ANTES DE LER É BOM SABER...
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
CASO JÚLIO LANCELLOTTI - CARDEAL D. PAULO EVARISTO ARNS E PEDRO CASALDÁGLIA DEVEM ESTAR SE REMOENDO NO TÚMULO.
Padre João Jerônimo da Cunha: o dono de escravisados que se tornou abolicionista...
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| Debret |
Nascido em 12 de julho de 1813, na então vila de Papary, Padre João Jerônimo pertenceu a uma tradicional família da região sul potiguar. Viveu num período em que o Rio Grande do Norte ainda possuía forte economia baseada nos engenhos, na pecuária e na mão de obra escravizada. Sua trajetória pessoal mistura religiosidade, poder político, influência econômica e as próprias contradições do Brasil imperial.
Ainda jovem, seguiu formação eclesiástica, tornando-se sacerdote em tempos nos quais a Igreja Católica exercia enorme influência sobre a organização social e política das províncias brasileiras. Durante alguns anos, atuou como pároco em Santa Cruz, no interior do estado, desempenhando funções religiosas entre as décadas de 1830 e 1840.
Entretanto, sua atuação não permaneceu limitada apenas ao sacerdócio. Padre João Jerônimo tornou-se também uma figura de destaque político e econômico. Proprietário do Engenho Bosque, localizado na região de Goianinha, consolidou fortuna ligada à produção açucareira, atividade profundamente dependente da escravidão naquele período histórico.
Como muitos homens influentes do século XIX, transitava simultaneamente entre a religião, a política e a economia agrária. Filiado ao Partido Conservador, exerceu mandato como deputado provincial e ocupou funções administrativas importantes na região sul do Rio Grande do Norte, tornando-se um dos homens mais influentes de seu tempo.
Sua figura chama atenção justamente pelas ambiguidades históricas que carrega. Os registros mostram que foi proprietário de escravizados, realidade comum entre os grandes senhores de engenho do período. Contudo, documentos memorialísticos e relatos históricos posteriores também indicam que aderiu ao movimento abolicionista nas últimas décadas do século XIX, chegando a libertar cativos ligados às suas propriedades.
Esse aspecto o transforma numa personagem complexa dentro da historiografia potiguar. Ao mesmo tempo em que integrou as estruturas escravistas do Império, também presenciou - e de certa forma participou - do ambiente de transformação social que culminaria na abolição da escravidão no Brasil.
Ao observarmos a história de Papary, compreendemos que a escravidão esteve profundamente inserida na vida econômica e urbana da antiga vila. Em textos publicados sobre a história local, neste mesmo blog, mencionei a existência uma ligada ao comércio de escravizados nas proximidades da antiga estação ferroviária de Papary (história que me foi contada pela prima Mirtes Maranhão - que residia no Engenho São Roque, filha de Maria Luzia Peixoto Maranhão e Roque Maranhão). Essa lembrança histórica revela como a circulação de pessoas escravizadas fazia parte da dinâmica econômica regional, aproximando a vila dos circuitos comerciais do açúcar e das relações sociais do período imperial.
Dentro desse contexto, a trajetória de Padre João Jerônimo ajuda a compreender melhor as tensões daquele tempo. Era uma sociedade profundamente marcada por hierarquias raciais, concentração de terras, religiosidade tradicional e disputas políticas entre liberais e conservadores.
Outro aspecto interessante de sua vida é a convivência familiar e intelectual com o sobrinho, Padre João Alípio da Cunha, também figura conhecida na memória histórica regional. Ambos viveram parte de suas trajetórias ligados ao Engenho Bosque, espaço que simbolizava não apenas riqueza econômica, mas também poder político e influência social.
Padre João Jerônimo faleceu em 26 de janeiro de 1902, aos 89 anos, encerrando uma vida que atravessou praticamente todo o século XIX brasileiro. Viveu o Brasil Imperial, testemunhou os debates sobre escravidão, acompanhou as transformações políticas do país e viu surgir um novo cenário após a abolição e a Proclamação da República.
Sua história permanece como um retrato das contradições do Brasil oitocentista: um sacerdote que também foi senhor de engenho; um homem ligado às elites conservadoras que atravessou o período abolicionista; um personagem que ajuda a compreender não apenas a história de Papary, mas também as complexidades sociais do Rio Grande do Norte no século XIX e a próppria história do abolicionismo.
Referências
- “Padre João Jerônimo: Senhor de Engenho e Escravos” - Djahy Lima.
- Dissertação Em busca da realidade: a experiência da etnicidade dos Eleotérios (Catu/RN), de Claudia Maria Moreira da Silva, UFRN.
- Blog: nisiaflorestaporluiscarlosfreire. Estudos históricos e memorialísticos sobre Papary/Nísia Floresta e a escravidão no sul do Rio Grande do Norte.
quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
BREVES NOTAS GENEALÓGIGAS DE PARENTES DE NÍSIA FLORESTA...
Ao compulsarmos o Archivo Heráldico-Genealógico do Visconde de Sanches de Baena, bem como outras fontes administrativas e nobiliárquicas do século XIX, deparamo-nos com o registro de Benjamin Franklin Torreão de Barros, personagem que reúne, de forma exemplar, os traços característicos da elite letrada, política e administrativa do Brasil imperial. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela tradicional Faculdade de Direito do Recife, Benjamin integrou o corpo diplomático do Império, exercendo o cargo de adido de primeira classe à legação brasileira na República Oriental do Uruguai, função que o inseria diretamente no serviço exterior brasileiro em um período de consolidação das relações diplomáticas sul-americanas. Ele é parente de Nísia Floresta.
A menção a Benjamin Franklin Torreão de Barros não se limita ao campo genealógico. Seu nome figura de modo explícito em publicações oficiais do Império, como os Almanaks Administrativos, Mercantis e Industriais das décadas de 1860, nos quais aparece listado entre os integrantes formais do Corpo Diplomático Brasileiro, com a indicação expressa de seu posto de adido de primeira classe. Esses registros confirmam que sua atuação ultrapassava o mero título honorífico, tratando-se de efetiva vinculação administrativa ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, em consonância com o perfil dos bacharéis formados em Direito que, naquele período, abasteciam tanto a magistratura quanto a diplomacia imperial.
