ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que navegam nessas águas. Os textos são de autoria de Luís Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. O parentesco ocorre pela parte das raízes da mãe do autor deste blog, Maria José Gomes Peixoto Freire, neta de Maria Clara de Magalhães Fontoura, trineta de Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, descendente do Capitão-Mor Bento Freire do Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra, dos quais descende a mãe de Nísia Floresta, Antonia Clara Freire. Essas informações podem ser encontradas no livro "Os Troncos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti, um dos maiores genealogistas brasileiros. O referido livro pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade de nome homônimo. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de lendas, crônicas, artigos, reproduções de reportagens de interesse nacional, fotos poesias, etc. É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA. Posso enviar alguns textos por e-mail, já que é um blog protegido. OBS. Só publico comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone, pois repudio anonimato.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

“HISTÓRIA DE HILTON ACIOLY – DE CURURU (CAMPO DE SANTANA) PARA O MUNDO: TRIO MARAYÁ

                                                                  Por Luis Carlos Freire - abril-2009

I – CURURU: O INÍCIO DE UM SONHO NO "JARDIM DO ÉDEN"

Trio Marayá nos primeiros anos de carreira
Todas as pessoas possuem histórias. Umas interessantes, extraordinárias, surpreendentes; outras simples e cativantes, mas com a sua devida importância. Algumas são tão dignas e gostosas de contar que jamais deveriam ficar sepultadas sob a poeira do esquecimento.
É exatamente sacudindo o pó do tempo e abrindo as páginas de um livro esquecido, que emergirá uma história que serve de exemplo para muitos. Refiro-me ao músico e compositor nisia-florestense Hilton Acioly, nascido aos 4 de outubro de 1939, no antigo povoado de Cururu, conhecido até hoje como “Campo de Santana Velha”.
O local, apesar de atualmente abandonado, devido à enchente de 1974 – cujos moradores foram removidos para a sua parte mais alta – ainda conserva as ruínas de um lugar aprazível, envolto por uma paisagem natural radiante. Matas de árvores frondosas, céspede que se perde de vista em meio às áreas cenagosas, envoltas por dunas alvas, pinceladas de arbustos, serpenteada por um rio perene, que há séculos é a fonte de sobrevivência de muitos nativos.
O segundo disco com capa bastante comunicativa
Atualmente, apesar do progresso e tanta devastação, o lugar sobrevive quase intocado, permitindo o trânsito constante de pescadores com cordas de caranguejo, trazendo as suas puçás e varas de pescar atadas às bicicletas. Ainda se vê nas imediações casas de taipa cobertas de palha, carroças em vai-e-vem, lavadeiras de roupa às margens do rio piscoso, cheio de ariranhas e camarões, gado pastando e o chilrear infinito de pássaros.
Emoldurada nesse cenário bucólico ficava casa da família Acioly, e nela um menino que precocemente começou a rabiscar os seus pensamentos, transformando-os em músicas e poesias, sem perceber que ensaiava os primeiros passos que o projetaria para um estilo de vida completamente diferente.
Essas inspirações tinham como cúmplice o imenso quintal, pipocado de árvores frutíferas, cercado por caiçara e a típica fauna doméstica: gatos, cachorros, galinhas, perus, patos, guinés e a passarada diversa voejando numa árvore e n’outra. 
Foi no meio dessa fartura tão comum às cidades interioranas que cresceu esse jovem altruísta e sonhador.
. E assim passava a vida, ou a vida passava por ali, cheia de calmaria e tranquilidade.


II – A BUSCA POR PARCEIROS QUE TAMBÉM SONHAVAM

Mas Hilton tinha sonhos, e sentia que mesmo vivendo num verdadeiro Éden, não seria feliz ali. Foi esse espírito de insatisfação que, a partir dos doze anos, deu início a uma série de peregrinações a Natal, buscando conhecer pessoas que tivessem ideais parecidos. Naquela época viajar de Cururu à Natal não era um desafio, era uma odisseia. E ele, tal qual Ulisses, peitava o que vinha à frente, e aos poucos conquistava os seus objetivos.
Foi nessas empreitadas que dos seus treze aos catorze anos, conheceu outros sonhadores como ele. Os músicos potiguares Marconi Campos e Behring Leiros e com eles foi formaram o Trio Marajá, no ano de 1954, quando Getúlio Vargas ainda estava no poder.
Hilton dominava diversos instrumentos, mas durante a formação do trio, decidiram que ele ficaria com o afoxé. Marconi ficou com o violão e Behring com o tantã. Com pouco tempo de criação o trio passou a ser o que chamavam à época a “coqueluche”, ou seja, caiu no gosto dos natalenses. 
Não sobrava um dia na semana em que eles não se exibissem em algum café, clube, bar, quintal de convidados, enfim o trio “pegou”.  Natal inteira parava para apreciá-los. Com o passar do tempo, como é comum, eles passaram a receber convites para exibições em diversas cidades vizinhas, além de outros estados.
A fama do Trio Marayá chegou a um ponto que eles passaram a ser presença constante no Teatro Alberto Maranhão, além de receberem convites para animarem festas de grandes políticos da época. Um dos seus grandes admiradores era nada mais que o genial folclorista Câmara Cascudo. Foi ele que batizou o grupo com o nome "Trio Marayá".
 Nesse interim também passaram pela formação do trio os jovens músicos Antonio Brito, Jansen Leiros e Omir Onório, todos idealistas como Hilton e muito focados nos objetivos.

III – RIO DE JANEIRO E SÃO PAULO

Em 1955, o trio estreou no programa da Sociedade Artística Estudantil, na Rádio Poti. Hilton tinha apenas quinze anos. Ao longo do tempo eles foram percebendo que o repertório que priorizavam não combinava com o nome do grupo. 
Em 1956 eles participaram do congresso da União Nacional dos Estudantes, UNE, em Natal. Naquela época eles já revelavam uma técnica muito boa, e isso despertou no líder estudantil a ideia de convidá-los a ir ao Rio de Janeiro, pois os estudantes pretendiam criar um programa nos moldes do SAE. 
Ao tomar conhecimento do convite, o professor Câmara Cascudo – que prestigiou o evento e já parecia prever o futuro brilhante dos daqueles adolescentes conterrâneos – aconselhou-os a mudar o nome para Trio Marayá, numa referência a uma palmeira típica do nordeste.
 Os pais de cada integrante ficaram preocupados pela idade, mas os mesmos passaram-lhes muita confiança, e por isso receberam todo o apoio familiar. Assim que chegaram ao Rio de Janeiro, participaram de vários programas na Rádio Nacional, entre os quais, "Grande Show Brahma", "Paulo Gracindo" e “César de Alencar".
Exibiram-se em casas noturnas e foram convidados a assinar um contrato exclusivo no Restaurante "Cabeça Chata", cujo dono era Manezinho Araújo um cantor de emboladas já muito conhecido. Logo em seguida receberam convite para participarem da Rádio. 
Um cantor cearense, vendo a qualidade do trabalho do trio, convidou-os para participarem instrumentalmente da gravação de um disco dele na gravadora Copacabana. Nesse dia estava presente Luiz Vieira, o qual exibia alguns programas na rádio e tinha amplo conhecimento no meio artístico, articulado com a mídia local. 
Ele encantou-se com o trabalho dos jovens e os convidou para se apresentarem no seu programa de rádio em São Paulo, apresentando-os imediatamente à equipe da TV Tupi, hoje extinta.
Um detalhe: os jovens tinha objetivos... e atitude

IV – O TALENTO ADMIRÁVEL DE TRÊS JOVENS POTIGUARES

No programa de Luiz Vieira, na Rádio Record, interpretaram o corridinho "Maria Fulô", de Luiz Vieira e João do Vale, que depois foi gravado em LP pelo trio. Naquela época, mesmo tendo muita qualidade musical, os artistas eram submetidos a testes. 
Mas a estrela do Trio Marayá brilhava tanto que a aprovação veio logo no primeiro teste, e foram contratados pela Rádio e TV Record.
Hilton Acioly sendo entrevistado por universitários
Na Rádio Record, passaram a apresentar o programa semanal "Música e poesia com o Trio Marayá", produzido por Luiz Vieira, além de participar de outros programas da emissora. , como por exemplo, “Trio Marayá e Você”, com produção de Nilton Travesso e Eduardo Moreira.
Em pouco tempo passaram a receber tantos convites para apresentações em São Paulo e no Rio de Janeiro que mal davam conta. Tornaram-se presenças constantes nos programas "Astros do disco", de Rendal Juliano, "Sucesso Arno", de Blota Jr., e "O fino da bossa", apresentado por Elis Regina, entre outros.
Mas como nem tudo sempre eram flores foram proibidos pelo Juizado de Menores a se apresentarem em ambientes fechados, pois ainda não tinham alcançado a maioridade. Nas apresentações em boates como "A Baiuca", "Star Dust", "Nick Bar", "Boite Oásis", "African", onde costumavam se apresentar, precisaram ficar do lado de fora, na calçada, durante os intervalos.
Em 1958, gravaram pela Odeon o primeiro disco, interpretando o mambo "Patrícia", de P. Prado e A. Bourget, e o samba "O rei do samba", de Hervê Cordovil e Vicente Leporace. Foi a partir dessa época que passaram a fazer excursões em várias capitais brasileiras.
O segundo disco do grupo foi gravado em 1959, no qual cantaram as composições "Onde estará minha vida", de Segovia, Naranjo e Roman, em versão de Fred Jorge e “Meu tio”, de F. Barcellini, H. Contet e J. C. Carrière, com versão de também de Fred Jorge.

V – FAMA NA EUROPA

Foi justamente neste mesmo ano que surgiu um convite nada comum: representar o Brasil no "Festival da Juventude", em Viena, na Áustria, com tudo pago pelo referido país. O contrato rezava que eles ficariam durante dez dias em exibições, mas o encantamento dos austríacos diante das apresentações do grupo foi tamanho que acabaram ficando um ano.
A fama logo se espalhou para outros países e o grupo recebeu convite para se apresentar na mais famosa casa noturna de Barcelona, na Espanha, a boate El Cortijo. Logo em seguida apresentaram-se a convite, na Hungria, onde ocorreu um fato curioso. 
Os húngaros gostaram tanto que só deixaram o trio ir embora após gravarem um disco com músicas brasileiras, pelo selo Balaton. 
O que foi atendido de pronto. Ainda na Hungria apresentarem-se diversas vezes na televisão, e assinaram contrato para apresentarem-se com a Filarmônica de Budapeste na maioria das cidades húngaras.
Após longo período nesse país, foram novamente convidados a se apresentar na Áustria e causaram emoção ao interpretarem a “Polca de Liechtensteiner”. “Nesse país fizeram shows nas mais famosas casas de espetáculo, como “Moulin Rouge”, “Maxim’s”, “Lido”, “Baden Cassino” e Éden Bar”, lugares onde se exibiam renomados artistas internacionais daquela época.

