ANTES DE LER É BOM SABER...

Contato (Whatsapp) 84.99903.6081 - e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com. Ou pelo formulário no próprio blog. Este blog, criado em 2009, é um espaço intelectual, dedicado à reflexão e à divulgação de estudos sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta, sem caráter jornalístico. Luís Carlos Freire é bisneto de Maria Clara de Magalhães Peixoto Fontoura (*1861 +1950 ), bisneta de Francisca Clara Freire do Revoredo (1760–1840), irmã da mãe de Nísia Floresta (1810-1885, Antônia Clara Freire do Revoredo - 1780-1855). Por meio desta linha de descendência, Luís Carlos Freire mantém um vínculo sanguíneo direto com a família de Nísia Floresta, reforçando seu compromisso pessoal e intelectual com a memória da escritora. (Fonte: "Os Troncos de Goianinha", de Ormuz Barbalho, diretor do IHGRN; disponível no Museu Nísia Floresta, RN.) Luís Carlos Freire é estudioso da obra de Nísia Floresta e membro de importantes instituições culturais e científicas, como a Comissão Norte-Riograndense de Folclore, a Sociedade Científica de Estudos da Arte e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Os textos também têm cunho etnográfico, etnológico e filológico, estudos lexicográficos e históricos, pesquisas sobre cultura popular, linguística regional e literatura, muitos deles publicados em congressos, anais acadêmicos e neste blog. O blog reúne estudos inéditos e pesquisas aprofundadas sobre Nísia Floresta, o município homônimo, lendas, tradições, crônicas, poesias, fotografias e documentos históricos, tornando-se uma referência confiável para o conhecimento cultural e histórico do Rio Grande do Norte. Proteção de direitos autorais: Os conteúdos são de propriedade exclusiva do autor. Não é permitida a reprodução integral ou parcial sem autorização prévia, exceto com citação da fonte. A violação de direitos autorais estará sujeita às penalidades previstas em lei. Observação: comentários só serão publicados se contiverem nome completo, e-mail e telefone.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

ACTA NOTURNA - Para alguns tudo foi muito doce - Paraña-Mirim - 1942-1946...


ACTA NOTURNA - Para alguns tudo foi muito doce - Paraña-Mirim - 1942-1946...


A imagem, apreciada aos olhos de hoje, não causa impressão extraordinária, mas há 80 anos impactava. Causava profunda estranheza aos potiguares. São militares norte-americanos se deliciando com doce enlatado, ocasião da Segunda Guerra Mundial, na Base Aérea. Observe que eles estão viajando no sabor do doce comido diretamente na lata. Não parecem interessados em mais nada ao redor, e muito menos com a guerra.  


Para os natalenses, produtos enlatados ainda eram novidades, embora já se comprava nos armazéns da "Viúva Machado", na Ribeira. Mas era mercadoria para gente rica. Os brasileiros comuns, de fato, não conheciam, assim como ignoravam uma porção de coisas que eram corriqueiras aos norte-americanos - lá nas terras do tio Sam - mas aqui eram totalmente desconhecidas.


Os americanos trouxeram a primeira fábrica da Coca Cola a ser instalada na América Latina. Nas bagagens veio chiclete, calça jeans, camisetas de malha, liquidificador e uma infinidade de coisas… digamos "extra-terrestres" que assustavam os nativos. 


Muita gente fez fortuna nessa época, assim como o Coronel Teodorico Bezerra, que já era rico antes, e visionário,  locou o moderno Grande Hotel no centro de Natal, exclusivamente para eles. Que o diga também a própria Amélia Machado (Viúva Machado, como é mais conhecida), que ganhou dinheiro de puxar de rodo. A família, que já era rica, fez mais dinheiro ainda. Tem também o fundador das Empresas Guararapes, cuja pedra fundamental dessa rede de negócios, partiu de uma loja de relógios de bolso, surgida no vavavu da Ribeira, catapultada pela força do dólar trazido pelos norte-americanos. Vejam como um pequeno negócio pode consistir no pulo do gato.


Ali na Ribeira o pioneiro da Guararapes fez fortuna e deu origem a uma das empresas mais prósperas do Rio Grande do Norte. Seu dono atual é um dos homens mais ricos do Brasil. 

 

A presença norte-americana em Natal gerou um sem-fim de histórias das mais pitorescas e curiosas. Muitos enriqueceram, inclusive um sapateiro que deixou de consertar sapatos para fabricar um tipo de botas de cano curto, inventado por ele, tipo essas “Caterpillar” atuais, que caíram na graça dos americanos que compravam centenas e enviavam para os Estados Unidos. Virou febre lá, pois igual ao doce enlatado - aqui - era extraterrestre lá. 20.9.2016.

…………………………………………………..

OBS. Essa edificação onde os norte-americanos degustam o enlatado existe até hoje, inclusive os pés de manga estão lá vivinhos da Silva - e dando mangas. É no lado oeste da Base Aérea, defronte à linha férrea.

domingo, 30 de janeiro de 2022

Nísia Floresta nunca defendeu o aborto


Precisei apagar a imagem de Isabel Gondim, e colocar Nísia acima porque as imagens do meu blog aparecem quando alguém procura por Nísia Floresta, e seu eu deixasse a imagem sem borrar, acabaria ajudando a ampliar o erro. Por tal razão, nunca publico imagens de Isabel Gondim no meu blog, tendo em vista que o blog tem o nome de Nísia Floresta

Antes de tratar o assunto, informo que a fotografia acima (borrada de amarelo), publicada no blog "Meu lado Poético", não é de Nísia Floresta, mas de Isabel Gondim, denotando claramente que quem escreveu isso, além de dar informação errada - mal leu sobre sobre Nísia Floresta - e ainda postou a foto errada.. Infelizmente o erro prolifera e toma essa proporção, portanto, sinto-me no dever de entrar em contato com os autores dos equívocos, quando os encontro, sugerindo a correção.

