ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que passeiam levemente por essas águas. Os textos são de autoria de Luís Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. Esse parentesco ocorre pela parte da mãe do autor, Maria José Gomes Peixoto Freire, cujas informações estão no livro "Os Troncos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti. O referido livro desenrola o novelo genealógico das famílias originárias de Goianinha, município próximo, de onde originou-se a família de Nísia Floresta, e pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de crônicas, artigos, fotos poemas, etc. O autor ministra palestras e pode ser convidado através do e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com.br. Fone: 99827.8517 - É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA. OBS. Só publico comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone, pois repudio anonimato.

domingo, 4 de dezembro de 2016

O QUE APRENDEMOS COM A TRAGÉDIA DO CHAPECÓ


Esses últimos dias têm sido de muita tristeza para todos nós, em virtude da tragédia com o avião que transportava os atletas da Chapecoense. Confesso que fiquei muito abalado, afinal a gente é humano, tem sentimento. Morreu a esperança em muitos jovens cheios de vida, sonhos e conquistas. E esperança é tudo. O terno verde era a personificação dessa esperança. Creio que, mesmo quem não é pai está arrasado. Eu não consegui nem escrever nada. As perguntas que me vem são as seguintes: como ficarão os familiares? Muitos eram esteio da família. A mãe de um deles era doente e vivia graças ao tratamento financiado pelo filho falecido. A esposa de um deles dará à luz a um filho ainda neste mês. Alguns garotinhos que mal entendem da vida, mas já sabem o que um pai representa na sua vida, não os terão mais para guiá-los. Como explicar a morte para eles?
Por outro lado, fico pensando sobre o sistema de aviação. Quem decide onde as aeronaves devem decolar e aterrissar? Quem decide onde devem abastecer? Quem decide onde devem ser submetidas ao olhar dos mecânicos? Seria o piloto ou isso deve ser procedimento deliberado, planejado com antecedência?
Se essa aeronave deveria ter saído com mais combustível ou aterrissado para abastecer, coube a quem decidir, exigir, proibir, autorizar, cobrar ou impedir o voo?
Um piloto - isoladamente - tem autoridade para decidir coisas tão sérias? Não deve ser uma regra básica e intocável que uma aeronave deva ter combustível reserva?
Refletindo outros aspectos, tivemos uma aula de eficiência por parte das autoridades colombianas (equipe de resgate, médicos e mesmo as pessoas comuns), justamente um país que até pouco tempo estava sendo comandado pelo traficantes de drogas, mergulhado em altos índices de violência. Os colombianos deram várias aulas, inclusive de solidariedade e generosidade. Em Chapecó, a mãe de Danilo (morto), mulher plena de serenidade e sabedoria, surge do nada e dá uma aula de algo que não sei dizer com palavras. Não diria que ela seja uma fortaleza, mas tem um entendimento sobre vida e morte que poucos possuem. Solitariamente, ela acalmou a muitos com palavras... palavras...
O prefeito dá uma aula de algo que é também o seu papel. Homem culto, de visão, humano, envolvido, respeitado pelos chapecoenses (é disso que precisamos).
A empresa Lamia não tinha dinheiro nem para bancar o conserto da aeronave, tendo ficado devendo a uma empresa que o fez dias atrás. Como uma empresa - pasmem - de avião voa nessas condições? Eles faziam voos na reserva quase diariamente. O dono da empresa era o próprio piloto. Também soa estranho uma empresa de aviação venezuelana escolher operar na Bolívia. Isso lembra aquela coisa que todos sabemos sobre médicos brasileiros que também vão para lá montar consultórios. São muitas perguntas. São muitas aulas. Creio que, por mais que a Chapecoense precise se levantar, cabe a esse momento deixar essa poeira triste baixar. É muito óbvio e claro que eles se reerguerão como nunca, pois eram exemplos de trabalho, de cumprimento de meta, de envolvimento, sem contar as alegrias, o otimismo...
O Atlético da Colômbia, de maneira nobre, desapegada, sugeriu que a Chapecoense fosse declarada campeã, mas os campeões são eles. Campeões de amor ao próximo, campeões de solidariedade, campeões de fraternidade, campeões de dignidade, campeões da não vaidade, campeões de humanismo e tanta coisa boa.
Estamos próximo do Natal, data em que - já é cultural - muitos parecem amolecer mais os corações. Tentemos nos reerguer e crescer como seres humanos, pois os céus que ontem choraram tanto, receberam tantas pessoas boas. Meus sentimentos a todos, principalmente aos familiares.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

"CASADETAIPA"

Luís Carlos Freire e d. Helena (89 anos) - 1992 - distrito de Campo de Santana - Essa senhora, já falecida, permitiu-me o registro de páginas  maravilhosas de Nísia Floresta, as quais poderiam ter sido sepultadas, acaso meus velhos "cadernos baús" não as guardassem. Infelizmente essa é a única fotografia que consegui recuperar.


"Casadetaipa"


CAPÍTULO I

Luís Carlos Freire
1992-2004

Reorganizado em 2016


Todo ser humano sabe fazer o seu abrigo, assim como os animais sempre o fizeram. E a casa de taipa é um desses abrigos. É ali que ele vive, dorme, descansa, se alimenta, conserta o que se estragou, faz, refaz. Há uma cumplicidade entre o homem e a casa. É uma relação de amor e pertencimento que precisa ser compreendida e respeitada pelos governantes.

Casa de taipa…
de gente
de calor humano
de varas
cipós
fogão a lenha
comida gostosa
sono profundo...
Casa de taipa...
pedaços da gente

retalhos do passados

INTRODUÇÃO

Este estudo, realizado no período de 1992 a 2004 é fruto de História Oral, tendo como objeto de interesse as casas de taipa de Nísia Floresta, município potiguar integrante da região metropolitana, a 40 km de Natal. Certamente o leitor possui informações sobre esse tipo de construção em outras regiões do estado e mesmo do Brasil, e não verá novidade alguma nessa primeira informação. Convém esclarecer, portanto, que esta pesquisa se detém única e exclusivamente ao território nisiaflorestense. Por mais que o tema soe familiar aos potiguares d'outros municípios, há um contexto amplo de informações, o qual vai muito além do barro de das estacas.

Obviamente a casa de taipa de Nísia não possui arquitetura exclusiva, mas a presente observação se faz necessária mediante suas peculiaridades culturais, assim como os aspectos antropológicos e folclóricos desencadeados dela. Meu pai sempre disse que a maioria das pessoas não percebe as cores e os cheiros dos cenários onde vive, pois de tanto que faz parte dele, se sente a própria paisagem. Esta pesquisa permite reconhecer detalhes despercebidos a quem nasceu e viveu em lugares onde a casa de taipa é parte da paisagem e por sua riqueza devem ser proclamados aos quatro cantos.
São múltiplos contextos que afloraram no universo de vários distritos, povoados e lugarejos de Nísia Floresta. Por vezes o leitor perguntará qual a relação da casa de taipa com a enormidade de assuntos aqui destrinçados. A resposta será sempre a mesma: a própria casa de taipa, pois foi através dela que esse novelo foi desenrolado. Seria injusto ignorar os detalhes imiscuídos na conversa gostosa, sob sombra fresca de muitos quintais regados a cafezinho, tapioca e mesmo a deliciosa manga espada, oferecidos por anfitriões idosos, cheios de sabedoria. Foi das memórias dessas pessoas que eu retirei o barro, a madeira e construí a presente casa de taipa, agora oferecida ao leitor para que ele entre e se sinta à vontade.
Alto Monte Hermínio - A quinta casa, de cor verde, tem o frontão de tijolos e dali para os fundos tudo segue de taipa.
Eu não conhecia as casas de taipa antes de chegar a Nísia Floresta. Já havia visto uma centenária casa de pedra, em Xavantina, lugarejo bem distante de onde nasci, cuja curiosidade levou-me até lá para apreciá-la. Suas paredes eram rebocadas com uma mistura de barro e cal. As pedras foram assentadas com barro. Os livros didáticos e paradidáticos da minha infância mostravam fotos e desenhos do famoso “Jeca Tatu” (1) defronte a uma casa de taipa ao estilo paulista, chamadas naquele estado e em Minas Gerais de “casa de pau a pique” (2). Foi também durante a minha infância que assisti ao filme “Casinha Pequenina”, de Mazzaropi (3), cuja construção era desse material. Na realidade, as casas de taipa sempre exerceram-me um encantamento por razões que mal sei explicar. No meu estado de origem – infelizmente – não existe esse tipo de construção. A cidade em que nasci tem sessenta anos e foi planejada com ruas, calçadas e quadras modernas e amplas, cujo fundador era admirador de Le Corbusier. As casas, ou são de madeira de lei, muito bem construídas, sob influência eslovaca – haja vista o fundador ser "tcheco-eslovaco" (4) – ou de tijolos.
O moderno traçado da cidade onde nasci - 1949
Toda vez que me deparo com uma casa de taipa, perquiro-a, mesmo que seja mera ruína. Creio que o correto é dizer mero "entrançado" (5) ou, como dizem muitos nativos: mera "grade", ou "trama". O que fascina é o contraste de sua aparente fragilidade – em se tratando de uma arquitetura de paus, varas, cipós e barro – transformados numa fortaleza longeva. Não é difícil saber quem foram os seus remotos engenheiros ou os seus pré-históricos arquitetos, pois tais construtores existiram no mundo inteiro desde que o homem começou a se organizar em busca de abrigo e conforto. Em algumas regiões do nordeste já foi chamada de taipa de pilão, taipa de mão e até taipa de gaiola. Como bem escreveu o genial arquiteto Le Corbusier: "Uma casa: um abrigo contra o calor, o frio, a chuva, os ladrões, os indiscretos. Um receptáculo de luz e de sol. Um certo número de compartimentos destinados à cozinha, ao trabalho, à vida íntima" (1973).
Casa do fundador da cidade onde nasci, em estilo theco-eslovaco - 1955

O fundador da minha cidade com seus colaboradores pensando o traçados iniciais do município.
Casa onde nasci - construída em modelo eslovaco - 1955 -  já influenciado pela arquitetura brasileira.
Moderno prédio construído no surgimento da cidade para abrigar a Prefeitura Municipal. Observe a ousadia de sua modernidade - 1957
Moderno prédio construído em 1959 para abrigar a primeira escola.

A cidade contava com uma moderna agência do Banco do Brasil pouco tempo depois de sua fundação.
Atualmente existem poucas casas de taipa antigas em Nísia Floresta, mas em 1992 ainda eram muitas, pois até então não existiam as políticas públicas de moradia como hoje. Com o advento dos programas habitacionais do Governo Federal, houve uma demolição em massa desse tipo de construção, cujos nativos almejavam ter a sua casa de alvenaria, acreditando que as mesmas eram ideais e mais seguras. Não sabiam que estariam entrando numa obra pessimamente construída, cujos “alicerces” eram de troncos de coqueiro e o reboco praticamente de areia, conforme se constatava quando se passava a mão na parede e esfarelava. Descobriu-se depois que o reboco havia sido feito na proporção de um balde de cimento por dez baldes de areia, fruto de malversação dos recursos públicos, conforme as denúncias desencadeadas na época.
Na realidade, as casas de taipa eram muito seguras, como veremos adiante. Câmara Cascudo nos conta em uma de suas Actas Diurnas (6) que o Vale do Capió (7) era berço de residências palacianas, nas quais ocorriam bailes que duravam dias nas várias casas de engenhos ali existentes. Um exemplo de imponência é a ruína da casa-grande do Engenho Descanso, a qual conheci-a em perfeito estado, inclusive conversei muito com o seu último proprietário, Sr. Humberto Paiva (in memorian). 


Frontão do Engenho Descanso já em processo de ruína - seu alpendre já havia despencado - 2004 - Dessa varanda, que mais parece um mirante, os primeiros proprietários ficavam em sentinela, observando o trabalho dos escravos. Desse alpendre é possível enxergar toda a extensão da fazenda.
A casa não era de taipa, mas de tijolões assentados com barro de taipa, coberta de telhas grandes feitas nas coxas – literalmente –, e impressionava pelas dimensões agigantadas de todos os cômodos. O baldrame (8) tinha mais de dois metros de altura. Suas ruínas ainda resistem. Vê-se as nódoas do barro escorrendo na cal branca das paredes que insistem em não ruir. Num dos corredores um exemplar esguio de "galamastro" (9) – certamente trazido por algum pássaro ou morcego – se impõe, ultrapassando o telhado quase totalmente despencado. O piso, de “ladrilho hidráulico” (10) em vários modelos geométricos, impressiona. Trata-se do único elemento que permanece intacto em meio aos destroços desse belo palacete que impressionava pelo tamanho. “O reboco de cimento foi colocado muito tempo depois que a casa foi construída… o reboco original era de barro de paul pintado com cal”, explicou-me o Sr. Humberto Paiva.


Fundos do Engenho Descanso - 2004
Degraus de acesso a casa grande
Alpendre lateral
Alpendre dos fundos - dava acesso a privada (ou "cagador")
Sob essa pequena tábua há um orifício redondo vazado na madeira, no qual as pessoas defecavam (ou "se aliviavam"). 



Já sem telhado, exposta ao sol e a chuva, o barro que durante mais de um século assentou os tijolões de adobe, escorre sobre a cal branca, tingindo as paredes com sua cor peculiar.

O tronco do "galamastro" se impõe, trazido por algum pássaro, talvez querendo dizer que a natureza retoma a sua essência.
O "galamastro" se expande a procura da luz solar, direito este permitido pelo telhado que, desprezado, ruiu.
O degrau, em formato de meia lua - ou "bolo de noiva" - resiste, conservando um pouco de sua beleza.

Engenho Descanso visto do leste para o oeste, ao por do sol.
A antiga Casa Paroquial era um belo exemplar de taipa, muito bem feito, cuja demolição se deu em 1995 para dar lugar ao prédio atual no centro da cidade. Era uma construção ampla, muito alta e feita com aprimoramento. Tinha mais de cem anos. Atualmente existe uma centenária casa ao lado da residência do Sr. Duda Trindade. Ela ainda conserva algumas paredes de taipa. É o que restou das casas de porte mais imponente. A pequenina casa do Sr. "Bambão" é o único exemplar de taipa sobrevivente, ao lado da Igreja Matriz, embora se trate de uma arquitetura simples.

RICOS E POBRES NO MESMO BARRO

No passado, rico e pobre erguiam casas de taipa. Nela, nasciam e morriam várias gerações. Todos faziam casas desse material. A diferença estava no tamanho, comprimento, altura, diâmetro das paredes, piso, madeiramento, cobertura, e o que se colocava dentro delas. Um detalhe curioso eram as fachadas dos proprietários abastados, verdadeiros "cartões postais".
A fachada dos pobres era lisa e sem imponência, mesmo assim muitas casas eram feitas com tanto capricho que se poderia duvidar se era de barro. Havia casos, mais raros, em que os pobres construíam apenas o frontão de tijolos assentados em argamassa ora de barro, ora de areia e cal. O resto era todo de taipa. Tanto o “baldrame” quanto a altura das paredes eram baixos. Havia poucos cômodos, os caixilhos, as janelas e portas eram de madeira barata. Os quartos e cômodos internos raramente tinham portas; usava-se cortinas para dar a privacidade necessária. O piso era de barro batido, que de tão pisado se assemelhava a uma base cimentada, embora nele não podia correr água. Eventualmente a dona de casa espargia água com as mãos para evitar a poeira que causava incômodo nas vias respiratórias.
A mobília era a mais rústica possível. Uns tinham poltronas ou sofás sempre forrados com belas peças de "fuxico" (11), crochê ou retalho. Outros com plástico ou napa. Quem não podia comprar esse móvel, conservava na sala bancos, cadeiras ou tamboretes simples de madeira. A maioria das casas de taipa sequer tinham as paredes alisadas e caiadas, conservando a cor natural do barro e a típica aparência tosca. Outras, traziam o reboco do jeito que foi "rebolado" (12) pelas mãos cuidadosas dos seus artesãos construtores. Pobre só pintava a casa de branco.
Antiga residência no centro de Nísia Floresta - Hoje Museu Nísia Floresta - observe o nicho sobre a porta central com a imagem de uma santa.
A casa de taipa dos ricos era imponente. Toda a sua estrutura, além de rebocada, era alisada e bem caiada. A propósito a cal chegou ao Brasil praticamente nas caravelas, pois as primeiras construções brasileiras tinham como argamassa e reboco esse produto, além de fazer as vezes de tinta, depois que o reboco secava. O cimento veio aparecer no Brasil no século XIX e não era para todos. A parede frontal sempre de tijolos assentados ora com barro, ora com areia e cal. Seus frontões eram adornados ora com verdadeiros rendados, ora com variados desenhos geométricos em alto e baixo relevo, dando-lhe graça e beleza. O baldrame – todo em pedra – era alto, exigindo degraus para acesso. As paredes eram grossas, exageradamente altas e bem caiadas, destoando da cor das janelas e portas, ora amarelas, ora em tom azul Royal. Todos os cômodos internos tinham portas de madeiras. Só rico variava as cores. A parte de taipa era tão esmerada que não destoava em nada das casas de tijolos atuais.


O resquício de "azul Royal" deixado ali há quase cem anos
O banheiro e a cozinha ficavam no corpo da casa e eram feitos de de tijolos assentados com areia e cal. O banheiro tinha o piso de ladrilho hidráulico e um reservatório de água, cujo banho se dava com "quengas de coco" (13), "coité" (14) ou caneca. Por ficar sob sombra, a água mantinha-se em temperatura muito fria. E isso era muito favorável à saúde. Apenas a privada – ou "cagador" – era construída afastada, normalmente na área de serviço, nos fundos. Uma tábua larga com orifício no meio fazia papel de tampa de vaso sanitário. Após fazer as necessidades fisiológicas, tampava-se o buraco com um pequeno pedaço de tábua, evitando exalar mau cheiro.
Todo o piso variava entre os de "tijolo branco" octogonal, retangular ou quadrado. Só rico fazia casa com piso de ladrilho hidráulico, reservando-se os melhores cômodos da casa para eles, por exemplo, sala, antessala, copa, quarto de oratório e corredores. Houve casos, como no Engenho Descanso e no Museu Nísia Floresta, cuja casa teve ladrilho hidráulico em todos os cômodos. Houve quem importasse da França um tipo requintado de piso que era um misto de azulejo hidráulico e cerâmica fina. É o caso da casa que abriga o referido museu, ao lado da Igreja Matriz, construída por uma rica família de sesmeiros que ergueu as casas mais antigas de Nísia Floresta, embora não fossem de taipa e sofressem modificações ao longo dos anos. 

Essa casa foi vendida, muito tempo depois para a família Gondim. Outra é o Centro Pastoral Isabel Gondim (originalmente o primeiro prédio do "Grupo Escholar Nysia Floresta"), construído pelo Coronel José de Araújo, Presidente da Intendência da Vila Imperial de Papari (15), o qual administrou o local durante mais de quarenta anos. Anos depois essa casa foi adquirida pela família Gondim. A última é a "Casa das Freiras" (16), recuperada recentemente, embora o ladrilho hidráulico desta era nacional. Atualmente o piso foi revestido com cerâmica moderna imitando ladrilho hidráulico.
Como percebemos, ricos e pobres edificavam casas de taipa. E as diferenças eram gritantes. Hoje, ricos e pobres fazem casas de tijolos de oito furos, cimento e ferro, chamadas "casas de alvenaria". As diferenças continuam as mesmas de sempre: ricos fazem casas grandes, muito altas e luxuosas, enquanto pobres fazem – ou recebem do governo – minúsculas e baixas moradias que, com dez passos se vai da sala ao quintal, e levantando os braços, toca-se o teto.




"Casa das Freiras" em Nísia Floresta - 2014 - Aqui se reuniam as autoridades católicas que posteriormente dariam início a Campanha da Fraternidade no Brasil, exatamente no distrito de Timbó. Abandonada por sacerdotes anteriores, foi totalmente restaurada sob cuidados do Pe. João Batista Chaves da Rocha.
FILHAS-MOÇAS SOB VIGÍLIA

As casas antigas de taipa – de pessoas consideradas abastadas – eram divididas por corredores, salas e antessalas. Havia, inclusive, uma curiosidade: os quartos de muitas delas eram interligados por portas, independente da porta de acesso à sala. Vi modelos cujas portas se sequenciavam do quarto dos pais para o quarto das filhas em quatro cômodos seguidos. Os antigos contam que era para os pais vigiarem suas filhas à noite – fazendo jus ao velho comportamento “mouro” (17) – importado de Portugal.
Muitas casas eram construídas de maneira que o quarto das filhas, embora bem arejado, não tivesse janelas, exceto cobogó. Contam que, além de ser uma estratégia para evitar a entrada de gatunos, era uma forma de evitar que possíveis pretendentes mais afoitos viessem roubar suas "moçoilas". Mas há quem diga que a ausência de janelas visava justamente evitar a fuga das "moçoilas" nas caladas das noites para alguma festa.
Normalmente, o quarto do casal, onde ficava "o chefe da família" (18), localizava-se em local estratégico. Isso não acontecia por acaso. Era tática de vigilância noturna. Além do chefe de família, não faltavam solteironas de plantão, de olho nos mínimos movimentos noturnos, pois as famílias eram grandes. Toda casa tinha uma sucessão de tias, tias-avós, sogras e agregados. Nesse bojo incluía-se muitas “moças velhas”, legadas ao "caritó" (19), as quais vigiavam as mocinhas da casa como a onça vigia seus filhotes. Algumas, recalcadas por nunca ter se casado, não perdoavam que sequer cogitassem a possibilidade de as moças jovens experimentarem o "fruto proibido", inclusive há farta literatura sobre os famosos "chiliques" das tais moças-velhas, cujo comportamento era diagnosticado pelos médicos como "problema de nervos". O quarto do "chefe da família" destoava dos demais, pois possuía janela (ou janelas). Nenhuma moça seria inconsequente a ponto de arriscar furar essa blindagem toda.
Outro ponto curioso eram as travas dessas janelas, em madeira de lei, tão resistentes que jamais alguém poderia arrombar. Algumas delas possuíam duas travas seguras por grossas argolas de ferro presos a parede ou na própria caixa da janela. Mas parece que tal exagero não se dava pelo receio de alguém vir de fora para dentro, mas de dentro para fora. Ou seja, o temor não era apenas de possíveis gatunos, mas de eventual fuga de filhas mais afoitas. Abrir uma janela dessas na calada da noite era promover um barulho tão grande que acordaria até quem fosse mouco. Os ambientes que complementavam a casa de taipa recebiam nomes específicos, como “a casinha” (privada), “casa de farinha”, “casa de despejo” e cozinha, essa normalmente era afastada, sob árvores próximas às casas. Como escreveu Gilberto Freyre, em Casa Grande e Senzala, restava para a morada principal a função de guardar valores e proteger as mulheres. A cozinha das casas da região Nordeste, apesar de ter sido por sucessivas décadas “lugar de mulher”, só era construída fora do corpo da casa por pura necessidade: afastar a quentura insuportável do fogão a lenha. Essa opção favorecia as mulheres, cujos cabelos não se impregnavam de fumaça depois que tomavam banho. Sem contar que as roupas de cama e de uso pessoal que ficavam expostas nos quartos, absorviam o cheiro vindo da lenha. Apenas os velhos casarões, por serem altos e arejados afastavam essa possibilidade.

PORTAS DIVIDIDAS AO MEIO

As velhas casas de taipa traziam na entrada e nos fundos um tipo de porta dividida ao meio, funcionando independentemente. Em termos de tranca, quando não usavam “taramelas” (20), faziam uma engenhoca usada para fechar ambas as partes de cada vez. Eram travas pesadas, feitas em ferro ou madeira de lei, muitas vezes encaixadas na própria parede, presas por anéis de ferro ou em furos no caixilho. Outrora, seguras por peças de ferro. É o caso da casa do Sr. Arnaldo, a mais antiga residência em área urbana de Nísia Floresta, depois da Igreja Matriz, embora seja de tijolões e barro de taipa rebocado com cimento.
"Casarão do Sr. Arbaldo" - essa é a morada urbana  mais antiga de Nísia Floresta; OBS. Não é de taipa.
Essa ideia de porta dividida ao meio tem relação com a segurança, ventilação e claridade, pois quem está dentro da casa, deixa a parte de baixo fechada e a parte de cima aberta, permitindo a entrada de luz natural e ventilação, evitando a entrada de estranhos ou curiosos. Se uma visita ou um estranho chamasse no portão, atenderia-se pelo efeito de janela proporcionado por tal modelo. Se algum mal intencionado aparecesse, restava a quem estivesse do lado de dentro, saltar e fechar a parte de cima com segurança. Esse modelo ainda existe, inclusive em casas de alvenaria, embora não seja tão comum.
As portas internas exibiam envergadura cujo surgimento do modelo data do meado do século XVIII; observe o local onde deveriam ter vidros: tem formato de leque. A carpintaria dessa residência revela o poder aquisitivo dos seus primeiros proprietários.
No caso do Engenho Descanso, as portas e janelas eram de madeira de lei, prevalecendo envergadura redonda (que nem sempre era o forte dos carpinteiros), ostentando carpintaria perfeita. A esquadria era imponente e alta. A parte de cima da janela exibia um elemento entrançado ao modo de muxarabi” (21), emprestando-lhe grande beleza. Essa parte trabalhada, embora integrasse o corpo da peça, era separada das janelas de veneziana.
Haviam sete portas que permitiam entrar na casa. Cinco davam acesso direto às salas ou corredores, e duas levavam à área de serviço que fazia as vezes de um quintal interno, onde ficavam a lavanderia e grandes reservatórios para água, próximos à imensa cozinha. Esse aparente exagero de portas também parece estratégico. Haviam critérios de acesso aos que moravam ou trabalhavam ali, tanto para entrar como para sair. Quem podia entrar e sair – e por onde? Nesse rol incluíam-se os donos, as visitas, os escravos de trabalho externo e os escravos do interior da casa. Abolida a escravidão, tudo continuou igual, através dos serviçais brancos e negros.
Um escravo ou serviçal – por exemplo – não podia entrar pela porta da sala quando a família recebia visita, exceto se prestasse serviço para aquela circunstância. O que – e quem – poderia entrar – e por onde (pessoas, animais, mercadorias etc). O acesso do chefe da família se dava por todas as portas; não apenas pelo caráter de socialização, mas pela tradicional vigilância moura. Os demais membros da família também tinham acesso a todos os cômodos da casa, exceto o quarto dos pais, onde raramente os filhos ou parentes entravam. A propósito, esta casa tinha 36 janelas.

