ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que navegam nessas águas. Os textos são de autoria de Luís Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. O parentesco ocorre pela parte das raízes da mãe do autor deste blog, Maria José Gomes Peixoto Freire, neta de Maria Clara de Magalhães Fontoura, trineta de Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, descendente do Capitão-Mor Bento Freire do Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra, dos quais descende a mãe de Nísia Floresta, Antonia Clara Freire. Essas informações podem ser encontradas no livro "Os Troncos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti, um dos maiores genealogistas brasileiros. O referido livro pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade de nome homônimo. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de lendas, crônicas, artigos, reproduções de reportagens de interesse nacional, fotos poesias, etc. É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA. Posso enviar alguns textos por e-mail, já que é um blog protegido. OBS. Só publico comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone, pois repudio anonimato.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

RESPOSTA DA ARQUIDIOCESE DE NATAL SOBRE A DENÚNCIA DA DESCARACTERIZAÇÃO DA IGREJA DE NOSSA SENHORA DO Ó - NÍSIA FLORESTA




Natal, 4 de dezembro de 2019


Prezado Luis Carlos Freire,

A arquidiocese de Natal e o Arquivo Metropolitano da Arquidiocese de Natal (AMAN) tomaram ciência das criticas e sugestões que o senhor fez acerca das reformas da Igreja de Nossa Senhora do Ó em Nísia Floresta. Gostaríamos de agradece-lo pela generosa contribuição, que nos ajuda a ficarmos atentos para a questão da preservação dos Bens Culturais da Igreja. Criticas como as suas nos ajudam a alerta e sensibilizar o clero para esta pauta tão importante.
O Arquivo Metropolitano da Arquidiocese de Natal tem feito o possível, sempre dentro de nossas poucas possibilidades, para fomentar politicas institucionais de preservação dos Bens Culturais da Igreja. Desde 2018 começou a implantação das disciplinas de Bens Culturais da Igreja I e Bens Culturais da Igreja II. A primeira disciplina foca na sensibilização e educação patrimonial do futuro clero e a segunda disciplina prioriza a gestão dos bens e os mesmo como objetos de pesquisa. A culminância das disciplinas ocorrem sempre no fim do ano.
Em 17 de dezembro de 2019 ocorrerá a segunda edição do Colóquio de Bens Culturais da Igreja no Rio Grande do Norte. A partir das 9h teremos o minicurso de Gestão de Arquivos Eclesiásticos e ás 14h uma mesa redonda sobre Gestão dos Bens Culturais da Igreja, ambas as atividades ocorrerão no auditório do Seminário de São Pedro. 
A Inscrição para o evento pode ser feita pelo link a seguir: 

Em nosso blog o senhor poderá conhecer um pouco mais do trabalho que estamos desenvolvendo. Link a seguir:
Obrigado pelas contribuições. 
Atenciosamente. 
Equipe AMAN 
Ir. Vilma Lúcia de Oliveira FDC
COORDENADORA GERAL DO ARQUIVO METROPOLITANO DA ARQUIDIOCESE DE NATAL
Poliana Cláudia Martins da Silva Dantas
DIRETORA DE CONSERVAÇÃO E PRESERVAÇÃO DO ARQUIVO METROPOLITANO DA ARQUIDIOCESE DE NATAL 
Cláudio Correia de Oliveira Neto 
DIRETOR DE PESQUISA E DIFUSÃO DO ARQUIVO DA ARQUIDIOCESE DE NATAL









segunda-feira, 25 de novembro de 2019

DONA ORIDE


DONA ORIDE (2003)

