ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que navegam levemente nessas águas. Os textos são de autoria de Luís Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. Esse parentesco ocorre pela parte das raízes da mãe do autor deste blog, Maria José Gomes Peixoto Freire, neta de Maria Clara de Magalhães Fontoura, trineta de Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, descendente do Capitão-Mor Bento Freire do Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra, dos quais descende a mãe de Nísia Floresta, Antonia Clara Freire. Essas informações são encontradas no livro "Os Troncos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti, um dos maiores genealogistas brasileiros. O referido livro pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de lendas, crônicas, artigos, reproduções de reportagens de interesse nacional, fotos poesias, etc. É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA. OBS. Só publico comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone, pois repudio anonimato.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

NÍSIA FLORESTA MAIS UMA VEZ PERDE O SELO UNICEF

Por Luis Carlos Freire

Em 2006 fiz parte da Comissão de Avaliação do Selo UNICEF, através do Escritório de Representação deste órgão no Ceará. Éramos quatro apreciadores de um vasto material enviado pela maioria dos 167 municípios potiguares.

Fomos capacitados de forma que devíamos analisar uma multiplicidade de tópicos, cuja pontuação maior ia par

a aquilo que fosse realmente comprovado, ou seja, que o objeto analisado fosse comum ao município.
Na versão daquele ano uma série de tópicos deviam ser evidenciados sob forma de fotografias, CD's, DVD's, documentos escritos, cópias de artigos em jornais, matérias jornalísticas que porventura reforçassem o que estava sendo apresentado, mapas etc.
O objetivo era sentir a veracidade da realidade do município que postulava o selo, pois tudo seria checado posteriormente.
Lembro-me que fiquei ansioso, aguardando o material que chegaria de Nísia Floresta e São José de Mipibu.
Eram muitos envelopes. Alguns imensos.
Mossoró mandou tudo numa caixa de madeira artesanalmente feita.
Parnamirim enviou até camisetas, CD’s de hinos, eventos, incontáveis fotos…
Diversas cidades, como Bodó e Ipanguaçu, municípios simples, mandaram um material excepcional.
Muito tempo depois fui dar uma formação para professores nesses dois lugares - durante a semana pedagógica - (coisa que em Nísia Floresta a SEMEC local proporciona todo dia (desculpe a ironia) e fui recepcionado de forma que vi a veracidade de tudo.
Foi emocionante! Não se tratava de maquiagem, conforme vi numa versão do Selo Unicef, algum tempo depois, em Nísia Floresta.
Mas, voltando á Comissão de valiação, e Nísia Floresta?
Os demais integrantes da Comissão diziam: “Luis Carlos está ansioso para receber o material de N|ísia Floresta!”.
Para minha decepção, não veio nada. Nem de São José de Mipibu.
Parece piegas, mas é muito triste!
Reconheço que algumas pessoas até podem achar que digo isso por questão de política partidária, mas não!
É uma questão de indignação mesmo (quando a gente perde essa capacidade, tudo bem, mas eu a tenho demais).
Indignação de cidadão nisiaflorestense que sou.
O pior é que muitos dos meus conterrâneos ficam calados, sem manisfestar opinião, sem sugerir, sem criticar…
E essa atitude soa como permissividade.
Alguns poderiam perguntar-me "O que você tem feito para ajudar Nísia Floresta a receber o Selo Unicef"?
A minha resposta é: "Olhem para a história da educação, da cultura, da política - a própria História em si.
Minha casa sempre foi um lugar de recepção de nisiaflorestenses e gente de todo o Brasil e mesmo do exterior, os quais requerem materiais sobre todos esses temas.
Sempre me servi da generosidade intelectual, pois assim aprendi.
Mas voltando ao que interessa...
Quisera Nísia Floresta receber o Selo Unicef para ver a guinada, mas uma coisa é certa: O UNICEF não aceita maquiagem, coisa montada "para inglês ver".
Eles querem saber se aquilo que apresentam como benefício à sociedade – em especial às crianças e aos adolescentes – é real, ou seja, o povo está habituado.
Só isso!
Agora eu lhe pergunto? É difícil fazer isso?
Não!
Basta querer.
Nísia tem tudo para isso.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

CARTA DA LAGOA PAPARY AOS NISIAFLORESTENSES


CARTA DA LAGOA PAPARY AOS NISIAFLORESTENSES

Por Luis Carlos Freire 


Nísia Floresta, 10 de janeiro de 2010


Eu, LAGOA PAPARY, brasileira, natural de Papary, Rio Grande do Norte, casada com os nativos, domiciliada no Porto, em Morrinhos, Tororomba, Oitizeiro, Georgino Avelino, Currais e Genipapeiro, 
dirijo-me respeitosamente até você, nisiaflorestense para pedir-lhe socorro.
Prefiro começar falando da minha origem. Você sabia que o meu nome original é PARAGUAÇU. Significa “MAR IMENSO” em nossa língua materna. Nem precisa perguntar o porquê. Eu já fui maior do que sou atualmente.
Sou filha da Lagoa do Bonfim, que se chamava “PUXI”. Mas prefiro não traduzir essa palavra condenada pelos capuchinhos. Sempre fui encorpada. Nasci no seio de uma família imensa. Tenho muitas irmãs, Papeba, Papebinha, Ferreira Grande, Ferreirinha, Urubu, Escura, Lagoa Seca, Carcará, Arituba, Cavalos, Pium, Amarela, Ilhota Lodo, Sítio, Dourada, Alcaçuz, Tacho, Jabuti, Hiola, Redonda e Redondinha, Carnaúba, Teixeira, Anjos, Custódia dos Negros e Peixe, embora algumas são adotivas.
Tenho vários primos em forma de pequenos rios no centro da cidade, no Porto, na Ilha, na Boacica, em Pirangi, Alcaçus, Pium, Cururu, na Hortigranjeira, enfim estou indiretamente em todo o município.
Sobre a minha idade, prefiro não dizer, mas só para dar uma pista, eu já existia muito antes de os índios chegarem por aqui. Já fiz a alegria de muito índio e índia que viviam nas minhas matas ciliares, pescavam, andavam de canoas e se banhavam em minhas águas.
Das minhas entranhas saíam infindáveis peixes de quase trinta quilos. Fui berço de milhares de goiamuns, carangueijo-sá, siri, camarão, inclusive Pitu, dentre uma vasta micro-fauna.
Sou a lendária lagoa Papary, d’antes Paraguaçu. Sou o amplo reservatório das águas do Trairí, berço das águas oriundas do inverno sertanejo, onde pequenos riachos correm dos tabuleiros arenosos, dando origem a essa imensidão de águas que se interligam com outras lagoas e rios, como o velho Cururu que desembocam no mar.
Desde que os portugueses começaram a andar por esses rincões meu nome original, Paraguaçu, passou a ser documentado na história. Começou pela cartografia de Marc Grave em meados da década de 1640. E antes disso eu já era conhecida em Portugal. O tempo passou e, em 1810, o famoso viajante inglês, Henry Koster, visitou-me quando minhas águas chegavam até o Porto.
Em seu livro “Viagem ao Nordeste do Brasil” ele relata que ficou encantado quando viu os pescadores chegando com as canoas abarrotadas de peixe, me comparado ao Mercado de Billingsgate, na Inglaterra, por minhas águas piscosas. Fui cantada em prosa e verso por autor anônimo que me dedicou bela poesia centenária, evocando a lenda de Jacy e Guaracy; citada por inúmeros viajantes europeus em documentos antiquíssimos.
Sempre fui considerada deslumbrante, misteriosa e acolhedora. Essa lenda, “do arco da velha”, nasceu quando passaram a me chamar de Papary, e aos poucos esqueceram que fui Paraguaçu. Se você não a conhece veja a letra:

Contava-se em Papari
A lenda de uma sereia;
Era a história de Jaci,
Jovem tapuia da aldeia.

Jaci formosa e catita,

Filha do chefe Aribó
Era a índia mais bonita
Do Vale do Capió.