Era filho legítimo de Bento José Fernandes de Barros, comendador das Ordens de Cristo e da Rosa - distinções que atestam serviços relevantes prestados à Coroa -, e de D. Joaquina Brazileira Torreão de Barros. O uso do prenome Brazileira, frequente em diversos membros dessa família, revela um costume onomástico disseminado entre parentes próximos e colaterais, inclusive no tronco familiar de Nísia Floresta Brasileira Augusta, reforçando os vínculos entre essas linhagens potiguares de grande projeção intelectual e política.
Pela linha paterna, Benjamin era neto do capitão Bento José Fernandes de Barros e de D. Anna Rita Freire de Azevedo; pela linha materna, descendia de Basílio Quaresma Torreão, personagem de inegável protagonismo na história política do Rio Grande do Norte e da Paraíba, tendo exercido a presidência dessas províncias e ocupado assento como deputado à Assembleia Geral Legislativa. Foi Basílio Quaresma Torreão quem abriu, em 2 de fevereiro de 1835, a primeira sessão da Primeira Legislatura da Assembleia Provincial do Rio Grande do Norte, em cumprimento à Carta de Lei de 12 de agosto de 1834. Casado com D. Anna Catharina de Barros Torreão, consolidou a união de famílias que concentravam prestígio político, formação intelectual e influência regional.
A continuidade dessa tradição pública manifesta-se ainda na figura de Basílio Quaresma Torreão Júnior, filho do estadista, que ocupou a Primeira Secretaria da Assembleia Provincial a partir de 1838. Nascido em Goianinha, bacharel em Olinda em 1834, exerceu os cargos de deputado provincial, primeiro Juiz de Direito do Assu, magistrado em Natal por nomeação de 1841 e Chefe de Polícia, ilustrando a permanência do protagonismo institucional da família ao longo do século XIX.
Na geração ascendente, Benjamin Franklin Torreão de Barros era bisneto, pela linha paterna, de Manuel José Fernandes e de D. Maria Josepha de Barros, naturais de Lisboa, evidenciando a raiz portuguesa do tronco familiar. Pela linha materna, era bisneto do capitão-mor Bento Freire do Revoredo (1727–1803) e de sua esposa D. Mônica da Rocha Bezerra (1727–1803), ambos naturais do Rio Grande do Norte e igualmente avós de Nísia Floresta Brasileira Augusta (1810–1885). Essa coincidência genealógica estabelece, de forma inequívoca, o parentesco entre Benjamin Franklin Torreão de Barros e a célebre educadora e pensadora potiguar.
Prosseguindo na linha colateral, Benjamin era terceiro-neto do capitão Diogo Marques de Revoredo (1710–1782) e de D. Timothea Freire, bisavós de Nísia Floresta pela linha paterna, bem como terceiro-neto do capitão Leonardo Pinheiro Teixeira (1711–?) e de D. Mônica Borges da Rocha Bezerra, forma correta do nome conforme a documentação genealógica, bisavós de Nísia Floresta pela linha materna. Todos esses ancestrais figuram como membros da elite militar e administrativa da antiga capitania do Rio Grande do Norte, contribuindo para a formação de uma rede familiar que associava poder local, serviços à Coroa e produção intelectual.
Dessa forma, as menções documentais a Benjamin Franklin Torreão de Barros, tanto em fontes heráldico-genealógicas quanto em registros administrativos oficiais do Império, permitem situá-lo não apenas como herdeiro de um tronco familiar ilustre, mas como agente efetivo da burocracia imperial, integrado ao corpo diplomático brasileiro e vinculado a uma tradição familiar que produziu figuras centrais da vida política e cultural do Brasil oitocentista, entre elas Nísia Floresta Brasileira Augusta.
Referências bibliográficas
BAENA, Visconde de Sanches de. Archivo Heraldico-Genealógico contendo noticias histórico-heráldicas, genealogias e duas mil quatrocentas cincoenta e duas cartas de brazão d’armas, das familias que em Portugal as requereram e obtiveram e a explicação das mesmas famílias em um índice heráldico com um apêndice de cartas de brasão passadas no Brazil depois do acto da independência do império. Lisboa: Typographia Universal de Thomas Quintino Antunes, Impressor da Casa Real, 1872, p. CXCVIII.
VASCONCELOS, José Smith de; VASCONCELOS, Rodolfo Smith de. Archivo nobiliarchico brasileiro. Verbete “Barros (Benjamin Franklin Torreão de)”. Lisboa, s.d. (disponível em repositório digital da Wikisource).
Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Império do Brasil. Rio de Janeiro, 1860. Registro do Corpo Diplomático Brasileiro, com menção a Benjamin Franklin Torreão de Barros como adido de primeira classe.
Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Império do Brasil. Rio de Janeiro, 1867. Reiteração da menção a Benjamin Franklin Torreão de Barros no quadro diplomático imperial.
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| Basílio Quaresma Torreão Júnior |
Padre Julio Lancelotti é orientado a parar missas on line e ações sociais...
ESTRANHO...
Ontem o o Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, determinou que o Padre Júlio Lancellotti suspenda temporariamente as transmissões de suas missas online e suas atividades nas redes sociais.
O Padre Júlio foi instruído a não transmitir mais suas missas ao vivo pela internet. Ele também deve interromper temporariamente suas atividades e publicações em plataformas de redes sociais.
Segundo o próprio Padre Júlio e fontes da Arquidiocese, a medida visa um período de "recolhimento e proteção" em meio a pressões políticas e críticas públicas que o religioso vinha sofrendo.
O Padre Júlio Lancellotti confirmou que recebeu a orientação e declarou que a cumprirá com obediência. OBS. Para quem não sabe, as ordens de um arcebispo são inquestionáveis pelos padres. Ele também negou rumores de que seria transferido da Paróquia São Miguel Arcanjo, na Mooca, onde atua há 40 anos, afirmando que as missas presenciais continuarão a ocorrer normalmente.