 
Sempre que posso, perquiro os sites, lendo matérias e tudo mais que trata sobre Nísia Floresta fora do estado do Rio Grande do Norte. Faço isso para, justamente, corrigir esse erro que se repete eventualmente, e que o leitor - se potiguar - já percebeu. 
 
Normalmente, quando encontro esses equívocos de fotografias e de informações, mando um link do meu blog com uma compilação de imagens de Nísia Floresta para a pessoa que postou, organizadas justamente para tais situações, ali mesmo a pessoa escolhe uma imagem e a coloca em sua publicação. Na maioria dos casos recebo o retorno e constato que o equívoco foi corrigido. Não posso fazer disso uma doutrinação, até porque nem tenho esse tempo todo, mas o ajo na medida do possível. Para piorar, nem todas as matérias trazem contato.
 
Hoje, além disso, alguém diz que Nísia Floresta defendeu o aborto. A matéria não tem data nem referências bibliográficas, portanto é impossível saber de onde ela tirou o assunto, dando a entender que ela inventou a informação, num gesto tendencioso.
 
Nísia Floresta - apesar de visionária - tinha um lado extremamente conservador - digo conservador no aspecto dos valores cristãos que ela defendeu escancaradamente, e não abria mão - além do moralismo claramente visível. Impossível que ela também fosse defensora do aborto, que o diga a sua obra “Conselhos à minha filha”, por exemplo. É antagônico. Impossível.
 
Particularmente, como pessoa que estudo e escrevo sobre Nísia Floresta desde 1992, sempre levo uma réplica da fotografia de Nísia Floresta para mostrar, seja quando falo sobre Nísia Floresta a uma plateia, seja quando escrevo sobre ela. De uns tempos para cá, depois que publicaram um vídeo-documentário com a imagem errada, em 2011, o erro vem se intensificando, portanto passei a tratar o assunto com mais intensidade para justamente corrigi-lo. Trabalhar para corrigir isso deve ser tarefa de todas as pessoas que estudam e divulgam essa intelectual. Não custa nada. Com certeza ajudaria muito.
 
Nísia Floresta, embora pareça contraditório, era conservadora em muitas questões. Basta ler os seus livros. Ela foi uma mulher à frente de seu tempo na defesa de muitos temas, como se sabe, mas jamais na defesa do aborto. Ela sempre defendeu a vida, a família, a religião.
Lendo Nísia Floresta você encontra uma mulher católica, que conhece com profundidade a Bíblia sagrada, os santos, os fatos religiosos universais, enfim detinha um vasto conhecimento da religião. Como disse Comte “se não fosse tão metafísica”. A diferença é que mesmo sendo católica, ela não poupava críticas aos padres, bispos, cardeais e até ao papa no aspecto de suas vidas opulentas, pautadas no alto luxo, na gula etc. Nísia teve um lado que não é muito visto nos católicos, que se calam diante dessas opulências que seguem até hoje.
 
Nísia Floresta não favorecia nas freiras a clausura, pois entendia que elas deveriam ser uma espécie de Irmã Dulce, ou seja, precisavam estar nas ruas, levando o evangelho, curando feridas físicas e psicológicas, levando o alimento para os que tinham fome física. Diferente de ficar presa entre quatro paredes, orando. Ela própria se tornou enfermeira durante a epidemia de gripe espanhola que assolou o Rio de Janeiro. Arriscou a sua própria vida, pois milhares morreram. Suponho que Nísia Floresta, se viva hoje, seria “persona non grata” entre os católicos, até porque ela pensava.
 
Sei que o direito ao que se faz ao corpo feminino é enxergado de diversas formas, inclusive pelas próprias feministas, em que muitas favorecem o aborto (mas não todas), afinal, atualmente o feminismo tem correntes de pensamento diferentes, assim como religiões, partidos políticos etc. Mas afirmar que Nísia Floresta defendia o aborto é um grande equívoco e totalmente incoerente com tudo o que ela escreveu. O que se percebe nessa matéria equivocada é algo tendencioso de alguma feminista equivocada. Nísia Floresta mesmo, era feminista, e nem por isso endossava o aborto.
 
Uma sugestão que deixo aos professores e pessoas que escrevem sobre Nísia Floresta, ou dão entrevistas, palestras etc, é que abordem o assunto desse equívoco com as pessoas que lhe procuraram para tal finalidade. Se possível, mostre a fotografia real de Nísia Floresta. Isso ajudaria muito. Assim que algum jornalista entrar em contato com você, com a intenção de uma entrevista, fale logo sobre a fotografia, envie uma pelo whatssap. Particularmente faço isso. Com certeza vocês também estarão ajudando a corrigir o equívoco. 
 
Faço essa observação porque já vi textos, entrevistas etc com pessoas que estudam sobre Nísia Floresta mostrando a imagem de Isabel Gondim. Isso ocorre porque a pessoa apenas forneceu os seus conhecimentos, o restante foi feito pela pessoa interessada, que pegou a primeira imagem que buscou na internet. E isso é uma falta de profissionalismo desmedida. Fica a dica! OBS. Sobre o blog acima citado, já enviei o pedido de correção. Vamos aguardar...

