ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que passeiam levemente por essas águas. Os textos são de autoria de Luís Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. Esse parentesco ocorre pela parte da mãe do autor, Maria José Gomes Peixoto Freire, cujas informações estão no livro "Os Troncos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti. O referido livro desenrola o novelo genealógico das famílias originárias de Goianinha, município próximo, de onde originou-se a família de Nísia Floresta, e pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de crônicas, artigos, fotos poemas, etc. O autor ministra palestras e pode ser convidado através do e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com.br. Fone: 99827.8517 - É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

LENDA - A CASA DE FARINHA DA LAGOA DO BONFIM


Há muitos e muitos anos um jovem paulistano por nome Epaminondas chegou à Papari a bordo no navio Olímpia, aportando na praia de Búzios. Era descendente de primeira e segunda geração de portugueses que chegaram ao Brasil e estabeleceram-se na Vila de São Paulo. veio em busca de ouro, e inicialmente fixou-se naquelas proximidades. Aos poucos foi penetrando as matas locais, instalando-se às margens de uma bela nascente, denominada "Puxi", cujas águas piscosas e mansas eram tão convidativas que forçavam a permanência de qualquer cristão. Ali ele fez uma choupana que servia-lhe de ponto, enquanto percorria toda a região em busca do metal preciso. O local ficava no sopé de uma montanha envolta por mata fechada e dunas, próxima de uma aldeia, cujos índios se familiarizaram com ele rapidamente.
Após alguns anos de muito trabalho ele localizou uma mina de ouro numa mata chamada de "Tororomba". Os nativos ficavam admirados, percebendo o valor que Epaminondas dava às pedras retiradas do chão. Até riam, pois só valorizavam a potes de barro, cestarias e alimentos. Todo final de tarde saia um carro de boi cheio de ouro com destino à choupana onde ele dormia. Depois de retirar todo o ouro ali existente, Epaminondas ainda pensou em voltar para a Vila de São Paulo, mas os índios imploravam por sua permanência, convencendo-o. apelidando esse local de "Vale Sagrado". A insistência dos índios certamente se deu pelos fortes laços afetivos, nascidos daquela convivência. Deocleciano era muito trabalhador e agradável; transmitia tudo o que sabia. Com certeza os nativos perceberam que perderiam o seu "ouro" verdadeiro, ou seja, o grande amigo. A essa altura, Epaminondas se tornara um líder.
Ao longo desses anos Epaminondas ensinou a sua cultura e aprendeu os costumes indígenas, os quais exerciam-lhe verdadeiro encanto. Ele havia trazido de São Paulo boa quantidade de facões, foices, enxós, enxadas e outros objetos. Não demorou muito para que os índios manuseassem tais ferramentas com facilidade. Usando a mesma técnica de queima de cerâmica, ele ensinou os índios a fazer tijolos e telhas, inclusive as telhas eram moldadas nas pernas. Em pouco tempo o jovem paulista – de pele alva como louça, e olhos azuis como o céu – passou a ser chamado de "índio branco". Ele aprendeu a fazer farinha e beiju com a mesma qualidade dos nativos. Logo se tornou um exímio caçador, dominando com maestria todos os afazeres da tribo.
Havia na aldeia uma bela índia por nome Anahi, cuja tradução do tupi é "aquela que tem voz doce". Ela era filha do pajé Rudá, que significa "deus do amor". Esse nome lhe foi dado por sua admirável bondade e acolhimento a todos. Não demorou muito, Epaminondas se apaixonou por Anahi e logo veio o casamento. Em pouco tempo ele fez a melhor e maior casa da região, toda de tijolos e telhas cozidas ali mesmo, cujo empreendimento, capitaneado por ele, foi executado pelos índios, que ficaram perplexos quando viram a obra finalizada. Foi a primeira casa de alvenaria da capitania do Rio Grande do Norte. Ao lado da morada, ele construiu uma bela Casa de Farinha, movida a equipamentos muito bem torneados em madeira de lei. Ele era especialista em marcenaria náutica e colocou ali toda a sua técnica.
Epaminondas era tão acolhedor e amigável que sua Casa de Farinha se tornou referência para toda a tribo. Tudo passou a ser feito em conjunto, desde o plantio das roças de mandioca e macaxeira à colheira e fabricação de farinha, beju e goma. Foi nesse lugar que nasceu um costume que eles chamavam de "farinhada", que era o período compreendido entre a colheita da mandioca até o fabrico da farinha.