VI – CONTRATOS COM RENOMADAS GRAVADORAS NO BRASIL E PAÍSES VIZINHOS

Em 1960, de volta ao Brasil, gravaram mais um disco pela Odeon, no qual cantaram o fox "Um telegrama", de H. G. Segura e Nadir Perez, e o samba "Prova de carinho", de Adoniran Barbosa e Hervê Cordovil.
Em 1961, foram contratados pela RCA Victor, gravando em seu primeiro disco a canção "O matador", de J. Bowers e I. Burgess e o bolero "Por pecadora", com versão de Fred Jorge. No mesmo ano gravaram o samba "Sambinha quadrado", de Marconi Campos e Hilton Acioly, e o bolero "Descansa, coração", de Arquimedes Messima.
Ainda em 1961, foram convidados a se apresentarem no Uruguai, numa excursão que abrangeu Punta Del Leste, no Cassino “Miques”, e Montevidéu, na TV Canal 4. Em seguida assinaram contrato por três meses com a TV Canal 9, da Argentina, onde participaram do programa “Festival 62”, produzido e apresentado por Paloma Black. No mesmo ano gravaram o rock balada "Nena Nenita", de Joaquin Pietro e Juvenal Fernandes e o bolero "Pede", de A. Algueró, A. Guijarro e Teixeira Filho.
      Esse envolvimento no universo da música fez com que os integrantes do grupo conhecessem e convivessem com diversos artistas do rádio e da televisão. Hilton Acioly acabou tornando-se amigo de Geraldo Vandré, autor de “Para não dizer que não falei das flores”. 
Com ele assinaria letras de diversas músicas, como “Ventania (de como um homem perdeu o seu cavalo e continuou andando”), 1967; “João e Maria”, frevo de 1967; além de “Guerrilheira”; Amor, amor; e “Plantador”, em 1968.
Em 1966, no auge da ditadura militar, aconteceu um evento cultural marcante na história da arte musical brasileira, organizado pela TV Record, com o nome de II Festival de Música Popular Brasileira. 
O evento, vigiado pelos militares, foi tenso, apesar do delírio dos expectadores. Os boinas-verdes sabiam que ali se concentravam artistas famosos e que os mesmos eram de esquerda. Ademais, a grande massa de expectadores era composta por jovens revoltados com o sistema político brasileiro.
Nesse clima participaram como instrumentistas da exibição de Jair Rodrigues, o qual concorreu com a famosa música "Disparada", de Geraldo Vandré, em parceria com Téo Barros, cujos arranjos eram de Hilton Acioly. O resultado foi brilhante, principalmente para Jair, o qual conquistou o primeiro lugar. 
A fama do Trio Marayá, decorrente da qualidade apurada do grupo, havia atraído a atenção de Jair Rodrigues, o qual vislumbrava um trabalho completo. Assim, acompanhado pelo trio, o artista sagrou-se campeão.
Essa exibição teve uma curiosidade, justamente por atrair ainda mais a atenção do júri e do público. O Trio Marayá, pela primeira vez na história da música, utilizou a “queixada de burro” como instrumento de percussão. 
A expressividade de Jair Rodrigues, carregada de gesticulação e a bela voz, somada à novidade instrumental levou as pessoas ao delírio. Isso pode ser confirmado nos arquivos ainda existentes na TV Record.
O Trio Marayá obteve façanhas que nem todo grande grupo conseguiu. Sabe-se que, dentre os sonhos de muitos instrumentistas é acompanhar ou fazer parceria com monstros da música. 
E eles foram escolhidos durante festivais internacionais a se apresentarem com nada menos que Nat King Cole, Ella Fitzgerald, Sammy Davis Jr., Rita Pavone, Sérgio Endrigo e Catherine Valente.


VII – NOVAMENTE NA EUROPA

Em 1968, foram laureados com Medalha de Ouro no Festival Internacional de Música da Bulgária, ocorrido em Sofia, onde representaram o Brasil. Na ocasião, conquistaram o primeiro lugar com a polêmica canção “Che”, de Marconi Campos e Geraldo Vandré.
 A referida composição não tinha letra e havia sido proibida pela censura no Brasil, durante o Regime Militar, pois entenderam que se tratava de uma homenagem ao guerrilheiro cubano, assassinado naquele ano e persona non grata dos militares.
 Perguntando para Hilton Acioly se era verdadeira a suposição dos militares, ele riu... A definição prefiro deixar para o leitor.
Geraldo Vandré pediu que Marconi Campos elaborasse uma letra para o referido instrumental, mas o mesmo não aceitou. Coisas da arte. 
Ele entendia que a beleza estava justamente no instrumental. Mas, para não desagradar o companheiro, fez outra música, com letra, inspirada em “Chê”.
Encerrado o festival permaneceram mais um período em Sófia, a convite de admiradores, apresentando-se em concorridos shows na capital búlgara. E dali para a França e a Itália. 
Em Paris ocorreu outro fato interessante, tal qual na Hungria. Eles só deixaram o país após gravar um disco pelo selo Barclay e em seguida participaram da revista musical "Tio samba", à convite da norte-americana Sonia Shaw, então diretora e produtora do programa juntamente com o maestro Bill Hithcock.
O trio Marayá assinou contrato com as mais respeitáveis gravadoras, como a Philips, RGE, Chantecler, Som Maior, RCA Victor Sinter e Odeon. Naquela época os discos eram de vinil, inicialmente de 45 e 78 rotações por minuto, e tinham 25 cm de comprimento. 
O selo ficava exposto, tendo em vista que a capa era vazada no meio, em ambos os lados e não trazia nenhuma informação. Sequer a foto dos artistas. Eram padronizadas normalmente em tons pastéis. 
Posteriormente gravaram compacto, que era também uma opção dos artistas. Estes também eram de um vinil flexível, diferente do anterior que poderia quebrar a qualquer descuido, mas um pouquinho maior que os CD’s atuais. 
As capas passaram a vir com imagens e tinham entre duas a quatro músicas, depois passaram a gravar LP (long-player), cuja capa tinha trinta centímetros, e por último, em CD.
Além da fama em todo o Brasil, os discos do Trio Marayá foram divulgados em outros países da Europa, como Portugal, França e Itália, e em países da América do Sul, como Chile, Argentina e Uruguai. 
Curiosamente um dos seus maiores sucessos durante um período da carreira foi "Gauchinha bem querer", de Tito Madi, onde os vocalistas potiguares interpretaram com tanta perfeição que pensavam tratar-se de artistas gaúchos. Esse perfil, inexistente atualmente, era muito apreciado na época.

VIII – PRÊMIOS QUE SÓ OS GRANDES ARTISTAS CONQUISTAVAM

O Trio Marayá recebeu diversos prêmios. Em 1958, 1960, 1961, 1962 e 1963 recebeu o Prêmio Roquette-Pinto como Melhor Conjunto Vocal. Tratava-se de uma premiação muito cobiçada pelos artistas do rádio e da televisão.
 Isso fez com que os seus integrantes se tornassem verdadeiros mitos pelas grandes capitais brasileiras. Recebeu o troféu Campeões da Popularidade da TV Tupi, no programa Ayrton Rodrigues, três discos de ouro no programa “Astros do Disco”, da TV Record, a Taça de Honra ao Mérito do programa César de Alencar, diploma de Melhor Conjunto Vocal do Festival da Música Internacional na Bulgária.
 Receberam oito troféus de Melhores da Semana, o troféu Índio de Prata, como personalidade musical de 1967, além de receber diversas medalhas de honra ao mérito como grupo vocal/instrumental.
Logo em seguida o grupo passou a receber convites para participar de filmes no cinema. Dercy Gonçalves convidou-os para acompanhá-la no filme “Uma certa Lucrécia”, onde a mesma, então protagonista, cantava.
 Logo em seguida participaram da mesma forma nos filmes “O circo chegou à cidade”, com Walter Stuart; e “Quelé do Pajeú”, com orquestração de Marconi Campos.
O trio Marayá gravou a música Alvoroço no sertão, de Raymundo Evangelista e Aldair Soares; Segredo da Meia-noite, de Francisco Anísio e Hianto de Almeida; Mandei fazer um patuá, de Norberto Martins e Raymundo Olavo; Corre-corre, de Jacira Costa; Carrapicho, de Carlos Lyra e Behring Leiros; Moinho d´água, de Edson Franca e Chico Elion; Esperando e Sambinha quadrado, de Marconi Campos e Hilton Acioli.
Em 1970 o Trio Marayá gravou em compacto simples a música de “Prá que lagoa, se eu não tenho canoa”, escrita por Hilton Acioly e com arranjos de Marconi Campos, classificada em primeiro lugar, no terceiro Festival Universitário de Música Popular Brasileira.
A primeira música gravada por Gilberto Gil, “Prá que mentir”, foi acompanhada pelo Trio Marayá.
No LP “Trio Marayá – boleros – com a participação de Renato de Oliveira e sua orquestra”, a capa do disco é ilustrada por uma fotografia da atriz norte-rio-grandense Rejane Medeiros.
Hilton Acioly participou como compositor dos LPs: 14 sucessos do 3º Festival de Música Popular Brasileira, Conjunto Flor da Terra, Canto Geral, MPB Compositores, Os Versáteis e o festival Uma mensagem em cada canção. 
Assina com outros músicos letras como “Acertando o passo”, “Chama”, “Uma cidade”, “Dor de separar”, “Esperando”, “Esse mar vai dar na Bahia”, “Eu sou a América”, “Guerrilheira”, “João e Maria”, “Meu sertão (eu vou voltar)”, “Nosso lar”, “O plantador”, “Regresso”, “Sambinha quadrado”, “Se as flores falassem...” e “Ventania”.
Como instrumentista, o músico participou da gravação da música Companheira, de Geraldo Vandré, no LP Momento Universitário II. 
Suas músicas, além de terem sido gravadas pelo trio ao qual ele foi um dos três fundadores e fez parte durante quarenta anos, foram gravadas por Rolando Boldrin, Geraldo Vandré, Maria Odete, Neyde Fraga e os Versáteis e, por último, pelo Grupo Sombra. Em 1979 fez todos os arranjos e a regência do álbum Eterno como a areia, de Diana Pequeno.

IX – NOITES QUENTES NO “VALE DO CAPIÓ”

Hilton sempre teve uma característica aparentemente incomum aos artistas: é extremamente discreto. Em todas as suas vindas ao município nunca proclamou a sua fama, nem quis ser recebido com homenagens. 
Ele tem estado eventualmente no município, é só é notado quando flagrado por algum conhecido de infância, cuja lembrança lhe é avivada por algum parente.
Hilton Acioly sempre veio a Natal para rever os familiares e fazer shows além de gravar programas na TV Universitária-UFRN. Da capital se abalava para Nísia Floresta, pois jamais esqueceu o pedacinho de terra, em especial do Cururu que tanto o inspirou. 
As lembranças paradisíacas de sua infância certamente ficaram emolduradas na sua memória.
Apesar de o cotidiano de todos os integrantes do trio ter sido muito intenso, devido às constantes viagens, fazendo shows pelo país, eles escolheram a terra da garoa como morada definitiva, ali constituindo família.
Mas não pense que o município de Nísia Floresta nunca desfrutou dos encantos do Trio Marayá. O ex-prefeito Vicente Elízio, fã de carteirinha do trio, a ponto de possuir todos os discos do grupo àquela época, fazia-os tocar até as altas madrugadas na antiga vitrola, seja em sua casa, no centro da cidade, ou no engenho.
O ex-prefeito não tinha o perfil dessas pessoas festeiras que estão sempre promovendo eventos, mas, de maneira muito reservada, convidava eventualmente pessoas amigas e fazia uma espécie de baile no engenho. 
Ali a madrugada se tornava uma criança, embalada pelas mais belas canções da música popular brasileira. Com o agravante de deliciosos goles da “Aguardente Potiguar”, fabricada ali mesmo, inclusive vendida em toda a região.
Nessas madrugadas “paparienses”, além das canções próprias do grupo, eles também ouviam Nelson Gonçalves, Francisco Alves, Vicente Celestino, dentre boleros e outras músicas levadas pelo minuano, adiando o sono de toda a vizinhança, até o amanhecer. Mas os discos do Trio Marayá não costumava descansar.