A PLANTA DE UMA CASA DE TAIPA

Por mais que existissem semelhanças, principalmente na construção das casas de pessoas pobres, não havia um modelo-padrão. Uma casa de taipa de pessoas simples também podia ser grande e ter muitos cômodos, pois exigia muito mais trabalho e força de vontade que recursos financeiros. Tanto o rico quanto o pobre tinham muito trabalho para construir uma casa de taipa, afinal não era fácil a sua execução. A diferença era que – excetuando o barro e a madeira das matas – o rico empregava muitos materiais – até então sofisticados – vindos de Natal.
A casa do pobre se resumia ao que existia em território papariense. A matéria prima essencial para execução de uma casa de taipa vinha da mata. Linhas, esteios, varas, cipós, estacas e pedras. Quase nada era comprado, exceto os caixilhos das esquadrias de janelas e portas, telhas e, raramente, cimento para piso e determinado cômodo. Um nativo que retirasse a maior quantidade de madeira das matas, que dedicasse maior tempo à construção e contasse com boa equipe, com certeza faria uma grande e confortável casa.
Em 1992, contou-me o Sr. Canindé, mestre (22) de Boi-de-Reis (23), morador da rua da Palha, que "só se deve tirar madeira pra fazê casa de taipa nas noites de lua em quarto minguante, pois se pegar em qualquer lua a casa se acaba cedo". De acordo com esse senhor – que já construiu várias casas e participou da construção de outras – “se houver esse cuidado, a madeira seca logo e adquire resistência até a cupim”. Essa informação evidencia a riqueza de conhecimentos populares do homem nativo, que via no ciclo lunar a garantia de longevidade para a sua casa. Perguntei com quem ele aprendeu aquela informação. A resposta foi a que eu já sabia: “meu avô dizia muito isso a quem ia fazê uma casa, e assim eu aprendi”, completou.
Com relação às antigas casas de taipa de aspecto simples, por mais que as plantas fossem diversificadas, todas possuíam uma sala com uma ou duas janelas frontais e às vezes laterais. Nesse espaço ficava uma mesa com cadeiras ou tamboretes. Também se faziam quartos ao modo de “camarinha” (24), conforme me contou a Srª Leonísia: “Mamãe nasceu e cresceu num quarto de camarinha; tinha só um cobogó de dois tijolo na altura das teia”. Algumas casas de taipa possuíam antessala, divisando os quartos. Normalmente uma casa possuía o quarto do casal, o quarto dos filhos e o quarto dos agregados, por exemplo, avós, tios etc. Em muitas casas tinha que se atravessar todos os quartos para se chegar aos fundos, onde ficava a cozinha e, às vezes, a despensa. Nem sempre haviam quartos suficientes para dividir os filhos por sexo. A regra era um cômodo com várias redes ou camas.

COMO SE DORMIAM NAS CASAS DE TAIPA

Até a década de 1990, havia o predomínio do uso de redes – também chamadas “tipóias – para dormir e descansar, portanto um dos acessórios que nunca faltava numa casa de taipa era o "gancho" ou "pendurador". Essa peça, feita de madeira ou ferro, era fixada com segurança, normalmente em esteios, linhas ou partes com madeira grossa, pois o barro jamais suportaria o peso de uma pessoa. Nesse caso havia possibilidade de se contar com um guarda-roupa ou cômoda, pois, guardadas as redes, o quarto ficava como se estivesse vazio. Um costume comum em casa de taipa era enrolar a rede e deixar a "bola" enganchada no pendurador assim que o dia amanhecia e o usuário se levantava.
Alguns possuíam camas adquiridas nas lojas da Ribeira (25), mas normalmente eram feitas de talisca e o colchão de junco ou capim. Quase todos os quartos tinham um caritó, onde ficavam o penico, o candeeiro e algum assessório de uso do quarto. Perguntei a d. Leonísia explicação sobre a razão do nome da peça. Muito expressiva, ela respondeu com outra pergunta: “moça véia e feia num fica pelos canto, sem ninguém?! … é igual ao caritóele só fica nos canto, esquecido, é por isso!”.
Como não encontrei "caritós" de época, seguem estes como ilustração - vejam como o passado se refaz e se recria no presente.


Como as famílias sempre eram numerosas, a organização da dormida, seja em camas ou redes, ficava sob os cuidados da mãe. Diferente das redes, o uso de camas, impedia a existência de guarda-roupa ou cômodas. Desse modo, as roupas ficavam penduradas numa corda rente a parede ou atravessada de uma parede a outra. Alguns tinham malas de madeira, também chamadas de “baús”, que fazia papel de criado-mudo, mesa de centro e até mesmo banco.
Na maioria das casas de taipa de Nísia Floresta se encontram ganchos de rede em todos os cômodos, até na cozinha, pois durante a noite a casa inteira se transformava em quarto. Isso evidencia quão numerosas eram as famílias das décadas passadas. Hoje, essa cena é mais visível nas casas de praia, onde famílias inteiras se transferem para lá durante as férias. Até mesmo a varanda se transforma em lugar de dormir. Ainda se veem pessoas mais velhas que não trocam a rede por cama, mas é um número restrito. O que parece ter mudado o hábito de se dormir em rede foi a facilidade que os nativos passaram a ter – ao longo dos anos – para comprar mobílias. Antes era um bem considerado luxuoso, acessível apenas aos ricos. O preço de uma rede era incomparável ao de uma cama, explicou-me d. Leonísia.

A ÁGUA NUMA CASA DE TAIPA

Toda casa de taipa tinha um jirau de madeira com função de pia de cozinha, sempre construído nos fundos da casa. Nele ficavam duas bacias grandes de alumínio para armazenar água, cabaças, coités e “quengos” (26) que serviam para manusear a água ao lavar panelas e pratos. Tanto a cozinha quanto o banheiro tinham por perto latas industrializadas que serviam para transportar água limpa. E a água, como veremos adiante, vinha do “cacimbão” (27).
Só na década de (OBS. PRECISO CHECAR A DATA), com o advento da água encanada, as casas de taipa das áreas próximas ao centro do município receberam torneiras. Como diz o nisiaflorestense, era um “bico”(28) só, e ficava instalado no quintal. Não havia como engendrar canos hidráulicos na trama de madeira das paredes das casas de taipa, pois no caso de vazamento, deteriorava-se o barro rapidamente.
Jenipapeiro - 1998 - Essa imagem (verdadeiro poema) traz uma plasticidade excepcional. Observe o jirau com a dita bacia de alumínio, uma lata de "Mucilon" para apanhar água trazida pela mangueira. A lata é a versão atual das coités e dos quengos. Observe ao fundo um pilão antigo servindo de mesa para uma bacia e, ao mesmo tempo, ao lado, uma vasilha plástica e um rapete pendurados numa estaca, que faz as vezes de um armário em pleno quintal. O rego leva a água para os pés das plantas; as palhas de coqueiro, herança indígena, ainda é usada nessa residência, a qual traz a sala e os quartos de alvenaria, mas a cozinha - com fogão a lenha - é de taipa.
Com o advento dos produtos industrializados, a mangueira de jardim passou a ter papel fundamental, pois direcionava a água para o lugar de interesse do usuário. Toda água servida de uma casa escoava por regos sulcados em direção ao tronco de alguma planta, fazendo a alegria dos patos, galinhas e outros animais domésticos, evitando desse modo o contato com os "pés de parede". Normalmente a chuva causava pequenos danos apenas à faixa da parede próxima ao solo. Muitas casas de taipa passavam anos muito bem conservadas, sem precisar de retoque, pois os donos faziam engenhocas em forma de bica, por onde as águas pluviais corriam para algum reservatório ou mesmo no quintal, mas afastado da casa e longe das paredes.
Jenipapeiro - 1998. Bela imagem registrando duas gerações da mesma família no quintal. A mãe, sentada num sofá descartado pela casa, observa a filha lavando roupa sentada e usando uma bacia de alumínio e mangueira, cujo "bico" está ao lado. A cena se dá ao lado de uma porção de pedras típicas para fazer baldrame. No fundo, vê-se uma casa de taipa e um cacimbão no quintal. Sobre ele um recipiente plástico faz op papel de balde.
Alguns proprietários não eram tão caprichosos e deixavam a casa se deteriorar a olhos vistos. Desse modo os “pés de parede” ficavam com buracos que passavam uma criança. Os antigos sempre diziam aos mais novos que “casa de taipa é inimiga de muita água”, explicou-me o Sr. Manoel Salvador; desse modo era fundamental maior cuidado nos locais expostos à chuva ou à água do cotidiano.

A “GELADEIRA” DE BARRO

Ricos e pobres tinham grandes jarras ou potes, usados para guardar água potável, chamada “água da diária” ou “água do gasto”, pois era apenas para beber e cozinhar. Normalmente a peça ficava no chão da cozinha, rente à parede, longe do fogão a lenha. Alguns mandavam fazer uma engenhoca de madeira, na qual o pote ficava encaixado. Era uma peça baixa. Imagine uma pequena mesinha de três pés com um buraco no meio. Agora imagine o pote metido nesse buraco. Outros o deixavam sobre uma forquilha tirada da mata. O líquido precioso ficava protegido de insetos ou qualquer intruso que porventura se aventurasse por ali na calada da noite. Diferente dos outros utensílios de cerâmica que tinham tampa de barro, pote de barro nunca teve tampa de barro. Cobria-se com um pano limpo, normalmente de algodão, e colocava-se uma peça redonda, de madeira, por cima. Algumas famílias conservavam o seu pote, ou jarra, no corredor.

Como a cerâmica é naturalmente fria, o fato de ficar o tempo todo sob a sombra e ventilação frequente, a água adquiria uma temperatura agradável. Não é gelada, mas quase. E o gosto é bom. De barro. Outro acessório que estava sempre ao lado do pote era uma mesinha com canecas de alumínio. A maior era para encher as menores. “Não pudia butá no pote a caneca que alguém acabava de beber água, explicou-me d. Leonísia. Alguns mandavam fazer canecas de latas de conserva, outros usavam de cerâmica, mas a rainha do pote era a caneca de alumínio. “Mamãe tinha uma peça de madeira cheia de ganchos para pendurar as canecas; era agarrada na parede”, explicou o Sr. Vicente Inácio de Melo (84 anos), popularmente conhecido como “Vicente Marinho”, morador no centro de Nísia Floresta, ao lado da Escola Municipal Yayá Paiva.
'Vez em quando o pote devia ser higienizado, pois ao longo do tempo criava uma película fina nas paredes internas, conhecida como "lama de pote" ou “lodo de pote”, largamente usado para fins terapêuticos, inclusive doenças nos olhos. A camada se tornava mais grossa no fundo e era cobiçada por muitos. Também se passava no rosto, deixando-o macio e “curava erisipela”, conforme me informou d. Leonísia. Para limpar o pote era necessário emborcá-lo, esfregando uma bucha de "Melão São Caetano" (29) nas paredes internas e no fundo. Nunca se usava sabão, pois a fibra e o efeito gelatinoso da bucha tinham a mesma eficiência de detergente. Creio que seja a saponina. A “lama de pote” dependia da higiene dos donos da casa de taipa. Ouvi contações de gente que esperava o fundo "fazer vergonha" para limpá-lo. Haviam donas de casa tão cuidadosas que iam além na limpeza dos seus potes. Elas traziam areia da beira do rio e esfregavam na parede do pote com a bucha. Esse tipo de limpeza – segundo os nativos – devolvia ao pote a sua cor original.
A casa de taipa foi derrubada para dar lugar às "casas da Prefeitura" (Programas Habitacionais), mas o pote de barro e sua companheira inseparável permaneceu, intacto... insubstituível... com "tampa" versão crochê.


ONDE SE LAVAVA ROUPA NA ÉPOCA DAS CASAS DE TAIPA

A gente saia bem cedo com mamãe para lavar roupa no rio… levava junto uma ruma de “Melão-São-Caetano”… pense num negócio para espumá bem... a roupa ficava arvinha que dava gosto, mais limpa… não era inguá a esses sabão de hoje que fede… é umas muié toda dormente, não sabem nem quarar as roupa… ficava tudo tão cheiroso que dava gosto… mamãe era tão limpa… cansei de fervê roupa com nóda… só depois de bem fervida a mancha largava” (Natália Gomes do Nascimento 90 anos).
Melão São Caetano (ou "erva de lavadeira"), o sabão dos antigos.
Ouvi o depoimento acima, contado por dona Natália, quando ela morava na Rua da Bica, mas toda a sua infância foi passada em Tororomba. Ela explicou-me que em sua época ninguém lavava roupa em casa, pois “cacimbão algum dava vencimento à ruma de roupa”. As mulheres se reuniam com as filhas e passavam o dia no rio, que sempre tinha uma pedra muito antiga, deixada por gerações anteriores. Outras vezes um tronco fornido de madeira servia como base para esfregar e bater as roupas. Os filhos homens também acompanhavam, mas para brincar. Muitas vezes desapareciam nas matas, brincando de tica, balanço ou mesmo comendo frutos silvestres.
As roupas branca ela ensaboava e butava pra quarar” (30) no tabuleiro. Quando tinha mancha, ela fervia quase o dia inteiro. Vez em quando vinha anil” (31) de Natal e ela colocava na roupa. Ficava tão arvinha. As camisa de papai e nossos vestido era butado goma para armar… ela fazia uma aguazinha de goma rala e butava na roupa… era mais pra missa, contou-me dona Natália.
Dia de lavagem de roupa era dia de “liguento”, um pirão feito de peixe. A iguaria era preparada pelas mulheres às margens do rio, à sombra de uma gameleira. Sobre trempes de pedras era colocada a panela, enquanto a lenha ardia. A iguaria era preparada com peixe cozido com muita água temperada com sal, cebola, pimenta, tomate e pimentão. Despejava-se farinha de mandioca para tornar o caldo espesso. Na última mexida, despejava-se coentro e cebolinha picados. O cheiro serpentava a mata, numa silenciosa anunciação de estar pronto, enfeitiçando a todos. Não havia como não se sentir atraído. Em frações de segundos todos estavam a postos.
Eu, participando de um liguento em "Tororomba"
Dona Leonísia contou-me que sua mãe lavava roupa no rio da Bica. Ela também preparava “liguento” e servia o pirão em quengas de coco e cuité. O pai se esmerava tanto no fabrico dessas peças que pareciam pratinhos de louça de tão lustrosos. Usando uma concha de quenga adaptada num galho roliço, a cuidadosa mãe dividia o alimento entre todos, cuidando de reservar um pedaço de peixe para cada menino. A carapaça de uma semente, chamada, ‘panelinha’, tal qual a concha, fazia as vezes de colher metálica, que eles nem sabiam existir. A criançada fazia dos dias de lavagem de roupa o seu parque de diversões. “Mamãe as veis ficava brava com os menino que baldeava a água que ela tava enxaguando roupa… aí o cipó comia no lombo”. Eram assim os dias de lavagens de roupa na velha Papari.


A CASA DE TAIPA E O CACIMBÃO

Antes de 1980 (CONFERIR DATA), toda água usada nas casas de taipa de Nísia Floresta vinha apenas do poço, chamado de "cacimbão", o qual era cavado nos quintais. Até hoje o município é tão abundante em água, que ninguém faz esforço para cavar poço, vendo-o verter rapidamente o líquido precioso. Alguns lugares vertem água a dois metros. Somente nas áreas de "arisco" (32), que são mais secas, o cacimbão exige maior profundidade para brotar água ou “chorar”, conforme disse o mestre Benedito. Toda casa tinha um cacimbão, mas muitas vezes famílias diferentes se serviam de um só, pois todos moravam muito próximos.

Cacimbão feito sem tijolos e ainda em funcionamento
Um cacimbão público, construído pela Prefeitura em 1969
Para evitar acidentes, colocava-se na base do cacimbão terra de arisco com bastante pedregulho. Depois passaram a colocar tijolos e, por fim, cimento. A abertura do cacimbão ficava sempre coberta com uma tampa de madeira ou pedaço de “flandre” (33). Ao lado ficava a lata ou o balde usado para “subir” a água. Alguns cacimbões eram protegidos por telhados, mas boa parte ficava exposta a sol e chuva. Os mais abastados o construíam no terraço interligado à casa. Uma das narrações mais estranhas que ouvi é justamente sobre os cacimbões. Contaram-me que após a chegada da água encanada eles foram transformados em privadas ou fossas. O fato de os nativos desconhecerem – ou não se importarem – que sob o solo há o lençol de água, fez muitos nativos contaminá-la com “coliformes fecais” (34).
Certamente isso explica o fato de até pouco tempo ser comum a alguns nisiaflorestenses trazer a pele pigmentada de branco, parecida com “vitiligo” (35). Os nativos denominam popularmente esse sintoma de "pano-branco" (36). A propósito, quando professor e depois gestor da EMYP (1992 a 2000) estranhava quando via alunos de distritos humildes com o corpo e mesmo o rosto repletos dessas manchas. 

Foi daí que passei a comprar uma droga por nome “Nizoral” e ofertava aos que apresentavam casos mais graves. Não posso afirmar, mas quem sabe decorrente da contaminação do lençol freático, pois muitos cacimbões eram próximos uns dos outros e mantiveram a função de abastecer as famílias. Mas essa atitude não foi generalizada. Alguns deram fim em seus cacimbões lentamente. Fizeram cercas em volta e o buraco se tornou o depósito de lixo. Outros foram aterrados. Conheço propriedades atuais que conservam os seus cacimbões intactos. Alguns secaram, outros permanecem tal qual foram inaugurados. Certamente tem valor estimativo para os filhos e netos.

O SABOR E O CHEIRO DAS CASAS DE TAIPA

Ouvi depoimentos curiosos de nativos explicando a maneira como muitos pais detectavam vermes nos filhos. "Comer barro" era um sintoma forte de menino "podre de verme". As crianças arrancavam os chamboques da casa para comer sem cerimônia. Algumas o faziam às escondidas, pois estavam tão tarimbadas com a experiência de ter verme que sabiam que era errado. Alguns pais descuidados só percebiam depois que a criança estava "verde" de tanto consumir os nacos das paredes. De acordo com o Sr. Manoel Salvador, “ninguém nunca morreu de comer barro”. Explicou também que café com barro de casa de taipa deixa qualquer bêbado são.

Mas, "comer barro" não era "privilégio" apenas de "menino buchudo" (37). Muita mulher buchuda (38) teve desejo de comer barro e o fez sem cerimônia, cujo bebê nasceu normal e com saúde. O Sr. Manoel Salvador contou-me que nunca comeu barro, mas confessa que “o dito-cujo soltava um cheiro que remexia as tripa, puxando a gente pra comer”, conforme explicou. Ao perguntar a um nativo sobre o gosto do barro, ele respondeu: “era parecido com água de pote ou filtro antigo. Confesso que também tive vontade de experimentar a "iguaria".
A fama das casas de taipa é ser refúgio dos insetos xilófagos, como por exemplo o mosquito causador da doença de Chagas (39) e Malária (40), além de ser casa de outras traças e peçonhas. Na realidade, alguns olham torto para esse tipo de construção justamente por isso, embora a grande epidemia foi na região Norte, onde tais casas eram inseridas nas florestas. Esse preconceito, associado ao apoio que os governantes dão aos cartéis das construtoras, faz com que muitos tenham pavor só de ouvir falar em casa de taipa. Para piorar elas a associam ao famoso mosquito.
O Rio Grande do Norte não teve históricos tão amedrontadores com relação a doença de Chagas e Malária, mas realmente as casas de taipa sem manutenção se tornavam propensas à moradia de qualquer inseto e até mesmo peçonha. Ao longo do tempo, o barro rachava, deixando grandes fissuras, outrora nacos grandes caiam, sem receber novo "barreado" (41). Como já foi exposto, uma casa de taipa bem feita não difere da casa de alvenaria, mesmo sendo uma construção humilde. O problema estava na falta de capricho de alguns, os quais as construíam de qualquer jeito, deixando buracos para todos os lados. Até mesmo a casa de alvenaria pode se transformar em moradia de mosquitos, escorpiões etc se não for bem cuidada.

CASAS DE TAIPA EM TERRENOS "DE FAVOR"

Nem sempre uma casa de taipa era construída no imóvel do próprio dono. Boa parte delas ficavam em terrenos “de favor”(42), cujos sitiantes, fazendeiros e mesmo os donos de grandes áreas urbanas cediam o local para os amigos morarem tranquilamente até se ajeitar na vida. Haviam casos em que famílias inteiras moraram "de favor" em terrenos, cujo cedente morreu e a palavra do pai foi repassada ao filho, conservando o costume. A questão da honra e da honestidade era um fator religiosamente respeitado, principalmente pelos mais antigos. Palavra dada era cumprida. Nunca um morador reivindicou litigiosamente o terreno onde morava “de favor”, pois sabia que era um bem alheio, muitas vezes de um compadre, um amigo, e que a mesma lhe foi emprestada.
Também era muito comum se morar “de favor” em sítios e pagar a moradia – que era uma espécie de aluguel – com a metade da colheita de tudo o que o favorecido plantava. Chamavam esse tipo de “plantar de meia”, ou seja, metade para o dono das terras e a outra metade para o morador “de favor”. Se a roça não prosperasse por algum motivo – que dificilmente acontecia – não se criava confusão. O comportamento pacífico é uma característica do nisiaflorestense. A entrega dos imóveis se dava de forma amistosa, quando o dono realmente ia precisar para uso pessoal.
Esse costume não acontecia apenas em áreas rurais. Em grandes terrenos de áreas urbanas o costume vigorava. O Porto foi berço desse comportamento durante décadas. Muitas vezes num grande terreno se avizinhavam as casas de taipa da bisavó, da avó, do filho e do neto. Isso se somava a outras famílias que se avizinhavam também, formando uma comunidade. O parentesco, como não podia ser diferente, gerava a máxima: "em Nísia Floresta todo mundo é parente". Várias famílias atravessavam os anos juntas, dividindo alegrias, conflitos, mortes e nascimentos.
Como não podia ser diferente, a família crescia, os filhos se tornavam moços e começavam a se engraçar com alguém. Via de regra esse “engraçamento” acontecia entre pessoas da própria vizinhança, e assim permanecia a tradição de se morar em terrenos “de favor”. E como "quem casa quer casa", o pai se tornava uma referência na construção da casa do filho e da futura nora. As casas eram feitas próximas às casas dos pais e parentes.

AS "CASINHAS" OU "PRIVADAS"

Raramente as casas de taipa tinham banheiros no seu interior, pois o uso frequente de água não combinava com o barro da parede. Desse modo, faziam-se as "casinhas" no quintal, a poucos passos da porta da cozinha. Uma para o banho, outra para as necessidades fisiológicas. Algumas vezes até mesmo as pessoas de melhores condições não faziam os banheiros dentro de casa. De acordo com o Sr. Eutiquiano de Almeida, morador da Barreta, “banheiro dentro de casa era coisa de gente rica; era luxo”. Como se percebe, até mesmo um simples banheiro, pela dificuldade que se tinha de possuí-lo, era demonstração de poder.
Banheiro de palha
Alguns banheiros, também chamados de "casinhas" eram protegidos por palhas de coqueiro muito bem entrançadas, garantindo a privacidade. Em seu interior ficavam canecos de alumínio ou latas usadas para se tomar banho, mas a preferência ficava para as quengas de coco ou cuias de coité. Também se construíam "casinhas" de tijolos, as quais contavam com um reservatório para água feito no chão.
A "casinha" onde se faziam as necessidades fisiológicas também era de palha. Cavava-se um buraco de uns dois metros – tal qual um cacimbão – fazia-se uma engenhoca de madeira e deixava o orifício para se sentar. Também construíam o banheiro ou a privada com parede de taipa. Tudo dependia do capricho do dono.
Com o advento da cal e, muito depois, do cimento, algumas famílias mudaram esse costume, trazendo o banheiro para dentro das casas, pois, embora continuassem de taipa – devido ao preço do cimento – faziam um esforço e aplicavam apenas o emboço desse material. A ideia era fazer apenas o reboco sobre a taipa, pois economizava o cimento, e o efeito era bom, conforme explicou o Sr. Euquitiano. Muitas pessoas continuaram com seus banheiros fora da casa, apenas cimentavam as paredes. Haviam casos em que o proprietário empreendia esforços e construía o banheiro e a privada de tijolos num só cômodo fora da casa, mas interligado. Ficava no terraço dos fundos.
Com o advento do cimento e tijolo, as "casinhas", "privadas" ou "cagador" passaram a ser mais confortáveis, Observe no centro o buraco que fazia as vezes do vaso sanitário. 
O tijolo – considerado material nobre – era usado apenas por pessoas de boa condição financeira. Com o aparecimento do cimento, quase todos os banheiros passaram a contar com o reservatório para água no chão do banheiro. Ao lado ficava uma coité ou caneca que servia para apanhar a água para se banhar. Tais banhos eram muito frios, pois a água ficava na sombra. Contou-me o Sr. Zé de Tatá, morador da Barreta, que “criança 'cansada' (43) se curava facilmente se tomasse banho com a água fria dessas antigas caixas antes do nascer do sol… e a água do mar às cinco horas da manhã botava toda a 'milacria' (44) pra fora… até de adulto”.

SABUGO DE MILHO SECO ERA LUXO NAS CASAS DE TAIPA

Como foi explicado acima, no título “Ricos e pobres no mesmo barro”, o “cagador” era uma estrutura de madeira na qual as pessoas se sentavam para defecar, como fazem, hoje, nos vasos sanitários. As nádegas ficavam acomodadas exatamente numa peça de madeira com um orifício no meio, permitindo um certo conforto. Outras vezes essa peça com orifício ficava no chão, que já era parte do piso de madeira, e a pessoa se agachava para defecar. Mas como era feita a higiene anal? De acordo com os mais velhos, ninguém jogava fora o sabugo de milho seco antes de passar pelos “cagadores”.

Sabugo de milho, precursor do papel higiênico

Contou-me dona Raimunda do “Pirão Bem Mole”, 94 anos, que após fazer as necessidades fisiológicas os nativos se limpavam com sabugos secos de milho. “A mata era o lugar preferido de muitos”, complementou. Quando uma roupa ficava velha a ponto de não prestar para nada, tinha destino certo. Alguns eram tão criativos que cortavam os tecidos em pequenos quadradinhos, deixando-os próximos às mãos ao defecar. Após o uso, todos os assessórios dessa higienização eram jogados no buraco da privada.
As grandes roças de milho começavam a ser plantadas entre fevereiro e março para colher em junho. Os nativos não se preocupavam apenas com as famosas comidas de milho, típicas das festas juninas, mas em juntar os sabugos secos para tal finalidade. 
Velame, precursor do papel higiênico
Quando observamos um sabugo de milho seco, percebemos uma espécie de aveludamento proporcionado pelo resto de bucha onde os caroços foram retirados. Essa característica é ideal para limpar o ânus ao defecar. É assim que os antigos nisiaflorestenses se viravam no tempo em que ninguém imaginava que um dia existiria papel higiênico. Foi-me contado sobre uma planta chamada “velame” (45), cujas folhas são largas e “peludas”, que fazem o mesmo efeito do papel higiênico atual. Cheguei a pesquisar a referida planta, que ainda existem em abundância nas áreas rurais de Nísia Floresta. Suponho que sejam comuns em todo o estado, inclusive na medicina natural o chá de suas folhas é usado contra diarreia, cólicas e aliviar as dores de parto.
Também me contaram que muito tempo depois, quando os jornais impressos passaram a se tornar comuns em Natal, os “ricos” da região sempre tinham alguém que mandava pilhas de jornais velhos para Papari, cujo estoque durava meses e até mesmo anos nos cagadores. Uma senhora cujo nome prefiro obviamente segredar, contou-me que sua mãe escolheu o nome de duas filhas “cagando”. Considerei interessantíssima a narração de uma nativa, que disse com muita naturalidade que sua mãe foi defecar no mato e levou um pedaço de jornal velho. Como não podia ser diferente, enquanto defecava, lia as notícias; e foi assim que encontrou dois nomes diferentes de meninas, achou-os bonitos e os escolheu para batizar as duas filhas que nasceriam seguidamente.
Uma jovem senhora contou-me que, quando criança, sua mãe a mandava para o mato pastorar as vacas. Ali ela passava a tarde até o sol começar a desaparecer no horizonte; era quando tangia os animais de volta ao curral. Quando sentia vontade de defecar, não se fazia de rogada, subia num enorme pé de cajueiro e ali mesmo deixava o intestino funcionar, ao sabor do vento. Já havia o local certo, “era uma forquilha”, explicou, cuja posição horizontal, a escondia entre as folhas provenientes de outros galhos que sobraçavam de um lado e de outro. Lá do alto admirava o horizonte, avistando, inclusive a casa onde morava, enquanto o intestino cumpria a sua única missão. Depois, ela descia a procura de velame, outrora já subia com um galho na mão. Interessante foi ela ter dito que sente saudades dessa época, e que depois de ter deixado o sítio, voltava eventualmente – já casada e com filhos – para visitar sua mãe, e quando via o cajueiro, vinham-lhe as lembranças desse tempo inesquecível de criança.