Acho estranho porque a Igreja Católica tem a tradição secular da caridade e nunca recuou diante das pressões políticas. Um exemplo forte pode ser facilmente encontrado na pessoa do arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns (in memorian), que marcou época.
Padre Júlio Lancelotte, por sua abnegação aos pobres e enfrentamento às arbitrariedades do governo paulista (atitude que não é comum a todos os padres, os quais preferem vidas nababescas, discursos brandos e mais familiarizados às elites), tornou-se uma figura de destaque, um líder forte, portanto, indiretamente uma referência política - portanto tornou-se uma "pessoa perigosa".
Eleições chegando... é melhor tirar do meio da rua um padre que é a cara de milhares de famintos, usuários de drogas etc. Com certeza vem aí um grande projeto para varrer do mapa esse público. Essa atitude com o padre já soa como parte da arquitetura de bastidores. Como os Governos de São Paulo não têm competência nem vontade para criar alternativas civilizadas para solucionar o problema, querem tirar do caminho quem os acolhe para, depois, fazer como Israel fez aos palestinos: varrê-los do mapa.
Para mim isso é muito estranho... não acredito que seja meramente o que estão alegando...
ENTRE O PALCO E O “ESQUECIMENTO”: ZEZÉ DE CAMARGO E A AMNÉSIA SOCIAL…
Embora ninguém sinta falta, Zezé de Camargo pediu às filhas de Silvio Santos que cancelassem a participação dele no espetáculo natalino deste mês, usando uma expressão vulgar para aludir à emissora. (Não imaginava que o linguajar desse sertanejo fosse tão baixo). O “motivo” foi o presidente Lula ter participado da inauguração do SBT News, como se - no passado - todos os presidentes do Brasil não tivessem participado de inúmeros eventos dessa emissora.
Excetuando esse gesto de menino birrento - amargado pelo fel bolsonarista -, o episódio veio a calhar, tornando oportuna uma reflexão sobre a Lei Rouanet, tão atacada pelo sertanejo nos últimos tempos. A propósito desse assunto - e cabe até em caixa alta -: ZEZÉ DE CAMARGO É UM DOS ARTISTAS QUE MAIS RECEBE DINHEIRO PÚBLICO, INCLUSIVE DA LEI ROUANET.
Até a data dessa declaração dele, Zezé de Camargo havia assinado um contrato de MEIO MILHÃO com o município de São José do Egito, Pernambuco (ocorre que o prefeito daquele município viu sua declaração e não quis mais a participação de Zezé).
Recentemente, em Teresina de Goiás, cidade com dois mil setecentos e um habitantes, o cantor recebeu TREZENTOS E OITENTA MIL REAIS para as comemorações de sua emancipação política. Se compilarmos as notícias nas mídias sobre os shows de Zezé de Camargo pagos com dinheiro público, inclusive em cidades paupérrimas, encheríamos um livro.
Um artista brasileiro de raízes paupérrimas como Zezé de Camargo, que viu o fantasma da fome e as inúmeras agruras da miserabilidade - conforme vemos no filme Os Dois Filhos de Francisco -, deveria ter humildade em seu modo de ver a vida. É direito dele ser bolsonarista, mas, para quem enriqueceu tanto a conta bancária, o cérebro foi abandonado à total miséria.
Qualquer emissora brasileira que organizasse um evento do tipo como o ocorrido no dia 12 de dezembro, no SBT, teria convidado o presidente da República em voga, fosse quem fosse. O próprio Silvio Santos convidou todos os presidentes que passaram pelo poder na existência do SBT. As fotografias estão aí para comprovar, pois o convite não diz respeito à política partidária; afinal, não se trata de um comício ou palanque político. Ali estavam as mais notáveis figuras do Brasil, independentemente de partidos políticos. Mas o Sr. Zezé de Camargo, um homem de 72 anos, que muito deveria ter aprendido com a vida, deixou-se valer da pobreza que parece não ter saído dele.
Falta a Zezé, mesmo sendo bolsonarista, olhar para aquele passado que inclusive ele viveu. Um passado em que o povo brasileiro era abandonado pelo Governo Federal: não existiam políticas públicas de nenhuma natureza. A pobreza no Brasil não existia; o que existia era miséria. No Brasil da época de Zezé, milhares de pessoas morreram acamadas, pois o sonho de uma cadeira de rodas era inacessível. Muita gente vegetou em casa, vitimada por AVC (que naquela época chamavam de “derrame”), trazendo um dos lados do corpo morto, morrendo aos poucos, à míngua. Autistas eram considerados loucos e eram torturados em hospícios. Muita gente morreu de câncer em cima da cama, contorcendo-se, gritando e gemendo de dor lancinante durante meses, sem acesso a uma mera Cibalena. Muitas crianças pretas foram apedrejadas até mesmo em escolas, simplesmente por não serem brancas, vitimadas por todo tipo de piada. Crianças pobres eram invisíveis e maltratadas. Nas escolas, sacos de leite em pó de 25 kg, cheios de bicho, e da mesma forma o feijão e o arroz mandados para as escolas pelo Governo Federal. Nossos irmãos indígenas, que moravam literalmente nas matas, viviam cheios de medos, arredios, temerosos de lidar com pessoas como nós, simplesmente por termos casa, comida e roupa. Nem escola eles tinham direito de frequentar para, ao menos, comer a merenda. Os indígenas eram abandonados ao léu… Sabe quando isso? DURANTE A DITADURA MILITAR.