X – OUTROS SONHOS E O RITMO DA IDADE

Além do seu fascínio pela arte, Hilton Acioly acalentava desde o Cururu, o sonho de se formar em Geografia. Como era muito jovem e tinha se afastado dos estudos devido ao cotidiano dinâmico do trio, resolveu se organizar e se preparar para encarar mais um desafio. 
Foi com esse dinamismo que revezando entre a arte e os estudos formou-se pela Universidade Federal de São Paulo (USP).
Na década de 1975 o trio foi diminuindo a intensidade dos trabalhos, até porque passaram a ter outras prioridades, voltando-se mais às famílias e ao estudo.
 Assim passaram a se apresentar em diversos festivais de música universitária na época em que o componente Behring Leirois cursava a faculdade de Direito da Universidade Mackenzie em São Paulo. 
Assim passaram a se dedicar mais à produção de trilhas sonoras para filmes, jingles e comerciais.
O amigo de décadas Marconi Campos, recém-formado em música, formou o quinteto "Sombra", em 1975, do qual faziam parte Faud Salomão, Suely Gondim Beto Carrera e Vânia Bastos. 
Em 1996, Marconi Campos juntou-se a Hilton Acioli Behring Leiros, Vera Campos, Flávio Augusto, Cintia Scola e Sandra Marina - para gravar o CD independente "Ação dos tempos", interpretando músicas nordestinas, entre as quais "Asa branca", de Luiz Gonzaga, e algumas especialmente de compositores norte-rio-grandenses, como "Moinho d'água", de Chico Elion, e "Capricho", de Carlos Lyra e Behring Leiros. Behring Leiros.
Por sua vez, trabalhou como relações-públicas na área de divulgação da Rádio e Estúdio Ômega e também enveredou pela produção de jingles.
Ao todo o grupo gravou 13 discos, entre os anos de 1956 a 1996, completando quarenta anos de atividades. Participaram como convidados em mais de trinta LP’s, inclusive juntamente com artistas como Gal Costa, Maria Bethânia e Caetano Veloso.
Mas nenhum deles parou por aí. Hilton até hoje é referência número um quando o assunto é “jingles”. O músico é o autor de um dos mais famosos jingles brasileiros, composto para a campanha política de Lula, candidato do Partido dos Trabalhadores – PT, à presidência da República.
 O CD, denominado “O som da estrela do PT” possui nove músicas, sendo que as mais famosas e conhecidas são “Lula lá” e “Sem medo de ser feliz”. Quem é que não se recorda de uma música que diz assim: “lula, lá, brilha uma estrela Lula, lá”... 
As demais músicas foram: “Uma cidade”, “Uma cidade (sinceridade e felicidade)”, “Clareia”, “Estrelas d’água”, “Eu de cá, você de lá”, “Numa canção” e “Vai lá e vê”.
Atualmente Hilton Acioly vive em São Paulo, aos 75 anos e conserva a mesma vivacidade do 'menino do Cururu'. 
É reconhecido por inúmeros artistas nacionais. Ele ainda compõe jingles e músicas para propagandas televisivas e também é professor. Isso mostra a sua garra e o espírito elevado de um homem especial, o qual não permite que a idade diminua a sua capacidade criativa e a vontade de trabalhar.
Com toda a certeza, se Hilton Acioly tivesse ficado no Cururu a história da música popular brasileira não teria uma página tão significativa.
Essa é a história de um nisia-florestense quase totalmente desconhecido em sua própria terra, mas que em tempos anteriores abalou a música no Brasil e no mundo. Ele acreditou que sonhos podem se transformar em realidade.
Ele nasceu em meio à fartura. Não conheceu, como muitos nordestinos,  as agruras diversas da vida. 
Podia ter ficado e se tornado como muitos amigos de infância, os quais, já aposentados, cuidam de suas terras .Donos de uma vida pacata. Não, ele sonhou, se desprendeu do ninho e alçou voo altaneiro, e realmente fez história.
Para mim, essa é uma das histórias mais belas que já ouvi.


quarta-feira, 22 de maio de 2013

Sala de poesias, poemas e mensagens

As poesias abaixo foram escritas por esse que vos escreve, entre 13 a 30 anos. Pois pois. Um naco delas nasceu nos ares sul-matogrossenses, onde emanei-me. Esses escritos auscultaram os sons de araras, papagaios, periquitos, tuiuiús e pássaros sem fim que nublavam os céus da minha terra, num barulho delicioso que inda transborda. Lá embaixo, escondido num imenso quarto emoldurado de livros, ebuliam  dessa mente-criança águas cheias de palavras, respingando em escritos que esse. Muitos deles se escorreram de mim depois d'eu ter sido traspassado pelas palavras doces e estimulosas do meu conterrâneo Manoel de Barros, quando o conheci pessoalmente em Campo Grande, Mato Grosso do Sul.

RIMBAUD

Rimbaud disse ter inventado as cores das vogais.
Escrevia colorido ele.
Por certo se sente passarinho esse menino!
(Quem inventa cores é pássaro)
 era negro
E, branco
I, vermelho
O, azul
Uverde.
Inventei de agora em diante
Que todos são obrigadorespeitaas
Cores de Rimbaud
Os que desrespeitarem
Irão para disco de Newton
(É que um socó me sugeriisso de ontem)

DESMANCHAMENTO DO DIA

Por do sol é equipamento de desmanchar dia.
Se inicia-se a papagaios rasgando de verde o amarelecido céu.
De atrás vêm araras explodindo trilos azuis vermelhos,
Entardecem tudo em laranjados e ouros.
Ao modo de recolhimento chega o ocaso por acaso desses efeitos de aves.
Efeitos de sol.
Feitos de natureza voando cores,
Aquietando a tarde.
Assim equipamenta-se a noite
Paramentada de pirilampos
É difícil fazer o por do sol.

INFANCIAÇÃO
  
Nasci numa quarta sem feiras
Apenas matas e rios cheirando a quatro horas da tarde.
O tempo geava um rigoroso inverno.
Menino vistoso
Vestido de cidade recém-nascida;
Doze primaveras de pedra fundamental
Carregava o rincão pantaneiro do meu primeiro choro.
Minha mãe teve uma quarentena de pirão de galinha caipira
Resguardada a parto natural.
A seu ócio temporário debruçava-se em afazeres a ajudante Bastiana.
Seu azeviche tinha a dimensão de dignidade
Qual diamante negro de nobreza.
Mais velha que minha mãe
Guardava sabedoria de forno e fogão 
Espalhando-a com humildade de monge.
Cresci numa comitiva irmanal cercada de sacis, curupiras, caiporas e lobisomens,
Iscuitando siriris, rasqueados, chamamés e guarânias.
Ao medo seguia proteção
Na pele sebastiana que equipamentava amor.
Lembro dos desenhos que ela riscava de unhas na pele.
Bataguassu lesmava uma clareira
Acanhada de urbanidades,
Pedaço de terra selvagem
Emoldurada de bichos.
Poucos pioneiros se arranchavam ali.
Meus pais foram desses.
Quem é parido em grossos matos
Traz um sujo de bugre.
Trago dentro de mim um baú transbordante de infância
Nasci de uma flor potiguar que pariu rodeada de florestas, bichos e rios
Por que isso meus recordos são molhados de verde da mata
Minhas essências espirram de fragmentos silvestres
Meu primeiro choro fez coro com o esturrar das onças, o grasnar das araras e o palrear dos papagaios
Bichos bandoleiros que pousavam nas nuvens de Bataguassu
Engatinhei no barro vermelho
Com gato, galinhas e cachorros
Nunca estive nem quis estar distante do chão, Pois que seu cheiro e seus bichos me seduziam
Assim, fui íntimo de minhocas e cachorros d’água
Em Bataguassu quando as vozes dos bichos acontecem
Quando o murmúrio dos rios acontece
Quando o farfalhar das matas acontece,
Sou eu acontecendo.
Minha primeira cor foi lama tingitando minha alma
Sem nunca mais descolori-la
Foi nessa cidade desconhecida,
Sombreada de matas,
Assobradada de ruas, calçadas, espaços e poeira vermelha
Que minha infância felicitou.

ESCREVER

Escrever é palavra de raiz latinha
Vem de escre, que significa escrita
ver, que significa olhar (com curiosidade!)
É por esse estado de coisa que existe o ditado
"Tem que ver para crer",
Penso mais composto dizer
"Tem que ver para escrever".
Algumas poesias jorram sons
Guinchos de macacos
Murmúrios de rios
Rajadas de vento...
Mas os alfarrábios contam que predominam as silenciosas.
Poesia é olhamento
Quando digo que as joaninhas viveram estágio de crocodilos
Não falo surrealismos
Falo verdadeirismos
Testemunhei as larvas saindo dos ovinhos
(Foi no corgo Guaçu)
Depois de algumas horas descrocodilizaram,
Metamorfoseando-se em joaninhas
Flagrei o escaravelho carregando carniça para aninhar seus ovos
Encontrei zigue-zigues descapsulando-se iguais aos pernilongos
Deparei-me com o ninho de serpentes iguaizinhas às minhocas
Por isso proclamo:
"Tem que ver para escrever"
Quando escrevo
Falo o que vi
(Inspiração é mero assessório)
A escrita é escrava da visão.
Poesia é visão escrita
Exige olhos apurados,
(às vezes traduzem imagens guardadas dentro de nós).
Gaviões têm estigmatismo diante dos poetas.
Certo dia um doutor falava a uma gigantesca plateia,
O poeta escrevia sobre a aranha que tecia rede na cortina
Rabiscava o que via
Desescutava o palestrante entretido com poesia em tecimento.
Não é regra entendimento por escutação
Nem por ascultação
E sim por visão.
Resumindo os explicamentos:
Para o poeta a sonoridade é relativa
Uma pedra pode falar mais que mil gralhas
Mil gralhas podem guardar mais silêncios que todas as pedras
Dependerá da visagem do poeta
Escrever tem esses conformes.

VIDRO MOLE

Havia nobreza naquela árvore:
Escorria vidro
Vidro mole igual a mel de abelha
Depois vitrificava
(Isso quer dizer endurecia)
Não igual ao que Trimálquio conta em Satiricon
Mas ao ponto pedra.
Uns homens sabidos chegados de Ponta Porã
Inventaram dizer
Resina, âmbar, pez...
Era muito cientificoso o palavreado
Eu preferia acreditar na vizinha alemã:
Aquilo é choro de árvore
Como sempre fui descobridor
Descobri que mergulhando o vidro na água
Magicava verniz
Magicava cola
Tudo eu colava com vidro mole
Tudo eu envernizava com vidro mole
Tornei-me amolecedor de vidros na temporada das pipas
Como disse Lavoisier
Na natureza, tudo que é mole, endurece, e depois amolece...


E se quiser reendurece.

BUGRE PESCANTE


O bugre amarrou a noite numa pedra.
Esticou muito detrás do dia
Assim podia abarrotar peixes no cesto.
Linha, tirava do horizonte;
Havia por infinitos.
Taquara, fartava em touceiras,
Escondendo cotias.
A pesca vinha igual que água.
Depois ele amarrará o dia num lírio
Assim poder pescar mais.
(Ele que dizia isso)

POESIAR


Um velho contou-me que se alimentava de pedaços de pessoas
Fazia poesia ao modo de
Fazer colchas de retalhos
Qualquer pessoa – mesmo muda – dava retalhos
Ele funcionava de ouvir e ver
Depois colocava aflição nas palavras
Assim costurava sucessivas colchas
Por isso as pessoas o alimentavam
Disse-me que poesiar está nesses costuramentos
Que ela desvem de inspiração
Pois que vem de ver e sentir
Inspiração é o apelido que dão quando esses sentidos acontecem
Falou-me que todo homem é feito de pedaços de pessoas
O homem é a própria colcha de retalho
É o que é os seus derredores costuram
Mas carece dons de poesiar.

ARAQUÃ


Ninguém desaparecia mais do que nós daqueles ermos
Lugar transbordante de brincamentos
Tudo funcionava para brinquedo
Tudo melhorava para menino voar
Árvores tinham de caixas de lápis de cor
Tão coloridas de pássaros
As folhas secas guardavam mil vidas
Talvez só comparadas a bicharada correndo sobre elas
Envidecendo a selva
Os rios caudalosos nos deslizavam a gravetos secos
Vestíamos suas águas até a enseada
Agarrávamos a ingazeira deitada no espelho
Saltando para a terra firme
Esse percurso era feito qual relógio doido
Sem parar
Sem cansar
Nosso Mississipi
Assim éramos Tom Sawyer
Tudo acabava ao martelado do araquã
Deus botou nele inventar meio dia
Certamente para ajudamento às mães de meninos voadores
Estávamos atrasados para o banho e bóia
Havia uma escola nos esperando solenementes.