A farinhada se transformava numa festa. Os índios traziam as crianças e as deixavam próximas ao olho d'água do "Puxi" pois as águas davam no peito de um adulto e todas as crianças nadavam como peixes. Elas passavam o dia pulando nas águas e se refrescando. Enquanto isso os mais velhos descascavam mandioca, as mulheres mais jovens ralavam e os rapazes manuseavam a prensa para que o sumo – que também se chamava "manipueira" – se desprendesse, escoando para um tanque próximo. Boa parte desse líquido era usado no preparo de "cauim", bebida típica, que, depois de fermentada, se transformava em cachaça.
As mulheres também se encarregavam de preparar o alimento de todos, organizando-o num grande jirau ao lado da Casa de Farinha. Nele ficava disposta a carne moqueada de animais caçados nas florestas infindáveis ao redor da aldeia. Havia preá, onça, anta, paca, capivara, peixes e aves. Muitas frutas silvestres eram dispostas nos cestos de cipós, e todos se fartavam com o que havia de melhor naquelas florestas sem fim.
Eles também preparavam grandes quantidades de goma, pois a base da elimentação da tribo, além da farinha era o beju. Essas duas iguarias eram consumidas com carne. Outros comiam molhado no "cauim". Também havia casos de recém-nascidos rejeitarem o leite materno, necessitando de mingau feito de goma, cujas mães molhavam os dedos e colocavam cuidadosamente na boca da criança.
Todos viviam em grande harmonia e paz. Os mais velhos ensinavam os menores a dançar, construir arcos e preparar flechas com "curare", que era o sumo de uma planta usado para caçar. Eles melavam a ponta da flecha. Quando o animal era flechado, ficava rapidamente anestesiado, facilitando a captura. As mulheres viviam a confeccionar redes e esteiras.
De vez em quando a tribo realizava uma espécie de campeonato, onde havia corrida de toras. Os rapazes disputavam corrida, levando no ombro pesados rolos de coqueiros. Havia luta entre os mais fortes, vencendo quem derrubasse o adversário de bruço num espaço pré-definido. Eram muitas modalidades que às vezes se demoravam três dias.
Os anos se passaram e ele tornou-se pai de sete filhos, que também foram se casando e gerando netos. Todo o ouro trazido de Tororomba foi guardado, intacto, numa imensa caixa feita de troncos de madeira de lei, instalada num alçapão sob o soalho do quarto. Outros forasteiros começaram a chegar nas proximidades, e seu patrimônio precisava de proteção. Como a subsistência de todos era garantida pela fartura local, ele não precisava gastar seu ouro.
Certo dia a tribo ouviu um estrondo abafado. Era exatamemente sete horas da manhã. Todos ficaram assustados. De repente perceberam que um volume colossal de água explodiu das entranhas da nascente, como sum vulcão, arremessando as árvores para o alto. Em fração de segundos formou-se uma corredeira desabalada, tomando conta das partes mais baixas. Sua força partia árvores ao meio, inclusive grandes exemplares. Os coqueirais eram arrastados como gravetos. Logo o sopé do morro foi se tornando rio caudaloso, inundando grande área.
Já mais lenta, a imensidão de água foi chegando a casa de Deocleciano. A essa altura muitos índios se debandaram para as partes altas. Alguns subiram nos coqueiros, as a magnitude foi tanta que cobriu-os como se fossem grama.
No transcorrer de uma hora toda a região se transformou num mar de água doce, submergindo a aldeia e a propriedade onde ficava a Casa de Farinha. Uma vasta extensão de floresta foi tragada, impedindo de se ver sequer as copas das árvores. Do topo do morro os sobreviventes comtemplavam a imensidão de águas. Poucas horas depois os corpos dos índios foram emergindo lentamente, promovendo um cenário bizarro. A tristeza tomou conta de todos.
Ao longo do dia os sobreviventes, ainda temerosos, se espalharam pelas partes mais altas, caminhando nas matas virgens ainda mais distantes. Temiam novo fenômeno. Chegou a noite e muitos sobreviventes ficaram espalhados, cada um por si. Poucos deles conseguiram permanecer juntos diante do desespero vivido.
No outro dia se encarregaram da tarefa mais triste de suas vidas: recolher os corpos, em número de setecentos índios. Passaram-se sete dias e aos poucos os sobreviventes começaram a se reencontrar. A cada reencontro a felicidade redobrava. Todos perguntavam por Epaminondas. Ninguém dava notícia.
As águas foram se tornando cada vez mais transparentes. Eles passavam meses dando voltas pelas margens, numa procura interminável. Muitos se reencontraram depois de sete meses, pois o pavor tangeu-lhes para longe. Famílias inteiras desapareceram, outras se reencontraram, intactas. Para aumentar ainda mais a tristeza, Epaminondas nunca apareceu. O local tornou-se uma lagoa tão grande que parecia o mar. Os próprios índios deram-lhe o nome da antiga nascente: "Puxi".

Os anos continuaram se passando, novos homens brancos começaram a surgir, infiltrando-se nas aldeias. Aos poucos os índios foram sendo escravisados. Muitos deles adoeceram e morreram ainda moços; uns, de doença, outros de fome e tristeza, pois começou a faltar alimentos nas matas, e eles não gostavam da comida trazida pelos portugueses que começaram a fundar vilas por toda a região. Logo vieram os padres Capuchinhos e não gostaram do nome da lagoa, mudando-a para "Bonfim". Surgiram aldeamentos indígenas para ensinar a fé católica. Os índios não entendiam como poderiam adorar a Deus sem vê-lo, pois estavam acostumados a adorar o sol, a lua, a chuva e a terra. Muitos mergulharam numa tristeza tão grande que começaram a se suicidar. Como eram ingênuos – pensavam que, ao morrer herdariam o paraíso tão falado pelos Capuchinhos – e teriam tudo o que perderam: rios, matas, frutas, caça e pesca abundante.
Mais e mais anos se passaram. Na comunidade de "Oitizeiro", havia um pescador famoso e respeitado por suas habilidades com o mar. Contam que ele adentrava o oceano a qualquer hora e trazia os peixes que queria, pegos com uma espécie de lança de madeira pontiaguda. Nenhum nativo ousou fazer um terço de suas aventuras. Chamava-se Rubião.
Certo dia ele resolveu mergulhar na famosa lagoa do Bonfim, pois só a conhecia de ouvir falar. Era uma tarde de verão. Nessa época as águas baixavam devido à estiagem, muito embora jamais alguém ousou ir ao fundo, pois a profundidade era imensurável. Os antigos contavam que muita canoa desceu naquelas águas, sem que se conseguisse ver sequer um sinal de sua localização. O dia estava ensolarado e as águas límpidas, permitiam ver o bailar dos cardumes.
Rubião mergulhava descontraidamente, descobrindo as profundezas daquele mar de águas doces e mornas, relaxando o seu corpo, dando-lhe ainda mais confiança. Num determinado ponto ele foi se dando conta que estava numa floresta morta. O fundo da lagoa era permeado por gigantescas árvores que resistiram ao tempo. E qual foi a sua surpresa mais adiante. Haviam duas construções de alvenaria em perfeito estado de conservação. A maior parte do telhado estava intacta. Era exatamente a casa de Epaminondas e a Casa de Farinha. Nas proximidades, ele encontrou grandes fornos que usavam para queimar a cerâmica.