Tempos em que um pedreiro ia trabalhar a pé (nem bicicleta tinha). Tempos em que a empregada doméstica voltava para casa com o resto da janta da patroa para alimentar os filhos. Tempo em que pobre estudava só até o quarto ano primário, quando muito. Tempo em que o pobre não sabia o que era casa própria, carro, viagem, telefone, festa de aniversário, sequer um remédio para dor. Tempo de crianças com a cabeça cheia de feridas e o bucho inchado por comer terra. Tempo em que uma massa brasileira morria literalmente de fome. Tempo de miséria absoluta. Tempo em que, amedrontados e famintos de tudo, os brasileiros eram condicionados a cantar: “Eu te amo, meu Brasil, eu te amo/meu coração é verde e amarelo e branco, azul-anil/Eu te amo, meu Brasil, eu te amo/ninguém segura a juventude do Brasil”…
Falando do câncer da ditadura militar, me lembrei de uma faceta do filme Os Dois Filhos de Francisco em que Zezé de Camargo, choroso, voltando para casa numa carroça, compadece-se do pai por terem sido expulsos de uma emissora de rádio. O motivo? Eles apresentaram uma música intitulada Tirania, cuja letra, ao final, dizia: “Viva as Forças Armadas e a sua tirania”. Quando o dono da emissora ouviu a frase, horrorizado, e interrompeu imediatamente, expulsando-os dali. Sabe quando isso? DURANTE A DITADURA MILITAR, tão falada pelos ignorantes.
Pois bem, ver Zezé de Camargo entristecido por não poder ver Bolsonaro na festa do SBT - ofendido com a presença de Lula - convida-o a resgatar o seu cérebro, em primeiro lugar. E, depois, revisitar o seu passado e o de milhões de brasileiros durante a Ditadura Militar e ver as monstruosidades desse regime. Por sorte, vocês escaparam da morte, mas não escaparam das mazelas da fome, que a Ditadura Militar ignorou. Não combina a um homem de bem sentar-se ao lado de quem admira Ustra, o maior torturador que o Brasil já teve. E hoje, você e sua família, que foram vítimas, têm a pachola de admirá-los e estar choroso por um genocida que não poupa sequer a audácia de dizer que seu livro de cabeceira foi escrito por Ustra. Perdão, mas você não se comporta como um homem de bem.
Sim, e não se esqueça de que o único presidente brasileiro que criou uma infinidade de programas abrangendo moradia, saúde e educação, beneficiando milhares de pobres, tem nome: LUÍS INÁCIO LULA DA SILVA. É o único presidente que criou 16 universidades federais no Brasil. Nos seus dois primeiros mandatos Lula entregou 214 escolas técnicas, mais que dobrando a rede federal, que possuía 140 unidades antes de sua gestão. Criou os 38 Institutos Federais (IFs) atuais, reorganizando as antigas escolas e os Cefets em uma nova estrutura. E, atualmente, em seu terceiro mandato, Lula anunciou a criação de mais 100 novos campi de Institutos Federais até o final de 2026.
Pois é, Zezé, você, sim, está sendo prostituído. Se o governo Lula tivesse sido em sua época, pelo menos a fome vocês não a teriam experimentado. Você está prostituído por uma prostituta chamada ingratidão e falta de cérebro. Vá estudar, já que ultimamente você não está sabendo nem cantar...
quinta-feira, 11 de dezembro de 2025
RESULTADO DO CONCURSO INTERNACIONALPROMOVIDO PELO LIONS INTERNACIONAL COM O TEMA "JUNTOS SOMOS UM"
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| Desenho escolhido |
LIONS INTERNACIONAL - CONCURSO INTERNACIONAL DE DESENHOS "JUNTOS SOMOS UM"...
Tendo sido jurado desse importante concurso internacional, divulgo aqui o resultado final em nível de Brasil. A criança vencedora é uma menina do estado do Piauí. A primeira fase da escolha dos desenhos deu-se há um mês, no Colégio Santa Teresa de Liseux, onde foram analisados desenhos de todo o Nordeste. Ontem, no SESC - Rio Branco, foram escolhidos desenhos entre todos os participantes em nível de Brasil.
O evento é promovido pelo Lions Internacional. Participaram 600 mil crianças de vários países, com idades entre 8 a 13 anos. Em fevereiro sairá o resultado geral nos Estados Unidos. O evento contou com diversas autoridades civis, militares e eclesiásticas, além da imprensa local. parabenizo a todos os participantes e agradeço aos Lions pela confiança nessa missão de grande responsabilidade...
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
EMPATIA E ALTRUÍSMO ENJAULADOS ANTE O ÓDIO SOLTO...
Esse rapaz era esquizofrênico e tinha deficiência mental. Funcionários públicos que lidavam com ele são unânimes em dizer que ele era uma criança de cinco anos em um corpo de dezenove. A mãe e a avó são esquizofrênicas. Gerson nasceu em um lar de extrema pobreza, vivia entre a rua e o seu barraco, passou muita fome, apanhou muito na rua e em casa.
É certo que, uma semana antes de sua morte, ele havia sido preso duas vezes em menos de uma hora: a primeira por tentar danificar dois caixas eletrônicos de um banco; a segunda, por arremessar um paralelepípedo e quebrar o vidro de uma viatura da polícia. Também há registro de que, em janeiro de 2025, ele danificou o portão de um centro de ressocialização juvenil (um antigo espaço em que esteve internado), o que resultou em intervenção policial. O diretor de uma penitenciária local declarou à imprensa que “Vaqueirinho não conheceu outra vida senão a prisão”, com dez apreensões na adolescência e seis na maioridade - o que soma as “16 passagens”.
Particularmente, acho que todo marginal deve ser julgado e punido na forma da legislação vigente, mas não há como classificar como marginal uma pessoa cuja mente, segundo as próprias autoridades, equivalia à cognição de uma criança de cinco anos. Quem, em sã consciência, atiraria um paralelepípedo em um caixa eletrônico e outro no carro da polícia? Na verdade, Gerson foi aquela criança que nasceu e cresceu ouvindo da mãe e dos parentes as frases típicas desses lares miseráveis, como: “ele é doente”, “ele é doido”, “ele tem problemas mentais”, “ele não sabe nada”, “ele não aprende”, “ele não evolui”, entre outras sentenças afins. Gerson não foi provocado a evoluir cognitivamente; foi provocado a pensar que era burro, que não aprendia, que era doido e tudo mais.