 
As senhoras do Apostolado da Oração, amigas de infância, entraram esquadrinhando cada centímetro do casarão centenário. Emanava um miasma. Misto de mofo e notas indecifráveis de velharias. Algo esdrúxulo. Nunca experimentaram cheiro semelhante. As paredes carregavam a cor da primeira demão pincelada há mais de sete décadas, embora descascada. O pó, a fuligem, os vapores e picumãs matizaram de forma incomum tudo o que se abrigava naquela assobradada casa.
A junção dessa alquimia metamorfoseada durante muitos anos impregnou móveis, cortinas, caminhos de mesa... Era uma cor harmonicamente mesclada. Tudo se desenhara com a mesma estampa. Predominava o acinzentado. Não era exatamente a cor da tinta, mas as matizes do tempo, efeitos que a química de vento e gordura de cozinha se encarregou de tingir cada pedacinho do que a casa guardava. A estampa do tempo vestiu os próprios móveis. Teias de aranha lembravam redes de dormir dependuradas nos cantos, principalmente atrás dos móveis, velhas quanto tudo mais que existia nos cômodos.
Uma das senhoras se imaginou arqueóloga, adentrando pela primeira vez numa câmara de pirâmide egípcia, descortinando tesouros antigos. Algumas janelas se fundiram como peça única, efeito de décadas trancadas. A própria geladeira revelava essa homocromia, camuflada no cenário onde dona Oride foi parte do mimetismo.
O chão da casa tinha uma espécie de película acetinada, efeito da ausência de vassoura. Dona Oride nunca deixou entrar uma versão de piaçava em sua morada. Usava vassoura de mato, aliás, seu quintal ancho tinha foros de uma mini-floresta. Espécies abundantes floresceram ali, entrelaçadas a jaqueiras, mamoeiros, limoeiros, abacateiros, araçás, sapotis e outras árvores frutíferas. Uma sucessão de folhas secas aterrissadas ao longo dos anos bordou um tapete no chão. Era o quintal que mais via passarinho na cidade. Ela conservava uns tambores com água sob um puxadinho. Ali a passarada tinha o seu lago exclusivo. A ausência de trânsito de pessoas deu àquela floresta um bioma especial. Não havia árvore sem ninho. O pé de quixabeira tornou-se um condomínio de pássaros. Para ampliar a avifauna, galinhas, perus, pavões, patos se esparramavam no quintal que ocupava a metade da quadra. Os bichos comiam nas mãos da anfitriã. Ela estando ali era como se integrasse a família de cada hóspede, seja de penas ou de pelos.
A cozinha de dona Oride mimetizava a mesma tonalidade da sala e dos outros cômodos, mas envernizada pela oleosidade do fogão a lenha. Havia um fogão à gás da marca Cosmopolita, usado nas raras noites que ela preparava algum chá. Tinha preferência pelo calor das brasas e o crepitar da lenha ardendo a partir das quatro e meia da manhã, quando o sol rompia as frestas das janelas. Dizia que comida de verdade é a lenha. O entregador de gás aparecia ali uma vez por ano, entrava pela porta dos fundos, mal pisava os tijolos brancos da cozinha, pois o Cosmopolita ficava estrategicamente ao lado da porta. Certamente foi a maneira encontrada para delimitar a entrada daquela necessidade.
Eurides Cordolina da Conceição Alcântara, nome de batismo da proprietária. O casarão ficava ao lado da Igreja Matriz. O marido, Ernesto Trajano de Alcântara morreu jovem. O casamento contava dezoito primaveras quando um acidente no escritório da Rede Ferroviária os separou. Viúva aos trinta e três anos, nunca mais se casou.  Dizia: “casamento é um só”.
Após deixarem as bolsas e sacolas sobre o sofá, as visitantes inaugurais deixaram o casarão, impressionadas.
A cidade que viu Dona Oride nascer, testemunhara agora o seu velório no centro pastoral. Contava noventa e oito anos. A filha única, Rogaciana, de meia idade, chegara à cidade há vinte dias. Ainda muito jovem passara num doutorado em São Paulo e ali se estabelecera. Era médica. Raramente visitava a mãe. A última visita se dera há uma década. Surgia como beija-flor. O povo abominava sua atitude. “Dona Oride é abandonada pela filha”, diziam... A velha nunca fez comentário sobre isso. Talvez achasse bom o isolamento humano. Talvez compensasse tudo na ebulição de seu quintal. Gostava de seu cadinho.
Comentavam que dona Oride, como era conhecida, fora abandonada por tudo e todos, que era mulher triste. Talvez estivessem enganados. Certamente seu quintal era maior que o mundo. Dona Oride tinha vida eletrizante. Cavava, ciscava, podava plantas, fazia regos d’água, moía milho, tratava das aves, molhava as plantas, torrava café, pilava grãos... não parava um segundo. O quintal era um centro nervoso de afazeres religiosamente cumpridos no dia-a-dia. Estava sempre descobrindo ninho de pássaros, nascimento de pintinhos e sagüis que abundavam por ali. Outrora colhia frutas ou se debruçava no seu jirau de coentro e cebolinha. Sua morada fervilhava em acontecimentos. Vida agitada. Ela fez do seu habitat um planeta formidável. Sua solidão fervilhante talvez traduzisse sua forma de ser feliz.
Dona Oride foi dessas senhoras muito reservadas. Talvez sua discrição representasse uma forma de frear pessoas indiscretas, como dizia ela mesma à sua filha. “Não gosto de gente embiocando casa adentro. Mamãe não me criou enfiada em casa alheia”. Era muito polida. Raramente alguém a via na rua ou no comércio. Quando passava uma criança ela gritava “meu filho, corra ali e compre um pacote de açúcar pra mim”. Alguns disparavam dali, com medo, mas a criançada vizinha, sabedora que sua nocividade era a mesma de um cordeiro, vinha no risco, pois ganhava parte do troco. Muitos deles remanchavam por ali, aguardando demandas da velha.
A casa da velha Oride só via a luz do sol através da porta da frente e dos fundos. Os raros visitantes não passavam do portão. Gente íntima tinha acesso apenas à varanda, mas muito rápido, pois ela se encarregava de tornar as visitas breves. Alegava um feijão no fogo, um banheiro para limpar, uma casa para varrer. Eram desculpas para despachá-las.
