ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que navegam levemente nessas águas. Os textos são de autoria de Luís Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. Esse parentesco ocorre pela parte das raízes da mãe do autor deste blog, Maria José Gomes Peixoto Freire, neta de Maria Clara de Magalhães Fontoura, trineta de Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, descendente do Capitão-Mor Bento Freire do Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra, dos quais descende a mãe de Nísia Floresta, Antonia Clara Freire. Essas informações são encontradas no livro "Os Troncos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti, um dos maiores genealogistas brasileiros. O referido livro pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de crônicas, artigos, fotos poemas, etc. O autor ministra palestras e pode ser convidado através do e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com.br. Fone: 99827.8517 - É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA. OBS. Só publico comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone, pois repudio anonimato.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

“HISTÓRIA DE HILTON ACIOLY – DE CURURU (CAMPO DE SANTANA) PARA O MUNDO: TRIO MARAYÁ

                                                                  Por Luis Carlos Freire - abril-2009

I – CURURU: O INÍCIO DE UM SONHO NO "JARDIM DO ÉDEN"

Trio Marayá nos primeiros anos de carreira
Todas as pessoas possuem histórias. Umas interessantes, extraordinárias, surpreendentes; outras simples e cativantes, mas com a sua devida importância. Algumas são tão dignas e gostosas de contar que jamais deveriam ficar sepultadas sob a poeira do esquecimento.
É exatamente sacudindo o pó do tempo e abrindo as páginas de um livro esquecido, que emergirá uma história que serve de exemplo para muitos. Refiro-me ao músico e compositor nisia-florestense Hilton Acioly, nascido aos 4 de outubro de 1939, no antigo povoado de Cururu, conhecido até hoje como “Campo de Santana Velha”.
O local, apesar de atualmente abandonado, devido à enchente de 1974 – cujos moradores foram removidos para a sua parte mais alta – ainda conserva as ruínas de um lugar aprazível, envolto por uma paisagem natural radiante. Matas de árvores frondosas, céspede que se perde de vista em meio às áreas cenagosas, envoltas por dunas alvas, pinceladas de arbustos, serpenteada por um rio perene, que há séculos é a fonte de sobrevivência de muitos nativos.
O segundo disco com capa bastante comunicativa
Atualmente, apesar do progresso e tanta devastação, o lugar sobrevive quase intocado, permitindo o trânsito constante de pescadores com cordas de caranguejo, trazendo as suas puçás e varas de pescar atadas às bicicletas. Ainda se vê nas imediações casas de taipa cobertas de palha, carroças em vai-e-vem, lavadeiras de roupa às margens do rio piscoso, cheio de ariranhas e camarões, gado pastando e o chilrear infinito de pássaros.
Emoldurada nesse cenário bucólico ficava casa da família Acioly, e nela um menino que precocemente começou a rabiscar os seus pensamentos, transformando-os em músicas e poesias, sem perceber que ensaiava os primeiros passos que o projetaria para um estilo de vida completamente diferente.
Essas inspirações tinham como cúmplice o imenso quintal, pipocado de árvores frutíferas, cercado por caiçara e a típica fauna doméstica: gatos, cachorros, galinhas, perus, patos, guinés e a passarada diversa voejando numa árvore e n’outra. 
Foi no meio dessa fartura tão comum às cidades interioranas que cresceu esse jovem altruísta e sonhador.
. E assim passava a vida, ou a vida passava por ali, cheia de calmaria e tranquilidade.


II – A BUSCA POR PARCEIROS QUE TAMBÉM SONHAVAM

Mas Hilton tinha sonhos, e sentia que mesmo vivendo num verdadeiro Éden, não seria feliz ali. Foi esse espírito de insatisfação que, a partir dos doze anos, deu início a uma série de peregrinações a Natal, buscando conhecer pessoas que tivessem ideais parecidos. Naquela época viajar de Cururu à Natal não era um desafio, era uma odisseia. E ele, tal qual Ulisses, peitava o que vinha à frente, e aos poucos conquistava os seus objetivos.
Foi nessas empreitadas que dos seus treze aos catorze anos, conheceu outros sonhadores como ele. Os músicos potiguares Marconi Campos e Behring Leiros e com eles foi formaram o Trio Marajá, no ano de 1954, quando Getúlio Vargas ainda estava no poder.
Hilton dominava diversos instrumentos, mas durante a formação do trio, decidiram que ele ficaria com o afoxé. Marconi ficou com o violão e Behring com o tantã. Com pouco tempo de criação o trio passou a ser o que chamavam à época a “coqueluche”, ou seja, caiu no gosto dos natalenses. 
Não sobrava um dia na semana em que eles não se exibissem em algum café, clube, bar, quintal de convidados, enfim o trio “pegou”.  Natal inteira parava para apreciá-los. Com o passar do tempo, como é comum, eles passaram a receber convites para exibições em diversas cidades vizinhas, além de outros estados.
A fama do Trio Marayá chegou a um ponto que eles passaram a ser presença constante no Teatro Alberto Maranhão, além de receberem convites para animarem festas de grandes políticos da época. Um dos seus grandes admiradores era nada mais que o genial folclorista Câmara Cascudo. Foi ele que batizou o grupo com o nome "Trio Marayá".
 Nesse interim também passaram pela formação do trio os jovens músicos Antonio Brito, Jansen Leiros e Omir Onório, todos idealistas como Hilton e muito focados nos objetivos.

III – RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO

Em 1955, o trio estreou no programa da Sociedade Artística Estudantil, na Rádio Poti. Hilton tinha apenas quinze anos. Ao longo do tempo eles foram percebendo que o repertório que priorizavam não combinava com o nome do grupo. 
Em 1956 eles participaram do congresso da União Nacional dos Estudantes, UNE, em Natal. Naquela época eles já revelavam uma técnica muito boa, e isso despertou no líder estudantil a ideia de convidá-los a ir ao Rio de Janeiro, pois os estudantes pretendiam criar um programa nos moldes do SAE. 
Ao tomar conhecimento do convite, o professor Câmara Cascudo – que prestigiou o evento e já parecia prever o futuro brilhante dos daqueles adolescentes conterrâneos – aconselhou-os a mudar o nome para Trio Marayá, numa referência a uma palmeira típica do nordeste.
 Os pais de cada integrante ficaram preocupados pela idade, mas os mesmos passaram-lhes muita confiança, e por isso receberam todo o apoio familiar. Assim que chegaram ao Rio de Janeiro, participaram de vários programas na Rádio Nacional, entre os quais, "Grande Show Brahma", "Paulo Gracindo" e “César de Alencar".
Exibiram-se em casas noturnas e foram convidados a assinar um contrato exclusivo no Restaurante "Cabeça Chata", cujo dono era Manezinho Araújo um cantor de emboladas já muito conhecido. Logo em seguida receberam convite para participarem da Rádio. 
Um cantor cearense, vendo a qualidade do trabalho do trio, convidou-os para participarem instrumentalmente da gravação de um disco dele na gravadora Copacabana. Nesse dia estava presente Luiz Vieira, o qual exibia alguns programas na rádio e tinha amplo conhecimento no meio artístico, articulado com a mídia local. 
Ele encantou-se com o trabalho dos jovens e os convidou para se apresentarem no seu programa de rádio em São Paulo, apresentando-os imediatamente à equipe da TV Tupi, hoje extinta.
Um detalhe: os jovens tinha objetivos... e atitude

IV – O TALENTO ADMIRÁVEL DE TRÊS JOVENS POTIGUARES

No programa de Luiz Vieira, na Rádio Record, interpretaram o corridinho "Maria Fulô", de Luiz Vieira e João do Vale, que depois foi gravado em LP pelo trio. Naquela época, mesmo tendo muita qualidade musical, os artistas eram submetidos a testes. 
Mas a estrela do Trio Marayá brilhava tanto que a aprovação veio logo no primeiro teste, e foram contratados pela Rádio e TV Record.
Hilton Acioly sendo entrevistado por universitários
Na Rádio Record, passaram a apresentar o programa semanal "Música e poesia com o Trio Marayá", produzido por Luiz Vieira, além de participar de outros programas da emissora. , como por exemplo, “Trio Marayá e Você”, com produção de Nilton Travesso e Eduardo Moreira.
Em pouco tempo passaram a receber tantos convites para apresentações em São Paulo e no Rio de Janeiro que mal davam conta. Tornaram-se presenças constantes nos programas "Astros do disco", de Rendal Juliano, "Sucesso Arno", de Blota Jr., e "O fino da bossa", apresentado por Elis Regina, entre outros.
Mas como nem tudo sempre eram flores foram proibidos pelo Juizado de Menores a se apresentarem em ambientes fechados, pois ainda não tinham alcançado a maioridade. Nas apresentações em boates como "A Baiuca", "Star Dust", "Nick Bar", "Boite Oásis", "African", onde costumavam se apresentar, precisaram ficar do lado de fora, na calçada, durante os intervalos.
Em 1958, gravaram pela Odeon o primeiro disco, interpretando o mambo "Patrícia", de P. Prado e A. Bourget, e o samba "O rei do samba", de Hervê Cordovil e Vicente Leporace. Foi a partir dessa época que passaram a fazer excursões em várias capitais brasileiras.
O segundo disco do grupo foi gravado em 1959, no qual cantaram as composições "Onde estará minha vida", de Segovia, Naranjo e Roman, em versão de Fred Jorge e “Meu tio”, de F. Barcellini, H. Contet e J. C. Carrière, com versão de também de Fred Jorge.

V – FAMA NA EUROPA

Foi justamente neste mesmo ano que surgiu um convite nada comum: representar o Brasil no "Festival da Juventude", em Viena, na Áustria, com tudo pago pelo referido país. O contrato rezava que eles ficariam durante dez dias em exibições, mas o encantamento dos austríacos diante das apresentações do grupo foi tamanho que acabaram ficando um ano.
A fama logo se espalhou para outros países e o grupo recebeu convite para se apresentar na mais famosa casa noturna de Barcelona, na Espanha, a boate El Cortijo. Logo em seguida apresentaram-se a convite, na Hungria, onde ocorreu um fato curioso. 
Os húngaros gostaram tanto que só deixaram o trio ir embora após gravarem um disco com músicas brasileiras, pelo selo Balaton. 
O que foi atendido de pronto. Ainda na Hungria apresentarem-se diversas vezes na televisão, e assinaram contrato para apresentarem-se com a Filarmônica de Budapeste na maioria das cidades húngaras.
Após longo período nesse país, foram novamente convidados a se apresentar na Áustria e causaram emoção ao interpretarem a “Polca de Liechtensteiner”. “Nesse país fizeram shows nas mais famosas casas de espetáculo, como “Moulin Rouge”, “Maxim’s”, “Lido”, “Baden Cassino” e Éden Bar”, lugares onde se exibiam renomados artistas internacionais daquela época.