 

sábado, 29 de janeiro de 2022

ACTA NOTURNA - Quando soldados norte-americanos pretos foram impedidos de virem para a Base Aérea de Natal - Década de 40

 


ACTA NOTURNA - Quando soldados norte-americanos pretos foram impedidos de virem para a Base Aérea de Natal - Década de 40

Você já viu um soldado preto em fotografias feitas durante a Segunda Guerra Mundial em Natal? Os flagrantes de militares norte-americanos enchem álbuns. Mostram-nos fazendo o policiamento na Ribeira, em despachos no Porto de Natal, construindo estrada, trabalhando aqui e lá, ou em folgas deliciosas no Grande Hotel do Major Teodorico Bezerra… até em diversões no “Maria Boa”...  Mas não há registros de soldados pretos.

Isso tem uma explicação.  Toda história tem seus bastidores. Alguns são maravilhosos, excepcionais, outros, terríveis (como esse). Durante a Segunda Guerra Mundial os norte-americanos se instalaram aos poucos nas plagas de Manoel Machado, dando a origem à Base Leste, encostada à Base Oeste (dos brasileiros). Essa história é mais mastigada que gengiva de idoso.

A Base Aérea montada pelos americanos é usada até hoje. A instalação da maior Base militar norte-americana fora dos EUA ocorreu em Natal, mais precisamente entre 7 de julho de 1942 (data oficial do início das atividades) e 1946, ano em que os norte-americanos foram deixando gradativamente a base então administrada só por brasileiros.

Durante o vavavu chegaram a pernoitar na base 22.000 homens, cujo movimento diário de aviões era em torno de 500 a 700. Eles deixaram mais de 700 galpões, grande quantidade de Jipes, armas e munições.

A História muitas vezes se prende aos fatos maiores, preocupando-se com começo, meio e fim, sem destaque para determinados detalhes, chamado bastidores que, se analisados com a devida decência, dão outra história, tão necessária quanto a que foi impressa nos jornais e livros da época. Esse é um caso cujas minúcias, aos olhos atuais, ferem a ética e a lei, mas à época, não era tão vigiado e recriminado devido a fatores culturais, embora anômalos.

É exatamente sobre isso que comentarei abaixo. Já li sobre isso em outro lugar diferente de Clyde Smith, mas aqui me pauto nele. Trata-se de uma página esquecida da História dos norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial, e que aconteceu aqui no Rio Grande do Norte.

Durante os preparativos para o referido projeto, apareceu um imbróglio complicado. Houve a necessidade de que o pessoal da 194th “Quarter-Master Truck Company” fosse enviado ao Brasil para demandas que essa companhia era tecnicamente mais preparada.

Com o fim da Guerra, vários despachos e demandas aconteceram paulatinamente. Surgiu o Projeto Verde (“Geen Project”), um programa de transporte que levava o pessoal norte-americano de volta aos Estados Unidos.

Ocorre que todos os membros da companhia 194th Quarter-Master Truck Company (soldados, oficiais, funcionários comuns, corpo técnico etc) eram pretos. Por aqui não existiam militares brasileiros pretos. A Marinha americana disponibilizou marinheiros pretos no Brasil, mas nem o ATC nem o Quartel-General importou-se em servir-se de seus trabalhos.

A partir dessa observação, suspeitaram que o general Walsh tinha feito acordo com as autoridades brasileiras para não trazer soldados pretos para o Brasil. Teria sido um pedido de Vargas? Não se sabe.  Sabe-se que não vieram pretos para cá e pronto.

Vale lembrar que o Rio Grande do Norte, apesar de ter vivido o período da escravidão negra tão estupidamente quanto qualquer lugar do Brasil - pois não existe escravidão boa, e longe de engolir a tese estúpida, defendida por alguns historiadores de que os potiguares foram bondosos com os seus escravizados – teve poucos escravos pretos, portanto Natal era predominantemente branca. Aliás o estado quase inteiro.

Até então, a população norte-rio-grandense se resumia aos portugueses que se multiplicaram, misturados aos holandeses, franceses e indígenas. O Seridó é um pedaço da Europa no Brasil, em termos de cor de pele e olhos. Em diversos pontos do estado se veem pontos geográficos que predominam gente com fortes traços europeus, como por exemplo, a área de Boa Água, no município de Nísia Floresta até o início da década de 1990.

Enfim, o Rio Grande do Norte era predominantemente branco, outra parte miscigenada aos índios, outra, mínima, preta. Mas vamos retomar o fio da meada. Diante desse nó górdio, o chefe da Divisão de Pessoal dos Estados Unidos enviou um documento ao Quartel-General do ATC ordenando que enviassem apenas os equipamentos necessários, mas que não viesse nenhum membro do pessoal da Divisão. Essa objeção velada significava dizer que não viessem militares pretos.

Certamente, para que não ficasse feio e muito notório, criaram uma série de justificativas com relação a tal proibição. Enfim, proibiram e deu certo, cujos argumentos foram considerados favoráveis. Logo em seguida chegou os documentos informando que todos os equipamentos seriam enviados, mas sem militares pretos… Eis uma página amarga, dolorosa e vergonhosa dos bastidores da história da presença dos militares norte-americanos no Rio Grande do Norte. Infelizmente é fato é fato. E contra fatos, não há argumentos. 12.5.1999.

 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

Acta noturna - Como estavam os restos mortais de Nísia Floresta ao chegar a Recife - 12.10.2020

Arquivo Pessoal: M. J. Freire

Como é amplamente conhecido, houve grande surpresa por ocasião da chegada dos restos mortais da intelectual Nísia Floresta a Recife, depois a Natal e, por fim, à cidade de Nísia Floresta, em 1954. A multidão aguardava uma pequena urna contendo ossos, até porque ela falecera em 24 de abril de 1885. Haviam-se passado 69 anos desde o sepultamento - bem mais de meio século -, de modo que era inimaginável a chegada de um caixão convencional contendo um corpo quase intacto. Contudo, foi exatamente isso o que ocorreu. Para compreendermos esse marcante episódio, é fundamental conhecer algumas figuras-chave, cuja trajetória se apresenta a seguir.