Como o leitor percebeu, a casa de dona Oride era desabituada à vassoura. Alguns juravam que ela era bruxa. Talvez pelas vassouras de mato sempre escoradas ao muro. Proclamavam também que ela era macumbeira. Nunca havia desaparecido menino algum na cidade, mas “o quintal de dona Oride era cheio de meninos enterrados”, diziam. Eram crianças que se arriscavam a roubar goiaba, pitomba e sapoti. A história corria nas conversas escolares. Havia quem sentisse pavor de ir ao banheiro escolar, pois ali “dona Oride se escondia, plantava um porrete na cabeça da criança e a levava para sua casa. Comia os olhos”. Dois garotos alegaram tê-la visto pulando o muro com um menino nas costas.
Curiosa, ou contraditoriamente, os adultos daquela cidade gostavam muito dela, inclusive os católicos. Outros eram indiferentes. Ao longo de sua vida dona Oride pisou na igreja três vezes. Quando se casou, batizou a filha e enterrou o marido. Nunca mais viu sequer o último banco da matriz. Em compensação ajudava quase todos os eventos organizados pela igreja. Fazia ofertas consideráveis à época dos festejos da festa do padroeiro São Paulo, bancava as despesas com flores, doava garrotes, carneiros, bolos e outras prendas para os leilões que ocorriam após as novenas. Eram famosos os seus bolos, doces e frangos assados que ela doava em quantidade. Tudo preparado no insubstituível fogão a lenha. A fama de seus pratos saborosos corria a cidade há décadas.
Ela não freqüentava a festa. Sequer apreciava do alpendre e tampouco da janela. As más línguas espalhavam que ela cavara buraquinhos em pontos estratégicos das paredes, usando-os para brechar episódios ocorridos quando a festa se encerrava. Diziam ser coisas horríveis.
Dona Oride tinha saúde admirável. Sua destreza e desenvoltura surpreendiam. Acordava com os passarinhos e dormia com as galinhas. De quando em vez inventava podar suas árvores e passava o dia nesse mister. Ela mesma arrastava os galhos para a rua. Era uma das únicas vezes que ultrapassava o portão dos fundos do quintal. Esse evento atraia a atenção de algumas pessoas, as quais inventavam trânsito por ali só para vê-la. Queriam constatar coisas ouvidas nas conversas do povo. Alguns não acreditavam que uma pessoa tão idosa fosse capaz de tais prodígios. Outros queriam conferir se o seu rosto era realmente de bruxa, ou se no lugar do rosto havia uma caveira, conforme comentários. Mas como dona Oride usava sempre um chapelão sobre o lenço de cabeça, as lendas perduravam. Raras pessoas viam o seu rosto.
Muitos não sabiam se era coincidência ou hábito, mas quando dona Oride arriscava aparecer no jardim de sua casa, ou irrompia nos portões dos fundos, arrastando galhos velhos ou latões de lixo, trajava o mesmo vestido e avental. Assim como sua casa, ambas as peças tinham a mesma cor. Comentários antigos davam conta de que dona Oride só usava um vestido. As poucas vezes que ela se abalava ao comércio, era com o dito vestido e avental, confirmando os comentários.
Umas das senhoras que esteve na casa de dona Oride, constatou que a morta era literalmente um pedaço da casa. Como um tecido que se corta, cujo retalho extirpado leva a mesma estampa. A velha era esse retalho. As raras vezes que saia de casa, soava como se o retalho passeasse. Dona Oride era impregnada pela casa e a casa impregnada dela. Dentro de sua morada ela desaparecia, mimetizada nas cores dos sujos. pelas cores velhas do tempo.
O hábito de enxugar e limpar as mãos nas roupas, e por vezes nas cortinas ou paredes, tornava dona Oride camuflada em seu habitat. Se um ladrão entrasse ali jamais a veria. Ela era parte da estampa e se confundia com as cores velhas do tempo.
Quase toda tarde dona Oride aparecia na varanda para regar as plantas. Só era possível vê-la se ela se movimentasse. Se parada, confundia-se com lodos e tintas descascadas nas paredes. Não era fácil dar de cara com ela. Normalmente aparecia após o banho. Costumava banhar o rosto numa velha bacia de alumínio no quintal. O resto era responsabilidade de uma chuva de talco. Outrora despejava no corpo uma lavanda inglesa, sua essência preferida. Um homem da “malária” disse tê-la visto coberta de talco à altura do seio. Os próprios meninos da vizinhança diziam que uma de suas encomendas correntes era justamente talco. Sabiam até a marca: “Alma de Flores”.
Dona Oride era generosa nas doações feitas à festa do padroeiro. Doava diversos acepipes preparados com satisfação. Tempero famoso. Seus frangos, bolos e pães eram aguardados com ansiedade. Muitos chegavam mais cedo para comprá-los, garantindo um jantar diferente. No meio da festa não existia mais nada de suas doações. Todos queriam seus quitutes, justificando serem inigualáveis. Era afamada por isso. Certa vez as freiras locais pediram que ela repassasse seus conhecimentos culinários às noviças. Ela negou enfaticamente, alegando não ter o mínimo jeito para ensinar, nem gostava de fazer nada com pessoas olhando. Disse que comida feita por muitas mãos nunca fica boa. Sua franqueza impediu que as religiosas insistissem. Outros moradores a procuravam para ela ensinar seus pratos deliciosos, mas ela nem atendia a porta.
Quando dona Oride era jovem, protagonizou um fato curioso numa dessas festas. Ela doou uma bacia cheia de frango assado que rendeu resenhas durante anos. Não deu para quem quis. Quando restava apenas um frango, um festeiro percebeu que o frango trazia uma florzinha esturricada abaixo do uropígio. Depois descobriu que, de fato, não era o sobrecu. Dona Oride retirou o sobre e deixou o resto. Curiosamente os glutões apreciaram a iguaria com tanto gosto que mal sobraram ossos. Diziam que nunca comeram frango mais delicioso. Certamente depois alguém encontrou uma forma de contar o ocorrido à dona Oride, pois nas festas seguintes os frangos chegavam apenas com o sobre.
A história do frango foi praticamente sepultada, pois as delícias geradas em sua cozinha consistiam num patrimônio tão cobiçado, que não valia a pena se lembrar de um deslize. E o fato se passara há décadas. Só gente de idade encostada à idade de dona Oride conhecia o episódio que rodou a cidade à época.