Rubião foi tomado de emoção. Ele sabia que árvores não podiam nascer nem crescer dentro da água. Logo entendeu que o local era berço de uma civilização antiga. E como era muito corajoso, passou a tarde inteira perquirindo cada espaço. Entrou na sala, cujos móveis, embora recobertos com uma espécie de poeira de lodo, estavam intactos. Havia uma namoradeira de jacarandá e uma cadeira de balanço. Uma linda cristaleira conservava intacta requintadas porcelanas de limoges e delicadas peças de cristal português. As grossas paredes conservavam os ganchos de rede. Logo, Rubião tomou o rumo do corredor que exibia do mesmo jeito os chapeleiros afixados às paredes. Num imenso fogão à lenha estavam as panelas de barro e outras de ferro.
Foi até o quarto e viu a cama em perfeito estado de conservação. Só não existiam – obviamente – o colchão e peças de tecido. O guarda-roupa estava no mesmo lugar, Apenas uma de suas portas havia despencado no piso de tijolinho branco, sextavado, quase totalmente recoberto de lodo. Ao lado da cama estava disposta uma espaçosa cômoda de mogno, e sobre ela um candeeiro de cobre, trazido por Epaminondas da Vila de São Paulo.
De repente algo chamou a sua atenção. Havia uma espécie de alçapão aberto no soalho. Tudo reluzia, respondendo ao sol que transpassava as águas lá do alto. O brilho era tão faiscante que parecia estrelinhas encandeando a sua visão. Ele desceu mais e deparou-se com uma ossada que, pela estatura, aparentava ser de homem. Os ossos estavam encurvados sobre um monte de ouro. Era Epaminondas que, no desespero, ainda tentou retirar algo de sua fortuna.
Rubião ficou pasmo com tamanho tesouro. Recolheu uma pequena porção e subiu. Já na sua casa revisou a peça e constatou-se tratar-se do mais puro ouro. Dias depois foi até a Capitania de Natal, vendeu o seu achado e retornou com vários alforges repletos de moedas. Na semana seguinte, retornou à lagoa do Bonfim, refez o mergulho e trouxe mais ouro, vendendo-o novamente.
Com o passar dos meses, Rubião foi se tornando um homem de posses. Construiu um casarão de elegante frontão no centro de Papari. Sob as duas laterais do portão de entrada da casa dispôs em posição de guardião dois leões esculpidos em mármore. Mandou fazer a mais bela carruagem, a qual usava para passeios locais.Toda a vizinhança começou a estranhar o fato de ele acumular bens sem ter uma fonte de renda à altura daquelas posses. A única pessoa que sabia da origem se sua fortuna era sua esposa d. Heleonora.
Toda a vila estranhava o fausto em que Rubião vivia. A curiosidade aumentava a cada dia, pois ninguém via de onde ele trazia tanto dinheiro. Apesar da alta condição financeira, ele permaneceu exercendo a função de pescador, obviamente para facilitar o contato com o seu tesouro.
Certo dia um dos moradores mais intrigados com a sua riqueza, começou a pastorá-lo. Todas as noites ele pulava o muro da casa de Rubião, colocava o ouvido nas portas e ficava de plantão. ansioso para que ele e sua mulher comentassem algo. E como nessa vida quase todos os segredos são descobertos, certa noite o casal discutiu. Num determinado momento d. Heleonora falou:
- Se eu soubesse que o ouro que vosmicê tira do fundo da lagoa do Bonfim ia torná-lo tão beberrão, eu não teria me casado com vosmicê.
E Deocleciano respondeu:
- Deixe de bobagem. Eu não tirei nem um terço do que existe na Casa de Farinha do fundo da lagoa. Não se preocupe. Se eu morrer pelo menos vosmicê fica rica.
Sem acreditar no que ouvia, o homem disparou para a casa de um seu amigo de confiança e contou-lhe a descoberta. Estava radiante. A partir de então eles passaram a seguir Rubião por todos os lugares, mas sempre em vão. Após vários dias seguindo-o, exatamente num finalzinho de tarde, viram quando ele mergulhou na lagoa do Bonfim e saiu com uma canoa cheia de ouro. Imediatamente eles mergulharam a nada conseguiram, pois nenhum homem da localidade tinha um terço da capacidade de Epaminondas na arte do mergulho em grandes profundidades.
Inconformados, foram até uma vila de Arès, atrás de um famoso mergulhador. Mentiram para ele que haviam perdido uma canoa de estimação, e que pagariam bem acaso ele conseguisse encontrá-la. Mas foi em vão. O homem não desceu nem dez metros e desistiu.
E, como infelizmente o vil metal é o causador das piores desgraças, certo dia os dois homens interessados no ouro de Epaminondas comentaram:
- Vamos pegá-lo à força. A gente o amarra e o faz trazer todo o ouro para as margens da lagoa. Quando acabar, o amarramos numa árvore próxima e fugimos. Com certeza outros pescadores o encontrarão depois.
E assim se organizaram.
Dois meses depois, Epaminondas empreendeu nova retirada de ouro. Como de costume, fazia tudo à tardinha e saia já ao pôr-do-sol. Ele já havia trazido duas sacolas de ouro, quando foi abordado pelos dois ladrões. Assustado perguntou do que se tratava, mas logo entendeu, pois reconheceu o seu vizinho. Um dos homens disse:
- Nós querem os aquilo que te fez rico.
Rubião respondeu:
- Mas tudo isso é meu. Foi eu que encontrei e não vou dar a ninguém. E vosmicês jamais conseguirão pegar, pois não têm o meu fôlego. Todo o ouro está no leito da lagoa.
Nesse momento um deles sacou um mosquete e ameaçou matá-lo:
- Ou vosmicê busca mais ouro, ou o mataremos e também a sua mulher. Se buscar todo o ouro de lá debaixo, nós o amarraremos na árvore e fugiremos. Amanhã, com certeza algum pescador o encontrará. E estaremos longe.
Rubião ficou furioso e resolveu fazer o que eles pediam. Na realidade ele pensou em planejar algo enquanto executava o traslado do ouro. Mil coisas passaram por sua mente, mas ele reconhecia que era impossível. E assim a canoa foi se enchendo a ponto de ficar quase rente com a água.
Os dois ladrões perguntaram a Rubião se ainda havia mais ouro. Ele disse que aquilo que ele já havia retirado, somado ao que estava no fundo da lagoa, não era sequer a metade.
Os ladrões ficaram eufóricos. Percebendo que uma simples pedra de ouro poderia afundá-los, mm deles disse:
- Companheiro, vosmicê vai nadando até a beira da lagoa, pega outra canos e retorna; e eu fico aqui pastorando Epaminondas. Se ele inventar de dar uma de corajoso, eu estouro os seus miolos.
Ouvindo aquilo, o outro respondeu:
- Mas eu não sei nadar. Vá vosmicê que eu fico aqui com o mosquete.
Nesse exato momento, Epaminondas pensou:
- Se os dois não sabem nadar, se estamos no meio desse mar de águas, se a canoa está rente as águas, basta virá-la com um pouco do meu peso.
E não pensou duas vezes. Agarrou-se a canoa e deu um pulo. Imediatamente ela se encheu d'água. Os dois ladrões, desesperados ainda tentaram jogar alguma parte do ouro, mas era tarde. Ela afundou, levando todo o ouro.
Mas, como nem tudo nessa vida é perfeito, antes de se afogar, um dos ladrões ainda conseguiu disparar um tiro no rosto de Rubião. E todos afundaram para sempre junto com o ouro. Nunca os seus corpos boiaram. Nunca alguém suspeitou que os três morreram naquela localidade, pois não houve pistas.
Contam, hoje, que alguns pescadores mais corajosos já viram as ruínas da Casa de Farinha e da casa de Epaminondas.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

