
ADAUTO MIRANDA RAPÔSO CÂMARA (1898–1952):
Ao evocarmos esse episódio, é inevitável rememorar a figura de Adauto da Câmara, autor da primeira obra dedicada a Nísia Floresta no Brasil, intitulada História de Nísia Floresta. Trata-se da biografia inaugural da ilustre papariense, publicada em 1941, cujo conteúdo reproduz, em essência, a conferência por ele proferida no ano anterior, em 1940, no âmbito da Federação das Academias de Letras do Brasil, no Rio de Janeiro. Adauto integrou o seleto grupo de intelectuais que envidaram esforços em favor do traslado dos despojos nisianos, embora não tenha tido a ventura de testemunhar a concretização desse ideal, pois faleceu anos antes, em 1952.
Em maio de 1950, durante conferência no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN), Adauto declarou:
“Por intermédio da Federação das Academias de Letras do Brasil, procurei, em 1938, obter uma certidão ou atestado do enterramento de Nísia Floresta, interessando-se, nesse sentido, o Itamaraty, ao qual se forneceram minuciosos elementos para diligências junto às autoridades francesas. A resposta, solícita e gentil, foi, no entanto, desalentadora: o Consulado Geral do Brasil no Havre, apesar de sua boa vontade, nada logrou de satisfatório, pois a Prefeitura de Rouen informara haver procedido a buscas nos registros do Estado Civil, ‘entre os anos de 1882 e 1902’, sem que fosse possível localizar o registro de óbito da referida senhora.”
Nessa mesma conferência, ele acrescenta: “Henrique Castriciano, certa vez, declarou-me possuir uma fotografia do túmulo, mas nunca tive oportunidade de vê-la, alegando ele que se extraviara.”
A nosso ver, um dos aspectos mais intrigantes desse enigma reside no fato de Henrique Castriciano não ter indicado com precisão o local do túmulo, tampouco ter deixado um esboço, mapa ou coordenadas que facilitassem sua localização futura, sobretudo considerando que possuía uma fotografia.
O tema da repatriação animou, durante décadas, as rodas de conversa no meio cultural natalense. Cartas e ofícios circularam entre instituições públicas federais, subscritos por intelectuais que pleiteavam a localização do túmulo de Nísia Floresta - documentos que chegaram a cruzar o Atlântico - com vistas ao posterior traslado. Ainda assim, o assunto permaneceu envolto em mistério por muitos anos.

ORLANDO VILLAR RIBEIRO DANTAS (1896–1953):
Cumpre lembrar também o jornalista Orlando Dantas, pertencente à família Ribeiro Dantas, de São José de Mipibu. Em 1950, ele foi o responsável por desvendar o mistério do paradeiro do túmulo de Nísia Floresta. Deslocou-se até Rouen e, após consideráveis dificuldades, conseguiu localizá-lo, patrocinando a exumação dos despojos, cujo traslado ao Brasil se daria anos depois.

HENRIQUE CASTRICIANO DE SOUZA (1874–1947):
Outro nome de relevo nessa história é o de Henrique Castriciano, fundador da tradicional Escola Doméstica de Natal. Segundo Raimundo Soares de Brito, mais do que interessado, ele era verdadeiramente fascinado pela trajetória de Nísia Floresta, tendo dedicado anos à coleta de documentos e informações. Castriciano manteve contato com Lívia Augusta de Faria Rocha (Gade), filha de Nísia, que lhe doou fotografias e documentos com vistas à elaboração de uma obra biográfica. Contudo, acometido por enfermidade e em um gesto de notável generosidade intelectual, transferiu todo o acervo a Adauto da Câmara, que viria a utilizá-lo na elaboração de sua obra. Henrique era irmão de duas figuras igualmente notáveis da cultura potiguar: Auta de Souza e Eloy de Souza.

MARCIANO FREIRE:
Não se pode olvidar o mipibuense Marciano Freire, então presidente do Centro Norte-rio-grandense do Rio de Janeiro, que desempenhou papel de grande responsabilidade no processo. Em 1954, recebeu do governo brasileiro a incumbência de dirigir-se a Rouen para providenciar o traslado dos restos mortais. Dentre os nomes aqui mencionados, apenas ele e os dois destacados a seguir presenciaram a chegada dos despojos a Recife, Natal e à cidade de Nísia Floresta, visto que os demais já haviam falecido antes de 1954.