O PISO DA CASA DE TAIPA

A maioria das casas de taipa dos pobres tinham piso de barro. O transitar de chinelos e pés descalços deixava o piso tão firme que parecia cimento. O efeito era reforçado pelo "socador de chão", uma engenhoca semelhante ao usado atualmente para bater "metralha" (46) para fazer piso de cimento. Água, só para espargir eventualmente para matar a poeira. Só em meado do século XIX alguns se esforçavam e mandavam colocar o piso de "cimento queimado" ou aplicavam pigmento vermelho. Algumas donas de casa eram tão caprichosas na arte de encerar tais pisos que ficavam espelhados de tão lustrados. A casa do Sr. “Bambão” e d. Maria do Carmo é um exemplo disso. Os mesmos esforços que se fazem, hoje, para colocar porcelanato no piso, era feito, no passado, com o mero cimento ou tijolinhos brancos. A vaidade, o luxo, a simplicidade, o tosco ou a opulência de uma casa dependia do que o dono tinha no cofre. O ladrinho hidráulico era material nobre, como atualmente os porcelanatos importados. Via de regra o piso da casa de taipa sempre foi aquele deixado por Deus, desde a Criação.
Tijolinho branco
Outro tipo de piso que ainda deixou resquícios em algumas casas atuais é feito de “tijolinho branco”, normalmente em formato horizontal, dentre modelos quadrados e sextavados. Esse material, segundo os mais velhos “esfriava a casa”. Dona Leonísia contou-me que quando sua mãe lavava a casa, o piso ficava “gelado”, efeito proporcionado pelo vento. Isso se explica pelo fato de serem peças de cerâmica queimada, tais quais os potes de barro que também esfriam a água. Por ser um material áspero, não permitia o uso de cera. A limpeza era feita apenas com água, que era absorvida em poucos minutos.
Ladrilho hidráulico - Engenho Descanso
Como foi exposto acima, as casas imponentes usavam ladrilho hidráulico com belos desenhos geométricos, florais e abstratos que, de tão bem encerados, espelhavam. Alguns derretiam parafina (vela) trazida da Ribeira, misturada a querosene, cujo efeito, segundo contam, era bom. Contou-me d. Maria do Carmo Bezerra Dias, conhecida como d. “Mariinha”, 94 anos, que a Igreja Matriz recebeu esse tratamento durante muitos anos, graças aos esforços de Yayá Paiva, uma beata que devotou muitos anos de sua vida ao referido templo.
Piso feito com pigmento vermelho, conhecido popularmente como "vermelhão".
AS FACHADAS E FRONTÕES DE TIJOLOS E CIMENTO

Outra novidade que veio com o cimento foi a fachada de alvenaria (tijolos, cal e cimento), mas os demais cômodos eram de taipa. Só o frontão era de tijolos assentados com barro ou areia com cal. Com o passar do tempo pessoas mais simples mandavam fazer frontões de tijolos. Alguns pedreiros e mestres de obra eram exímios artistas, adornando baixos e altos relevos com os mais belos desenhos. Alguns encomendavam guirlandas e floretes; outros, optavam por variadas formas geométricas abstratas. Havia preferência pelo contorno das portas e janelas.
Muitos mandavam colocar a data do ano da construção da casa. Há uma inscrição de 1904 na nave direita da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Defronte a um posto de combustível na entrada de Nísia Floresta foi conservado o frontão de uma casa datada de 1936. O resto foi demolido. 


Casarão assobradado que existia logo na entrada da cidade, pertencente à família de Yayá Paiva - demolido em 2005
A antiga casa da Srª Roseira, irmã de Yayá Paiva (ambas falecidas) onde funcionou a Secretaria de Obras no governo de João Lourenço Neto – apelidada de "Casa da Dinda" – trazia o ano de 1934. Infelizmente foi mandada demolir durante a gestão do citado cidadão, apesar de meus incessantes pedidos para que a conservasse, inclusive poderia servir a algum órgão público ou, em últimos casos, deixasse ilesa ao menos a fachada. Essa casa tinha apenas uma parte de taipa, tudo mais era de tijolões dispostos em barro; só o emboço era de cimento.

AS NOITES DE CHUVA NUMA CASA DE TAIPA

O “inverno” (47) sempre foi muito bem recebido em Nísia Floresta, embora se trate de uma região rica em água, mas sempre foi visto com reservas, pois usar o banheiro ou a privada em noites de chuva era um suplício. Imagine uma diarreia em noite torrencial.
Mas não era apenas por isso. Algumas doenças ou sintomas indesejáveis eram justificados pela tomada de "pancada de ar" (48) nas madrugadas, quando as pessoas deixavam a cama, quentinha, e se dirigiam às "casinhas". A “pancada de ar” ou até mesmo a chuva imputava-lhes – segundo diziam – "estalecido" (49), "carne triada" (50), “ramo”, alergias respiratórias etc. O receio desses sintomas fez com que estendessem o uso do penico por muitos anos em Nísia Floresta. Haviam muito tipos e dependia da situação econômica do proprietário. Uns eram de luxo, feitos em louça com belos desenhos, outros, de ágata, latão ou alumínio. Esse acessório, segundo, contou-me dona Natália Gomes do Nascimento (90 anos), ficava debaixo da cama ou da rede, exigindo o cuidado de não tropeçar ou meter os pés dentro ao acordar. Logo de manhã alguém corria para o “cagador” ou no mato mesmo, jogar os dejetos. Ela também contou que o penico às vezes ficava no “caritó”, justamente para evitar acidentes.
Mas algo chama muito a minha atenção. principalmente pelo fato de eu ter vivido boa parte da minha vida numa casa forrada e nunca ter sentido uma experiência contada pelos nisiaflorestenses, com grande nostalgia. São os famosos respingos de chuva no rosto nas noites de chuva. Ouvi depoimentos emocionados de nativos que dariam tudo para reviver tal sensação. Dona Maria do Carmo (in memorian) esposa do Sr. "Bambão", que nasceu e morreu sob casas de taipa, inclusive o seu lar permanece intacto no centro de Nísia Floresta e já foi mencionado nesse estudo, disse-me: "nas noites de inverno a gente ia cedo para a cama, nem esperava papai mandar. Nossa Senhora, era bom demais dormir com aqueles farelinhos na cara… era um frio! a gente deitava e ficava vendo o barulhinho da chuva no telhado... batia e dava aqueles pinguinhos bem fininhos na gente… ai, meu Deus, que tempo bom! as telhas de hoje são mais fornidas, sei lá, diminuiu, mas ainda hoje eu sinto os pingos e lembro de quando era menina".
Eu sempre me impressionei com depoimentos desse tipo. E realmente deveria ser muito aconchegante esconder-se sob a coberta quente, deixando o rosto exposto a essa experiência.

OS "BRECHADORES"

Ouvi histórias singulares sobre trânsitos suspeitos e comprometedores entre a casa de taipa e a “casinha”, sob a cumplicidade das noites escuras, ajudadas pelas sombras das mangueiras que ocultavam a luz da lua. Uma delas é sobre os "brechadores" (51) que percorriam os quintais sem reservaContam que existiam figuras tarimbadas nessa prática, acostumadas a olhar as mulheres tomando banho através das frestas desses antigos banheiros de quintal – pelos buraquinhos da taipa, ou das palhas. Normalmente tais “façanhas” ocorriam nas primeiras horas da noite, quando normalmente as pessoas tomam banho.
Moradores de um determinado distrito contaram-me que, certa noite, ouviram os gritos apavorantes de uma mulher. “Era mais ou menos umas dezoito horas quando a gente escutou uma mulher gritando como louca”, explicou-me J.A.N. Quando perceberam era nos fundos da casa da vizinha. Eles saíram em disparada quando o irmão da moça que tomava banho contou o que se tratava. Eles dispararam no encalço e chegaram a ver o espectro do “brechador” na penumbra; ele saiu passando por cima de pau e pedra, numa carreira desabalada para escapar dos pais, irmãos e amigos da vítima.
Nunca se soube quem era. Raramente eram flagrados, haja vista serem matreiros. “Esses cabra safado faz isso por aí... uma hora aqui, outra acolá”, explicou-me. Alguns rapazes e mesmo homens casados tinham fama de "brechadores", embora nunca foram pegos. E não era somente isso. Contam que muita moça apareceu "buchuda" após tais banhos, pois, estando em tais banheiros, "alumiadas" pela luz acanhada de candeeiros a base de querosene, se entregavam aos apelos de algum rapaz vizinho que aparecia por ali após ter acertado o encontro ainda sob a luz do sol.
Muitos desses imbróglios acabavam em casamento, embora nem sempre oficial. Ouvi casos de mulheres casadas que nesse fervilhado de banhos na escuridão dos quintais, se entregavam a rapazes mais jovens. E nove meses depois surgia o resultado sob foros de ser do marido que sequer desconfiou – ou fingiu não saber. Houve episódios de menino nascer com a cara do vizinho. Assim ouvi, inclusive contado por gente idosa.

BANANEIRAS

Nísia Floresta é um município emoldurado por bananais, os quais disputam espaço com mangueiras e coqueirais. A bestialidade, que encontra terreno – pasmem – até mesmo no Alcorão, tem suas nuanças por estas plagas, se é que se prolongam. Parece bizarro, mas ouvi depoimentos sobre rapazes e – pasmem de novo – homens casados que copulavam com bananeiras. De acordo com N. M. N. isso foi descoberto quando começaram a encontrar buraquinhos de variadas circunferências e profundidades nessas plantas – sempre na altura da cintura de um adulto. A princípio imaginavam se tratar de mera traquinagem de meninos, se não fosse o resquício de odor peculiar ali deixado, confirmando a bestialidade.

A depoente contou-me que foram vistos vultos "mengando" (52) em bananeiras em determinados pontos onde esse tipo de vegetação faz verdadeira floresta. A pessoa que viu, esteve em seguida no local e constatou a pista, na qual o "fetiche" contou com um saco desses de açúcar ou arroz para – certamente – deixar a sensação mais “real”; pelo menos foi assim que me explicou a narradora.
Por muito tempo, encontrar buraquinhos em bananeiras era algo tão comum para alguns que mal se importavam. Passou a ser parte da paisagem. Algumas pessoas eram tarimbadas no assunto, a ponto de serem apontadas por todos, alvo de piadas, zombarias ou rejeição. Curioso é que algumas delas não se importavam, abstidas totalmente do seu senso de pudor ou moral. 

A zoofilia também me foi narrada em fartos episódios, inclusive apontados os seus autores nas áreas de Currais, Porto e outras. Muitos desses adeptos, já pais de família, certamente aposentaram a abominável prática. Sobre isso, no ano passado (1992) estive em Golandi a convite de um aluno, o qual quis me apresentar um senhor que detinha muitas informações sobre uma dança folclórica antiga. Ao longo das conversas que se demoraram uma tarde - dentro de um contexto - o pai do jovem contou ter visto o dono de terras da região de Currais em atitudes bestiais com éguas e jumentas de sua propriedade. Eles ressaltou que a cena lhe era tão comum que ele nunca quis interromper o “idílio”. O dito proprietário se prestava a essa atividade desde adolescente, frisou o homem, provocando risos em todos nós.

A INTIMIDADE DO CASAL NAS CASAS DE TAIPA

Ouvi esse depoimento curioso e digno de análise por parte de psicólogos, pedagogos e psicanalistas. Uma jovem, cujo nome preservo, contou-me que por várias vezes despertou em altas madrugadas, instigada por barulho esquisito vindo do quarto de seus pais. A lua trespassava as frestas do telhado e os buracos da parede da casa de taipa, e nessa penumbra ela conseguia identificar o seu pai se movimentando sobre sua mãe. Ela disse que teve um “baque no coração”. Os gemidos abafados da mãe e o ranger da cama causavam-lhe uma sensação de aflição e angústia, sem entender o que se tratava.
E quando o dia amanhecia, tudo voltava ao normal, menos para ela que não suportava olhar o pai. Sentia medo por ter “judiado de mãe” durante a noite. Assim me disse. Com relação à mãe, explicou que “sentia dó dela”. Desse modo detestou o pai durante boa parte da infância. Não suportava quando ele a chamava para dar-lhe os carinhos típicos de um pai, pois relacionava as imagens da madrugada com o que ele poderia fazer com ela. Assim, disparava, apavorada. Só depois de muito tempo entendeu o que de fato ocorria naquelas assustadoras madrugadas.
Ouvi depoimentos sobre casais que preferiam ter relações sexuais nos locais mais impensados, próximos da casa, evitando justamente chamar a atenção dos filhos ou parentes, pois o silêncio da noite deixava os sons mais audíveis. Desse modo, usavam os banheiros do quintal, “puxadinhos” e até mesmo os arbustos próximos à casa, sempre a noite. Casais que passavam o dia inteiro na roça reservavam “uma horinha” para tais intimidades ao sabor das matas e dos cantos dos pássaros, enquanto plantavam ou colhiam macaxeira, inhame e batata doce. Muito bananal, canavial e moitas testemunharam as façanhas de quem não queria assustar os filhos como o caso acima exposto. Como se percebe, até mesmo as pessoas simples usavam a psicologia para evitar traumas e outros imbróglios.
Por falar nisso, contaram-me sobre um fato folclórico passado numa residência em Nísia Floresta. A empregada pediu a uma assistente que a ajudava na cozinha, que ela ligasse o rádio com o volume mais alto e mexesse nas tampas das panelas enquanto ela estava no banheiro. Toda essa estratégia visava abafar os sons vindos do seu intestino enquanto ela usava o sanitário. Sobre esse detalhe, é muito comum até hoje encontrar nativos que, mesmo tendo banheiro dentro de casa, usam a privada do quintal.
Escutei exatamente esse depoimento: “não tem que me faça usar o banheiro de casa; eu tenho vergonha quando saio e alguém entra, sentindo a catinga que infesta a casa e às vezes vai até na cozinha; e tem também o barulho quando a gente tá c.… Deus me livre”. Confesso que ri muito desse depoimento pela espontaneidade como me foi narrado. Não podia ser diferente. Um nisiaflorestense me contou que quando está fora de casa resolvendo compromissos, não consegue usar banheiros estranhos, mesmo nos lugares mais sossegados e privativos. Explicou que pode passar até dois dias segurando, mas só consegue quando chega em casa.
As questões ligadas ao pudor também tinham nuanças interessantes. Os pais eram muito cuidadosos com a nudez, de modo que jamais permitiam que os filhos os vissem nus. O máximo que se via era o pai de “samba-canção” (53), “ceroulas” (54) e a mãe de calção (55), anáguas (56) saiotes (57) e califom (58). Mas essa regra nem sempre funcionava entre os irmãos, pois muitas casas de taipa eram tão pequenas e sem privacidade que se tornava comum irmãos e irmãs se verem nus, enquanto se banhavam ou se vestiam. Isso não está relacionado de forma alguma a incesto ou algo parecido. Os laços irmanais impunha um respeito natural, abstido de erotismo ou algo parecido.
Também não significa que um filho nunca tenha visto o pai nu ou a filha visto a mãe nua. Era uma possibilidade mais difícil, mas de certo modo relativa, haja vista o pudor natural que se amplia quando há parentesco. É muito comum encontrar até hoje pessoas idosas, de idades entre setenta a oitenta anos, que não admitem ser cuidadas pelos filhos ou cuidadores, justamente pelos pudores, preconceitos e tabus formatados ao logo da vida. Alguns apenas toleram receber tais cuidados por parte dos filhos mais velhos. Mas também é possível encontrar um número menor de pessoas da mesma idade que encaram isso com naturalidade, despidas de qualquer tabu. Parece que, quanto mais nos distanciamos do passado, mais as tradições e costumes vão se diluindo.

A INTIMIDADE DAS MULHERES E MOÇAS NAS CASAS DE TAIPA

No transcorrer dessas pesquisas, ocorridas ao longo de duas décadas, ouvi detalhes que não poderiam passar despercebidos devido a sua importância histórica. Na realidade eu nunca indaguei pessoas sobre alguns pontos discorridos ao longo deste estudo. Pelo contrário, eles foram evidenciados no corpo de um assunto diferente. Como dizem “uma coisa puxa a outra”. No caudal de um tema afloravam nuanças diversas. Foi assim que ouvi um relato muito espontâneo, contado por d. M. J. R. senhora de 78 anos, sobre a sua primeira menstruação.
Eu nunca vi mamãe menstruada. Até essa palavra eu fui aprender depois de véia. Mamãe não me viu menstruada quando eu menstruei pela primeira vez. E nem eu nunca vi ela… nem os pano. Isso não era assunto para ninguém falar… era proibido. Eu nem sabia o que era quando veio pra mim. Tive medo, chorei… era coisa do outro mundo procurar os pais para saber certas coisa. Menina cabida, minha mãe dizia.” Foi através desse relato que perguntei a essa senhora o que as mulheres de sua época usavam durante o ciclo menstrual. Ela explicou que era pano de roupa velha que não prestava para mais nada. “Usava e jogava na privada depois”, complementou.
Naquele tempo as mães não conversavam esses assunto com as filha, não. Nem sobre casamento. O casamento dela foi a coisa mais esquisita do mundo. Ela se casou e pensava que era para ficar junto do rapais, assim como irmão, não sabe! Não pensava naquelas coisas… sabe o que eu tô falando, né? E quando o meu pai se aproximava dela ela corria e ficava pelos canto, chorando. Uma noite ela desapareceu no mato e meu pai passou a noite procurando ela. De manhãzinha ela estava no curral dos bicho, escondida. Ela tinha medo dele quando ele se aproximava e queria as coisas com ela. A primeira vez que ela viu ele daquele jeito… você sabe o jeito que é não é? Tá me entendendo, né, Luís Carlos?! Então ela saiu correndo pra casa de vovó, só depois de muita conversa ela foi viver com ele mesmo, mas desconfiada. É, moça de respeito. Antigamente era assim”.
Os dois depoimentos acima, contados por mulheres com nove décadas de vida, passados mais ou menos em 1920, deixam claro que naquela época a sexualidade da menina era um assunto proibido. As coisas eram descobertas na prática, sem uma orientação prévia da mãe. Isso com certeza traumatizou muita menina, com o agravante de ocorrer numa época em que a única “fonte de informação” era o pai e a mãe. Preferi dizer “sexualidade da menina” por ser uma peculiaridade de gênero, em especial o detalhe da menstruação, pois no que se refere a sexualidade masculina tudo sempre foi mais natural – justamente pelo machismo absoluto e o fato de menino não sangrar. Isso os isentava de sentir o pavor experimentado pelas meninas ao ver os filetes rubros escorrendo entre as pernas, sem sequer imaginar o que se tratava – devido a falta de educação sexual da á
época.
Como não bastasse, pesava desfavoravelmente às mulheres o detalhe do casamento. Praticamente não existia namoro, ou melhor, contato físico como pegar nas mãos, beijar o rosto etc. “O beijo na boca muitas vezes não existia nem no casamento”, disse-me dona Natália Gomes do Nascimento. Ao se casar, as moças eram orientadas apenas às práticas domésticas: cozinhar, coser, cuidar da casa e dos meninos. Os pais diziam que elas iriam para os poderes do marido e deveriam obediência eterna a eles. O assunto 'sexo' era ignorado, como se não fizesse parte da vida conjugal. Quando cruzamos o detalhe da falta de informação sobre sexualidade com casamento, entendemos o quanto era traumatizante para uma menina de doze anos, por exemplo, se casar com um desconhecido de 40 anos, como foi o caso da avó dessa senhora citada acima, e muitas outras, afinal essa discrepância de idade sempre foi muito comum no passado.

CASA DE TAIPA, QUINTAIS E VIZINHANÇA

A privacidade dos quintais das casas de taipa também tinha outras nuanças. Era um detalhe quase inexistente, principalmente nos povoados e lugarejos distantes da área urbana, onde as casas se aglomeravam próximas umas das outras, principalmente em terrenos onde gerações da mesma família se avizinhavam. Nem toda casa era protegida por “faxina” (59), permitindo que seus habitantes entrassem e saíssem pela porta dos fundos ou da sala, transitassem nos quintais alheios a qualquer hora e com a mesma naturalidade de quem transita no seu, aparecessem na janela da casa vizinha atrás de uma "quartinha" (60) de café, farinha, feijão, costume este que funcionava como uma espécie de “escambo”, encarado com normalidade por todos, em nome da boa vizinhança. Nesses vaivens contavam e ouviam as novidades.
Genipapeiro - 1998. Casa de taipa com alpendre e taipa exposta no puxadinho dos fundos. O cachorro, dormindo, ignora os estranhos visitantes. Os vizinhos desembaraçam a rede de pesca para consertar as tramas rebentadas. Ao lado deles um recipiente feito de pneus serve de morada para os caranguejos.
Normalmente, os únicos espaços faxinados nos quintais eram os chiqueiros de galinhas ou porcos, hortas e locais onde se plantavam ervas medicinais, justamente para evitar a entrada de bichos; o resto era aberto e em constante trânsito. Essa “geografia” é comum até hoje em todos os povoados de Nísia Floresta. A vida de todos era compartilhada sem reservas. Era como se todos fossem parentes. Sabiam das alegrias, tristezas, misérias e farturas alheias de maneira muito natural. O hábito de uns confidenciarem assuntos pessoais – e até segredos – entre si gerava cumplicidade e muitas vezes fofoca, embora parece que as maldades daquela época passavam anos-luz das de hoje. Por sua vez os mexericos causavam inimizades. Não era regra, mas um comportamento comum. Até mesmo a inimizade não se demorava muito, pois o tempo gasto “ficando de mal” (61) desperdiçava a oportunidade de saber mais novidades do vizinho.

A DESPENSA NAS CASAS DE TAIPA

As casas de taipa também possuíam despensa, e seu tamanho e fartura dependiam das finanças dos donos. Era nela que se guardavam alimentos e objetos utilitários de cozinha, assim como panelas, caldeirões, moedores de carne, urupema, cuias para apanhar farinha, feijão etc. Normalmente, tinham a metade do tamanho de um quarto normal e as paredes eram cheias de prateleiras. Esse cômodo era "gerenciado" pela dona da casa, a qual controlava rigorosamente a entrada e a saída dos alimentos, ao modo de almoxarifado. Às vezes a função era passada a uma empregada antiga e de confiança, a qual vigiava a despensa como "cão de guarda".
Ali ficavam os nacos de carne de sol pendurados em ganchos de ferro. Nas prateleiras ficavam dispostos os queijos e grandes potes de doce de caju, laranja da terra, goiaba e outros. Grandes tijolos de rapadura eram guardados aos fardos, protegidos por embiras e palhas de bananeiras. No chão ficavam sacas de farinha e feijão. D. Leonísia contou-me que colocando a imagem de Santo Onofre no saco de farinha o produto renderia muito, como que milagrosamente. Caixotes de peixe seco impregnavam o ambiente de uma espécie de cheiro de bacalhau velho com cereais. Uma despensa era local cobiçado pelos próprios convivas, os quais a assaltavam na primeira oportunidade, principalmente a meninada.
Contou-me o Sr. "Zé Catita", em 1994, falecido com mais de noventa anos, que o seu apelido "catita" (62) lhe foi dado pelo pai, fruto de seus assaltos noturnos à despensa da casa – quando criança. Ele comia os olhinhos dos peixes voadores que ficavam em caixotes na despensa. Todos passaram a estranhar o sumiço único e exclusivo dos olhinhos dos peixes. Imaginando que se tratava de uma catita muito seletiva com os seus acepipes, passaram a guardar os peixes de maneira mais protegida, mas os olhinhos continuaram "desaparecendo", até que um dia a "catita" foi pega com a "boca na botija".
A despensa das pessoas humildes era um pequeno quartinho ao lado da cozinha, sem guarnição alguma. Ali ficavam as sacas de feijão e farinha, base da alimentação do nordestino. O resto dependia da caça e da pesca do dia, sempre fartas. Outra iguaria apreciada até hoje era o cuscuz, cujo milho seco ficava de molho na água durante a noite. No outro dia era só pilar e pô-lo no vapor, protegido por um paninho de prato limpo. Os mais velhos sempre disseram que em Nísia Floresta ninguém passava fome, pois dava tudo, bastava ir atrás. Também ouvi muito a frase: “em Nísia Floresta não existem mendigos”. “Os mendigos daqui vem de São José de Mipibu”, explicou-me o Sr. Pedro Leandro.