João Pessoa inteira conhecia o “Vaqueirinho de Mangabeira”. Era uma figura popular. Para muitos, era um brinquedo, uma diversão, objeto de chacota. Obviamente, havia meia dúzia de pessoas que, por empatia e altruísmo, o tratavam bem, o alimentavam, conversavam com respeito, davam conselhos e o ajudavam. Mas a maioria o via como os reis viam os bobos da corte: um brinquedo que servia de mangação (como diz o povo nordestino).
Esse rapaz vivia atormentado pelo lar desajustado, pela falta de alimentação adequada e, pior, pelas reações da esquizofrenia. É quase certo que ele foi a esse encontro com a leoa tomado pelas vozes da própria doença. Ele dizia que seu sonho era ir para a Àfrica domar leões.
Uma funcionária pública do Conselho Tutelar - uma das poucas pessoas que eram seu porto seguro - declarou que, desde criança, sua vida foi pautada por desajustes e crises decorrentes da esquizofrenia. Sua realidade era tão conhecida que há vídeos dele na internet, registrados em situações diversas e pitorescas nas ruas de João Pessoa, inclusive quando ainda criança. Todos sabiam da realidade do Vaqueirinho de Mangabeira, mas ele era invisível quando o assunto era tratamento médico, socialização e respeito por parte das pessoas comuns. Agora me recordo de quando Michael Jackson gravou um clipe no Rio de Janeiro e ouviu de uma moradora a frase providencial que roubou a cena: “Michael, eles não ligam pra gente!”. E Michael deixou a frase no clipe. Isso é um clássico. Quem “ligou” para o Vaqueirinho da Mangabeira? NINGUÉM!
Num país em que homens que ocupam respeitáveis postos roubam milhões em joias e fazem rachadinhas milionárias, num país em que depredam o patrimônio histórico da Capital Federal, como chamar de bandido uma criatura que tem a mente igual à de uma criança de cinco anos? O que o Vaqueirinho roubou? NADA! Como comparar a destruição de Brasília com a avaria causada em um carro da polícia e em um caixa eletrônico por uma mente infantil, cujos “crimes” se deram por desajustes mentais e jamais por má índole ou instinto criminoso?
Ora! O que vejo é falta de empatia e altruísmo. Quase todos preocupados com a leoa, aplaudindo a morte de um ser humano - quase uma criança - como faziam no Coliseu, onde pessoas eram atiradas aos leões como entretenimento. Se esse jovem estivesse normal, não faria tamanha insanidade. O animal merece cuidado, sim; afinal, nasceu ali, era o seu habitat. Ela matou o Vaqueirinho por instinto. Estrangulou, não o predou. Mas só se viam execrações por parte de seres humanos cujos feitos não os diferenciam do que sabemos sobre o demônio. Aquele menino poderia ser seu filho, seu irmão, seu parente... e aí? E se fosse? Você aplaudiria?
Qualquer pessoa pode nascer com esquizofrenia ou com deficiência mental. Esse rapaz não teve culpa de nada - nem dos “crimes” que praticou, nem da invasão ao espaço da leoa. Sua morte foi a culminância de uma longa história: um Estado omisso, moroso e burocrático, e uma sociedade má, que zomba dos outros, que não se coloca no lugar dos outros e que não é capaz de - mesmo podendo - ajudar alguém. Essas pessoas são más. São hipócritas. Não têm nada de cristãs, pois um cristão tem compaixão, piedade, respeito e amor ao próximo.
Enfim, para mim, essa fatalidade - por incrível que pareça, quase no Natal - convida os desumanos e insensíveis a sentirem EMPATIA e a agir com ALTRUÍSMO. Olhem ao seu redor. Há muita gente precisando de um pão, um remédio, uma fralda, um saco de carvão; uma orientação, um esclarecimento, uma visita ao abrigo, enfim, daquilo que temos em abundância em nós e nossas casas. Há muita gente precisando de calor humano, amor, respeito, acolhida, diálogo, uma simples conversa... Há pessoas que se sentem bem com um simples “bom dia”.
Perdão, mas, se você se diz cristão e atira pedras num rapaz como o Vaqueirinho, você não está precisando de igreja e tampouco de uma Bíblia. Você está precisando de uma jaula...
segunda-feira, 24 de novembro de 2025
LENDA DA LAGOA PAPARY...
A lenda da lagoa Papary faz parte da cultura popular do município de Nísia Floresta, que se chamava Papary até 1948, quando mudaram o nome para Nísia Floresta.
Contava-se em Papary /A lenda de uma sereia/Era a história de Jacy/Jovem tapuia da aldeia/ Jaci formosa e catita/Filha do chefe
Aribó/Era a índia mais bonita/Do Vale do Capió/Amava com amor ardente/Guaracy jovem guerreiro/Cujo peito igualmente/Nasceu um afeto primeiro/Sozinho na solidão/Guaracy vagava à toa/Ora ao redor da Caiçara/Ora ao redor da lagoa/Certa vez quando pescava/Tentando esquecer as mágoas/Ouviu que perto cantava/A voz de Jaci nas águas/A delirar, Guaracy/Na lagoa mergulhou/Seguiu a voz de Jaci/E à tona não mais voltou/Hoje essa lenda triste/Quem se dispõe a cantar/Vê quanto mistério existe/Entre a lagoa e o mar.
“A lenda fala sobre Jaci, uma jovem tapuia, e Guaracy, um guerreiro, que se amam intensamente. Guaracy, consumido pela solidão, acaba mergulhando na lagoa atraído pela voz de Jaci, e nunca mais retorna à superfície. Essa trágica história simboliza o amor que ultrapassa barreiras, mas também as consequências do desejo e da busca pelo que é inalcançável. Temas Principais: 1) Amor e Desejo: O amor entre Jaci e Guaracy é forte e puro, mas também marcado por tragédias e desafios. 2) Solidão: Guaracy representa a solidão do ser humano em busca de conexão, algo que muitos podem sentir. 3) Misticismo: A presença da lagoa e da sereia insere um elemento mágico e misterioso, refletindo a relação das culturas indígenas com a natureza e o sobrenatural. 4) Cultura e Tradição: A lenda é uma forma de preservar a cultura e as histórias dos povos indígenas, ressaltando a importância de narrativas orais”.