NÍSIA FLORESTA: DE CELEIRO DE HORTIFRUTIGRANJEIROS A BERÇO DE MATO E ERVAS DANINHAS - O MUNICÍPIO MAIS RICO EM AGRICULTURA QUE SE TORNOU A TERRA DO JÁ FOI

Os 'alfarrábios' contam que no século XVI e XVII navegadores holandeses registraram ficaram admirados com as infindáveis roças de milho, inhame e macaxeira, plantadas no Vale do Capió, então Papari (hoje Nísia Floresta). A fartura era admirável. Os séculos se passaram. Vieram os homens brancos e, percebendo a riqueza de seu solo e a imensidão de suas águas, transformaram tudo por aqui num verdadeiro Mannah.
"Sr. Luís Carlos, os carros saiam daqui pela tampa, cheios de inhame, abacate, tomate, macaxeira, fruta pão, manga, banana... era uma riqueza tão grande que o senhor nunca ouvia falá em fome... todos tinham o cumê... viviam de barriga cheia... Era toda semana, um carro atrás do outro... parecia que quanto mais se plantava, mais a terra botava".
Ao longo de anos conversando com moradores antigos de Nísia Floresta, ouvindo suas histórias e memórias, uma detalhe sempre chamou a minha atenção: o fato louvável de o município ter VOCAÇÃO PARA A AGRICULTURA de forma incomparável, tendo em vista as suas terras férteis e a abundância de águas. Mas tudo isso ser ignorado. É caso para se estudar e montar uma tese. Eu já perdi as contas do número de idosos que me contavam fatos inacreditáveis de fartura existente na Nísia Floresta do passado, assim como o depoimento acima.

O Vale do Capió JÁ FOI berço de um tipo de inhame tão grande que só mesmo uma terra tão fértil seria capaz de produzir. E o fenômeno também se repetia n'outros pontos, como no Vale do Pium, de onde saiam as mais viçosas hortaliças. E tudo sem uma gota de agrotóxico. Das roças mesmo os trabalhadores colhiam e ali mesmo organizavam os caminhões. Eram plantações intermináveis, que dava gosto de ver.
Nísia Floresta JÁ FOI fonte de abastecimento da CEASA. Era referência em toda a região. Daqui saiam caminhões abarrotados, direto para Natal e até mesmo Recife. Todas as casas de farinha de São José de Mipibu, Arês e mesmo de Papari JÁ FORAM abastecidas com a mandioca de Nísia Floresta.