O QUE SE COMIA NO TEMPO DAS CASAS DE TAIPA

Em Nísia Floresta, até a década de 1990, o que mais se ouvia era que ali passava fome quem queria. Isso é facilmente explicado pela fertilidade de suas terras – verdadeira Manah – e principalmente suas lagoas e pequenos rios piscosos. Não é à toa que o município carrega até hoje o a alcunha de “terra do camarão”. Dona Terezinha Barros de Carvalho, (in memorian), que morou no Porto a maior parte da vida, disse-me exatamente assim: “meu filho, dava medo ver o quintal vermelho de caranguejo… era um passando por cima do outro; eles chegavam até aqui no batente, se deixasse, invadia a casa; camarão você pegava na mão ai nesse riozinho mesmo”.
Até 1970, segundo o Sr ……………………… ilegível (in memorian), “aqui na boca da lagoa os pescadores chegava com as canoa que dava gosto… era um peixe maior que o outro; às veis os menores eles jogavam e os mais pobres pegavam… o camarão Pitu era do tamanho de um palmo… eles enchia os cesto… era fartura demais”.
São incontáveis os depoimentos de nativos descrevendo a fartura de alimentos regionais. A galinha caipira sempre esteve na mesa de todos, principalmente aos domingos, após a missa, contou-me d. Maria Santana (Campo de Santana). “O resguardo de toda mulher era com pirão de galinha caipira. “Elas passava quarenta dias de cama depois do parto, comendo o pirão pra fortalecê e sustentar bem o menino... pirão de galinha enchia os peito de leite... umas tinha que controlá, pois já tinha leite demais por natureza e vazava” contou-me dona “Liquinha” (83 anos), famosa parteira. “Eu perdi as conta de tanto menino que nasceu dessas mão aqui; lembro que só chamei Mané Amaro uma veis, foi caso de menino atravessado”, explicou-me, mostrando as mãos com orgulho. Ainda sobre pirão, sempre foi um prato comum na alimentação papariense, seja de caranguejo, camarão e peixe.
Sr. “Zé Carão” contou-me que “todo mundo tinha roçado, cada um plantava para o seu próprio sustento… papai plantou muitos anos no Engenho Descanso… era fartura demais, a gente vendia na Feira do Carrasco, em Natal; toda casa tinha de tudo… as pessoas era pobre, mas não sabia o que era passar fome… todo mundo tinha do que viver.”
Segundo o Sr. Pedro Araújo de Carvalho, neto do primeiro intendente de Nísia Floresta, Cel. José de Araújo, a comida do pobre era farinha, peixe, camarão, feijão verde, feijão branco, batata-doce, inhame, fruta-pão, jerimun. A sobremesa – palavra desconhecida – era rapadura, inclusive consumida misturada a farinha, coalhada e até mesmo no feijão verde ou branco, explicou-me d. Natália. E todos tinham essa quitanda em suas casas, pois todos tinham roçados.
Até hoje é fácil visualizar essa fartura aparentemente exagerada, mas que foi real durante muitos anos, pois Nísia Floresta sempre teve uma demografia baixa, contrastando com grandes áreas nas quais se plantavam de tudo. O próprio nome original “Papari” evidencia fartura de peixes em suas incontáveis lagoas. Uma das características dos nativos é consumir muito suco. Quase ninguém consome sucos em pó industrializados. Apesar de a mangaba estar na lista das futuras frutas em extinção, é a preferida de todos, juntamente com manga, goiaba, abacaxi, cajá, graviola e carambola. Nos anos 1990 foi introduzida a acerola. A qual adaptou-se de maneira surpreendente ao clima de toda a região, cujo tamanho surpreende.
Eu sempre gostei do ponche de mangaba… mamãe fazia muito, ais veis mistuva as fruta… um dia um hômi do Sul disse que não podia misturá fruta… aí ela deixou, mas quando ela morreu eu misturei muito e dava para meus fii assim, misturado; nunca ninguém teve nada… eu gosto muito do abacaxi misturado com cajá”, contou-me dona Maria Santana, de Campo de Santana.
Perguntei o que os nativos costumavam comer na janta. Ela foi logo me interrompendo com uma longa interjeição “… ah! Meu Deus! Era tanta coisa boa… hoje eu nem posso… essas doença véia acaba com a gente… nóis cumia peixe frito com macaxeira ou batata-doce, jerimun, fruta-pão ou inhame mais café; muita gente pilava milho e preparava cuscuz; cuscuz nunca faltava na casa de ninguém; sempre com manteiga da terra ou molhado no leite do coco ou de gado mesmo… mamãe gostava de cuscuz com peixe ou camarão torrado (61)banana cozinhada também era bom com carne guisada. Às veis carne de caça… papai gostava de caçá… o tatu era bom demais… a janta era mais isso, sempre com café… eu adorava peixe frito com qualquer coisa”.
O Sr. “Zé Carão” contou-me que era muito comum o consumo de peixe e carne de sol na grelha. “Esse negócio de fritar no óleo não existia… não existia nem óleo, só banha de porco, mas todo mundo assava na brasa… não tem nada melhor que carne-de-sol na brasa, depois é só jogar uma manteiga da terra por cima… você já comeu borra de manteiga da terra? não tem coisa melhor”, explicou-me.
Esses e outros relatos evidenciam a riqueza de frutas, legumes, hortaliças, tubérculos, peixes e crustáceos em Nísia Floresta, comprovando aquela máxima comum, dita pelos antigos “em Nísia Floresta quando aparece um pedinte é de São José”, como ouvi muito. Mas hoje, apesar das terras continuarem férteis e com suas grandes lagoas, ampliou-se muito o campo urbano. Áreas onde muitos anos se viam belos roçados, atualmente são conjuntos habitacionais ou meros pastos. Outras foram tomadas pelo mato. Não existem políticas públicas voltadas para a agricultura, pesca e pecuária, exceto atitudes acanhadas e sem impacto algum. Hoje, boa parte do que o município produziu no passado – inclusive exportava para fora – hoje compra tudo da CEASA, em Natal.
No passado, o município cheirava a camarão. Tanto para o consumo do nativo como para venda. Fazia-se o crustáceo de todas as formas, cozido, frito, no vatapá, no caldo, no pirão, “os caminhão saia daqui cheio de corda de caranguejo, camarão… as muié iam vendê em Natal, passava o dia, vendia tudo… até bacia de mangaba… os ônibus da empresa Barros fedia a peixe e fruta, de tanta coisa que os povo levava para Natal... todo mundo queria o que era de Papari… o povo de fora achava bom o que era daqui, explicou-me o Sr. Joaquim, dono do mais famoso restaurante especializado em camarão e galinha caipira da região.
Ele também me repassou um detalhe curioso sobre o fato de sua avó ter-lhe dito que na época dela, comia-se com as mãos. Não existiam talheres. Talvez isso explique o hábito de alguns nativos comerem feijão verde ou branco misturado a farinha amassado com as mãos. A combinação da fécula da farinha e o cereal resulta numa espécie de bolo, cujos nativos o denominam “raposa”; outros chamam “macaco”. Sobre comer com as mãos, Henry Koster (63) registrou esse hábito vivido justamente aqui em Papari, no ano de 1810. Com um quengo as pessoas retiravam na panela o que queriam comer, misturavam tudo no prato e se alimentavam. Os pedaços maiores de carne eram cortados com uma única faca para toda a família. O resto se resolvia nos dentes. Frango era comido ao modo D. João VI (64). Estamos falando de duzentos anos passados. Só depois de muito tempo apareceu a colher, a qual se tornou o principal acessório de uma refeição depois do prato. Nem os ricos usavam garfos.
Quando retroagimos no tempo – levando em conta que o Sr. Joaquim tinha quase noventa anos – sua história se confirma, pois nos aproximamos da época citada por Koster. Se bem que um costume não tem prazo padronizado de duração, podendo ser muito mais antigo e ter durado muito mais tempo. Ainda sobre comer com as mãos, testemunhei – e acompanhei – d. Natália se deliciando com “raposas” no alpendre da casa onde morava, na “Rua da Bica”. Quando meu filho era pequeno e apresentou dificuldades para comer certos alimentos, vali-me das famosas “raposas” de d. Natália. A farinha e o feijão era base para misturar frango, carne desfiada e peixe. Deu certo. De vez em quando – não posso negar – como “raposas” misturadas a carne guisada
"Raposas" ou "macaco" (feijão amassado com farinha.
Contou-me João Lourenço Neto, professor e ex-prefeito de Nísia Floresta, que a alimentação de sua família sempre foi à base de peixes. A propósito, disse-me que só foi possuir um sapato aos 18 anos, quando ingressou na Aeronáutica. Segundo ele, poucos tinham sapato na sua época. Esse mesmo assunto me foi contado por D. Lourdes Silva (60 anos), poeta popular, a qual residiu longos anos na Moita, ao lado do Instituto Chico Mendes. Ela contou-me que em sua época todos andavam descalços. Só muitos anos depois apareceram as famosas “alpercatas” (65). Lembrou-se até da marca “Roda”. Também disse que só foi conhecer pão proveniente de padaria e macarrão aos quinze anos. “Ninguém conhecia pão e macarrão em Nísia Floresta na década de 1970”, explicou.
Nísia Floresta ainda é aquele lugar, cujas casas exibem nas cozinhas cestas com jerimum, inhame, batata-doce, banana, macaxeira, manga, goiaba, laranja-da-terra, laranja-cravo etc. A geladeira ainda resfria peixes e camarões. O cenário atual ainda lembra o passado tão declamado pelos antigos. São muitos os agricultores informais, que vivem do que plantam, mas nada se compara ao passado. Hoje, existem cozinhas fartas – a dos ricos – cuja fartura vem de fora. Ao lado dela está a dos pobres, nas quais alguns têm de tudo e outros – diferente de ontem – não têm nada.

A ALTURA DAS CASAS DE TAIPA ANTIGAS

É muito comum vermos antigas casas de taipa muito altas, de cumeeiras anguladas bem ao estilo das antigas construções da região norte de Portugal (Douro e Minho). Algumas tão altas no centro que beiram a cinco metros, diferentes das construções de taipa mais recentes. Normalmente são feitas de duas águas. O declínio para o frontão é mais alto que o declínio para os fundos, onde se situa a cozinha. O que tem o centro da casa de alto, tem o fundo de baixo. Muitas vezes é tão baixo que quase toca a cabeça de uma pessoa de estatura média. Quem sai às pressas pela porta da cozinha, pode ser “premiado” com um galo na testa. Tais casas sempre tinham janelas altas e estreitas, como se para proteger de invasores.

A altura aparentemente exagerada de antigas casas de taipa se explica pelo clima quente do Nordeste. É justamente a distância entre as telhas e o piso que faz com que a casa esteja sempre arejada. A ventilação, proporcionada pelos cobogós e grande número de janelas, tornava o ambiente incomparavelmente mais frio que uma casa baixa.
Normalmente a casa do rico e a do pobre não eram forradas, pois esse tipo de construção não permitia tal luxo, exceto se fosse uma opção mesmo. Nesse caso, exigia-se uma série de medidas especiais, que não estavam na alçada dos artesãos locais, mas de especialistas nos grandes centros. Nunca vi modelos com forro no município. O único prédio antigo e forrado de Nísia Floresta era a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, embora não seja de taipa e sim pedras e barro misturado a óleo de baleia e ostras moídas.
Antigo forro de madeira da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, em Nísia Floresta (hoje  retirado).
Quando se forrava uma casa de taipa, proporcionava-se o conforto de tê-la limpa por mais tempo, mas impedia-se aquele fenômeno contado pelos mais velhos com muita nostalgia. Refiro-me às noites de chuva, cujos pingos batiam nas telhas e trespassavam as frestas como delicado sereno. Contam que as fagulhas de água tocando a face era uma experiência muito agradável. Ouvi muitos depoimentos poéticos de quem viveu isso, descrevendo-o como “inesquecível”.

A TAIPA E A PALHA

A longevidade da construção de casas de palha – técnica herdada dos indígenas – ficou restrita às pessoas realmente muito pobres. Os de melhor situação foram logo cuidando de fazer a sua casa de taipa e os mais afortunados, as de alvenaria em número restrito. Até o final da década de 1980 o primitivo estilo arquitetônico à base de palha de coqueiro permeava toda a geografia nisiaflorestense. E engana-se quem pensa se tratar de uma construção que ia ao chão com um sopro de lobo. Pelo contrário, eram exemplares muito bem construídos com linhas, esteios e estacas. A palha fazia as vezes da taipa e das telhas de cerâmica num entrançamento perfeito. Muitos anos depois tal construção se restringiu ao litoral, onde ricos e pobres se igualavam na edificação desse tipo de construção. Talvez isso explique a falta de valorização dada às praias no passado.
As casas de taipa de pessoas muito pobres eram feitas do mesmo modo que a dos pobres comuns. A diferença estava na cobertura, normalmente de palha de coqueiro. Na realidade, havia dois tipos, a casa com paredes de taipa coberta com palhas, e a casa de paredes e telhado de palha. Por ser um material de fácil combustão, a cozinha sempre era feita em cômodo distanciado. De acordo com o Sr. Benedito, Mestre de Boi de Reis da Rua Vila São João, “nem o inverno mais rigoroso fazia atravessar uma gota de água nos entrançados de palha… quem tivesse dentro de uma casa de palha não se molhava”.
Isso era possível, graças às mãos hábeis dos "trançadores" (66). A "trama" (67) era tão perfeita que tinha efeito de impermeabilização. Infelizmente a profissão de "entrançador" de palha de coco foi extinta. Restam, atualmente, alguns idosos que fazem toscos entrançados para enfeitar barracas durante as festas juninas. A “Rua Vila São João”, na comunidade do Porto tinha como nome original “Rua da Palha”, exatamente porque foi um dos últimos lugares a se desfazer dessa tradição. O narrador acima disse “essa rua, de uma ponta a outra, até chegar no Sr. João Amador, era toda cinzinha de palha… tão bonita… tempo bão aquele”.

O FOGÃO A LENHA NA CASA DE TAIPA

Como já expliquei, o fogão a lenha era construído afastado do corpo da casa, embora não fosse regra. Quando não o construíam num alpendre nos fundos, faziam num puxadinho ao lado. Nas casas muito humildes o fogão era feito sobre um jirau de varas e estacas, emendado na parede, sem chaminé. Suas laterais eram bem largas para se colocar as panelas quando se aprontavam os alimentos. A base inferior, onde se colocava a lenha para queimar, se alargava, permitindo ser usada para colocar algum recipiente que precisasse ser conservado quente ou morno. A parte do telhado que ficava sobre o fogão servia para se pendurar peixe, tripa, sebo ou carne, cascas de laranja e outras coisas.
Casa de palha atual em região rural do Maranhão, pois não existem mais em Nísia Floresta - observe como é bem feita e, ao mesmo tempo, perigosas devido à condição inflamável das palhas.
Normalmente a parede e o telhado da cozinha ficavam tão tisnados de fuligem que pareciam pintados de tinta preta, pois nem sempre o fogão tinha chaminé. As pessoas mais caprichosas, que tinham essa preocupação usavam canos metálicos, manilhas ou mesmo tijolos. Debaixo do fogão era guardada a lenha, livrando-a da chuva. Determinadas madeiras quase não emitiam fumaça; outras "enfumaçavam" a casa ou o puxadinho inteiro. Muitos cozinharam durante anos com "catembas" (68) secas de coco. A palha seca do coqueiro era a combustão para se acender fogo com rapidez. Quase todo fogão tinha ao lado uma “bateria” (69), companheira inseparável, de onde se tiravam as panelas e até mesmo o quengo. Alguns tinham uma espécie de prateleira de madeira ou metal presa à parede, semelhante a uma “mão francesa”, onde ficavam dispostos os alumínios. Outra companheira fiel dos fogões era uma pequena mesinha que servia de apoio para se colocar sal, banha de porco e especiarias, usadas na preparação dos alimentos.
A ideia de construir o fogão a lenha afastado da casa era para afastar o calor, se bem que mais adiante o leitor constatará uma curiosa desculpa feminina. Curiosamente o povo potiguar, que desconhece frio e geada, reclama de qualquer friagem durante a época de chuva, aqui chamada de “inverno” (não se refere a estação). Nas noites de inverno” o fogão a lenha era o lugar preferido das famílias, pois deixava o cômodo aquecido e aconchegante. Nessa época, o olfato parecia mais sensível ao cheiro da comida, atiçando a fome. Segundo alguns nativos o cuscuz feito em cuscuzeira de barro tem sabor indescritível, ajudado pelo fogão a lenha. Somado a essa iguaria tão apreciada em Nísia Floresta e região, o cafezinho pilado na hora e feito na lenha dispensa comentários. Esse eu provei em Alcaçuz e Campo de Santana. Realmente não se tem palavras para descrever o sabor.
O fogão a lenha, apesar da sua importância, não era tão benquisto pelos moradores – principalmente as mulheres – pois a fuligem e “pucumãs” plainavam pela casa, acomodando-se nas roupas, tisnando-as. Mas a propósito, como tudo tem seu lado bom, o pucumã, que é uma cinza fina como talco, formada sob as chapas de ferro e chaminés de fogões a lenha, quando misturado a nata, é remédio para sarampo. A fumaça impregnava as roupas pessoais e de cama. As mulheres, principalmente, detestavam se aproximar dele quando aguardavam o pretendente. Ninguém queria estar com os cabelos cheirando a fumaça na hora de passear.

O QUE SE OUVIA NO TEMPO DAS CASAS DE TAIPA

Sempre admirei d. Natália Gomes do Nascimento entoando Pelo Telefone” (70), do compositor Donga. Como eu havia estudado História da Música Popular Brasileira, achava interessante vê-la cantar essa arcaica canção, então perguntei-lhe onde havia aprendido. Ela disse que a escutava pelo “rádio do véi Hermoge”, pai do ex-prefeito José Ramires da Silva. Eventualmente me relatava partes maravilhosas de sua vida – inclusive uma trágica – ocorrida em sua mocidade, quando um homem passou correndo pelo seu quintal e atravessou uma faca “no bucho de um rapaz bem nos meus pés”. O episódio macabro deu-se em Tororomba, onde ela morava na sua casinha de taipa, em 1929.
Costumava cantar a seguinte música, a qual provocava risos de todas as partes: “namorei uma mo-ce-a-cá, o pai de-le-ra-ri-ce-o-có, tinha muito di-nhê-re-o-ró… namorá é bem bom, os filim-nhó-go-nhó, casá não é vi-de-a-dá...”. Pesquisando, descobri depois que essa é uma música caipira de Alvarenga e Ranchinho (71), década de 1930. D. Natália não gostava muito da imagem masculina. Era necessário pegá-la em boa lua para arrancar-lhe informações do “arco da velha”. Eventualmente dizia impropérios contra o genro, Sr. “Zé Carão. Creio que essa impressão sobre o sexo oposto devia-se ao fato de o primeiro marido tê-la abandonado grávida do segundo filho. Nunca souberam o seu paradeiro.


D. Margarida Gomes do Nascimento (esposa de "Zé Carão") e Natália Gomes do Nascimento, mãe de Margarida.
D. Natália era uma senhora encantadora e cheia de histórias. Vez em quando ela me xingava “o que esse dormente quer aqui? Lá vem ele perguntá coisa véia. E dois dias depois me recebia como se nada tivesse acontecido, bastava me ver e começava a desenrolar seus novelos de história. Costumava narrá-los chupando uva ou comendo macaxeira amassada. Às vezes fazia graça quando contava algo, só para ver as pessoas rindo, mas o humor estava sujeito a alterações a qualquer segundo, pois queria ser vista como “durona”.
Sobre a discoteca papariense, contou-me o Sr. Vicente Melo que gostava muito das músicas Última Inspiração, de Carlos Galhardo (72) e “Se eu pudesse um dia”), de Nelson Gonçalves (73); a propósito era um senhor muito inteligente que residia ao lado da Escola Yayá Paiva. Narrou-me sobre os feitos de alguns prefeitos no passado, inclusive um que foi assassinado ao lado do baobá e sobre os “vendedores de água e lenha”, história que tenho guardada para outra oportunidade. Ele gostava de ler. Destoava do que eu via nas casas paparienses.
D. Leonísia mencionou várias músicas de Angela Maria e Dalva de Oliveira (74), e disse que os rádios eram objetos muito grandes, que conheceu um quase do tamanho de uma cômoda. Isso provavelmente se passou na década de 1940. O Sr. Joaquim disse gostar muito Nelson Gonçalves e mencionou as músicas “Luar do Sertão”, de Vicente Celestino (75) e “Carinhoso”, de Orlando Silva (76). Sobre esses episódios acabei ouvindo um fato curioso, contado por ele, que alegou ter ouvido de sua mãe. Trata-se do aparecimento do rádio em Nísia Floresta. Segundo ele foi na casa de um pessoal da família do Dr. Antonio de Sousa (77), ex-governador do Rio Grande do Norte, “na casa grande do Vale do Capió”, complementou. Disse – rindo – que todo mundo ia para o alpendre da casa escutar “o que saia da caixa”, que muitos pensavam existir um monte de gente bem pequenininha dentro do rádio. Outros tinham medo, alegando “ser coisa do diabo”. Não entendiam como uma voz podia vir de tão longe e ser ouvida daquele jeito.

O FOGÃO A GÁS NA CASA DE TAIPA

Morar em casa de taipa não significa estar afastado do progresso. Um nativo contou-me que durante anos sua mãe manteve um fogão a gás – comprado com muito sacrifício em famosa loja da Ribeira – inutilizado. “Ainda me lembro da marca Cosmopolita (78), complementou, narrando o episódio. Achei curioso o fato de ele se recordar dessa marca, a qual também fez parte da minha infância.
"Cosmopolita", um dos primeiros modelos de fogão à gás a chegar ao Brasil: 
Diferente de hoje, quando se encontra gás até nas áreas rurais, no passado era um bem inacessível, portanto as donas de casa compravam esse eletrodoméstico mais para satisfazer o ego feminino – fruto imperceptível do machismo coronelista que acercava a nossa sociedade durante décadas.“Só rico tinha fogão a gás… e usava só em ocasião especial justamente para não gastar o gás que tinha que buscar em Natal… era para fazer um chazinho, uma comida rápida, só… coisa à noite, que era mais difícil fazer fogo a lenha, explicou-me o Coronel da Reserva do Exército, Dagoberto Félix Bezerra de Araújo Galvão.
Sem uso, o fogão funcionava como uma espécie de objeto decorativo. Também era status. Ficava num lugar de destaque, forrado com toalha caprichada de crochê, labirinto ou renda, ostentando sempre um vasinho de flores apanhadas no próprio jardim da casa.

COMO SE GUARDAVAM DOCUMENTOS NUMA CASA DE TAIPA

Certa vez visitei dona Joaninha dos Padres (Joaninha Bandeira), no "Sítio Floresta" (79), onde fui comprar azeite de dendê. Ela morava numa antiga casa de taipa, muito tosca, no Sítio Floresta. Após a sua morte, o local foi abandonado e a própria natureza se encarregou de invadi-lo. Tudo o que restou foi revestido por um tapete de trepadeiras e plantas rasteiras que, ajudado pelas flores, inspira telas e fotografias. Atualmente, todo turista que passa por ali faz um registro.
No fundo dessa casa havia um fogão a lenha, cujo tempo fez tisnar a casa inteira. Na minha visita, constatei um costume muito antigo e comum em toda a Papari. Ela quis me mostrar seu documento de identidade, pois admirei-a quando ela disse que seu sobrenome era "Bandeira". Eu brinquei, dizendo "quem sabe a senhora é parente de Manuel Bandeira (80)". Inocente, ela nem sabia de que se tratava. Foi nesse momento que me surpreendi ao vê-la desataviar a tampa de uma lata de leite “Ninho” e retirar o documento de identidade.
Depois ela abriu uma lata de "Mucilon" e retirou umas fotografias envoltas num saco plástico de arroz. Ao lado, via-se frascos plásticos, semelhantes aos que atualmente vem com achocolatado, aparentemente cheios de coisas. No pé de sua cama ficava uma lata de "Querosene Jacaré" (81), guardando vários jornais e revistas velhas, envolvidas em sacos plásticos. Sua casa era permeada por tais materiais, denotando que ali estava guardado algo de valor ou importância para ela.
As paredes laterais de sua casa se divisavam com uma porção de bugigangas, como pedaços de móveis velhos, arames, pedaços de ferro, plásticos, enfim, sobras de materiais industrializados, colocados ali para uma futura necessidade que quase sempre não existia. Era mais o hábito de juntar coisas velhas para alguma necessidade, conforme explicou-me. Creio que, mesmo sem saber, dona Joaninha dos Padres era uma professora de reciclagem. Curiosamente, observei esse costume em muitas casas de Nísia Floresta, cujos quintais eram verdadeiros depósitos de coisas sem aparente serventia. Muitas delas se desmanchando pelo tempo de exposição ao sol e a chuva.

COMO SE PROTEGIAM OS ALIMENTOS NUMA CASA DE TAIPA

Embora ainda seja comum tal costume, os nativos sempre reaproveitaram recipientes de materiais industrializados para as funções do cotidiano. Não era exclusividade da Srª “Joaninha dos Padres”, mas da maioria dos nativos. As extintas latas de óleo de soja serviram para apanhar água, reservar água para o banho, guardar cereais etc. As latas grandes eram usadas para guardar a água da diária, frutas, ferramentas, além de servir de vaso para plantas ornamentais etc. Os recipientes de margarina, manteiga, leite e todo tipo de frascos de lata ou plástico que tinham tampa serviam para guardar alimentos cozidos ou crus, inclusive dona Joaninha dos Padres me ofereceu doce de jambo que estava guardado num vidro originalmente de azeitona. Os vasilhames de vidro serviam para armazenar mel de engenho, mel de abelhas, “garrafadas” (82), lambedor, remédios caseiros, azeite de dendê, feijão e milho para o plantio da safra seguinte, dentre outras finalidades.
Durante muitos anos, essa foi a única marca de querosene brasileiro
Na sala da senhora citada acima estavam dispostos vasilhames de vidro e garrafas cheias de feijão, milho e sementes. Tudo muito bem tampado, pois era para a época do plantio. “Quando a gente era menina, papai guardava feijão seco nas lata e garrafa... ele tampava com cera de abêia e ais veis sabão. O sinhô pode nem acreditá, mais era dois ano ou mais pra gente cumê… e eu nunca vi um caruncho”. A casa dessa adorável senhora era emoldurada por dendezeiros, mangueiras, leirões de batata-doce, macaxeira, feijão-verde e milho. Tudo em proporção pequena, pois ela já era idosa. Ao longo do tempo, observei que todo recipiente industrializado tinha grande valor numa casa humilde, pois além de servir para guardar alimentos, tinha múltiplas funções.

FINALIDADE DE OUTROS MATERIAIS INDUSTRIALIZADOS

Em tempos mais remotos as caixas de chapéu serviram para guardar vestidos de noiva e outras roupas e acessórios de estimação. “Eram bonitas, fornidas… nelas se guardavam de tudo… fotos, documentos… tudo..., comentou a professora Conceição Trindade, 69 anos. As caixas de sapato ou de camisa valiam ouro, protegendo os mais diversos materiais de uso da casa. As velhas latas de biscoito se transformavam em clássicos guardadores de documentos, fotografias, cartas. Num tempo em que a cerveja era vendida em engradados de madeira, estes se transformavam em pequenos armários para roupas, lençóis e redes. Tudo tinha uma finalidade garantida. As caixas grandes de papelão faziam papel de guarda-roupa, onde também se guardavam roupas de cama e afins. Pequenos recipientes de vidro – originalmente com produtos de boticas – serviam para guardar óleos, pimenta, colorau, unguentos etc.
Esta fotografia, feita em 1942, faz parte de um acervo encontrado há dois anos, num porão, nos Estados Unidos, registrada por um fotógrafo militar americano que deixou os filmes intactos. São as primeiras fotografias coloridas do mundo. Essa imagem foi captada no "campo de avião", futura Base Aérea de Natal, onde chegavam potiguares de todas as partes do estado em busca de emprego oferecido pelos americanos.
Normalmente, esses materiais industrializados chegavam à Papari (83) através dos nativos que trabalhavam em Natal. Eles juntavam e levavam nos finais de semana, pois sabiam que naquele local sem recursos, teriam utilidade. Contou-me o Pastor e militar aposentado Manoel Barros, conhecido como “pastor Neco”, que, durante a 2ª Guerra Mundial, quando os americanos se instalaram em Parnamirim, jogavam no lixo muita coisa desconhecida dos brasileiros, os quais “faziam a festa”, apanhando o que podiam. “Era tudo coisa dos Estados Unidos, coisas diferentes que atraiam os trabalhadores”, explicou-me o pastor. O lixo dos gringos era luxo para os brasileiros. Ele conta que alguns nisiaflorestenses trabalharam na Base Aérea e traziam muita coisa para casa, como por exemplo, latas de conserva, folhas de zinco, caixas de papelão, sobras de madeira, plástico, peças metálicas, enfim a fartura era grande. “Bastava uma lata de conserva amassar que eles jogavam fora… foi assim que muita gente de Nísia Floresta conheceu leite condensado”, complementou o pastor.
As latas de óleo, tinta e querosene serviam para plantar flores e fazer mudas, além de guardar água, ferramentas, frutas, tubérculos etc.

A MEDICINA NATURAL NA ÉPOCA DA CASA DE TAIPA

Atualmente, entretidas com os smartphones notebooks, as crianças nem prestam atenção nos resquícios da medicina natural ainda presente nos hábitos dos mais velhos. A tradição parece em decadência, mas já foi a única alternativa dos nativos e salvou muita gente. Quase todos tinham um pequeno cercado de faxina no quintal; outros construíam um balcão, também chamado “jirau”. Digamos que era uma horta suspensa numa mesa alta, feita com varas e pedaços de madeira tendo as laterais emolduradas para segurar a terra adubada. Nele plantavam ervas medicinais e hortaliças.
"Balcão" ou ""jirau" para plantio de hortaliças e plantas medicinais.
Modelo super moderno de "balcão" ou "jirau", testemunhando que certas coisas do passado podem ser reinventadas, gerando o mesmo efeito. 