Durante o velório, cada um dizia alguma história sobre dona Oride. Verdade ou lenda, não importava mais. Seja como for, ela se encontrava num caixão, camuflada por flores. O velório arrastou muita gente, principalmente pessoas da igreja e gente antiga. Tinham gratidão pela senhora que não pisou nas missas, mas seu espírito caridoso tocava todos. A filha não se aproximou um segundo do ataúde. Dizia querer guardar a fisionomia da mãe viva. Com certeza ela guardava a imagem de uma Oride bem mais nova, pois a última visita tinha sido há 10 anos.
No rol das conversas típicas de velório, houve quem dissesse – sabe-se lá como souberam – que, certa vez, preparando um bolo, dona Oride deu com duas imensas baratas mortas no pote de manteiga da terra. Com bastante jeito ela fincou o dedo na vasilha e sacudiu as bichas rumo à porta do quintal. A mira mal calculada resultou nos insetos estatelados na parede, ficando ali mesmo grudados. Todos diziam que dona Oride guardava segredos culinários de antepassados e não transmitia a ninguém. Na realidade, o que muitos desconheciam, de fato, eram os bastidores da cozinha de dona Oride, onde ocorria a alquimia de seus acepipes deliciosos, doados para a festa do padroeiro. Seu grande segredo era a sua cozinha, onde ela não tinha pudores.
Sua tábua de carne era literalmente uma tábua de madeira cheia de ranhuras. Nunca viu sabão. Para ela as mãos eram um precioso instrumento de limpeza. Bastava alisá-la debaixo d’água, e estava limpa. Não apreciava muito o sabão. Embora dispusesse o produto no local, só usava bucha vegetal para lavar as panelas. O produto existia aos montes, enramados no muro e nas árvores do quintal. Ela mantinha uma técnica especial na pia da cozinha. Costumava raspar com as unhas o fundo das panelas, assim retirava os restos de alimentos grudados ao fundo. Suas vasilhas eram limpas só por dentro, pois a fuligem do fogo tisnava toda a orla das panelas, sendo desnecessário lavá-las. Assim ela sentenciava.
Outra particularidade de dona Oride residia na preparação de pães. Sobre uma mesa que nunca viu água ela sovava a massa com uma mão de pilão. A peça ficava no fundo do alpendre, sobre um balcão exposto, no qual caminhavam sagüis, passarinhos e todo tipo de traça. Antes de usá-la, ela alisava e a poeira desaparecia. Estava limpa. Dona Oride dizia “o que não mata, engorda”. Quando ela usava novamente a mão de pilão, os bichos já haviam saboreado o resto de massa que se grudara ali. Bastava alisar a mão de pilão e ficava limpa para novo uso. Suas mãos funcionavam como esponja de limpeza para tudo, bastava alisar.
Seus pães tinham tempero diferente. O suor do rosto se associava às pitadas de sal da receita, descendo aos cântaros devido ao calor do fogão sempre aceso, enquanto ela sovava a massa. Técnica semelhante ela usava no preparo de bolos. O avental substituía água. Toda vez que sujava as mãos com massa de bolo, pão ou ovos, recorria ao avental e até mesmo ao lenço da cabeça. Tudo secava no próprio corpo e findava se esfarelando conforme ela fazia outras demandas da casa ou do quintal. Talvez tudo isso explicasse o mimetismo de dona Oride, seja no quintal, na cozinha, na sala, no banheiro, pois ninguém a via, mas contavam que ela via todos.
O cortejo escorreu as ruas da cidade logo ao entardecer. A filha não queria que o padre encomendasse o corpo da mãe, justificando que ela nunca freqüentou igreja e não lhe ensinou fé alguma. As senhoras antigas, amigas de infância de sua mãe, imploraram que ela permitisse ao padre encomendar o corpo. Ela cedeu. A igreja lotou. Dona Oride foi sepultada às cinco e meia da tarde, sob por do sol. No campanário ouviu-se o canglor choroso do sino até a última pessoa deixar o cemitério. Na boca da noite, Rogaciana mandou uma senhora deixar um pacote com considerável quantia para a igreja.
Rogaciana havia se hospedado na casa de amigos antigos. Alegava ser alérgica a pó, mas na realidade o motivo era outro. As pessoas talvez não conheciam a casa, mas a filha, sim. No dia seguinte ao sepultamento ela amanheceu na casa da mãe. Trouxe umas senhoras locais, amigas de dona Oride. Passaram uma semana organizando o ambiente. Foi uma experiência singular. Perceberam que dona Oride não limpava a casa há muitos anos, talvez décadas. Todas as janelas foram abertas, pois a casa trazia um aspecto insalubre. As cortinas se desmanchavam ao toque. As toalhas de mesa estavam puídas, riscadas de sol. Um pó semelhante a talco se espargia ao simples contato. Era possível ver as partículas como nuvens atravessando as réstias de sol.
Havia um grande guarda-roupa no quarto. Uma pilha de presentes se amontoava, não permitia caber nem mais um lenço. Tudo fora enviado de São Paulo pela filha ao longo dos anos. Ela sequer os abriu. Sobre o móvel, se sobrepunham uma infinidade de pacotes plásticos e caixas, tocando o forro. As mulheres desceram um por um. Eram lençóis, colchas, peças de crochê, labirinto, renda e panos de prato que não tinham fim. Tudo exibia etiquetas com o preço em moeda ultrapassada, assinalando que de fato tudo aquilo estava ali há quase cinquenta anos, intacto. Muitas peças estavam puídas pelo desuso, exibindo um amarelecido nos vincos. Nunca foram desdobradas. Algumas estavam roídas por traças. Outras, se rasgavam quando desdobradas. No interior do armário havia um amontoado de roupas que jamais tocou o corpo da mãe. Dona Oride comprava tecidos e ela mesma costurava suas vestimentas numa máquina à mão. Tudo o que ganhou ao longo do tempo foi sepultado em seu roupeiro.
As gavetas da cômoda estavam cheias de sabonetes lacrados, com preços em cruzeiro, cruzeiro novo, cruzado e novo cruzado. Em igual estado se misturavam centenas de perfumes, desodorantes, shampoos, cremes. De tão velhos, perderam o cheiro. No criado-mudo uma bela caixinha de madeira se destacava. As mulheres ficaram surpresas quando abriram e ouviram uma tilintante melodia. A caixinha de música guardava anéis, correntes, pulseiras e brincos de ouro. Tudo pertencera à mãe e avó de dona Oride. Seu corpo nunca exibiu nenhuma delas. As únicas jóias que usava eram as alianças dela e do marido.
Na outra gaveta jaziam alguns álbuns antigos de fotografia. As primeiras mostravam o casamento de dona Oride. Nada lembrava a princesa estampada nos inúmeros retratos. O rosto de noventa e oito anos, permeado de rugas, sepultou uma beleza singular. Igualmente ao marido, verdadeiro príncipe, conforme comentou uma das senhoras. Um pacote recheado de velhas correspondências também estava nessa gaveta, guardando inúmeros episódios da família.