VI – CONTRATOS COM RENOMADAS GRAVADORAS NO BRASIL E PAÍSES VIZINHOS

Em 1960, de volta ao Brasil, gravaram mais um disco pela Odeon, no qual cantaram o fox "Um telegrama", de H. G. Segura e Nadir Perez, e o samba "Prova de carinho", de Adoniran Barbosa e Hervê Cordovil.
Em 1961, foram contratados pela RCA Victor, gravando em seu primeiro disco a canção "O matador", de J. Bowers e I. Burgess e o bolero "Por pecadora", com versão de Fred Jorge. No mesmo ano gravaram o samba "Sambinha quadrado", de Marconi Campos e Hilton Acioly, e o bolero "Descansa, coração", de Arquimedes Messima.
Ainda em 1961, foram convidados a se apresentarem no Uruguai, numa excursão que abrangeu Punta Del Leste, no Cassino “Miques”, e Montevidéu, na TV Canal 4. Em seguida assinaram contrato por três meses com a TV Canal 9, da Argentina, onde participaram do programa “Festival 62”, produzido e apresentado por Paloma Black. No mesmo ano gravaram o rock balada "Nena Nenita", de Joaquin Pietro e Juvenal Fernandes e o bolero "Pede", de A. Algueró, A. Guijarro e Teixeira Filho.
      Esse envolvimento no universo da música fez com que os integrantes do grupo conhecessem e convivessem com diversos artistas do rádio e da televisão. Hilton Acioly acabou tornando-se amigo de Geraldo Vandré, autor de “Para não dizer que não falei das flores”. 
Com ele assinaria letras de diversas músicas, como “Ventania (de como um homem perdeu o seu cavalo e continuou andando”), 1967; “João e Maria”, frevo de 1967; além de “Guerrilheira”; Amor, amor; e “Plantador”, em 1968.
Em 1966, no auge da ditadura militar, aconteceu um evento cultural marcante na história da arte musical brasileira, organizado pela TV Record, com o nome de II Festival de Música Popular Brasileira. 
O evento, vigiado pelos militares, foi tenso, apesar do delírio dos expectadores. Os boinas-verdes sabiam que ali se concentravam artistas famosos e que os mesmos eram de esquerda. Ademais, a grande massa de expectadores era composta por jovens revoltados com o sistema político brasileiro.
Nesse clima participaram como instrumentistas da exibição de Jair Rodrigues, o qual concorreu com a famosa música "Disparada", de Geraldo Vandré, em parceria com Téo Barros, cujos arranjos eram de Hilton Acioly. O resultado foi brilhante, principalmente para Jair, o qual conquistou o primeiro lugar. 
A fama do Trio Marayá, decorrente da qualidade apurada do grupo, havia atraído a atenção de Jair Rodrigues, o qual vislumbrava um trabalho completo. Assim, acompanhado pelo trio, o artista sagrou-se campeão.
Essa exibição teve uma curiosidade, justamente por atrair ainda mais a atenção do júri e do público. O Trio Marayá, pela primeira vez na história da música, utilizou a “queixada de burro” como instrumento de percussão. 
A expressividade de Jair Rodrigues, carregada de gesticulação e a bela voz, somada à novidade instrumental levou as pessoas ao delírio. Isso pode ser confirmado nos arquivos ainda existentes na TV Record.
O Trio Marayá obteve façanhas que nem todo grande grupo conseguiu. Sabe-se que, dentre os sonhos de muitos instrumentistas é acompanhar ou fazer parceria com monstros da música. 
E eles foram escolhidos durante festivais internacionais a se apresentarem com nada menos que Nat King Cole, Ella Fitzgerald, Sammy Davis Jr., Rita Pavone, Sérgio Endrigo e Catherine Valente.


VII – NOVAMENTE NA EUROPA

Em 1968, foram laureados com Medalha de Ouro no Festival Internacional de Música da Bulgária, ocorrido em Sofia, onde representaram o Brasil. Na ocasião, conquistaram o primeiro lugar com a polêmica canção “Che”, de Marconi Campos e Geraldo Vandré.
 A referida composição não tinha letra e havia sido proibida pela censura no Brasil, durante o Regime Militar, pois entenderam que se tratava de uma homenagem ao guerrilheiro cubano, assassinado naquele ano e persona non grata dos militares.
 Perguntando para Hilton Acioly se era verdadeira a suposição dos militares, ele riu... A definição prefiro deixar para o leitor.
Geraldo Vandré pediu que Marconi Campos elaborasse uma letra para o referido instrumental, mas o mesmo não aceitou. Coisas da arte. 
Ele entendia que a beleza estava justamente no instrumental. Mas, para não desagradar o companheiro, fez outra música, com letra, inspirada em “Chê”.
Encerrado o festival permaneceram mais um período em Sófia, a convite de admiradores, apresentando-se em concorridos shows na capital búlgara. E dali para a França e a Itália. 
Em Paris ocorreu outro fato interessante, tal qual na Hungria. Eles só deixaram o país após gravar um disco pelo selo Barclay e em seguida participaram da revista musical "Tio samba", à convite da norte-americana Sonia Shaw, então diretora e produtora do programa juntamente com o maestro Bill Hithcock.
O trio Marayá assinou contrato com as mais respeitáveis gravadoras, como a Philips, RGE, Chantecler, Som Maior, RCA Victor Sinter e Odeon. Naquela época os discos eram de vinil, inicialmente de 45 e 78 rotações por minuto, e tinham 25 cm de comprimento. 
O selo ficava exposto, tendo em vista que a capa era vazada no meio, em ambos os lados e não trazia nenhuma informação. Sequer a foto dos artistas. Eram padronizadas normalmente em tons pastéis. 
Posteriormente gravaram compacto, que era também uma opção dos artistas. Estes também eram de um vinil flexível, diferente do anterior que poderia quebrar a qualquer descuido, mas um pouquinho maior que os CD’s atuais. 
As capas passaram a vir com imagens e tinham entre duas a quatro músicas, depois passaram a gravar LP (long-player), cuja capa tinha trinta centímetros, e por último, em CD.
Além da fama em todo o Brasil, os discos do Trio Marayá foram divulgados em outros países da Europa, como Portugal, França e Itália, e em países da América do Sul, como Chile, Argentina e Uruguai. 
Curiosamente um dos seus maiores sucessos durante um período da carreira foi "Gauchinha bem querer", de Tito Madi, onde os vocalistas potiguares interpretaram com tanta perfeição que pensavam tratar-se de artistas gaúchos. Esse perfil, inexistente atualmente, era muito apreciado na época.

