ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que navegam nessas águas. Os textos são de autoria de Luís Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. O parentesco ocorre pela parte das raízes da mãe do autor deste blog, Maria José Gomes Peixoto Freire, neta de Maria Clara de Magalhães Fontoura, trineta de Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, descendente do Capitão-Mor Bento Freire do Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra, dos quais descende a mãe de Nísia Floresta, Antonia Clara Freire. Essas informações podem ser encontradas no livro "Os Troncos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti, um dos maiores genealogistas brasileiros. O referido livro pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade de nome homônimo. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de lendas, crônicas, artigos, reproduções de reportagens de interesse nacional, fotos poesias, etc. É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA. Posso enviar alguns textos por e-mail, já que é um blog protegido. OBS. Só publico comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone, pois repudio anonimato.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

CRIME AMBIENTAL EM NÍSIA FLORESTA
CARTA ENVIADA A PROMOTORA DE JUSTIÇA DE NÍSIA FLORESTA - ÀS PROMOTORAS DO MEIO-AMBIENTE DE NATAL GILKA DA MATTA E ROSSANA SUDÁRIO - AO MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE (EM BRASÍLIA) - AO IDEMA E IBAMA (EM NATAL) - AOS VEREADORES DE NÍSIA FLORESTRA - PADRES E PASTORES E DIRETORES DE ESCOLA DE NÍSIA FLORESTA.
Nísia Floresta, 20 de agosto de 2009
Exma. Sra. Promotora de Justiça da Comarca de Nísia Floresta
Na condição de cidadão comum, brasileiro, casado, professor, atualmente diretor de escola (em Parnamirim), residente e domiciliado em Nísia Floresta, ao lado da Igreja Matriz, dirijo-me a V. Excia. para denunciar e pedir as providências que forem cabíveis com relação a uma obra que está sendo construída próxima ao nosso município.
Como pode ser constatado, encontra-se em execução às margens da BR 101, exatamente no retorno de acesso aos municípios de São José de Mipibu e Nísia Floresta, uma obra de grande porte com o propósito de dar vazão a resíduos, e provavelmente ao esgoto mipibuense.
Pela dimensão do projeto, nota-se que o volume de esgoto in natura que será jogado no ecossistema da região, precisamente no Rio Mipibu e na Lagoa Papari é de milhares de litros diários. Verifiquei que o projeto, pelo andamento da obra, inexplicavelmente não contempla uma estação de tratamento de esgoto – prática inconcebível nos dias atuais a uma obra de tamanho porte –, considerando que diante de tantos problemas ambientais em nível mundial, tenta se criar – em massa – a cultura das idéias inovadoras – e mesmo visionárias – em prol da preservação do meio ambiente.
O mundo inteiro fala em preservação. Os países de Primeiro Mundo – que já destruíram quase tudo o que tinham – tratam suas reservas como verdadeiros santuários. Todos falam em ecologia, mas precisamos praticar tal política. Não é por que estamos no Terceiro Mundo – e no Nordeste – áreas injustamente discriminadas por muitos – que devemos ficar em silêncio.
O que preocupa é que esse resíduo será despejado num rio cujas águas, há séculos abastecem toda população de São José de Mipibu. O referido rio desemboca na Lagoa Papary, em Nísia Floresta, que por sua vez se encontra com as águas do Oceano Atlântico, através da Praia de Camurupim.
O que me entristece – e deve entristecer aos mipibuenses e nisiaflorestenses – é saber que uma catástrofe ambiental se instala mansa e “imperceptivelmente”, no ecossistema de São José de Mipibu e, PRINCIPALMENTE EM NÍSIA FLORESTA, pois a lendária lagoa Papary, d’antes Paraguaçu, amplo reservatório das águas do Trairí, berço das águas oriundas do inverno sertanejo, onde pequenos riachos correm dos tabuleiros arenosos, dando origem a uma imensidão de águas que se interligam com outras lagoas e rios, como o velho Cururu – está prestes a receber esgoto de toda a cidade de São José de Mipibu.
A Lagoa Papari, destacada há quase trezentos anos na cartografia de Marc Grave, elogiada por Henry Koster, em 1810, tendo a comparado ao Mercado de Billingsgate, na Inglaterra por suas águas piscosas; cantada em prosa e verso por autor anônimo que lhe dedicou bela poesia centenária, evocando a lenda de Jacy e Guaracy; citada por inúmeros viajantes europeus em documentos antiqüíssimos –, hoje caminha para uma possível condenação a morte. Exatamente a lagoa mais famosa do município e que durante séculos alimentou índios e brancos, o fazendo até os dias atuais a tantos nativos que precisam de sua pureza para sobreviver.
Sabemos que essa lagoa vem sofrendo sucessivos danos ambientais decorrentes do assoreamento, desde a cheia de 1974, e hoje é sacrificada por inúmeros viveiros que a circundam quase completamente, recebendo diariamente os produtos químicos utilizados como ração e manuseio de equipamentos.
É graças a essa lagoa que o município de Nísia Floresta recebe a alcunha de “terra do camarão”, permitindo-lhe ser conhecida internacionalmente por sua gastronomia.
Lagoa “Mãe dos Pobres” deveria ser mais uma alcunha, pois é dela que, apesar da diminuição de sua fauna aquática, centenas de nativos – muitos deles pobres de Jó – tiram o seu sustento.
É graças à lagoa Papary que ainda assistimos a um cenário antiqüíssimo, no qual famílias inteiras desfilam pelas ruas da velha cidade, levando covos (paris), puçás, cestos, choques, landuás e varas de pesca, os quais passam o dia em suas mansas águas, ora em canoas, ora nos mangues marginais, à cata do pão-de-cada-dia.
O vocábulo indígena “papary” é traduzido por Nestor dos Santos Lima como “salto de peixe”. É graças a esse mar de água doce que ainda não vimos pelas ruas nisiaflorestenses o vulto da mendicância nem ouvimos o ronco da fome.
É graças à lagoa Papary que, aos primeiros raios de sol, nativos embarcam rumo a Natal, percorrendo ruas, gritando “olha o camarão!” “olha o caranguejo!” “olha o goiamum!”. E assim, com orgulho, conservam a tradição e a certeza de que voltarão para Nísia Floresta com o dinheiro da “feira”.
É nesse “Lago Ness” que, há quase duzentos anos, quando a própria natureza o fazia distar a poucos metros do Sítio Floresta, se banhava, não o monstro-bicho, mas o monstro sagrado, chamado Nísia Floresta Brasileira Augusta, o qual, apesar de tanta divulgação em torno de sua memória, as águas de seu espírito político/visionário ainda não umedeceram a secura insensível de alguns nativos, os quais “olham mas não vêem”
O município de Nísia Floresta assiste, em silêncio, a construção dessa obra que dá sinais claros de ser um imenso sistema de esgoto, como se nada os incomodasse. As Secretarias Municipais de Educação e Cultura, de Saúde e de Turismo e Meio Ambiente (dos municípios de Nísia Floresta e São José de Mipibu) pelo menos até o momento – já muito adiantado – não têm desenvolvido nenhuma política de reflexão e conscientização. Não se vê panfletos. Não se vê artigos ou reportagens em jornais, enfim não há reação.
Nenhuma outra Secretaria, além das aqui referidas, tem mais autoridade para conscientizar a população quanto a esse problema. As mesmas, dentro das suas responsabilidades, deveriam estar orientando as escolas e o povo a pensar os danos que estão por vir – e que ainda podem ser evitados –, deliberando até mesmo uma movimentação pública, organizada de forma sensata e respeitosa, mas forte e sistematizada.
As próprias escolas, nas quais circulam professores (filhos ou netos de pescadores), funcionários e alunos (filhos ou netos de pescadores), por representar um ambiente pensante, deveria, por excelência, estar trabalhando o assunto (inclusive com aulas de campo). Para que isso aconteça não é necessário provocação, até porque a obra, por si, provoca (e como!).
É interessante uma caminhada ecológica – em massa – do centro de Nísia Floresta ao local da obra, com convidados ao estilo de IDEMA, IBAMA, FLONA e DENIT. As autoridades ligadas ao turismo, às obras públicas, à educação e mesmo a edilidade que nos representa, que deveriam se unir e convocar os responsáveis pela execução das obras, através de uma conferência ou reunião aberta à população, estão silenciadas.
É preocupante saber que essa inércia, que soa como permissividade, está proporcionando a continuação da construção dessa serpente oca, a qual desliza silenciosa, prestes a jogar seu veneno letal em nossos rios e lagoas. Faz-se necessária uma provocação dos órgãos públicos, pois sem ela não haverá intervenção.
Compreendo que uma andorinha só não faz verão. Mas o pensamento externado neste documento é o pensamento de muitos nativos – com certeza –; o que ocorre é que, com exceção àqueles que se silenciam por razões desconhecidas, há quem se silencie por uma espécie de ignorância ingênua, oriunda da idéia de que os “saltos dos peixes” serão eternos.
É inadmissível que uma obra desse porte, que está em execução em decorrência de uma obra federal – incorra a tamanho absurdo.
É incompreensível que o próprio DNIT, que tem como objetivo estudar os impactos ambientais das suas obras não perceba isso. É estranho que uma obra relacionada a uma obra federal, oriunda de um governo que tem dado uma dimensão exemplar no que se refere a campanhas de preservação do meio ambiente, incorra à falta tão grave –, até porque se trata de um projeto incompleto, pois como é que engenheiros federais, conhecedores da hidrografia e dos relevos contemplados pela BR 101, ignorem o grau de toxidade, a gigantesca quantidade de resíduos, a necessidade de uma estação de tratamento e o destino que esse material tomará.
Como pode aos engenheiros do DNIT ignorarem que estão ligados direta ou indiretamente, a uma obra que destinará, de forma irresponsável, esgoto numa ÁREA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL (APA BONFIM/GUARAÍRAS).
Como pode aos engenheiros responsáveis por tamanho projeto, os quais estudam e pesquisam as mais modernas possibilidades de harmonizar obra e meio ambiente –, dentro de uma proposta ecológica – “esquecerem” da toxidade dos dejetos que correrão por tais galerias, rumo a um ecossistema de MATA ATLÂNTICA?
Como pode às autoridades dos Governos Municipal, Estadual e Federal – no caso os realmente responsáveis – no momento que autorizaram os primeiros rascunhos da duplicação da BR-101, ignorar aspectos geográficos sagrados – como a APA e a MATA ATLÂNTICA – integrantes do itinerário da rodovia, aos quais deveria ser reservada atenção especial?
Como pode estar acontecendo tamanha barbaridade dentro de um município que abriga a FLONA (berço de fauna e flora ameaçados de extinção) e uma extensão do IBAMA?
Como pode, numa época em que todos falam sobre a preservação das nascentes e dos recursos naturais – a questão da falta de água no futuro, o Governo Federal ou quem quer que seja, permitirem a construção de uma obra que despejará todo tipo de resíduos sobre um dos maiores aquíferos de toda essa região, onde se incluem 26 lagoas? Vale ressaltar que o lençol freático em Nísia Floresta é extremamente raso. Há lugares que aflora água há menos de um metro de profundidade.
A continuação dessa obra, da forma como está sendo desenvolvida – significará a morte de um patrimônio material e imaterial incalculável. Além da destruição criminosa de todo esse conjunto natural – que por si basta –, se extinguirão múltiplas faces da cultura de um povo, impressas em usos, costumes tradições, lazer, enfim na essência de uma história cheia de estórias.
É conveniente que os responsáveis revejam o projeto (ou até mesmo se certifique de forma mais detalhada das conseqüências da obra), pois, pelo que se percebe, não houve estudos para efetivar a avaliação de impactos ambientais, que é um dos instrumentos da Política Nacional do Meio Ambiente. Sabe-se que o Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) tem por dever elaborar um estudo para licenciamento de atividades modificadoras do meio ambiente, acompanhado pelo IDEMA e IBAMA. Mas, a julgar pelo que se vê, esse estudo não foi feito.
É muito mais barato construir uma estação de tratamento de esgoto que gastar, futuramente, milhões de reais com assistência às inúmeras famílias de pescadores vitimas dos danos ambientais. Sem contar comas doenças que advirão, decorrentes da imundície que tomará conta do que antes era vegetação e da savanização, pois as conseqüências serão irreparáveis.
Diante de tais reflexões, peço a V. Excia, em nome da população de São José de Mipibu e de Nísia Floresta a gentileza de intervir nesse projeto criminoso, convocando os responsáveis e as demais instituições governamentais ligadas ao mesmo. Inclusive solicitando-lhes esclarecimentos públicos junto à população, a qual PEDE A CONSTRUÇÃO DE UMA ESTAÇÃO DE TRATAMENTO ou algo similar.
Na oportunidade, informo a V. Excia. que o presente documento também foi enviado, em caráter de informação e denúncia, ao MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE, ao IDEMA/Natal, ao IBAMA/Natal, às DRAS. GILKA DA MATA E ROSSANA SUDÁRIO – PROMOTORA DO MEIO AMBIENTE e a alguns órgãos ligados ao assunto, em nível estadual.
Na certeza da atenção de V. Excia externo os meus agradecimentos.
Respeitosamente,
Luís Carlos Freire
Professor
Identidade Nº 482.107-SSP/MS