ADAUTO MIRANDA RAPÔSO CÂMARA (1898–1952):

Ao evocarmos esse episódio, é inevitável rememorar a figura de Adauto da Câmara, autor da primeira obra dedicada a Nísia Floresta no Brasil, intitulada História de Nísia Floresta. Trata-se da biografia inaugural da ilustre papariense, publicada em 1941, cujo conteúdo reproduz, em essência, a conferência por ele proferida no ano anterior, em 1940, no âmbito da Federação das Academias de Letras do Brasil, no Rio de Janeiro. Adauto integrou o seleto grupo de intelectuais que envidaram esforços em favor do traslado dos despojos nisianos, embora não tenha tido a ventura de testemunhar a concretização desse ideal, pois faleceu anos antes, em 1952.

Em maio de 1950, durante conferência no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN), Adauto declarou:

“Por intermédio da Federação das Academias de Letras do Brasil, procurei, em 1938, obter uma certidão ou atestado do enterramento de Nísia Floresta, interessando-se, nesse sentido, o Itamaraty, ao qual se forneceram minuciosos elementos para diligências junto às autoridades francesas. A resposta, solícita e gentil, foi, no entanto, desalentadora: o Consulado Geral do Brasil no Havre, apesar de sua boa vontade, nada logrou de satisfatório, pois a Prefeitura de Rouen informara haver procedido a buscas nos registros do Estado Civil, ‘entre os anos de 1882 e 1902’, sem que fosse possível localizar o registro de óbito da referida senhora.”

Nessa mesma conferência, ele acrescenta: “Henrique Castriciano, certa vez, declarou-me possuir uma fotografia do túmulo, mas nunca tive oportunidade de vê-la, alegando ele que se extraviara.”

A nosso ver, um dos aspectos mais intrigantes desse enigma reside no fato de Henrique Castriciano não ter indicado com precisão o local do túmulo, tampouco ter deixado um esboço, mapa ou coordenadas que facilitassem sua localização futura, sobretudo considerando que possuía uma fotografia.

O tema da repatriação animou, durante décadas, as rodas de conversa no meio cultural natalense. Cartas e ofícios circularam entre instituições públicas federais, subscritos por intelectuais que pleiteavam a localização do túmulo de Nísia Floresta - documentos que chegaram a cruzar o Atlântico - com vistas ao posterior traslado. Ainda assim, o assunto permaneceu envolto em mistério por muitos anos.

ORLANDO VILLAR RIBEIRO DANTAS (1896–1953):

Cumpre lembrar também o jornalista Orlando Dantas, pertencente à família Ribeiro Dantas, de São José de Mipibu. Em 1950, ele foi o responsável por desvendar o mistério do paradeiro do túmulo de Nísia Floresta. Deslocou-se até Rouen e, após consideráveis dificuldades, conseguiu localizá-lo, patrocinando a exumação dos despojos, cujo traslado ao Brasil se daria anos depois.

HENRIQUE CASTRICIANO DE SOUZA (1874–1947):

Outro nome de relevo nessa história é o de Henrique Castriciano, fundador da tradicional Escola Doméstica de Natal. Segundo Raimundo Soares de Brito, mais do que interessado, ele era verdadeiramente fascinado pela trajetória de Nísia Floresta, tendo dedicado anos à coleta de documentos e informações. Castriciano manteve contato com Lívia Augusta de Faria Rocha (Gade), filha de Nísia, que lhe doou fotografias e documentos com vistas à elaboração de uma obra biográfica. Contudo, acometido por enfermidade e em um gesto de notável generosidade intelectual, transferiu todo o acervo a Adauto da Câmara, que viria a utilizá-lo na elaboração de sua obra. Henrique era irmão de duas figuras igualmente notáveis da cultura potiguar: Auta de Souza e Eloy de Souza.

MARCIANO FREIRE:

Não se pode olvidar o mipibuense Marciano Freire, então presidente do Centro Norte-rio-grandense do Rio de Janeiro, que desempenhou papel de grande responsabilidade no processo. Em 1954, recebeu do governo brasileiro a incumbência de dirigir-se a Rouen para providenciar o traslado dos restos mortais. Dentre os nomes aqui mencionados, apenas ele e os dois destacados a seguir presenciaram a chegada dos despojos a Recife, Natal e à cidade de Nísia Floresta, visto que os demais já haviam falecido antes de 1954.

NILO DE OLIVEIRA PEREIRA (1909–1992):

Professor, jornalista, historiador e político, Nilo Pereira é figura central na narrativa do traslado, especialmente por um episódio de audácia quase juvenil, cuja importância é decisiva para a compreensão histórica do estado em que se encontravam os restos mortais de Nísia Floresta. Nascido no Engenho Verde Nasce, em Ceará-Mirim (RN), destacou-se como membro da Academia Pernambucana de Letras e deputado estadual em Pernambuco.

Após deixar o porto de Marselha, na França, em agosto de 1954, o esquife chegou ao porto do Recife em 5 de setembro do mesmo ano. Foi então recebido pela Academia Pernambucana de Letras, sob a presidência de Nilo Pereira. Apesar de sua forte ligação com Pernambuco, ele jamais rompeu os vínculos com sua terra natal.

A recepção dos restos mortais prolongou-se por alguns dias devido a entraves burocráticos na alfândega. O caixão veio acondicionado dentro de uma grande caixa de madeira, como se fosse uma mercadoria comum. Para surpresa geral, a caixa chegou na posição vertical e foi movimentada dessa forma, contrariando o costume de transporte de caixões. Ninguém imaginava que ali se encontrava um corpo; supunha-se tratar apenas de uma urna funerária protegida por invólucros adicionais.

