrutura de um personagem principal que passa por uma tribulação e que segue toda a história dramática para superar o problema que o aflige, e o fim se dá basicamente na superação desse problema e na conquista da felicidade. O que significa isso senão a demonstração prática de uma subjetividade narcísica que destruiu toda a complexidade das tragédias?


 O escritor acredita - ou é induzido pelo meio digital ou pelo mercado editorial, a investir num aspecto “novo/diferente” de narrar, mas que não tem nada de novo. Como nasce o novo? Por escolher abdicar do estilo próprio da escrita para abraçar o suposto "novo'', muitos autores abandonam a própria originalidade para parecer palatável.


Alguns autores optam pelo caminho mais difícil, sem se importar em agradar o leitor com mamão com açúcar. São mais exigentes e sólidos. Não erguem castelos de areia que logo somem com o vento. Salvas as exceções, assistimos e consumimos com frequência a banalização da literatura e sua redução à mera mercadoria.


Atualmente as grandes livrarias estão abarrotadas de livros de autoajuda, relatos de viagem, biografias de homens ricos e socialites, alimentadas pela indústria do entretenimento. Os autores de obras literárias aparecem em segundo plano adiante, aceitos e contemplados apenas pelos críticos, por quem não deixou se enganar, e por uma elite intelectual que pouco se deixa levar pelas novidades da indústria cultural. No caudal disso tudo a literatura como arte tornou-se autônoma e aparentemente inacessível ao grande público. 


O assunto é complexo, principalmente na filosofia da estética, pois está a abranger política, educação, pedagogia e a cultura de um povo, propriamente. Parece até piegas a conhecida e inacessível frase “um país se faz com homens e livros”, e dependendo da qualidade do livro se explica a qualidade do homem. Uma geração que preteriu Paulo Freire em detrimento de ler as biografias de homens ricos de Wall Street não parece estar construindo um futuro interessante. 


Se o aprendizado em comunhão e a solidariedade são concebidas como perda de tempo, e o egoísmo patológico e a subjetividade humana domada pela lógica concorrencial são tidas como virtudes, o que nos reserva?  


Imagine esse público diante de Memória do Cárcere, de Graciliano Ramos, Os Sertões, de Euclides da Cunha, Grande Sertão Veredas, enfim as obras de José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Clarice Lispector, Érico Veríssimo, Machado de Assis, padre Antonio Vieira, Lima Barreto e outros. Que susto tomariam diante de Os Miseráveis, Os Irmãos Karamazov, O Idiota, Madame Bovary, O conde de Monte Cristo e tantos outros. 


Somente um povo bem educado a partir dos anos iniciais com acesso à literatura de excelência, a museus, teatros, exposições de arte etc, frequentemente estimulada a desenvolver a criatividade, mudará essa realidade.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

O que Iveta Ribeiro escreveu sobre Nísia Floresta...

À esquerda, Nísia Floresta Brasileira Augusta - À direita, Iveta Ribeiro

Com essa interessante crônica da feminista Iveta Ribeiro, publicado em 1951, encerro a saudação à memória de Nísia Floresta, nesta "temporada de abril". Nesse período publiquei alguns textos e breves citações sobre Nísia Floresta, assinados por intelectuais renomados e mesmo pessoas desconhecidas, mas que em algum momento direcionaram os holofotes sobre Nísia para transmitir alguma mensagem aos leitores. Entendi como interessante trazer à luz esses velhos textos - uns esquecidos pela poeira do tempo, outros realmente inéditos - para que o leitor conheça a pluralidade de pessoas que escreveram sobre Nísia Floresta no passado, inclusive renomados intelectuais brasileiros. O que escreveram? Quando? O que tinham sobre Nísia até aquele tempo? Como viam Nísia Floresta? 
 
Enfim, esse material vem somar informações que nos ajudam a entender mais sobre Nísia Floresta. Na realidade, guardo muito material que reuni ao longo de três décadas, são anotações feitas à mão, xerox, documentos, fotografias originais e cartas, mas que nem sempre tenho tempo para me debruçar sobre os mesmos com a devida acuidade. Até por isso me desculpo com os leitores com relação a não ter feito revisão, pois quase tudo o que postei estava ou em xerox, ou manuscrito, e simplesmente digitei e postei. Como diz um amigo escritor "os aposentados e desocupados têm mais tempo", e não é o meu caso, por enquanto. E, como dizia Flaubert, "Escrever sangra", portanto confesso que não sangrei. Mas creio que tal material ajudou a muita gente que gosta de Nísia. 
 
Um amigo escritor, que implora para que eu preserve esses materiais inéditos e os publique em livros, disse que eu dou muito material gratuito, dou muita informação pronta para outras pessoas usarem em palestras, aulas, conferências e  documentários, inclusive passando-se por autoras de ideias que elas jamais teriam, e que passam por detentores de uma profundidade que de fato não possuem. De fato meu amigo fala a verdade, mas jamais deixaria de escrever sobre Nísia por tal razão. Dia desses recebi um material audio-visual nesses moldes. Fiquei impressionado! Sempre valorizei muito a generosidade intelectual, gosto de oferecer o conhecimento sem se preocupar com o quer que seja. Nunca alguém bateu em minha porta sem sair sem o alimento do conhecimento. Tenho, sim, intenção de publicar em livro, mas sobre outras coisas. Entendo que publicar neste blog é como publicar em livro, afinal é o meu pensamento, são as minhas conclusões e ideias sobre assuntos diferentes. Nísia Floresta é um deles. Boa leitura!