Eram roças lindas. Muito milho, muita laranja, mexerica, graviola, melancia. O povo não passava necessidade, pois existia uma espécie de escambo. Quem não tinha carne, trocava por verduras e legumes. Quem não tinha peixe e camarão, trocava por galinhas, porcos, farinha e assim, nessa fartura, a população vivia com auto-estima.
Os caminhões percorriam os gigantescos roçados, num vai-vem sem fim, colhendo viçosas melancias, plantadas pelos próprios moradores.
Há relatos afirmando que vários distritos nisiaflorestenses JÁ FORAM berço de extensas roças só de abacate, cuja produção de cada pé era tão fluente que bastavam quatro pés para se encher um caminhão. 
Durante toda semana saiam fretes carregados de frutas e legumes para as feiras das cidades vizinhas. O município JÁ FOI conhecido pela fertilidade de suas terras.
Quem passa hoje pelas margens de algumas rodovias e vê montanhas de milho para venda - principalmente durante o São João - não imagina que a Nísia Floresta JÁ FOI celeiro de fartas roças de milho. Ninguém caminhava mais que cem passos para comprar três  a quatro mãos de milho para alegrar a mesa junina.
Era hábito dos nativos, acondicionarem os inhames sob as sombras das árvores, aguardando os compradores, ou mesmo os próprios veículos para irem vendê-los nas cidades vizinhas.
Nísia Floresta JÁ FOI referência em produção de licores e remédios naturais feitos com ervas locais, acompanhadas por técnicos e especialistas. Oitizeiro que o diga!
Os mais velhos costumam dizer que nunca viram plantações tão bem feitas, roças tão lindas e tomates tão grandes. Uma senhora japonesa, de Pium - disse-me, em 1993, que muitas vezes os agricultores locais deixavam de repôr estrume, pois os tomates rachavam de tão grandes.
Houve um tempo em que Nísia Floresta JÁ FOI berço 70 casas de farinha. É interessante esse ponto. Devemos reconhecer que essa deliciosa iguaria é base alimentar, pois com ela se consome carne, peixe, além de se fazer bolo preto, papa etc. E da farinha vem a goma que foi o alimento dos bebês antigos de Nísia Floresta, os quais, hoje carregam os seus 90 anos nas costas.
As "farinhadas" JÁ FORAM o "acontecimento" das comunidades onde existiam casas de farinha. Muitos faziam produção "de-meia", ou seja, cada um ficava com uma parte; outros dividiam entre grupos grandes. E o hábito se repetia a cada 30 dias.
Nesse mesmo blog você encontrará um estudo que fiz sobre um antigo prefeito de Nísia Floresta "Vicente Elísio, um homem de tino". Ele era dono de alambique e atendia toda a região, haja vista a qualidade de sua cachaça. Também foi um dos maiores compradores da farinha produzida em Nísia Floresta. Ele revendia nas cidades vizinhas. Obtive tais depoimentos com o Sr. Onaldo e o Sr. Lulu, há uns 15 anos.
Numa linha já bastante diferente, o Vale do Pium JÁ FOI palco de plantações de um capim raro, de cujas raízes se retirava uma essência que era exportada para outros países, onde se fabricavam perfumes.
É isso... talvez você pergunte por quê esse texto. Ora, porque vejo Nísia Floresta caminhar para trás. É INACREDITÁVEL QUE EM PLENO SÉCULO XXI ASSISTAMOS TANTA INJUSTIÇA. São tantos programas federais de incentivo à agricultura que causa revolta ver o estado de miséria em que ela se encontra. E, confesso, mesmo que não existissem tais programas, existe uma prefeitura, cuja criatividade, cujo diferencial pode fazer história. 
Falta visão e força de vontade. Quando a gente não sabe, procura quem sabe e pede ajuda!
Há um certo tempo, recebendo a visita de uns amigos europeus, eles ficavam perplexos a cada segundo, ao andarmos por vários lugares em Nísia Floresta. E essa perplexidade é uma constante em mim. Não compreendo porque um lugar com tanta fruta - e com tanta possibilidade de se plantar extensas áreas, montar cooperativas para fabrico de polpa de frutas, sucos, doces etc, viva nesse miséria. É muita pobreza. As pessoas parecem anestesiadas. Não diria pelo álcool, mas pela miséria.
Por quê tanta estupidez? Por que tanto desprezo?
Os que já estiveram no poder ao longo de tantos anos, que não fizeram nada para levantar o moral dos nisiaflorestenses, não têm moral para aparecer em sua porta lhe pedindo votos.
Não é possível que um município que já foi uma potência na agricultura, seja hoje um lugar sem perspectiva alguma.
Eu, na qualidade de eleitor, voto em MARIZE LEITE 65, ao lado do DR. EDIVALDO, pois são nomes novos, são pessoas novas e que tem know how para bater na minha porta. Eles, sim, são dignos de bater na minha porta, pois são pessoas da minha confiança. Aliás, nem precisam bater. É por isso que peço a todas as pessoas que acreditam em mim, que me acompanham, que testemunharam e testemunham a minha trajetória de respeito ao município de Nísia Floresta. Eu jamais pediria votos para alguém se não conhecesse a sua decência, afinal sou um educador e sempre priorizei a justiça e a cidadania. Acreditemos. Vamos sepultar o passado que nos envergonha. 
Vamos usar o JÁ FOI de outra forma. Quando você assistir justiça, cidadania e civilidade no governo de MARIZE LEITE E DR. EDIVALDO, a partir de 2017, dirá assim: "Que maravilha! Ainda bem que aquele passado de tanta injustiça JÁ FOI.