ELÁSTICO

As brincadeiras da minha infância eram mais de ver e pegar que de pensar.
Pois que assim sempre me fui só de pensar quando encontrava um La Fontaine pelos adiantes.
As brincadeiras que falo por hora
Eram de brincar de qualquer coisa
Que desse para brincamento,
Brincar de correr atrás do vento,
Brincar de guerra de torrão de barro,
Brincar de voar no mato,
Brincar de correr de a cavalo...
Só quem possuía um quintal cheio de ermos e confins
Têm poderes para entender o Daktari que tínhamos.
Minha mãe alertava:
Não passe da cruz da Cidinha!
Mas, aqui para nós,
Esticávamos a cruz até a Pioneira
Às vezes o elástico dava no Uerê.
Adonde os índios poemavam
Uerê! Uerê!Uerê! Uerê!Uerê! Uerê!Uerê! Uerê!Uerê! Uerê!
Eu sabia que quanto mais estrada passasse por debaixo dos pés
Mais poderia aparecer onça tocaiando.
O mais que vi além dos tamanduás
Foram obstáculos de sucuris.
A cabeça ficava de um lado da estrada,
A bunda ficava do outro,
O meio ficava no meio da estrada.
Era só pular,
Elas nem viam.
Quando o elástico dava sinal de descangotar
Eu voava para casa.
Que demora foi essa? Parece que estava no Rio Pardo!
Respondo:
Não, mãe, eu não passei da cruz da Cidinha!
Ela não conseguia ver os épicos que trazíamos na memória.
Assim acreditávamos.


PEDRA ESCRITA

Mestre Vespasiano contou
Como erguiam as paredes de pedra de igreja antiga.
Muitas, guardadoras de segredos de geometria,
Perfeitavam que nem modo de feitas a tijolos.
Alguns mestres eram tão poéticos
Na composição
Que se demoravam dias atestando exatidão de pedras;
Era quase especialidade.
O segredo está no encaixe sem sobras ou saliências, dizia.
Enquanto narrava as engenhosas técnicas,
Eu associava o seu mister à escrita.
O escritor cuidadoso tem de construtor cuidadoso.
Escreve paredemente, ao modo de lesma atrepando,
As palavras precisam rastejar solenemente desapressadas,
Necessitam de harmonia para se vestir de poesia.
Pedem encaixe e exatidão.
Palavra deslocada é igualmente pedra deformada.
Promove protuberâncias,
Deixa folgas,
Gera equívocos.
Parede de pedra troncha é poesia de palavras tronchas.
Todos os rebocos serão insuficientes para ocultar suas imperfeições.

“SEU APARÍCIO”

Para o Seu Aparício nem tudo carecia nome batismal
Tudos estavam certos para ele
De dizer que uma miríade de insetos chiava, dizia:
- Esse magote de bicho fica aí aos zimbolé zuano os ouvido da gente
...
Um dia colhi essas frases de sua árvore:
- Esse menino, pegue aquilo acolá e mi dê
- Meu bichim, venha cá
- Vô mi adeitar um poco
- Dona minina, o que a sinhora quer?
...
- Tô cuma dô isquisita no meu estambo
Minhã vô aplantá uns feijãozim di corda
- Tô cuma agonia nas tripa, parece que tem um sino bateno
- Uma veizi eu peguei téti quandi pisei um prego véi inferrujado
- Alumeia aqui pra mim, meu fii
- Ais veis eu sinto umas facada aqui no pé da barriga, uma dô fina
- Asmanheci com os espinhaço doendo que só
Intonci qué dizé que u minino adueceu?
- Fulano tá cum cançu
- A meu saber ela não tá em casa
- Parece que levei uma paulada nos quarto
- Não põe muito sar no de cumê, não, viu!
...
Os filhos e netos rezavam na cartilha do Seu Aparício
(Inté inovavam)
- Tudo bem, coisinha?
- Seu coisinha, o qui o sinhô qué?
- Tira esse breguesso daí!
...
Seu Aparício conhecia a voz do mundo por experiência
Não por ciência.
Dizia:
- O burro martelava
- O gato gemia
- A galinha gritava
- O sapo piava
...
Olhava para o céu e dizia:
- O céu tá talhado, é chão molhado!
...
Qualquer coisa era coisa
Quando faltava verbo, coisar resolvia.
Se Aparício tinha partes com Camôes
Ou com o galegos português?

ESTRADA BOIADEIRA

A cidade era cortada por uma rodovia
Quando ia-se a Campo Grande via-se um resto de estrada do lado esquerdo
Igual que contorno.
Dava dó daquele caminho órfão
Sem pedras
Sem piche
Sem placas de sinalização
Sem viajantes...
Nem bêbados andarilhavam ali
Às vezes desaparecia de mato
Reaparecendo adiante, acanhada,
Depois se desprezava de rio
Mas possuía algo importante:
Sabia impor-se,
Mesmo manchada de árvores, resistia.
Enquanto meu corpo viajava de carro
Meus olhos viajavam dela,
Percorrendo-a
Num verdadeiro esconde-esconde.
Por que tanta curiosidade?
Meu pai disse que era a antiga estrada boiadeira
(Onde passaram as comitivas dos desbravadores do Mato Grosso no século XVI).
Igual as telas de Hercules Florence.
Caminho do gado tocado a berrante para São Paulo
Caminho dos carros de boi transportando pessoas e víveres
Para Campo Grande, Cuiabá e Corumbá...
Caminho da Carmelita trazida do Paraguai por Manoel da Costa Lima.
O fiapo de estrada tinha modos de desprezo
Por isso fascinava
Estradas boiadeiras são partes do corpo do Mato Grosso do Sul
São bondosas
Saudosistas
Nunca mataram animais silvestres
Muitas voltaram a ser veredas
Substituídas pelas serpentes de piche.
Tudo o que é bonito fica feio por último.

BORBOLETAS AZUIS

As meninas da minha época pegavam o pó de arroz da irmã mais velha às escondidas
Esse cosmético era cor de rosa ou cor da pele
Muito tempo depois surgiu o que chamavam sombra para os olhos
Se naquela época tivessem me consultado
Teriam ficado famosas como pioneiras da sombra azul
É que sou o inventor desse produto
Minha especialidade era o pó cintilante azul
Descobri-o por acaso
(Assim como Niépce descobriu a fotografia)
Foi passeando pelas matas quando vi um panapaná de borboletas azuis em estado de procriação
(Verdadeira cortina dependurada nas árvores)
O chão estava atapetado das que morreram
Recolhi uma porção para apreciá-las
Depois de muitas análises
Minha mão ficou azul cintilante
Igualzinho a Arquimedes surgiu a ideia
Obviamente não foi de fazer pó compacto, nem sombra para olhos.
Então enxerguei o descobrimento pelos olhos da pintura
Enchi uma lata de extrato de tomate Elefante só com asas
Não confunda minhas palavras
Não é que o elefante tinha asas
Elefante era a marca do produto
Enchi a lata com asas de borboletas
Pisei até virar pó
Nunca vi uma cor tão atraente
Igual a Césio
Era cintilante e de comportamento pastoso, embora seco
Eu usava para dar poesia aos meus desenhos
Depois invernizava com cola de vidro mole
Com certeza as meninas teriam ficado famosas como precursoras da sombra azul
(Juro que passaria a patente para elas)
Quem sabe teriam se projetado internacionalmente como inventoras da sombra azul cintilante para olhos.
Quem sabe as maiorais da perfumaria internacional as tivesse descoberto.
Com certeza aquelas meninas seriam milionárias.

OS OFAIÉS-XAVANTES

A praça Jan inchava de bugres aos finais de semana
Tinha gente velha e nova
Até criança
Atavessavam o dia versejando língua estranha
Dialeto magnífico
Tenho que aquelas palavras são ensinadas pela mata
Pois tinham sons de bichos
De ventos,
De árvores
De rios
Certa vez eu comia um doce de abóbora
(Daqueles em formato de coração)
Um bugrezinho aproximou-se e disse:
Comendo quero doça dá
Estranhei a macarronice verbal e dei-lhe a iguaria.
Ele falou mais com os olhos e gestos que com palavras
Eu tinha curiosidades igual aos Villas Boas
Curiosidade de saber indiologias
Mas os mais velhos eram arredios
Não gostavam de conversar com gente branca
Gente não índia
Eu sempre dava um jeito de aproximar-me para ouvir o incompreensível
Era uma fala verde
Silvestre
Parecia palavra de bicho
Conversa de índio traz a mata para perto
E os céus nublam de pássaros
Às vezes a pronúncia de uma vogal parece saída da língua pregada no céu da boca
Outrora parece vinda dos canglores da garganta
Uma rouquidão estranha
Às vezes era gutural grave, rápido
A praça passava o dia desfrutando índio
Já quando a tarde dava sinais de desaparecer
Eles também desapareciam
Na estrada do Sapé
Comiam mandioca com caititu e abóbora com coelho do mato. 

VERDANDANTE

Tinta verde verdadeira é prodígio de lagartas
Depois de anos de suspeitas
Descobri todo o processo:
Vem precisamente das lagartas verdes
Não sei se elas desaparecem as árvores ou as árvores desaparecem elas
Mas é fácil encontrá-las
Basta ver grãos de tinta no chão
Há uma máquina dentro delas
O fabricamento se dá assim:
Eis que primeiro elas escolhem bem as folhas
(Tem que ser novinhas)
Depois passeiam a refeição
Carece percorrimento de árvores
Rastejamento
Subimento e descimendo do meio do corpo
Assim ocorre o transformamento de folha em tintura
Quando estufam de cheias, descomem tudo
A tinta sai por um buraquinho no final da lagarta
São grãozinhos secos concentrados
( Miniatura de grão de cabrito)
Basta misturar na água
Um pincel aquarelecerá paisagem no papel.
Beleza mesmo é depois de passar verniz de vidro mole

SOSSEGO

Ela caminhava lenta
Era lesmática e desprovida de fala
Negra azeviche
Gorda roliça
Cabelo avolumados
Dedos das mãos e pés grossos como linguiças
Tais quais os negros de Portinari
Lábios acentuados a tomar boa parte do queixo
Nariz amplo
Bunda ao estilo das tribos Khoisa
Pernas batatudas das baianas subideiras de ladeira da Bahia
Parecia não ter reflexos.
Olhava as coisas como não as enxergasse
Havia desprezo em seu olhar
(Serenidade estranha).
Sua lentidão incomodava;
Morava num pequeno casebre de madeira.
Alguns meninos faziam-lhe troça
Atiçados por sua indiferença
Talvez quisessem ouvir a voz que ela transformou em silêncio
Ou queriam ouvir xingamentos.
Ela nunca revidou,
Não fazia mal a uma formiga
Por isso irritasse a tantos;
Era dessas que nascem com os parafusos mentais muito apertados
Não fosse pelo exotismo
Seria invisível
Embora vista apenas para pilhérias
Sossego morreu igualzinho que morrem as lesmas.