sábado, 12 de setembro de 2009

SALA DE POEMAS – POESIAS – CRÔNICAS – CONTOS - MENSAGENS - PENSAMENTOS DE DE LUÍS CARLOS FREIRE


INFANCIAÇÃO
  
Nasci numa quarta sem feiras
Apenas matas e rios cheirando a quatro horas da tarde.
O tempo geava um rigoroso inverno.
Menino vistoso
Vestido de cidade recém-nascida;
Doze primaveras de pedra fundamental
Carregava o rincão pantaneiro do meu primeiro choro.
Minha mãe teve uma quarentena de pirão de galinha caipira
Resguardada a parto natural.
A seu ócio temporário debruçava-se em afazeres a ajudante Bastiana.
Seu azeviche tinha a dimensão de dignidade
Qual diamante negro de nobreza.
Mais velha que minha mãe
Guardava sabedoria de forno e fogão 
Espalhando-a com humildade de monge.
Cresci numa comitiva irmanal cercada de sacis, curupiras, caiporas e lobisomens,
Iscuitando siriris, rasqueados, chamamés e guarânias.
Ao medo seguia proteção
Na pele sebastiana que equipamentava amor.
Lembro dos desenhos que ela riscava de unhas na pele.
Bataguassu lesmava uma clareira
Acanhada de urbanidades,
Pedaço de terra selvagem
Emoldurada de bichos.
Poucos pioneiros se arranchavam ali.
Meus pais foram desses.
Quem é parido em grossos matos
Traz um sujo de bugre.
Trago dentro de mim um baú transbordante de infância
Nasci de uma flor potiguar que pariu rodeada de florestas, bichos e rios
Por que isso meus recordos são molhados de verde da mata
Minhas essências espirram de fragmentos silvestres
Meu primeiro choro fez coro com o esturrar das onças, o grasnar das araras e o palrear dos papagaios
Bichos bandoleiros que pousavam nas nuvens de Bataguassu
Engatinhei no barro vermelho
Com gato, galinhas e cachorros
Nunca estive nem quis estar distante do chão, Pois que seu cheiro e seus bichos me seduziam
Assim, fui íntimo de minhocas e cachorros d’água
Em Bataguassu quando as vozes dos bichos acontecem
Quando o murmúrio dos rios acontece
Quando o farfalhar das matas acontece,
Sou eu acontecendo.
Minha primeira cor foi lama tingitando minha alma
Sem nunca mais descolori-la
Foi nessa cidade desconhecida,
Sombreada de matas,
Assobradada de ruas, calçadas, espaços e poeira vermelha
Que minha infância felicitou.

BUGRE PESCANTE


O bugre amarrou a noite numa pedra.
Esticou muito detrás do dia
Assim podia abarrotar peixes no cesto.
Linha, tirava do horizonte;
Havia por infinitos.
Taquara, fartava em touceiras,
Escondendo cotias.
A pesca vinha igual que água.
Depois ele amarrará o dia num lírio
Assim poder pescar mais.
(Ele que dizia isso)

POESIAR


Um velho contou-me que se alimentava de pedaços de pessoas
Fazia poesia ao modo de
Fazer colchas de retalhos
Qualquer pessoa – mesmo muda – dava retalhos
Ele funcionava de ouvir e ver
Depois colocava aflição nas palavras
Assim costurava sucessivas colchas
Por isso as pessoas o alimentavam
Disse-me que poesiar está nesses costuramentos
Que ela desvem de inspiração
Pois que vem de ver e sentir
Inspiração é o apelido que dão quando esses sentidos acontecem
Falou-me que todo homem é feito de pedaços de pessoas
O homem é a própria colcha de retalho
É o que é os seus derredores costuram
Mas carece dons de poesiar.

ARAQUÃ


Ninguém desaparecia mais do que nós daqueles ermos
Lugar transbordante de brincamentos
Tudo funcionava para brinquedo
Tudo melhorava para menino voar
Árvores tinham de caixas de lápis de cor
Tão coloridas de pássaros
As folhas secas guardavam mil vidas
Talvez só comparadas a bicharada correndo sobre elas
Envidecendo a selva
Os rios caudalosos nos deslizavam a gravetos secos
Vestíamos suas águas até a enseada
Agarrávamos a ingazeira deitada no espelho
Saltando para a terra firme
Esse percurso era feito qual relógio doido
Sem parar
Sem cansar
Nosso Mississipi
Assim éramos Tom Sawyer
Tudo acabava ao martelado do araquã
Deus botou nele inventar meio dia
Certamente para ajudamento às mães de meninos voadores
Estávamos atrasados para o banho e bóia
Havia uma escola nos esperando solenementes.

ELÁSTICO

As brincadeiras da minha infância eram mais de ver e pegar que de pensar.
Pois que assim sempre me fui só de pensar quando encontrava um La Fontaine pelos adiantes.
As brincadeiras que falo por hora
Eram de brincar de qualquer coisa
Que desse para brincamento,
Brincar de correr atrás do vento,
Brincar de guerra de torrão de barro,
Brincar de voar no mato,
Brincar de correr de a cavalo...
Só quem possuía um quintal cheio de ermos e confins
Têm poderes para entender o Daktari que tínhamos.
Minha mãe alertava:
Não passe da cruz da Cidinha!
Mas, aqui para nós,
Esticávamos a cruz até a Pioneira
Às vezes o elástico dava no Uerê.
Adonde os índios poemavam
Uerê! Uerê!Uerê! Uerê!Uerê! Uerê!Uerê! Uerê!Uerê! Uerê!
Eu sabia que quanto mais estrada passasse por debaixo dos pés
Mais poderia aparecer onça tocaiando.
O mais que vi além dos tamanduás
Foram obstáculos de sucuris.
A cabeça ficava de um lado da estrada,
A bunda ficava do outro,
O meio ficava no meio da estrada.
Era só pular,
Elas nem viam.
Quando o elástico dava sinal de descangotar
Eu voava para casa.
Que demora foi essa? Parece que estava no Rio Pardo!
Respondo:
Não, mãe, eu não passei da cruz da Cidinha!
Ela não conseguia ver os épicos que trazíamos na memória.
Assim acreditávamos.

DESMANCHAMENTO DO DIA


Por do sol é equipamento de desmanchar dia.
Se inicia-se a papagaios rasgando de verde o amarelecido céu.
De atrás vêm araras explodindo trilos azuis vermelhos,
Entardecem tudo em laranjados e ouros.
Ao modo de recolhimento chega o ocaso por acaso desses efeitos de aves.
Efeitos de sol.
Feitos de natureza voando cores,
Aquietando a tarde.
Assim equipamenta-se a noite
Paramentada de pirilampos
É difícil fazer o por do sol.