NILO DE OLIVEIRA PEREIRA (1909–1992):
Professor, jornalista, historiador e político, Nilo Pereira é figura central na narrativa do traslado, especialmente por um episódio de audácia quase juvenil, cuja importância é decisiva para a compreensão histórica do estado em que se encontravam os restos mortais de Nísia Floresta. Nascido no Engenho Verde Nasce, em Ceará-Mirim (RN), destacou-se como membro da Academia Pernambucana de Letras e deputado estadual em Pernambuco.
Após deixar o porto de Marselha, na França, em agosto de 1954, o esquife chegou ao porto do Recife em 5 de setembro do mesmo ano. Foi então recebido pela Academia Pernambucana de Letras, sob a presidência de Nilo Pereira. Apesar de sua forte ligação com Pernambuco, ele jamais rompeu os vínculos com sua terra natal.
A recepção dos restos mortais prolongou-se por alguns dias devido a entraves burocráticos na alfândega. O caixão veio acondicionado dentro de uma grande caixa de madeira, como se fosse uma mercadoria comum. Para surpresa geral, a caixa chegou na posição vertical e foi movimentada dessa forma, contrariando o costume de transporte de caixões. Ninguém imaginava que ali se encontrava um corpo; supunha-se tratar apenas de uma urna funerária protegida por invólucros adicionais.
Marciano Freire, Nestor Lima e o próprio Nilo Pereira chegaram a posar para fotografias ao lado da caixa, sem saber que, em seu interior, encontrava-se o corpo praticamente preservado da escritora. Em termos poéticos, pode-se dizer que Nísia Floresta estava ali, em pé, entre eles, separada apenas por madeira e metal.