Amava com amor ardente

Guaracy jovem guerreiro,
Cujo peito igualmente
Nasceu um afeto primeiro

Sozinho na solidão

Guaracy vagava a toa,
Ora ao redor da Caiçara,
Ora ao redor da lagoa.

Certa vez quando pescava

Tentando esquecer as mágoas,
Ouviu que perto cantava
A voz de Jaci nas águas.

A delirar, Guaracy.

Na lagoa mergulhou
Seguiu a voz de Jaci
E a tona não mais voltou.

Hoje esta lenda triste

Quem se dispõe a cantar
Vê quanto mistério existe
Entre a lagoa e o mar.

É uma estória triste, não? Pelo jeito foi escrita no período do Romantismo. Guardo lembranças lindas, tristes e algumas aterrorizantes. Ainda me recordo quando vi, em silêncio, Jacob Rabbi passar por essas veredas. Logo após a Chacina de Cunhaú, vi quando seu grupo passou por aqui, rumo a Barra de Tabatinga para a segunda chacina. Poucos nisiaflorestenses sabem desse episódio histórico. Era noite de lua cheia e as sombras asquerosas daqueles assassinos ainda tocaram-me entre os juncos.
Testemunhei homens brancos de olhos azuis cortando uma linda espécie que existia em abundância por essas matas ciliares. Lembro-me de um dia que só dessa região saíram 40 navios franceses repletos de pau-brasil.
Sempre fui muito limpa. A própria fauna aquática que existia em mim se encarregava dessa limpeza. Minhas águas sempre foram puras e cristalinas. Às vezes eu ficava turva, pois a Caiçara que tanto me amava, me abraçava por completo, deixando-me ora salgada, ora doce, ora salobra.
Sabe o que significa Caiçara? Não?!! Para que todos entendam precisamos nos reportar ao descobrimento do Brasil: Quando os portugueses chegaram ao Nordeste encontraram o nativo indígena e, através de uniões amorosas, se misturaram. Tempos depois, veio o africano e mais um ingrediente étnico-cultural entrou na mistura. Nasciam os caiçaras, uma população tradicional intimamente ligada à natureza e seus ciclos, que trabalhavam para o sustento cultivando roças, extraindo frutos e lançando-se à caça e à pesca.
A palavra “caiçara” tem origem tupi-guarani. “Caa” significa pau, mato; “içara” quer dizer armadilha. Caiçara é um tipo de proteção feita de galhos e varas que os índios usavam em volta de suas casas ou para pescar. Com o tempo, a palavra passou a ser usada para identificar o povo litorâneo, mas hoje ninguém se recorda mais disso. Os homens parecem interessados em outras coisas.
Minhas águas sempre atraíram galinha d’água, pinto d’água, marreco, xexéu, rolinha, galo de campina, bem-te-vi, tetéu, sabiá, concrix, carcará, lavadeiras, gavião e tantas outras aves. Saciei a sede de muito tatu, tijuaçu, jacaré, cotia, coelho-do-mato, preá-do-mato, raposa, guaxinim, timbu e tantos outros animais. Era uma riqueza. Isso parecia o pantanal.
Mas, continuando o que eu falava, sempre dei alegria aos nativos. Das minhas águas saiam incontáveis centenas de quilos de peixes e camarões durante a festa dos Pescadores, em setembro. O pessoal do Porto fazia barracas, havia celebrações, festa social com muito forró original. As casas eram todas de palha. Tinha até o famoso dízimo-do-peixe. Foi um tempo que deixou saudades.
Durante incontáveis invernos sempre recebi as águas do sertão. Essas águas trouxeram lentamente muita terra que foi me assoreando aos poucos. Em 1974 houve uma enchente que ficou na lembrança de muita gente. A famosa “cheia de 74”. A força das águas rompeu a BR 101, nas proximidades de São José de Mipibu, deslizando em mim toneladas de barro que elevava a pista.
Existia uma barragem em Georgino Avelino. Ela também se rompeu me enchendo de barro e entulhos. A partir daí nunca mais fui a mesma, embora ainda não era poluída por dejetos. Antes eu era interligada com os rios de toda a região de Currais a Genipapeiro, chegando rente à estrada de acesso a tais distritos. Mas fui me reduzindo e me distanciei do Porto, principalmente. Muita área que era só água hoje está tomada por aninga, pasta e aguapé. Todo o meu leito está cheio de terra vinda de outros rios e de algumas cidades potiguares, pois como suas margens estão desmatadas essas terras ficam soltas e a cada chuva deslizam para os rios até o ponto final, que, por ironia, antes de chegar ao mar, sou eu. Num dos meus pontos mais fundos formou-se um câncer em forma de um gigantesco banco de areia, maior que um campo de futebol. Parece uma ilha vulcânica.
Minha micro-fauna e flora aquática estão quase totalmente destruídas devido a essas agressões. Os meus plânctons nem se fala. É por isso que não tenho mais gerado tantos peixes e crustáceos como antes, pois essa fauna se alimenta da minha micro flora e fauna. A vegetação do mangue é minha verdadeira muralha de proteção, muito antes da mata ciliar. Mas, ao longo dos anos vem sendo cortada para a construção de casas de taipa dos próprios nativos, além de outras finalidades.
Eu pensava que com o advento da alvenaria isso se acabaria, mas agora apareceram os viveiros e minhas margens mais parece um descampado. O pouco que restava desse micro-ecossistema está morrendo lentamente devido aos produtos químicos que estão usando. Estão jogando um líquido esquisito nas minhas margens e ele mata tudo que é vivo, seja animal ou vegetal. Em fração de segundos os lambarizinhos sobem e apodrecem por ali mesmo. Minhas imediações fedem como o Tietê. Pelo que vejo, se os fatos continuarem como estão, serei tal qual esse rio paulista.
Se minhas margens ficarem savanizadas estará decretada a minha morte e as consequências serão catastróficas para todos. E lembre-se que meu caso é mais grave, pois estou sobre os aquíferos Aluvião e Barreiras, um dos maiores do Rio Grande do Norte. Isso entra na sua cabeça?! Você já analisou a gravidade?!
Confesso que estou muito triste, pois ouço muitas lamúrias, principalmente de pescadores, de pessoas aficionadas por ecologia, mas ninguém age. Onde estão as autoridades, onde estão os amantes da natureza, os estudantes de ecologia, de turismo, enfim as camadas pensantes do meu município?!
Para quem tem memória curta, lembro que sou aquela que matou a fome dos seus antepassados, numa época em que tudo era mais difícil. Quando não existia Bolsa Família, nem aposentadoria tão fácil como atualmente. Sou aquela que representou a única fonte de alimentação da sua família, numa casa de taipa ou de palha. Lembra-se?!
Sou aquela que enchia os cestos de peixe, pitu e carangueijo para os seus avós e pais, os quais chegavam em casa felizes, entregavam o fruto da pesca às esposas. Estas se sentavam nos batentes das portas ou mesmo no chão, junto das bacias repletas do pão de cada dia para prepará-los.
À noite a mesa era farta. Do fogão de lenha saia bem quentinho inhame, fruta-pão, batata assada, macaxeira acompanhada de peixe frito ou assado, camarão, caranguejo, goiamum, siri, café e muita fartura. Tudo isso regado à família unida, certa de que minhas fontes eram inesgotáveis.
Existiam nativos que montavam pequenas barracas cobertas de palha ao lado das estradas de acesso às praias e passavam a vender variados pratos à base de camarão no alho e óleo, no molho, feito vatapá, e isso fez a fama, a ponto de futuramente surgirem restaurantes simples, mas com grande movimentação. Os famosos “camarão de fulano”... ”Camarão de Sicrano”...
Toda tardinha os pescadores juntavam o fruto da pesca e bem cedo saiam para Natal. Passavam o dia gritando pelas ruas: Olha o camarão! o peixe! o siri! o goiamum! o caranguejo! E isso deu ao município de Nísia Floresta a alcunha de “Terra do Camarão!” Esse contexto deu origem à tradição que permite até hoje as pessoas de outras localidades virem para cá apreciar tal iguaria. Era muita fartura e riqueza, tanto nas águas quanto na agricultura. Mas mesmo assim os nativos eram simples demais. O progresso era uma coisa distante. Ir a Natal consistia numa aventura! A própria capital era lugar sem muita novidade.
A maior alegria das famílias era se reunir nos finais de semana para banharem-se em minhas águas e passear de canoa. As árvores ao meu redor era um verdadeiro parque de diversão. Normalmente as famílias chegavam ao amanhecer e passavam o dia ao sabor de água de pote e “liguento”. Eles eram felizes e não sabiam. Hoje quem entra em minhas águas sai se coçando e fica com a pele irritada. E tem muitos pescadores com sérias doenças de pele.
Lembro-me de uma época em que coisas comuns como um chinelo ou um pão eram grandes novidades em Nísia Floresta. Hoje todos parecem ricos. Estou cercada de parabólicas. O curioso é que exatamente muitos daqueles cujos bisavós, avós e pais se alimentaram do que eu tanto produzia, esqueceram-se do imenso valor que me davam. Hoje talvez eu não represente nada, pois talvez estejam ganhando muito dinheiro e não saibam mais o que é a fome.
Isso me incomoda, pois sempre dei sem exigir nada em troca. Hoje pareço ser a personificação da velha frase: “É cuspir no prato que comeu!”.
O tempo passou. As coisas foram se modernizando. Hoje os pescadores têm seguro. Acho que somente eu estou desamparada, sem aposentadoria, seguro, Bolsa Família... E ainda querem me fazer de fossa!
Hoje recebo esgoto, os dejetos e as águas servidas do meu velho amigo “Mipibu”, outra vítima de ingratidão. Esse famoso rio de linda história, verdadeiro tesouro encravado em resquício de mata atlântica, agoniza. Esquecem as autoridades que da sua fonte vem a água que abastece toda a cidade de São José do Mipibu.
Na realidade o rio não tem culpa, pois ele deságua em minhas águas cumprindo a sua missão natural. Mas foram das mãos humanas que saíram as galerias subterrâneas de concreto, oriundas de São José de Mipibu, as quais desembocam nele.
Os pescadores nisiaflorestenses não têm do que viver. É muito triste ver meu povo passando necessidade. É apavorante saber que homens e mulheres veem o sol nascer e se pôr acompanhados por uma garrafa de cachaça. Talvez eles se anestesiem para não ver a paisagem triste da minha agonia e da a sua própria miséria.
Em Nísia Floresta já começa a aparecer consumidores de crack, maconha e outras drogas. Existem distritos que margeiam minhas águas com pontos de drogas. Vejo tudo isso com lágrimas nos olhos, pois não posso fazer nada.
Não pense que sou exagerada, mas os problemas sociais como esses e outras mazelas decorrem da minha decadência. A minha ruína significa a amplitude da miserabilidade em todos os seus aspectos no meu município.
Volto a perguntar: onde estão as autoridades mipibuenses, nisiaflorestenses e natalenses que em pleno século XXI, em plena Àrea de Proteção Ambiental, em pleno solo onde existe o Instituto Chico Mendes, em plena Mata Atlântica, não enxergam os atentados que sofro diariamente e os danos sociais decorrentes disso?!
Será que enxergar e acabar com isso compete meramente às autoridades mipibuenses e nisiaflorestenses?!
E você, o que pensa disso?!
Aguardo a sua ação, afinal ainda é tempo, mas se você demorar eu morrerei, pois eu própria não posso fazer nada por mim.
Aí será tarde e seus filhos e netos não me conhecerão!
Mas lembre-se: a minha morte significará muitas mortes!!!
Um grande abraço!