VIII – PRÊMIOS QUE SÓ OS GRANDES ARTISTAS CONQUISTAVAM

O Trio Marayá recebeu diversos prêmios. Em 1958, 1960, 1961, 1962 e 1963 recebeu o Prêmio Roquette-Pinto como Melhor Conjunto Vocal. Tratava-se de uma premiação muito cobiçada pelos artistas do rádio e da televisão.
 Isso fez com que os seus integrantes se tornassem verdadeiros mitos pelas grandes capitais brasileiras. Recebeu o troféu Campeões da Popularidade da TV Tupi, no programa Ayrton Rodrigues, três discos de ouro no programa “Astros do Disco”, da TV Record, a Taça de Honra ao Mérito do programa César de Alencar, diploma de Melhor Conjunto Vocal do Festival da Música Internacional na Bulgária.
 Receberam oito troféus de Melhores da Semana, o troféu Índio de Prata, como personalidade musical de 1967, além de receber diversas medalhas de honra ao mérito como grupo vocal/instrumental.
Logo em seguida o grupo passou a receber convites para participar de filmes no cinema. Dercy Gonçalves convidou-os para acompanhá-la no filme “Uma certa Lucrécia”, onde a mesma, então protagonista, cantava.
 Logo em seguida participaram da mesma forma nos filmes “O circo chegou à cidade”, com Walter Stuart; e “Quelé do Pajeú”, com orquestração de Marconi Campos.
O trio Marayá gravou a música Alvoroço no sertão, de Raymundo Evangelista e Aldair Soares; Segredo da Meia-noite, de Francisco Anísio e Hianto de Almeida; Mandei fazer um patuá, de Norberto Martins e Raymundo Olavo; Corre-corre, de Jacira Costa; Carrapicho, de Carlos Lyra e Behring Leiros; Moinho d´água, de Edson Franca e Chico Elion; Esperando e Sambinha quadrado, de Marconi Campos e Hilton Acioli.
Em 1970 o Trio Marayá gravou em compacto simples a música de “Prá que lagoa, se eu não tenho canoa”, escrita por Hilton Acioly e com arranjos de Marconi Campos, classificada em primeiro lugar, no terceiro Festival Universitário de Música Popular Brasileira.
A primeira música gravada por Gilberto Gil, “Prá que mentir”, foi acompanhada pelo Trio Marayá.
No LP “Trio Marayá – boleros – com a participação de Renato de Oliveira e sua orquestra”, a capa do disco é ilustrada por uma fotografia da atriz norte-rio-grandense Rejane Medeiros.
Hilton Acioly participou como compositor dos LPs: 14 sucessos do 3º Festival de Música Popular Brasileira, Conjunto Flor da Terra, Canto Geral, MPB Compositores, Os Versáteis e o festival Uma mensagem em cada canção. 
Assina com outros músicos letras como “Acertando o passo”, “Chama”, “Uma cidade”, “Dor de separar”, “Esperando”, “Esse mar vai dar na Bahia”, “Eu sou a América”, “Guerrilheira”, “João e Maria”, “Meu sertão (eu vou voltar)”, “Nosso lar”, “O plantador”, “Regresso”, “Sambinha quadrado”, “Se as flores falassem...” e “Ventania”.
Como instrumentista, o músico participou da gravação da música Companheira, de Geraldo Vandré, no LP Momento Universitário II. 
Suas músicas, além de terem sido gravadas pelo trio ao qual ele foi um dos três fundadores e fez parte durante quarenta anos, foram gravadas por Rolando Boldrin, Geraldo Vandré, Maria Odete, Neyde Fraga e os Versáteis e, por último, pelo Grupo Sombra. Em 1979 fez todos os arranjos e a regência do álbum Eterno como a areia, de Diana Pequeno.

IX – NOITES QUENTES NO “VALE DO CAPIÓ”

Hilton sempre teve uma característica aparentemente incomum aos artistas: é extremamente discreto. Em todas as suas vindas ao município nunca proclamou a sua fama, nem quis ser recebido com homenagens. 
Ele tem estado eventualmente no município, é só é notado quando flagrado por algum conhecido de infância, cuja lembrança lhe é avivada por algum parente.
Hilton Acioly sempre veio a Natal para rever os familiares e fazer shows além de gravar programas na TV Universitária-UFRN. Da capital se abalava para Nísia Floresta, pois jamais esqueceu o pedacinho de terra, em especial do Cururu que tanto o inspirou. 
As lembranças paradisíacas de sua infância certamente ficaram emolduradas na sua memória.
Apesar de o cotidiano de todos os integrantes do trio ter sido muito intenso, devido às constantes viagens, fazendo shows pelo país, eles escolheram a terra da garoa como morada definitiva, ali constituindo família.
Mas não pense que o município de Nísia Floresta nunca desfrutou dos encantos do Trio Marayá. O ex-prefeito Vicente Elízio, fã de carteirinha do trio, a ponto de possuir todos os discos do grupo àquela época, fazia-os tocar até as altas madrugadas na antiga vitrola, seja em sua casa, no centro da cidade, ou no engenho.
O ex-prefeito não tinha o perfil dessas pessoas festeiras que estão sempre promovendo eventos, mas, de maneira muito reservada, convidava eventualmente pessoas amigas e fazia uma espécie de baile no engenho. 
Ali a madrugada se tornava uma criança, embalada pelas mais belas canções da música popular brasileira. Com o agravante de deliciosos goles da “Aguardente Potiguar”, fabricada ali mesmo, inclusive vendida em toda a região.
Nessas madrugadas “paparienses”, além das canções próprias do grupo, eles também ouviam Nelson Gonçalves, Francisco Alves, Vicente Celestino, dentre boleros e outras músicas levadas pelo minuano, adiando o sono de toda a vizinhança, até o amanhecer. Mas os discos do Trio Marayá não costumava descansar.