MATAME

Quando estive o menino que não sou agora apenas por fora
Tinha propensão às matas.
O magnetismo selvagem sugavame de modo matame
Embrenhando-me em seus desígnios
Tinha de guia um gato que nunca descompareceu de mim
Portando meu senso de direção felino não tinha apegos geográficos.
A experiência do silêncio quebrado unicamente por voz animal ou minhas pisadas alçava-me a estado de bicho.
Os eflúvios silvestres, o murmúrio dos rios...
Tudo tinha estado de mim
É indescritível o encantamento.
Havia um mimetismo
Como se as árvores e os bichos fossem minha pele.
Nunca fui desrecebido.
Havia inexistência de medo
Havia supremacia de coragem despercebida.
Se real a tese espírita, fui bugre.
Fascinava-me as frutas e flores estranhas
Os sabores e perfumes inesquecíveis e inexplicáveis.
As melhores floriculturas desconheciam os buquês exóticos, saídos de arbustos, árvores e trepadeiras.
A mata tem coisas de realezas
Os bandos de seriemas atravessando o riacho Sapê, os coelhos saltitantes, talvez tentando assustar-me...
E a onça que saltou da ingazeira e vestiu-se com as águas do rio Pardo?
O coração desse bugre-menino saltou pela boca
Não de medo
Mas de encanto excelso.
Um dia encontrei serpentes recém-nascidas num toco podre de jequitibá.
Lembravam minhocas entrelaçadas.
Pareciam adultas pela destreza que serpenteavam o corpo
Coisa de instintos.
Muito lindo os botes sorrateiros.
As linguinhas vermelhinhas aprendendo a cheirar e sentir o perigo.
Corri riscos quando afaguei os filhotes de gato do mato sibilando iguais às onças.
Creio ser um deles que entrou dentro de mim.
Os guinchos dos macacos ensurdeciam...
Nesses empreendimentos silvestres confundia meu habitat
Desaparecia de mim as urbanidades...
Logo surgia o estirão arenoso depois das cercas de aroeira
Sabia a estrada de Bataguassu a Uerê.
Era seguir a linha pintada com as cores do por do céu
Reaparecia distante a urbanidade ao compasso dos passos ligeiros
Escutando o chamado maternal que não precisava de voz.


INSTIGAÇÃO À POESIA

O tiê-sangue trila canção magnífica na grimpa do pequizeiro
A lesma babeja a calçada
O beija-flor inquieta as flores
A formiga teimosa carrega o louva-deus
O mandarová sofrega no tronco da perobeira
A joaninha mata a sede na bromélia
Abelhinhas miúdas perfumam o jardim
Um panapaná de borboletas azulece o cenário
O cachorro d'água cavouca a terra
Meu Deus!
Ficam essas coisinhas miúdas atiçando poesia cá nessa cabeça de vento

OCASO

O dia envelhece
A chalana preguiçosa risca o Paraguai,
Desregulando os seus contornos;
Lontras e ariranhas vestem seus furos na barranca;
As águas douradas rolam em curso largo,
Pintadas pelo por do céu.
Logo, os reflexos de púrpura dissipam a tarde;
Os jaburús foram os últimos a encher as árvores,
Já não se vê o sulco da embarcação;
A noite tem espessura de piche
E a água foi aplainada pelo silêncio.
É hora dos jacarés acenderem seus olhos na lâmina do rio;
Os vagalumes infestam de lâmpadas o esmo negro.
Há um perfumamento de lírio borrifando a noite,
Amanhã tudo amanhece Pantanal.

MÚSICA DA MATA

A orquestra da mata tem arranjos de bichos, árvores, rios e ventos
Ventania em casca seca de caramujo faz assobiamento de saci
Murmúrio da água é graveto seco de ingazeira riscando o rio
Matraca escandalosa é porco do mato batendo a baqueta dos dentes no queixo
Tum tum tum estrondoso qual zabumba é composição de rebojo, pedras e correnteza em borbotões
Percussão misteriosa é cápsula pesada de jatobá despencando em folhas secas no chão
Ecos finos e alternados é trilo de anta reverberando
Exercícios de vozes é algazarra de maritacas, araras e periquitos adejando
Harmonia de música da mata está no acontecer
O tiê-sangue bem que devesse reger essa orquestra
É pássaro fascinante e tem semelhança de cantor
Há infinitos sons na mata
É que agora estou desses

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O jatobazeiro seco tombou na mata do rio Pardo
Gravetos estalaram
Galhos rangeram
Cipós despencaram
Houve amedrontamento da fauna
Os pássaros adejaram, soltando trilos desesperados
A manada de queixada eriçou as cerdas e estourou dali
Grunhe e matraqueia, amedrontada, no túnel de arbusto
Anda, trota e salta tocos marginando o pântano
Bate o queixo e os dentes, enlouquecida
O silêncio volta
A mata tem desses sustos

POETA DA IMAGEM

Pintor é poeta da imagem
E sua poesia faz ninho no pincel
Pintar bonito carece aparecimento de infância na pintura
Quanto mais criança está dentro do pintor
Mais poesia esparrama na tela
Se as garças estão verdes
É porque algum menino apapagaiou-a
Se os papagaios estão brancos
É que deram de andar com as garças
O tuiuiú não mergulhou a cabeça no rio Paraguai
Portanto ainda não está preta
Seu pescoço não tem anel vermelho
Pois derramaram toda a tinta no sol
As capivaras estão lilazes
De tanto mergulhar sob os lírios
O rio virou espelho
É que o pintor prateou o céu
Quem disser que houve erramento artístico
É que nasceu descolorido de poesia

BRINCAMENTOS DE FRIO

Apetecia-me Bataguassu gelada
Dormir acasulado de alcochoados é lembrança que até hoje me acalora.
Amanhecíamos lesmas até nossas mães nos darem partida.
Daí enfrentar as rajadas de frio.
Na mesa do café, no quintal, onde resvalacem os raios de sol, havia disputamentos.
Mas nem tudo era monótono.
Havia brincamentos de frio.
Eram esses:
1) balançamentos de varal de arame para ver saltar longe os filetes de gelo,


2) Amassamentos de roupas madrugadas no varal para auferir trics-trics.


3) enfiamentos de dedo em película de gelo de balde amanhecido com roupa de molho.


4) desenhamentos com lápis-dedo sobre gelo assentado em carros.


5) colocamentos de língua para grudamento em lataria de carros (sem caneca de água morna fica grudado para sempre),


6) colheitamento de lagrimazinhas de sereno congeladas na ponta das flores,


7) quebramentos de espinhos de gelo formados na grama,


8) soltamento ar quente da boca para fazer pequenos nevoeiros,

9) raspamento da lâmina de gelo com as unhas nos carros para sentir a massa gelada entre as unhas.

Vejam só,
Eram nove brincamentos;
Brincamentos de frio.

POTENGIPARANAPARDO

Desse topo de rocha e ferro contemplo o rio Potengi,
Meu pensamento se inunda com as águas dos rios Pardo e Paraná,
Rios d'eu-menino. 
É belo o rio potiguar, mas descomparado aos que molharam a minha infância...
Não bastasse essas recordações serpenteando, vejo, ribeirinho, o trem, lento, sinuoso...
Lembrando as sucuris do Pantanal.
No outro lado se espraia o mangue,
A paisagem verde aquosa me transporta aos varjões de Bataguassu.
Nítida imagem do Pantanal sul-matogrossense.
Não bastasse o devaneio, descortina a ponte da Redinha onde o Potengi miscigena-se em atlântico...
Mais uma vez as recordações trilam forte.
Emerge o rio Pardo em confluência com o rio Paraná, sob a Ponte Maurício Joppert.
Não bastasse, singra a barquinha vagarosa no rio dos potiguares, cópia fiel das chalanas no rio Paraguai.
Tudo quer ser igual, mas não sinto o cheiro do pequi e o gosto da goivira.
Faltam coisas invisíveis...
Os cachorros d'água e seu olhar de ternura.
O velho Paraguai com seu bigode de arame desenhando histórias de bichos.
"Seu Benedito Preto" e o inseparável cachimbo, bafejante de causos.
O círculo de tererê gelado na guampa de boi.
Verdade, as belezas germinadas na infância são especiais.

DERRETIMENTOS

O espanhol derretia relógios com pincel.
Vivia de derreter coisentortar o que não podia ser.
Surrealizava-se com amolecimentos de materiais.
Aparecia fantasia.
É possível desmanchar palavras com canetas-tinteiro,
Tintilam diferentes,
Bonito que só.
Às vezes, lápis fá-las grafitantes.
Gravitam fantasiosas.
É recomendado espremer palavras.
Desses dias apertaram o arco-íris,
Espirrou poesia na prancheta do artista.
A tinta escorria, 
Entortando imagens.
Apareceu desenhamentos de crianças
E se pintou-se o sete.

GOIVIRAL
  • Íamos no velho caminhão "Stúdio Back" do meu pai.
  • Minha mãe pegava a manivela na boleia e metia no focinho do veículo,
  • Rodopiava até o motor roncar.
  • Após algumas aceleradas pinotávamos na carroceria com baldes, latas, bacias e vizinhos.
  • Para trás ficavam tufos de poeira vermelha tingindo a mata.
  • Ao chegarmos ao paraíso de crianças e passarinhos, nos empanturrávamos,
  • Depois, abastecíamos os vasilhames até a boca.
  • "Tomem cuidado com cobra!"
  • Era a voz paterna.
  • Abastecidos, fazíamos a viagem de volta.
  • Uma vez precisou-se parar para que alguém despejasse esterco na mata.
  • Tenho muitas lembranças desses episódios silvestres.
  • Catar goiviras era uma delícia.
  • Objeto de desejo dos nativos.
MECANOFICINOGRAFOTECNICA

  • Há palavras de consertar e desconsertar.
  • Com minhas ferramentas de ossos,
  • Reformo, restauro, desmonto, derreto, crio e recrio;
  • É profissão mais brincadeira que existe.
  • Na mecanoficinografotécnica
  • Afrouxo e aperto parafusos de palavras.
  • Depende do meu estado de desconserto
  • (Coisa de gentes desparafusada).
  • Encanta-me o ranger metálico
  • Orquestrando felicidade disfarçada de trabalho.
  • Já aprimorei centenas de palavras;
  • "Criançamor" é uma delas!
  • Bem soldada, não poderão mudá-la.
  • A palavra é toda de besouro
  • (Significa ter valor incalculável).
  • Desses dias, desmontei as palavras
  • Ódio, maldade e preconceito
  • E das letras sobrantes
  • Montei adjetivos, sinônimos e verbos
  • Que despertam bondade.
  • Muitas vezes em meio às letras-sucatas,
  • Há enganchamentos sem conta
  • Umas grudam-se às outras.
  • Desses dias, encontrei um monturo desses.
  • Puxei a letra A veio "amoração".
  • Estava tudo grudado.
  • Creio ser mistura de "amor" com "oração",
  • Ou "amor" com "ação".
  • Não pensei nem, soldei.
  • Ontem, inventei a palavra jatobacidade.
  • É como me sinto quando aprecio o fruto do jatobazeiro.
  • Embora hoje estou pequiseiro.
  • (Para Fídias)
  •  
  • Todos nós já tivemos o nosso lado Tom Sawyer.
  • Durante a minha infância
  • Possuía uma lata grande de leite Ninho.
  • Dentro ficavam guardados:
  • Uma coleção de cards da Seleção Brasileira de Futebol,
  • A cara de um boneco quebrado,
  • Um pedaço de vidro de fundo de garrafa azul royal
  • (servia para olhar o sol)
  • Uma coleção de calendários,
  • Tampinhas de garrafas com figuras de Walt Disney
  • (uma promoção da Coca Cola).
  • Tinha uma moeda antiga,
  • Tudo muito bem guardado.
  • Só eu sabia o local do esconderijo.
  • Era o meu tesouro.
AVIÕES
   
·         Quando eu era ainda mais criança
·         Pensava que os aviões pousavam nas flores,
·         Que elas se abriam para eles aterrissarem.
·         Quando via horizontes desaparecendo pássaros de lata,
·         Dizia para meus descompassos:
·         - Lá está a flor se abrindo para os aviões se aquietarem do cansaço.
·         De contar isso para uma professora
·         Recebi o título de sem juízo.
·         Foi o título mais condecoração que recebi.
·         Ela jogou em mim palavras que pensavam feitas de magoação.
·         Estava desparafusada de ter o marido na penitenciária.