* * *
Iveta Ribeiro era escritora, cronista, pintora, dramaturga, radialista e patrona de uma cadeira na Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul. Espírita e médium, psicografava desenhos. Nasceu no Rio de Janeiro, aos 7 de março de 1886. Em 1949 ela organizou a primeira estante feminina portuguesa no Brasil, no Liceu Literário Português, reunindo 282 autoras portuguesas. Como artista plástica, realizou 14 exposições individuais, assinando 598 trabalhos de vários gêneros, e expôs em Lisboa, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Iveta faleceu em 1962.

Iveta Ribeiro psicografando um desenho em 1932


Sabemos que a história do feminismo evoluiu ao longo do tempo, muito antes de a própria nomenclatura "feminismo" ser adotada como movimento público de mulheres que - isoladas ou não, ao modo delas - lutaram por direitos e atingiram os seus objetivos ao longo de quase duzentos anos.  

Como estudioso da vida e da obra da intelectual Nísia Floresta, há 30 anos, o tempo foi me apresentando outras mulheres que também lutaram em prol de seus direitos. E a história de algumas delas chegaram a mim justamente porque elas citaram Nísia Floresta em algum momento, externando admiração, gratidão, respeito, criticando-a ou até mesmo detratando-a. Nesse caso me refiro a Isabel Gondim, pois creio que ela não se enquadraria no perfil de uma feminista a partir do que li na biografia dela, escrita por um aprofessora da UFRN, cujo nome não me lembro no momento. Sobre as feministas que conheci no curso desses trinta anos, não li com profundidade sobre elas, pois o assunto não me interessa a tal ponto. É certo que li obras literárias de algumas, tendo em vista que nesse rol estão inclusas poetas, cronistas, contistas, romancistas etc. Desse modo, no bojo de suas obras literárias há espaço para se conhecer um pouco de suas biografias. Foi assim.
 
 
Um detalhe interessante do texto de Iveta é o ranço integralista contido nele, o que assinala uma feminista bastante conservadora, e que flertou realmente com o Movimento Integralista, como podemos constatar em sua história. Mas como é de conhecimento, Nísia Floresta também foi conservadora em alguns aspectos, e nem por isso deixou de pensar adiante do tempo. O contexto machista e conservador da época nem sempre permitia que as mulheres fossem libertárias de todo, pois seriam ovelhas negras da sociedade. Se até hoje visualizamos esse comportamento, imagine no passado. Nísia foi aquela que veio na dianteira, tocou no assunto que ninguém queria e muitos nem cogitavam, pois a mulher era invisível quando o assunto ultrapassava as paredes de suas casas. Pois bem, vamos ler o texto de Iveta Ribeiro e em seguida breves comentários meus. L.C.F. 2014.

A carioca Iveta Ribeiro


MULHER! SEMPRE A MULHER.

Quando se pensa que a seára que está acabada e que nada mais dela se póde colher, heis que surge uma nova e inesperada espiga, loura e forte, como que a dizer ao lavrador que, mesmo de onde nada se crê existir, alguma côisa pode aparecer.

Isto vêm a propósito dessa imensa seára que chamou-se Feminismo e que, entre nós, tanto foi discutido, ridicularizado, combatido, mas que teve a dar-lhe o esfôrço de um labôr, penoso e constante, quando o terreno era duro e pedregoso, exigindo muita coragem e muito espírito de sacrifício, trabalhadoras heroicas que se chamaram Nísia Floresta, Deolinda Daltro, Berta Lutz, Natercia Silveira, e que depois de colhidas as primeiras messes, tiveram continuadoras para completar-lhes o trabalho heróico de dar à Mulher, no Brasil, uma situação honrosa, o seu justo lugar ao lado do Homem, lutando pela grandeza e pela verdadeira independência da pátria, mantendo a instituição da Família e seu templo natural – o Lar com absoluta clareza de consciência e sólido senso de Dever e Patriotismo.

Chegamos, enfim, a uma época em que já ninguém se lembra de falar ou escrever, prol ou contra o Feminismo. Para confirmação do ditado que diz: “Quando se chega ao alto da escada, ninguém se lembra de agradecer aos primeiros degraus...”, pois as bravas e heróicas pioneiras desse movimento que dignificou, elevou e emancipou a Mulher, no Brasil, se não estão completamente esquecidas, é porquê as mortas trêm seus tumulos que, às vezes, são vistos quando alguém visita, um tumulo visinho, e as vivas estão emergindo na penumbra de uma sociedade estranhamente adeptas de coisas e loisas que nos chegam importadas, muitas vezes, clandestinamente, e que não tem tempo de cultuar o que tem de bom, e de nobre temos e de produção nacional.