PAULO PINHEIRO DE VIVEIROS (1906–1979):
Natural de Natal, advogado e professor, Paulo Pinheiro de Viveiros foi o primeiro diretor da Faculdade de Direito de Natal e, à época, presidente da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. Ao tomar conhecimento do impasse alfandegário, deslocou-se a Recife para interceder, embora sem êxito imediato.
À época, o presidente da República era o potiguar Café Filho, que viria a ser acionado por Nilo Pereira para resolver a situação.
No livro Pernambucanidade (1983), Nilo Pereira relata:
“[...] o mais aconselhável era telegrafar ao presidente Café Filho [...] As providências foram tomadas. E para espanto meu, lá estava nas Docas, não uma urna funerária, mas um ataúde [...] O corpo foi exposto à visitação pública [...] como se um enterro estivesse prestes a sair.”
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| O potiguar Café Filho era presidente do Brasil à ocasião da chegada dos restos mortais de Nísia Floresta |
Em artigo publicado no jornal Tribuna do Norte, também em 1983, ele descreve:
“Havia dois caixões, um de zinco e outro de ébano. Ao abrirmos este último, subiu um cheiro [...] de múmia [...] Dava para ver bem a fisionomia.”
Esse episódio culmina na célebre “peripécia” protagonizada por Nilo Pereira e Paulo Viveiros, que, durante a noite, abriram o caixão para verificar o estado do corpo, gesto que, embora ousado, legou à história uma das descrições mais vívidas sobre Nísia Floresta.
O corpo seguiu, posteriormente, para Natal, chegando em 11 de setembro de 1954, sendo recebido com espanto pela população. Na cidade de Nísia Floresta, foi inicialmente depositado na igreja local, uma vez que o mausoléu havia sido preparado para uma urna, não para um caixão.
Posteriormente, por iniciativa do escritor Manoel Rodrigues de Melo, a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras providenciou a construção do mausoléu definitivo.
Nós que pesquisamos e estudamos uma figura ilustre - ou quaisquer outros objetos de investigação - inevitavelmente desenvolvemos opiniões próprias acerca dos fatos. Isso é natural. Todavia, em termos metodológicos, é essencial que tais opiniões sejam claramente distinguidas dos fatos históricos, sendo devidamente situadas no corpo do texto.
Faço essa observação porque, há algum tempo, tive acesso a uma reflexão da pesquisadora mipibuense Nathalye Bernardo Câmara sobre Nísia Floresta. Não recordo precisamente o veículo em que foi publicada, mas retenho com clareza o cerne de sua argumentação: segundo ela, Nísia não teria manifestado intenção de ser repatriada para o Brasil após sua morte, sendo o traslado fruto, antes, de uma vaidade de intelectuais potiguares e, em certa medida, um desrespeito à sua memória.
Entre os fundamentos apresentados, destaca-se o fato de Lívia Augusta de Faria Rocha ter adquirido o túmulo em regime de concessão perpétua, o que, em tese, indicaria a intenção de manter os restos mortais em solo francês de maneira definitiva.
Respeitosamente, divirjo dessa interpretação.
Apoio-me, para tanto, em um detalhe revelado justamente no episódio protagonizado por Nilo Pereira e Paulo Pinheiro de Viveiros. Vejo esse momento como um verdadeiro divisor de águas, quase um gesto providencial na narrativa histórica. Observe-se que, mesmo após 69 anos do falecimento, ainda era possível reconhecer a fisionomia de Nísia Floresta. As condições climáticas de Rouen - particularmente o solo frio - contribuíram para a conservação, mas isso, por si só, não seria suficiente sem o processo de embalsamamento.
Ora, o embalsamamento não era prática comum para sepultamentos ordinários, sobretudo no caso de uma estrangeira que, à época de sua morte, não gozava de ampla notoriedade na França. Em geral, tal procedimento destinava-se a corpos que permaneceriam expostos por longos períodos ou a personalidades de grande projeção pública.
Nesse sentido, a conjugação de dois fatores - o embalsamamento e a aquisição de um túmulo com concessão perpétua - parece sugerir uma intenção de preservação para o futuro. Interpreto tais elementos como indícios de que Lívia Augusta de Faria Rocha teria agido com a perspectiva de resguardar os restos mortais de sua mãe até que, em momento oportuno, pudessem ser trasladados. Lívia passou a maior parte da vida na Europa. Não tinha sentido retornar ao Brasil. À ocasião da morte de sua mãe ela não tinha marido, nem filhos. O irmão, Augusto Américo de Faria Rocha, residente no Rio de Janeiro, era idoso. Lívia não cresceu ao lado da maioria dos primos. Não havia afinidades. Não havia o que fazer no Brasil. Ela guardou a mãe no túmulo - dessa forma tão preservada - porque sabia que o futuro a reivindicaria.
Como pesquisador da obra de Nísia Floresta desde 1992, inclino-me a entender esses gestos como parte de uma estratégia silenciosa de preservação da memória. Quando nos debruçamos sobre os escritos de Nísia, percebemos que, ainda que de forma indireta ou mesmo involuntária, sua vida pessoal aflora em diversos trechos. Seu amor pelo Brasil é recorrente e profundamente sensível. Ao referir-se ao seu lugar de origem - o antigo Papary - ela o faz com uma carga poética evidente: menciona a lagoa, as matas, as árvores frutíferas, como quem evoca um espaço afetivo indissociável de sua identidade.
É nítida a saudade que permeia sua escrita. Contudo, o próprio Brasil de seu tempo mostrava-se, em certa medida, limitado para a amplitude de seu pensamento. A Europa, nesse contexto, surge como desdobramento natural de sua condição de mulher à frente de seu tempo. Ela precisou partir, mas jamais rompeu, em essência, com suas origens. Ainda que não exista registro explícito de seu desejo de repatriação, seus atos e sua obra, ao menos sob minha interpretação, sugerem esse vínculo permanente com a terra natal.
À época de sua morte, Lívia Augusta contava 55 anos e também seria sepultada naquele mesmo espaço. Esse conjunto de circunstâncias reforça a hipótese de que a aquisição do túmulo perpétuo visava impedir que, com o passar do tempo, os restos mortais fossem removidos. prática comum em cemitérios europeus quando não há concessão permanente, ocasião em que os ossos são transferidos e o terreno reutilizado.
É plausível supor que Lívia tivesse plena consciência do interesse de intelectuais brasileiros - especialmente potiguares - pela obra de sua mãe. A atuação de Henrique Castriciano é prova concreta desse interesse ainda em vida da filha de Nísia. Assim, não parece desarrazoado imaginar que Lívia antevisse a possibilidade de um futuro pedido de repatriação. Tal hipótese encontra paralelo em outros episódios da história brasileira, como o posterior traslado dos restos mortais de Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, também potiguar, cujo corpo igualmente foi repatriado anos após sua morte.
E assim, ao escrever sobre a célebre peripécia de Nilo Pereira e Paulo Viveiros, percebo que fui conduzido a reflexões mais amplas, próprias de quem se deixa envolver pelo objeto de estudo. É, talvez, o destino inevitável de quem toma um lápis e se põe a escrever sobre Nísia Floresta. Ao fim e ao cabo, porém, permanece uma indagação simples e profundamente humana: quem, naquela circunstância, não desejaria ver Nísia? Tratava-se de uma oportunidade única.
Podemos afirmar, com razoável segurança, que Nilo Pereira e Paulo Pinheiro de Viveiros foram, muito provavelmente, os últimos a contemplar a fisionomia de Nísia Floresta.