Apresentada no Teatro Alberto Maranhão, em Natal, Rio Grande do Norte.
Maestros: Lúcia Tabita Marques de Lima e Lailson Toscano de Medeiros
Pesquisa: Luís Carlos Freire (1992)
ALZIRA SORIANO, CELINA GUIMARÃES E MARIA DO CÉU FERNANDES - "POLÍTICAS" -
RECORTE DO ESPETÁCULO "NÍSIA FLORESTA BRASILEIRAS AUGUSTAS" - 13 de dezembro de 2024. Texto,/Cenário e Direção Geral: Luís Carlos Freire - Direção Artística: Marx Bruno.
Este balé encena a poderosa jornada da emancipação feminina. Cada movimento traduz a transformação da mulher que, inspirada pelas pioneiras - Alzira Soriano, Celina Guimarães e Maria do Céu Fernandes - despertou de sua letargia e lançou-se à luta. No palco da vida, ela conquistou as ciências, desvendou horizontes e compreendeu que não havia barreiras entre ser dona de casa e ser presidente da república, médica, cientista, militar, senadora — ou o que mais sua vontade ousasse almejar. É a celebração da mulher que rompeu os grilhões invisíveis que a prendiam, que ergueu a voz e declarou com convicção: "Eu posso". Nesta dança, vibra a essência de sua liberdade e a força de sua determinação, iluminando o caminho para as gerações futuras.
LENDA DA LAGOA PAPARY - CORAL...
LENDA DA LAGOA PAPARY - AUTOR DESCONHECIDO - CORAL – RECORTE DO ESPETÁCULO "NÍSIA FLORESTA BRASILEIRAS AUGUSTAS - DIREÇÃO GERAL/TEXTO E CENÁRIO: LUÍS CARLOS FREIRE - DIREÇÃO ARTÍSTICO-COREOGRÁFICA: MARX BRUNO. Contava-se em Papary /A lenda de uma sereia/Era a história de Jacy/Jovem tapuia da aldeia/ Jaci formosa e catita/Filha do chefe Aribó/Era a índia mais bonita/Do Vale do Capió/Amava com amor ardente/Guaracy jovem guerreiro/Cujo peito igualmente/Nasceu um afeto primeiro/Sozinho na solidão/Guaracy vagava à toa/Ora ao redor da Caiçara/Ora ao redor da lagoa/Certa vez quando pescava/Tentando esquecer as mágoas/Ouviu que perto cantava/A voz de Jaci nas águas/A delirar, Guaracy/Na lagoa mergulhou/Seguiu a voz de Jaci/E à tona não mais voltou/Hoje essa lenda triste/Quem se dispõe a cantar/Vê quanto mistério existe/Entre a lagoa e o mar. “A lenda fala sobre Jaci, uma jovem tapuia, e Guaracy, um guerreiro, que se amam intensamente. Guaracy, consumido pela solidão, acaba mergulhando na lagoa atraído pela voz de Jaci, e nunca mais retorna à superfície. Essa trágica história simboliza o amor que ultrapassa barreiras, mas também as consequências do desejo e da busca pelo que é inalcançável. Temas Principais: 1) Amor e Desejo: O amor entre Jaci e Guaracy é forte e puro, mas também marcado por tragédias e desafios. 2) Solidão: Guaracy representa a solidão do ser humano em busca de conexão, algo que muitos podem sentir. 3) Misticismo: A presença da lagoa e da sereia insere um elemento mágico e misterioso, refletindo a relação das culturas indígenas com a natureza e o sobrenatural. 4) Cultura e Tradição: A lenda é uma forma de preservar a cultura e as histórias dos povos indígenas, ressaltando a importância de narrativas orais”. Maestros: Lúcia Tabita Marques de Lima e Lailson Toscano de Medeiros Pesquisa: Luís Carlos Freire (1992)
Hynno do Primeiro Centenário do Nascimento de Nísia Floresta
RECORTE DO ESPETÁCULO "NÍSIA FLORESTA BRASILEIRAS AUGUSTAS" - TEXTO/DIREÇÃO GERAL E CENÁRIO: LUÍS CARLOS FREIRE - DIREÇÃO ARTÍSTICO-COREOGRÁFICA: MARX BRUNO - APRESENTADO NO DIA 13 DE DEZEMBRO DE 2024.
Em 1909, o Congresso Literário, responsável pelas celebrações do centenário de nascimento de Nísia Floresta (e supondo que Nísia Floresta havia nascido em 1809), em parceria com o Grupo Escolar que leva seu nome, compôs um tributo singular: o “Hynno do Primeiro Centenário do Nascimento de Nísia Floresta” (na verdade, Nísia Floresta nasceu em 1810). A ocasião reuniu intelectuais vindos de diversas regiões em Papary — hoje chamada Nísia Floresta — para prestar homenagens à ilustre filha da terra. Esse hino, símbolo de reverência e reconhecimento, transcendeu o tempo. Embora criado há mais de um século, sua melodia e versos ainda ecoam, sendo finalmente gravados em estúdio, pela primeira vez, em 2000, sob os cuidados de Luís carlos Freire. A letra, repleta de lirismo e fervor, exalta a grandeza de Nísia Floresta, vejamos: “Salve filha imortal d’esta terra - Terra ardente de ríspidos soes - Que somente beleza encerra - Mãe fecunda de bravos, de heróis (Surge, ressurge, brilha - Oh! Nísia Sublimada - Oh! Sempiterna filha - Da terra bem amada) Tu que às plagas estranhas levaste - O seu nome, o seu nome eternal - O seu nome obscuro encerraste - No esplendor de uma glória imortal - E essa glória é a tua essa glória - Os vindouros melhor guardarão - Hoje emerge do fundo da história - Sob aurora de excelso clarão”. Com essas palavras, o “hynno” enaltece a trajetória de uma mulher que levou o nome de sua terra natal além-fronteiras, transformando sua história local em um legado universal. Maestros: Lúcia Tabita Marques de Lima e Lailson Toscano de Medeiros Arranjos: Maestro Lailson Toscano de Medeiros e Luís Carlos Freire Pesquisa: Luís Carlos Freire (1992)
DISCURSO DE NÍSIA FLORESTA BRASILEIRA AUGUSTA...
sábado, 22 de novembro de 2025
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"Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira"
NÍSIA FLORESTA, A MATERNIDADE E A DEFESA PIONEIRA DA AMAMENTAÇÃO...