RECEITA PARA POESIA DE PÁSSAROS
  
(É fácil poesia de pássaros)
Carece de rio murmurante em túnel de árvores
Pés de goiviras bem madurinhas
Cheirando a tarde silvestre
Pedras ásperas roladas de rio para afiamento de bicos
Poesia aparece aos poucos
Ao modo de pássaros adejando cá e lá
Bicando frutos

LIQUIDEZ

Vivo a desmanchar as palavras e pô-las em estado de poesia
O vento ajuda a compô-las quando vem forte do meio das árvores
Algumas vezes as matas se desmancham para se igualar às minhocas
A poesia se completa no ocaso quando as cigarras engolem o canto para ouvir a sinfonia das rãs 
Os ziguezigues riscam o  rio e abrem a cortina
O Pantanal é comido pela enorme boca da noite
O índio guató corre sobre os caroços da água
Caroços acesos, iluminando tudo ao modo de tapetes de jacarés
É o espetáculo começando
Espetáculo de letras e canções anfíbias.

GAUDI, O SANTO TRANSGRESSOR

  • Igual a alguns poetas que transgridem as normas da gramática e constroem escritos excepcionais, Gaudi foi um desses desertores e produziu uma arquitetura ousada e surpreendente.
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  • Suas obras são esculturas instigantes que parecem saídas de um naco insignificante de argila e transformado em edificações inacreditáveis. Não há como vê-las sem contemplação.
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  • As cores, formas e os materiais... tudo nos convida a perquirir cada detalhe.
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  • Como não bastasse a excepcionalidade do Palácio Guell – sua primeira obra – ele produziu móveis singulares. Há um tocador que parece bicho estranho. Cadeiras lembram animais em movimento (creio ser tênue a linha que separa pintura, arquitetura, literatura, engenharia, anatomia - se é que ela existe).
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  • Suas inconfundíveis chaminés transmitem alegria e infância. As torres percorrem os telhados, oferecendo um aspecto similar ao de um pequeno bosque de cipestres.
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  • Esse palácio nos reporta a uma escultura surrealista. Não há cantos, há curvas. Há côncavos e convexos.
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  • A leveza do formato orgânico dos metais desafia o entendimento.
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  • Ele conseguiu levar luz natural a ambientes nunca antes conseguido pelos mais respeitáveis engenheiros.
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  • Criou nesse monumento espaços diáfanos, que enganam os sentidos. Até um firmamento se faz presente.
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  • A singularidade de tudo o que se vê não ofusca a presença da natureza, denotando o quanto ele a valorizava.
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  • Não é de se estranhar que durante a sua construção a imprensa divulgou-a de forma incomum.
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  • Os ziguezagues do Colégio Teresiano. Alguém viu algo igual? Seus belíssimos arcos parabólicos. Foi ali que ao ser lembrado para gastar menos, respondeu ao padre que o encomendou: "Com todo respeito, padre Enric, mas o senhor entende de missas, eu entendo de fazer prédios".
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  • A Casa Calvet, ou a casa da fantasia, a mais convencional de suas obras. Suas famosas cruzes, as belas esculturas no telhado. Os móveis, iguais aos seus edifícios, são a expressão de um equilibrado jogo harmônico entre sobriedade e barroquismo.
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  • A Cripta da Colônia Guell é pura genialidade e uma de suas obras mestras. Seus arcos parabólicos.
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  • A aparência externa, dinossáurica, às vezes lembrando um animal estranho, contradiz o seu interior. Nota-se quão cuidadoso foi esse gênio com a pressão sobre os pilares em conformidade com as escalas.
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  • Essa obra é um hino, uma poesia disfarçada de arquitetura. Cada coluna sustenta a composição de uma árvore. Sua modernidade incomoda.
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  • Aliás, suas obras são assim: depende de onde se olha se vê o dórico e ao mesmo tempo o gótico, o neogótico, o árabe, o persa, o ultramoderno... logo se volta ao medieval como se rendesse homenagem ao passado glorioso da Catalunha. Há cuidado em prestar culto ao nacionalismo e a religiosidade.
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  • A Casa Bellesguard é um castelo medieval em miniatura. Sua magnífica porta e a influência do neogótico em suas janelas causam admiração.
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  • A fachada recorda a Idade Media.
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  • Nessa obra de arte, Gaudi teve o cuidado de respeitar as      ruínas da casa de campo do último rei de Aragón. A brancura interior, a luz vazada de coloridos vitrais, em harmonia com azulejos coloridos contrastam com as pedras escuras que revestem as paredes externas.
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  • O incrível Parque Guell de pura arquitetura orgânica é simplesmente um encanto escultural.
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  • O banco sinuoso e contínuo de mosaico com diferentes fragmentos cerâmicos lembra as gigantescas sucuris pantaneiras. Teria ele pensado em grupos de reuniões a céu aberto? São fascinantes os motivos ornamentais que serpenteiam ao longo de seu corpo.
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  • Essa obra revela um artista com uma extraordinária intuição para a forma e a cor: verdadeiro escultor.
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  • Esse inigualável conjunto arquitetônico é um estranho corpo de pedra, cimento, ferro, azulejos e ladrilhos espraiados engenhosamente por um terreno acidentado, surpreendendo a cada centímetro.
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  • As casas parecem saídas dos contos de fadas. Suas pedras sempre em tom ocre com telhados revestidos de azulejos multicoloridos transmitem felicidade aos céus.
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  • O dragão com escamas a base de azulejos multicolores faz-se de guarda, mas encanta mais que assusta. Sua figura representa Pithon, guardiã das águas subterrâneas.
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  • Num dado momento um pórtico com colunas de estilo dórico se levanta como um imponente templo grego: uma reverência a Guell, admirador da arte antiga e seu mecenas.
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  • As colunas lembram palmeiras. O belo anfiteatro. Suas cavernas com ventilação perfeita. Na aridez do terreno houve o cuidado de canalizar as águas da chuva para reaproveitá-las, combinando arte com funcionalidade.
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  • A Casa Batló, construída no ponto culminante de sua carreira é pura profusão e riqueza. Chama a atenção as poderosas colunas parecidas com as patas de um elefante. O telhado recorda a espinha dorsal de um dinossauro.
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  • Os balcões retorcidos parecem máscaras gigantes. A casa tem pele, é de peixe!
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  • Os cantos e as formas que, pela arquitetura convencional seriam quadradas, desaparecem, se ondulam oferecendo o mesmo aspecto de pele escorregadia de uma serpente aquática.
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  • Os muros externos são como pele, suaves e moldáveis. Esse sonho de naturalismo e flexibilidade se estende também no seu interior.
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  • Nenhum outro edifício de Gaudi mostra tanta modernidade. Sua arquitetura vanguardista é das mais chocantes. A construção nos leva ao mundo da fantasia, assim como a Casa Calvet.
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  • O prédio parece mole, algo feito de barro recém-modelado como as mãos de oleiros alisando seus potes.
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  • Tudo é curvo, roliço, arredondado. Até o teto. A casa nos transmite o quadro "A Persistência da Memória", de Dali, com seus relógios derretidos. A casa também parece se derreter.
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  • Balcões semelhantes a gotas de mel... quem já viu isso?
  • A Casa Batló é verdadeira casinha de alfinin. Nada lembra as pedras duras, frias que modelam o seu corpo arquitetônico.
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  • Na sala onde se encontra a lareira, tudo parece rechonchudo, macio, ondulado.
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  • A Casa Milá, apelidada de 'a pedreira' provocou estupefação nos contemporâneos de Gaudi, sendo incompreendida durante muito tempo.
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  • Não faltou quem fizesse caricaturas, paródias e deboches, desacreditando em cada metro que se erguia… Estariam assustados?
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  • Mas com certeza tanta ironia não era mais que uma prova de fascinação que ela exerceu sobre seus contemporâneos.
  • Essa construção constitui uma síntese de todos os elementos que definem a época tardia do estilo gaudiano.
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  • A casa é paisagem em movimento. Sua fachada é obra primorosa… fantástica.
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  • Os numerosos ventiladores e chaminés configuram uma estranha paisagem de esculturas surrealistas, cujas formas se repetirão muito mas tarde na história da escultura.
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  • Este atrativo residia desgraçadamente em detalhes externos, duvidando por completo que Gaudi havia baseado em reflexões práticas. Havia uma antecipação do futuro, como o prelúdio da garagem subterrânea dos porões.
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  • Suas obras são marcadas por inúmeros chaminés: características puramente gaudiana.
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  • A Igreja da Sagrada família, de inspiração gótica, parece saída dos contos fantásticos. Não há nada que se possa comparar em toda a história da arte.
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  • Quando falamos de um gênio como esse, o mais comum é apontarmos uma obra de culminação. Mas em Gaudi isto é impossível, pois com a Sagrada Família, sua obra mestra, ele ocupou toda a sua vida.
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  • Quando compunha se encantava com a própria obra. Era tanto que não admitia vê-la lenta ou parada. Durante a primeira Guerra Mundial ia de porta em porta pedindo donativos para que os trabalhos não parassem, mas infelizmente só chegou a concluir uma torre.
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  • Por falar nelas, lembram as mitras episcopais.
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  • A Igreja da Sagrada Família é uma oração de pedra. Lugar onde as rochas exalam Deus.
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  • As doze torres que coroam a fachada fazem referência a toda a cristandade, representadas através dos doze apóstolos.
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  • Gaudi tinha repugnância pela monocromia. Dizia que a natureza é multicolorida e desconforme, portanto sua obra seria sempre cheia de vida e de formas diversas.
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  • Outro detalhe também interessante e que o faz poeta da arquitetura: ele gostava de introduzir em suas obras letras e palavras sob forma de anagramas.
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  • É impossível encontrar em suas obras algum elemento igual.
  • A escultura de um caracol, uma tartaruga serve de base a uma coluna situada ao lado do portal do amor, ao lado aparecem animais domésticos.
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  • Às vezes até nós mesmos não entendemos como alguns de seus edifícios se sustentam em pé. Algumas obras refletem frágil aspecto, mas se caracterizam por assombrosa firmeza.
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  • Tudo é permeado por mosaicos, ladrilhos, cristais, azulejos, madeira, ferro, pedra, vidro, fragmentos de vidros, vitrais, cerâmicas... dominava o ladrilho como nunca.
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  • Gaudi antecipou as técnicas de colagem dadaísta, os métodos cubistas de Picasso e Miró, e as próprias pinturas de Miró.
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  • As instituições públicas de sua época o ignoraram, mas ele teve sorte com os canais privados, assim como o industrial Guell, seu maior fã e mecenas.
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  • O conjunto de sua obra revela ousadia e criatividade insuperável.
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  • Sua abnegação, sua religiosidade o tornam santo, tal qual a santidade de sua arquitetura.
O TEMPO