Enquanto as mulheres organizavam a casa, três homens contratados por Rogaciana, limpavam o quintal, sem imaginar que destruiam um verdadeiro bioma. Nunca se viu um espaço urbano com tanto ninho de pássaros, sagüis e de outros animais que viram extinto o seu paraíso.
A cozinha, muito espaçosa, diferenciava um pouco da tonalidade dos outros cômodos, pois o fogão a lenha tingiu de preto o teto e as paredes próximas. Era um preto envernizado.  O forno à lenha ficava sobre um grande balcão de alvenaria. Dois armários guardavam frascos e materiais diversos. As mulheres abriram as gavetas e encontraram muitos alimentos misturados a diversos produtos. Havia muita lingüiça ressequida em meio a pedras de sabão, pacotes de farinha, café, sabão em pó, frascos de tempero, especiarias, açúcar, panos de prato usados, cujo branco deu lugar a um verde lodo. As prateleiras traziam todo tipo de grãos misturados: arroz, feijão, milho, farinha, enfim não havia como entender a dinâmica que dona Oride usava para preparar pratos tão deliciosos em meio aquele ambiente incompreensível. Foram retirados muitos frascos de margarina e manteiga em uso; todos abertos e cheios de barata, aliás era o que mais se via no armário, ao lado de fezes desse inseto e até mesmo de ratos. De vez em quando um gabiru saltitava, assustando alguém. Foi preciso chamar os homens que limpavam o quintal, pois as mulheres se assustavam a cada vez que mexiam em algo e espantavam os bichos.
Sobre a bancada haviam latas grandes, cheias de banha de porco, onde ela mantinha a carne pré-cozida. Todas traziam a orla mofada. Outras traziam baratinhas mortas. Numa das gavetas havia pedaços antigos de carne de sol. Pareciam esquecidos. Lembravam pedras secas. Tinha muitos queijos inteiros e pedaços espalhados pela cozinha, duros feito cepos. Todos roídos por traças. Sobre o fogão jazia a última refeição que dona Oride preparou. Uma panela trazia um guisado de carne. Outra, feijão e a última, jerimum cozido. O cheiro de azedo se apresentava, misturado a outros cheiros indescritíveis. Rogaciana ameaçou vomitar diversas vezes. Num dado momento pediu que as mulheres deixassem tudo aquilo intacto, pois ela mandaria atear fogo no quintal ou enterrá-lo. As mulheres discordaram, pois os móveis eram belos e de madeira de lei. Valia a pena restaurá-los. Os cantos da cozinha estavam repletos de cascas de ovos, legumes, limão, laranja e restos secos de alimento. Havia muitos alimentos intactos em seus pacotes e recipientes. Alguns vencidos há muitos anos.
Quando a geladeira foi aberta exalou um cheiro de lodo e algo podre. Era um eletrodoméstico muito antigo, embora funcionasse com perfeição. Assim que puxaram a alavanca da porta, se assustaram. As paredes internas estavam revestidas de lodo escuro, permeado por camadas verdes. Havia muitas verduras, legumes e frutas em perfeito estado, misturados com outros produtos estragados. O congelador guardava muita carne. Era a única parte que não trazia lodo devido ao gelo, mas havia muito sangue congelado, cujos filetes escorriam pelas paredes. A gaveta estava cheia de verduras se desmanchando junto às vasilhas cheias de produtos indecifráveis. Tudo estragado e mofado.
Ao longo da limpeza Rogaciana assustou-se com a dimensão do esdrúxulo lixo, e mandou os homens cavar um buraco no quintal para sepultar para sempre o pesadelo. Só deixou os móveis. Assim evitou expor ainda mais a vida da mãe.
Não havia remédio algum na casa, sequer um comprimido. Dona Oride nunca sentiu uma dor na unha. Morreu de velhice. Coincidentemente nessa última visita da filha, ela modificou um pouco os hábitos. Numa de suas raras idas ao comércio, teve um infarto fulminante em plena praça. Não experimentou o desprazer de ter a vida consumida por doença. A filha tomou todas as providências, agilizando o centro pastoral da cidade para acolher ao velório. Foi a primeira vez que a cidade assistiu a um velório fora da casa da morta.
Rogaciana autorizou que as senhoras, que eram amigas da família há décadas, levassem alguns móveis e objetod da mãe. A cristaleira foi esvaziada. Nunca se viu tanta peça linda. O jogo de jantar, em porcelana, foi presente do casamento de dona Oride. Estava completo. Havia muitos copos e taças de cristal, vasos de louça e imagens sacras. Tudo herança dos avós, peças valiosas, enfim a casa era abundante em ornamentos Tudo estava revestido com a estampa da casa. Estampa velha e silenciosa. As mulheres limparam a mobília de dona Oride com esmero. Cada peça metálica foi polida, porcelanas e louças, lavadas. Os móveis receberam um banho de cera de carnaúba e nada diferiam de mobiliário novo. Todos eram de madeira de lei e estavam ali desde o casamento. Ela nunca os mudou de lugar.
A casa estava impecável.Cheirava. No mesmo dia saíram alguns carros com móveis e objetos doados por Rogaciana. A casa ficou quase vazia, exceto alguns móveis que ela reservou não se sabiam para quê. Naquela semana o padre a procurou. Veio para saber o que Rogaciana faria com a casa, já que ela era filha única e não havia parente deles na cidade. Ele pediu o imóvel, alegando que dona Oride sempre fora muito generosa com a igreja. Expôs que era uma propriedade muito valiosa, e o fato de o imóvel ficar ao lado da matriz o tornava essencial para as demandas da igreja. Com sua frieza peculiar, Rogaciana disse que estava estudando o que fazer, e que o mesmo tomaria conhecimento no momento certo.
Rogaciana passou quase um mês resolvendo demandas daquela morte. Mandou pintar a casa e fazer pequenas reformas. Deixou a cidade pela manhã. Um táxi encostou logo cedo para levá-la ao aeroporto. A cidade estava perplexa com a novidade amanhecida. A casa foi doada oficialmente para uma senhora idosa, amiga de infância de sua mãe. Rogaciana mandou instalá-la no imóvel junto a duas filhas solteironas. A viúva era muito pobre e morava numa casa de palha.
Nunca mais Rogaciana pisou naquela cidade.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