X – OUTROS SONHOS E O RITMO DA IDADE

Além do seu fascínio pela arte, Hilton Acioly acalentava desde o Cururu, o sonho de se formar em Geografia. Como era muito jovem e tinha se afastado dos estudos devido ao cotidiano dinâmico do trio, resolveu se organizar e se preparar para encarar mais um desafio. 
Foi com esse dinamismo que revezando entre a arte e os estudos formou-se pela Universidade Federal de São Paulo (USP).
Na década de 1975 o trio foi diminuindo a intensidade dos trabalhos, até porque passaram a ter outras prioridades, voltando-se mais às famílias e ao estudo.
 Assim passaram a se apresentar em diversos festivais de música universitária na época em que o componente Behring Leirois cursava a faculdade de Direito da Universidade Mackenzie em São Paulo. 
Assim passaram a se dedicar mais à produção de trilhas sonoras para filmes, jingles e comerciais.
O amigo de décadas Marconi Campos, recém-formado em música, formou o quinteto "Sombra", em 1975, do qual faziam parte Faud Salomão, Suely Gondim Beto Carrera e Vânia Bastos. 
Em 1996, Marconi Campos juntou-se a Hilton Acioli Behring Leiros, Vera Campos, Flávio Augusto, Cintia Scola e Sandra Marina - para gravar o CD independente "Ação dos tempos", interpretando músicas nordestinas, entre as quais "Asa branca", de Luiz Gonzaga, e algumas especialmente de compositores norte-rio-grandenses, como "Moinho d'água", de Chico Elion, e "Capricho", de Carlos Lyra e Behring Leiros. Behring Leiros.
Por sua vez, trabalhou como relações-públicas na área de divulgação da Rádio e Estúdio Ômega e também enveredou pela produção de jingles.
Ao todo o grupo gravou 13 discos, entre os anos de 1956 a 1996, completando quarenta anos de atividades. Participaram como convidados em mais de trinta LP’s, inclusive juntamente com artistas como Gal Costa, Maria Bethânia e Caetano Veloso.
Mas nenhum deles parou por aí. Hilton até hoje é referência número um quando o assunto é “jingles”. O músico é o autor de um dos mais famosos jingles brasileiros, composto para a campanha política de Lula, candidato do Partido dos Trabalhadores – PT, à presidência da República.
 O CD, denominado “O som da estrela do PT” possui nove músicas, sendo que as mais famosas e conhecidas são “Lula lá” e “Sem medo de ser feliz”. Quem é que não se recorda de uma música que diz assim: “lula, lá, brilha uma estrela Lula, lá”... 
As demais músicas foram: “Uma cidade”, “Uma cidade (sinceridade e felicidade)”, “Clareia”, “Estrelas d’água”, “Eu de cá, você de lá”, “Numa canção” e “Vai lá e vê”.
Atualmente Hilton Acioly vive em São Paulo, aos 75 anos e conserva a mesma vivacidade do 'menino do Cururu'. 
É reconhecido por inúmeros artistas nacionais. Ele ainda compõe jingles e músicas para propagandas televisivas e também é professor. Isso mostra a sua garra e o espírito elevado de um homem especial, o qual não permite que a idade diminua a sua capacidade criativa e a vontade de trabalhar.
Com toda a certeza, se Hilton Acioly tivesse ficado no Cururu a história da música popular brasileira não teria uma página tão significativa.
Essa é a história de um nisia-florestense quase totalmente desconhecido em sua própria terra, mas que em tempos anteriores abalou a música no Brasil e no mundo. Ele acreditou que sonhos podem se transformar em realidade.
Ele nasceu em meio à fartura. Não conheceu, como muitos nordestinos,  as agruras diversas da vida. 
Podia ter ficado e se tornado como muitos amigos de infância, os quais, já aposentados, cuidam de suas terras .Donos de uma vida pacata. Não, ele sonhou, se desprendeu do ninho e alçou voo altaneiro, e realmente fez história.
Para mim, essa é uma das histórias mais belas que já ouvi.



                                    