RIMBAUD

Rimbaud disse ter inventado as cores das vogais.
Escrevia colorido ele.
Por certo se sente passarinho esse menino!
(Quem inventa cores é pássaro)
 era negro
E, branco
I, vermelho
O, azul
Uverde.
Inventei que de agora em diante
Todos são obrigadorespeitaas
Cores de Rimbaud
Os que desrespeitarem
Irão para disco de Newton
(É que um socó me sugeriisso de ontem)

PEDRA ESCRITA

Mestre Vespasiano contou
Como erguiam as paredes de pedra de igreja antiga.
Muitas, guardadoras de segredos de geometria,
Perfeitavam que nem modo de feitas a tijolos.
Alguns mestres eram tão poéticos
Na composição
Que se demoravam dias atestando exatidão de pedras;
Era quase especialidade.
O segredo está no encaixe sem sobras ou saliências, dizia.
Enquanto narrava as engenhosas técnicas,
Eu associava o seu mister à escrita.
O escritor cuidadoso tem de construtor cuidadoso.
Escreve paredemente, ao modo de lesma atrepando,
As palavras precisam rastejar solenemente desapressadas,
Necessitam de harmonia para se vestir de poesia.
Pedem encaixe e exatidão.
Palavra deslocada é igualmente pedra deformada.
Promove protuberâncias,
Deixa folgas,
Gera equívocos.
Parede de pedra troncha é poesia de palavras tronchas.
Todos os rebocos serão insuficientes para ocultar suas imperfeições.

“SEU APARÍCIO”

Para o Seu Aparício nem tudo carecia nome batismal
Tudos estavam certos para ele
De dizer que uma miríade de insetos chiava, dizia:
- Esse magote de bicho fica aí aos zimbolé zuano os ouvido da gente
...
Um dia colhi essas frases de sua árvore:
- Esse menino, pegue aquilo acolá e mi dê
- Meu bichim, venha cá
- Vô mi adeitar um poco
- Dona minina, o que a sinhora quer?
...
- Tô cuma dô isquisita no meu estambo
Minhã vô aplantá uns feijãozim di corda
- Tô cuma agonia nas tripa, parece que tem um sino bateno
- Uma veizi eu peguei téti quandi pisei um prego véi inferrujado
- Alumeia aqui pra mim, meu fii
- Ais veis eu sinto umas facada aqui no pé da barriga, uma dô fina
- Asmanheci com os espinhaço doendo que só
Intonci qué dizé que u minino adueceu?
- Fulano tá cum cançu
- A meu saber ela não tá em casa
- Parece que levei uma paulada nos quarto
- Não põe muito sar no de cumê, não, viu!
...
Os filhos e netos rezavam na cartilha do Seu Aparício
(Inté inovavam)
- Tudo bem, coisinha?
- Seu coisinha, o qui o sinhô qué?
- Tira esse breguesso daí!
...
Seu Aparício conhecia a voz do mundo por experiência
Não por ciência.
Dizia:
- O burro martelava
- O gato gemia
- A galinha gritava
- O sapo piava
...
Olhava para o céu e dizia:
- O céu tá talhado, é chão molhado!
...
Qualquer coisa era coisa
Quando faltava verbo, coisar resolvia.
Se Aparício tinha partes com Camôes
Ou com o galegos português?

ESTRADA BOIADEIRA

A cidade era cortada por uma rodovia
Quando ia-se a Campo Grande via-se um resto de estrada do lado esquerdo
Igual que contorno.
Dava dó daquele caminho órfão
Sem pedras
Sem piche
Sem placas de sinalização
Sem viajantes...
Nem bêbados andarilhavam ali
Às vezes desaparecia de mato
Reaparecendo adiante, acanhada,
Depois se desprezava de rio
Mas possuía algo importante:
Sabia impor-se,
Mesmo manchada de árvores, resistia.
Enquanto meu corpo viajava de carro
Meus olhos viajavam dela,
Percorrendo-a
Num verdadeiro esconde-esconde.
Por que tanta curiosidade?
Meu pai disse que era a antiga estrada boiadeira
(Onde passaram as comitivas dos desbravadores do Mato Grosso no século XVI).
Igual as telas de Hercules Florence.
Caminho do gado tocado a berrante para São Paulo
Caminho dos carros de boi transportando pessoas e víveres
Para Campo Grande, Cuiabá e Corumbá...
Caminho da Carmelita trazida do Paraguai por Manoel da Costa Lima.
O fiapo de estrada tinha modos de desprezo
Por isso fascinava
Estradas boiadeiras são partes do corpo do Mato Grosso do Sul
São bondosas
Saudosistas
Nunca mataram animais silvestres
Muitas voltaram a ser veredas
Substituídas pelas serpentes de piche.
Tudo o que é bonito fica feio por último.

BORBOLETAS AZUIS

As meninas da minha época pegavam o pó de arroz da irmã mais velha às escondidas
Esse cosmético era cor de rosa ou cor da pele
Muito tempo depois surgiu o que chamavam sombra para os olhos
Se naquela época tivessem me consultado
Teriam ficado famosas como pioneiras da sombra azul
É que sou o inventor desse produto
Minha especialidade era o pó cintilante azul
Descobri-o por acaso
(Assim como Niépce descobriu a fotografia)
Foi passeando pelas matas quando vi um panapaná de borboletas azuis em estado de procriação
(Verdadeira cortina dependurada nas árvores)
O chão estava atapetado das que morreram
Recolhi uma porção para apreciá-las
Depois de muitas análises
Minha mão ficou azul cintilante
Igualzinho a Arquimedes surgiu a ideia
Obviamente não foi de fazer pó compacto, nem sombra para olhos.
Então enxerguei o descobrimento pelos olhos da pintura
Enchi uma lata de extrato de tomate Elefante só com asas
Não confunda minhas palavras
Não é que o elefante tinha asas
Elefante era a marca do produto
Enchi a lata com asas de borboletas
Pisei até virar pó
Nunca vi uma cor tão atraente
Igual a Césio
Era cintilante e de comportamento pastoso, embora seco
Eu usava para dar poesia aos meus desenhos
Depois invernizava com cola de vidro mole
Com certeza as meninas teriam ficado famosas como precursoras da sombra azul
(Juro que passaria a patente para elas)
Quem sabe teriam se projetado internacionalmente como inventoras da sombra azul cintilante para olhos.
Quem sabe as maiorais da perfumaria internacional as tivesse descoberto.
Com certeza aquelas meninas seriam milionárias.

ESCREVER

Escrever é palavra de raiz latinha
Vem de escre, que significa escrita
ver, que significa olhar (com curiosidade!)
É por esse estado de coisa que existe o ditado
"Tem que ver para crer",
Penso mais composto dizer
"Tem que ver para escrever".
Algumas poesias jorram sons
Guinchos de macacos
Murmúrios de rios
Rajadas de vento...
Mas os alfarrábios contam que predominam as silenciosas.
Poesia é olhamento
Quando digo que as joaninhas viveram estágio de crocodilos
Não falo surrealismos
Falo verdadeirismos
Testemunhei as larvas saindo dos ovinhos
(Foi no corgo Guaçu)
Depois de algumas horas descrocodilizaram,
Metamorfoseando-se em joaninhas
Flagrei o escaravelho carregando carniça para aninhar seus ovos
Encontrei zigue-zigues descapsulando-se iguais aos pernilongos
Deparei-me com o ninho de serpentes iguaizinhas às minhocas
Por isso proclamo:
"Tem que ver para escrever"
Quando escrevo
Falo o que vi
(Inspiração é mero assessório)
A escrita é escrava da visão.
Poesia é visão escrita
Exige olhos apurados,
(às vezes traduzem imagens guardadas dentro de nós).
Gaviões têm estigmatismo diante dos poetas.
Certo dia um doutor falava a uma gigantesca plateia,
O poeta escrevia sobre a aranha que tecia rede na cortina
Rabiscava o que via
Desescutava o palestrante entretido com poesia em tecimento.
Não é regra entendimento por escutação
Nem por ascultação
E sim por visão.
Resumindo os explicamentos:
Para o poeta a sonoridade é relativa
Uma pedra pode falar mais que mil gralhas
Mil gralhas podem guardar mais silêncios que todas as pedras
Dependerá da visagem do poeta
Escrever tem esses conformes.

VIDRO MOLE

Havia nobreza naquela árvore:
Escorria vidro
Vidro mole igual a mel de abelha
Depois vitrificava
(Isso quer dizer endurecia)
Não igual ao que Trimálquio conta em Satiricon
Mas ao ponto pedra.
Uns homens sabidos chegados de Ponta Porã
Inventaram dizer
Resina, âmbar, pez...
Era muito cientificoso o palavreado
Eu preferia acreditar na vizinha alemã:
Aquilo é choro de árvore
Como sempre fui descobridor
Descobri que mergulhando o vidro na água
Magicava verniz
Magicava cola
Tudo eu colava com vidro mole
Tudo eu envernizava com vidro mole
Tornei-me amolecedor de vidros na temporada das pipas
Como disse Lavoisier
Na natureza, tudo que é mole, endurece, e depois amolece...
E se quiser reendurece.