Lagoa Papary

sábado, 24 de novembro de 2012



BREVE HISTÓRICO DA PROFESSORA APARECIDA BASÍLIO

         Por Luis Carlos Freire 

Podemos encontrar uma explicação bem fácil para entendermos a história da professora Aparecida Sales servindo-nos da Santa Bíblia Sagrada, quando ela traz as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando Ele diz  “Vinde a mim as criancinhas!”.
Essa comparação se justifica no fato de a referida professora ter vivido a maior parte da sua vida cercada de crianças, na condição de professora do ensino infantil.
Essa história começou no ano de 1982, quando sua amiga de infância, Soledade Araújo, conhecida como “Suli”, reconhecendo o seu potencial, apresentou-a à professora Terezinha Leite, a qual era secretária do ex-prefeito Almir da Silva Leite, ambos falecidos.
Nessa época existia um programa do Governo Federal denominado MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização, que era voltado para a alfabetização de adolescentes e adultos, numa política educacional exatamente igual ao EJA que conhecemos atualmente.
Esse programa, criado em 1967, ocorria por meio de convênios com entidades públicas ou privadas. Foi extinto em 1985, e substituído pela Fundação Educar, desativada no Governo Collor de Melo, em 1990.
O MOBRAL existiu sob forte influência da Ditadura Militar, cuja professora Aparecida vivenciou seu auge no governo do Presidente João Figueiredo, que era Major do Exército Brasileiro.
A Prefeitura Municipal de Nísia Floresta, na pessoa do prefeito Almir da Silva Leite, estabeleceu esse convênio, conseguindo que ele também fosse destinado às crianças de Nísia Floresta, numa atitude inédita
A professora Terezinha, encantada com o dinamismo da professora Aparecida, encaminhou-a à Secretaria Estadual de Educação, submetendo a professora Aparecida a um treinamento de 15 dias, cuja professora realizou com sucesso.
Em seguida ela retornou para o município já para começar a trabalhar como professora de uma turma de crianças com idades entre 4 a 5 anos, cujos pais estavam ansiosos para ver funcionar, pois se tratava de um momento histórico, afinal era a primeira vez que a pré-escola funcionaria em Nísia Floresta.
Naquela ocasião a senhora Lurdinha Guerra, coordenadora do Mobral, enviou um documento ao prefeito Almir Leite, o qual dizia: “Comunico que o trabalho do MOBRAL do RN foi contemplado com um prêmio internacional da UNESCO, e agradeço pelo apoio recebido do município de Nísia Floresta, o qual contribuiu para essa grandiosa vitória”,
Naquela época não existiam tantos programas educacionais como hoje. Os recursos eram escassos e tudo acontecia com grandes dificuldades.
E foi assim que ela começou, pois o prédio destinado às aulas – o Centro Pastoral Isabel Gondim – não tinha a mínima infra-estrutura. Não havia água encanada, nem móveis. Mas Aparecida não fez disso um problema. Reuniu todos os pais, expôs os problemas e recebeu apoio de todos.
A partir daí passaram a ocorrer várias reuniões. Todas muito proveitosas e com resultados surpreendentes.
Naquela época as pessoas demonstravam um maior grau de voluntariado, pois, sem nenhuma reclamação, todos abraçaram a causa com muito amor.
Cada pai trouxe o que podia: filtro para água, um fogão de lata movido a carvão, bacias, vassouras etc. Resolveram o problema da água, conseguindo improvisar uma mangueira que vinha da CAERN.
Houve o acordo para cada criança trazer um prato, um copo, uma colher e o seu lanche.
Como a turma era grande foi decidido que cada dia uma mãe daria expediente como auxiliar, numa espécie de estagiária. Posteriormente os próprios pais decidiram que uma das mães, a senhora Adélia (hoje falecida) ficaria de forma fixa, e seria remunerada pelos demais pais, os quais fariam uma cota mensal. Infelizmente, devido às condições financeiras dos pais, eles findavam não conseguindo pagá-la todos os meses.
Interessante era que a senhora Adélia, mãe da aluna Janiere, jamais fez qualquer juízo de valor dessa situação, pois nunca faltava e trabalhava com grande dedicação, sempre alegre, extrovertida e atenciosa com as crianças.
         Ao contrário do Regime Militar que vigorava na época, a professora Aparecida, de forma bastante democrática, pediu que os pais sugerissem nomes para a escola, a qual foi denominada “Chapeuzinho Vermelho”.
         Para obter melhores resultados a professora Aparecida serviu-se de uma criatividade fora do comum, mas, sem quere, acabou se tornando uma espécie de precursora no uso de materiais reaproveitáveis – tão na moda atualmente -  pois, de forma lúdica, servia-se de tudo o que poderia ser jogado no lixo: caixas de ovos, latas de conservas, vasilhames de margarina, palitos de fósforos, caixas de papelão, tampinhas de garrafa, sementes, macarrão, cola de goma e outros materiais.
         A Praça Coronel José de Araújo, que na época não tinha o modelo atual, passou a ser praticamente uma extensão do Centro Pastoral Isabel Gondim, pois ali as crianças passavam horas a fio, cantando músicas educativas, canções tradicionais do folclore brasileiro, e várias músicas inventadas pela própria professora. Uma das atividades que as crianças adoravam era desenhar na areia com pequenos gravetos.
         Com o passar do tempo os pais perceberam os avanços no aprendizado dos alunos e resolveram investir mais. Desse modo conseguiram mesinhas e bancos para as crianças e para a professora, baldes e panelas grandes, um armário e um fogão à gás.
         Os pais eram muito dedicados e participativos. Não mediam esforços para fazer festas com direito a escolha do rei e da rainha, com venda de votos e comes-e-bebes. Toda a arrecadação das festinhas eram revertidas em prol do patrimônio da escolinha.
         Um dos reis dessas festinhas foi José Roberto, e uma das rainhas foi Clézia de Araújo, a Nildinha, que reside atualmente em São Paulo.
         A escolinha “Chapeuzinho Vermelho” era uma escola feliz, amada e respeitada por todos.
         Certo dia uma encomenda dos Correios mudou a história dessa escola. Várias caixas chegaram, destinadas pelo Ministério da Educação.
         Ao serem abertas a professora Aparecida foi às lágrimas. Eram materiais didáticos e pedagógicos: cola, papel ofício, lápis de cor, giz de cera, lápis grafite, régua, borracha, tinta guache, massa de modelar, pincéis, papel crepom, tesoura, barbante, pegador, livrinhos de historinhas e diversos jogos educativos.