As mulheres de agora que desfrutam de uma liberdade às vezes mal compreendida, e de uma independência econômica nunca sonhada, e os homnens que têm, atualmente, na Esposa, Filha ou Irmã, o precioso auxílio para a própria manutenção, e da família que já não pesa só sobre os seus ombros, estão sendo cruelmente ingratos, para com as brasileiras que sofreram e lutaram pelos ideais feministas, pois, pelo menos as mais antigas e as mais heróicas, principalmente, a admirável Leolinda Daltro, já devia ter um monumento em praça pública, que atestasse o reconhecimento daquelas e daqueles que hoje colhem os doces frutos de seu trabalho desinterassado.

O natural espírito de solidariedade para com as minhas patrícias, que cimentaram os alicerces do vitorioso Feminismo brasileiro, levar-me a divagações, quando o meu assunto de hoje é o meu registro festivo, do aparecimento inesperado demais um fruto da seára, presumidamente, esgotada, pois não se acreditava ainda ser possível haver alguma coisa que a brasileira ainda não tivesse alcançado em matéria de reivindicações sociais, políticas ou administrativas.

É que os jornais do Rio, abrindo espaço especial em suas páginas e colunas, no momento insuficientes para o noticiário político, carnavalesco e esportivo, que são os assuntos dominantes, deram-nos a notícia alviçareira e inesperada de ter sido empossada a primeira magistrada do Brasil, e nessas notícias divulgou-se o retrato da jovem e sorridente Senhorita Dra. Iete Bomilcar  Ribeiro de Souza, primeira Juiz de Direito rem nossa terra!

Feliz e invejável patrícia que ainda achou alguma coisa de muito nobre, muito honrosa para ser a primeira a possuí-la!

Agora, como esse novo triunfo do nosso Feminismo, cumpre a todas nós brasileiras, saudar a nossa Jurisconsulta, agradecendo-lhe a parte que nos toca de sua bela vitória e pedir a Deus que ela, no seu dever de ofício, no ais árduo mistér humano, que é o de julgar os nossos semelhantes, saiba ser Mulher! Sempre a Mulher! Justa, generosa, consciente e cristã.

IVETA RIBEIRO

Iveta Ribeiro (1886 - 1962)

  
BREVES COMENTÁRIOS MEUS SOBRE O TEXTO DE IVETA RIBEIRO

Muito interessante a forma alegórica como ela conduz o texto, apresentando o feminismo como uma seara: "Quando se pensa que a seára que está acabada e que nada mais dela se póde colher, heis que surge uma nova e inesperada espiga, loura e forte, como que a dizer ao lavrador que, mesmo de onde nada se crê existir, alguma côisa pode aparecer"Parece que ela dá as conquistas femininas como encerradas ou já suficientes, e que já houve um grande progresso feminino, e mais nada seria colhido da sociedade, ou seara. É normal que achemos o mundo atual muito avançado, mas entender esse "avançado" como uma espécie de ápice, de ponto final, é estranho, pois, segundo ela "... não se acreditava ainda ser possível haver alguma coisa que a brasileira ainda não tivesse alcançado em matéria de reivindicações sociais, políticas ou administrativas".

Iveta, apesar de sua ilustração, é apontada por alguns estudiosos como muito conservadora, portanto a sua ideia de que na seara do seu tempo não havia mais nada para se colher, denota que ela parecia estar satisfeita com o que até então haviam conquistado. Era 1951 existiam várias vereadoras e deputadas; a mulher trabalhava em várias profissões, mas, comparado ao presente, o tempo de Iveta ainda estava cheio de limitações. Não vamos desenrolar o novelo porque o objetivo não é esse. Mas uma das limitações era  salário muito inferior ao dos homens. Aqui podemos citar Nísia Floresta quando ela sentencia que somente com acesso às ciências as mulheres poderiam se emancipar no que quisessem, ou seja, formadas como professoras, médicas, advogadas etc poderiam se emancipar. Mas como era a frequência feminina nas escolas, nos centros técnicos e nas universidades em 1951? É curioso Iveta parecer satisfeita.

A gaúcha Natercia da Cunha  Silveira (1905 - 1932), a bordo do navio Almanzora, saúda Juvenal Lamartine de Faria, governador do estado doRio Grande do Norte e patrono do voto feminino, 5 de maio de 1928, Rio de Janeiro - Arquivo Nacional. É dela a frase: “Eu sou como o jequitibá da floresta, o machado que tentar derribar-me há de criar dentes”.

 

Depois, elogiando sucessivas lutas, críticas e combates sofridos, e consequentes conquistas, ela diz que isso se deve a "... trabalhadoras heroicas que se chamaram Nísia Floresta, Deolinda Daltro, Berta Lutz, Natercia Silveira, e que depois de colhidas as primeiras messes, tiveram continuadoras para completar-lhes o trabalho heróico de dar à Mulher, no Brasil, uma situação honrosa, o seu justo lugar ao lado do Homem, lutando pela grandeza e pela verdadeira independência da pátria, mantendo a instituição da Família e seu templo natural – o Lar com absoluta clareza de consciência e sólido senso de Dever e Patriotismo". No final do parágrafo, mais parecido com um panfleto do Integralismo, ela se torna parecida com a própria Nísia Floresta. Quem conhece a obra nisiana, sabe que ela elenca uma série de inovações, mas ao mesmo tempo se mostra presa a elas, e aparenta quase até endossar alguns comportamentos conservadores, inclusive religiosos. A ferrugem da religiosidade era muito forte em Nísia Floresta. Creio que se ela tivessese conseguido se despir da religiosidade - que não era fácil - teria enxergado ainda mais além.
A francesa Simone de Benvoir (1908 - 1986)