OS OFAIÉS-XAVANTES

A praça Jan inchava de bugres aos finais de semana
Tinha gente velha e nova
Até criança
Atavessavam o dia versejando língua estranha
Dialeto magnífico
Tenho que aquelas palavras são ensinadas pela mata
Pois tinham sons de bichos
De ventos,
De árvores
De rios
Certa vez eu comia um doce de abóbora
(Daqueles em formato de coração)
Um bugrezinho aproximou-se e disse:
Comendo quero doça dá
Estranhei a macarronice verbal e dei-lhe a iguaria.
Ele falou mais com os olhos e gestos que com palavras
Eu tinha curiosidades igual aos Villas Boas
Curiosidade de saber indiologias
Mas os mais velhos eram arredios
Não gostavam de conversar com gente branca
Gente não índia
Eu sempre dava um jeito de aproximar-me para ouvir o incompreensível
Era uma fala verde
Silvestre
Parecia palavra de bicho
Conversa de índio traz a mata para perto
E os céus nublam de pássaros
Às vezes a pronúncia de uma vogal parece saída da língua pregada no céu da boca
Outrora parece vinda dos canglores da garganta
Uma rouquidão estranha
Às vezes era gutural grave, rápido
A praça passava o dia desfrutando índio
Já quando a tarde dava sinais de desaparecer
Eles também desapareciam
Na estrada do Sapé
Comiam mandioca com caititu e abóbora com coelho do mato. 

VERDANDANTE

Tinta verde verdadeira é prodígio de lagartas
Depois de anos de suspeitas
Descobri todo o processo:
Vem precisamente das lagartas verdes
Não sei se elas desaparecem as árvores ou as árvores desaparecem elas
Mas é fácil encontrá-las
Basta ver grãos de tinta no chão
Há uma máquina dentro delas
O fabricamento se dá assim:
Eis que primeiro elas escolhem bem as folhas
(Tem que ser novinhas)
Depois passeiam a refeição
Carece percorrimento de árvores
Rastejamento
Subimento e descimendo do meio do corpo
Assim ocorre o transformamento de folha em tintura
Quando estufam de cheias, descomem tudo
A tinta sai por um buraquinho no final da lagarta
São grãozinhos secos concentrados
( Miniatura de grão de cabrito)
Basta misturar na água
Um pincel aquarelecerá paisagem no papel.
Beleza mesmo é depois de passar verniz de vidro mole

SOSSEGO

Ela caminhava lenta
Era lesmática e desprovida de fala
Negra azeviche
Gorda roliça
Cabelo avolumados
Dedos das mãos e pés grossos como linguiças
Tais quais os negros de Portinari
Lábios acentuados a tomar boa parte do queixo
Nariz amplo
Bunda ao estilo das tribos Khoisa
Pernas batatudas das baianas subideiras de ladeira da Bahia
Parecia não ter reflexos.
Olhava as coisas como não as enxergasse
Havia desprezo em seu olhar
(Serenidade estranha).
Sua lentidão incomodava;
Morava num pequeno casebre de madeira.
Alguns meninos faziam-lhe troça
Atiçados por sua indiferença
Talvez quisessem ouvir a voz que ela transformou em silêncio
Ou queriam ouvir xingamentos.
Ela nunca revidou,
Não fazia mal a uma formiga
Por isso irritasse a tantos;
Era dessas que nascem com os parafusos mentais muito apertados
Não fosse pelo exotismo
Seria invisível
Embora vista apenas para pilhérias
Sossego morreu igualzinho que morrem as lesmas.

MATAME

Quando estive o menino que não sou agora apenas por fora
Tinha propensão às matas.
O magnetismo selvagem sugavame de modo matame
Embrenhando-me em seus desígnios
Tinha de guia um gato que nunca descompareceu de mim
Portando meu senso de direção felino não tinha apegos geográficos.
A experiência do silêncio quebrado unicamente por voz animal ou minhas pisadas alçava-me a estado de bicho.
Os eflúvios silvestres, o murmúrio dos rios...
Tudo tinha estado de mim
É indescritível o encantamento.
Havia um mimetismo
Como se as árvores e os bichos fossem minha pele.
Nunca fui desrecebido.
Havia inexistência de medo
Havia supremacia de coragem despercebida.
Se real a tese espírita, fui bugre.
Fascinava-me as frutas e flores estranhas
Os sabores e perfumes inesquecíveis e inexplicáveis.
As melhores floriculturas desconheciam os buquês exóticos, saídos de arbustos, árvores e trepadeiras.
A mata tem coisas de realezas
Os bandos de seriemas atravessando o riacho Sapê, os coelhos saltitantes, talvez tentando assustar-me...
E a onça que saltou da ingazeira e vestiu-se com as águas do rio Pardo?
O coração desse bugre-menino saltou pela boca
Não de medo
Mas de encanto excelso.
Um dia encontrei serpentes recém-nascidas num toco podre de jequitibá.
Lembravam minhocas entrelaçadas.
Pareciam adultas pela destreza que serpenteavam o corpo
Coisa de instintos.
Muito lindo os botes sorrateiros.
As linguinhas vermelhinhas aprendendo a cheirar e sentir o perigo.
Corri riscos quando afaguei os filhotes de gato do mato sibilando iguais às onças.
Creio ser um deles que entrou dentro de mim.
Os guinchos dos macacos ensurdeciam...
Nesses empreendimentos silvestres confundia meu habitat
Desaparecia de mim as urbanidades...
Logo surgia o estirão arenoso depois das cercas de aroeira
Sabia a estrada de Bataguassu a Uerê.
Era seguir a linha pintada com as cores do por do céu
Reaparecia distante a urbanidade ao compasso dos passos ligeiros
Escutando o chamado maternal que não precisava de voz.


INSTIGAÇÃO À POESIA

O tiê-sangue trila canção magnífica na grimpa do pequizeiro
A lesma babeja a calçada
O beija-flor inquieta as flores
A formiga teimosa carrega o louva-deus
O mandarová sofrega no tronco da perobeira
A joaninha mata a sede na bromélia
Abelhinhas miúdas perfumam o jardim
Um panapaná de borboletas azulece o cenário
O cachorro d'água cavouca a terra
Meu Deus!
Ficam essas coisinhas miúdas atiçando poesia cá nessa cabeça de vento

OCASO

O dia envelhece
A chalana preguiçosa risca o Paraguai,
Desregulando os seus contornos;
Lontras e ariranhas vestem seus furos na barranca;
As águas douradas rolam em curso largo,
Pintadas pelo por do céu.
Logo, os reflexos de púrpura dissipam a tarde;
Os jaburús foram os últimos a encher as árvores,
Já não se vê o sulco da embarcação;
A noite tem espessura de piche
E a água foi aplainada pelo silêncio.
É hora dos jacarés acenderem seus olhos na lâmina do rio;
Os vagalumes infestam de lâmpadas o esmo negro.
Há um perfumamento de lírio borrifando a noite,
Amanhã tudo amanhece Pantanal.

MÚSICA DA MATA

A orquestra da mata tem arranjos de bichos, árvores, rios e ventos
Ventania em casca seca de caramujo faz assobiamento de saci
Murmúrio da água é graveto seco de ingazeira riscando o rio
Matraca escandalosa é porco do mato batendo a baqueta dos dentes no queixo
Tum tum tum estrondoso qual zabumba é composição de rebojo, pedras e correnteza em borbotões
Percussão misteriosa é cápsula pesada de jatobá despencando em folhas secas no chão
Ecos finos e alternados é trilo de anta reverberando
Exercícios de vozes é algazarra de maritacas, araras e periquitos adejando
Harmonia de música da mata está no acontecer
O tiê-sangue bem que devesse reger essa orquestra
É pássaro fascinante e tem semelhança de cantor
Há infinitos sons na mata
É que agora estou desses

POEMA

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O jatobazeiro seco tombou na mata do rio Pardo
Gravetos estalaram
Galhos rangeram
Cipós despencaram
Houve amedrontamento da fauna
Os pássaros adejaram, soltando trilos desesperados
A manada de queixada eriçou as cerdas e estourou dali
Grunhe e matraqueia, amedrontada, no túnel de arbusto
Anda, trota e salta tocos marginando o pântano
Bate o queixo e os dentes, enlouquecida
O silêncio volta
A mata tem desses sustos

POETA DA IMAGEM

Pintor é poeta da imagem
E sua poesia faz ninho no pincel
Pintar bonito carece aparecimento de infância na pintura
Quanto mais criança está dentro do pintor
Mais poesia esparrama na tela
Se as garças estão verdes
É porque algum menino apapagaiou-a
Se os papagaios estão brancos
É que deram de andar com as garças
O tuiuiú não mergulhou a cabeça no rio Paraguai
Portanto ainda não está preta
Seu pescoço não tem anel vermelho
Pois derramaram toda a tinta no sol
As capivaras estão lilazes
De tanto mergulhar sob os lírios
O rio virou espelho
É que o pintor prateou o céu
Quem disser que houve erramento artístico
É que nasceu descolorido de poesia

BRINCAMENTOS DE FRIO

Apetecia-me Bataguassu gelada
Dormir acasulado de alcochoados é lembrança que até hoje me acalora.
Amanhecíamos lesmas até nossas mães nos darem partida.
Daí enfrentar as rajadas de frio.
Na mesa do café, no quintal, onde resvalacem os raios de sol, havia disputamentos.
Mas nem tudo era monótono.
Havia brincamentos de frio.
Eram esses:
1) balançamentos de varal de arame para ver saltar longe os filetes de gelo,
2) Amassamentos de roupas madrugadas no varal para auferir trics-trics.
3) enfiamentos de dedo em película de gelo de balde amanhecido com roupa de molho.
4) desenhamentos com lápis-dedo sobre gelo assentado em carros.
5) colocamentos de língua para grudamento em lataria de carros (sem caneca de água morna fica grudado para sempre),
6) colheitamento de lagrimazinhas de sereno congeladas na ponta das flores,
7) quebramentos de espinhos de gelo formados na grama,
8) soltamento ar quente da boca para fazer pequenos nevoeiros,
9) raspamento da lâmina de gelo com as unhas nos carros para sentir a massa gelada entre as unhas.
Vejam só,
Eram nove brincamentos;
Brincamentos de frio.