Certa vez, sofri um corte no pé e o fato foi presenciado pelo Sr. “Bambão”, que morava próximo. Ele correu até a sua casa e retornou com um frasquinho de “Novalgina”. Eu havia acabado de lavar o pé e ele pediu que eu encharcasse o ferimento com o que estava no frasco. Achei estranho, mas logo vi que o recipiente guardava alguma coisa preparada por ele. Era um líquido preto-vermelhado, denominado “barbatimão” (84). Na realidade, ele conservava – aliás – conserva até hoje, cascas dessa planta em álcool, num litro de Pitu (85) e fraciona o “remédio” em frascos pequenos para qualquer eventualidade. São as famosas “mezinhas” (86).
Lembro-me que ardeu um pouco, mas no outro dia o ferimento não apresentou sinais de inflamação e já secava. Com dois dias ficou imperceptível. Ele também me contou que o leite da folha de “jasmim” tem a mesma propriedade. É só passar sobre o ferimento. Em sua casa era possível encontrar frascos com cascas de “cajueiro bravo” que servia para “doenças de mulher”, inflamações internas e cura de ferimentos externos, dentre outros produtos naturais. Seu quintal, todo “faxinado”, era uma farmácia natural; tinha hortelã, boldo, erva cidreira, alecrim, capim santo, babosa, dentre outras plantas medicinais.
Diferente dos produtos químicos das farmácias, que não eram tão acessíveis – num tempo em que médicos e drogarias era algo inacreditavelmente distante – as plantas caseiras eram usadas numa proporção incomparável. Cascas, sementes, folhas ou flores eram conservadas em cachaça e serviam para beber pequenas doses ou passar sobre o ferimento. Muito tempo depois a cachaça foi substituída pelo álcool, elemento desconhecido durante muitos anos na velha Papari. Alguns remédios só podiam ser passados sobre o ferimento; não se bebia e vice-versa. Determinadas doenças, sintomas ou ferimentos eram curados através do leite das folhas, pó raspado, sumo, vaporização, chás, banhos, óleos vegetais e animais, gorduras, sebos etc. O sebo servia para remédio contra dores nos ossos. Era passado nas áreas que doíam. A casca de laranja era usada para fazer chá para acalmar. A gordura da “jia (87) ou do tejuaçu (88) tirava o “cansaço” (89) da criança.
São amplas as propriedades curativas dos lambedores feitos com várias folhas, cascas e até mesmo com inseto, como o cupim. Cozinhava-se a planta em água com açúcar até dar o ponto de mel ou licor. Antigamente o lambedor era feito em casa, mas hoje se encontra até em supermercado, embora muitos não confiem na autenticidade. Até hoje os “raizeiros” são comuns em alguns bairros natalenses, inclusive presenças garantidas em feiras públicas como no Alecrim. Também se alegam que nem todos são confiáveis, pois vendem “gato por lebre”. Mas, no passado, todo nativo tinha essa farmácia natural à altura das mãos ou mesmo pendurada em jirau, latadas, nos fogões a lenha e até nas paredes. Em todo canto da casa se encontrava um pequeno galho de alguma planta medicinal, acaso precisasse à noite, evitando-se “caquear (90)” mato fora de casa e ser surpreendido por cobra, aranha caranguejeira etc.
Defronte a uma "Casa de Prefeitura", emoldurada por bananeiras uma horta no chão e no balcão.
O sereno exerce papel importante na preparação de xaropes, por exemplo, o abacaxi cortado em pequenos pedaços, colocado num prato fundo, coberto com bastante açúcar, deixado exposto nos telhados até a manhã seguinte, recolhido antes de o sol nascer, é eficiente xarope para asma e acúmulo de catarro no peito. Quase toda casa tinha mel nos cortiços, pendurados nas latadas, árvore ou num canto do alpendre. O mel nunca foi usado com finalidade alimentícia no passado. Sempre teve uso terapêutico, em especial nos sintomas de gripe e catarro no peito. No início de 2000 começou a aparecer muitos apicultores em Nísia Floresta, mas ainda há resistência quanto ao uso alimentício do mel. Foi um dos hábitos que estranhei por aqui.
Na realidade, expus um pequeno contexto desse universo rico da farmácia natural, inclusive existem crendices relacionadas ao uso de vários produtos. Algumas plantas devem ser colhidas no escuro; outras, em lua cheia; outras, cortadas em cruz, com faca virgem etc. Os nativos costumam dizer que determinadas plantas são “um santo remédio”, devido à eficiência. Muitas pessoas idosas nunca foram ao médico, atalhadas pelos remédios caseiros, e tem saúde perfeita. A juventude atual parece alheia a tudo isso.

QUANDO A ÚNICA SOLUÇÃO ERA O MÉDICO

Dotô. Manel Amaro era quem socorria o povo de Nísia. Que Deus o tenha. Era de São José. Homem bom. Quantas veis ele vinha para cá debaixo de chuva num Jeep... socorria mulher quase morrendo de parto. Uma vez ninguém dava jeito numa coceira que apareceu na perna dum tio meu, chega magoô de tanto coçá cas unha. Ele passou uma pomada, a gente foi comprá em Natá. Só se passô uma vez, nunca mais coçô. O povo dizia logo, procura Mané Amaro… era o médico da época”. (Natália Gomes do Nascimento, 90 anos).
São tantos depoimentos desse tipo que, se fosse colocá-los no papel, levariam laudas sem conta. A mesma narradora desse episódio também se reportou ao “finado Candinho”, um profundo conhecedor da medicina, cujo nome foi dado ao Posto de Saúde do centro de Nísia Floresta. Segundo os mais velhos ele atendia a todos e tinha uma espécie de farmácia de manipulação, embora variava entre drogaria e remédios naturais, mas pertenceu à geração que fez parte da mãe de d. Natália. Como ela tinha mais de 90 anos, constata-se que isso se dava entre 1930 a 1950.

Com relação a Manoel Amaro Freire o período compreendia entre 1960 a 1992. Por coincidência sou sobrinho dele. Testemunhei pessoas de diversos lugares que o procuravam para se consultar. Gente idosa que só confiava nele. Poucos dias antes de morrer, em 1992, ele ainda prescrevia, inclusive sua morte foi rápida, decorrente de enfisema pulmonar. Lembro-me que ele saiu de casa com as próprias pernas e falando com naturalidade. Foi a última vez que o vi com vida.
Sobre o meu tio, ouvi seu nome por toda a Nísia Floresta; de Jenipapeiro a Pirangi. Certa vez eu estava em sua casa quando um senhor, morador do Bonfim, o visitou e contou-me que numa noite de forte inverno, sua esposa sentiu as dores do parto. Ele disparou até a casa de Manoel Amaro e este o atendeu prontamente, sob chuva torrencial. Ele contou esse episódio com muita gratidão, inclusive presenteou-lhe com frutas. Notei que muitas pessoas o visitavam em gratidão, sempre com ofertas de frutas, hortaliças, galinhas etc. Ele aceitava para não fazer desfeita, pois nunca cobrou.
Manoel Amaro Freire, embora tratado como médico pela maioria das pessoas, era enfermeiro formado pelo Instituto de Química do Rio de Janeiro. Fazia questão de dizer “não sou doutor”. Viveu as agruras dos soldados do Exército Brasileiro escalados durante a 2ª Guerra Mundial na Itália. Aprendeu anatomia da maneira mais impensada, tratando de amigos vitimados por explosivos, cujas vísceras saltavam para fora da barriga. Outrora era obrigado a cortar pernas dilaceradas por minas ou bombas. Assim aprendeu anatomia ao vivo e em cores, vendo os nervos humanos encolherem como elástico ao partir, veias jorrando sangue, iguais a um cano hidráulico. Passava o dia limpando ferimentos, estancando sangue, costurando cabeças, decidindo que parte do corpo extirpar, enfim, salvando vidas e sepultando amigos. Muitos destes – segundo contou-me – mandavam recados para famílias antes do último suspiro. “Cansei de ver soldado virar menino... implorando mamãe, mamãe... nome doce”, contou-me ele.
Creio que nessa aterrorizante universidade, Manoel Amaro Freire encontrou subsídios diferenciados, que nutriram seus neurônios transformando-o num enfermeiro que sabia mais que muitos médicos. Certa vez encontrei uma senhorinha idosa lavando roupas no rio Mipibu, nos fundos do Engenho Morgado – onde morava o meu primo Tamires Ítalo Trigueiro Peixoto. Ela perguntou se eu era da família de Manoel Amaro. Ao responder, ela contou-me um episódio passado com seu filho que colocou um caroço de milho no nariz. Encerrando a história, ela disse “Mané Amaro era tiro e queda, se ele não desse jeito, ninguém dava”.
Recentemente, conversando com Kátia Palhano, esposa do ex-prefeito de Parnamirim, Maurício Marques, ela – que é nativa de São José de Mipibu – disse que quando criança, fazia arte numas varas de pesca, quando um anzol penetrou sua mão. Na hora do desespero, a mãe e o pai a colocou no carro e disparou ao “Ambulatório”, onde Manoel Amaro atendia. Nem se deram conta que trouxeram também a vara de pescar ainda engatada na linha. Durante o atendimento ele brincou, dizendo “onde foi que a senhora pescou esse peixão bonito?”. Ressaltou que sempre que a via a chamava de peixão, rindo.
Manoel Amaro não tinha papas na língua. Era muito brincalhão. Seus pacientes se divertiam durante o atendimento, pois ele estava sempre dizendo uma máxima, um dito, uma brincadeira, ou lembrando algum episódio engraçado. Achava curioso vê-lo prescrever remédios no verso de papel de presente, em papel de pão ou folha de caderno. Embora aposentado, as pessoas peregrinavam sua residência, trazendo junto a história de quem viu o pai, a mãe, o avô sendo tratado por ele e não o dispensava por nada.
Outro nome que fez história na região foi João Leite (in memorian), embora veio muito depois de Manoel Amaro Freire, Mas sua história eu não conheço.

ACESSÓRIOS FUNDAMENTAIS NAS VELHAS CASAS DE TAIPA

Toda casa de taipa tinha um lugar certo para alguns objetos de utilidade diária e eventual: pilão, urupema, covos (91), puçás (92). varas e redes de pesca, bateria, calão (93), paris (94), facão, quengos, esteiras, cestos de cipó, enxada, enxó (95), vassouras de mato, coités, quengas, lenha, dentre outros. O pilão era um toco com cerne cavoucado de mais ou menos vinte a trinta centímetros de profundidade com diâmetro de quinze a vinte centímetros, uma espécie de buraco bem alisado. Um porrete tão alisado quanto servia para "pilar" (96) os grãos, transformando-os em pó ou farelo. Alguns pilões eram horizontais, diferindo apenas nas proporções. Nele se pilava café, milho, amendoim, mandioca, macaxeira, paçoca etc. Quando não estava sendo usado, o pilão servia como banco.
"Vassoura de mato"
A “vassoura de mato” ea outro acessório inseparável a uma casa de taipa. De acordo com os mais velhos, varria tão bem, ou melhor, que as boas vassouras de piaçava compradas em mercearias. Elas ainda sobrevivem em diversas áreas rurais. D. Raimunda do “Pirão-Bem-Mole” (94 anos), residente na comunidade do Porto, ainda a usa. Em setembro de 1999 vi uma senhora varrendo o quintal com uma bela vassoura de mato em Alcaçuz e Campo de Santana. Em setembro de 2016 vi a mesma cena em Tororomba (97) e Jenipapeiro (98). É sinal que elas sobrevivem e ainda são as preferidas de muitos.
Tendo ido apresentar um estudo sobre Nísia Floresta na terra de Jorge Amado, fiquei maravilhado quando vi essa casinha de taipa no campus universitário e fiz este registro que veio a calhar.
AS CERCAS DE FAXINA E SUA MÚLTIPLA FUNÇÃO

Cerca de "faxina" no distrito de Timbó.
Boa parte das casas de taipa de proprietários humildes era construída em terrenos alheios. Certamente isso explica o fato de a maioria não ter os quintais faxinados, embora não fosse regra. Em época de cimento e tijolos serem produtos caros, a faxina os substituía sem problema. A cerca de faxina era uma construção feita de varas encostadas umas às outras, em posição vertical, sustidas por outras varas mais grossas fincadas no chão. Para que ficassem harmoniosamente dispostas e firmes eram perpassadas por três varas em posição horizontal, sendo uma no rodapé, uma no centro e a última na parte mais alta da cerca. A altura de uma cerca de faxina variava entre dois a três metros. A engenhoca ficava distribuída ao longo de todo o quintal, embora, como vimos acima, nem sempre os quintais eram faxinados. A opção normalmente se restringia às hortas e chiqueiros.
Cerca de faxina com estacas
Podemos dizer que a faxina era uma cerca ecológica, não fosse a despreocupação com o reflorestamento, pois só tiravam, não repunham. Muito tempo depois, algumas pessoas substituíram a amarração por arame liso e farpado, "entrançando" as varas ao longo de sua extensão. Até hoje a faxina é parte das áreas rurais, mas nos lugares turísticos são feitas meramente com caráter decorativo. A última versão da faxina obedece ao modelo das cercas de madeira. Permanecem as varas, mas presas com pregos em duas estacas finas em posição horizontal, sendo uma em baixo e a outra em cima, fixas em estacas enterradas no chão. Não se enterra a base da faxina, deixa-se apenas sobre o chão. São tão bem ajustadas que pelas brechas não passa um pinto, por isso constroem-se também galinheiros, chamados aqui "chiqueiros". Até mesmo o "portão" das áreas faxinadas é feito de varas.
Extensa cerca de "faxina" no distrito de Timbó.
Em 1996 estive numa residência, em Pium, e vi uma bela faxina. O quintal era tão bem varrido por "vassoura de mato" que chamava a atenção. A areia branquinha dava aparência de praia. Fiz, nesse dia, uma fotografia com a cuscuzeira de barro que encontrei no fogão a lenha, pois nunca vira algo parecido. A cerca de faxina, além de proteger a casa de bichos do mato exerce funções mais inusitadas, como varal e armário. De longe se veem o colorido de redes, lençóis e roupas penduradas, além de bugigangas como varas de pesca, cabaças, cortiços de mel, bacias, coités, pneus com plantas etc. Há vários tipos de faxina. Algumas são baixas, feitas de estacas finas. Já vi currais todos faxinados de estacas grossas.

Há variações nas cercas de faxina; aqui, vê-se um modelo feito com pedras na sua base e a parte superior de estacas.

CASA MULTIUSO

Numa casa de taipa, nada se perde, tudo se reaproveita, e bem. Ela é a extensão de quem ali mora. Pelo que constatei, é difícil distinguir se as pessoas moram na casa ou se a casa mora nas pessoas. A relação é muito forte. Os espaços mais impensáveis são usados para tudo. Em Jenipapeiro vi ferramentas, baldes, caixas, bacias, latas etc sobre telhados baixos de fundo de casas de taipa – ou anexos. Quem está dentro da casa, não tem dificuldade para guardar cachimbos, fumo, latinhas de rapé, galhos do domingo de ramos etc. Serve – ou servia – até para esconder coisas valiosas. “Mamãe tinha um segredo, ela guardava dinheiro no telhado, butava numa bolsa de plástico e enfiava entre a vara e a telha”, contou-me d. Maria Santana (Campo de Santana). Basta meter a mão entre as telhas e ajeitar o que se quer guardar.
Percebe-se a relação de amor incondicional às casas de taipa quando as pessoas relembram saudosas, a infância e os episódios vividos nela. Cada um conta um recorte do passado: o fogão de lenha aceso, cozinhando o feijão, a mãe mexendo a canjica no panelão de barro, a avó preparando a galinha caipira; alguns até suspiram, sentindo o cheiro do alimento, o gosto do tempero… é uma relação muito forte de pertencimento. Ouvi relatos emocionados de idosos que descreveram as cenas com realismo impressionante, vividas nesse espaço praticamente em extinção.

O CHEIRO DA CASA DE TAIPA

Em 2005 viabilizei a construção de uma casa de taipa nos fundos da escola Maria Dolores Regina de Macedo Leite, sob os cuidados dos mestres de Boi-de-Reis, Benedito e Canindé. Sugeri a obra a partir do projeto "Túnel do Tempo: de Nísia Floresta a Papari", idealizado por minha esposa Alysgardênia, diretora da referida instituição. Os educadores se envolveram de forma incomum, promovendo um verdadeiro acontecimento na escola. Os alunos entravam num túnel, cujo início reunia elementos contemporâneos ligados ao cotidiano deles. À medida que avançavam, se deparavam com elementos que fizeram parte do passado do município (pilões, covos, cestos de cipó, puçás, redes, etc).
Após percorrer todo o túnel, os alunos e visitantes se deparavam com uma casa de taipa nos fundos da escola, onde uma “escrava” servia tapiocas feitas naquele exato momento, num fogão a lenha. Na pequena salinha ficava um banco de madeira e um tamborete. O telhado servia como base para guardar varas de pescar, covos e paris, exatamente igual a cena que vi em Jenipapeiro. Um “pendurador” de rede se encarregava se segurá-la como uma bola, enganchada a espera de um corpo sonolento. Um CD escondido num feixe de lenha sob o fogão emitia sons de pássaros, vento e chuva, emprestando ao cenário um aspecto ainda mais natural.

No quintal ficavam feixes de lenha, cabritos pastando capim bem verdinho, galinhas e outros animais, protegidos por "faxina'. Na frente da casa foi feito o simulacro de "cacimbão", tendo ao lado uma lata amarrada a uma corda para puxar água. Era um cenário tão bucólico e apaixonante que qualquer pessoa que chegasse ali se encantava. Sem contar que as crianças admiravam e não queriam sair do local.
Lembro-me quando uma professora, por nome Ana Maria Barros de Carvalho, ex-secretária municipal de educação, emocionou-se quando entrou na casinha. Seus olhos lacrimejaram quando ela contou sua experiência infantil passada numa casa de taipa na Praia de Camurupim. O mesmo aconteceu com o policial militar Vavá Mendes, quenemocionou-se ao falar da casinha onde passou a infância, em Tororomba. Ambos disseram que o cheiro emanado daquela inesperada casa de taipa os transportou ao passado, fazendo-os lembrar detalhes que jamais imaginavam. É impossível fazer o leitor imaginar o cheiro da casa de taipa; é uma mistura de barro, fumaça e fogo. Mesmo que o fogão não esteja aceso, emana um cheiro frio de fumaça. Diferente. Inesquecível. E nesse dia eu comprovei que a casa de taipa é parte da pele de cada nativo que a conheceu.

A CASA DE TAIPA E OS ANIMAIS DOMÉSTICOS

Certa vez estive numa casa de taipa em Alcaçuz (99) e vi um cenário de excepcional singularidade, pelo menos para mim. Num canto da sala estava um velho pneu em posição horizontal com palhas de milho, servindo de ninho para uma galinha choca. Outras atravessavam a casa com a ninhada de pintinhos. Sobre o sofá, um cachorro tirava uma soneca sem demonstrar preocupação. A filha da dona da casa se balançava na rede no quarto, usando o espinhaço de uma imensa leitoa como apoio para o movimento. O animal, sob a rede, parecia nem sentir os pés da moça, entretida, dando de mamar a uma dezena de porquinhos. No corredor da casa, um sapo-cururu fazia de morada o pé de um pote d'água. O animal, de tão bem acomodado no sulco, se confundia com o piso de barro levemente úmido.
Sobre o fogão a lenha, um gato descansava espichado tal qual contorcionista. Debaixo dele, vários pintinhos ciscavam algo misturado às sobras de gravetos e lenha. Outros gatos somavam várias madornas pelos cantos da casa. Cachorros percorriam todos os lados em trânsito franco. Alguns saguis exibiam um vaivém contínuo pelos galhos de um abacateiro que sobraçava o telhado e uma latada, certamente atiçados por uma penca de banana ali dependurada. O bicho que pareceu-me mal vindo foi o pato por seu peculiar hábito de esguichar líquidos em abundância por onde passa. A todo instante alguém tangia os que apareciam, sem se importar com os demais.
Num anexo próximo à cozinha, um roliço tejuaçu dormia num chiqueiro de faxina, aguardando o abate (verdadeiro crime contra animais exóticos). Ao lado, num grande pneu, uma cambada de caranguejo pisoteava uns aos outros, cevados pelo dono da casa. Penduradas no madeiramento desse anexo ficavam algumas gaiolas com pássaros variados, e próximo dela um velho papagaio “conversava”, bicando pedaços de jambo. Calangos ora se agarravam aos paus do telhado, tesos iguais a robôs, ora ziguezagueavam pela casa. Contaram-me que era comum aparecer “cobra cipó”, caída dos galhos de mangueiras que acariciavam a casa. Muitas vezes esses répteis serviam de brinquedo para meninos. Com certeza eu estava dentro de uma “casa zoológico”, embora os donos pareciam não perceber a rica fauna harmonizada com tanta naturalidade.
Creio que a inexistência de porcelanatos e cerâmicas favoreciam essa relação. Quem encontraria pelo de gatos, cachorros, penugens de galinha num chão de terra batida? Hoje, essa cena seria impossível nos pisos finos, onde se vê de longe um pequeno cisco.
Eu nunca me esqueci dessa imagem, e, hoje, escrevendo justamente sobre casas de taipa, não poderia deixar de dividi-la com você. Pelo aparente primitivismo da descrição, talvez o leitor ache distante e estranhe a cena, mas, por incrível que pareça, andando recentemente por Nísia Floresta, revivi, nem tanto nas casas de taipa, mas em casas de tijolos e cimento de um sítio, cenas parecidas. Ainda é comum à Nísia Floresta o trânsito frequente de animais domésticos pelas casas, principalmente nos distritos mais distantes da área urbana. Creio que esse “zoológico” seja a terapia que dá paz e longevidade aos nativos

RELIGIÕES E CRENDICES NA CASA DE TAIPA

O culto a Nossa Senhora do Ó (100), remonta o ano de 1735, quando foi iniciada a construção da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, toda em pedra e barro misturado à concha moída e óleo de baleia. Papari reinou quase trezentos anos com população católica. O protestantismo evangélico não tem setenta anos. Surgiu após o município ter recebido o nome de Nísia Floresta.
Era possível identificar uma casa católica sem entrar nela, principalmente se pertencesse à pessoa de situação financeira elevada. Não era regra, obviamente, mas as pessoas abastadas mandavam fazer pequenos nichos no alto do frontão da casa, colocando nele a imagem do santo que a família tinha devoção. Com o advento da energia elétrica, esse espaço ganhou lâmpada que era acesa de noite. O Engenho Descanso traz esse elemento, assim como a antiga casa onde atualmente funciona o Museu Nísia Floresta.
Alguns faziam grutas no jardim da casa, onde abrigavam imagens dos santos cultuados. O costume, embora acanhado, permanece. Curiosamente, nunca vi um nisiaflorestense que possuísse a imagem de Nossa Senhora do Ó, padroeira do município. As únicas imagens existentes ficam na Igreja Matriz. Uma é original, em madeira do século XVIII, chamada pelos nativos “Nossa Senhora do Ó Pequena”, peça tosca e revestida de interessante lenda. A outra, muito maior, imponente, veio da Europa; é trabalhada em ouro, tem traços finos.
Os casarões das famílias abastadas possuíam até capela; é o caso do Engenho Descanso, cujo oratório, em madeira de lei e com belíssimos detalhes torneados ou entalhados, ostentava as mais belas imagens sacras, lindos adornos e acessórios que ligavam a terra ao céu: santinhos, terços, rosários, fitas coloridas de promessas e graças obtidas, ramos do "Domingo de Ramos" e água benta.
O casarão tinha as paredes cravejadas de quadros com retratos de gente velha. Um deles veio do Vaticano em 1900, assinado pelo Papa, abençoando a família do padre Paiva. Cheguei a ver essa quadraria da parede, dividindo espaço com incontáveis estampas de santos e santas, Havia necessidade de se dizer católico a quem chegasse. E esse recado precisava ser dado de longe, portanto a visita percebia o nicho a longa distância. O oratório fechava com "chave de ouro" essa anunciação. N´outras casas, essa informação era passada através da gruta ou azulejos com pinturas sacras.
As pessoas humildes não tinham como anunciar a sua fé católica de maneira tão espetaculosa, pois a qualidade da taipa de suas casas não permitia a construção de nichos nos frontões toscos, muitas vezes mal barreados, deixando à mostra o entrançado dos cipós nas varas. Se o jardim não tivesse uma pequena e acanhada gruta de pedra, bastava pisar no chão da sala e estava anunciado o que todos sabiam: ali morava uma família católica. As paredes ostentavam quadros simplórios com estampas de santos, todos enfeitados com fitas coloridas, fruto de promessas e graças alcançadas. Tais peças eram compradas de caixeiros viajantes, também chamados “mascates”.
A sala tinha ares de capela, pois as paredes ostentavam terços ou rosários, folhinhas (calendários) com imagem de santos. Sobre algum móvel ficavam esculturas dos santos devotados pela família, normalmente em madeira, gesso ou barro. Nesse espaço sagrado costumava ficar os galhos de alecrim e outras plantas, cujo morador a usou no "Domingo de Ramos". Servia para fazer chá para as mais diversas curas, defender a casa de peçonhas e abrandar trovões e relâmpagos durante as orações. Quando a casa era maior, reservava-se um quarto para o oratório, mesmo sem perder sua função original de lugar de dormir.
Com o passar dos anos o velho hábito de anunciar a fé católica a partir da sala se ampliou. Além de todo acervo da parede, somavam-se fotografias de familiares submetidos aos sacramentos do Batismo, crisma e primeira comunhão, as respectivas certidões, quadros com retratos de santos em paisagens iluminadas com pequenas lâmpadas internas, dando-lhe efeito tridimensional. Quando anoitecia, os tais quadros eram acesos, emprestando à sala uma aparência sacra – lembrando que isso só foi possível com o advento da energia elétrica.
Algumas famílias, mesmo simples tinham pequenos oratórios, onde ficavam protegidos os santos queridos junto a variados elementos sacros. Alguns eram pintados com guirlandas de flores e anjos. O fundo normalmente trazia pinturas que lembravam o céu, sempre azul e com o pombo lembrando o Espírito Santo. Outros tinham pinturas apenas internamente, cujo lado externo era envernizado ou na cor natural da madeira. As velas da primeira comunhão e crisma também tinham lugar certo nessa peça, normalmente de madeira com uma portinha de vidro, permitindo ficar fechada muitas vezes com chave, evitando o tradicional furto de Santo Antônio – hábito típico das moças em estado de caritó, conforme o depoimento da d. Leonísia.
Famílias ricas possuíam grandes oratórios, muitas vezes tão belos que lembravam fachadas de igrejas. Atualmente não se vê oratórios com a mesma frequência nas casas dos nativos, exceto um grande número dessa peça na residência de “Arnaldo do Camarão”, colecionador de antiguidades.
O respeito ao oratório – não sei se permanece como alegam ter sido no passado – mas era igual ao respeito desprendido ao próprio templo da Igreja Matriz. Os católicos se colocavam diante de um oratório com absoluta contrição e piedade. Oratórios talvez significassem pequenas igrejas dentro de casa. Lugar onde estava o Santíssimo. Lugar divino, sagrado. Lugar de respeito extremo, onde se rezava desde as orações simples e cotidianas às prostrações típicas dos momentos de aflição e desespero.
Ouvi de uma senhora nisiaflorestense o caso de uma mulher que, ao se tornar evangélica, chegou em casa, juntou todas as imagens sacras, quadros de santos, calendários com temáticas católicas, terços, velas e mandou queimar tudo. Antes disso, uma vizinha repreendeu-a, pedindo que ela não fizesse aquilo, que desse a alguém, inclusive não queimasse a imagem de Santa Luzia, protetora dos olhos e da visão. Segundo a minha narradora, a nova evangélica desdenhou, usando as típicas palavras ditas por católicos que se tornam protestantes. A dita vizinha ficou estarrecida vendo as labaredas lamberem os quadros como demônios esfaimados.
Tempos depois essa senhora começou a sentir gradualmente a diminuição da visão. Ela recorreu ao médico, recebeu os melhores tratamentos, mas não obteve melhora. Sua visão ficava cada vez mais comprometida. Segundo a minha narradora, essa senhora tornou-se deprimida ao longo do tempo, tendo grandes dificuldades para se adaptar à nova vida. A vizinha que presenciou a queima do material sacro procurou-a, aconselhando-a a pedir perdão à Santa Luzia, mas ela foi irredutível. Muitos anos depois morreu totalmente cega. São as coisas da fé. São as coisas da ausência da fé. São as coincidências. São as crenças e crendices.
Dia desses, em Parnamirim (101), um amigo mostrou-me em seu smartphone uma bela imagem sacra em madeira de aproximadamente quarenta centímetros, encontrada no lixo. Ele procurava uma pedra de paralelepípedo para fazer um segurador de porta, quando deparou-se com a imagem da santa tomou-a para si, sem cerimônia. Não compreendi como alguém teve coragem de jogá-la. Quem sabe foi algo parecido com a história acima, até porque Parnamirim parece predominantemente evangélica. A sorte de quem se desfez da imagem é que não era Santa Luzia. Não lhe perguntei qual a especialidade da santa.
Em 1994 testemunhei um episódio envolvendo mudança de religião com conflitos em Nísia Floresta. Um rapaz de fervorosa família católica chegou à casa de sua mãe, recolheu tudo o que lembrava a igreja católica e foi jogar no lixo. Ele havia acabado de assistir a um culto na noite seguinte e decidido abraçar o protestantismo evangélico. A mãe compreendeu a sua decisão, mas ressaltou que naquela casa todos eram católicos, que ela era a dona da casa e aquelas peças lhe pertenciam. Reprovou a atitude do filho, pedindo-lhe que respeitasse a religião dela e dos demais irmãos. Com o passar do tempo o rapaz ficou confuso e desenvolveu problemas psiquiátricos, causando muita tristeza à família.
Mas como diz a máxima: "mãe é mãe". Ela pediu aos demais filhos que deixassem todas as imagens e elementos que lembrassem o catolicismo longe dos olhos do rapaz, pois percebia que ele demonstrava cólera quando via ou ouvia algo que se referia à Igreja de Roma. Assim eles guardaram as imagens nos guarda-roupas e deixaram mais restritas aos quartos. O rapaz passou muitos anos afastado da casa dos pais. Tempos depois entendeu que devia respeitar a fé alheia, assim como toda a sua família respeitou sua decisão de ter escolhido ser evangélico.
Conheci uma velha senhora benzedeira, moradora de uma casinhola de taipa em Barra de Tabatinga. Na sala de sua casa ficava disposto um velho oratório sobre uma máquina de costura. Ela contou-me que quando está benzendo, pede que ninguém fique na porta, pois é por onde “passa toda a 'milacria” emanada da pessoa, acaso esteja “carregada” (102). Se alguém ficar ali, recebe a carga negativa que passa justamente pela porta. Cheguei a vê-la benzendo crianças, cujos pais alegavam estar com “mau-olhado” (103). Suas orações só ocorriam antes do pôr do sol, segundo suas crenças. Nísia Floresta teve muitas benzedeiras, mas atualmente essa prática parece diminuída.