TÚMULO DE NÍSIA FLORESTA: ABANDONADO E SUFOCADO... IGREJA MATRIZ DE NOSSA SENHORA DO Ó DESCARACTERIZADA... AS AUTORIDADES PRECISAM CUIDAR DESSE E DE OUTROS PATRIMÔNIOS ENQUANTO É TEMPO.




TÚMULO DE NÍSIA FLORESTA: ABANDONADO E SUFOCADO... IGREJA MATRIZ DE NOSSA SENHORA DO Ó DESCARACTERIZADA... AS AUTORIDADES PRECISAM CUIDAR DESSE E DE OUTROS PATRIMÔNIOS ENQUANTO É TEMPO.

Hoje, talvez, ALGUMAS pessoas não entenderão o meu gesto, mas importa-me a certeza de estar no caminho certo e fazendo o papel que pertence a milhares de omissos. Não sou contra pessoas. Sou contra atos imperdoáveis que precisam ser interditados a bem da História e da Memória, e refletidos nas escolas e em todos os ambientes de Cultura. Sou contra a ignorância ditando hábitos e passando por cima da verdade e da História. Estamos diante de crimes contra patrimônios históricos de valores incalculáveis, dilapidados em nome de uma modernidade inadmissível, assistida em silêncio porque equivocados, de fato, acham bonito o gesso, o vidro, a lage cheirando a cimento, o porcelanato etc. E a história que se exploda, pois"a história fede e é feia", diriam...
 SOBRE O TÚMULO E MONUMENTO À NÍSIA FLORESTA - A julgar pelo abandono em que se encontra, e um prédio construído ao lado do túmulo e monumento à Nísia Floresta, brevemente é possível o vermos emoldurado por outras construções que impedirão totalmente sua visibilidade. Seria essa a intenção?
Ontem, apresentei denúncia escrita e verbal, conforme os registros neste post, junto ao Conselho Estadual de Cultura e também a encaminhei ao Dr. Diógenes da Cunha Lima, Presidente da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Todos estão estarrecido com essa e outra denúncia que o leitor constatará abaixo.