POTENGIPARANAPARDO

Desse topo de rocha e ferro contemplo o rio Potengi,
Meu pensamento se inunda com as águas dos rios Pardo e Paraná,
Rios d'eu-menino. 
É belo o rio potiguar, mas descomparado aos que molharam a minha infância...
Não bastasse essas recordações serpenteando, vejo, ribeirinho, o trem, lento, sinuoso...
Lembrando as sucuris do Pantanal.
No outro lado se espraia o mangue,
A paisagem verde aquosa me transporta aos varjões de Bataguassu.
Nítida imagem do Pantanal sul-matogrossense.
Não bastasse o devaneio, descortina a ponte da Redinha onde o Potengi miscigena-se em atlântico...
Mais uma vez as recordações trilam forte.
Emerge o rio Pardo em confluência com o rio Paraná, sob a Ponte Maurício Joppert.
Não bastasse, singra a barquinha vagarosa no rio dos potiguares, cópia fiel das chalanas no rio Paraguai.
Tudo quer ser igual, mas não sinto o cheiro do pequi e o gosto da goivira.
Faltam coisas invisíveis...
Os cachorros d'água e seu olhar de ternura.
O velho Paraguai com seu bigode de arame desenhando histórias de bichos.
"Seu Benedito Preto" e o inseparável cachimbo, bafejante de causos.
O círculo de tererê gelado na guampa de boi.
Verdade, as belezas germinadas na infância são especiais.

DERRETIMENTOS

O espanhol derretia relógios com pincel.
Vivia de derreter coisentortar o que não podia ser.
Surrealizava-se com amolecimentos de materiais.
Aparecia fantasia.
É possível desmanchar palavras com canetas-tinteiro,
Tintilam diferentes,
Bonito que só.
Às vezes, lápis fá-las grafitantes.
Gravitam fantasiosas.
É recomendado espremer palavras.
Desses dias apertaram o arco-íris,
Espirrou poesia na prancheta do artista.
A tinta escorria, 
Entortando imagens.
Apareceu desenhamentos de crianças
E se pintou-se o sete.

GOIVIRAL
  • Íamos no velho caminhão "Stúdio Back" do meu pai.
  • Minha mãe pegava a manivela na boleia e metia no focinho do veículo,
  • Rodopiava até o motor roncar.
  • Após algumas aceleradas pinotávamos na carroceria com baldes, latas, bacias e vizinhos.
  • Para trás ficavam tufos de poeira vermelha tingindo a mata.
  • Ao chegarmos ao paraíso de crianças e passarinhos, nos empanturrávamos,
  • Depois, abastecíamos os vasilhames até a boca.
  • "Tomem cuidado com cobra!"
  • Era a voz paterna.
  • Abastecidos, fazíamos a viagem de volta.
  • Uma vez precisou-se parar para que alguém despejasse esterco na mata.
  • Tenho muitas lembranças desses episódios silvestres.
  • Catar goiviras era uma delícia.
  • Objeto de desejo dos nativos.
MECANOFICINOGRAFOTECNICA

  • Há palavras de consertar e desconsertar.
  • Com minhas ferramentas de ossos,
  • Reformo, restauro, desmonto, derreto, crio e recrio;
  • É profissão mais brincadeira que existe.
  • Na mecanoficinografotécnica
  • Afrouxo e aperto parafusos de palavras.
  • Depende do meu estado de desconserto
  • (Coisa de gentes desparafusada).
  • Encanta-me o ranger metálico
  • Orquestrando felicidade disfarçada de trabalho.
  • Já aprimorei centenas de palavras;
  • "Criançamor" é uma delas!
  • Bem soldada, não poderão mudá-la.
  • A palavra é toda de besouro
  • (Significa ter valor incalculável).
  • Desses dias, desmontei as palavras
  • Ódio, maldade e preconceito
  • E das letras sobrantes
  • Montei adjetivos, sinônimos e verbos
  • Que despertam bondade.
  • Muitas vezes em meio às letras-sucatas,
  • Há enganchamentos sem conta
  • Umas grudam-se às outras.
  • Desses dias, encontrei um monturo desses.
  • Puxei a letra A veio "amoração".
  • Estava tudo grudado.
  • Creio ser mistura de "amor" com "oração",
  • Ou "amor" com "ação".
  • Não pensei nem, soldei.
  • Ontem, inventei a palavra jatobacidade.
  • É como me sinto quando aprecio o fruto do jatobazeiro.
  • Embora hoje estou pequiseiro.
  • (Para Fídias)
  •  
  • Todos nós já tivemos o nosso lado Tom Sawyer.
  • Durante a minha infância
  • Possuía uma lata grande de leite Ninho.
  • Dentro ficavam guardados:
  • Uma coleção de cards da Seleção Brasileira de Futebol,
  • A cara de um boneco quebrado,
  • Um pedaço de vidro de fundo de garrafa azul royal
  • (servia para olhar o sol)
  • Uma coleção de calendários,
  • Tampinhas de garrafas com figuras de Walt Disney
  • (uma promoção da Coca Cola).
  • Tinha uma moeda antiga,
  • Tudo muito bem guardado.
  • Só eu sabia o local do esconderijo.
  • Era o meu tesouro.
AVIÕES
   
·         Quando eu era ainda mais criança
·         Pensava que os aviões pousavam nas flores,
·         Que elas se abriam para eles aterrissarem.
·         Quando via horizontes desaparecendo pássaros de lata,
·         Dizia para meus descompassos:
·         - Lá está a flor se abrindo para os aviões se aquietarem do cansaço.
·         De contar isso para uma professora
·         Recebi o título de sem juízo.
·         Foi o título mais condecoração que recebi.
·         Ela jogou em mim palavras que pensavam feitas de magoação.
·         Estava desparafusada de ter o marido na penitenciária.

RECEITA PARA POESIA DE PÁSSAROS
  
(É fácil poesia de pássaros)
Carece de rio murmurante em túnel de árvores
Pés de goiviras bem madurinhas
Cheirando a tarde silvestre
Pedras ásperas roladas de rio para afiamento de bicos
Poesia aparece aos poucos
Ao modo de pássaros adejando cá e lá
Bicando frutos

LIQUIDEZ

Vivo a desmanchar as palavras e pô-las em estado de poesia
O vento ajuda a compô-las quando vem forte do meio das árvores
Algumas vezes as matas se desmancham para se igualar às minhocas
A poesia se completa no ocaso quando as cigarras engolem o canto para ouvir a sinfonia das rãs 
Os ziguezigues riscam o  rio e abrem a cortina
O Pantanal é comido pela enorme boca da noite
O índio guató corre sobre os caroços da água
Caroços acesos, iluminando tudo ao modo de tapetes de jacarés
É o espetáculo começando
Espetáculo de letras e canções anfíbias.