"CASAS DE TAIPA SÃO MAIS RESISTENTES QUE AS DE ALVENARIA"

O subtítulo acima é uma frase que ouvi de um idoso nisiaflorestense, que disse-a como sentença. Parece exagero, mas tem muito nexo. Quem conhece esse tipo de construção, sabe por quê. A casa da “dona Joaninha dos Padres”, comentada no tópico “Como se guardavam documentos numa casa de taipa”, é um exemplo disso. Com certeza você já viu ruínas de taipa. Elas não sucumbem com "duas risadas" (104). Dão trabalho para desaparecer. O barro duro se agarra com força ao trançado de cipós e varas; só desaparece após muitos e muitos verões. Não se quer dizer que as casas de taipa são mais resistentes, mas que demoram-se muito para ruir totalmente. Parece não gostar da morte. As paredes entortam, enclinam, o telhado é tomado por ramagens e trepadeiras, mas são necessárias muitas décadas para desaparecer totalmente.
As casas de taipa abandonadas são tão teimosas que não desmoronam. Elas se desmancham lentamente, numa resistência heroica, após suas madeiras serem consumidas por cupins ou pelo apodrecimento causado pela chuva, pelo sol e vento. Sua degradação nunca se dá de uma vez. Mesmo definhando, as estacas mais grossas resistem, segurando os nacos de barro, insistindo, cambaleando, mas opiniosas, ou talvez, geniosas.
Quando o seu telhado arria, não o faz de todo. É seguro por outros pedaços mais resistentes, cujos cupins ou chuva não conseguiram destruí-lo. São assim as casas de taipa, diferentes das velhas casas de tijolos e cimento, cujas paredes muitas vezes tombam inteiras, bastando um empurrão da parede. Para apressar seu desaparecimento, surgem os "cupins-homens", levando os tijolos, restos de madeira e o que podem aproveitar n'outra obra, tirando-a de cena. Por mais que uma casa de alvenaria deixe seus restos perdurarem por décadas, por mais que desapareçam sem vestígios, diferem muito da taipa, pois essas são resignadas. Elas não fazem da fraqueza a força, pois são sinônimos de resistência por excelência. Assim como "o sertanejo é antes de tudo um forte", como escreveu Euclides da Cunha (105), é a casa de taipa, uma fortaleza.
Depois de abandonada, não conserva pistas ao longo dos anos, pois, como tudo veio da natureza, volta para ela. A madeira vira material orgânico, adubando a terra. O barro que subiu e foi alisado pelas mãos calejadas do nativo, arria, retornando ao chão. A casa de tijolos pode até deixar velhos alicerces como testemunha quase eterna, mas não deixa o que é mais nobre: o exemplo de resistir até quando puder. Creio que a casa de taipa deveria figurar no Brasão da bandeira de Nísia Floresta como símbolo de sua cultura. Símbolo de luta.

O BARRO NAS CASAS DE TAIPA

“... Côni se usava barro de paul (106) tinha que misturá cum barro de arisco (103). O barro de paul é inguá a uma pasta. Si butá puro ele incói quase tudo côni seca. O arisco é que deixa o barro bom pra barreá bem. Mas tem o barro amarelo… o vermelho (107)… que dá nos canto seco. Ele pode usá sem nada, só butá água e pronto. Barreado bom tem que sê cum barro curtido. Você junta o barro, molha, mexe bem, deixa tudo iguá e forra. Pode ser com foia mesmo… de bananeira, do que tivé; até lona mesmo, dessas preta. Dispois usa e ele dá liga da boa”. (Pedro Ribeiro, 80 anos, in memorian).

O depoimento acima, contado pelo Sr. Pedro Ribeiro é interessantíssimo. É apenas um detalhe sobre complexa engenharia que envolve a construção de uma casa de taipa, e essa engenharia merece tanto respeito quanto aquela aprendida nas universidades. Ele já fez muitas casas de taipa em lugares diferentes. Como foi exposto no início, fazer uma casa de taipa dava muito trabalho e exigia certos cuidados como os expostos acima.
O barreado de uma casa de taipa obedece vários estágios. Como é composto de água, ela evapora lentamente e deixa fissuras e rachaduras, precisando de acabamento gradual. Alguns nativos barreavam suas casas uma única vez, resultando numa aparência tosca e desconforme. Fazer uma casa de taipa caprichada exige várias etapas. Cada vez que se preenche as fissuras e rachaduras aparecem outras menores, que devem ser tapadas até ficar parecido com reboco de alvenaria. É um processo lento, depende do capricho de quem executa a tarefa. Depois de pronta os cuidados com a manutenção continuam, assim como numa casa de alvenaria. Talvez o fato de exigir manutenção faz com que alguns não se importem, contribuindo com a ideia preconceituosa de que casa de taipa é foco do mosquito causador da doença de Chagas e malária.
Na realidade o produto final de uma casa de taipa revela a personalidade de quem a fez – ou quem mora nela. Alguns nativos têm cuidado extremo na escolha da madeira, a feitura da trama, o amarrado dos cipós, a aplicação do barro (como expôs os senhores Pedro e Canindé). Um reboco bem feito não difere em nada do reboco de cimento, principalmente depois de caiado. Mas com o advento do cimento, muitas casas de taipa receberam tal material e resistiram várias décadas. Algumas são centenárias.

A MADEIRA DAS CASAS DE TAIPA

A feitura de uma casa de taipa, como foi exposto, dependia do capricho de seus artesãos. Alguns nativos eram primorosos e passavam dias nas matas escolhendo a madeira e amontoando os feixes ali mesmo. Como não bastasse, curtiam o barro durante dias. Só depois de estar com toda a matéria-prima disponível davam início à construção.
Nos velhos tempos de matas abundantes, era fácil escolher as madeiras ideais para estaca, linha, caibro, esteio, ripa e as amarras de cipós. “Papai juntava uma ruma de vara para fazer os gradeados e amarrava os feixe com cipó… a gente trazia nos espinhaço, pois a carroça num entrava na mata”, contou-me o Sr. “Zé Carão”. Com um facão, desbastava-se os nós onde ficavam os galhos, e com o serrote manual fazia-se os cortes oblíquos para os encaixes da madeira pesada do telhado. Apenas as grades, os caixilhos ou caixas das janelas e portas eram adquiridos de carpinteiros especializados nessa função.
Conheci casarões centenários em Nísia Floresta que até mesmo as janelas e portas foram feitas artesanalmente. Verdadeiras obras primas, peças únicas saídas das mãos esmeradas dos carpinteiros, homens simples e humildes, mas geniais, num tempo em que ninguém tinha pressa. Era tal o capricho que quando o gradeado da casa ficava pronto, antes de receber o emboço, tinha-se uma imensa escultura diante de si. Verdadeira obra de arte. O capricho na confecção do gradeado, as tramas perfiladas e amarradas com “cipó de sapo” (108), formava uma sucessão de formas geométricas. Um espetáculo a parte. Quando encontramos ruínas de casas de taipa, percebemos a perfeição das amarras de cipó e essa organização da madeira.
Pessoas despreocupadas com o capricho faziam com o que era mais fácil. Não se importavam com a escolha nem do barro nem da madeira, como é possível ver em várias ruínas. Conforme o barro vai arriando desnuda o madeiramento, evidenciando arame, cacos de telhas, madeira industrializada, lixo, enfim o capricho dos homens do passado foi ficando cada vez mais em desuso. Creio que hoje, mesmo sem estar com pressa, muita gente faz tudo com pressa.

A CASA DE TAIPA HOJE

Atualmente as casas de taipa, assim como alguns elementos da cultura do Nordeste, estão na alçada da decoração. Tem caráter expositivo.É folclore” – meramente –, e um folclore de exposição, como se a cultura popular fosse algo do passado. Outrora, são construídas em grandes feiras e parques de exposições, como a Festa do Boi, de Parnamirim/RN, onde Paulo Varela (109), famoso poeta potiguar é conhecido por construir casa de taipa nos locais onde se apresenta. Ele distribui seus escritos pelos cômodos da casa, ao lado de objetos antigos como rádio, máquinas de costuras e assessórios de vaqueiro.
Restaurantes, bares e ambientes comerciais de áreas turísticas se revestem dessa plástica como marketing. Isso é até curioso, pois a proposta comercial é tornar o ambiente aconchegante ao turista por seu aspecto de simplicidade e bucolismo. Mas na vida real quase ninguém quer a casa de taipa como moradia.
Na praia de São Miguel do Gostoso, área litorânea do Rio Grande do Norte, existem restaurantes e barzinhos que exibem cinematográficas casas de taipa. Nota-se que é algo super produzido. A ornamentação e as antiguidades sob efeito das luzes emprestam ao espaço um visual diferenciado, nem sempre fiel ao passado, mas a ideia de atrair o turista. E nesse propósito, muitas vezes cria-se uma ideia exagerada, com excesso de informação.
As casas de taipa atuais são comuns nos espaços turísticos interioranos, como Pipa e até mesmo Nísia Floresta. Tem caráter demonstrativo, muitas vezes “apapagaiado” - na expressão dos nativos – pois se expõe todo tipo de quinquilharia que fez parte do passado dos nativos. Muitas vezes chega-se a exceder a proposta, exibindo objetos presenteados pelos visitantes, transformando a casa de taipa num espaço de “ajuntamento” de coisas.
Em Nísia Floresta ainda se encontram raras casas de taipa que servem de moradia, pois sinalizam inferioridade para muitos. Em 2016 andei por toda a Nísia Floresta e quase não vi casas de taipa, exceto no “Conjunto Poeirão”, onde, para minha surpresa, um nativo acabava de barrear a sua. O modelo, como não poderia ser diferente, era de barro vermelho. O proprietário serviu-se de todo tipo de madeira que conseguiu juntar pela cidade.
Dia desses eu disse a uma senhora vizinha ao apartamento onde moro, que pretendia construir a minha casa de taipa muito bem feita, com fogão a lenha, fogão a gás, partes forradas, ar-condicionado etc. E mesmo assim ela disse “meu filho, você quer regredir?!” Achei curiosa a espontaneidade como ela disse isso. A ideia que os nativos têm é que a casa de taipa é regresso, vergonha, sinônimo de pobreza e atraso. E até mesmo maluquice. E quando nos aprofundamos sobre o que gera esse conceito, é uma sucessão de fatores.
Curioso também que alguns nordestinos parecem não se identificar com esse “passado” de taipa, como se fosse negativo para a sua identidade. Atualmente, quando alguém constrói uma casa de taipa, encaixa-se no seguinte perfil:
1) está em situação de pobreza extrema;
2) é saudosista e a construiu para reviver as experiências do passado (não se trata de pessoa em situação de pobreza extrema; muitas vezes são pessoas excêntricas, cuja situação financeira daria condições de fazer uma casa de alvenaria a seu gosto); esse tipo é uma raridade;
3) é dono de algum espaço que recebe turista, portanto construiu a casa de taipa como mostruário, fez o próprio restaurante/bar desse material ou exibe apenas alguma parede como amostra.
Tenho absoluta certeza que o nisiaflorestense que mora numa casa de taipa de seus antepassados, mora muito melhor que certos habitantes de belos e espaçosos apartamentos, cujas paredes mais parecem uma fornalha, onde não se pode fazer barulho, o latido dos cachorros gera multas, elevador enguiça, enfim, onde o “morador” não se sinta confortável. Nada se compara a casa de taipa arejada, fria, cercada de árvores, brisa, fogão a lenha, cuscuzeira de barro, barulho de água...

A EXTINÇÃO DA CASA DE TAIPA

Não diria que um dia a casa de taipa vai desaparecer, mas como moradia é possível. Os governantes – ao invés de favorecer e patrocinar os cartéis das construtoras – deveriam incentivar a construção de casas de taipa, pois além de baratas, duráveis e confortáveis, são ecológicas, fazem parte da cultura e da história do Brasil, em especial do Nordeste.
Os exemplares mais toscos entortam para cá e lá, mas não caem.
Os gestores deveriam desenvolver políticas públicas de revitalização das casas de taipa, associando o conhecimento empírico dos artesãos nativos com o conhecimento científico dos engenheiros e arquitetos. As universidades públicas e particulares deveriam abraçar essa ideia através de projetos de extensão, buscando alternativas para a revitalização desse patrimônio belíssimo da cultura popular.
A construção de uma casa de taipa, hoje, deve primar por critérios como impermeabilização, reaproveitamento de madeira de demolição, uso de madeira ecologicamente correta, alternativas de telhas produzidas com materiais recicláveis, inserção de materiais modernos, criados por laboratórios universitários e, obviamente, materiais industrializados, usados nas casas de alvenaria, ao gosto do dono.
Para isso ela seria bem servida de hidráulica, energia elétrica, forrada ou não, climatizada ou não, enfim, uma casa de taipa moderna e aconchegante. Assim, ninguém se referiria a uma casa de taipa como nos referimos desde o início, “como coisa do passado”. E a sua cultura seria preservada. Alguns países da Europa mantém o hábito de construir casas de taipa, assim como no Chile. Por que não se pode fazer mais casas de taipa no Brasil? Com que autoridade os governantes decretaram que elas devem ser extintas para dar lugar aos embriões que mal cabem um casal? Quem disse que uma casa de taipa é sinônimo de doenças, de pobreza etc? Esse desprezo às casas de taipa não é automaticamente um desprezo à cultura?
O preconceito contra as casas de taipa decorre da ideia antiga de ser moradia do mosquito causador da doença de Chagas. Isso ficou impregnado na mentalidade do brasileiro, sem qualquer questionamento, tampouco pelos engenheiros civis e arquitetos, os quais deveriam ser os primeiros defensores desse tipo de construção. Entendo que a tentativa de extinguir as casas de taipa é um desrespeito à história do homem, pois elas significam os primeiros modelos de construções civilizadas. É preconceito à engenharia e a arquitetura primitiva, pois, assim como as casas de alvenaria, também tem estilo, engenharia e técnica. É um ataque à cultura popular, pois, idealizadas e feitas por mãos humanas, refletem infinitas nuanças da cultura do homem.
No Rio Grande do Sul são conservadas, intactas, as casas “enxaimel” (110) em estilo alemão, do início do século XIX – que é um tipo de taipa – assim como outros estilos construídas totalmente em madeira ou pedra. Ainda se veem, intactas, no estado de São Paulo e Minas Gerais, as famosas “casas de pau a pique, que é o mesmo que a casa de taipa. As diferenças são apenas os materiais diversificados que lá se usam, mas o barro, as varas, as madeiras se assemelham. Por que no Nordeste elas devem ser extintas?

MEMORIAL DA CASA DE TAIPA

Independente de os governantes incentivarem ou não projetos habitacionais em taipa, Nísia Floresta poderia criar o “Memorial da Casa de Taipa”. O projeto, pioneiro, seria construído numa área grande, de preferência próximo à área rural, cercado de faxina. Nesse espaço seria construído um complexo de seis casas – todas de taipa – com ênfase a duas casas de taipa grandes. Na primeira casa deixaria exposta toda a sua estrutura de madeira, os entrançados de cipós, as grades, os cortes, as janelas etc. O objetivo dessa primeira construção é mostrar como era a casa de taipa antes de ser barreada. Como já foi exposto acima, essa casa seria uma enorme escultura de madeira. Seria a casa pronta, mas sem o barro.
A segunda casa seria igual a essa, mas barreada e telhada, ou seja, pronta – completa. Os cômodos seriam mobiliados com os elementos que fizeram parte das antigas casas de taipa de Nísia Floresta, mas numa proposta natural, sem exageros. A proposta é passar a ideia de que moram pessoas ali. Um fogão a lenha com panelas sobre ele, restos de lenha queimada, feixe de lenha, um pote de barro, bateria, camas, redes, tamboretes e tudo mais que os nativos utilizavam no passado. Uma pequena despensa em cujas prateleiras se colocassem simulacros de queijo e rapadura.
Em outra casa ficariam dispostos pratos e canecas de ágata, alumínio. No chão ficariam sacos de farinha e feijão etc. Num anexo próximo à cozinha, faria-se um jirau com latas, bacias e coité.
Numa casa menor e separada ficariam expostos outros elementos que transportariam o visitante ao passado, como por exemplo, varas de pescar, pilões, puçás, coités, paris e materiais do cotidiano, litros cheios de sementes de feijão, milho etc. Em outro anexo teriam-se amostras de cipós utilizados na confecção de casa de taipa, amostras rústicas das madeiras usadas para linha e esteio sem serem trabalhadas por marceneiros, amostras de barro de paul, barro vermelho, arisco, enxós, facões etc.
No quintal, teria-se uma área totalmente faxinada, com plantas medicinais e um balcão com a mesma finalidade. Ao lado, um cacimbão real, cujo visitante poderia puxar água in loco. Nas proximidades plantaria-se cana-de-açúcar, macaxeira, mandioca, batata-doce, inhame, fruta pão, cajá-manga, jenipapeiro, abricó, sapoti e principalmente fruteiras que estão entrando em extinção. Num pé de manga disporia-se um cortiço de abelha, e sob ele um moedor de cana-de-açúcar. Nesse mesmo quintal teria-se uma casa de farinha completa, inclusive utilizada pela população a partir de projeto cooperativo, bem como um complexo gastronômico em taipa, onde o turista tivesse acesso às comidas típicas, artesanato, folclore local, inclusive forró do turista. Ali seriam vendidos cartões postais e souvenirs de Nísia Floresta.

CAPÍTULO 2 (AINDA NÃO TRANSCRITO)

COMO SE FAZ UMA CASA DE TAIPA


"E, ao lado dessa taipa, tradição árabe via Sul de Portugal, a taipa de sebe ou de pau a pique, própria dos peritos carpinteiros portugueses que chegaram à perfeição técnica na arquitetura naval." (ainda não transcrito)


NOTAS

1. Jeca Tatu. é um personagem criado por Monteiro Lobato em sua obra Urupês, que contém 14 histórias baseadas no trabalhador rural paulista. Simboliza a situação do caboclo brasileiro, abandonado pelos poderes públicos às doenças, seu atraso e à indigência. "Jeca Tatu não é assim, ele está assim". A frase de Monteiro Lobato, sobre um dos seus mais populares personagens, refere sua obra para além das histórias infantis e incomoda a elite intelectual da época, acostumada a uma visão romântica do homem do campo. Jeca Tatu, um caipira de barba rala e calcanhares rachados – porque não gostava de usar sapatos, era pobre, ignorante e avesso aos hábitos de higiene urbanos. Morava na região do Vale do Paraíba (SP), distinta por seu atraso. O personagem Jeca Tatu e a análise dele feita por Monteiro Lobato no conto Urupês e no artigo "Velha Praga" de Monteiro Lobato, é assim explicado pelo folclorista Cornélio Pires, quando analisa o caipira caboclo: Coitado do meu patrício!, (o caipira caboclo), Apesar dos governos os outros caipiras se vão endireitando à custa do próprio esforço, ignorantes de noções de higiene… Só ele, o caboclo, ficou mumbava, sujo e ruim! Ele não tem culpa… Ele nada sabe. Foi um desses indivíduos que Monteiro Lobato estudou, criando o Jeca Tatu, erradamente dado como representante do caipira em geral!

2. Pau a pique. também conhecida como taipa de mão, taipa de sopapo ou taipa de sebe, é uma técnica construtiva antiga que consiste no entrelaçamento de madeiras verticais fixadas no solo, com vigas horizontais, geralmente de bambu, amarradas entre si por cipós, dando origem a um grande painel perfurado que, após ter os vãos preenchidos com barro, transformava-se em parede. Podia receber acabamento alisado ou não, permanecendo rústica, ou ainda receber pintura de caiação. Foi utilizado no repertório das construções dos séculos XVIII e XIX, período colonialsdo Brasil, sobretudo nas paredes internas de tais edificações. Das técnicas em arquitetura de terra é a mais utilizada, principalmente por dispensar materiais importados. Note-se que seu uso ocorria em sua maioria, na zona rural. A construção de pau a pique, quando mal executada e mal acabada, pode se degradar em pouco tempo, apresentar rachaduras e fendas, inclusive se tornando alvo de roedores e insetos, que se instalam nestas aberturas. Durante muitos anos, o pau a pique foi associado ao barbeiro (Triatoma infestans), inseto transmissor da Doença de Chagas. No entanto, quando construída de forma adequada, com base de pedra afastando-a do solo (50 a 60 cm) e devidamente rebocada e coberta, não há o perigo da instalação do barbeiro nas paredes e ou mesmo da degradação do pau a pique. Houve alguma evolução nessa forma de construção. As madeiras deixaram de ser fixadas no solo, pelo fato de apodrecerem rapidamente, suas amarrações passaram a ser feitas com outros materiais, como fibra vegetal e arame galvanizado. Mais recentemente, no Chile, têm surgido construções utilizando uma variação desta técnica, que é chamada de quincha metálica ou tecnobarro, onde a madeira da "gaiola" é substituída por malha de ferro, preenchida com barro através de equipamento apropriado.

3. Mazzaropi. Amácio Mazzaropi, ator e cineasta brasileiro, nascido em Taubaté, São Paulo, aos 9 de abril de 1912; falecido aos 13 de junho de 1981. Célebre por seus personagens simplórios, mas cheios de argúcia. Durante décadas fez a alegria de muitos, pois arrastava multidões.

4.tcheco-eslovaco: gentílico pátrio de quem nascia na Tchecoslováquia; Estado que existiu na Europa Central entre 1918 e 1992 (com a excepção do período da Segunda Guerra Mundial.
5. entrançado: ato de organizar os cipós e varas; certamente por lembrar uma trança deu-se tal nome.

6. Actas Diurnas: No jornal “A República”, o folclorista potiguar Câmara Cascudo criou três colunas: Biblion Biblioteca Acta Diurna. A coluna Acta Diurna foi iniciada em maio de 1939 e mantida, diariamente, até 1960. Foram publicados, na totalidade, 1.848 artigos dos mais variados assuntos.

7. Vale do Capió: grande área de paul existente em Nísia Floresta; onde no passado os índios faziam as suas roças; nesse local existiam muitos casarões dos senhores de engenho locais.

8. baldrame: alicerces.

9. galamastro: tipo de árvore muito esguia e alta.

10. ladrilho-hidráulico: também conhecido como 'piso hidráulico' (às vezes impropriamente chamado azulejo hidráulico), é um tipo de revestimento artesanal feito à base de cimento, usado em pisos e paredes, que teve seu apogeu entre o fim do século XIX e meados do século XX. Foi apresentado como alternativa ao mármore ou como uma cerâmica que não necessitava de cozimento. A partir dos anos 1960, o surgimento de outros materiais substituiu progressivamente os pisos hidráulicos por elementos menos elaborados e mais rentáveis. Os ladrilhos hidráulicos têm sua origem no final do último século no sul da Europa. Rapidamente se espalharam pelos países mediterrâneos e tornaram-se populares também n Inglaterra vitoriana e na Rússia por sua resistência e por suas qualidades decorativas. Até hoje continuam sendo produzidos um a um, e a maneira com que são feitos continua a mesma há mais de um século, inclusive há lojas especializadas em Natal. Fábricas de cerâmicas comuns fizeram uma releitura dos ladrilhos hidráulicos, adaptando-os a azulejos e cerâmicas. Depois de aplicados, ficam quase iguais aos antigos.

7. fuxico: artesanato local, feito com retalhos; normalmente lembram flores com pétalas.

11. fuxico. artesanato de flores feitas com sobras de tecidos, aplicadas sobre outros tecidos ou como colcha de retalhos; atualmente existem vários modelos, inclusive fazem bolsas etc.

12. rebolado: arremessado com as mãos, jogado; rebolar é o mesmo que pegar qualquer coisa com o propósito de atirar em algum lugar.

13. quengas de coco: bandas do casco do coco seco, também chamadas de “cuias”, usadas para manusear água, farinha etc; com uma banda se faz o “quengo”.

14. coité: grande cuia de um tipo de cabaça que dá em árvore (Crescentia cujete L.) o fruto é exatamente igual a uma bola, que, dividido ao meio quando verde, é transformado em cuias que têm múltiplas finalidades: guardar farinha e alimentos, cobrir pratos de comida, apanhar água, colocar sementes para secar ao sol etc.

15. Vila Imperial de Papari: Pela Lei número 242, de 18 de fevereiro de 1852, o povoado de Papary desmembrou-se de São José de Mipibu, tornando-se município com o nome de Vila Imperial de Papary, haja vista se tratar do Brasil Império, comandado por um imperador, filho de um rei português.

16. casa das freiras. centenária residência onde pela primeira vez ocorreram reuniões que dariam origem à Campanha da Fraternidade no Brasil, tendo como embrião o distrito do Timbó, em Nísia Floresta/RN.

17. mouro. dos mouros, mauritanos, mauros ou sarracenos são considerados, originalmente, os povos oriundos do Norte de África, praticantes do Islão, nomeadamente Marrocos, Argélia, Mauritânia e Saara Ocidental, invasores da região da Península Ibérica, Sicília, Malta e parte de França e Portugal, durante a Idade Média. Estes povos consistiam fundamentalmente aos grupos étnicos berberes e árabes, que constituem o âmago de etnicidade da África setentrional. O período da Reconquista marca a expulsão destes povos da Península Ibérica, consubstanciando-se também numa cruzada histórica entre a religião dos mouros, o islão, e a religião dos povos da Península Ibérica, o catolicismo. Nota-se que a maior parte dos mouros da Península Ibérica eram descendentes de ibéricos convertidos ao islamismo. Portanto, não havia significativa diferença fenótipa entre mouros e cristãos da Ibéria. Com os mouros veio o costume de conservar as mulheres sempre vigiadas e sem poder sair de casa, como fazem atualmente alguns muçulmanos.