Marciano Freire, Nestor Lima e o próprio Nilo Pereira chegaram a posar para fotografias ao lado da caixa, sem saber que, em seu interior, encontrava-se o corpo praticamente preservado da escritora. Em termos poéticos, pode-se dizer que Nísia Floresta estava ali, em pé, entre eles, separada apenas por madeira e metal.

PAULO PINHEIRO DE VIVEIROS (1906–1979):

Natural de Natal, advogado e professor, Paulo Pinheiro de Viveiros foi o primeiro diretor da Faculdade de Direito de Natal e, à época, presidente da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Ao tomar conhecimento do impasse alfandegário, deslocou-se a Recife para interceder, embora sem êxito imediato.

À época, o presidente da República era o potiguar Café Filho, que viria a ser acionado por Nilo Pereira para resolver a situação.

No livro Pernambucanidade (1983), Nilo Pereira relata:

“[...] o mais aconselhável era telegrafar ao presidente Café Filho [...] As providências foram tomadas. E para espanto meu, lá estava nas Docas, não uma urna funerária, mas um ataúde [...] O corpo foi exposto à visitação pública [...] como se um enterro estivesse prestes a sair.”

O potiguar Café Filho era presidente do Brasil à ocasião da chegada dos restos mortais de Nísia Floresta

Em artigo publicado no jornal Tribuna do Norte, também em 1983, ele descreve:

“Havia dois caixões, um de zinco e outro de ébano. Ao abrirmos este último, subiu um cheiro [...] de múmia [...] Dava para ver bem a fisionomia.”

Esse episódio culmina na célebre “peripécia” protagonizada por Nilo Pereira e Paulo Viveiros, que, durante a noite, abriram o caixão para verificar o estado do corpo, gesto que, embora ousado, legou à história uma das descrições mais vívidas sobre Nísia Floresta.

O corpo seguiu, posteriormente, para Natal, chegando em 11 de setembro de 1954, sendo recebido com espanto pela população. Na cidade de Nísia Floresta, foi inicialmente depositado na igreja local, uma vez que o mausoléu havia sido preparado para uma urna, não para um caixão.

Posteriormente, por iniciativa do escritor Manoel Rodrigues de Melo, a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras providenciou a construção do mausoléu definitivo.

Nós que pesquisamos e estudamos uma figura ilustre - ou quaisquer outros objetos de investigação - inevitavelmente desenvolvemos opiniões próprias acerca dos fatos. Isso é natural. Todavia, em termos metodológicos, é essencial que tais opiniões sejam claramente distinguidas dos fatos históricos, sendo devidamente situadas no corpo do texto.

Faço essa observação porque, há algum tempo, tive acesso a uma reflexão da pesquisadora mipibuense Nathalye Bernardo Câmara sobre Nísia Floresta. Não recordo precisamente o veículo em que foi publicada, mas retenho com clareza o cerne de sua argumentação: segundo ela, Nísia não teria manifestado intenção de ser repatriada para o Brasil após sua morte, sendo o traslado fruto, antes, de uma vaidade de intelectuais potiguares e, em certa medida, um desrespeito à sua memória.

Entre os fundamentos apresentados, destaca-se o fato de Lívia Augusta de Faria Rocha ter adquirido o túmulo em regime de concessão perpétua, o que, em tese, indicaria a intenção de manter os restos mortais em solo francês de maneira definitiva.

Respeitosamente, divirjo dessa interpretação.

Apoio-me, para tanto, em um detalhe revelado justamente no episódio protagonizado por Nilo Pereira e Paulo Pinheiro de Viveiros. Vejo esse momento como um verdadeiro divisor de águas, quase um gesto providencial na narrativa histórica. Observe-se que, mesmo após 69 anos do falecimento, ainda era possível reconhecer a fisionomia de Nísia Floresta. As condições climáticas de Rouen - particularmente o solo frio - contribuíram para a conservação, mas isso, por si só, não seria suficiente sem o processo de embalsamamento.

Ora, o embalsamamento não era prática comum para sepultamentos ordinários, sobretudo no caso de uma estrangeira que, à época de sua morte, não gozava de ampla notoriedade na França. Em geral, tal procedimento destinava-se a corpos que permaneceriam expostos por longos períodos ou a personalidades de grande projeção pública.

Nesse sentido, a conjugação de dois fatores - o embalsamamento e a aquisição de um túmulo com concessão perpétua - parece sugerir uma intenção de preservação para o futuro. Interpreto tais elementos como indícios de que Lívia Augusta de Faria Rocha teria agido com a perspectiva de resguardar os restos mortais de sua mãe até que, em momento oportuno, pudessem ser trasladados. Lívia passou a maior parte da vida na Europa. Não tinha sentido retornar ao Brasil. À ocasião da morte de sua mãe ela não tinha marido, nem filhos. O irmão, Augusto Américo de Faria Rocha, residente no Rio de Janeiro, era idoso. Lívia não cresceu ao lado da maioria dos primos. Não havia afinidades. Não havia o que fazer no Brasil. Ela guardou a mãe no túmulo - dessa forma tão preservada - porque sabia que o futuro a reivindicaria.

Como pesquisador da obra de Nísia Floresta desde 1992, inclino-me a entender esses gestos como parte de uma estratégia silenciosa de preservação da memória. Quando nos debruçamos sobre os escritos de Nísia, percebemos que, ainda que de forma indireta ou mesmo involuntária, sua vida pessoal aflora em diversos trechos. Seu amor pelo Brasil é recorrente e profundamente sensível. Ao referir-se ao seu lugar de origem - o antigo Papary - ela o faz com uma carga poética evidente: menciona a lagoa, as matas, as árvores frutíferas, como quem evoca um espaço afetivo indissociável de sua identidade.