GAUDI, O SANTO TRANSGRESSOR

  • Igual a alguns poetas que transgridem as normas da gramática e constroem escritos excepcionais, Gaudi foi um desses desertores e produziu uma arquitetura ousada e surpreendente.
  •  
  • Suas obras são esculturas instigantes que parecem saídas de um naco insignificante de argila e transformado em edificações inacreditáveis. Não há como vê-las sem contemplação.
  •  
  • As cores, formas e os materiais... tudo nos convida a perquirir cada detalhe.
  •  
  • Como não bastasse a excepcionalidade do Palácio Guell – sua primeira obra – ele produziu móveis singulares. Há um tocador que parece bicho estranho. Cadeiras lembram animais em movimento (creio ser tênue a linha que separa pintura, arquitetura, literatura, engenharia, anatomia - se é que ela existe).
  •  
  • Suas inconfundíveis chaminés transmitem alegria e infância. As torres percorrem os telhados, oferecendo um aspecto similar ao de um pequeno bosque de cipestres.
  •  
  • Esse palácio nos reporta a uma escultura surrealista. Não há cantos, há curvas. Há côncavos e convexos.
  •  
  • A leveza do formato orgânico dos metais desafia o entendimento.
  •  
  • Ele conseguiu levar luz natural a ambientes nunca antes conseguido pelos mais respeitáveis engenheiros.
  •  
  • Criou nesse monumento espaços diáfanos, que enganam os sentidos. Até um firmamento se faz presente.
  •  
  • A singularidade de tudo o que se vê não ofusca a presença da natureza, denotando o quanto ele a valorizava.
  •  
  • Não é de se estranhar que durante a sua construção a imprensa divulgou-a de forma incomum.
  •  
  • Os ziguezagues do Colégio Teresiano. Alguém viu algo igual? Seus belíssimos arcos parabólicos. Foi ali que ao ser lembrado para gastar menos, respondeu ao padre que o encomendou: "Com todo respeito, padre Enric, mas o senhor entende de missas, eu entendo de fazer prédios".
  •  
  • A Casa Calvet, ou a casa da fantasia, a mais convencional de suas obras. Suas famosas cruzes, as belas esculturas no telhado. Os móveis, iguais aos seus edifícios, são a expressão de um equilibrado jogo harmônico entre sobriedade e barroquismo.
  •  
  • A Cripta da Colônia Guell é pura genialidade e uma de suas obras mestras. Seus arcos parabólicos.
  •  
  • A aparência externa, dinossáurica, às vezes lembrando um animal estranho, contradiz o seu interior. Nota-se quão cuidadoso foi esse gênio com a pressão sobre os pilares em conformidade com as escalas.
  •  
  • Essa obra é um hino, uma poesia disfarçada de arquitetura. Cada coluna sustenta a composição de uma árvore. Sua modernidade incomoda.
  •  
  • Aliás, suas obras são assim: depende de onde se olha se vê o dórico e ao mesmo tempo o gótico, o neogótico, o árabe, o persa, o ultramoderno... logo se volta ao medieval como se rendesse homenagem ao passado glorioso da Catalunha. Há cuidado em prestar culto ao nacionalismo e a religiosidade.
  •  
  • A Casa Bellesguard é um castelo medieval em miniatura. Sua magnífica porta e a influência do neogótico em suas janelas causam admiração.
  •  
  • A fachada recorda a Idade Media.
  •  
  • Nessa obra de arte, Gaudi teve o cuidado de respeitar as ruínas da casa de campo do último rei de Aragón. A brancura interior, a luz vazada de coloridos vitrais, em harmonia com azulejos coloridos contrastam com as pedras escuras que revestem as paredes externas.
  •  
  • O incrível Parque Guell de pura arquitetura orgânica é simplesmente um encanto escultural.
  •  
  • O banco sinuoso e contínuo de mosaico com diferentes fragmentos cerâmicos lembra as gigantescas sucuris pantaneiras. Teria ele pensado em grupos de reuniões a céu aberto? São fascinantes os motivos ornamentais que serpenteiam ao longo de seu corpo.
  •  
  • Essa obra revela um artista com uma extraordinária intuição para a forma e a cor: verdadeiro escultor.
  •  
  • Esse inigualável conjunto arquitetônico é um estranho corpo de pedra, cimento, ferro, azulejos e ladrilhos espraiados engenhosamente por um terreno acidentado, surpreendendo a cada centímetro.
  •  
  • As casas parecem saídas dos contos de fadas. Suas pedras sempre em tom ocre com telhados revestidos de azulejos multicoloridos transmitem felicidade aos céus.
  •  
  • O dragão com escamas a base de azulejos multicolores faz-se de guarda, mas encanta mais que assusta. Sua figura representa Pithon, guardiã das águas subterrâneas.
  •  
  • Num dado momento um pórtico com colunas de estilo dórico se levanta como um imponente templo grego: uma reverência a Guell, admirador da arte antiga e seu mecenas.
  •  
  • As colunas lembram palmeiras. O belo anfiteatro. Suas cavernas com ventilação perfeita. Na aridez do terreno houve o cuidado de canalizar as águas da chuva para reaproveitá-las, combinando arte com funcionalidade.
  •  
  • A Casa Batló, construída no ponto culminante de sua carreira é pura profusão e riqueza. Chama a atenção as poderosas colunas parecidas com as patas de um elefante. O telhado recorda a espinha dorsal de um dinossauro.
  •  
  • Os balcões retorcidos parecem máscaras gigantes. A casa tem pele, é de peixe!
  •  
  • Os cantos e as formas que, pela arquitetura convencional seriam quadradas, desaparecem, se ondulam oferecendo o mesmo aspecto de pele escorregadia de uma serpente aquática.
  •  
  • Os muros externos são como pele, suaves e moldáveis. Esse sonho de naturalismo e flexibilidade se estende também no seu interior.
  •  
  • Nenhum outro edifício de Gaudi mostra tanta modernidade. Sua arquitetura vanguardista é das mais chocantes. A construção nos leva ao mundo da fantasia, assim como a Casa Calvet.
  •  
  • O prédio parece mole, algo feito de barro recém-modelado como as mãos de oleiros alisando seus potes.
  •  
  • Tudo é curvo, roliço, arredondado. Até o teto. A casa nos transmite o quadro "A Persistência da Memória", de Dali, com seus relógios derretidos. A casa também parece se derreter.
  •  
  • Balcões semelhantes a gotas de mel... quem já viu isso?
  • A Casa Batló é verdadeira casinha de alfinin. Nada lembra as pedras duras, frias que modelam o seu corpo arquitetônico.
  •  
  • Na sala onde se encontra a lareira, tudo parece rechonchudo, macio, ondulado.
  •  
  • A Casa Milá, apelidada de 'a pedreira' provocou estupefação nos contemporâneos de Gaudi, sendo incompreendida durante muito tempo.
  •  
  • Não faltou quem fizesse caricaturas, paródias e deboches, desacreditando em cada metro que se erguia… Estariam assustados?
  •  
  • Mas com certeza tanta ironia não era mais que uma prova de fascinação que ela exerceu sobre seus contemporâneos.
  • Essa construção constitui uma síntese de todos os elementos que definem a época tardia do estilo gaudiano.
  •  
  • A casa é paisagem em movimento. Sua fachada é obra primorosa… fantástica.
  •  
  • Os numerosos ventiladores e chaminés configuram uma estranha paisagem de esculturas surrealistas, cujas formas se repetirão muito mas tarde na história da escultura.
  •  
  • Este atrativo residia desgraçadamente em detalhes externos, duvidando por completo que Gaudi havia baseado em reflexões práticas. Havia uma antecipação do futuro, como o prelúdio da garagem subterrânea dos porões.
  •  
  • Suas obras são marcadas por inúmeros chaminés: características puramente gaudiana.
  •  
  • A Igreja da Sagrada família, de inspiração gótica, parece saída dos contos fantásticos. Não há nada que se possa comparar em toda a história da arte.
  •  
  • Quando falamos de um gênio como esse, o mais comum é apontarmos uma obra de culminação. Mas em Gaudi isto é impossível, pois com a Sagrada Família, sua obra mestra, ele ocupou toda a sua vida.
  •  
  • Quando compunha se encantava com a própria obra. Era tanto que não admitia vê-la lenta ou parada. Durante a primeira Guerra Mundial ia de porta em porta pedindo donativos para que os trabalhos não parassem, mas infelizmente só chegou a concluir uma torre.
  •  
  • Por falar nelas, lembram as mitras episcopais.
  •  
  • A Igreja da Sagrada Família é uma oração de pedra. Lugar onde as rochas exalam Deus.
  •  
  • As doze torres que coroam a fachada fazem referência a toda a cristandade, representadas através dos doze apóstolos.
  •  
  • Gaudi tinha repugnância pela monocromia. Dizia que a natureza é multicolorida e desconforme, portanto sua obra seria sempre cheia de vida e de formas diversas.
  •  
  • Outro detalhe também interessante e que o faz poeta da arquitetura: ele gostava de introduzir em suas obras letras e palavras sob forma de anagramas.
  •  
  • É impossível encontrar em suas obras algum elemento igual.
  • A escultura de um caracol, uma tartaruga serve de base a uma coluna situada ao lado do portal do amor, ao lado aparecem animais domésticos.
  •  
  • Às vezes até nós mesmos não entendemos como alguns de seus edifícios se sustentam em pé. Algumas obras refletem frágil aspecto, mas se caracterizam por assombrosa firmeza.
  •  
  • Tudo é permeado por mosaicos, ladrilhos, cristais, azulejos, madeira, ferro, pedra, vidro, fragmentos de vidros, vitrais, cerâmicas... dominava o ladrilho como nunca.
  •  
  • Gaudi antecipou as técnicas de colagem dadaísta, os métodos cubistas de Picasso e Miró, e as próprias pinturas de Miró.
  •  
  • As instituições públicas de sua época o ignoraram, mas ele teve sorte com os canais privados, assim como o industrial Guell, seu maior fã e mecenas.
  •  
  • O conjunto de sua obra revela ousadia e criatividade insuperável.
  •  
  • Sua abnegação, sua religiosidade o tornam santo, tal qual a santidade de sua arquitetura.
O TEMPO

·         Dia desses eu pensava sobre o tempo. Parece que estamos vivendo em função dele, e não das coisas importantes da vida. Não temos tempo para pararmos numa loja e olharmos as prateleiras, pois precisamos chegar correndo ao trabalho.
·         Quando retornamos do trabalho - à tardinha - não podemos novamente olhar as prateleiras, pois precisamos chegar correndo em casa.
·         No final de semana não podemos ir à praia, pois temos que concluir alguns afazeres domésticos que ficaram pendentes... e assim estamos sempre correndo, preocupados com o tempo.
·         Pior de tudo: nem sempre concluímos o que estamos fazendo para nós. Tudo o que é dos outros damos conta, mas o que é nosso deixamos para depois, sempre atropelado pelo tempo.
·         Parecemos o coelho da história de "Alice no país das maravilhas". O bichinho vivia sempre correndo e olhando para o relógio, sempre apressado, dizendo: "estou atrasado", "estou com pressa". E fazia tudo de forma atropelada.
·         Como não bastasse, Alice se depara com um gato trepado numa árvore. Seu corpo aparece e desaparece como mágica. Às vezes permanece apenas o seu sorriso,  exatamente como a meia lua, outrora fica a cauda, como se fosse uma cobra.
·         Logo, Alice lhe indaga:
·         - "essa estrada vai para onde?"
·         O gato responde com outra pergunta:
·         - "para onde você quer ir?"
·         Ela replica:
·         - "Não sei para onde quero ir, pois estou meio perdida".
·         Ouvindo aquela resposta meio louca, o gato sentencia:
·         - "Para aqueles que não sabem para onde ir, qualquer estrada serve".
·         Parece que somos um pouco esse coelho. Parece que acabamos de encontrar um gato que também nos disse as palavras acima. Quando as coisas são para nós, não sabemos para onde ir. Não sabemos que estrada pegar. E essas estradas são tão simples.
·         Que tal pararmos, irmos à praia, sentirmos a areia e as ondas do mar?
·         Que tal pegarmos uma estrada de terra, a pé ou de bicicleta, paramos naquela ponte, escutarmos o barulho do rio, colhermos flores silvestres...
·         Que tal pularmos naquele rio que nos parece tão delicioso?
·         Que tal visitarmos aquele tio idoso que há tempo não o vimos (ele pode não estar lá na semana que vem).
·         Que tal plantarmos aquele jardim que todo dia prometemos a nós mesmos iniciá-lo.
·         Que tal fazermos aquele arroz doce que adoramos e o postergamos a todo instante?
·         Que tal concluirmos a leitura daquele livro?
·         Que tal pararmos para separamos aquelas roupas usadas para darmos para alguém?
·         Que tal almoçarmos com a nossa família, em plena segunda-feira, e sem pressa?
·         Tudo passa. O tempo fica. Não podemos ser escravos dele. As estradas, os caminhos, as veredas estão diante dos nossos narizes (nós é que não vemos).
·         Estamos sem tempo para sermos gente. Parecemos máquinas, coisas... sei lá!
·         Se continuarmos com essa pressa sem fim, não veremos a nossa vida passar, pois não estaremos vivendo, e, sim, sendo escravos do tempo. Estaremos vegetando.
·         Que tal vivermos! Nem que seja algumas vezes por mês?
·         Tem que ser agora, senão tudo passará, inclusive nossa família, nossos amigos.
·         O tempo nos levará tudo. Sobrará apenas lembranças amargas de não ter vivido para nós, e, sim, para o tempo. LUÍS CARLOS FREIRE