quarta-feira, 22 de maio de 2013

POEMAS – POESIAS – CRÔNICAS – CONTOS DE AUTORIA DE LUÍS CARLOS FREIRE
APÓLOGO


TREPADEIRA INVEJOSA


No prado verdejante imperava a solitária árvore.
Imponente, frondosa, exibindo-se por excelência e despretensiosa.
Seus galhos, robustos, sustentavam milhares de folhas e vergontas que resplandeciam luzidias, como que esmaltadas pelo deus da natureza.
Seu tronco, majestoso, ostentava sulcos desconformes, parecendo veias gigantescas rasgando o solo... verdadeiro alicerce do imenso vegetal.
A bela espécie, generosa, gabava-se da sua servidão.
Quantas vezes ofertava o frescor de sua sombra a homens e bichos.
Suas cascas emprestavam moradia a vermes, formigas, lagartos e toda sorte de insetos, num trânsito incontinenti e confuso, do troco a copa.
O cimo assistia diariamente o entrudo da passarada, o balançar das casas de abelha proporcionado por incautos macacos.
O vento farfalhava aquela micro-floresta, num vai-e-vem irregular... Ora ríspido...Ora manso e quase imóvel.
Incontáveis ramalhetes de uma flor amarela, almiscarada, pareciam querer chegar ao céu para ser colhidas por mãos divinas.
Sua essência exalava pelo derredor, roubada pelos ares, perfumando o mágico panorama.
Abelhas, vespas, formigas e beija-flores regalavam-se naquele banquete de néctar...
Era assim... nesse ritmo que vivia aquele monumento natural.
Certo dia percebeu que em seu tronco despontou uma planta rasteira com inúmeras vergontas.
Os dias foram se passando e a singular árvore percebeu tratar-se de uma trepadeira, a qual, desautorizada e atrevida, escalava seu caule.
Uma sensação desconfortável apossou-se do enorme vegetal, o qual, incólume, assistia um emaranhado de cipós revestindo seu corpo, sufocando-a como fazem as sucuris às suas presas.
Em poucos dias aquele câncer em forma de veias deslizou desenfreadamente, trilhando galhos, folhas e flores, cobrindo-os sem piedade.
A árvore, inconformada, quebrou o silêncio e bradou:
- O que fazes comigo?
- Ora! – respondeu a trepadeira – estou em busca de luz, afinal é do sol que tiro grande parte do meu sustento.
- Mas para isso precisa subir em alguém?
- Bem sabes que não tenho rigidez necessária para manter-me ereta como você. Necessito de suportes. Sois robusta e forte, tens meios de garantir minha sustentabilidade.
- E por acaso vos ofereço ajuda?
- Não! Mas eu apenas aguardei oportunidade.
- Sois traiçoeira como serpente – disse a árvore – é por isso que teus cipós se parecem com ela. Não seria melhor se vivesses no chão, já que sois fraca de espírito e físico?
- Como sois bobinha, dona árvore! Se tenho em quem subir, por que haveria de ficar sempre em baixo, rastejando-me? Achas que eu preferiria ser pisoteada por animais e homens? Ademais estaria sendo alvo de urina, fezes e cuspe.
- Sois oportunista!
- Que nada. Sou esperta. Isso sim!
- É fácil ser esperta com o suor alheio. Na realidade sois desprezível.
- Cala-te! Veja que já é noite. Olhe como a lua está linda. Veja quantas estrelas no céu!
- Como posso enxergá-los se já me cobres quase completamente.
- Não sejas faladeira, cara árvore. Já apreciaste tanta beleza daqui de cima. Que delícia é o orvalho e a brisa nessas alturas.
- Já não sei mais o que é isto, pois tolheste esse direito natural. Tuas folhagens me fazem definhar.
- É a lei do mais forte. Não é assim que dizem?
- Forte?! Chamas isso de forte? A mim parece fraqueza. Como pode alguém pensar que o mal possa ser forte?
- Lá vens com o teu filosofar!
E estavam nesse diálogo quando começou a brotar da trepadeira incontáveis flores vermelhas, opacas, sem beleza e com cheiro horripilante, a qual já cobria completamente a árvore. O infeliz vegetal já não possuía mais folhas e sim um emaranhado de galhos retorcidos e esmagados pelo peso da hospedeira. Até os bichos a abandonaram, enojados do cheiro nauseabundo.
- Dona árvore, veja como são lindas as minhas folhas e flores – insultou a trepadeira.
- É fácil ser bonita dessa forma. Existe muitos por aí iguais a você! Por favor, já conseguiste o que queria. Agora deixa-me em paz, não percebes que estas me sufocando? Deixa-me produzir minhas flores. Por que não procuraste uma cerca ou árvore morta?
- Ora! Achas que eu iria deixar-te em paz com tua exuberância? Antes ninguém olhava para mim. Nem minhas folhas eram vistas. Veja agora como estou imponente e visível. Cansei de vê-la esplendorosa, imponente, sendo elogiada por todos. Eras o centro das atenções.
- Tu é quem dizes! Se isso ocorria eu não usava para fins de promoção. Mas saiba que todos possuem valores, mas nem todos possuem talento. Nunca busquei exibir-me, simplesmente fui o que sou, mas contigo foi o contrário. És hoje o que nunca conseguiste – por teu próprio suor – ser. Chegaste ao topo por vias torpes. Isso é o que chamas de troféu?! Agora, mas uma vez te imploro: deixa-me ver a luz do céu. Deixa-me ver as estrelas. Deixa-me ver os pássaros. Deixa-me sentir o vento...
- Ora, deixa de bobagem. Agora o único astro aqui sou eu. Eu sou a estrela!
- Reconheça, senhora trepadeira, que o sol nasceu para todos. Olhe para o céu. Veja a infinidade de estrelas. Todas brilham e ninguém rouba o brilho da outra...
- Isso é lá no céu. Aqui é a Terra e hoje eu sou o poder!
- Ainda bem que tu mesmo é quem diz. Mas que poder é esse? Poder?!
- Claro!
- Sois dissimulada e execrável. Bem disse alguém que, se quiseres conhecer outrem, dê-lhe o poder. Ontem mesmo eras tapete. Hoje andas sobre ele. Toma cuidado. Já te disseram que quanto mais alto é o posto, mais forte é a queda? Saiba que grandes impérios ruíram.
- Sois ingênua com essas falácias. Não vês que hoje não sois nada.
- Ingênua? Pelo que vejo não compreendes a vida. Para mim sois uma infeliz que pensa ser alguém. Como podes ser alguém prejudicando os outros? Para mim não passas de uma trepadeira invejosa.
E estavam ainda nesse colóquio quando chegou o dono das terras e ordenou ao capataz:
- Corte todo esse cipó, mas tenha o máximo de cuidado para não ferir a árvore. Há três meses que não vejo a beleza da sua copa nem sinto o delicioso perfume de suas flores!
Em trinta minutos os destroços estavam no chão...
Dois meses depois a àrvore retomou sua forma original

TEMPO E SILÊNCIO

Um jovem perguntou a um velho:
- Onde posso encontrar um sábio que possa responder-me incontáveis indagações que não encontro respostas? Já percorri todos os lugares e perguntei em vão.
O velho respondeu:
-Diga-me o que tanto o intriga.
O menino disse:
- Quero saber qual a verdadeira igreja. Como posso saber se uma pessoa fala a verdade ou se mente? Como posso identificar a índole de uma pessoa? Como posso saber se alguém quer me prejudicar? Qual o melhor time? Qual o melhor partido?
O velho, fitando-o respondeu-lhe:
- Suas perguntas apenas perecem complexas, mas as respostas são simples demais!
O menino, demonstrando perplexidade, indagou:
- O senhor é um sábio?
- Não! De forma alguma. O sábio que você procura chama-se tempo e silêncio. Saiba, meu jovem, que todas as suas indagações só lhe serão respondidas pelo tempo... e pelo silêncio.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

ENTORPECENTES NA ESCOLA YAYÁ PAIVA - QUAIS SÃO OS VERDADEIROS ENTORPECIDOS ?