É nítida a saudade que permeia sua escrita. Contudo, o próprio Brasil de seu tempo mostrava-se, em certa medida, limitado para a amplitude de seu pensamento. A Europa, nesse contexto, surge como desdobramento natural de sua condição de mulher à frente de seu tempo. Ela precisou partir, mas jamais rompeu, em essência, com suas origens. Ainda que não exista registro explícito de seu desejo de repatriação, seus atos e sua obra, ao menos sob minha interpretação, sugerem esse vínculo permanente com a terra natal.

À época de sua morte, Lívia Augusta contava 55 anos e também seria sepultada naquele mesmo espaço. Esse conjunto de circunstâncias reforça a hipótese de que a aquisição do túmulo perpétuo visava impedir que, com o passar do tempo, os restos mortais fossem removidos. prática comum em cemitérios europeus quando não há concessão permanente, ocasião em que os ossos são transferidos e o terreno reutilizado.

É plausível supor que Lívia tivesse plena consciência do interesse de intelectuais brasileiros - especialmente potiguares - pela obra de sua mãe. A atuação de Henrique Castriciano é prova concreta desse interesse ainda em vida da filha de Nísia. Assim, não parece desarrazoado imaginar que Lívia antevisse a possibilidade de um futuro pedido de repatriação. Tal hipótese encontra paralelo em outros episódios da história brasileira, como o posterior traslado dos restos mortais de Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, também potiguar, cujo corpo igualmente foi repatriado anos após sua morte.

E assim, ao escrever sobre a célebre peripécia de Nilo Pereira e Paulo Viveiros, percebo que fui conduzido a reflexões mais amplas, próprias de quem se deixa envolver pelo objeto de estudo. É, talvez, o destino inevitável de quem toma um lápis e se põe a escrever sobre Nísia Floresta. Ao fim e ao cabo, porém, permanece uma indagação simples e profundamente humana: quem, naquela circunstância, não desejaria ver Nísia? Tratava-se de uma oportunidade única.

Podemos afirmar, com razoável segurança, que Nilo Pereira e Paulo Pinheiro de Viveiros foram, muito provavelmente, os últimos a contemplar a fisionomia de Nísia Floresta.

 


quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó - Nísia Floresta/RN - 1963



O belo templo guarda ainda imagens intactas de incalculável valor histórico e museológico, apesar de ter sofrido sérias modificações em alguns de seus elementos arquitetônicos e outros. É uma pena! O povo de Nísia Floresta deve estar sempre atento, sem esperar que pessoas de outros lugrares denunciem essas descaracterizações.

A Matriz de Nossa Senhora do Ó (1735-1755) pertence ao povo. Os administradores passam. Os nisiaflorestenses ficam. Em 2006 o cônego Rui Miranda – aquele que celebrou a missa de encomendação de corpo de Nísia Floresta em 1954 - contou -me, em Ceará-Mirim, que muitos padres resistiram e continuaram celebrando em latim após o Concílio Vaticano II...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Belinha, a cachorrinha que veio morar conosco...

Obra da artista plástica russa Katerina Lukianova

Sempre afirmei que “educar seres humanos é a tarefa mais difícil do mundo”. Belinha (essa da pintura) tem oito anos de idade. No planeta dos cachorros ela é idosa. Sua estadia conosco reafirma a minha impressão sobre o difícil processo de educar gente.
Esse pedacinho da natureza veio morar conosco por razão extraordinária: sua dona morreu. Chegou com algumas manias tronchas, mas devagarinho construímos com ela a ideia de que o mundo dos humanos tem regras. Alguns não as cumprem, mas não é a regra. E Belinha tem se educado nesses conformes de maneira impressionante.
Não comparo a educação dada a Fídias com a educação dada a Belinha - até porque são seres diferentes - mas há um quesito exatamente igual na construção desse processo. Fídias sempre aprendeu pela palavra, pelo ouvido, sem ser necessário a palmatória. Minha mãe sempre diz que "palavra gritada ninguém ouve". E a senhorita Belinha segue nessa linha. Há um pequeno detalhe: às vezes tenho que falar um pouco mais alto, mas nada que fuja da normalidade.
No início, Belinha fazia um escarcéu no banho. O coração parecia sair pela boca. Hoje, fica quietinha e se comporta com serenidade. O que facilita o processo.
Tentou inaugurar o hábito de pedir comida quando estamos na mesa. Ela se erguia, colocava as mãos na nossa perna e choramingava, mesmo tendo comido a ração. Mas já abolimos o mal costume. No início ela ficava longe, rabo balançando e olhos falando. Hoje, fica debaixo da mesa, dormindo com um olho aberto e outro fechado. Não incomoda.
Choramingava, querendo lugar no sofá. Hoje se acomoda no chão ou em sua caminha que no início rejeitou. Aprendeu uma mania de se espreguiçar sobre os nossos chinelos com a barriga para cima, e às vezes parece que vai ter uma convulsão. Mas é alegria!
Depois do banho e de ser enxugada, saia com os pelos úmidos pela casa, manchando o chão. Hoje, fica sobre a toalha até se secar.
Observando o processo de “aprendizado” de Belinha, percebo o quanto os seres humanos, com suas exceções, são difíceis de serem educados.
Quantos pais dizem quase diariamente: já escovou os dentes? Já fez o dever da escola? Vá tomar banho! Guardou os brinquedos? Arrumou o quarto? Tem que comer salada! Tá na hora da aula! E essa toalha em cima da cama?