Quando Iveta escreve: "... Chegamos, enfim, a uma época em que já ninguém se lembra de falar ou escrever, prol ou contra o Feminismo", é no mínimo curioso, pois o feminismo nunca foi esquecido, talvez não estivesse tanto em evidência como nos anos 30, embora em 1949 Simone de Beauvoir havia publicado “O Segundo Sexo”, refletindo um sentimento e frustração geral nas mulheres que se sentiam presas, condicionadas meramente ao lar, apesar de terem superado a luta pelo sufrágio. Suas vidas se resumiam à família, mas em termos de trabalho e a independência social era algo ainda sutil, o poder de decisão sobre as coisas era nulo para a maioria delas. Isso era o prâmbulo de uma nova fase. Então elas começariam a pensar em questões mais sociais de igualdade, salários iguais aos dos homens, enfim o feminismo adentra mais forte em questões políticas, outras lutas civis, além de passar a defender as minorias. Isso foi nos anos 50, portanto Iveta parece desinformada ou não totalmente preocupada a tal ponto.

Durante muito tempo divulgado o nome da baiana Deolinda Daltro (1859 - 1935) como precursora do feminismo brasileiro, certamente perceberam o equívoco e corrigiram, atribuindo-lhe o título de "precursora do feminismo indígena".


Em seguida ela cita um ditado popular que diz “Quando se chega ao alto da escada, ninguém se lembra de agradecer aos primeiros degraus", sem se dar conta que ela própria parece se esquecer que o primeiro degrau pertenceu a Nísia, e não a Deolinda Daltro, como deixa confundir: "... pelo menos as mais antigas e as mais heróicas, principalmente, a admirável Leolinda Daltro, já devia ter um monumento em praça pública, que atestasse o reconhecimento daquelas e daqueles que hoje colhem os doces frutos de seu trabalho desinterassado. Obviamente que Iveta viveu num tempo mais próximo a Deolinda que de Nísia, mas entendo que, na condição de estar jornalista naquele momento, ela deveria ter deixado claro que a precursora do feminismo foi Nísia Floresta.

A paulista Berta Lutz (1894 - 1976)

Depois de informar sobre a primeira mulher juíza na história do Brasil, ela bendiz a jurisconsulta e roga que ela "... saiba ser Mulher! Sempre a Mulher! Justa, generosa, consciente e cristã", ou seja, deixa claro o argumento de Nísia Floresta que escreveu que "a religião é a coroa da mulher". E justamente é a religião, a meu ver que trava a humanidade de se civilizar verdadeiramente. Como escreveu Nietzsche "Religião: ópio do mundo". E assim seguimos como essa internet travando mulheres e homens... homens e mulheres... travando os avanços mundiais.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

O que Gilberto Freyre escreveu sobre Nísia Floresta


O QUE GILBERTO FREYRE ESCREVEU SOBRE NÍSIA FLORESTA

O sociólogo Gilberto Freyre é um dos maiores nomes do Brasil. Não há como entender o nosso país sem conhecer pelo menos "Casa Grande e Senzala" e "Sobrados e Mucambos", obras fascinantes, verdadeiras bíblias, livros de cabeceira. Li ambas obras em 1987 e sempre as adoto como parâmetro quando o assunto é o Brasil patriarcal e escravocrata - logicamente à luz de outros pensadores que vieram depois dele. Mas gosto da sua visão.

Como todo intelectual que se arrisca a escrever obras do porte das que Freyre produziu, o resultado está sujeito a estudo, análise e crítica. Desse modo ele também é criticado por alguns intelectuais - inclusive sociólogos - e isso não é ruim, afinal não somos donos das ideias, e ideias devem ser discutidas, concordadas e discordadas. Gilberto é autor de uma vasta bibliografia, e escreveu sobre temas diversos, inclusive na literatura. 

* * *

Assim como os demais personagens que temos apreciado nessa temporada de abril, mês do encantamento de Nísia Floresta Brasileira Augusta, costumo louvar o seu legado nesse período também. Desde o dia 1º posto textos sobre ela, alternadamente, assinados por intelectuais conhecidos, desconhecidos e mesmo pessoas comuns, admiradores dessa notável potiguar, dentre algum material inédito. Dessa vez trago referências feitas a Nísia por Gilberto Freyre em sua obra "Sobrados e Mucambos", publicado originalmente em 1936. 

Essas referências de Gilberto Freyre feitas a Nísia Floresta são muito conhecidas, inclusive o próprio Adauto da Câmara, ao publicar "História de Nísia Floresta", no Rio de Janeiro, em 1941, cita as palavras do sociólogo pernambucano. Julgo importante divulgar esse fato - principalmente para quem o desconhece, porque reforça o que sabemos sobre a importância de Nísia Floresta, mas que em 1936 não era tão nítido. Portanto, pela dimensão de Sobrados e Mucambos, e por seu alcance nacional, amplia-se a grandeza desse sociólogo. Quando ele  arrasta Nísia Floresta para a sua obra - não como favor, mas por mérito - usando a imagem dela para ilustrar a sua fala, acaba se tornando uma grande homenagem. E isso se deu há 86 anos.