18. chefe da família: maneira antiga de se referir ao pai.

19. caritó: pequena prateleira de canto, feita com dois paus fixados a parede e tábuas horizontais; serve para colocar penico, candeeiro, vela etc; nome usado também para se referir às moças que não conseguem arrumar marido.

20. taramela: peça de madeira, de tamanho entre 10 a 15 cm, fixada rente à porta, com um prego no meio, de maneira que possa girar para abrir e fechar.

21. muxarabi: ou muxarabiê; elemento de madeira vazada, semelhante ao cobogó; tem função de ventilação e iluminação dos ambientes, permitindo a quem está do lado interno ver o ambiente externo.

22. mestre. especialista popular em conduzir os folguedos folclóricos, normalmente usa um apito e serve de guia para os brincantes; sabe decorada as letras e os passos.

23. Boi-de-Reis: manifestação folclórica semelhante ao “Bumba Meu Boi”, composta por coreografias e canções que respeitam diversas jornadas, tendo o boi como protagonista ao lado de personagens como Birico, Jaraguá, palhaço, cão, galantes. Jaraguá e outros.

24. camarinha: quarto sem janela.

25. Ribeira: o mais antigo bairro de Natal, margeado pelo rio Potengi.

26. quengos: concha tosca, feita de uma banda do casco seco do coco com uma pequena varinha atravessada de um lado a outro, de modo que um deles seja mais cumprido, onde se segura para manuseá-lo.

27. cacimbão: poço; lugar de verter água do solo.

28. bico: torneira comum.

29. Melão São Caetano: conhecido cientificamente como momordica charantia, é uma planta que faz parte da família das cucurbitaceae e é originária de partes como leste da Índia e sul da China. Em todo o Brasil, também vem a ser reconhecido por nomes populares como erva de São Caetano, fruto de cobra, erva das lavadeira e melãozinho. Tratando-se de características, é uma trepadeira de cheiro desagradável que possui flores amareladas ou esbranquiçadas, folhas palmatífidas e fruto dourado que abre-se em válvulas espinhosas, possuindo carnosidade mole em seu interior, que torna-se amarelo avermelhada quando madura.

30. quarar: expor as roupas sobre grama ou jirau, de maneira que fique bem distribuída – como tapete – em dias de sol forte com o objetivo de clareá-la. Creio que a palavra seja uma corruptela de “clarear”.

31. anilO Anil é um corante de fórmula C₁₆H₁₀O₂N₂. É uma tintura importante com uma cor azul própria. É uma combinação heterocíclica. O composto químico que constitui a tintura do anil é chamado indigotina. Fórmula: C16H10N2O2. Massa molar: 262,27 g/mol. Densidade: 1,2 g/cm³. Ponto de fusão: 390°C. Seu uso na lavagem de roupa se dá da seguinte forma: depois de dissolver o produto na água, mergulha-se as roupas brancas e ferve. Em seguida, retira-se e expõe-se ao sol. O resultado é uma tonalidade branca muito bonita com leve oscilação em azul.

32. arisco: terreno seco com areia e minúsculos pedregulhos.

33. flandre: zinco, folha de qualquer material metálico flexível, com a qual se molda peças utilitárias como chaminés.

34. coliformes fecais: atualmente chamado de coliformes termotolerantes, são bactérias que estão presentes em grandes quantidades no intestino dos animais de sangue quente. Os coliformes fecais (termotolerantes) podem contaminar a água através das fezes de animais que chegam até a água por meio de despejo do esgoto que não foi adequadamente tratado.

35. vitiligo: dermatite, afecção cutânea caracterizada por perda localizada da pigmentação; leucopatia adquirida.

36. pano-branco: também chamado de micose de praia e cientificamente de Pitiríase versicolor, é uma doença de pele causada por um fungo chamado Pityrosporum Ovale ou Malassezia furfur. Este fungo produz uma substância chamada ácido azeláico, que impede a pele de produzir melanina quando exposta ao sol. Logo, nos locais onde o fungo está, a pele não fica bronzeada como o resto do corpo, ficando com um aspecto mais branco.

37. menino buchudo: maneira regionalista de se referir a meninos criados à vontade, cheios de dengos e costumes inadequados.

38. mulher buchuda: regionalismo para definir mulher gestante.

39. doença de Chagas: doença infecciosa causada por um protozoário parasita chamado Trypanosoma cruzi, nome dado por seu descobridor, o cientista brasileiro Carlos Chagas, em homenagem a outro cientista, também, brasileiro, Oswaldo Cruz.

40. malária. também chamada paludismoimpaludismo ou maleita, é uma doença infecciosa transmitida por mosquitos e provocada por protozoários parasitários do gênero Plasmodium. A doença é geralmente transmitida através da picada de uma fêmea infectada do mosquito Anopheles, a qual introduz no sistema circulatório do hospedeiro, os microorganismos presentes na sua saliva, os quais se depositam no fígado, onde maturam e se reproduzem. A malária manifesta-se através de sintomas como febre e dores de cabeça, que em casos graves podem progredir para coma ou morte. A doença encontra-se disseminada em regiões tropicais e subtropicais de uma larga faixa em redor do equador, englobando grande parte da África subsariana, Ásia e América. Existem cinco espécies de Plasmodium capazes de infectar e de serem transmitidas entre seres humanos. A grande maioria das mortes é provocada por P. Falciparum eP. vivax, enquanto que as P. Ovale e P. Malariae geralmente provocam uma forma menos agressiva de malária e que raramente é fatal. A espécie zoonótica P. knowlesi, prevalente no sudeste asiático, provoca malária em macacos, podendo também provocar infeções graves em seres humanos. A malária é prevalente em regiões tropicais e subtropicais devido à chuva abundante, temperatura quente e grande quantidade de água estagnada, o que proporciona habitats ideais para as larvas do mosquito. A transmissão da doença pode ser combatida através da prevenção das picadas de mosquito, usando redes mosquiteiras ou repelente de insetos, ou através de medidas de erradicação, como o uso de inseticidas ou o escoamento de águas estagnadas. O diagnóstico de malária é geralmente realizado através de análises microscópicas ao sangue que confirmem a presença do parasita ou através testes de diagnóstico rápido para a presença de antigénios.

41. barreado: ato de distribuir o barro pelas tramas usando as mãos.

42. de favor: através da boa vontade de alguém, algo cedido por empréstimo.

43. cansada: angustiada pelos sintomas do peito cheio de catarro e mesmo a asma.

44. milacria. tudo o que não presta para nada: secreções humanas, objetos etc.

45. velame: planta arbustiva que pode chegar a alcançar uma altura entre três e quatro metros. Suas folhas são alternas e ovais, e possuem pelos finos, curtos e macios. Suas flores surgem em formato de espigas, brancas nas pontas, aromáticas e, assim como as folhas, peludas. Seu fruto é uma cápsula com três lojas, sendo que cada uma delas possui um caroço. Da família das Euphorbiaceae, a planta também pode ser conhecida como cróton campestre, velame do mato, e velame do campo de minas. A árvore é nativa da flora brasileira, podendo aparecer em todo o país, mas principalmente nas regiões sudeste e nordeste. A erva velame do campo pode ser encontrada para comprar em lojas de produtos naturais e algumas farmácias de manipulação; por ser larga e aveludada sempre foi a preferida para a higienização do ânus após defecar.

46: metralha: sobras de alvenaria de construção, cacos de telhas, tijolos, pedaços de paredes etc.

47. inverno: chuva; não tem relação alguma com a expressão sulista que ser refere à estação fria, onde ocorrem geadas.

48. pancada de ar: friagem/sereno/vento muito frio da madrugada.
49. estalecido: gripe cujo nariz fica escorrendo sem parar.

50. carne triada: sintoma de doença também conhecida como estiramento muscular.

51. brechadores: homens que olham mulheres nuas por frestas e buracos de parede; voyers.

52. mengando: movimentando a cintura como quem copula.
53. samba-canção: cueca de algodão; trata-se de uma espécie de short grande, quase na altura do joelho.

54. ceroulas: ceroilasceroula ou ceroila é uma peça de vestuário interior e íntimo que cobre o ventre, as coxas e as pernas, substituindo as cuecas. Antigamente, o seu uso era mais frequente, mas, hoje, há quem tenha se aplicado em desenhá-las duma forma mais moderna e estilizada devido ao seu conforto e principalmente por protegerem muito do frio. "Ceroulas" provém do árabe vulgar saraul (pronuncia-se "sarol"), que é o plural de siroal, "calça".

55. calção: peça íntima semelhante ao calção.

56. anáguas: do espanhol enagua é uma peça da indumentária feminina utilizada por baixo da roupa (vestido ou saia) com o objetivo de inibir a transparência ou gerar volume.

57. saiote: saia de agasalho utilizada por debaixo da outra saia.

58. califom: espécie de sutiã antigo, feito de tecido macio, amarras, e fitilhos.

59. faxina: cerca de varas amarradas rentes uma às outras, presas por outras varas horizontais, fixas por estacas em determinados pontos, as quais as seguram, pois não são enterradas no solo.

60. quartinha: ¼ (medida para venda de algum produto, como farinha); é muito usada para se referir a pequenas vasilhas.

61. ficou mal. Quando as pessoas deixam de se falar por algum desentendimento ou mal entendido.

62. catita. rato minúsculo, ratinho novo e ágil, que dificilmente se consegue pegá-lo.

63. Henry Koster: Henry Koster (Portugal, c. 1793— Recife1820), também conhecido como Henrique da Costa, foi um empresário e pintor português. Filho de pais ingleses, por motivos de saúde veio ao Brasil em 1809, onde se tornou senhor de engenho. Quanto as suas obras artísticas, tinham como tema a retratação dos engenhos no Brasil Colonial e também explorou vários locais do país, através de viagens que deram origem ao livro Travels in Brazil. Ao visitar Papari, em 1810, encontrou-se com o pai de Nísia Floresta – Sr. Dionísio Pinto Lisboa –, que o convidou para um almoço com sua família.

64. D. João VIJoão Maria José Francisco Xavier de Paula Luís António Domingos Rafael de Bragança. (Lisboa, 13 de maio de 1767 – Lisboa, 10 de março de 1826), cognominado O Clemente, foi REI DO Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. De 1816 a 1822, de facto, e desde 1822 até 1825de jure. Desde 1825 foi rei de Portugal até sua morte, em 1826. Pelo Tratado do Rio de Janeiro de 1825, que reconhecia a independência do Brasil do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, também foi o imperador titular do Brasil, embora tenha sido seu filho Pedro o Imperador do Brasil de facto. Um dos últimos representantes do absolutismo, D. João viveu num período tumultuado, e seu reinado nunca conheceu paz duradoura. Ora era a situação portuguesa ou europeia a degenerar, ora era a brasileira. Não esperara vir a ser rei; só ascendeu à posição de herdeiro da Coroa pela morte de seu irmão mais velho, D. José. Assumiu a regência quando sua mãe, Dona Maria I, foi declarada mentalmente incapaz. Teve de lidar com a constante ingerência nos assuntos do reino de nações mais poderosas, notadamente a Espanha, França e Inglaterra. Obrigado a fugir de Portugal quando as tropas napoleônicas invadiram o país, chegando à colônia enfrentou revoltas liberais que refletiam eventos similares na metrópole, e foi compelido a retornar à Europa em meio a novos conflitos. Perdeu o Brasil quando seu filho D. Pedro I proclamou a independência e viu seu outro filho, D. Miguel I, rebelar-se buscando depô-lo. Finalmente, foi provado há pouco tempo que morreu envenenado. Seu casamento foi da mesma forma acidentado, e a esposa, Dona Carlota Joaquina, repetidas vezes conspirou contra o marido em favor de interesses pessoais ou da Espanha, seu país natal. Não obstante as atribulações, deixou uma marca duradoura especialmente no Brasil, criando inúmeras instituições e serviços que sedimentaram a autonomia nacional, sendo considerado por muitos pesquisadores o verdadeiro mentor do moderno Estado brasileiro. Apesar disso, é até hoje um dos personagens mais caricatos da história luso-brasileira, sendo acusado de indolência, falta de tino político e constante indecisão, sem falar em sua pessoa, retratada amiúde como grotesca, o que, segundo a historiografia mais recente, na maior parte dos casos é uma imagem injusta.

65. alparcatas”:Era um calçado popular feito de lona (pano parecido com os "jeans" atuais) e sola de corda (cizal), fabricado por Sao Paulo Alpargatas desde os primeiros anos do século passado. Existia nas cores azul, marrom e vermelho. Contrariando a propaganda, estava longe de ser confortável, mas fazia muito sucesso (principalmente no interior do país) nos anos 30 a 50 pelo seu preço barato. Nos anos 60 ainda era usada para trabalho na lavoura. Era quase impossível não encontrá-la nos armazéns e vendinhas da época. Em cada região tinha apelidos diferentes, carinhosos e esquisitos: "enxuga-poça"(encharcava-se todo, em contato com a água); "pé de cachorro"(?); "chinelo-de-ladrão"(silencioso, ao andar); "precata" e "pergata" (pronúncia popular do nome); etc. Em muitas famílias daquele tempo era a opção para a criançada ir à escola com os pés calçados. No final dos anos 50 a empresa lançou outro calçado também de preço popular: "Sete Vidas". Nesse, a parte superior continuava de lona, mas a sola não era mais de corda e sim de borracha (precursor do tênis "Conga" ?). Foi uma grande melhora.

66. trançadores: vide nº 2

67. trama: organização das varas amarradas aos cipós nas paredes de taipa antes do barreado.

68. catemba: bucha seca que se forma ao redor do casco do coco
.
69. bateria: paneleiro antigo; tripé de ferro com vários degraus, nos quais se disponibilizam as panelas sob as bases horizontais e penduradas nas laterais.

70. Pelo Telefone: é considerado o primeiro samba a ser gravado no Brasil segundo a maioria dos autores, a partir dos registros existentes na Biblioteca Nacional. Composição de Ernesto dos Santos, mais conhecido como Donga, e do jornalista Mauro de Almeida. Foi registrada em 27 de novembro de 1916 como sendo de autoria apenas de Donga, que mais tarde incluiu Mauro como parceiro . Foi concebida em um famoso terreiro de candomblé daqueles tempos, a casa da Tia Ciata, frequentada por grandes músicos da época. Por ter sido um grande sucesso e devido ao fato de ter nascido em uma roda de samba, de improvisações e criações conjuntas, vários foram os músicos que reivindicaram a autoria da composição.

71. Alvarenga e Ranchinho: Alvarenga & Ranchinho foi uma popular dupla sertaneja brasileira, formada em 1929 por Murilo Alvarenga (ItaúnaMinas Gerais, 22 de maio de 1911-18 de janeirode 1978) e Diésis dos Anjos Gaia (JacareíSão Paulo, 23 de maio de 1912 – 6 de junho de 1991). A dupla sertaneja começou a carreira em apresentações em circos no interior de São Paulo no final da década de 1920. Em 1934, eles foram contratados pelo maestro Breno Rossi para cantar na Rádio São Paulo e, dois anos depois, mudaram-se para o Rio de Janeiro, onde gravaram o primeiro compacto, em 1936, com a música "Itália e Abissínia" uma sátira sobre o conflito entre esses países. Trabalharam durante dez anos no Cassino da Urca, onde aprimoraram o talento para a sátira política, uma das principais características do duo Alvarenga e Ranchinho. Por causa das sátiras, participaram de dezenas de campanhas eleitorais e também acabaram presos diversas vezes. A dupla participou do primeiro filme falado feito em São Paulo, Fazendo Fita, em 1935, levada por Ariowaldo Pires, o Capitão Furtado. Fizeram participações em mais de 30 filmes. Em 1939, Alvarenga e Ranchinho fizeram uma turnê pelo Rio Grande Sul. Nesse mesmo ano, passaram a se apresentar na Rádio Mayrink Veiga, onde receberam o título de "Os Milionários do Riso", graças aos cada vez mais bem sucedidos esquetes cômicos. A dupla original se desfez em 1965, quando Diésis dos Anjos Gaia abandonou em definitivo a dupla. Sendo substituido por Delamare de Abreu e depois por Homero de Souza Campos. Na década de 1970, se apresentaram principalmente em cidades do interior. Em 1973, a gravadora RCA lançou "Os Milionários do Riso", um LP ao vivo. Com falecimento de Avarenga encerrou-se a dupla. São os autores da canção Êh... São Paulo.

72. Carlos Galhardo: nascido Catello Carlos Guagliardi (Buenos Aires, 24 de abril de 1913— Rio de Janeiro, 25 de julho de 1985) foi um dos principais cantores da Era do Rádio. Filho de italianos, Pietro Guagliardi e Saveria Novelli, teve três irmãos. Dois nascidos na Itália, uma nascida no Rio de Janeiro. Dois meses depois de seu nascimento, a família mudou-se para São Paulo, e em seguida, para o Rio de Janeiro. Aos oito anos de idade, com o falecimento de sua mãe, o menino passa a viver com um parente no bairro do Estácio e aprende o ofício de alfaiate. Aos quinze anos torna-se já um oficial, apesar de não gostar do ofício. Chega até a abandonar os estudos (completou o primário) para dedicar-se à profissão. Passou por várias alfaiatarias e numa delas trabalhou com o barítono Salvador Grimaldi, com quem costumava ensaiar duetos de ópera. Apesar de em casa e para amigos cantarolar cançonetas italianas e árias de ópera, sua carreira iniciou em uma festa na casa de um irmão, onde encontravam-se presentes personalidades como Mário ReisFrancisco AlvesLamartine Babo, Jonjoca e, ali, cantou para os convidados Deusa, de Freire Junior, canção do repertório de Francisco Alves. Aprovando-o, aconselharam-no a tentar o rádio. Foi então apresentado ao compositor Bororó e através deste conseguiu uma oportunidade na Rádio Educadora do Brasil onde cantou "Destino", de Nonô e Luís Iglesias. No dia seguinte foi procurado e convidado a fazer um teste na RCA Victor. Aprovado, passa a fazer parte do coro que acompanhava as gravações da gravadora. Seu primeiro disco solo é lançado em 1933, com os frevos Você não gosta de mim, dos Irmãos Valença e Que é que há, de Nélson Ferreira. Conhecendo o compositor Assis Valente, gravou muitas canções suas tais como Para onde irá o Brasil, É duro de se crer, Elogio da raça (em dueto com Carmen Miranda), Pra quem sabe dar valor Boas festas, esta última seu primeiro grande sucesso. Passou cantando por várias emissoras de rádio do Rio de Janeiro, tais como: Mayrink VeigaRádio ClubePhilipsSociedadeCruzeiroCajutiTupi, Nacional e Mundial. Em 1935, estréia como cantor romântico com a valsa-canção Cortina de Veludo, de Paulo Barbosa e Osvaldo Santiago e obtém grande sucesso. Em sua carreira além de na RCA Victor, gravou também na Columbia, Odeon e Continental. Foi o segundo cantor que mais gravou no Brasil, cerca de 570 músicas (só perdeu para Francisco Alves). Além das canções carnavalescas, Galhardo foi quem mais cantou temas de datas festivas, a exemplo: Boas festasBoneca de Papai Noel (Ari Machado) e Lá no céu (Silvino Neto), Não mudou o Natal (Alcyr Pires Vermelho e Oswaldo Santiago) para o NatalBodas de prata (Mário Rossi) e Roberto Martins) para a celebração de mesmo nome, Mãezinha querida (Getúlio Macedo e Lourival Faissal), Imagem de mãe (Othon Russo e José Nunes), Dia das mães (José Cenília e Lourival Faissal), Aniversário de mãezinha (Mário Biscardi e Newton Teixeira) e Mamãezinha (José Selma, Lourival Faissal e Maurício das Neves) para o Dia das MãesPapai do meu coração (Lindolfo Gaya e Osvaldo dos Santos) para o Dia dos PaisTempo de criança (Ari Monteiro e Osvaldinho) para o Dia das CriançasSubindo, vai subindo (Osvaldo e Valfrido Siva), Olha lá um balão (Roberto Martins e Wilson Batista), Balão do amor (Armando Nunes e Geraldo Serafim) para as festas juninasValsa dos noivos (Sivan Castelo Neto e José Roberto Medeiros), Para os noivosBrinde aos noivosValsa dos padrinhos para noivos, Valsa dos namorados (Silvino Neto) para o Dia dos NamoradosQuarto centenário (J. M. Alves e Mário Zan) para o aniversário de São Paulo; Dentro da lua 23 de abril (ambas de Ari Monteiro e Roberto Martins) para o dia de São Jorge; e a Canção do trabalhador (Ari Kerner) para o Dia do Trabalhador. Participou dos seguintes filmes: Banana da terra, dirigido por J. Ruy (1938), Vamos cantar, de Leo Martins (1940), Entra na farra, de Luís de Barros (1941), Carnaval em lá maior, de Ademar Gonzaga (1955), Metido a bacana, de J. B. Tanko (1957). Em 1945, grava juntamente com Dalva de Oliveira e Os Trovadores, a adaptação de João de Barro para a história infantil Branca de Neve e os sete anões, com canções de Radamés Gnattali. Em 1952, passa um ano apresentando-se em Portugal. Em 1953 a Revista do Disco deu-lhe o slogan "Rei do disco". Também ficou conhecido como "O rei da valsa", título dado pelo apresentador Blota Júnior e "O cantor que dispensa adjetivos". Daí pra frente começou a apresentar-se por todo o Brasil, inclusive através da televisão. Em 1983, fez a sua última apresentação no espetáculo Allah-lá-ô, de Ricardo Cravo Albin, dedicado ao compositor Antônio Nássara, realizado na Sala Funarte - Sidney Miller. Carlos Galhardo faleceu com 72 anos e foi sepultado no Cemitério São João Batista. Ao lado de Francisco AlvesOrlando Silva, Vicente Celestino e Sílvio Caldas, formou o quadro dos grandes cantores da era do rádio.

73. Nelson GonçalvesNélson Gonçalves (nome artístico de Antônio Gonçalves SobralSantana do Livramento, 21 de junho de 1919 - Rio de Janeiro, 18 de abril de 1998) foi um dos maiores cantores e compositores brasileiros. Terceiro maior vendedor de discos da história do Brasil, com mais de 81 milhões de cópias vendidas, fica atrás apenas de Roberto Carlos, com mais de 120 milhões e Tonico e Tinoco com aproximadamente 150 milhões. Seu maior sucesso foi a canção "A Volta do Boêmio". Nasceu no interior do Rio Grande do Sul, mas mudou-se com os seus pais, portugueses de Lisboa, para São Paulo, no bairro do Brás. Quando criança, era levado para praças e feiras pelo seu pai, que precisava sustentar a família, e para isso, além de fazer outros serviços, fingia-se de cego e tocava violino, enquanto Nelson cantava, agradando os transeuntes e ganhando gorjetas. Sua família era muito humilde e por isto, Nelson teve que abandonar os estudos no início de sua adolescência, para ajudar o pai a sustentar o lar. Foi jornaleiro, mecânico, engraxate, polidor e tamanqueiro. Querendo ganhar mais dinheiro e seguir uma profissão, se inscreveu em concursos de luta e venceu, tornando-se lutador de boxe na categoria peso-médio, recebendo, aos dezesseis anos de idade, o título de campeão paulista de luta. Após o prêmio, só ficou mais um ano lutando, pois queria investir em seu sonho de infância: Ser artista. Mesmo com o apelido de "Metralha", por causa da gagueira, tomou coragem e não se deixou levar pelos preconceitos, e decidiu ser cantor, após deixar os ringues de luta. Em uma de suas primeiras bandas, teve como baterista Joaquim Silva Torres. Foi reprovado duas vezes no programa de calouros de Aurélio Campos. Finalmente foi admitido na rádio PRA-5, mas dispensado logo depois. Nesta época, em 1930, aos 20 anos, casou-se com sua noiva, Elvira Molla. Com Elvira teve um casal de filhos: Marilene Gonçalves e Nelson Antônio Gonçalves. Sem emprego, trabalhava como garçom no bar do seu irmão, na avenida São João. Neste mesmo ano, seguiu para o Rio de Janeiro com a esposa, onde trilhou mais uma vez o caminho dos programas de calouros. Foi reprovado novamente na maioria deles, inclusive no de Ary Barroso, que o aconselhou a desistir. Em 1941, conseguiu gravar um disco de 78 rotações, que foi bem recebido pelo público. Passou a crooner do Cassino Copacabana (do Hotel Copacabana Palace) e assinou contrato com a Rádio Mayrink Veiga, iniciando uma carreira de ídolo do rádio nas décadas de 40 e 50, da escola dos grandes, discípulo de Orlando Silva e Francisco Alves. Alguns de seus grandes sucessos dos anos 40 foram Maria Bethânia (Capiba), Normalista (Benedito Lacerda/Davi Nasser), Caminhemos (Herivelto Martins), Renúncia (Roberto Martins/Mário Rossi) e muitos outros. Maiores ainda foram os êxitos na década de 50, que incluem Última Seresta (Adelino Moreira/Sebastião Santana), Meu Vício É Você e a emblemática A Volta do Boêmio (ambas de Adelino Moreira). No final dos anos 40, seu casamento com Elvira estava abalado, por muitas brigas conjugais devido aos ciúmes de Elvira. Em uma turnê por Minas Gerais, Nélson conheceu Maria, uma fã, que se declarou apaixonada por ele. Não resistindo à jovem, os dois passaram a ter um caso, e Nélson sempre ia visitá-la no interior de Minas. A moça engravidou, mas não revelou a Nélson, por medo de a família saber que ela se envolveu com um homem casado, pois Maria sabia que Nélson jamais largaria a esposa para ficar com ela. Ele até poderia assumir o bebê, mas a família de Maria não aceitaria vê-la sendo mãe solteira. Assim, a jovem terminou o relacionamento e Nélson ficou sem entender o porque. Nélson, então, já não mais feliz no casamento com Elvira, entrou com o pedido de divórcioque foi dado pela esposa. Só em 1991 Nélson conheceu a filha que teve com a amante, Maria, mas esta já havia falecido. Após exame de DNA, comprovou-se que Lílian realmente era sua filha. Sendo assim, ele aceitou feliz esta nova filha, que conheceu seus meio-irmãos, sendo bem aceita por eles. Na década de 50, além de shows em todo o Brasil, chegou a se apresentar em países como Uruguai, Argentina e Estados Unidos, no Radio City Music Hall. Logo após o divórcio conhece Lourdinha Bittencourt, substituta de Dalva de Oliveira no Trio de Ouro. Os dois se apaixonam e após alguns anos de namoro, casam-se, em 1952. O casal passou os primeiros anos em lua-de-mel, e não pensavam em ter filhos, já que Lourdinha era muito vaidosa com o corpo e apesar de ser apenas quatro anos mais nova que o marido, se considerava jovem demais para ter filhos. Apesar da felicidade no início do casamento, com os anos a união foi se deteriorando, e o casamento durou até 1959, quando Lourdinha pediu o divórcio, devido as traições de Nélson. No início da década de 60, Nélson conheceu Maria Luiza da Silva e começaram a namorar. Em poucos anos noivaram e em 1965, casaram-se. O casal teve dois filhos: Ricardo da Silva Ramos Gonçalves e Maria das Graças da Silva Ramos Gonçalves. Em homenagem a filha, sua caçula tem seu apelido no refrão da música Até 2001. (É no gogo gugu). O casamento passou por grandes tribulações, quando Nélson se envolveu com cocaína, em 1958. Usando drogas por anos, sua esposa lutou contra o vício de Nélson, e apesar disto, Nélson foi preso em flagrante em 1965 por porte de drogas, e passou um mês na Casa de Detenção, o que lhe trouxe problemas pessoais e profissionais. Por todo esse tempo, sua esposa o visitou no presídio e juntava economias dela e do marido, que pagavam seu tratamento e seu advogado. Após sair da cadeia e diminuir o uso de drogas, voltou a lançar o disco A Volta do Boêmio nº1, um grande sucesso. Após poucos anos, abandonou de vez o vício, sempre com o apoio de sua mulher. Totalmente recuperado, retomou sua carreira, cada vez mais bem sucedida. Continuou gravando regularmente nos anos 70, 80 90, reafirmado a posição entre os recordistas nacionais de vendas de discos. Além dos eternos antigos sucessos, Nélson Gonçalves sempre se manteve atento a novos compositores, e chegou a gravar canções de Angela Rô Rô (Simples Carinho), Kid Abelha (Nada por Mim), Legião Urbana (Ainda É Cedo) e Lulu Santos (Como uma Onda). Compôs e gravou A Deusa do Amor, com Lobão. Ganhador de um prêmio Nipper da RCA, dado aos que permanecem muito tempo na gravadora, sendo somente Elvis Presley o outro agraciado. Durante sua carreira, gravou mais de duas mil canções, 183 discos em 78 rpm, 128 álbuns, vendeu cerca de 75 milhões de discos, ganhou 38 discos de ouro e 20 de platina. Morreu em consequência de um infarto agudo do miocárdio no apartamento de sua filha Margareth, no Rio de Janeiro. Encontra-se sepultado no Cemitério São João Batista no Rio de Janeiro.