·         Dia desses eu pensava sobre o tempo. Parece que estamos vivendo em função dele, e não das coisas importantes da vida. Não temos tempo para pararmos numa loja e olharmos as prateleiras, pois precisamos chegar correndo ao trabalho.
·         Quando retornamos do trabalho - à tardinha - não podemos novamente olhar as prateleiras, pois precisamos chegar correndo em casa.
·         No final de semana não podemos ir à praia, pois temos que concluir alguns afazeres domésticos que ficaram pendentes... e assim estamos sempre correndo, preocupados com o tempo.
·         Pior de tudo: nem sempre concluímos o que estamos fazendo para nós. Tudo o que é dos outros damos conta, mas o que é nosso deixamos para depois, sempre atropelado pelo tempo.
·         Parecemos o coelho da história de "Alice no país das maravilhas". O bichinho vivia sempre correndo e olhando para o relógio, sempre apressado, dizendo: "estou atrasado", "estou com pressa". E fazia tudo de forma atropelada.
·         Como não bastasse, Alice se depara com um gato trepado numa árvore. Seu corpo aparece e desaparece como mágica. Às vezes permanece apenas o seu sorriso,  exatamente como a meia lua, outrora fica a cauda, como se fosse uma cobra.
·         Logo, Alice lhe indaga:
·         - "essa estrada vai para onde?"
·         O gato responde com outra pergunta:
·         - "para onde você quer ir?"
·         Ela replica:
·         - "Não sei para onde quero ir, pois estou meio perdida".
·         Ouvindo aquela resposta meio louca, o gato sentencia:
·         - "Para aqueles que não sabem para onde ir, qualquer estrada serve".
·         Parece que somos um pouco esse coelho. Parece que acabamos de encontrar um gato que também nos disse as palavras acima. Quando as coisas são para nós, não sabemos para onde ir. Não sabemos que estrada pegar. E essas estradas são tão simples.
·         Que tal pararmos, irmos à praia, sentirmos a areia e as ondas do mar?
·         Que tal pegarmos uma estrada de terra, a pé ou de bicicleta, paramos naquela ponte, escutarmos o barulho do rio, colhermos flores silvestres...
·         Que tal pularmos naquele rio que nos parece tão delicioso?
·         Que tal visitarmos aquele tio idoso que há tempo não o vimos (ele pode não estar lá na semana que vem).
·         Que tal plantarmos aquele jardim que todo dia prometemos a nós mesmos iniciá-lo.
·         Que tal fazermos aquele arroz doce que adoramos e o postergamos a todo instante?
·         Que tal concluirmos a leitura daquele livro?
·         Que tal pararmos para separamos aquelas roupas usadas para darmos para alguém?
·         Que tal almoçarmos com a nossa família, em plena segunda-feira, e sem pressa?
·         Tudo passa. O tempo fica. Não podemos ser escravos dele. As estradas, os caminhos, as veredas estão diante dos nossos narizes (nós é que não vemos).
·         Estamos sem tempo para sermos gente. Parecemos máquinas, coisas... sei lá!
·         Se continuarmos com essa pressa sem fim, não veremos a nossa vida passar, pois não estaremos vivendo, e, sim, sendo escravos do tempo. Estaremos vegetando.
·         Que tal vivermos! Nem que seja algumas vezes por mês?
·         Tem que ser agora, senão tudo passará, inclusive nossa família, nossos amigos.
·         O tempo nos levará tudo. Sobrará apenas lembranças amargas de não ter vivido para nós, e, sim, para o tempo. LUÍS CARLOS FREIRE

O MENINO QUE PLANTAVA MAMÃO PARA FAZER AMIZADE 

Era uma vez uma vez um menino plantou nove pés de mamão. Com ajuda de seu pai, ele cavou nove buracos, adubou com esterco de gado e deitou nove sementes que germinaram viçosas. Durante a tarde, o menino molhava cada brotinho, cuidadosamente. Todos deram origem à missão de produzir mamão. Eram belos exemplares tão doces que pareciam pulverizados com açúcar. Cada pé produzia dezenas de frutos. O pai do menino disse: - "menino, é muito mamão no quintal, tem que dar ao povo, pois não vamos dar conta de tantos frutos". O menino respondeu ao pai: - "papai, não é  por causa de serem muitos que eu vou dar aos vizinhos, e sim por que eu plantei para dar aos vizinhos e fazer amizades; esse pé não é nosso, é dos vizinhos e o que sobrar é nosso". Quando começavam amadurecer, o menino subia no alto do pé, colhi-os um a um, colocava numa bacia e saia pela vizinhança distribuindo aos vizinhos. Todos adoravam os mamões do menino. Assim, ele fez e reforçou muitas amizades, pois soube olhar para a terra e reconhecer o seu papel de mãe. ("terra é mãe", (diziam os índios). Ela dá frutos. Ele também plantou pés de abóbora, 'none', pimenta e plantas medicinais. Interessante, esse menino colheu frutos e amizades, graças aos pés de mamão e à mãe-terra.

A MORTE IGUALA A TODOS

Dia desses estive no cemitério e constatei uns detalhes que muitas vezes passam incólumes aos nossos olhares. Vi o túmulo de um poderoso político enterrado bem ao lado de seu maior inimigo (ambos morreram sem se falar).
Com mais alguns passos li o epitáfio triste de um casal muito conhecido na região: uma dama poderosa, falecida de um acidente grave e seu segundo marido descansavam para sempre. Logo atrás de seu túmulo estava o primeiro marido de tal dama. Em vida, foram grandes inimigos. Logo à esquerda, estava a lápide de uma famosa miss, sepultada ao lado de uma conhecida que passaram a vida trocando farpas. Eram duas das mais belas mulheres daquele município. Morreram velhas e nunca se bateram.
No centro do “campo santo” jazia um mausoléu imponente... chamava a atenção de todos (tinha até lustre). Nele “descansava” um dos fazendeiros mais ricos da região. Estava cercado por outros falecidos da mesma estirpe, mas ferrenhos inimigos quando andavam pela terra (brigavam por divisas territoriais, gado e outras coisas mais).
Próximo deles, jazia a cripta de um belo jovem, assassinado há muitos anos por um inimigo que roubou sua namorada. O assassino estava sepultado à sua direita, junto com sua ex-amada.
Num canto mais descuidado e tosco, exatamente na raia que divisava a classe abastada da humilde, jazia a sepultura do “Seu Tuca”, um senhorzinho que passou pela vida sem ser visto por quase ninguém. Morreu igual nasceu. Só levou ele. Não deixou nada. Justamente ao lado dele estava erigido uma cripta que mais parecia uma capela, na qual dormia um ex-milionário, prepotente, soberbo, preconceituoso (aqui para nós, detestava pobre). Com certeza, se antes de sua morte pudesse ter sabido que seria vizinho de "Seu Tuca", teria comprado um cemitério pessoal - só para ele.
E assim fui me dando conta desse cenário de mortos que, quando vivos detinham as mais variadas diferenças, outros, não suportavam nem se cruzar. Mas, ali, mortos, divisavam-se a poucos centímetros uns dos outros como se tivessem sido iguais quando vivos. Não havia hostilidades no cemitério. Não havia mais diferenças entre eles, exceto as alvenarias – fruto das vaidades dos que ficaram.  Debaixo da terra, tudo era igual...
Interessante a questão das diferenças. A política, por exemplo, separa boa parte das pessoas, torna-as inimigas ferrenhas. Não adianta dizer que não, pois as exceções são raras. Muitas vezes os protagonistas até se falavam antes de seus posicionamentos, se admiravam, se respeitavam, mas justamente a política, que deveria fazer o contrário, desuniu-os. Foi o bastante para um dizer para o outro: “você pensa diferente de mim, então fique lá que eu fico cá”. Há casos até de se desviar de calçada. E quando se busca o motivo – vejam que besteira – POLÍTICA.
O cemitério aí de cima descortinou uma variedade de tipos humanos inimigos que, depois de mortos, findaram eternamente uns ao lado dos outros, como se houvera sido amigos quando vivos. Não havia mais como propor mudar de lugar, reclamar propriedade, exigir o que quer que seja... não havia mais como haver diferenças políticas, ciúmes, iras... afinal estavam mortos.
Só mesmo a morte para igualar a todos... e igualar até mesmo os inimigos ferrenhos. Não adianta negar, pois a morte – sábia – iguala mesmo.
Você pode até detestar a morte, mas um dia ela será sua eterna amiga, e o fará igual a todos. A morte, só ela, possui essa façanha.

SOMOS O QUE PENSAMOS

Penso que...
Seja tempo perdido preocupar-se com coisas que podem ser fruto de fraquezas - ou do ato de darmos espaço às coisas diabólicas sem que nos demos conta.
É muito frequente - principalmente em redes sociais - pessoas se preocupando sempre com alguém tentando destrui-lo (la), que tem alguém sentindo inveja, que alguém está querendo algo alheio, que tem alguém querendo boicotar algo etc etc etc.
Obviamente que no Mundo existe a maldade,  mas podemos fechar o cerco dela com nossa bondade e com nossas atitudes altruístas.
Creio que o tempo gasto com esse sentimento - que é fruto de fraqueza e complexo de inferioridade - poderia ser usado para se externar mensagens boas e positivas.
Quem tem bom caráter e sente a presença de Deus dentro do coração é blindado de coisas que podem ser meramente projeções.
Os sentimentos que pensamos que outrem sentem por nós podem ser o contrário. Muitas vezes pode ser nós que estamos sentindo algo que condenamos nos outros.
Por que necessariamente todos tem que sentir inveja de mim?
Por que necessariamente todos estão cobiçando minha beleza?
Por que necessariamente todos estão de olho na minha namorada?
Por que necessariamente todos estão querendo tomar o meu emprego?
Por que necessariamente todos estão querendo me fazer o mal?
Por que necessariamente as outras pessoas estão com despeito porque comprei um aparelho celular de última geração?
Ora, que bobagem!
O que existe de construtivo nessa paranoia de viver pensando que as pessoas necessariamente vivem em função de fazer maldade para mim ou para outrem?
Qual a regra que uso para tais julgamentos?
Essa regra não seria a nossa própria maldade? Ou estou me sentindo com complexo de inferioridade?
Se julgo que todos estão com inveja de mim ou algo parecido, não estaria, eu, projetando a inveja que sentiria acaso estivesse em papéis trocados?
Por que devo achar que os olhos alheios estão sempre atentos para desdenhar, cobiçar, malversar etc et etc?
Por que devo achar que a boca alheia está sempre falando mal de mim ou dos outros, jogando praga, caluniando et etc etc?
Se sou uma pessoa justa, ética, correta, altruísta, dinâmica etc, não perco tempo com asneiras.
A partir do momento que anulamos essas possibilidade do nosso dia-a-dia as coisas se tornam melhores.
Quando damos valor a sentimentos pequenos acabamos nos tornando pessoas pequenas com sentimento de inferioridade.
Quando deduzimos que os outros pensam isso ou aquilo de nós, acabamos nos tornando seres humanos fracos e cristãos vazios.
Quando passamos o tempo todo supondo que os outros conspiram contra nós, acabamos criando uma aura má em nós mesmos. E acabamos nos tornando pessoas realmente más.
Nunca pense em ser maior ou melhor que ninguém, mas não deixe que pensamentos menores sejam superiores ao verdadeiro sentido da vida.
Se sou uma pessoa do bem, ignoro o mal e me blindo dele pela minha alegria e pela paz de espírito que sinto por fazer o bem e desejar sempre o bem.
Quando passamos a agir assim acabamos minando as forças ruins e negativas que nem sempre existem na dimensão como supomos.
Deixemos de paranoias e sejamos realmente pessoas boas.
O que vale é o bem, mesmo que porventura seja mal compreendido. Luís Carlos Freire