JOSIAS, O ÚLTIMO NÍSIAFLORESTENSE NASCIDO, DE FATO, EM NÍSIA FLORESTA


Esse é JOSIAS DA SILVA, a última pessoa a nascer numa maternidade na cidade de Nísia Floresta, região metropolitana do Natal, no Rio Grande do Norte. Escrevendo assim, até parece esquisito, afinal nascer em maternidade é algo tão óbvio. E o quem de extraordinário em ser o último a nascer numa cidade? 
Se JOSIAS foi o último a nascer ali, significa que a cidade acabou?
Não. O que ocorre, de fato, é que no município onde ele nasceu - pasme! - não existe maternidade há quase trinta anos. O município de Josias, e de tantos outros moradores de Nísia Floresta não tem sequer um hospital. Isso é extraordinário. e MUITO! pois é inconcebível um município não fornecer esses dois serviços básicos e fundamentais à sua população.
Ontem, eu refletia com MARIZE LEITE 65, candidata a prefeita de Nísia Floresta, sobre isso. Eu lhe disse que ela perderia todo o respeito do povo se não garantisse esse serviço tão prioritário à Nísia Floresta (embora não seja a única prioridade).
O que mais intriga é que os PLANOS DE GOVERNO anteriores rezavam que o município teria esse  serviço. A promessa era proclamada de Norte a Sul, nos comícios.
Confesso que durante a eleição de 2012, mesmo sendo adversário da jovem candidata a prefeita que findou eleita - eu pensava: "por ser uma jovem oriunda das redondezas, por estar começando a vida, por já ter uma formação acadêmica etc - ela mostrará serviço, pois não aceitará manchar o seu nome".
Eu nunca disse isso a ninguém, mas confesso que pensava. Até porque eu, no lugar dela, jamais jogaria para o alto o TESOURO que ela teve em mãos.
O tesouro que me refiro é a NOBREZA DO CARGO DE CHEFE DO EXECUTIVO DE UM MUNICÍPIO. Ouro puro foi a oportunidade que ela teve, a circunstância que a envolvia, em sendo A PRIMEIRA MULHER PREFEITA DA CIDADE DE NÍSIA FLORESTA, mas sem qualquer significado, sem diferencial, pois foi uma administração envelhecida. Todas as expectativas foram por água abaixo.
E quando sabemos que se um prefeito quiser, ele transforma um município em MODELO para outro, resta-nos a revolta ao olharmos para o cenário papariense. É uma cidade parada e sem perspectiva alguma. 
É lastimável saber que a atual prefeita jogou fora a oportunidade de fazer história... história bonita, história que marcaria a sua administração, história que traria a seu povo orgulho de dizer "eu moro em Nísia Floresta". 
A atual prefeita - POR SER JOVEM -  PERDEU A RARA CHANCE DE INSPIRAR OUTROS JOVENS DIZENDO: "ACREDITEM NA JUVENTUDE. NÓS PODEMOS!"
Ontem, andando com MARIZE LEITE 65, ouvimos a revolta das pessoas. Fomos recebidos com alegria. Alguns nos acolhiam como quem recebia um ente querido da família. Mas não sou hipócrita e não posso negar que numa casa precisamos nos demorar muito para conscientizar os moradores - e até mesmo acalmá-las - pois, embora receptivos e educados, disseram; "eu não voto em ninguém, pois todos só prometem, todos enganam, todos roubam". 
Deu trabalho conscientizá-las de que elas estavam enganados, que existem, sim, pessoas honestas, que têm amor e compaixão ao próximo, sem paternalismo, e podem fazer diferente. E graças a Deus conseguimos! Saímos dali felizes. Minha mãe sempre me disse que: "a palavra é uma vara de condão". E eu sempre acredite nisso e vi mágicas do tipo. Mas, canalhas seríamos, se estivéssemos mentindo, como muitos políticos brasileiros fazem quando batem nas portas alheias. Não sei como têm coragem de enganar pessoas tão sofridas. Algumas até ingênuas.
Mas é isso, caro leitor, É DEPLORÁVEL QUE NUMA CIDADE ONDE NASCEU UMA MULHER VISIONÁRIA, QUE DEIXOU PARA O SEU POVO UM VERDADEIRO MANUAL DE CIDADANIA E CIVILIDADE - E AINDA MODERNO - SOBREVIVAM GOVERNANTES DO SÉCULO XIX.
Quando eu olho para o município de Nísia Floresta, sinto pena do atraso. Sinto vergonha da minha própria raça humana, a qual tem o desplante de oferecer ao povo tanta miséria e injustiça. E saber que igual às últimas gestões, tantos vereadores também vêm perdem suas nobres oportunidades, resta-nos chorar. 
Eu já disse a MARIZE LEITE 65, só você é capaz de mudar esse cenário. As pessoas estão lhe aguardando. Elas acreditam em você. E agora, ao lado de outra pessoa de bem - igual ao Dr. Edvaldo - é a oportunidade de termos um município com dignidade, onde a população possa dizer: "eu moro em Nísia Floresta", "eu trabalho em Nísia Floresta", "eu tenho boa saúde em Nísia Floresta", "eu tenho lazer em Nísia Floresta", "meu filho vai nascer em Nísia Floresta"...
É isso aí, JOSIAS, você, que um dia eu vi, meninote, com 11 anos, colocando os pés no Iaiá, e me olhando de baixo para cima, e que hoje me olha de igual para igual, eu vos digo: IGUAL A VOCÊ, SÃO MUITOS OS OPRIMIDOS.   DE AGORA EM DIANTE USE A SUA FORÇA, SUA CORAGEM, SUA INTELIGÊNCIA, SUA VITALIDADE PARA SE SOMAR AOS QUE ACREDITAM NUMA CIDADE MELHOR.  SÓ VOCÊS TÊM O PODER DE MUDÁ-LA.   E A HORA É ESSA! EIS A SUA PALAVRA!