Outro detalhe: Adauto da Câmara ainda não havia publicado "História de Nísia Floresta" quando Freyre a citou. Ele o faria cinco anos depois do lançamento de Sobrados e Mucambos, portanto constamos que Gilberto não leu Adauto. Ele conhecia Nísia Floresta por outras fontes. Certamente em sua biblioteca ou na do pai dele. Pois bem, sobre Gilberto Freyre com certeza você o conhece até demais, mas para os jovens, principalmente, que ainda não tiveram a oportunidade e conhecê-lo, no final deste estudo há uma síntese sobre ele. Sobretudo, a internet está aí, vasta ao dispor de todos...

* * *

Antes de conhecermos as referências de Gilberto Freyre sobre Nísia Floresta, vou desenrolar um pequeno novelo de episódios que o relacionam a essa notável mulher. Nesse caso em específico, começo pelas palavras do intelectual cearaminense Nilo Pereira, também admirador de Nísia Floresta e que escreveu interessantes textos sobre a mesma. É uma referência às cartas trocadas entre Nísia Floresta e Augusto Comte, e que se encontravam inéditas, de certo modo. 

 

Não era de todo inéditas porque Augusto Américo de Faria Rocha, filho de Nísia Floresta, havia repassado ao Apostolado Positivista as cartas de Comte endereçadas a ela, e que o filho herdou. O Apostolado se encarregou de publicá-las em 1888. O que, de fato permanecia inédito àquele tempo, eram as cartas escritas por Nísia Floresta e endereçadas a Comte, que se encontravam - e ainda se encontram no Museu Auguste Comte, em Paris. 

 
Augusto Américo de Faria Rocha, filho de Nísia Floresta

Pois bem, nesse contexto de preocupação com a divulgação desse material, referindo-se a Gilberto Freyre, Nilo Pereira escreveu exatamente assim: “... No Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco” - que ele fazia parte “Gilberto Freyre salientou a necessidade de serem publicadas essas cartas. Eis uma tarefa para os pesquisadores. As cartas estão na Casa de Augusto Comte, em Paris. Por que Zelia Mariz ou Socorro Trindad ou Maria Simonetti ou o professor Francisco das Chagas Pereira - tradutor da escritora - não se encarregaram de ler e traduzir cartas são importantes e que estão disponíveis à consulta dos interessados? A fonte não pode ser melhor”.

Nilo Pereira

Observamos a preocupação de Gilberto Freyre em ver essas correspondências traduzidas e divulgadas, e como membro do Conselho estadual de Cultura, ele expôs a sua ideia, desse modo Nilo Pereira indaga porque determinados norte-rio-grandenses - que tinham certa relação com Nísia Floresta -, não se encarregaram dessa tarefa tão importante. Esse detalhe revela um Gilberto Freyre preocupado com a memória. Mas há uma curiosidade também com relação a esses nomes apresentados. Socorro Trindade, atualmente com 62 anos de idade, escreveu alguns textos sobre Nísia Floresta em jornais natalenses. Ela reconhece a grandiosidade de Nísia, faz reflexões muito sensatas, mas no bojo de suas reflexões, certamente influenciada pela carta detratora de Isabel Gondim, escrita em 1884, não perde a oportunidade de também maldizer a sua conterrânea. Socorro reside atualmente em Nísia Floresta, mas está completamente reclusa. 

Sobre isso, acho interessante trazer à baila uma reflexão sobre a atitude eventual de alguém denegrir Nísia Floresta, ou arrastar algum fato que dá ibope nas mentes medíocres. É quase uma coisa de busca de holofotes. Pois bem, ao longo dos meus estudos, encontrei dois únicos nomes masculinos que maldizem ou divulgam inverdades sobre Nísia Floresta, e no entanto os nomes femininos de detratoras é bem maior. Não digo que deveria ser o inverso - que também não estaria certo - mas não é estranho?

* * *

Outro momento importantíssimo em que Gilberto Freyre demonstra o seu respeito e admiração por Nísia Floresta se deu à ocasião em que os restos mortais da notável potiguar foram trasladados para o Brasil, em 1954, tendo chegado primeiro ao Pernambuco, e depois ao Rio Grande do Norte. Como sabemos, houve alguns embargos, pois aguardavam uma pequena caixa com os ossos, mas veio um caixão convencional, tendo em vista que ela havia sido embalsamada e o corpo  estava intacto. Como o caixão estava revestido por uma enorme caixa de madeira, foi interpretado pela Marinha como uma "mercadoria".

O cearaminense Nilo Pereira, à esquerda, e o mipibuense Marciano Freire, à direita, diante da "mercadoria" no Poto de Recife/PE.
 

Nilo Pereira era membro do Conselho Diretor do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais de Recife, era amigo pessoal do também potiguar Café Filho, presidente da república, e constatando o imbróglio, nem esperou os procedimentos oficias e burocráticos. Sem, pestagejar, entrou em contato com Café, que lhe respondeu de imediato, autorizando que a “mercadoria” fosse entregue à Academia Pernambucana de Letras. E determinou que  uma corveta da Marinha de Guerra transportasse o caixão de Nísia Floresta a Natal, onde um cortejo gigantesco o aguardava, inclusive Paulo Pinheiro de Viveiros, então Presidente da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, foi uma das autoridades que a reverenciou. 