Foi um presente que emocionou a todos e foi notícia na cidade inteira. A alegria das crianças não tinha fim. Era vista no brilho dos olhos de cada um, os quais recebiam o material como se fosse algo do outro mundo, com um valor inestimável. Havia um zelo especial por parte da escola, dos alunos e dos pais.
No decorrer da existência dessa escolinha tão feliz o seu funcionamento deu-se em outros prédios, como a casa de força, na rua da Bica, a qual abrigava o velho motor desativado, que por muitos anos abasteceu de energia elétrica todo o município.
Depois foi para o prédio onde atualmente funciona a Secretaria Municipal de Ação Social. Posteriormente funcionou numa sala cedida pela Escola Municipal Yayá Paiva.
Durante toda a trajetória educacional da professora Aparecida ela teve o senhor Almir da Silva Leite como seu grande incentivador e apoiador. O ex-prefeito sempre visitava a escola para saber se tudo caminhava bem, pois tinha uma atenção especial às crianças.
Muitas vezes tirava dinheiro do seu próprio bolso para arcar com despesas da instituição e sempre apoiou todos os eventos dessa escola.
Um dia, tocado pelas constantes improvisações e mudanças de prédio, resolveu empreender todos os esforços possíveis para reverter esse quadro. Foi ao Governo do estado. Viajou a Brasília e conseguiu um grande presente cujos pais não acreditavam: a escola teria prédio próprio.
E foi assim que, onde atualmente se encontra o prédio da Escola Municipal Maria Dolores Regina de Macedo Leite, foi erguido um prédio que recebeu o nome Escola “Chapeuzinho Vermelho”.
A alegria se redobrou durante muito tempo nessa instituição. E nessa escola, juntamente com as crianças que Deus lhe enviou, ela encerrou suas atividades, sendo aposentada  no ano de ...............
Desde muito tempo a professora Aparecida sonhou reunir seus alunos para esse que é um dos mais importantes da sua vida, pois ela não viu outro lugar mais especial para agradecer a Deus e a Virgem Maria como a casa de Deus. A casa de Nossa Senhora do Ó. Ela agradece a essas divindades por ter coroado de êxito a sua missão de educadora. Num tempo que as coisas não eram tão abundantes como hoje, mas que o amor das famílias e as bênçãos do Céu sempre estiveram, ao seu favor, fazendo com que tudo desse certo.
Aparecida Basílio, essa nisiaflorestense abnegada, foi a primeira professora do ensino infantil de Nísia Floresta e será sempre lembrada por sua trajetória de amor à educação.
Que Deus possa abençoá-la juntamente com todos os seus ex-alunos e com os pais dos mesmos, pois foram peças importantíssimas para o sucesso da sua trajetória.
Quando Jesus disse “Vinde a mim as criancinhas”, à luz da exegese bíblica, ele quis dizer: “que todos os adultos amparem as crianças e as ensinem o caminho do cristianismo, que é o caminho do amor. Protejam as crianças e eduque-as para que o mundo seja cada vez melhor. Nunca deixem uma criança desamparada”.
Foi com esse entendimento que a professora Aparecida Basílio trabalho a vida inteira.
É por isso que Nísia Floresta deve a essa professora o seu respeito e a sua gratidão, pois a missão de educadora é uma das mais lindas, mas não deixa de ser uma das mais árduas. E não existe profissional que não tenha passado pelas mãos de um professor.

CARTA ABERTA DA LAGOA PAPARY AOS NISIAFLORESTENSES

CARTA ABERTA DA LAGOA PAPARY AOS NISIAFLORESTENSES

Nísia Floresta, 10 de março de 2012

Por Luis Carlos Freire

Eu, LAGOA PAPARY, brasileira, natural de Papary, Rio Grande do Norte, casada com os nativos, domiciliada no Porto, em Morrinhos, Tororomba, Oitizeiro, Georgino Avelino, Currais e Genipapeiro, dirijo-me respeitosamente até você, nisiaflorestense para pedir-lhe socorro.
Prefiro começar falando da minha origem. Você sabia que o meu nome 
original é PARAGUAÇU. Significa “MAR IMENSO” em nossa língua materna. Nem precisa perguntar o porquê. Eu já fui maior do que sou atualmente.
Sou filha da Lagoa do Bonfim, que se chamava “PUXI”. Mas prefiro não traduzir essa palavra condenada pelos capuchinhos. Sempre fui encorpada. Nasci no seio de uma família imensa. Tenho muitas irmãs, Papeba, Papebinha, Ferreira Grande, Ferreirinha, Urubu, Escura, Lagoa Seca, Carcará, Arituba, Cavalos, Pium, Amarela, Ilhota Lodo, Sítio, Dourada, Alcaçuz, Tacho, Jabuti, Hiola, Redonda e Redondinha, Carnaúba, Teixeira, Anjos, Custódia dos Negros e Peixe, embora algumas são adotivas.
Tenho vários primos em forma de pequenos rios no centro da cidade, no Porto, na Ilha, na Boacica, em Pirangi, Alcaçus, Pium, Cururu, na Hortigranjeira, enfim estou indiretamente em todo o município.
Sobre a minha idade, prefiro não dizer, mas só para dar uma pista, eu já existia muito antes de os índios chegarem por aqui. Já fiz a alegria de muito índio e índia que viviam nas minhas matas ciliares, pescavam, andavam de canoas e se banhavam em minhas águas.
Das minhas entranhas saíam infindáveis peixes de quase trinta quilos. Fui berço de milhares de goiamuns, carangueijo-sá, siri, camarão, inclusive Pitu, dentre uma vasta micro-fauna.
Sou a lendária lagoa Papary, d’antes Paraguaçu. Sou o amplo reservatório das águas do Trairí, berço das águas oriundas do inverno sertanejo, onde pequenos riachos correm dos tabuleiros arenosos, dando origem a essa imensidão de águas que se interligam com outras lagoas e rios, como o velho Cururu que desembocam no mar.
Desde que os portugueses começaram a andar por esses rincões meu nome original, Paraguaçu, passou a ser documentado na história. Começou pela cartografia de Marc Grave em meados da década de 1640. E antes disso eu já era conhecida em Portugal. O tempo passou e, em 1810, o famoso viajante inglês, Henry Koster, visitou-me quando minhas águas chegavam até o Porto.
Em seu livro “Viagem ao Nordeste do Brasil” ele relata que ficou encantado quando viu os pescadores chegando com as canoas abarrotadas de peixe, me comparado ao Mercado de Billingsgate, na Inglaterra, por minhas águas piscosas. Fui cantada em prosa e verso por autor anônimo que me dedicou bela poesia centenária, evocando a lenda de Jacy e Guaracy; citada por inúmeros viajantes europeus em documentos antiquíssimos.
Sempre fui considerada deslumbrante, misteriosa e acolhedora. Essa lenda, “do arco da velha”, nasceu quando passaram a me chamar de Papary, e aos poucos esqueceram que fui Paraguaçu. Se você não a conhece veja a letra:

Contava-se em Papari
A lenda de uma sereia;
Era a história de Jaci,
Jovem tapuia da aldeia.