TREPADEIRA INVEJOSA


No prado verdejante imperava a solitária árvore.
Imponente, frondosa, exibindo-se por excelência e despretensiosa.
Seus galhos, robustos, sustentavam milhares de folhas e vergontas que resplandeciam luzidias, como que esmaltadas pelo deus da natureza.
Seu tronco, majestoso, ostentava sulcos desconformes, parecendo veias gigantescas rasgando o solo... verdadeiro alicerce do imenso vegetal.
A bela espécie, generosa, gabava-se da sua servidão.
Quantas vezes ofertava o frescor de sua sombra a homens e bichos.
Suas cascas emprestavam moradia a vermes, formigas, lagartos e toda sorte de insetos, num trânsito incontinenti e confuso, do troco a copa.
O cimo assistia diariamente o entrudo da passarada, o balançar das casas de abelha proporcionado por incautos macacos.
O vento farfalhava aquela micro-floresta, num vai-e-vem irregular... Ora ríspido...Ora manso e quase imóvel.
Incontáveis ramalhetes de uma flor amarela, almiscarada, pareciam querer chegar ao céu para ser colhidas por mãos divinas.
Sua essência exalava pelo derredor, roubada pelos ares, perfumando o mágico panorama.
Abelhas, vespas, formigas e beija-flores regalavam-se naquele banquete de néctar...
Era assim... nesse ritmo que vivia aquele monumento natural.
Certo dia percebeu que em seu tronco despontou uma planta rasteira com inúmeras vergontas.
Os dias foram se passando e a singular árvore percebeu tratar-se de uma trepadeira, a qual, desautorizada e atrevida, escalava seu caule.
Uma sensação desconfortável apossou-se do enorme vegetal, o qual, incólume, assistia um emaranhado de cipós revestindo seu corpo, sufocando-a como fazem as sucuris às suas presas.
Em poucos dias aquele câncer em forma de veias deslizou desenfreadamente, trilhando galhos, folhas e flores, cobrindo-os sem piedade.
A árvore, inconformada, quebrou o silêncio e bradou:
- O que fazes comigo?
- Ora! – respondeu a trepadeira – estou em busca de luz, afinal é do sol que tiro grande parte do meu sustento.
- Mas para isso precisa subir em alguém?
- Bem sabes que não tenho rigidez necessária para manter-me ereta como você. Necessito de suportes. Sois robusta e forte, tens meios de garantir minha sustentabilidade.
- E por acaso vos ofereço ajuda?
- Não! Mas eu apenas aguardei oportunidade.
- Sois traiçoeira como serpente – disse a árvore – é por isso que teus cipós se parecem com ela. Não seria melhor se vivesses no chão, já que sois fraca de espírito e físico?
- Como sois bobinha, dona árvore! Se tenho em quem subir, por que haveria de ficar sempre em baixo, rastejando-me? Achas que eu preferiria ser pisoteada por animais e homens? Ademais estaria sendo alvo de urina, fezes e cuspe.
- Sois oportunista!
- Que nada. Sou esperta. Isso sim!
- É fácil ser esperta com o suor alheio. Na realidade sois desprezível.
- Cala-te! Veja que já é noite. Olhe como a lua está linda. Veja quantas estrelas no céu!
- Como posso enxergá-los se já me cobres quase completamente.
- Não sejas faladeira, cara árvore. Já apreciaste tanta beleza daqui de cima. Que delícia é o orvalho e a brisa nessas alturas.
- Já não sei mais o que é isto, pois tolheste esse direito natural. Tuas folhagens me fazem definhar.
- É a lei do mais forte. Não é assim que dizem?
- Forte?! Chamas isso de forte? A mim parece fraqueza. Como pode alguém pensar que o mal possa ser forte?
- Lá vens com o teu filosofar!
E estavam nesse diálogo quando começou a brotar da trepadeira incontáveis flores vermelhas, opacas, sem beleza e com cheiro horripilante, a qual já cobria completamente a árvore. O infeliz vegetal já não possuía mais folhas e sim um emaranhado de galhos retorcidos e esmagados pelo peso da hospedeira. Até os bichos a abandonaram, enojados do cheiro nauseabundo.
- Dona árvore, veja como são lindas as minhas folhas e flores – insultou a trepadeira.
- É fácil ser bonita dessa forma. Existe muitos por aí iguais a você! Por favor, já conseguiste o que queria. Agora deixa-me em paz, não percebes que estas me sufocando? Deixa-me produzir minhas flores. Por que não procuraste uma cerca ou árvore morta?
- Ora! Achas que eu iria deixar-te em paz com tua exuberância? Antes ninguém olhava para mim. Nem minhas folhas eram vistas. Veja agora como estou imponente e visível. Cansei de vê-la esplendorosa, imponente, sendo elogiada por todos. Eras o centro das atenções.
- Tu é quem dizes! Se isso ocorria eu não usava para fins de promoção. Mas saiba que todos possuem valores, mas nem todos possuem talento. Nunca busquei exibir-me, simplesmente fui o que sou, mas contigo foi o contrário. És hoje o que nunca conseguiste – por teu próprio suor – ser. Chegaste ao topo por vias torpes. Isso é o que chamas de troféu?! Agora, mas uma vez te imploro: deixa-me ver a luz do céu. Deixa-me ver as estrelas. Deixa-me ver os pássaros. Deixa-me sentir o vento...
- Ora, deixa de bobagem. Agora o único astro aqui sou eu. Eu sou a estrela!
- Reconheça, senhora trepadeira, que o sol nasceu para todos. Olhe para o céu. Veja a infinidade de estrelas. Todas brilham e ninguém rouba o brilho da outra...
- Isso é lá no céu. Aqui é a Terra e hoje eu sou o poder!
- Ainda bem que tu mesmo é quem diz. Mas que poder é esse? Poder?!
- Claro!
- Sois dissimulada e execrável. Bem disse alguém que, se quiseres conhecer outrem, dê-lhe o poder. Ontem mesmo eras tapete. Hoje andas sobre ele. Toma cuidado. Já te disseram que quanto mais alto é o posto, mais forte é a queda? Saiba que grandes impérios ruíram.
- Sois ingênua com essas falácias. Não vês que hoje não sois nada.
- Ingênua? Pelo que vejo não compreendes a vida. Para mim sois uma infeliz que pensa ser alguém. Como podes ser alguém prejudicando os outros? Para mim não passas de uma trepadeira invejosa.
E estavam ainda nesse colóquio quando chegou o dono das terras e ordenou ao capataz:
- Corte todo esse cipó, mas tenha o máximo de cuidado para não ferir a árvore. Há três meses que não vejo a beleza da sua copa nem sinto o delicioso perfume de suas flores!
Em trinta minutos os destroços estavam no chão...
Dois meses depois a àrvore retomou sua forma original


TEMPO E SILÊNCIO



Um jovem perguntou a um velho:

- Onde posso encontrar um sábio que possa responder-me incontáveis indagações que não encontro respostas? Já percorri todos os lugares e perguntei em vão.
O velho respondeu:
-Diga-me o que tanto o intriga.
O menino disse:
- Quero saber qual a verdadeira igreja. Como posso saber se uma pessoa fala a verdade ou se mente? Como posso identificar a índole de uma pessoa? Como posso saber se alguém quer me prejudicar? Qual o melhor time? Qual o melhor partido?
O velho, fitando-o respondeu-lhe:
- Suas perguntas apenas perecem complexas, mas as respostas são simples demais!
O menino, demonstrando perplexidade, indagou:
- O senhor é um sábio?
- Não! De forma alguma. O sábio que você procura chama-se tempo e silêncio. Saiba, meu jovem, que todas as suas indagações só lhe serão respondidas pelo tempo... e pelo silêncio.


VISÃO

Eram dezessete horas e meia, mais ou menos. O padre deixou a casa paroquial naquele seu único dia de folga na semana.
Caminhou até a praça logo à frente e viu um menino de aproximadamente seis anos, agachado, cavoucando a terra, sobre um canteiro de flores.
O religioso chegou até a criança, em silêncio.
Ao observar o padre, o garoto levantou a cabecinha e disse:
- Boa noite!
O padre, surpreendido, indagou-lhe:
- Não é hora de criança estar em casa tomando banho para jantar?
- O garoto, olhando-o com ternura, respondeu:
- Quisera que todas as crianças pudessem ter o que comer. Por certo, se isso fosse realidade, nenhuma estaria vagando pelas ruas a esta hora. O senhor já imaginou quantos inocentes estão jogados nas ruas nesse momento, e famintos?
A perplexidade tomou conta do padre, o qual jamais imaginara receber semelhante resposta de uma criança. O menino levantou-se. O religioso percebeu que sua camiseta estava suja de sangue a altura do peito esquerdo.
Preocupado, o padre perguntou:
- Isso é sangue? Quem te machucou?
O menino disse-lhe:
- Muitos me machucam.
- Mas eu sou padre e quero ajudar-te. Responda-me, quem são os que têm a coragem de machucar tão linda criança? Disse o padre.
- Muitos, muitos! Disse o garoto.
- Mas onde estão essas pessoas, fala-me que poderei ajudar-te. Continuou o padre.
- Elas estão em todos os lugares, inclusive na Casa do meu Pai, disse a criança.
Ouvindo isso, o padre sentiu uma sensação estranha percorrendo todo o seu corpo. E continuou:
- Como pode estar na Casa do Pai alguém capaz de ferir uma criança? Jesus disse: deixai vir a mim as criancinhas, pois delas é o Reino de Deus.
- A resposta está na “parábola do joio e do trigo” que o senhor tão bem conhece. Vinde, dê-me tuas mãos e acompanha-me, disse a criança, tomando as mãos do religioso.
- Para onde queres levar-me? Perguntou o padre.
E de mãos dadas com o padre, o menino foi entrando na Igreja Matriz e dirigindo-se aos quinze quadros que retratam a Paixão de Cristo, expostos à esquerda do altar.
- Veja, aqui está o resumo da história de quem ofereceu a sua própria vida para salvar a humanidade - disse o menino.
E apontando estação por estação comentou-as com impressionante conhecimento de exegese bíblica. Muitas vezes falava por parábolas, servindo-se de uma erudição surpreendente. O religioso comportava-se de forma atônita, procurando entender o que representava aquilo.
Encerrada as explicações da décima quinta estação, a criança segurou com força as mãos do padre, puxando-o para si, e correu em direção do Altar-Mor.
- Venha conhecê-lo... Ligeiro... Olhe, Ele está aqui! E soltando as mãos do religioso a criança dirigiu-se, apressada, aos degraus que a conduziam ao Santíssimo.
Uma luz descomunal invadiu o altar. Era uma claridade anômala, tão incomum que o padre sentiu-se como se estivesse dentro do sol. O fenômeno o deixou cego. A luz faiscava intensamente, aumentando a cada segundo. O Altar pareceu estar suspenso e o padre sentia-se levitar, procurando a criança que silenciara.

Prostrado, perdeu os sentidos.
De repente percebeu que estava caído aos pés do altar, abordado por algumas crianças que entraram para rezar o terço.
Questionado pelas crianças sobre o que fazia ali daquele jeito, desconversou, dizendo que estava prostrado em oração.
Olhou o Santíssimo, fez o sinal da cruz e saiu com ar contemplativo, caminhando lentamente no mais profundo silencioso. LUIS CARLOS FREIRE

Mensagem de Natal

Aproxima-se o Natal e o Ano Novo.

Cartões viajam pelos Continentes

Levando palavras...
Mensagens vão e vêm.
Lembremos que o mais importante
É sentirmos e vivermos as palavras
Impressas nos cartões.
Vivenciar as palavras significa
Praticar o que está no papel,
Pois não adianta apenas vaticinar.
É necessário vivência e testemunho.
Costumamos desejar fartura,
Mas nem sempre olhamos para aqueles
Que há tempo aguardam um simples
Prato de arroz com feijão,
Num contrastante cenário da
Ceia farta de nossas casas.
Normalmente escrevemos sobre paz,
Mas não fazemos nada para que
Nossos vizinhos sejam felizes.
Falamos de solidariedade, mas permanecemos
Inertes diante da dor física ou psicológica
De muitos de nossos irmãos.
Muitas vezes omitimos até mesmo
Uma palavra de conforto diante da
Carência de tantos.
Muitas vezes de um próprio
Companheiro de trabalho.
Refletimos sobre um Ano Novo feliz,
Mas não fazemos por onde a paz
Estar em nossos próprios lares.
Escrevemos sobre justiça, mas nos silenciamos
Diante daqueles que promovem a injustiça.
É bom que nesse Natal pensemos em tudo isso,
Pois os atos são muito mais importantes que palavras.
Muitas delas se esvaem ao vento.
Já os atos... os atos dignificam.
A culminância do Natal é o Amor.
O dia 25 de dezembro serve para
Lembrarmos do amor.
Lembremos de Jesus Cristo.

E que o Papai Noel seja apenas um incremento folclórico.