O MENINO QUE PLANTAVA MAMÃO PARA FAZER AMIZADE 

Era uma vez uma vez um menino plantou nove pés de mamão. Com ajuda de seu pai, ele cavou nove buracos, adubou com esterco de gado e deitou nove sementes que germinaram viçosas. Durante a tarde, o menino molhava cada brotinho, cuidadosamente. Todos deram origem à missão de produzir mamão. Eram belos exemplares tão doces que pareciam pulverizados com açúcar. Cada pé produzia dezenas de frutos. O pai do menino disse: - "menino, é muito mamão no quintal, tem que dar ao povo, pois não vamos dar conta de tantos frutos". O menino respondeu ao pai: - "papai, não é  por causa de serem muitos que eu vou dar aos vizinhos, e sim por que eu plantei para dar aos vizinhos e fazer amizades; esse pé não é nosso, é dos vizinhos e o que sobrar é nosso". Quando começavam amadurecer, o menino subia no alto do pé, colhi-os um a um, colocava numa bacia e saia pela vizinhança distribuindo aos vizinhos. Todos adoravam os mamões do menino. Assim, ele fez e reforçou muitas amizades, pois soube olhar para a terra e reconhecer o seu papel de mãe. ("terra é mãe", (diziam os índios). Ela dá frutos. Ele também plantou pés de abóbora, 'none', pimenta e plantas medicinais. Interessante, esse menino colheu frutos e amizades, graças aos pés de mamão e à mãe-terra.

A MORTE IGUALA A TODOS

Dia desses estive no cemitério e constatei uns detalhes que muitas vezes passam incólumes aos nossos olhares. Vi o túmulo de um poderoso político enterrado bem ao lado de seu maior inimigo (ambos morreram sem se falar).
Com mais alguns passos li o epitáfio triste de um casal muito conhecido na região: uma dama poderosa, falecida de um acidente grave e seu segundo marido descansavam para sempre. Logo atrás de seu túmulo estava o primeiro marido de tal dama. Em vida, foram grandes inimigos. Logo à esquerda, estava a lápide de uma famosa miss, sepultada ao lado de uma conhecida que passaram a vida trocando farpas. Eram duas das mais belas mulheres daquele município. Morreram velhas e nunca se bateram.
No centro do “campo santo” jazia um mausoléu imponente... chamava a atenção de todos (tinha até lustre). Nele “descansava” um dos fazendeiros mais ricos da região. Estava cercado por outros falecidos da mesma estirpe, mas ferrenhos inimigos quando andavam pela terra (brigavam por divisas territoriais, gado e outras coisas mais).
Próximo deles, jazia a cripta de um belo jovem, assassinado há muitos anos por um inimigo que roubou sua namorada. O assassino estava sepultado à sua direita, junto com sua ex-amada.
Num canto mais descuidado e tosco, exatamente na raia que divisava a classe abastada da humilde, jazia a sepultura do “Seu Tuca”, um senhorzinho que passou pela vida sem ser visto por quase ninguém. Morreu igual nasceu. Só levou ele. Não deixou nada. Justamente ao lado dele estava erigido uma cripta que mais parecia uma capela, na qual dormia um ex-milionário, prepotente, soberbo, preconceituoso (aqui para nós, detestava pobre). Com certeza, se antes de sua morte pudesse ter sabido que seria vizinho de "Seu Tuca", teria comprado um cemitério pessoal - só para ele.
E assim fui me dando conta desse cenário de mortos que, quando vivos detinham as mais variadas diferenças, outros, não suportavam nem se cruzar. Mas, ali, mortos, divisavam-se a poucos centímetros uns dos outros como se tivessem sido iguais quando vivos. Não havia hostilidades no cemitério. Não havia mais diferenças entre eles, exceto as alvenarias – fruto das vaidades dos que ficaram.  Debaixo da terra, tudo era igual...
Interessante a questão das diferenças. A política, por exemplo, separa boa parte das pessoas, torna-as inimigas ferrenhas. Não adianta dizer que não, pois as exceções são raras. Muitas vezes os protagonistas até se falavam antes de seus posicionamentos, se admiravam, se respeitavam, mas justamente a política, que deveria fazer o contrário, desuniu-os. Foi o bastante para um dizer para o outro: “você pensa diferente de mim, então fique lá que eu fico cá”. Há casos até de se desviar de calçada. E quando se busca o motivo – vejam que besteira – POLÍTICA.
O cemitério aí de cima descortinou uma variedade de tipos humanos inimigos que, depois de mortos, findaram eternamente uns ao lado dos outros, como se houvera sido amigos quando vivos. Não havia mais como propor mudar de lugar, reclamar propriedade, exigir o que quer que seja... não havia mais como haver diferenças políticas, ciúmes, iras... afinal estavam mortos.
Só mesmo a morte para igualar a todos... e igualar até mesmo os inimigos ferrenhos. Não adianta negar, pois a morte – sábia – iguala mesmo.
Você pode até detestar a morte, mas um dia ela será sua eterna amiga, e o fará igual a todos. A morte, só ela, possui essa façanha.

SOMOS O QUE PENSAMOS

Penso que...
Seja tempo perdido preocupar-se com coisas que podem ser fruto de fraquezas - ou do ato de darmos espaço às coisas diabólicas sem que nos demos conta.
É muito frequente - principalmente em redes sociais - pessoas se preocupando sempre com alguém tentando destrui-lo (la), que tem alguém sentindo inveja, que alguém está querendo algo alheio, que tem alguém querendo boicotar algo etc etc etc.
Obviamente que no Mundo existe a maldade,  mas podemos fechar o cerco dela com nossa bondade e com nossas atitudes altruístas.
Creio que o tempo gasto com esse sentimento - que é fruto de fraqueza e complexo de inferioridade - poderia ser usado para se externar mensagens boas e positivas.
Quem tem bom caráter e sente a presença de Deus dentro do coração é blindado de coisas que podem ser meramente projeções.
Os sentimentos que pensamos que outrem sentem por nós podem ser o contrário. Muitas vezes pode ser nós que estamos sentindo algo que condenamos nos outros.
Por que necessariamente todos tem que sentir inveja de mim?
Por que necessariamente todos estão cobiçando minha beleza?
Por que necessariamente todos estão de olho na minha namorada?
Por que necessariamente todos estão querendo tomar o meu emprego?
Por que necessariamente todos estão querendo me fazer o mal?
Por que necessariamente as outras pessoas estão com despeito porque comprei um aparelho celular de última geração?
Ora, que bobagem!
O que existe de construtivo nessa paranoia de viver pensando que as pessoas necessariamente vivem em função de fazer maldade para mim ou para outrem?
Qual a regra que uso para tais julgamentos?
Essa regra não seria a nossa própria maldade? Ou estou me sentindo com complexo de inferioridade?
Se julgo que todos estão com inveja de mim ou algo parecido, não estaria, eu, projetando a inveja que sentiria acaso estivesse em papéis trocados?
Por que devo achar que os olhos alheios estão sempre atentos para desdenhar, cobiçar, malversar etc et etc?
Por que devo achar que a boca alheia está sempre falando mal de mim ou dos outros, jogando praga, caluniando et etc etc?
Se sou uma pessoa justa, ética, correta, altruísta, dinâmica etc, não perco tempo com asneiras.
A partir do momento que anulamos essas possibilidade do nosso dia-a-dia as coisas se tornam melhores.
Quando damos valor a sentimentos pequenos acabamos nos tornando pessoas pequenas com sentimento de inferioridade.
Quando deduzimos que os outros pensam isso ou aquilo de nós, acabamos nos tornando seres humanos fracos e cristãos vazios.
Quando passamos o tempo todo supondo que os outros conspiram contra nós, acabamos criando uma aura má em nós mesmos. E acabamos nos tornando pessoas realmente más.
Nunca pense em ser maior ou melhor que ninguém, mas não deixe que pensamentos menores sejam superiores ao verdadeiro sentido da vida.
Se sou uma pessoa do bem, ignoro o mal e me blindo dele pela minha alegria e pela paz de espírito que sinto por fazer o bem e desejar sempre o bem.
Quando passamos a agir assim acabamos minando as forças ruins e negativas que nem sempre existem na dimensão como supomos.
Deixemos de paranoias e sejamos realmente pessoas boas.
O que vale é o bem, mesmo que porventura seja mal compreendido. Luís Carlos Freire