Jaci formosa e catita,
Filha do chefe Aribó
Era a índia mais bonita
Do Vale do Capió.

Amava com amor ardente
Guaracy jovem guerreiro,
Cujo peito igualmente
Nasceu um afeto primeiro

Sozinho na solidão
Guaracy vagava a toa,
Ora ao redor da Caiçara,
Ora ao redor da lagoa.

Certa vez quando pescava
Tentando esquecer as mágoas,
Ouviu que perto cantava
A voz de Jaci nas águas.

A delirar, Guaracy.
Na lagoa mergulhou
Seguiu a voz de Jaci
E a tona não mais voltou.

Hoje esta lenda triste
Quem se dispõe a cantar
Vê quanto mistério existe
Entre a lagoa e o mar.

É uma estória triste, não? Pelo jeito foi escrita no período do Romantismo. Guardo lembranças lindas, tristes e algumas aterrorizantes. Ainda me recordo quando vi, em silêncio, Jacob Rabbi passar por essas veredas. Logo após a Chacina de Cunhaú, vi quando seu grupo passou por aqui, rumo a Barra de Tabatinga para a segunda chacina. Poucos nisiaflorestenses sabem desse episódio histórico. Era noite de lua cheia e as sombras asquerosas daqueles assassinos ainda tocaram-me entre os juncos.
Testemunhei homens brancos de olhos azuis cortando uma linda espécie que existia em abundância por essas matas ciliares. Lembro-me de um dia que só dessa região saíram 40 navios franceses repletos de pau-brasil.
Sempre fui muito limpa. A própria fauna aquática que existia em mim se encarregava dessa limpeza. Minhas águas sempre foram puras e cristalinas. Às vezes eu ficava turva, pois a Caiçara que tanto me amava, me abraçava por completo, deixando-me ora salgada, ora doce, ora salobra.
Sabe o que significa Caiçara? Não?!! Para que todos entendam precisamos nos reportar ao descobrimento do Brasil: Quando os portugueses chegaram ao Nordeste encontraram o nativo indígena e, através de uniões amorosas, se misturaram. Tempos depois, veio o africano e mais um ingrediente étnico-cultural entrou na mistura. Nasciam os caiçaras, uma população tradicional intimamente ligada à natureza e seus ciclos, que trabalhavam para o sustento cultivando roças, extraindo frutos e lançando-se à caça e à pesca.
A palavra “caiçara” tem origem tupi-guarani. “Caa” significa pau, mato; “içara” quer dizer armadilha. Caiçara é um tipo de proteção feita de galhos e varas que os índios usavam em volta de suas casas ou para pescar. Com o tempo, a palavra passou a ser usada para identificar o povo litorâneo, mas hoje ninguém se recorda mais disso. Os homens parecem interessados em outras coisas.
Minhas águas sempre atraíram galinha d’água, pinto d’água, marreco, xexéu, rolinha, galo de campina, bem-te-vi, tetéu, sabiá, concrix, carcará, lavadeiras, gavião e tantas outras aves. Saciei a sede de muito tatu, tijuaçu, jacaré, cotia, coelho-do-mato, preá-do-mato, raposa, guaxinim, timbu e tantos outros animais. Era uma riqueza. Isso parecia o pantanal.
Mas, continuando o que eu falava, sempre dei alegria aos nativos. Das minhas águas saiam incontáveis centenas de quilos de peixes e camarões durante a festa dos Pescadores, em setembro. O pessoal do Porto fazia barracas, havia celebrações, festa social com muito forró original. As casas eram todas de palha. Tinha até o famoso dízimo-do-peixe. Foi um tempo que deixou saudades.
Durante incontáveis invernos sempre recebi as águas do sertão. Essas águas trouxeram lentamente muita terra que foi me assoreando aos poucos. Em 1974 houve uma enchente que ficou na lembrança de muita gente. A famosa “cheia de 74”. A força das águas rompeu a BR 101, nas proximidades de São José de Mipibu, deslizando em mim toneladas de barro que elevava a pista.
Existia uma barragem em Georgino Avelino. Ela também se rompeu me enchendo de barro e entulhos. A partir daí nunca mais fui a mesma, embora ainda não era poluída por dejetos. Antes eu era interligada com os rios de toda a região de Currais a Genipapeiro, chegando rente à estrada de acesso a tais distritos. Mas fui me reduzindo e me distanciei do Porto, principalmente. Muita área que era só água hoje está tomada por aninga, pasta e aguapé. Todo o meu leito está cheio de terra vinda de outros rios e de algumas cidades potiguares, pois como suas margens estão desmatadas essas terras ficam soltas e a cada chuva deslizam para os rios até o ponto final, que, por ironia, antes de chegar ao mar, sou eu. Num dos meus pontos mais fundos formou-se um câncer em forma de um gigantesco banco de areia, maior que um campo de futebol. Parece uma ilha vulcânica.
Minha micro-fauna e flora aquática estão quase totalmente destruídas devido a essas agressões. Os meus plânctons nem se fala. É por isso que não tenho mais gerado tantos peixes e crustáceos como antes, pois essa fauna se alimenta da minha micro flora e fauna. A vegetação do mangue é minha verdadeira muralha de proteção, muito antes da mata ciliar. Mas, ao longo dos anos vem sendo cortada para a construção de casas de taipa dos próprios nativos, além de outras finalidades.
Eu pensava que com o advento da alvenaria isso se acabaria, mas agora apareceram os viveiros e minhas margens mais parece um descampado. O pouco que restava desse micro-ecossistema está morrendo lentamente devido aos produtos químicos que estão usando. Estão jogando um líquido esquisito nas minhas margens e ele mata tudo que é vivo, seja animal ou vegetal. Em fração de segundos os lambarizinhos sobem e apodrecem por ali mesmo. Minhas imediações fedem como o Tietê. Pelo que vejo, se os fatos continuarem como estão, serei tal qual esse rio paulista.
Se minhas margens ficarem savanizadas estará decretada a minha morte e as consequências serão catastróficas para todos. E lembre-se que meu caso é mais grave, pois estou sobre os aquíferos Aluvião e Barreiras, um dos maiores do Rio Grande do Norte. Isso entra na sua cabeça?! Você já analisou a gravidade?!
Confesso que estou muito triste, pois ouço muitas lamúrias, principalmente de pescadores, de pessoas aficionadas por ecologia, mas ninguém age. Onde estão as autoridades, onde estão os amantes da natureza, os estudantes de ecologia, de turismo, enfim as camadas pensantes do meu município?!
Para quem tem memória curta, lembro que sou aquela que matou a fome dos seus antepassados, numa época em que tudo era mais difícil. Quando não existia Bolsa Família, nem aposentadoria tão fácil como atualmente. Sou aquela que representou a única fonte de alimentação da sua família, numa casa de taipa ou de palha. Lembra-se?!
Sou aquela que enchia os cestos de peixe, pitu e carangueijo para os seus avós e pais, os quais chegavam em casa felizes, entregavam o fruto da pesca às esposas. Estas se sentavam nos batentes das portas ou mesmo no chão, junto das bacias repletas do pão de cada dia para prepará-los.
À noite a mesa era farta. Do fogão de lenha saia bem quentinho inhame, fruta-pão, batata assada, macaxeira acompanhada de peixe frito ou assado, camarão, caranguejo, goiamum, siri, café e muita fartura. Tudo isso regado à família unida, certa de que minhas fontes eram inesgotáveis.
Existiam nativos que montavam pequenas barracas cobertas de palha ao lado das estradas de acesso às praias e passavam a vender variados pratos à base de camarão no alho e óleo, no molho, feito vatapá, e isso fez a fama, a ponto de futuramente surgirem restaurantes simples, mas com grande movimentação. Os famosos “camarão de fulano”... ”Camarão de Sicrano”...
Toda tardinha os pescadores juntavam o fruto da pesca e bem cedo saiam para Natal. Passavam o dia gritando pelas ruas: Olha o camarão! o peixe! o siri! o goiamum! o caranguejo! E isso deu ao município de Nísia Floresta a alcunha de “Terra do Camarão!” Esse contexto deu origem à tradição que permite até hoje as pessoas de outras localidades virem para cá apreciar tal iguaria. Era muita fartura e riqueza, tanto nas águas quanto na agricultura. Mas mesmo assim os nativos eram simples demais. O progresso era uma coisa distante. Ir a Natal consistia numa aventura! A própria capital era lugar sem muita novidade.
A maior alegria das famílias era se reunir nos finais de semana para banharem-se em minhas águas e passear de canoa. As árvores ao meu redor era um verdadeiro parque de diversão. Normalmente as famílias chegavam ao amanhecer e passavam o dia ao sabor de água de pote e “liguento”. Eles eram felizes e não sabiam. Hoje quem entra em minhas águas sai se coçando e fica com a pele irritada. E tem muitos pescadores com sérias doenças de pele.
Lembro-me de uma época em que coisas comuns como um chinelo ou um pão eram grandes novidades em Nísia Floresta. Hoje todos parecem ricos. Estou cercada de parabólicas. O curioso é que exatamente muitos daqueles cujos bisavós, avós e pais se alimentaram do que eu tanto produzia, esqueceram-se do imenso valor que me davam. Hoje talvez eu não represente nada, pois talvez estejam ganhando muito dinheiro e não saibam mais o que é a fome.
Isso me incomoda, pois sempre dei sem exigir nada em troca. Hoje pareço ser a personificação da velha frase: “É cuspir no prato que comeu!”.
O tempo passou. As coisas foram se modernizando. Hoje os pescadores têm seguro. Acho que somente eu estou desamparada, sem aposentadoria, seguro, Bolsa Família... E ainda querem me fazer de fossa!
Hoje recebo esgoto, os dejetos e as águas servidas do meu velho amigo “Mipibu”, outra vítima de ingratidão. Esse famoso rio de linda história, verdadeiro tesouro encravado em resquício de mata atlântica, agoniza. Esquecem as autoridades que da sua fonte vem a água que abastece toda a cidade de São José do Mipibu.
Na realidade o rio não tem culpa, pois ele deságua em minhas águas cumprindo a sua missão natural. Mas foram das mãos humanas que saíram as galerias subterrâneas de concreto, oriundas de São José de Mipibu, as quais desembocam nele.
Os pescadores nisiaflorestenses não têm do que viver. É muito triste ver meu povo passando necessidade. É apavorante saber que homens e mulheres veem o sol nascer e se pôr acompanhados por uma garrafa de cachaça. Talvez eles se anestesiem para não ver a paisagem triste da minha agonia e da a sua própria miséria.
Em Nísia Floresta já começa a aparecer consumidores de crack, maconha e outras drogas. Existem distritos que margeiam minhas águas com pontos de drogas. Vejo tudo isso com lágrimas nos olhos, pois não posso fazer nada.
Não pense que sou exagerada, mas os problemas sociais como esses e outras mazelas decorrem da minha decadência. A minha ruína significa a amplitude da miserabilidade em todos os seus aspectos no meu município.
Volto a perguntar: onde estão as autoridades mipibuenses, nisiaflorestenses e natalenses que em pleno século XXI, em plena Àrea de Proteção Ambiental, em pleno solo onde existe o Instituto Chico Mendes, em plena Mata Atlântica, não enxergam os atentados que sofro diariamente e os danos sociais decorrentes disso?!
Será que enxergar e acabar com isso compete meramente às autoridades mipibuenses e nisiaflorestenses?!
E você, o que pensa disso?!
Aguardo a sua ação, afinal ainda é tempo, mas se você demorar eu morrerei, pois eu própria não posso fazer nada por mim.
Aí será tarde e seus filhos e netos não me conhecerão!
Mas lembre-se: a minha morte significará muitas mortes!!!
Um grande abraço!