74. Dalva de Oliveira:Vicentina de Paula Oliveira, conhecida como Dalva de Oliveira, (Rio Claro, 5 de maio de 1917 – Rio de Janeiro, 31 de agosto de 1972) foi uma cantora brasileira. Segundo a revista Rolling Stone, Dalva de Oliveira foi considerada a 32ª maior voz da música brasileira de todos os tempos. Filha de um carpinteiro, Mário de Paula Oliveira, conhecido como Mário Carioca, e da portuguesa Alice do Espírito Santo Oliveira, Vicentina de Paula Oliveira nasceu em 5 de maio de 1917 na cidade de Rio ClaroSão Paulo. Em 1935, no Cine Pátria, Dalva conheceu Herivelto Martins que formava ao lado de Francisco Sena o dueto Preto e Branco; foi terminado o dueto e nascia o Trio de Ouro. Iniciaram um namoro e, no ano seguinte, alugaram uma casa e iniciaram uma convivência conjugal, oficializada em 1937 no civil, celebrada na igreja católica e comemorada em um ritual de Umbanda na praia. A união gerou dois filhos: Os cantores Peri Oliveira Martins, o Pery Ribeiro, e Ubiratan Oliveira Martins. A União durou até 1947, quando as constantes brigas e traições por parte de Herivelto deram fim ao casamento. Matérias mentirosas que difamavam a moral de Dalva foram publicadas por Herivelto, com a ajuda do jornalista David Nasser no "Diário da Noite" fizeram com que o conselho tutelar mandasse Pery e Ubiratan para um internato, alegando que a mãe não possuía uma boa conduta moral para criar os filhos, o que a fez entrar em desespero e depressão. Os meninos só podiam visitar os pais em datas festivas e fins de semana, e podendo sair de lá definitivamente com dezoito anos. Dalva lutou pela guarda dos filhos e sofreu muito por isso. Em 1949 Dalva e Herivelto oficializaram a separação, se divorciando. Em 1952, depois de se consagrar mais uma vez na música mundial e ganhar o título de Rainha do Rádio, Dalva de Oliveira resolve excursionar pela Argentina, para conhecer o país e cantar em Buenos Aires. Nessa ocasião conhece Tito Climent, que se torna primeiro seu amigo, depois seu empresário e mais tarde, seu segundo marido, quando Dalva se muda para Buenos Aires, indo morar na casa de Tito, antes da união oficial. Dalva não queria mais ter filhos por conta de sua carreira, que tomava muito seu tempo, mas sempre quis ter uma menina. Por isto, adotou uma criança em um orfanato de Buenos Aires, a quem batizou de Dalva Lúcia Oliveira Climent. Dalva e Tito, após dois anos morando juntos, casaram-se oficialmente em um cartório na Argentina, e viveram juntos por alguns anos. No começo, a união era feliz e estável, e criavam a filha com muito amor e dedicação. Após mais de quatro anos de casamento, o casal passou a viver brigando, também por conta da carreira de Dalva, que vivia viajando, e de seus filhos, a quem constantemente visitava no Brasil. Dalva era uma mulher simples e querida por todos, fazendo amizade com facilidade, mas Tito queria uma mulher fina e cheia de requintes, sempre pronta para atender a todos em cima do salto. Essa grande diferença de temperamentos pôs fim à união no início dos anos 60. Dalva se muda para o Brasil com a filha, mas no mesmo ano, Tito entra na justiça pedindo a guarda da menina, e Dalva volta para Buenos Aires, onde entra em processo contra o marido. Para manter o processo até o fim, Dalva deixa sua carreira no Brasil e passa a morar com a filha em Buenos Aires até a decretação da sentença do juiz. Dalva e Tito passam a brigar muito pela guarda da criança, com brigas verbais, mas Tito acaba usando as mesmas provas que Herivelto utilizou: As notícias mentirosas em jornais a respeito da moral duvidosa da cantora. Muito triste e infeliz, perde a guarda de sua menina e volta sozinha para o Brasil, dando entrada no pedido de divórcioEla retoma sua carreira, fazendo mais sucesso que nunca. Em 1963, já há alguns anos separados, a separação oficial finalmente é concedida pelo juiz, já que casamento entre estrangeiros, na época, havia demora para protocolar o divórcio. Dalva de Oliveira volta a Buenos Aires para assinar os papéis e se divorcia de Tito, voltando logo em seguida para o Brasil. Seus pequenos momentos de felicidade ocorriam quando seus três filhos a visitavam nas férias escolares de Janeiro. Iam visitar a mãe no Rio de Janeiro, e passavam um mês com Dalva, em sua mansão. A cantora cancelava todos os shows do mês para ficar com os filhos. Seu desejo era poder viver com os três, sempre juntos, um sonho que não pôde realizar. Os anos se passaram. Dalva vivia sozinha em sua mansão, e já havia se acostumado com a solidão. Tinha tido alguns namorados, como cantores e atores, mas eram relacionamentos sem compromisso, que duravam geralmente uma noite ou poucos meses, pois não queria se apegar a ninguém, pois não pretendia casar-se novamente, apenas viver a vida com homens que a atraíssem. Também não tinha tempo de dedicar-se a um relacionamento, pois viajava o mundo em turnês musicais. Estava concentrada em sua carreira e fazendo mais sucesso ainda, quando, sem estar a procura, ela conhece Manuel Nuno Carpinteiro, um homem vinte anos mais jovem, por quem se apaixonou perdidamente, e com quem redescobriu o amor: Eles se casaram, e este fora seu último marido. Ao assumir o namoro, foi alvo de preconceitos, pela grande diferença de idade, mas Dalva não ouviu os outros, e escutou a voz de seu coração, seguindo os passos da felicidade. Com poucos meses de namoro, foram viver juntos, e ali Dalva reencontrou a alegria de viver. Em 18 de agosto de 1965 Dalva e seu último marido, Manuel Nuno Carpinteiro, que na época era seu namorado, sofreram um grave acidente: Ele dirigia o veículo, quando saíam de mais um show da cantora, onde haviam bebido muito, quando Manuel perdeu o controle, sofrendo um acidente automobilístico na cidade do Rio de Janeiro, que não causou ferimentos ao casal, mas resultou na morte por atropelamento de quatro pessoas. Manuel foi preso, e assumiu que estava realmente dirigindo o carro. Dalva se desesperou com a situação do amado, e toda a imprensa noticiou o fato, prejudicando sua carreira. Não se importando com críticas, Dalva o visitava na prisão, o que foi um escândalo na sociedade, pois na época, uma mulher que ia em presídios era considerada prostituta. Dalva arrumou um advogado para ele, e após meses, ele foi absolvido da acusação, tendo que reverter a condenação em prestação de serviços a comunidades carentes. No fim dos anos 60, após todos estes processos terminarem, Dalva e Manuel casam-se oficialmente em um cartório, com uma grande festa na mansão de Dalva. De voz afinada, e bela, considerada a Rainha da Voz ou o rouxinol brasileiro, sua extensão vocal ia do Contralto ao Soprano. Em 1937 gravou, junto com a Dupla Preto e Branco, o batuque Itaquari e a marcha Ceci e Peri, ambas do Príncipe Pretinho. O disco foi um sucesso, rendendo várias apresentações nas Rádios. Foi César Ladeira, em seu programa na Rádio Mayrink Veiga, que pela primeira vez anunciou o Trio de Ouro. Em 1949 deixou o trio, quando excursionavam pela Venezuela com a Companhia de Dercy Gonçalves. Em 1950 retomou a carreira solo, lançando os sambas Tudo acabado (J. Piedade e Osvaldo Martins) e Olhos verdes (Vicente Paiva) e o samba-canção Ave Maria (Vicente Paiva e Jaime Redondo), sendo os dois últimos, grandes sucessos da cantora. No ano seguinte foi eleita Rainha do Rádio, e excursionou pela Argentina, apresentando-se na Rádio El Mundo, de Buenos Aires, na qual conheceu Tito Climent, que se tornou seu empresário e depois marido, pai de sua filha, como mencionado anteriormente. Ainda em 1951, filmou Maria da praia, dirigido por Paulo Wanderley, e Milagre de amor, dirigido por Moacir Fenelon.Três dias antes de morrer, Dalva pressentiu o fim e, pela primeira vez, em sua longa agonia de quase três meses, lutando pela vida, falou da morte. Ela tinha um recado para sua melhor amiga, Dora Lopes, que a acompanhou ao hospital: "Quero ser vestida e maquiada, como o povo se acostumou a me ver. Todos vão parar para me ver passando!". Morreu em 31 de agosto de 1972, vítima de uma hemorragia interna causada por câncer no esôfago. A cantora teve seu apogeu artístico nos anos 30, 40 e 50. Seu corpo está enterrado no Cemitério Jardim da Saudade na Cidade do Rio de Janeiro.

75. Vicente CelestinoAntônio Vicente Filipe Celestin(Rio de Janeiro, 12 de setembro de 1894 – São Paulo, 23 de agosto de 1968) foi um dos mais importantes cantores brasileiros do século XX. Nasceu no bairro de Santa Teresa, filho de italianos da Calábria.Teve onze irmãos, dos seis homens, cinco dedicaram-se ao canto e um ao teatro (Amadeu Celestino). Desde os 8 anos, por causa de sua origem humilde, Celestino teve de trabalhar como: sapateiro, vendedor de peixe, jornaleiro e, já rapaz, chefe de seção numa indústria de calçados. Começou cantando para conhecidos e era fã de Enrico Caruso. Antes do teatro cantava muito em festas, serenatas e chopes-cantantes. Estreou profissionalmente cantando a valsa Flor do Mal no teatro São José e fez muito sucesso e também entrou no seu primeiro disco vendendo milhares de cópias em 1915 na Odeon (Casa Edison). Em 1920 montou uma companhia de operetas, mas sem nunca deixar o carnavalesco de lado, emplacando sucessos como Urubu Subiu. Rapidamente, depois de oportunidade no teatro, alcançou renome. Formou companhias de revistas e operetas com atrizes-cantoras, primeiro com Laís Areda e depois com Carmen Dora. As excursões pelo Brasil renderam-lhe muito dinheiro e só fizeram aumentar sua popularidade. Nos anos 20, reinava absoluto como ídolo da canção. Na década de 30 começou a demonstrar seus dotes como compositor resultando em clássicas de seu reportório, como 'O Ébrio', sua música mais lembrada até hoje (inclusive transformada em filme por sua esposa). Vicente Celestino teve uma das mais longas carreiras entre os cantores brasileiros. Quando morreu, às vésperas dos 74 anos, no Hotel Normandie, em São Paulo, estava de saída para um show com Caetano Veloso e Gilberto Gil, na famosa gafieira "Pérola Negra", que seria gravado para um programa de televisão. Na fase mecânica de gravação, fez cerca de 28 discos com 52 canções. Com a gravação elétrica, em 1927, sentiu uma certa inaptação quanto ao rendimento técnico, logo superada. Aí recomeçaria os sucessos cantados em todo o Brasil. Em 1935 foi contratado pela RCA VICTOR, praticamente daí sua única gravadora até falecer. No total, gravou em 78 RPM cerca de 137 discos com 265 músicas, mais dez compactos e 31 LPs, nestes também incluídas reedições dos 78 RPM. Vicente Celestino, que tocava violão e piano, foi o compositor inspirado de muitas das suas criações. Duas delas dariam o tema, mais tarde, para dois filmes de enorme público: O Ébrio (1946) e Coração Materno (1951). Neles Vicente foi dirigido por sua mulher Gilda Abreu (1904 - 1979), cantora, escritora, atriz e cineasta. Celestino passaria incólume por todas as fases e modismos, mesmo quando, no final dos anos 50, fiel ao seu estilo, gravou "Conceição", "Creio em Ti" e "Se Todos Fossem Iguais a Você". Seu eterno arrebatamento, paixão e inigualável voz de tenor, fizeram com que o povo o elegesse como A Voz Orgulho do Brasil. Em 1965, recebeu o título de Cidadão Paulistano pela Câmara de Vereadores desta cidade. No dia 23 de agosto de 1968, quando se preparava para gravar um programa de televisão, onde seria homenageado pelo Movimento Tropicalista, passou mal no quarto do Hotel Normandie, em São Paulo, falecendo do coração minutos depois. Seu corpo foi transferido para o Rio de Janeiro, onde foi velado por uma multidão na Câmara dos Vereadores e sepultado sob palmas do público no Cemitério de São João Batista no Rio de Janeiro. Nunca saiu do Brasil e manteve sua voz grave que era marca registrada independente do estilo musical que estava executando. Teve suas músicas regravadas por grandes nomes, como Caetano Veloso, Marisa Monte e Mutantes.

76. Orlando SilvaOrlando Garcia da Silva (Rio de Janeiro, 3 de outubro de 1915 - Rio de Janeiro, 7 de agosto de 1978) foi um dos mais importantes cantores brasileiros da primeira metade do século XX. Orlando Silva nasceu na rua General Clarindo, hoje rua Augusta, no bairro do Engenho de Dentro. Seu pai, José Celestino da Silva, era violonista e participou com Pixinguinha de serenatas, peixadas e feijoadas. Orlando viveu por três anos neste ambiente, quando, então, seu pai faleceu vítima da gripe espanhola. Teve uma infância normal, sempre gostando muito de violão. Na adolescência já era fã de Carlos Galhardo e Francisco Alves, este último um dos responsáveis por seu sucesso. Seu primeiro emprego foi de estafeta da Western, com o salário de 3,50 cruzeiros por dia. Foi então para o comércio e trabalhou como sapateiro, vendedor de tecidos e roupas e trocador de ônibus. Quando desempenhava as funções de office boy, ao saltar de um bonde para entregar uma encomenda, sofreu um acidente, tendo um de seus pés parcialmente amputado, ficando um ano inativo, problema sério, já que sustentava a família. Foi Bororó, conforme o próprio relata no filme O cantor das multidões que o apresentou a Francisco Alves, que ouviu Orlando cantar no interior de seu carro, decidindo imediatamente lançá-lo em seu programa na rádio Cajuti. Nos seis ou sete anos seguintes, tornou-se um grande sucesso, considerado por muitos a mais bela voz do Brasil, contando inclusive com a estima do próprio presidente Getúlio Vargas. Atraía os fãs de tal forma que o locutor Oduvaldo Cozzi passou a apresentá-lo como "o cantor das multidões", conforme relata no filme com o mesmo nome.

77. Dr. Antonio de Sousa: Antonio José de Melo e Sousa (1867-1955), intelectual potiguar nascido em Papari; ex-governador do Rio Grande do Norte, tendo ocupado várias pastas públicas; autor de Gizinha, considerado por estudiosos paulistas como uma das mais importantes obras do modernismo brasileiro.

78. Cosmopolita: um dos primeiros modelos de fogão a gás fabricados no Brasil, considerados na década de 40 como moderníssimos; era todo esmaltado na cor branca com suas modernas asas laterais e seus queimadores apelidados de "cachimbos"; abaixo do forno havia a opção: "assar cozer"

79.Sítio Floresta: extensa área semi-rural com muitas roças, fruteiras e pequenos sítios que interliga o centro de Nísia Floresta ao povoado do Porto.

80. Manuel Bandeira: Manuel Carneiro de Souza Bandeira famoso escritor brasileiro, nasceu no Recife no dia 19 de abril de 1886; faleceu no dia 13 de outubro de 1968.

81. Querosene Jacaré: antiga marca de querosene, a qual vinha em latas de um litro, cinco litros e mais.

82. garrafadas: remédios feitos em casa; normalmente com cascas, flores ou folhas de alguma árvore mergulhadas em álcool, cachaça ou água guardadas em garrafas.

83. Papari: nome original do município.

84. Barbatimão: barbatimão-verdadeiro, ou ainda barba-de-timão, casca-da-virgindade ou apenas barbatimão (Stryphnodendron adstringensStryphnodendron barbadetiman (Vell.), Acacia adstringens (Mart.), Mimosa barbadetiman (Vell.), Mimosa virginalis (Arruda) é uma espécie de planta pertencente à família Fabaceae, é uma árvore pequena, hermafrodita, decídua, de tronco tortuosos e cada rugosa espessa e de cor clara. As folhas são alternadas, compostas bipinadas com cerca de cinco a oito pares de pinas, os foliólulos são arredondados e ovalados. Seus frutos são vagens grossas, carnosas de cor castanho-claras com muitas sementes de cor parda, a floração é em setembro. É nativa do cerrado brasileiro encontrada em vários estados brasileiros em menor quantidade. É tóxica para bovinos e herbívoros em geral. Em Nísia Floresta é usada com as propriedades do Mertiolate.

85. Pitú. antiga marca de aguardente pernambucana, amplamente consumida em todo o Nordeste.

86. mezinhas. remédios caseiros a base de plantas e outros elementos da natureza.

87. jia: rã (Rana catesbeiana) também usada como alimento.

88. tejuaçu. ou teiú-brasileiro, é um lagarto da família dos Teídeos (comumente chamados teiús, tejus ou tegus), conhecido sobretudo por sua agressividade e voracidade. Se molestado, primeiro tenta fugir, mas, sendo impossível, defende-se desferindo golpes violentos com a cauda. Vive em regiões florestadas, campos de vegetação alta e campos cultivados, mas também é visto em áreas urbanas. Atinge até 2 m de comprimento, o que o torna o maior lagarto do Brasil. Pode ser confundido com o teiú dito "argentino" (Tupinambis merianae, Argentine Tegu, lagarto blanco, tegu argentino, tegu blanquinegro).

89. cansaço. sintoma parecido com asma.

90. caquear: tatear, apalpar; regionalismo local.

91. covos: armadilhas esféricas, feitas com varas para apanhar camarão dentro de rios e lagoas.

92. puçás: espécie de coador de café gigante. Serve para pegar peixe e camarão.

93. calão: paus laterais amarrados a uma rede de pesca.

94. pari: armadilha para apanhar peixes e camarões; existe o modelo cilíndrico e o semelhante a uma cerca de faxina, posto nas correntezas das águas, prendendo os cardumes.

95.enxó: instrumento que consiste em uma chapa de metal cortante e um cabo curvo, usado em carpintaria e tanoaria para desbastar peças grossas de madeira.

96. pilar: socar grãos no pilão.

97. Tororomba: um dos distritos de Nísia Floresta, de acordo com Câmara Cascudo, em seu livro Nomes da Terra, significa “fim da enxurrada”.

98. Jenipapeiro: distrito situado exatamente nos limites entre Nísia Floresta e Senador Georgino Avelino, o nome provém do fruto do 'jenipapeiro', que existia em abundância na localidade.

99. Alcaçuz: distrito nisiaflorestense, interligado a Piranji do Norte; alcaçuz é uma planta medicinal.

100. Nossa Senhora do Ó: Santa Padroeira de Nísia Floresta; a mesma Nossa Senhora da Expectação (Nossa Senhora Grávida).

101. Parnamirim: município metropolitano que faz divisa com Nísia Floresta.

102. carregado: cheio de energia ruim; sensação experimentada por pessoa que foi vítima de mau-olhado.

103. mau-olhado: de acordo com a crença, é o sintoma de mal estar, tristeza, algumas vezes associado a febre, cocô mole (quando criança), causado pelo olhar de alguém. Dizem que quando alguém admira algo e não diz “benza Deus”, causa mau-olhado, inclusive em plantas e animais. A pessoa não tem culpa de “pôr mau olhado”.

104. duas risadas: regionalismo usado para se referir às coisas feitas com grande facilidade.

104. paul: terreno levemente pantanoso e fértil.

105. Euclides da Cunha: Euclides Rodrigues da Cunha foi um escritor e jornalista brasileiro; ascimento: 20 de janeiro de 1866, Cantagalo, Rio de Janeiro; alecimento: 15 de agosto de 1909, Piedade, Rio de Janeiro. Um dos mais importantes escritores brasileiros, autor de obras como “Os Sertões”.

106. arisco: tipo de solo arenoso, mas que devido ao material orgânico trazido pela vegetação, associado às chuvas, irrigação ou adubamento natural, torna-se muito fértil.

107. barro amarelo/vermelho: tipo de solo local; foi muito usado para barrear casas de taipa.; hoje é usado para fazer tijolos, estradas, enchimento de baldrames de casa etc.

108. cipó-de-sapo: cipó com circunferências e flexibilidade semelhantes a uma corda, usado para amarrar; para que se torne flexível é só entortá-lo para vários lados.

109. Paulo Varela: poeta e cordelista assuense, autor de vários trabalhos, também disponibilizados em CD's e vídeos.

110. enxaimel: ou Fachwerk (originário de "Fach" assim denominavam o espaço preenchido com material entrelaçado de uma parede feita de caibros), é uma técnica de construção que consiste em paredes montadas com hastes de madeira encaixadas entre si em posições horizontais, verticais ou inclinadas, cujos espaços são preenchidos geralmente por pedras ou tijolos. Os tirantes de madeira dão estilo e beleza às construções do gênero, produzindo um caráter estético privilegiado. Outras características são a robustez e a grande inclinação dos telhados. Na adaptação do enxaimel às características climáticas da região, foi necessária a implantação, por conta da elevada umidade local, de uma estrutura feita de pedra que sustenta as construções evitando que a madeira se molhe. Veio ao Brasil com os colonizadores alemães.

Mestre: brincante e grande entendedor e guia de um folguedo folclórico.

DEPOIMENTOS:

ARAÚJO, Pedro. 83 anos (Porto)
BANDEIRA, Joana (in memorian); 26 de janeiro de 1919 – Depoimentos em 2002 a 2004 (Porto)
BARROS, Manoel de (in memorian); 1997 a 1999 (Conjunto Jessé Freire)
CARVALHO, Ana Maria Barros de, 60 anos; out. 2005 (Sítio Moita)
CARVALHO, Terezinha Barros de Carvalho (in memorian), 76 anos.
CARVALHO, Pedro Araújo de (in memorian), 85 anos.
DIAS, Maria do Carmo Ribeiro, 94 anos – 1992 (Centro)
GALVÃO, Cel. Dagoberto Félix Bezerra de Araújo. Golandi)
SILVA, José Anísio da. 84 anos, nascido em Cururu, Campo de Santana, aos 19/12/1930 - Depoimentos em 1993 (“Zé de Tatá”). (Barreta)
LEANDRO, Pedro (in memorian); completaria 92 anos em 2016 – nasceu em Cabedelo – PB; 82 anos; 1993 a 2000 (Centro)
LIQUINHA, 85 Anos.
MELO, Vicente Inácio de, nasceu aos 19 de março de 1912, num lugarejo chamado “Surubajá”, parte do distrito de Carnaúba, em Georgino Avelino. Faleceu aos 24 de junho de 1998. (Centro).
M.J.R. 78 anos (in memorian); (,,,,,,,,,,,,,,,)
NASCIMENTO, Maria do Carmo do, nasceu no dia 18-02-1936,e faleceu no dia 20-05-2014 – Depoimentos em 2005 (Centro).
NASCIMENTO, João Batista do, (Sr. “Bambão”), nasceu no dia 05-06-1937 (Centro).
NASCIMENTO, José Augusto do (Sr. “Zé Carão”); 1992 a 1996. (Centro).
NASCIMENTO, Manuel Salvador do. Nasceu aos 5/02/1926, em Papari – Depoimentos em 1992 a 1993 (Alto Monte Hermínio).
NASCIMENTO, Natália Gomes do (in memorian), nascida em Tororomba, em … de …. de …...94 anos (Centro e Tororomba)
NASCIMENTO, Eutiquiano Correia de Almeida, (in memorian), nasc. 6.9.1930 – 14.12.2005 (Barreta).
NETO, João Lourenço (Tororomba).
N.M.N. 25 anos; 1992 a 2000 (Centro).
NASCIMENTO, Raimunda; 1993 a 1994 (Porto).
PAIVA, Humberto (in memorian), 77 anos; 1992 a 1994 (Engenho Descanso).
RIBEIRO, Pedro (in memorian); 80 anos, 1997 a 2000 (Conjunto Clóvis de Carvalho).
SANTANA, Leonísia Rodrigues (in memorian); 1993 (Centro).
SILVA, Lourdes. “d. Lurdes poeta”, (Moita).
TRINDADE, Conceição (in memorian), nasceu aos 8 de dezembro de 1924 – depoimentos em 1993-1994 (Centro).
Canindé; 1992 a 1998 (Porto)
Vavá Mendes, 46 anos; out. 2005 (Conjunto Clóvis de Carvalho)
Zé Catita, 90 anos (in memorian), 1997 (Porto).
Mestre Benedito, 77 anos (Porto).

https://pt.wikipedia.org/wiki/Jeca_Tatu pesquisa em 20.10.16
https://pt.wikipedia.org/wiki/Pau_a_pique pesquisa em 20.10.16
https://pt.wikipedia.org/wiki/Am%C3%A1cio_Mazzaropi pesquisa em 20.10.16
https://pt.wikipedia.org/wiki/Ladrilho_hidr%C3%A1ulico pesquisa em 20.10.16
https://pt.wikipedia.org/wiki/Mouros pesquisa em 20.10.16
http://www.remedio-caseiro.com/melao-de-sao-caetano-tem-poderes-que-voce-nem-imagina/ pesquisa em 20.10.16
https://pt.wikipedia.org/wiki/Pitir%C3%ADase_versicolor pesquisa em 20.10.16
https://pt.wikipedia.org/wiki/Doen%C3%A7a_de_Chagas pesquisa em 20.10.16
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https://pt.wikipedia.org/wiki/Velame-branco pesquisa em 20.10.16
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https://pt.wikipedia.org/wiki/Tei%C3%BA pesquisa em 20.10.16
https://pt.wikipedia.org/wiki/Enxaimel pesquisa em 20.10.16
https://pt.wikipedia.org/wiki/Pelo_Telefone, pesquisa em 6 de novembro de 2016
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https://www.youtube.com/watch?v=8re7mXK5Ojs, pesquisado em 5.11.15
https://www.youtube.com/watch?v=6cInRzqKchE, pesquisado em 5.11.15
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https://pt.wikipedia.org/wiki/Orlando_Silva