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| Arquivo Nacional |
Entre os inúmeros aspectos da obra de Nísia
Floresta Brasileira Augusta que venho estudando e divulgando há mais de três
décadas, suas reflexões sobre a maternidade e a amamentação tem o mesmo valor
de preciosos temas tratados por essa intelectual. É assunto que, à primeira
vista, pode parecer secundário diante de sua conhecida defesa da educação
feminina, dos direitos das mulheres e da instrução popular. Entretanto, uma
leitura atenta de seus escritos revela que a questão ocupa posição central em
seu pensamento pedag´gico e civilizacional. Muito antes de a infância tornar-se
objeto privilegiado das ciências humanas e muito antes de a maternidade ser
analisada por historiadores, sociólogos e educadores, Nísia já compreendia que
a formação moral, afetiva e intelectual do ser humano começava nos primeiros
momentos da vida. Para ela, o berço constituía a primeira escola e a mãe
representava a primeira educadora.
Tenho defendido que Nísia Floresta deve ser reconhecida como uma das pioneiras brasileiras
na reflexão sobre a importância da amamentação. Sua defesa do aleitamento
materno ultrapassa amplamente os limites da medicina ou da higiene. Em sua
obra, a amamentação aparece associada à educação, à moralidade, à afetividade e
à própria construção da cidadania. A escritora entendia que os vínculos
estabelecidos entre mãe e filho nos primeiros meses de vida exerciam influência
decisiva sobre a formação do caráter e sobre o desenvolvimento emocional da
criança. Nesse sentido, sua reflexão antecipou discussões que somente muito
mais tarde seriam desenvolvidas por pedagogos, psicólogos e historiadores da
infância.
Essas preocupações aparecem de forma
particularmente clara no Opúsculo Humanitário, publicado em 1853. Nesse
livro, Nísia dirige severas críticas a um costume amplamente difundido entre as
famílias mais ricas do Brasil oitocentista: a entrega dos filhos aos cuidados
de amas de leite. Na maioria das vezes, essas amas eram mulheres negras
escravizadas, obrigadas a amamentar os filhos das senhoras brancas enquanto
seus próprios filhos permaneciam privados do cuidado materno ou eram relegados
a condições precárias de sobrevivência. Nísia condenava tal prática não apenas
por seus efeitos físicos sobre as crianças, mas sobretudo por suas implicações
morais e educacionais. Para ela, a mãe que se afastava voluntariamente do filho
nos primeiros meses de vida abdicava de uma responsabilidade fundamental e
comprometia o processo inicial de formação da criança.
A crítica de Nísia adquire maior significado quando
observamos sua própria trajetória. Nascida em 1810, na então Vila de Papary,
atual município de Nísia Floresta, ela cresceu em uma região marcada pela
economia dos engenhos, pela grande propriedade rural e pela presença constante
do trabalho escravizado. Filha de uma família economicamente privilegiada,
viveu cercada por uma realidade na qual era comum a utilização de amas de leite
negras. As casas-grandes dos engenhos potiguares reproduziam práticas
semelhantes às existentes em outras regiões do Brasil escravista. Mulheres
escravizadas eram frequentemente afastadas de seus próprios filhos para nutrir
e criar os filhos dos senhores. Não é difícil supor que a jovem Dionísia
Gonçalves Pinto tenha testemunhado inúmeras cenas dessa natureza durante sua
infância. Muitas décadas depois, essas lembranças parecem ressurgir em seus
escritos sob a forma de crítica social, denúncia moral e reflexão pedagógica.
Ao analisar essa questão, a pesquisadora Charlotte
Liddell observou que Nísia atribuía ao aleitamento materno um significado que
ultrapassava a esfera privada. Segundo Liddell, a escritora potiguar
apresentava a amamentação como um ato simultaneamente natural e patriótico. Em
sua interpretação, a maternidade constituía uma das principais formas de
participação feminina na construção da sociedade. A mãe não era apenas
responsável pelo bem-estar físico da criança, mas também pela formação dos
futuros cidadãos. Por essa razão, o aleitamento aparecia vinculado à própria
ideia de progresso nacional. Conforme ressalta Liddell (2005), Nísia
considerava a amamentação uma prática "natural e patriótica",
indispensável à educação moral das novas gerações.
Contudo, a originalidade de Nísia não reside apenas
na crítica ao contexto brasileiro. Durante sua longa permanência na Europa,
especialmente na França, elaa ampliou suas observações e percebeu que problemas
semelhantes existiam mesmo em sociedades consideradas mais avançadas e
civilizadas. Foi justamente essa experiência internacional que aprofundou suas
reflexões sobre maternidade e infância.
No ensaio intitulado O Brasil, originalmente
publicado em italiano e posteriormente reunido na coletânea Cintilações de
uma Alma Brasileira, Nísia registra uma das passagens mais impressionantes
de toda a sua produção intelectual. Trata-se da narrativa de uma viagem
realizada a uma aldeia francesa para onde haviam sido enviados diversos recém-nascidos
confiados àamas de leite puramente mercenárias. A história é conduzida por duas
mulheres que se deslocam até aquela localidade rural movidas por sentimentos
profundamente humanos. Uma delas era impulsionada pelos laços de amizade; a
outra, pelos vínculos do sangue. Ambas procuravam resgatar aquilo que Nísia
denomina um "pobre anjinho abandonado em mãos mercenárias".