Lagoa Papary

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

NÍSIA FLORESTA E ADAUTO DA CÂMARA


NÍSIA FLORESTA E ADAUTO DA CÂMARA
Após quatro meses de interrupção das postagens estou trazendo mais uma contribuição à pesquisa pertinente a Nísia Floresta. Trata-se de um trabalho inédito, escrito faz um bom tempo, mas que somente agora estou presenteando o leitor.
Luis Carlos Freire
Não sei quem deu maior contribuição com a garimpagem que resultou no mais importante projeto escrito sobre Nísia Floresta até o ano de 1941, se o mossoroense Adauto Miranda Raposo da Câmara (1898-1952) ou o macaibense Henrique Castriciano de Souza (1874-1947). Mas se esses dois insignes personagens da história do Rio Grande do Norte, possuidores de vasta biografia, não tivessem realizado a relevante e inédita pesquisa, as lacunas seriam maiores que as atuais.
Henrique Castriciano
A contribuição desses intelectuais é tão valiosa que seria mais difícil entender Nísia Floresta sem conhecer o que eles escreveram, principalmente durante bom período da história, até surgir outros estudiosos. Ambos – verdadeiros patrimônios – deixaram uma história marcada por feitos plurais nas mais diversas áreas do conhecimento, e principalmente na educação.
Sócio-fundador da Academia Norte-riograndense de letras do Rio Grande do Norte, Adauto da Câmara exerceu cargos respeitáveis a convite de governadores que muito o respeitavam devido ao seu currículo de alto nível.
“Bacharel, professor, jornalista, deputado, acadêmico, historiador, genealogista, conferencista, ensaísta, prestou assinalados serviços ao seu estado, onde desempenhou cargos da alta confiança do governo, e para cuja Assembléia Legislativa foi eleito duas vezes” (PAIVA, 1959). Nos primeiros anos da década de 30 foi morar no Rio de Janeiro em conseqüência da revolução que grassava àquela época. Ali adquiriu o Colégio Metropolitano, no Meier– instituição falida à ocasião – e a transformou num dos mais respeitados colégios desse estado até a atualidade.
Adauto da Câmara
O interesse de Adauto da Câmara por Nísia Floresta parece ter iniciado cedo e, pelo que se sabe, durou toda a vida. O autor deste trabalho, em conversa com Zélia Mariz, em 1999, a qual publicou um pequeno livreto sobre Nísia Floresta, disse que Wânia Zaremba (esposa de Adauto) confidenciou-lhe que sentia-se “traída por Nísia Floresta”, pois seu marido se debruçava por horas à fio nos livros, pesquisando-a, e muitas vezes eles mal se falavam durante a semana.  Wânia dizia que “sentia ciúmes do marido com a defunta”.
Mas o futuro autor só complementou suas pesquisas quando Henrique Castriciano doou-lhe farto material pesquisado anos antes, inclusive teve experiências singulares a um pesquisador.
Henrique Castriciano correspondeu-se com algumas sobrinhas de Nísia Floresta e até mesmo com Augusto Américo de Faria Rocha (1833-1889), filho da escritora, os quais moravam no Rio de Janeiro.
Ecole Ménagère, em Fraiburg, Suiça
O único brasileiro, e provavelmente o último a ter contato epistolar com Lívia Augusta Gade (1832-1912), filha de Nísia Floresta, durante o período em que a referida intelectual passava a ser objeto de curiosidade de muitos brasileiros, em especial os potiguares, foi Henrique Castriciano.
Por pouco ele teria estado com Lívia Augusta, pois em 1909 foi a Suiça conhecer a Ecole Ménagère, em Fraiburg, buscando inspiração para futuramente fundar em Natal a Escola Doméstica, fato ocorrido em 1914.
O contato epistolar entre ambos foi um divisor de águas, pois apesar da idade avançada de Lívia, foi possível a Henrique obter um calhamaço de informações preciosas, muitas desconhecidas até aquele momento. Certamente Lívia percebeu a seriedade do ilustre potiguar, pois presenteou-lhe com muitos retratos e fotografias, cuja maioria sairia do ineditismo em 1954, numa exposição comemorativa ao traslado dos seus despojos. (1) Esse acervo, raro, é um mistério, pois dele não há notícia, apesar de uma verdadeira garimpagem que tenho feito há 20 anos.
Adauto da Câmara
As cartas trocadas entre ele e diversos familiares de Nísia nunca foram divulgadas e sequer publicadas. Essa é uma página incompreensível da história, pois à ocasião em que chegaram às mãos castricianas já significavam um tesouro de valor incalculável. Outro enigma é o fato de o governo do Rio Grande do Norte ter tido a oportunidade de adquirir os bens pertencentes à Nísia Floresta em Cannes, e não o fez. Lívia faleceu em 1912, aos 82 anos.
À ocasião tanto Castriciano quanto Adauto, Elóy de Souza, Juvenal Lamartine, José Augusto Bezerra de Medeiros e outras pessoas renomadas e conhecedoras da importância de Nísia Floresta, que exerciam os mais altos cargos, parece terem ficado desmemoriadas nesse interim. Mas esse detalhe fica para outra circunstância.
Henrique Castriciano perscrutava bibliotecas, entrevistava pessoas e compilava acervo sobre Nísia Floresta, logo no início do século XX, outro norte-riograndense notável – Adauto Miranda Raposo da Câmara – repetiria o feito poucos anos depois, embora não se deslocou a Europa como fez seu conterrâneo.
Raimundo Soares de Brito (1920-2012)
Raimundo Soares de Brito opinou que “Nísia foi a paixão intelectual de Castriciano. Levou vários anos da sua vida pesquisando e estudando a personalidade da notável conterrânea com o objetivo de escrever um livro sobre suas atividades. Não o fez. Transferiu a tarefa e todo o acervo de pesquisador a Adauto da Câmara.” (1984, p.30).
Nota-se que a dificuldade de informações sobre Nísia Floresta era tão grande até aquele momento que Adauto da Câmara resolveu debruçar-se de forma abnegada numa minuciosa pesquisa, a qual resultou numa das maiores contribuições para a história do Rio Grande do Norte.