ESCOLA MUNICIPAL YAYÁ PAIVA – DA INGENUIDADE AO ENTORPECENTE

Logo após a notícia da apreensão de estudantes portando entorpecentes nas dependências da Escola Municipal Yayá Paiva, uma ex-aluna, atualmente mãe e dona de casa, falou comigo via facebook e, nostalgicamente, relembrou dos tempos em que fui professor e diretor. Reconheço que não tenho e nem pretendo ter relação alguma com a referida instituição no aspecto profissional, mas, na condição de ex-diretor, julgo-me no direito de emitir a minha opinião.
A história das drogas nas escolas brasileiras e mundiais é antiga. Quando fui estudante conhecia apenas nos livros e de ouvir falar. Era algo pavoroso e evitado até mesmo de se comentar. Lembro-me quando uma professora pediu que lêssemos o livro “O Estudante”, de Adelaide Carraro. História real. Eu tinha treze anos. Idade atual do meu filho. O livro conta a história de um garoto brilhante – verdadeiro gênio – iniciado nas drogas dentro da escola, por traficantes. Ele consegue destruir a família, a ponto de o próprio pai matá-lo por legítima defesa. Fiquei impressionado e até hoje a história me causa desconforto. Até comprei esse livro para Fídias.
Nos dias atuais isso inacreditavelmente tornou-se comum, mas em 1980 assustava tanto quanto as lendas urbanas.
Muitos ex-alunos e ex-alunas da EMYP, independente desse episódio do entorpecente, sempre entram em contato comigo, cheios de saudades de episódios vividos na rotina educacional-cultural da escola. A impressão que tenho é que eles acham que tive uma fórmula mágica de educar, ou possuía a varinha de condão.
Enganam-se! Não existe mágica na dinâmica escolar, nem o que impeça os problemas interligados à evolução positiva de uma sociedade. Na realidade, o que tive foi apenas seriedade, responsabilidade, amor e doação ao que fiz. Nada mais! E isso qualquer um pode ter.
Mas não pensem que tudo eram flores. Na minha época a maconha tentou entrar ali de fininho. Não foi fácil. Fiz marcação cerrada, pois é algo muito delicado. Sempre tive um olhar muito guiado para o assunto da droga, pois sempre a temi de forma incomum.
Lembro-me de um rapaz de São José de Mipibu que fazia uso desse produto e namorava uma jovem estudante. Ele lutou para que eu o aceitasse como aluno e precisei lutar para fazer o contrário. Eu já o observava há tempo, fora da escola, inclusive o seu comportamento era deplorável. A aluna criava diariamente situações para sair e se encontrar com ele.
Pessoas sabedoras de sua fama – temerosas – vinham me avisar. Os pais da aluna me imploravam para que eu resolvesse aquilo.  Fui metódico e trabalhei aquela situação até dirimi-la. Tarefa difícil e cansativa. Esse rapaz, por incrível que pareça, tornou-se evangélico, casou-se com a referida garota e mora nesse município. É incrível, mas até mesmo os problemas com droga naquela época eram diferentes.
Escola é lugar de conflito (o bom conflito), pois nela flui a inteligência, mas quando se entra na alçada da criminalidade, da violência e da indisciplina deve ser exterminado logo no início.
Os problemas das escolas no passado atendiam às evoluções sócio-educacionais-culturais e econômicas daquela época. Antigamente os problemas se resumiam a alunos que agiam com indisciplina, de certo modo ingênua, como criar desculpas para ir para casa assistir jogo ou ver o último capítulo da novela. Casos mais graves eram os que tentavam “gazear” aula para ir para São José, outros tentavam fumar cigarros comuns, bebiam cerveja na rodoviária e tentavam entrar para assistir aula, dentre outras atitudes análogas.
O que faz a diferença é a observação contínua. É a direção e equipe escolar sempre presente e educadamente resolvendo antes que se agrave. Tal método, fácil e tranquilo, é solução para qualquer problema. E para todas as ações arbitrárias deve haver medidas corretivas de acordo com o Regimento Interno. Por mais aparentemente simples que fosse, nada passava despercebido aos meus olhos. Tudo era documentado e levado ao conhecimento dos pais.
Hoje, além dos problemas acima, as escolas brasileiras têm outros. Além das drogas até mesmo as motivações que convergem para a indisciplina mudaram. O celular usado de forma irresponsável dentro da escola é problema sério. É celular tocando e desconcentrando o professor, aluno usando o fone de ouvido quando o professor fala, ligando para o outro ou mandando mensagem dentro da própria sala, exibindo vídeos pornográficos para outros colegas. É aluno armado dentro da escola. É aluno que não teve um bom berço e age com violência com o professor, enfim são muitas atitudes diferentes das mais antigas. Mas nada se compara ao tráfico de entorpecente dentro da escola.
As drogas ilícitas adquiriram uma dimensão avassaladora e os traficantes fazem marcação cerrada, como se dissessem “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”. Como se dissessem: “um dia a escola têm que ceder”.
Recordo-me que, de todo o meu período como diretor, uma única vez fui insultado por um aluno, o qual disse que eu “fosse tomar no cu”. Ele já havia criado uma série de problemas com professores. O fato foi presenciado por outras pessoas. Documentei tudo e viabilizei a sua transferência, através de um primo meu que também era diretor em São José de Mipibu (Tamires Peixoto – in memorian).
Lembro-me que veio pai, mãe, gente que hoje está na política. Todos pediam que eu repensasse a decisão, mas não cedi. Ele precisava responder por sua atitude. Se eu cedesse estaria abrindo precedente.
Esse aluno tornou-se um jovem comum, é trabalhador e tem grande respeito por mim. Até hoje, quando me vê, relembra o episódio, se penitencia e pede desculpa. Certamente não teria sido assim se eu tivesse cedido.
Quando fui diretor servi-me de um costume que aprendi em casa. Diante dos problemas, chamava o aluno para a diretoria, fechava a porta e conversava longa e brandamente com o mesmo, fosse quem fosse. Olho no olho. Às vezes alguns chegavam profundamente alterados, mas a palavra mansa e respeitosa desarmava (e desarma) qualquer pessoa alterada (exceto drogada).