Nísia Floresta sob o olhar do artista plástico pernambucano Balthazar da Câmara. A pintura é baseada num retrato que mostra Nísia trajando um manto que até hoje não decifrei. Lembra o manto de alguma academia de letras (embora elas não existiam à época de Nísia Floresta). Obviamente que essa cor vermelha é uma criação artística, mas realmente Nísia se fez retratar exatamente com tais trajes. Suponho que ela o tenha usado em algum ambiente da França. Veja, abaixo, um desenho baseado no retrato que serviu de referência para a pintura.  


Suponho que essa vestimenta sobre a roupa usada por Nísia Floresta seja um manto, ou capa de viagem, como antigamente usavam guard-apó para aplacar a poeira. Como ela viajava muito, era também uma forma de aplacar o frio.


Nesse contexto, Gilberto Freyre  deixou uma marca para a eternidade, e o fez com dignidade incrível. Ele mandou confeccionar uma pintura a óleo retratando Nísia Floresta numa grande tela a óleo. A obra foi inaugurada naquela ocasião no Instituto Joaquim Nabuco, onde se encontra exposta em sua galeria junto a outras figuras notáveis da história.

* * *

Escritora Carmen Dolores (Emília Mancorvo Bandeira de Mello)

Agora que apreciamos um pouquinho sobre esses episódios que ligam Gilberto Freyre a Nísia Floresta, vamos conhecer em que circunstância ele acomodou a ilustre norte-rio-grandense em sua obra "Sobrados e Mucambos". Pois bem, escolhi duas falas interessantes. A primeira, ao discorrer sobre o desenvolvimento sociocultural do Brasil na época do patriarcalismo, tratando a respeito da tímida repercussão intelectual feminina do primeiro e segundo reinado brasileiros ele apresenta o único exemplo feminino que caminhava contra essa maré. Vejamos: 

“Nas letras, no fim do século XIX, apareceria uma Carmen Dolores. depois uma Júlia Lopes de Almeida. Antes delas, quase que só houve bacharelas medíocres, solteironas pedantes e simplórias, colaboradoras do “Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro”. E assim mesmo foram raras. Nísia Floresta surgiu como uma exceção escandalosa. Verdadeira machona entre sinhazinhas dengosas do meado do século XIX. No meio de homens dominando sozinhos todas as atividades extradomésticas, e as próprias baronesas e viscondessas mal sabendo escrever; dos senhores mais finos soletrando apenas livros devotos e novelas que eram quase histórias do Trancoso, causa pasmo ver uma figura como a de Nísia”.

Escritora Júlia Lopes de Almeida

No segundo momento, escrevendo sobre sistema educacional no Brasil e as posturas singulares de Nísia Floresta, o sociólogo Gilberto Freyre assim se expressa: 

As que existiram quase todas já no fim do império foram umas excomungadas da ortodoxia patriarcal, destino a que não parece ter escapado a própria Nísia Floresta com todo seu talento e suas amizades ilustres na Europa.

* * *

BREVES COMENTÁRIOS MEUS SOBRE AS PALAVRAS DE GILBERTO

Inicialmente Gilberto cita duas figuras notáveis: “Nas letras, no fim do século XIX, apareceria uma Carmen Dolores. depois uma Júlia Lopes de Almeida. Pois bem, Júlia Lopes de Almeida - nascida meio século depois de Nísia Floresta -, foi escritora, abolicionista e idealizadora da Academia Brasileira de Letras. Depois cita também Carmen Dolores - nascida quarenta anos após Nísia -, uma das escritoras pioneiras na luta pela educação da mulher e o seu acesso ao trabalho. Não se intimidou em defender o divórcio. Apesar disso, não se mobilizou em relação ao sufrágio feminino. como adventos da causa feminina em prol da emancipação. 

 