Mas parece-nos que o amigo não transferiu todo o acervo Adauto, pois logo após a morte de Henrique, Eloy Castriciano de Souza escreveu a Adauto “(...) Encontrei entre os papéis de Henrique muitas notas interessantes sobre Nísia Floresta além de publicações que me acompanharão destinadas ao seu arquivo. A mm seriam elas quase inúteis e nas suas mãos representam matéria para o bom trabalho”. (BRITO, 1981).
Seu livro, apesar de possuir algumas informações que foram desbancadas por documentos e livros de época, encontrados muito tempo depois pela escritora Constância Lima Duarte, está para a história das biografias como os clássicos estão para a literatura dado a representatividade que teve à ocasião do lançamento, e por ainda significar um marco, pela profundidade da pesquisa e pela qualidade das reflexões que o autor conduz o leitor. A análise feita por Adauto da Câmara atesta a sua erudição e permite ao leitor compreensão mais profunda acerca da escritora Nísia Floresta.
Numa carta datada do dia 8 de abril de 1931, de Natal, dirigida a Adauto da Câmara, no Rio de Janeiro, Eloy Castriciano de Souza, irmão de Henrique Castriciano, escreve “(...) Estamos esperando os seus livros sobre Nísia” (BRITO, 1981). É possível constatar que nesse período ele ensaiava publicar a história de Nísia Floresta, pois em 1940 a Federação da Academias de Letras do Brasil lançaria no Rio de Janeiro sua imensa conferência intitulada “Nísia Floresta”, que por pouco já consistia no livro “História de Nísia Floresta”, publicado no ano seguinte, no Rio de Janeiro.
N’outra carta, oriunda de São José de Mipibu/RN, datada de 18 de fevereiro de 1938, Henrique Castriciano escreve
“Meu caro Adauto – Meu afetuoso abraço. Indo ontem à Natal encontrei meu nº das Revistas das Academias com a Careta da nossa Nísia. Creio que vc. já terá recebido a cópia que lhe havia prometido. Se você obtiver outras cópias, quero dizer cópias de outros trabalhos dela, os publicar, creia que muito me penhorará se me m’as enviar” (ibidem, p. 170).

Em resposta, datada de 3 de julho de 1938, Henrique Castriciano diz:
“Prezado Adauto. – Só agora, chegando do interior, recebi por intermédio de Elóy o 3º artigo sobre a nossa grande Nísia. Os outros me chegaram às mãos em tempo e não acusei logo o recebimento aguardando o último.
(...) A respeito de Nísia Floresta, poetisa medíocre mas pensadora notável, a ninguém disse que estava escrevendo uma obra sobre ela. O que anunciei, desde muito, é que andava procurando achegas para esclarecimento de sua vida e neste sentido dei os passos que pude, infelizmente quase infrutíferas quanto ao essencial, que era saber a extensão de suas relações com as grandes figuras do tempo, quase todos da escola romântica.” (BRITO, 1981).

Alguns pesquisadores criticam Adauto da Câmara pelo fato de o mesmo ter entendido A lágrima de um Caeté como “uma obra medíocre, muito inferior às que a insigne escritora produziria depois” (CÂMARA, 1938 apud DUARTE 1995).
Certamente faltou a Adauto naquele momento o olhar perscrutador de Constância Lima Duarte, a qual leva o leitor a rever o indianismo brasileiro nessa obra espetacular, até porque o cenário indianista que Nísia descortina é singular diante dos conhecidos indianistas brasileiros. A propósito, como ocorre a muitos pesquisadores, Adauto teve a sua opinião lapidada posteriormente, pois tanto na conferência quanto no livro publicados mais tarde ele escreveu
“Seu poema não é em nada inferior às produções poéticas dos nossos primeiros românticos, desde Gonçalves de Magalhães e Porto Alegre, sem embargo de andar inteiramente alijada das antologias e compêndios de literatura, a começar de Fernandes Pinheiro, até Ronald de Carvalho e Manuel Bandeira, exceção apenas de Sacramento Blake, que lhe dedicou algumas linhas muito locônicas, com informações inexatas, e de Afrânio Peixoto” (CÂMARA, 1941).

Certamente Henrique Castriciano exerceu certa influência no pensamento de Adauto da Câmara, com relação ao poema, pelo menos até antes de 1940.
Mas a carta também evidencia um detalhe curioso, no qual Adauto indaga se o amigo estava escrevendo um livro sobre Nísia Floresta. Sabe-se que Adauto lançaria “História de Nísia Floresta” em 1941, ou seja, três anos após tal carta, e obviamente o livro encontrava-se quase no prelo. Supostamente Henrique tinha tal intenção, mas futuramente se perceberia a sua humildade e alto grau de generosidade intelectual, pois repassaria tudo – ou quase tudo o que compilou com grande dificuldade – a Adauto da Câmara.
Certamente a doença que o acometeu o desestimulou a continuar tal empreendimento que exige muito do pesquisador, e o fazendo doou parcialmente o restante a pessoas do gabarito de Adauto da Câmara, pois na exposição acima comentada, de 1954, seriam expostas fotografias de Nísia Floresta e de seus familiares.
E Adauto da Câmara sempre fez justiça ao grande presente recebido, pois na “Nota Prévia” do livro História de Nísia Floresta escreveu
“A Henrique Castriciano devemos valiosas informações, que generosamente nos ministrou. Podemos assegurar que o Brasil não esqueceu Nísia Floresta por obra e graça de Henrique, que tão fervorosamente lhe tem cultuado a memória, procurando tornar conhecidos, por toda a parte, os seus talentos. Aproveitamos o ensejo para lhe reiterar o apelo que tantos outros lhe tem feito, no sentido de publicar o seu livro sobre Nísia Floresta, para o qual reuniu copiosa documentação, colhida em mananciais que só ele explorou.” (CÂMARA, 1941).