Esses discursos - normalmente proferidos pelas mães - seriam normais se não se estendessem até a adolescência, e até mesmo depois dela. E no bojo dessas cansativas orientações, quantos pais - embora não devessem - partem para a grosseria? Muitos! Mas de uma coisa tenho certeza absoluta: se Belinha precisasse dessas mesmas convenções sociais humanas, já estaria praticando-as de maneira impecável. Talvez estaria dando aula de boas maneiras para muitos... pelo menos até agora!
Conheço uma porção de diabéticos que driblam os familiares e comem doce desenfreadamente. Quantas pessoas com problema de pressão alta comem às escondidas o feijão preparado com charque, deixando de lado o feijão que foi preparado com exclusividade para si.
Quantas pessoas, proibidas de dirigir por limitações físicas, retiram o carro da garagem e saem pela cidade dirigindo contra o vento sem lenço e sem documento?
Pois é… Belinha tem nos educado no processo de ser reeducada! Seus olhos falam milhões de palavras. Ela sabe quando não estamos gostando de alguma coisa. Dia desses comeu um pedaço da fralda e ficou de longe, se escondendo, olhos dizendo que sabia que aquilo era errado. É assim. O bom de tudo é que, a cada vez que ela inaugura uma prática troncha, é facilmente educada. Seria bom se nós - humanóides - fôssemos assim…

sábado, 22 de janeiro de 2022

O que não estiver nas redes sociais não existe - a vida real é irreal...

 


Aqui em casa temos um baú antigo que não cabe mais fotografias. Ali está a minha vida, a vida de Alysgardênia e a vida de Fídias. Esse baú é repleto de álbuns fotográficos desde que nós éramos bebês até o presente. Ali estão registradas as nossas vidas escolares, profissionais, passeios, nossos parentes, eventos, enfim uma coleção de álbuns familiares.
Nos últimos tempos muitos filósofos, psicólogos, psiquiatras, psicanalistas têm falado sobre uma espécie de doença que acomete parte da sociedade, cujas pessoas – aliás, os internautas – passam a sofrer de um vazio irreparável e até depressivo decorrente da relação com a internet.
 
Há dois anos, num VLT, sentado ao lado de duas adolescentes, ouvi a insatisfação de uma delas comentando sem segredos sobre as suas redes sociais. Ela estava revoltada porque muitas pessoas adicionadas como “amigos”, quase não curtiam, comentavam ou compartilhavam suas postagens no Facebook. 
 
Nunca esqueço a decisão dela, ao sentenciar “vou broquear todo esse povo!”. A palavra foi exatamente “broquear”. Ela estava brava e socava a palma da mão ao dizer essas coisas enfaticamente. Achei engraçado aquele raciocínio tão imaturo, até porque muitos leem e veem, mas se comportam como se não o fizessem. Percebi que há uma expectativa no sentido da interação dos amigos, e quando não ocorre, frustra-se. É como se a pessoa falasse para uma porta.
 
Numa estação bem mais adiante, encontrei Rossana, uma amiga que, igual a mim, desceria na parada final – mãe de gêmeas – grande observadora da vida no afã de bem educar suas meninas. Rossana tem um esmero na construção da educação de suas filhas, e isso me impressiona. Ela riu muito sobre o motivo da revolta da adolescente. Inclusive brinquei, dizendo que iria “broqueá-la” se ela não curtisse quando eu escrevesse sobre o episódio. O que faço agora, passados dois anos dessa viagem de VLT.
 
Esse episódio do VLT – que para mim é matéria prima para a escrita – fez-me pensar exatamente sobre esses vazios das redes sociais, e o que esses dispositivos promovem na mente de algumas pessoas que não tem o pé no chão. De fato é uma espécie de nova doença, pois não há limites. Vale tudo.
 
Observo que há uma necessidade quase doentia – salve-se as exceções – de se dar satisfação à sociedade. Há uma necessidade de contar intimidades, mostrar intimidades. Não existe discrição, polidez e sim exposição escrachada da vida pessoal, como se tudo na vida fosse uma vitrine. 
 
Não entendam ao pé da letra, por favor, afinal sempre escrevo aqui coisas sobre o meu modo de enxergar a vida, inclusive eventualmente publico coisas pessoais, muito embora muito distante da essência desse texto. Normalmente minhas postagens evocam sempre a política, literatura, Arte, a natureza, as mazelas sociais sobre abominações religiosas e coisas do tipo.
 
Uma vez ou outra publico alguma crônica sobre um fato pessoal, como por exemplo “O varal de Deus”. Mas neste texto me refiro à transformação das redes sociais num álbum fotográfico bizarro e aberto ao mundo à cata de fãs. Isso é perigoso e explica o sentimento de revolta dessa garota do VLT.
 
Há uma expectativa em quem se alimenta disso. O material postado parece ter sempre a intenção de “causar”, de “impactar”, e quando isso não ocorre vem a insatisfação que pode se transformar em decepção, que leva à tristeza, que pode condicionar à depressão. Sabiam que isso já está acontecendo? Há milhares de pessoas depressivas, enchendo os consultórios pelas frustrações plurais no mundo da internet.
 
Aos que consomem essa expectativa há uma espécie de síndrome de celebridade, de estrelismo, como se a pessoa fosse um astro, e em sendo tudo isso, é imperdoável não ser visto. Não há como ser o máximo e não ser notado, não receber curtidas, não ser compartilhado, não receber um texto elogioso etc. 
 
Se a garota bonita postou uma fotografia com biquinho, precisa ter o vestido elogiado, se é artista deve receber infinitas curtidas, se é escritor precisa da interação de todo o planeta Terra, se postou foto com amigos em Nova York deve ser compartilhado até por Marte, enfim há uma expectativa de ser visto para saciar o bem estar. É também uma forma de mostrar “poder”.
 