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

PRÉDIO DA CAERN DA RIBEIRA - ÍCONE DO MODERNISMO NO BRASIL - ESCRITÓRIO SATURNINO DE BRITO


CAERN - 2004

LE CORBUSIER influenciou muitos arquitetos, engenheiros civis e artistas no mundo todo no início da década de 1920, sempre na dianteira dos famosos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna. E os traços dessa fase se estenderam à terra de Câmara Cascudo. Na realidade, Natal/RN não é cenário de grandes obras modernistas, até porque os exemplares sobreviventes são acanhados, descaracterizados e imprensados na cidade que cresceu rápido e não se preocupou muito com preservação de seu patrimônio. Mas, dentre poucas obras modernistas, a meu ver, uma se destaca de forma muito especial. E rara. É o octogenário PRÉDIO DA CAERN-RIBEIRA, chamado originalmente INSTITUIÇÃO DE SANEAMENTO DE NATAL. Essa construção é uma das maravilhas do modernismo brasileiro – verdadeira referência para o Brasil. Na realidade, o texto que se seguirá abaixo se baseia mais nas imagens que no próprio prédio atual, que está muito descaracterizado. Essa obra detém uma singularidade excepcional. E é admirável que há 80 anos, tenha chegado à pacata Natal uma proposta tão a frente do tempo.

Chego a imaginar o que pensaram os engenheiros, arquitetos e mesmo os peões quando viram esse templo sendo lentamente levantado, destoando de tudo o que existia aos seus redores. Consideremos também que Natal sempre teve uma arquitetura muito provinciana, que resistiu mesmo às inovações que foram aparecendo pelo Brasil, principalmente em São Paulo.
EM PLENOS OLHOS ATUAIS O PRÉDIO CONTINUA À FRENTE DO TEMPO, EXALANDO MODERNIDADE
O prédio é tão belo e visionário que permanece numa atualidade incrível, não fosse os danos sofridos. É INACREDITÁVEL QUE HOMENS PÚBLICOS – GOVERNANTES – TIVERAM A ESTUPIDEZ DE MATAR ESSE MONUMENTO RARO DO MODERNISMO NO RIO GRANDE DO NORTE, MARCO DA RUPTURA COM O CLASSICISMO.
Costumo sempre lembrar que o RN é palco de pioneirismos. A primeira feminista, abolicionista, republicana, indianista e reformadora da educação brasileira, por nome Nísia Floresta; a primeira prefeita da América Latina: Alzira Soriano; a primeira eleitora do Brasil: Celina Guimarães; a primeira fábrica da Coca Cola; os primeiros voos aéreos do mundo (que desciam na hoje Parnamirim) etc etc etc.


Para termos ideia de o quanto foi ousada a proposta do prédio da atual CAERN/RIBEIRA, basta retroceder no tempo e visualizarmos a PRIMEIRA CASA MODERNISTA DO BRASIL – A FAMOSA CASA DA RUA SANTA CRUZ, EM SÃO PAULO/SP, de autoria do arquiteto de origem russa GREGORI WARCHAVCHIK (1896–1972), projetada em 1927 e construída em 1928, é considerada a primeira obra de arquitetura moderna implantada no Brasil.
PRIMEIRA CASA MODERNISTA DO BRASIL - SÃO PAULO - 1928

PRIMEIRA CASA MODERNISTA DO BRASIL -  SÃO PAULO - 1928
PRIMEIRA CASA MODERNISTA DO BRASIL - SÃO PAULO - 1928
PRIMEIRA CASA MODERNISTA DO BRASIL - 1928 - SÃO PAULO  (FOTO ATUAL)
Neste período, São Paulo passava por um intenso processo de industrialização e urbanização, com a formação de uma burguesia sintonizada com os costumes da belle époque parisiense e a intensificação de imigração para fornecimento de mão-de-obra fabril, refletidas na criação de bairros inteiramente novos. A referida casa assustou os conservadores.

A propósito, há forte semelhança dessa casa com o prédio da CAERN/RIBEIRA. E o mais curioso é qua a obra de Natal não veio tarde, como se pode supor. Ela se concretizou 9 anos depois da casa paulista. Ou seja, em 1937. Mas, considerando a ideia de que Natal ainda era muito provinciana à época, fica evidente a vanguarda potiguar, os quais não ficaram a dever nada ao modernismo paulista. Se bem que falamos de algo mundial. O próprio WARCHAVCHIK recebeu forte influência de LE CORBUSIER. Mas também não pensemos que esse modernismo foi recebido de braços abertos. Com certeza muitos torceram os narizes, apegados à velha arquitetura.
NATAL EM 1937

Se você pegar o livro VERS UNE ARCHITECTURE, de CORBUSIER, perceberá as fortes influências dele no prédio da CAERN/RIBEIRA. O referido prédio priorizava uma maneira inovadora de ver as formas, cuja valorização da funcionalidade era o mote da coisa. Havia ansia pela valorização do conforto humano: claridade, ventilação, contato com o externo mesmo dentro do prédio (por isso a amplitude dos janelões de vidro), terraço-jardim etc. E isso assustava, pois rompia com velhas concepções góticas. Clássicas etc.
SOB LUZ NATURAL E VENTILAÇÃO DO ÓCULO (ACIMA) SUBIA-SE A ESCADARIA, ATÉ CHEGAR AO 1º ANDAR E AO TERRAÇO NO TETO
Natal, naquela época, possuía amplas áreas verdes. Logo o local escolhido para a INSTITUIÇÃO DE SANEAMENTO foi o sopé de uma duna – subida para a "cidade alta". Um descampado. Verdadeiro extra terrestre, com características funcionalistas. Mas como essa ideia chegou por aqui? Quem a construiu?A novidade daquela época no Brasil, era inovar, empregando materiais não comuns e reinventando a aplicação de outros. Assim veio o concreto armado, a estrutura aparente, as coberturas planas e grandes fachadas envidraçadas com caixilhos metálicos, valorizando a pureza dos volumes prismáticos, a supervalorização do ângulo reto e a total extinção de detalhes e "riquififes". Certamente muitos abominaram, assim como fazemos, hoje, quando vemos as incontáveis "caixas de sapato" pelas esquinas de Natal, muito embora incomparáveis.