É intolerável e equivocado assistirmos depredações ao Patrimônio Histórico em silêncio. A sociedade, salvas raras exceções (pelo menos apenas uma professora e uma escritora entraram em contato comigo sobre isso) assiste a tudo silenciosamente. Depredar o Patrimônio Histórico não é riscá-lo ou pichá-lo. Antes fosse somente isso. Depredar é descaracterizar, substituindo um material por outro sem relação alguma com as características originais. Depredar também é abandonar, é deixar que o povo faça o que bem entender, como a sufocação que se encontra o túmulo de Nísia Floresta.
Quem percebe e se preocupa com os crimes e dilapidações feitas aos monumentos antigos e ao patrimônio histórico, DENUNCIA SEM MEDO.

Cabe às autoridades o perpétuo zelo a tais elementos, cuidando para que não sofram danos ou sejam destruídos. Diante dos altos custos de se ter que refazer um bem danificado ou destruído, muito melhor é cuidar de sua manutenção e evitar que receba qualquer interferência. Cabe às autoridade buscar apoios e parcerias em nível estadual e federal, antes, e não quando os patrimônios estiverem descaracterizados ou destruídos. Fica mais caro.

Chega a impressionar um terreno tão gigantesco como esse ao lado do túmulo de Nísia Floresta, acharem de construir um sobrado a poucos centímetros do mesmo. Está-se diante de um dos maiores monumentos da História do Brasil. Vêm turistas do mundo inteiro visitá-lo. Mas hoje mal dá para se fazer uma fotografia, pois as construções ao lado, que antes já o poluíam, hoje o sufocam.Não é correto se deixar o túmulo e o monumento chegar a tal ponto. Está quase abandonado. Não se pode permitir o estado atual de sufocamento desse importante conjunto histórico.

 As autoridades devem buscar parcerias de todas as formas, urgentemente, para adquirir a área vizinha ao túmulo e monumento, numa perspectiva que atenda a estacionamento e estrutura logística em termos turísticos. Em últimos casos pratica-se a desapropriação e indenização aos proprietários, os quais, com certeza, não se oporão à primeira proposta.
Normalmente, quando faço denúncias, o faço por minha formação educacional e exercício de minha cidadania. Não o faço por heroísmo ou como forma de “peitar” pessoas, como alguns assim o proclamam, ignorantemente. E quando essas denúncias vêm a público logo aparecem oportunistas cheios de iniciativas “anteriormente feitas” (verdadeiros fake news criados de última hora para não assumir a omissão). Mas quais autoridades locais denunciaram? Onde estão os documentos de comprovação? Os meus estão em diversos órgãos do estado e da justiça, e podem ser conferidos, inclusive minha denúncia foi publicada na Tribuna do Norte recentemente, a pedido do jornalista Woden Madruga.Não foi eu que a encaminhei. Ele leu através de um dos maiores historiadores do Estado, Professor Doutor Cláudio Galvão, aposentado da UFRN, amigo pessoal, para o qual enviei a denúncia. O que Woden fez foi pedir a minha autorização, assim como Vicente Serejo também, chocados com a situação do túmulo e da Igreja Matriz de Nossa senhora do Ó. Quem não se choca?

IGREJA MATRIZ DE NOSSA SENHORA DO Ó - Estamos diante de um fato grave. Em 2009 denunciei à Fundação José Augusto e Arquidiocese a construção de um altar e nicho na nave direita. Coisa tosca e inadmissível. Repeti a denúncia, 2014: veja o link
http://nisiaflorestaporluiscarlosfreire.blogspot.com/2014/11/igreja-matriz-de-nisia-floresta-sofre.html
Mas no caso acima foi sobre a retirada do telhado e madeiramento com AS IMAGENS DE VALOR INCALCULÁVEL TODAS EXPOSTAS, como se comprova no link acima. Após a denúncia, mandaram retirar as imagens dois dias depois, e um nisiaflorestense disse que meu texto era mentiroso, apresentando fotos com os nichos vazios. A sorte foi eu ter fotografado antes, pois eu não seria louco de manipular imagens.
Em 2019, neste ano, fiz novas denúncias, após ter ido a um enterro em Nísia Floresta, quando fiquei sem acreditar no que vi na Matriz de Nossa Senhora do Ó. Foi tudo ao contrário do que um engenheiro me alegou em 2014, quando fiz a denúncia, e o mesmo, cujo nome não me recordo, me ligou dizendo que estavam refazendo todos os projetos, cujas obras se dariam na perspectiva de restauração com total respeito às características originais da Matriz. Restou-me acreditar, portanto eu pensava que as obras se seguiram com respeito ao Patrimônio Histórico. Só fui perceber durante o enterro. Dessa última vez também fiz a denúncia junto ao Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Conselho Estadual de Cultura, Arquidiocese de Natal, Conselho Regional de Arquitetura, Centro de Documentação Eloy de Sousa, Ministério Público e IPHAN, INCLUSIVE PEDI NESSE DOCUMENTO O TOMBAMENTO DA IGREJA MATRIZ DE NOSSA SENHORA DO Ó, PARA QUE NÃO CONTINUEM ASSASSINANDO A HISTÓRIA.

A que ponto o município de Nísia Floresta está chegando. A gente espera pessoas que façam a diferença e respeitem verdadeiramente a História. Mas isso não vem ocorrendo como se deve. Em Nísia Floresta se assiste a tais barbaridades em silêncio. Muitos acham bonito o perfeccionismo do gesso, por exemplo, afinal, de fato é bonito, mas está-se tirando as características originais do prédio. Outro exemplo inacreditável: onde já se viu colocar madeira preta sobre o altar-mor de uma igreja de quase 300 anos, retirando a alvenaria branca em perfeita harmonia com toda a arquitetura sacra? Analisando racionalmente, está-se gastando altas somas para se destruir e não manter. Construções desse porte devem ser restauradas, e não descaracterizadas. Não há mais nada a se acrescentar nessa Igreja Matriz, desde 1910, quando fizeram uma das naves. Tudo daí em diante deveria ter sido apenas manter seu modelo original, conservando-o, restaurando-o. É muito simples as pessoas entenderem isso. Não há segredo.