Sociólogo Gilberto Freyre

São outros cérebros, tempos mais evoluídos, mas não significaram que tais mulheres eram de todo comprometidas com a sua emancipação plena, com amplos direitos, apesar de sua ilustração. É a história do feminismo em andamento. Depois ele descortina a realidade do perfil das mulheres antes dessas, classificando-as como "bacharelas medíocres, solteironas pedantes e simplórias, colaboradoras do “Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro”. E assim mesmo foram raras", revelando um cenário de mulheres entretidas com a própria submissão, e com certeza muitas delas achavam normal.Não é à toa que até hoje existem mulheres machistas. De repente ele apresenta Nísia Floresta como singularidade dentre todas:  "Nísia Floresta surgiu como uma exceção escandalosa". De fato deveria ser mesmo escandaloso uma mulher reivindicar da parte das autoridades a emancipação feminina. Nísia lidava com numa sociedade em que muitos enxergavam as mulheres de fato  como inferiores, portanto era impensável que fosse concedido à elas os mesmos direitos legalmente disponibilizados aos homens, portanto seria normal que muitas dessas "sinhazinhas dengosas do meado do século XIX" - que endossavam o machismo e o patriarcado - vissem Nísia Floresta como "Verdadeira machona". Não poderia ser diferente, afinal era uma mulher querendo que pertencesse à elas o que "pertencia aos homens". Ela extrapolava o seu espaço. Isso era audacioso demais, portanto compreensível que "No meio de homens dominando sozinhos todas as atividades extradomésticas, e as próprias baronesas e viscondessas mal sabendo escrever; dos senhores mais finos soletrando apenas livros devotos e novelas que eram quase histórias do Trancoso, causa pasmo ver uma figura como a de Nísia”. Como se vê, era um tempo de iletrados, inclusive os próprios "homens mais finos", imagine a situação da mulher, principalmente as mulheres comuns, sem acesso a um mero livrinho de rezas. A expressão "machona", no dizer de Freyre não traduz uma lésbica - embora se o fosse nada mudaria -, mas o ser corajoso, a junção de coragem, desafio e audácia numa mulher para "peitar" a sociedade e as autoridades. Essas qualidades não combinavam com a imagem de uma mulher condicionada desde os primórdios para ser submissa, delicada, doce, dona de casa, mãe etc. Uma mulher que se entreverasse entre os homens, naquele tempo, soava como se tivesse desrespeitando os homens ao ocupar o lugar que lhe "pertencia". É essa a "machona" que Freyre se refere. Enfim, Nísia precisou se levantar em meio a assembleia, pedir a palavra, ou quebrar os protocolos, e dizer que as mulheres existiam e precisavam ocupar o seu espaço.

* * *

No segundo momento, escrevendo sobre sistema educacional no Brasil e as posturas singulares de Nísia Floresta, o sociólogo Gilberto Freyre assim se expressa: 

“As que existiram quase todas já no fim do império foram umas excomungadas da ortodoxia patriarcal, destino a que não parece ter escapado a própria Nísia Floresta com todo seu talento e suas amizades ilustres na Europa”.

Nessa citação, Freyre reforça a severidade patriarcal com relação à mulher, o machismo que não absorvia as novidades postuladas pelas poucas mulheres que davam a cara a tapa,  e não permitia sequer experimentá-las. Eram muitas dificuldades. Quando ele diz que a "ortodoxia patriarcal" excomungou outras mulheres e agiu da mesma forma com relação à Nísia Floresta, evidencia o que sabemos. Ter proclamado ideias visionárias não é o mesmo que vê-las concretizadas logo em seguida. O tempo se encarregaria disso. E os efeitos seriam vistos ao longo do tempo. Entender as mudanças conquistadas ao longo de quase duzentos anos de luta como boas ou ruins, ou se foram conquistados totalmente ou não, é papel não apenas das mulheres, mas de homens e mulheres. Hoje, a noção de respeito às mulheres é tarefa de todos. Homens e mulheres são responsáveis por essa construção. O que é diferente do passado em que raros homens se comportaram, por exemplo, como Juvenal Lamartine de Faria. Essa conquista foi muito difícil de acontecer nos tempos passados, hoje é mais fácil, apesar de que assistimos a muitos feminicídios e misoginia.

* * *

BREVE BIOGRAFIA DE GILBERTO FREYRE (COSTURADA POR UM POEMA DE IMAGENS)  É PARA O LEITOR PENSAR...

O texto abaixo foi transcrito ipsis literis do site: https://brasilescola.uol.com.br/sociologia/gilberto-freyre.htm

"Gilberto Freyre foi um dos mais importantes sociólogos do Brasil, tendo construído uma obra inteiramente dedicada à análise das relações sociais no período colonial brasileiro e como essas relações contribuíram para a formação do povo brasileiro no século XX. Seu destaque deu-se por defender uma teoria de que a miscigenação formaria uma população melhor e mais forte, ao contrário do que pensavam as teorias etnocêntricas, higienistas e eugênicas dos antropólogos e intelectuais do século XIX e XX.


Enquanto era comum na época pensar que deveria haver uma pureza racial, Freyre caminha na contramão disso dizendo que a miscigenação é positiva. No entanto, a sua obra, apesar de ter uma base antirracista, contribuiu para as críticas aos movimentos antirracistas por ter formulado uma espécie de mito da democracia racial no Brasil colonial e no Brasil republicano, apontando a miscigenação como fundamento para essa ideologia."


"O antropólogo e sociólogo brasileiro Gilberto Freyre nasceu na cidade de Recife, Pernambuco, em 15 de março de 1900. De família tradicional na sociedade recifense, seu pai, Alfredo Freyre, era professor, advogado e juiz. Freyre estudou no antigo Colégio Americano Gilreath, atualmente Colégio Americano Batista, instituição de ensino tradicional dirigida por algum tempo por seu pai. Freyre despontou-se desde cedo como um talento para a literatura e as ciências humanas. Ainda no colégio, o sociólogo participou como editor e redator do jornal O Lábaro, produzido pelo Colégio Americano Gilreath.


Freyre estudou sociologia, mas não no Brasil, pois ainda não havia sido fundado o primeiro curso superior de sociologia no país, o que somente aconteceu em 1933. Em 1918 o intelectual partiu para os Estados Unidos, onde cursou, na Universidade de Baylor, o bacharelado em artes liberais e a especialização em ciências políticas e sociais. Na Universidade de Columbia, Freyre cursou o mestrado e o doutorado em ciências políticas, jurídicas e sociais, defendendo a tese de doutorado intitulada A vida social no Brasil em meados do século XIX.