No dia 25 de novembro de 1941, pouco depois de lançar o livro História de Nísia Floresta, no Rio de janeiro, Adauto da Câmara recebeu de Henrique Castriciano, seu grande amigo, uma carta com o seguinte teor:
“Natal 25/9bro/1941. – Meu caro Adauto – Remeto-lhe pelo correio comum os Tres anos de Nísia, troféo que você de mim obteve pelo muito que vem trabalhando pela memória da grande batalhadora. Reli A vida de Nísia com imenso prazer; é sem sombra que se faça dúvida, um belíssimo livro e uma boa ação do meu caro Adauto.
Peço-lhe que não me desafie mais a que escreva sobre a ilustre patrícia: sinto-me no fim, cansado e doente, e já não é pouco ter ajudado a descobrir tão precioso veio de ouro.
Que ano triste foi este que vai acabar! Triste para mim, para outros terá sido de ouro e mal de nós todos se o mundo não fosse assim.
Desculpe a letra e o estilo: escrevo de mau jeito e amanheci gripado. Saudades. Muito afetuosamente, - Henrique Castriciano.
Peço-lhe que acuse, com alguma urgência, para minha tranqüilidade, esta lembrança de nossa patrícia”. (Ibidem, p.172).

Catorze dias depois, Castriciano lhe responde:
“Rio, 8 de dezembro de 1941 – Caríssimo dr. Henrique – Estava bem longe de saber que o dia de ontem me reservasse uma surpresa tão agradável. Encontrava-me tranquilamente em casa, pela manhã, lendo os jornais, quando o carteiro me trouxe a correspondência, em meio da qual um pacote de livros. Abri-o, fiquei quase sem acreditar no que via: dois autênticos volumes de Nísia, e que volumes! TOIS ANS em ITALIE, sua obra-prima! Sua carta, sua dedicatória encheram-me de emoção, de orgulho, de vaidade. A publicação de meu livro sobre NÍSIA FLORESTA foi bem acolhida pela imprensa, pelos círculos intelectuais. Mas nenhuma demonstração de estima pelo meu trabalho se compara com o que o eminente amigo vem de me dar. Esta foi a maior recompe nsa do meu longo e silencioso labor pela glória da insigne patrícia, partida justamente do grande animador de seu culto.
Telegrafei-lhe ontem mesmo, acusando o recebimento do seu delicado presente. Comuniquei-me com o dr. Eloi, que recebeu a notícia com grande alegria, solidário com o meu gesto.
Faço votos pela sua saúde. Espero que brevemente regresse ao Rio, inteiramente refeito da longa enfermidade que o tem afastado das lides intelectuais. Envio-lhe a mais cordial expressão de minha velha amizade e admiração. Abraça-o afetuosamente o – Adauto da Câmara.” (Ibidem).

No dia 2 de agosto de 1947, como conferencista, Adauto da Câmara, referindo-se a Henrique Castriciano, declarou que “Sua admiração pela educadora e escritora nascida em Papari exerceu decisiva sugestão, e, vencendo dificuldades sem conta, reuni material para uma breve biografia, editada em 1941, a História de Nísia Floresta” (CAMARA, 1959).
Estas e outras cartas permitem perceber os fortes laços de amizade entre dois intelectuais potiguares da mais alta estirpe e, mais ainda, a típica paixão intelectual que acomete todo pesquisador quanto ao objeto de pesquisa. Sem dúvida ambos eram fascinados pela história e pela obra de Nísia Floresta.
Juvenal Lamartine de Faria
Em conferência Juvenal Lamartine* escreveu que “Foi, graças à monografia publicada por Adauto, a mais completa escrita até hoje, sobre a notável riograndense do norte, que um nobre conterrâneo, Orlando Dantas*, patrocinou a exumação dos restos mortais de Nízia, que, breve, virão repousar em nosso estado” (LAMARTINE, 1954).
Uma curiosidade significativa no “História de Nísia Floresta” é o fato de Adauto da Câmara informar o ano de 1909 como do nascimento de Nísia Floresta, ao invés de 1810, principalmente pelo fato de Henrique ter estado pessoalmente com Lívia Augusta. Certamente foi a pergunta que se calou.

Tendo falecido em 1952, aos 55 anos, Adauto da Câmara não pode presenciar um dos maiores acontecimentos ocorridos em seu estado em 1954, ocasião em que os restos mortais de Nísia Floresta, repatriados, foram recebidos primeiramente na Academia Pernambucana de Letras, em Recife, depois em Natal e em seguida na cidade natal da escritora, a qual naquele momento já havia recebido o seu nome*.
Antes disso, por solicitação de Paulo de Viveiros, da Academia Norte-Riograndense de Letras, numa ação intermediada por João Café Filho*, o senador Luis Lopes Varela apresentou ao Senado um projeto de lei que autorizava o governo brasileiro a trasladar os despojos de Nísia Floresta.
Dr. Marciano Freire (terno preto)
Deflagrada a lei, a missão foi atribuída ao Centro Norte-Riograndense do Rio de Janeiro, cujo seu presidente Marciano Freire viajou a França para providenciar o referido traslado. Em Natal e em Nísia Floresta houve a presença das forças armadas, do governo do estado, as principais instituições de ensino de Natal, o clero, sociedades culturais e um imenso cortejo popular.
Sabe-se que até hoje persistem muitas lacunas sobre a vida e a obra de Nísia Floresta, mas o “encontro” Henrique/Lívia, apesar dos pesares, representou um marco para elucidar muitas dúvidas e incorreções propaladas até então. A junção das pesquisas de Henrique e Adauto consiste num legado de excepcional valor para o Rio Grande do Norte vale a pena ser lido.
Referências
BRITO, Raimundo Soares de. UMA VIAGEM PELO ARQUIVO EPISTOLAR DE ADAUTO DA CÂMARA, Coleção Mossoroenese, vol. clxix, FJA ,1981.
CÂMARA, Adauto da. A lágrima de um Caeté. Revista das Academias de Letras. Rio de Janeiro. 1938.
______, Nísia Floresta. Federação das Academias de Letras. Rio de Janeiro. 1940.T
______, História de Nísia Floresta. Rio de Janeiro, Ed. Pongetty, 1941.
______, Henrique Castriciano. Conferência na Federação das Academias de Letras do Brasil. Revista da Academia Norte-Riograndense de Letras; ano VII/n. 5; Natal, 1959. p.15.
DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: Vida e Obra. Natal: Ufrn, Editora Universitária, 1995.
GOFF, Jacques Le. HISTÓRIA E MEMÓRIA. Trad. Bernardo Leitão [et AL] 3 ed. Campinas, SP. Ed. Unicamp, 1994.
LAMARTINE, Juvenal. Adauto da Câmara. Conferência; Coletânea de letras da Academia Norte-Riograndense, 2; Centro de Imprensa, S.A. 1954.
PAIVA, Cônego Jorge O’Grady de. Adauto da Câmara. Discurso de posse proferido na Federação das Academias de Letras do Brasil. Revista da Academia Norte-Riograndense de Letras; ano VII/n. 5; Natal, 1959.p.73.
NOTAS DE RODAPÉ:
- Orlando Dantas:
- Joaquim Pinto Brasil: nascido em 1819, faleceu em 1874
- Augusto Américo faleceu aos 60 anos.