Muitas vezes até mesmo a ausência da palavra resolvia. Um simples gesto convidativo para que se sentasse já começava a “jogar água na fogueira”. Na maioria das situações eu era monossilábico. Só ouvia. Deixava o aluno falar até se cansar, pois assim podia captar as entrelinhas e a aura da situação (ali estava a verdade). A partir dali eu sabia o que o aluno devia escutar. Interessante era constatar que grande parte dos problemas que explodiam na escola tinha raiz externa. E motivações múltiplas.
Outra coisa que nunca admiti foi fazer vista grossa para aluno indisciplinado por ser filho ou protegido de algum político, fosse branco, preto, católico, evangélico, “rico” ou pobre.
Nos eventos culturais da escola eu pedia ajuda daqueles que eram marginalizados por alguma razão, principalmente por terem fama de gatunos, despudorados, maconheiros e algo semelhante. Eu me acercava desses alunos exatamente para poder – através da palavra – e de forma natural, reeducá-los.
Nas festas escolares eram eles e elas que me ajudavam. Passavam o dia inteiro no batente. Eu pedia que as funcionárias preparassem almoço farto, com refrigerante e suco. E eles comiam comigo e com os funcionários. Nunca tive problema com esses alunos, os quais, no fundo, eram revoltados com as injustiças sociais. Em nenhum momento eu lhes “dava liberdade em excesso” como alguns insinuavam, pois sempre construí com eles a ideia de espaço, e sempre os tratei com muito respeito e atenção.
Um diferencial muito grande é a presença constante da direção dentro da escola.
Maria Joana, auxiliar de serviços gerais à ocasião, é testemunha. Eu chegava diariamente às seis da manhã, passava o dia na escola. Tomava café, e almoçava ali. Só não jantava. Saia no encerramento do último expediente.
Não era fácil, mas eu entendia que devia ser daquele jeito. Meu pai sempre disse que a gente deve se dedicar totalmente ao que faz.
Tive um trunfo no período que ali passei como diretor. Não diria que foi o maior, mas foi muito importante: a HORA CÍVICA. Durante um dia aleatório de cada semana os alunos dos três turnos se reuniam na quadra para ouvir mensagem, avisos, cantar os hino nacional e os demais hinos nas ocasiões pertinentes. Esse momento a escola aproveitava para transmitir-lhes reflexões importantes, sempre se baseando nos acontecimentos nacionais ou locais. Desse modo ficava uma marca muito positiva no coração dos alunos, pois eles se sentiam respeitados. Era a escola conversando com eles.
Nos eventos lúdicos da escola – inúmeros – por mais simples, não aconteciam meramente para recordar datas, mas para se fazer releituras de valores e significados atrelados àquela comemoração. Foi um tempo de muito nativismo, exaltação de valores morais, cívicos e éticos, busca na qualidade da educação, e cuidado constante com a disciplina. Não posso negar que é algo cansativo e desgastante, mas é essa a tarefa de um diretor.
Por estarmos num mundo tão individualista e cheio de apelações, algumas pessoas ironizavam tais métodos, entendendo-os como conservadores. Mas se a escola não for construtora de valores que só a ela compete, quem o será? A escola tem o seu papel, assim como pais têm os deles!
Quando fui diretor em Parnamirim, encontrei uma realidade que só vendo para crer, no turno vespertino. Para se ter ideia, em um ano a instituição teve quatro diretoras. Uma delas entrou em depressão diante do quadro caótico e das ameaças que recebia de alunos integrantes de gangue.
As drogas haviam entrado na escola na semana que a assumi. Houve caso de um aluno portando arma. Outros levavam armas brancas, ameaçavam professores. A polícia fazia batida quase diariamente na instituição. Vândalos de alguns bairros vinham para as imediações da escola nos finais de tarde para bagunçar. Ninguém se entendia nas salas de aula. A maioria dos alunos não ouvia os professores devido à bagunça. Brigas aconteciam quase diariamente. Os raros eventos lúdicos da escola aconteciam de forma desconfortável, pois os alunos não prestavam atenção. Era uma indisciplina assustadora. Um dia uma bomba-bujão explodiu numa sala. Foi horrível.
Empreendi uma batalha sistemática. Convoquei pais, alunos e funcionários, expus a situação e perguntei a todos qual era a escola que eles queriam, e o que eles poderiam fazer para que a escola fosse a escola que eles queriam.  Foi um ano inteiro de trabalho rigoroso e medidas sérias. Investi-se muito em cultura, criou-se a HORA CÍVICA (tal qual a da Escola Municipal Yayá Paiva), projetos de leitura, de reciclagem etc. Tudo com o envolvimento de professores, pais e autoridades. Bem parecido com os métodos acima comentados.
Aos poucos a poeira foi baixando e a escola se tornou aquela que todos disseram ser a que queriam. Óbvio que ainda com algum problema aqui, outro ali, afinal onde é que eles não existem? Mas longe de ser provenientes de indisciplina, de droga e de violência. Passamos a ter a paz necessária para que a educação, o conhecimento e a cultura acontecessem. Quando entreguei a escola, por livre e espontânea vontade, ela era outra.
Como disse no início, não existem fórmulas mágicas, existem ações concretas e pautadas pelo prazer naquilo que se faz. Não é fácil. De certo modo é um sacerdócio. Exige tempo e presença constante da direção, envolvimento de toda a comunidade escolar e da sociedade. E assim é possível que a escola caminhe bem em meio a essa evolução contínua.
Na realidade, essa enormidade de problemas mundiais que afetam as escolas, as igrejas, as famílias, os poderes constituídos etc. estão no ar, decorrentes de uma série de fatores. Por incrível que pareça, as escolas, as famílias, as igrejas, os poderes constituídos etc têm grande parcela de responsabilidade por esse triste quadro, pois uma parcela considerável está se omitindo – ou confundindo – o papel que só a ela pertence.
Quem é o responsável para dar educação de berço a uma criança? O professor? O juiz? O político? O conselho tutelar? O delegado? Ou o pai e a mãe?
Quem é o responsável – em primeiro lugar – para que uma escola funcione com seriedade? O seu João lá de feira? O tabelião lá do cartório? O padre que está celebrando? Ou a Direção-equipe e SMEC?
Mas, finalizando, as drogas têm uma parcela fortíssima nessa degradação assustadora. Cabem aos educadores repensarem tudo isso e agirem, cumprindo o juramento que fizeram. O que não podemos fazer é empurrar com a barriga.