É inacreditável olhar o teto do altar-mor da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, em Nísia Floresta e enxergar um crime contra a arquitetura barroca original. Nos meus estudos sobre o assunto, desde os tempos universitários, e posteriormente o contato com especialistas de Ouro Preto e Rio de Janeiro, aprendi que a intenção arquitetônico/sacra da Matriz de Papari foi revestir todo o altar-mor de alvura, de plenitude da cor branca, pois é ali que se encontra o Sacrário. Há intenção de se dar uma conotação celestial, de "céu", de santidade, a partir da própria arquitetura. Mas, INACREDITAVELMENTE, destruíram o estuque original, e com ele foram-se os desenhos em alto e baixo relevos, em perfeita harmonia com todos os demais elementos da Igreja Matriz. Mataram o Barroco. Mataram a História. Não desaprovo a necessidade de ter sido necessário reformar a tela que segurava a cúpula/estuque/forro. Certamente corria o risco de desabar. Mas reforma e restauração diferem e, desde que em prédio histórico, devem caminhar juntas..Mas, se carecia de restauração, que fosse refeito em respeito às características originais. Isso também é restaurar. Vejam, abaixom, a fotografia antes da descaracterização e vá até a igreja conferir a barbaridade feita. É um choque. A madeira preta matou a beleza arquitetônica do templo e da própria intenção de transmitir a plenitude celestial ao altar-mor. Veja, abaixo:

Em 2008 o reboco desse estuque desabou. Foi um estrondo na Matriz. Eu tinha fotografias e desenhei em tamanho natural todos os altos e baixos relevos, os quais foram moldados novamente em cimento pelo filho da Dona Moça (do Monte Hermínio)
 OBSERVE O CHOQUE DO BRANCO COM O PRETO, OU SEJA, A INTENÇÃO ORIGINAL DE SE CRIAR UM CÉU BRANCO DEU LUGAR A UM CÉU PRETO, SEM CONTAR OS ELEMENTOS ORIGINAIS QUE FORAM DESTRUÍDOS.

Finalizando, é deplorável. Confesso que não tenho palavras para externar minha repulsa às barbaridades que tenho visto acontecer nessa Igreja Matriz e ao Túmulo e Monumento à Nísia Floresta. O assunto é patrimônio histórico. Não estamos falando de uma casinha de palha lá no sítio do seu Pedro. É uma igreja de quase 300 anos, cujas pedras foram trazidas sob carros de boi, de Morrinhos, cuja argamassa era cal, barro e óleo de baleia. Arrancaram todo o assoalho das duas naves. Aquilo era intocável. É arquitetura de época. 
 OBSERVE MAIS DE PERTO O ABSURDO

Se precisasse de substituição da madeira, que fosse substituído por madeira. Lembro-me que tudo é madeira nobre. Madeira de lei. Não estavam estragadas. Mas suponhamos que suas pontas estivessem avariadas, que fosse cortada e se anexasse pedaços novos, da mesma madeira.  Mas colocaram laje. Onde estão essas madeiras. Estão bem guardadas. Elas são peças de valor museológico sem preço. É patrimônio do município de Nísia Floresta. O mesmo foi feito à sacristia. Isso é descaracterização pura e simples. Fica meu registro público de que jamais aceitei isso e sempre protestei. É o que posso fazer. É o que todos deviam fazer. E você, o que tem feito?
 OBSERVE COMO ERA, VEJAM A PERFEIÇÃO HARMONIOSA, CUJOS ELEMENTOS EM ALTO E BAIXO RELEVOS SE COMBINAM EM TODO O CONTEXTO...

Algumas pessoas não entendem a minha denúncia e se valem de colocações ingênuas ou equivocadas. Mas como pessoa civilizada - que estudou profundamente História da Arte, que estuda Restauração de Edificações Históricas, e tem um testemunho de 27 anos de luta em prol da defesa da história e da memória do patrimônio material e imaterial de Nísia Floresta e região - não me importo e seguirei o meu trabalho. O qual também deveria ser teu.
 APROXIME-SE E VEJA COM MAIS PERFEIÇÃO COMO ERA O ORIGINAL...
Veja, abaixo, imagens que falam por si: Como se desce de um telhado uma linha gigantesca de madeira, de quase trezentos anos, quase em perfeito estado de conservação, sem proteger o ladrilho-hidráulico? Como se destelha uma igreja de quase 300 anos, sem tirar de dentro delas imagens originais de mais de 200 anos? Só espero que essas linhas estejam muito bem guardadas, pois são peças museológicas de valor incalculável. Observe que é uma árvore inteira. Imagine seu tamanho e quantos anos ela trazia quando foi arrancada das imediações de Papari. 
Espero que todo esse madeiramento, tão valioso quando os demais tesouros internos da Matriz, estejam muito bem guardados para que possamos criar o Museu da cidade e alojar esses materiais, pois pertencem ao povo e são históricos.
Finalizo, lembrando que a igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, enquanto elemento arquitetônico e religioso, e o túmulo de Nísia Floresta, e outros elementos históricos dali, pertence ao povo. As autoridades estão de passagem mas o povo fica, portanto o povo não pode tolerar tamanho crime contra a história.