Na década de 1920, ele retornou ao Brasil após os seus estudos nos Estados Unidos e várias viagens pela Europa, voltando também a residir em Recife. Em 1926 participou da formulação do Manifesto Regionalista, grupo contrário à Semana de Arte Moderna de 1922, de caráter nacionalista. Os regionalistas eram contra a “deglutição” da cultura europeia para formular uma cultura brasileira, defendida pelos modernistas, valorizando somente aquilo que era originalmente brasileiro.


Entre 1927 e 1930, Freyre foi chefe de gabinete do governador de Pernambuco, Estácio Coimbra, e, em 1933, no exílio político provocado pela Revolução de 1930 e com a chegada de Getúlio Vargas ao poder, publicou o seu mais famoso livro: Casa-grande e Senzala. Em 1946 foi eleito deputado federal constituinte. Freyre recebeu vários prêmios e doutorados honoris causa e foi contemplado com o título de Cavaleiro do Império Britânico, concedido pela Rainha Elizabeth II, da Inglaterra."


"O que Gilberto Freyre defendia?

Freyre foi na contramão de quase todas as teorias antropológicas que surgiram no século XIX por meio de intelectuais como Herbert Spencer. As teorias antropológicas clássicas eram etnocêntricas e defendiam a supremacia da “raça” branca em relação às demais. Políticos e intelectuais brasileiros trouxeram tais ideias de “pureza racial” para o Brasil e tentaram, no início do século XX, um “branqueamento” da população brasileira como proposta para a melhoria da sociedade.


Para Gilberto Freyre, a miscigenação era positiva. Como estudioso de antropologia, Freyre era adepto das teorias do antropólogo alemão, radicado nos Estados Unidos, Franz Boas. Boas defendia que a cultura de um povo deveria ser estudada não em comparação à própria cultura do antropólogo, mas com uma imersão desse profissional naquela cultura como se fizesse parte dela. Isso permitiria ao estudioso olhá-la de perto e sem preconceitos.


Para Freyre, o Brasil colonial apresentou uma sociedade que miscigenou e integrou africanos, índios e brancos, e era isso que teria formado uma raça mais forte, mais intelectualmente capaz e com uma cultura mais elaborada."


Teorias de Gilberto Freyre

A teoria mais difundida de Gilberto Freyre perpassou toda a sua obra. Em Casa grande e senzala, ela começou a ser discutida, apesar de ainda não ter sido enunciada. Era a teoria da democracia racial, criticada por defensores da luta contra o racismo por apresentar-se como um mito de que havia democracia nas relações entre senhores e escravos no período colonial. Para Freyre, a miscigenação era um fator corroborativo para pensar-se em uma relação democrática entre senhores e escravos, apesar da relação de escravidão impregnada entre os dois."


Casa-Grande e Senzala

A obra Casa-Gande e Senzala foi a mais difundida de Gilberto Freyre, sendo traduzida para mais de 10 idiomas. A escrita do livro iniciou-se num momento em que o autor exilou-se em Portugal, por conta da divergência política com o novo governo de Getúlio Vargas, que chegou ao poder com um golpe em 1930.


Em Casa-Gande e Senzala, Freyre procurou sair do óbvio nas análises sociais: política, economia, sociedade em geral. Ele preferiu aprofundar-se em outros temas: vida doméstica, constituição familiar, formação das casas-grandes (onde viviam os senhores brancos) e senzalas (onde viviam os negros), para entender o engenho de açúcar e a propriedade rural como os centros do Brasil colonial.


Uma mistificação que Freyre ajudou a promover, talvez por influência de seu professor de antropologia em Columbia, foi a de que a miscigenação e a localização geográfica do Brasil (na linha tropical) eram fatores negativos que colocavam o país em uma posição inferior à Europa. A teoria da democracia racial trata-se de uma mistificação ideológica que Freyre, infelizmente, ajudou a construir baseado na ideia errônea de que a relação entre senhores e escravos era pacífica, que os índios aceitaram a colonização de maneira pacífica e que isso promoveu uma relação democrática e a miscigenação.


Essa visão freyreana, apesar de ter algum valor para o entendimento da vida colonial no Brasil, não se concretiza. As análises atuais sobre a desigualdade social, inclusive, associam verdadeiramente a desigualdade e a exclusão com a questão social. Talvez o ponto de partida de Freyre que o levou a formular a teoria da democracia racial (e que era a relação racial explicitamente segregacionista dos Estados Unidos) tenha o levado a perceber uma democracia racial no Brasil por haver nele uma relação mais branda entre negros e brancos.

No entanto, o racismo velado e estrutural nunca deixou de existir por aqui, e a desigualdade social mostra-se como um fator fortemente provocado pela escravidão e pela relação de submissão à qual negros e índios foram obrigados pelo homem branco. Portanto, a tese principal de Casa-Gande e Senzala parece não se sustentar, ao passo que o livro constitui uma interessante ferramenta para a compreensão da vida cotidiana da sociedade colonial."