O prédio da INSTITUIÇÃO DE SANEAMENTO DE NATAL foi obra do famoso engenheiro Saturnino de Brito, de Recife/PE, o qual recebeu influências de genialidades como GREGORI WARCHAVCHIK, LÚCIO COSTA, A. E. REIDY, OSCAR NIEMEYER e S. BERNARDES. Em 1935 Natal estava fortemente estimulada para inovar e modernizar a sua urbanização. Desse modo o governador Rafael Fernandes contratou os serviços do ESCRITÓRIO PERNAMBUCANO F. SATURNINO DE BRITO para o Plano Geral de Obras, visando construir inúmeras obras, dentre elas o citado prédio.
MODERNÍSSIMOS "VITRÔS" COM REGULAGEM DE ENTRADA DE AR  FORNECIAMAM AO AMBIENTE BELEZA, LUZ E VENTILAÇÃO

Na realidade o engenheiro SEBASTIÃO SATURNINO DE BRITO (pioneiro da Engenharia Sanitária e Ambiental no Brasil) chegou a desenhar vários prédios (conforme veremos nesse texto), como o Grande Hotel, Estação Ferroviária, Palácio do Governo, Aeroporto Secretarias, bairros residenciais etc, mas muito disso só ficou no desenho.
OBSERVE QUE O AMBIENTE ERA TOTALMENTE ILUMINADO POR LUZ NATURAL

Mas, como "tudo o que é bom dura pouco", como diz o ditado, o deus moderno da arquitetura potiguar foi mutilado pela ignorância. Sabemos que o progresso exige mudanças. As coisas vão se "modernizando", exigindo adaptações como equipamentos de ar-condicionado, louças de banheiro, distribuição de água, sistema elétrico etc. E os governos e funcionários responsáveis pelo prédio foram dilapidando-o gradualmente, matando a sua história, ignorando o que o prédio significava para o Brasil. Nem ao menos as fachadas foram respeitadas. Mudaram dentro e fora. Retiraram a belíssima escadaria que se encerrava no teto, numa espécie de mirante para desopilar a mente. Pasmem! No lugar da escada fizeram um sanitário. O óculo que permitia ventilação em todo o prédio foi tampado. As esquadrias da escada foram mudadas. O terraço também não existe mais. Na realidade, SATURNINO DE BRITO, por sua visão sanitária, priorizava ambientes que colaborassem com o conforto pleno de quem utilizasse, e a questão sanitária estava visível nos fatores acima citados.

Em 2007 tomei conhecimento que um diretor da CAERN (algo assim), numa atitude rara e louvável, tentou reconstituir o prédio tal qual a proposta de SATURNINO DE BRITO. Até contratou especialisas no assunto, mas as correntes contrárias abortaram tudo. Que pena!Onde quer que esse senhor esteja, hoje, é digno de louros, pois com certeza enxerga as coisas com civilidade. Quisera que todos os funcionários públicos tivessem tal visão. 
 PRE´DIO HISTÓRICO DA CAERN -  RIBEIRA - AO FUNDO, IGREJA DE BOM JESUS DAS DORES (COMO NÃO PODERIA SER DIFERENTE, HOJE ESTÁ MUTILADA)


A IGREJA DE BOM JESUS NÃO TEM RELAÇÃO ALGUMA COM O TEMA - FOI COLOCADA APENAS PARA SE CONSTATAR A SUA DESCARACTERIZAÇÃO

Tenham certeza que, se esse prédio tivesse recebido o olhar respeitoso das autoridades, hoje seria referência no Brasil e no mundo, palco de visitação internacional. Aliás, se assim fosse, hoje seria um memorial – ou um prédio público mesmo, mas sem mutilação.
AEROPORTO EM FORMATO DE AVIÃO -  SÓ FICOU NO PAPEL
ESTAÇÃO DA ESTRADA DE FERRO - TAMBÉM SÓ FICOU NO PAPEL
GRANDE HOTEL EM PLANTA DE 1937 - FOI UM DOS ÚNICOS QUE, AO LADO DO PRÉDIO DA COMISSÃO DE SANEAMENTO, SAIU DO PAPEL (JÁ FOI O POINT DE NATAL. POR AQUI PASSARAM GRANDES CELEBRIDADES -  E NO SEU TERRAÇO OS AMERICANOS DA PARNAMIRIM FIELD, BEBIAM CERVEJA E SE DIVERTIAM NAS TARDES DELICIOSAS E INESQUECÍVEIS DE OUTRO TEMPO.

GRANDE HOTEL, HOJE



GRANDE HOTEL, HOJE

CREIO QUE AINDA É TEMPO DE AS AUTORIDADES REPENSAREM O ASSUNTO, POIS ESSE PRÉDIO DEVE SER RECONSTITUÍDO MINUCIOSAMENTE. É TRISTE E VERGONHOSO VER ESSE PATRIMÔNIO DE VALOR INCALCULÁVEL LADEADO POR ESCOMBROS, NUMA RUA SOMBRIA, CHEIA DE LIXO, MAIS PARECENDO LOCAL MAL ASSOMBRADO.