A escolha dessa expressão não é casual. Ela revela
toda a indignação da autora diante de um sistema amplamente difundido na França
do século XIX, segundo o qual milhares de crianças eram retiradas do convívio
materno poucos dias após o nascimento e enviadas para aldeias distantes, onde
passavam a viver sob os cuidados de mulheres que se propunham a amaentar e
cuidar dessas crianças de forma remunerada. E normalmente isso se dava por
vaidades ao estarem preocupadas com a beleza do corpo e, obviamente, por
omissão e irresponsabilidade. Embora a prática fosse socialmente aceita e até
mesmo considerada respeitável entre determinados grupos sociais, Nísia via nela
uma grave deformação dos laços familiares e uma ameaça concreta à infância.
À medida que a narrativa avança, a escritora conduz
o leitor para um cenário marcado pela pobreza e pelo abandono. O percurso até a
aldeia revela uma realidade muito distante da imagem idealizada da França como
centro da civilização europeia. Quando finalmente chegam à residência onde se
encontrava a criança procurada, as visitantes deparam-se com um ambiente que
provoca horror e compaixão. O quarto era escuro, úmido, insalubre e mal
ventilado. A precariedade do local contrastava brutalmente com a condição
social das famílias urbanas que haviam confiado seus filhos àquelas mulheres. A
criança encontrava-se cercada por sinais evidentes de negligência,
transformando-se em símbolo de um sistema que convertia a maternidade em objeto
de transação econômica.
A denúncia torna-se ainda mais contundente quando
Nísia menciona episódios trágicos narrados pelos habitantes da região. Entre
eles, destaca-se o relato de uma criança que teria sido devorada por um porco
após ser deixada sem a vigilância necess´ria. O episódio surge no texto como
uma das expressões mais dramáticas da negligência que cercava o sistema das
nutrizes. Independentemente de sua excepcionalidade, a narrativa cumpre uma
função clara: demonstrar até que ponto a ausência do cuidado materno direto
poderia expor crianças indefesas a riscos extremos. Para Nísia, aquele
acontecimento simbolizava uma realidade mais ampla, marcada pelo abandono, pela
indiferença e pela mercantilização dos primeiros cuidados da infância.
O mais notável é que a autora não interpreta essa
experiência francesa como um problema isolado. Ao contrário, ela estabelece uma
comparação direta entre o que observava na Europa e aquilo que conhecera desde
a infância no Brasil. Nos engenhos nordestinos, mulheres negras escravizadas
eram obrigadas a amamentar os filhos das famílias senhoriais. Nas aldeias
francesas, elas eram remuneradas e assumiam função semelhante. As diferenças
sociais, econômicas e jurídicas eram evidentes, mas os resultados, aos olhos de
Nísia, apresentavam notável semelhança. Em ambos os casos, verificava-se a
ruptura do vínculo entre mãe e filho, justamente no período mais importante
para a formação afetiva da criança.
Essa comparação revela uma das facetas mais
sofisticadas do pensamento nisiano. Diferentemente de muitos intelectuais
brasileiros de sua época, ela não aceitava a ideia de que a Europa representava
um modelo perfeito de civilização. Suas viagens permitiram-lhe perceber que os
países considerados mais avançados também possuíam problemas graves e contradições
profundas. Por essa razão, sua crítica alcançava simultaneamente a sociedade
escravista brasileira e determinados costumes europeus. Charlotte Liddell
observa que essa perspectiva comparativa permitiu a Nísia construir uma
reflexão original sobre maternidade, infância e cidadania, articulando questões
nacionais e internacionais em um mesmo horizonte de análise.
Ao revisitar essas páginas, percebo como as
preocupações de Nísia anteciparam debates que seriam posteriormente
aprofundados por estudiosas como Michelle Perrot, Mary Del Priore e Zilá Bernd.
Perrot demonstrou a importância crescente da maternidade na construção da
identidade feminina moderna. Del Priore investigou as múltiplas experiências da
maternidade em uma sociedade escravista como a brasileira. Bernd contribuiu
para compreender os mecanismos de construção da memória cultural e das
representações sociais. Contudo, muito antes dessas interpretações acadêmicas,
Nísia Floresta já havia percebido que maternidade, infância, educação e civilização
constituíam dimensões inseparáveis da experiência humana.
Por tudo isso, entendo que a defesa da amamentação
ocupa lugar central em seu projeto intelectual. Não se tratava apenas de uma
recomendação doméstica nem de um conselho médico. Tratava-se de uma proposta
pedagógica, moral e civilizacional. Nísia acreditava que uma sociedade
verdadeiramente justa e progressista deveria começar pelo cuidado dispensado às
crianças e pelo reconhecimento da importância da maternidade. Sua voz continua
atual porque nos recorda que a educação não começa nos bancos escolares, mas
nos primeiros vínculos afetivos estabelecidos entre mãe e filho. Ao denunciar
tanto as amas de leite escravizadas do Brasil quanto as nutrizes mercenárias da
França, ela construiu uma reflexão pioneira sobre os direitos da infância e
sobre a responsabilidade coletiva diante das novas gerações. Nesse aspecto,
permanece como uma das intelectuais mais originais e avançadas do século XIX
brasileiro.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
DEL PRIORE, Mary (org.). História das mulheres no
Brasil. São Paulo: Contexto, 2017.
FLORESTA, Nísia. Cintilações de uma alma
brasileira. Organização e tradução de Peggy Sharpe-Valadares. Florianópolis:
Editora Mulheres, 1997.
FLORESTA, Nísia. Opúsculo Humanitário. Edição atualizada
com estudo introdutório e notas de Peggy Sharpe-Valadares. São Paulo: Cortez
Editora; Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
(INEP), 1989.
LIDDELL, Charlotte. Nature, nurture and nation:
Nísia Floresta's engagement in the breast-feeding debate in Brazil and France.
Feminist Review, Londres, n. 79, p. 69-82, 2005. Disponível em: SAGE Journals.
Acesso em: 22 dez. 2025.









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