É óbvio que quando fazemos algo bom, há uma interação, mas de forma natural, espontânea, assim como nós também interagimos com algumas postagens que vimos. As coisas devem acontecer de maneira natural, e não apelativa, forçadamente, pois dessa forma tudo se torna artificial. O que tem qualidade normalmente é apreciado por mentes realmente pensantes, e ultimamente o pensar inteligente queda em extinção.
 
É impossível estarmos atentos a tudo e vermos todas as coisas de qualidade na internet. Eu mesmo, dia desses, recebi de um amigo a observação muito respeitosa por não ter comentado nada sobre o lançamento de seu livro. Mas eu não tinha visto. Creio que isso acontece com todos nós. Como escreveu Charlies Chaplin “não sois máquina, homem é que sois”.
 
O que parece faltar nesse universo doentio é senso. Há muita gente boa, até extraordinária, postando coisas excepcionais em todas as áreas: na fotografia, na música, na literatura, no jornalismo, na sociologia, na antropologia, no cinema, no mundo empresarial etc. E BOA PARTE DELAS NÃO SÃO QUASE VISTAS. Imagine os simples mortais.
 
Ultimamente a humanidade está jogando pesado no aspecto da exibição. As pessoas estão desnudando o corpo e a alma de maneira anormal, e vale tudo. Muitos chegam a apelar. Há muitos yutubers de sucesso, formando opinião para o bem e para o mal, e parece que boa parte do povo segue essa linha através de postagens das mais esdrúxulas, como sendo o grande caminho. A felicidade é isso, assim pensam. E em sendo despercebido, é infelicidade automática, causando tristeza e até depressão.
 
As redes sociais têm promovido um caos nesse aspecto. E tudo é facilmente visto por crianças a adolescentes, pois os vídeos aparecem aleatoriamente (como é o caso do Facebook). Dia desses vi no Watch, do Facebook, uma moça batendo na mãe e pediu que uma amiga filmasse. Há muita gente fazendo caridade para receber placas do Yotube. Sem o reconhecimento e sem mostrar o rosto a pessoa não faria caridade. É uma caridade falsa, midiática.
 
Vi também, dentre tantas bizarrices, no Watch, um rapaz que aparece nu, com o pênis ereto, na frente da tia dele. A senhora se assusta, inicialmente o condena enfaticamente, pedindo que ele se cobrisse e a respeitasse. O rapaz enceta uma porção de gatimonha e, de repente, a tia começa a rir sem parar. Óbvio que o jovem fez a filmagem de maneira que nada se tornasse explícito. Estava enrolado numa toalha aberta na frente e filmava em direção à tia, de maneira que apenas ela o via nu.
 
Li, certa vez, uma professora dizendo a bizarra e doentia informação que de vez em quando colocava a mão dentro do ânus e cheirava, outra hora o fazia na área genital quando estava bem suada, que fazia também nas axilas, descrevendo o quanto era fétido tudo aquilo. O que mais me impressionou foram os comentários envolvendo a comunidade estudantil, professores e outras pessoas da comunidade, e até evangélicos. É um circo dos horrores.
 
A leitura que faço de tudo isso é que se a nossa vida não estiver totalmente exposta nas redes sociais, como se ela fosse uma vitrine, através de fotografias ou textos, -e nisso está implícito também atos bizarros e anômalos - nossa vida é mentira. Não existe. Só existe o que está nas redes sociais.
 
A vida real é irreal se não for dada satisfação à sociedade, se não expormos intimidades de nossa família, problemas pessoais, cotidianos, enfim. O corpo masculino e feminino tornaram-se uma vitrine, e mesmo no Facebook ou Instagram há uma necessidade apelativa que tangencia o que chamam nude. É uma espécie de BBB da vida. Ultimamente não se tem poupado nem o banheiro da casa.
 
O cotidiano é uma vitrine. Se o vídeo não choca pelo grau de anômalo, bizarro, desrespeitoso, doentio, chocante etc, não vale. Vi um documentário em que um perito criminal informa que há pessoas fazendo fotografias dentro de funerárias, expondo pessoas mortas nas redes sociais, através de grupos restritos. Já imaginou isso?!
 
Confesso que não sou uma pessoa conservadora e retrógrada, mas mantenho sempre o meu desconfiômetro ligado na tentativa de ser poupado de certos absurdos. Na vida há limites, há regras. É algo humano. Do contrário é caos.
 
O que se percebe é que se a nossa vida pessoal não passou no Facebook, no Instagran etc - como uma novela global - ela não existiu. As coisas só existem se forem expostas nas redes sociais. Os amigos e até mesmo as pessoas estranhas precisam saber os mínimos detalhes das nossas vidas, portanto é necessário alimentar os abutres porque quem alimenta isso também é abutre do outro. E esses adeptos não percebem que podem arrastar para si inúmeros problemas futuros. É só pensar.
 
No bojo desse planeta audiovisual doente e deprimente, há muitas iniciativas nobres e altruístas, obviamente - como já observei lá em cima -, pois do contrário seria caos pleno. Mas, como disse o famoso e saudoso poeta Bob Motta “a internet é como Serra Pelada, você tem que ralar muito para encontrar uma pepitinha desse tamaninho”. Há, sim, muitas pepitas. É só garimpar.
 
No mundo não há pessoas perfeitas, e nem é bom que haja. Mas é importante o bom senso, inclusive o senso do ridículo é prioridade. Minha mãe sempre disse que “quem muito se abaixa o fundo aparece”. Para encerrar, não se preocupe pensando que eu iria "broquear" você por não ter lido. Eu só "broqueio" bolsonaristas que despensam o que escrevo.