TREPADEIRA INVEJOSA


No prado verdejante imperava a solitária árvore.
Imponente, frondosa, exibindo-se por excelência e despretensiosa.
Seus galhos, robustos, sustentavam milhares de folhas e vergontas que resplandeciam luzidias, como que esmaltadas pelo deus da natureza.
Seu tronco, majestoso, ostentava sulcos desconformes, parecendo veias gigantescas rasgando o solo... verdadeiro alicerce do imenso vegetal.
A bela espécie, generosa, gabava-se da sua servidão.
Quantas vezes ofertava o frescor de sua sombra a homens e bichos.
Suas cascas emprestavam moradia a vermes, formigas, lagartos e toda sorte de insetos, num trânsito incontinenti e confuso, do troco a copa.
O cimo assistia diariamente o entrudo da passarada, o balançar das casas de abelha proporcionado por incautos macacos.
O vento farfalhava aquela micro-floresta, num vai-e-vem irregular... Ora ríspido...Ora manso e quase imóvel.
Incontáveis ramalhetes de uma flor amarela, almiscarada, pareciam querer chegar ao céu para ser colhidas por mãos divinas.
Sua essência exalava pelo derredor, roubada pelos ares, perfumando o mágico panorama.
Abelhas, vespas, formigas e beija-flores regalavam-se naquele banquete de néctar...
Era assim... nesse ritmo que vivia aquele monumento natural.
Certo dia percebeu que em seu tronco despontou uma planta rasteira com inúmeras vergontas.
Os dias foram se passando e a singular árvore percebeu tratar-se de uma trepadeira, a qual, desautorizada e atrevida, escalava seu caule.
Uma sensação desconfortável apossou-se do enorme vegetal, o qual, incólume, assistia um emaranhado de cipós revestindo seu corpo, sufocando-a como fazem as sucuris às suas presas.
Em poucos dias aquele câncer em forma de veias deslizou desenfreadamente, trilhando galhos, folhas e flores, cobrindo-os sem piedade.
A árvore, inconformada, quebrou o silêncio e bradou:
- O que fazes comigo?
- Ora! – respondeu a trepadeira – estou em busca de luz, afinal é do sol que tiro grande parte do meu sustento.
- Mas para isso precisa subir em alguém?
- Bem sabes que não tenho rigidez necessária para manter-me ereta como você. Necessito de suportes. Sois robusta e forte, tens meios de garantir minha sustentabilidade.
- E por acaso vos ofereço ajuda?
- Não! Mas eu apenas aguardei oportunidade.
- Sois traiçoeira como serpente – disse a árvore – é por isso que teus cipós se parecem com ela. Não seria melhor se vivesses no chão, já que sois fraca de espírito e físico?
- Como sois bobinha, dona árvore! Se tenho em quem subir, por que haveria de ficar sempre em baixo, rastejando-me? Achas que eu preferiria ser pisoteada por animais e homens? Ademais estaria sendo alvo de urina, fezes e cuspe.
- Sois oportunista!
- Que nada. Sou esperta. Isso sim!
- É fácil ser esperta com o suor alheio. Na realidade sois desprezível.
- Cala-te! Veja que já é noite. Olhe como a lua está linda. Veja quantas estrelas no céu!
- Como posso enxergá-los se já me cobres quase completamente.
- Não sejas faladeira, cara árvore. Já apreciaste tanta beleza daqui de cima. Que delícia é o orvalho e a brisa nessas alturas.
- Já não sei mais o que é isto, pois tolheste esse direito natural. Tuas folhagens me fazem definhar.
- É a lei do mais forte. Não é assim que dizem?
- Forte?! Chamas isso de forte? A mim parece fraqueza. Como pode alguém pensar que o mal possa ser forte?
- Lá vens com o teu filosofar!
E estavam nesse diálogo quando começou a brotar da trepadeira incontáveis flores vermelhas, opacas, sem beleza e com cheiro horripilante, a qual já cobria completamente a árvore. O infeliz vegetal já não possuía mais folhas e sim um emaranhado de galhos retorcidos e esmagados pelo peso da hospedeira. Até os bichos a abandonaram, enojados do cheiro nauseabundo.
- Dona árvore, veja como são lindas as minhas folhas e flores – insultou a trepadeira.
- É fácil ser bonita dessa forma. Existe muitos por aí iguais a você! Por favor, já conseguiste o que queria. Agora deixa-me em paz, não percebes que estas me sufocando? Deixa-me produzir minhas flores. Por que não procuraste uma cerca ou árvore morta?
- Ora! Achas que eu iria deixar-te em paz com tua exuberância? Antes ninguém olhava para mim. Nem minhas folhas eram vistas. Veja agora como estou imponente e visível. Cansei de vê-la esplendorosa, imponente, sendo elogiada por todos. Eras o centro das atenções.
- Tu é quem dizes! Se isso ocorria eu não usava para fins de promoção. Mas saiba que todos possuem valores, mas nem todos possuem talento. Nunca busquei exibir-me, simplesmente fui o que sou, mas contigo foi o contrário. És hoje o que nunca conseguiste – por teu próprio suor – ser. Chegaste ao topo por vias torpes. Isso é o que chamas de troféu?! Agora, mas uma vez te imploro: deixa-me ver a luz do céu. Deixa-me ver as estrelas. Deixa-me ver os pássaros. Deixa-me sentir o vento...
- Ora, deixa de bobagem. Agora o único astro aqui sou eu. Eu sou a estrela!
- Reconheça, senhora trepadeira, que o sol nasceu para todos. Olhe para o céu. Veja a infinidade de estrelas. Todas brilham e ninguém rouba o brilho da outra...
- Isso é lá no céu. Aqui é a Terra e hoje eu sou o poder!
- Ainda bem que tu mesmo é quem diz. Mas que poder é esse? Poder?!
- Claro!
- Sois dissimulada e execrável. Bem disse alguém que, se quiseres conhecer outrem, dê-lhe o poder. Ontem mesmo eras tapete. Hoje andas sobre ele. Toma cuidado. Já te disseram que quanto mais alto é o posto, mais forte é a queda? Saiba que grandes impérios ruíram.
- Sois ingênua com essas falácias. Não vês que hoje não sois nada.
- Ingênua? Pelo que vejo não compreendes a vida. Para mim sois uma infeliz que pensa ser alguém. Como podes ser alguém prejudicando os outros? Para mim não passas de uma trepadeira invejosa.
E estavam ainda nesse colóquio quando chegou o dono das terras e ordenou ao capataz:
- Corte todo esse cipó, mas tenha o máximo de cuidado para não ferir a árvore. Há três meses que não vejo a beleza da sua copa nem sinto o delicioso perfume de suas flores!
Em trinta minutos os destroços estavam no chão...
Dois meses depois a àrvore retomou sua forma original


TEMPO E SILÊNCIO



Um jovem perguntou a um velho:
- Onde posso encontrar um sábio que possa responder-me incontáveis indagações que não encontro respostas? Já percorri todos os lugares e perguntei em vão.
O velho respondeu:
-Diga-me o que tanto o intriga.
O menino disse:
- Quero saber qual a verdadeira igreja. Como posso saber se uma pessoa fala a verdade ou se mente? Como posso identificar a índole de uma pessoa? Como posso saber se alguém quer me prejudicar? Qual o melhor time? Qual o melhor partido?
O velho, fitando-o respondeu-lhe:
- Suas perguntas apenas perecem complexas, mas as respostas são simples demais!
O menino, demonstrando perplexidade, indagou:
- O senhor é um sábio?
- Não! De forma alguma. O sábio que você procura chama-se tempo e silêncio. Saiba, meu jovem, que todas as suas indagações só lhe serão respondidas pelo tempo... e pelo silêncio.


VISÃO

Eram dezessete horas e meia, mais ou menos. O padre deixou a casa paroquial naquele seu único dia de folga na semana.
Caminhou até a praça logo à frente e viu um menino de aproximadamente seis anos, agachado, cavoucando a terra, sobre um canteiro de flores.
O religioso chegou até a criança, em silêncio.
Ao observar o padre, o garoto levantou a cabecinha e disse:
- Boa noite!
O padre, surpreendido, indagou-lhe:
- Não é hora de criança estar em casa tomando banho para jantar?
- O garoto, olhando-o com ternura, respondeu:
- Quisera que todas as crianças pudessem ter o que comer. Por certo, se isso fosse realidade, nenhuma estaria vagando pelas ruas a esta hora. O senhor já imaginou quantos inocentes estão jogados nas ruas nesse momento, e famintos?
A perplexidade tomou conta do padre, o qual jamais imaginara receber semelhante resposta de uma criança. O menino levantou-se. O religioso percebeu que sua camiseta estava suja de sangue a altura do peito esquerdo.
Preocupado, o padre perguntou:
- Isso é sangue? Quem te machucou?
O menino disse-lhe:
- Muitos me machucam.
- Mas eu sou padre e quero ajudar-te. Responda-me, quem são os que têm a coragem de machucar tão linda criança? Disse o padre.
- Muitos, muitos! Disse o garoto.
- Mas onde estão essas pessoas, fala-me que poderei ajudar-te. Continuou o padre.
- Elas estão em todos os lugares, inclusive na Casa do meu Pai, disse a criança.
Ouvindo isso, o padre sentiu uma sensação estranha percorrendo todo o seu corpo. E continuou:
- Como pode estar na Casa do Pai alguém capaz de ferir uma criança? Jesus disse: deixai vir a mim as criancinhas, pois delas é o Reino de Deus.
- A resposta está na “parábola do joio e do trigo” que o senhor tão bem conhece. Vinde, dê-me tuas mãos e acompanha-me, disse a criança, tomando as mãos do religioso.
- Para onde queres levar-me? Perguntou o padre.
E de mãos dadas com o padre, o menino foi entrando na Igreja Matriz e dirigindo-se aos quinze quadros que retratam a Paixão de Cristo, expostos à esquerda do altar.
- Veja, aqui está o resumo da história de quem ofereceu a sua própria vida para salvar a humanidade - disse o menino.
E apontando estação por estação comentou-as com impressionante conhecimento de exegese bíblica. Muitas vezes falava por parábolas, servindo-se de uma erudição surpreendente. O religioso comportava-se de forma atônita, procurando entender o que representava aquilo.
Encerrada as explicações da décima quinta estação, a criança segurou com força as mãos do padre, puxando-o para si, e correu em direção do Altar-Mor.
- Venha conhecê-lo... Ligeiro... Olhe, Ele está aqui! E soltando as mãos do religioso a criança dirigiu-se, apressada, aos degraus que a conduziam ao Santíssimo.
Uma luz descomunal invadiu o altar. Era uma claridade anômala, tão incomum que o padre sentiu-se como se estivesse dentro do sol. O fenômeno o deixou cego. A luz faiscava intensamente, aumentando a cada segundo. O Altar pareceu estar suspenso e o padre sentia-se levitar, procurando a criança que silenciara.

Prostrado, perdeu os sentidos.
De repente percebeu que estava caído aos pés do altar, abordado por algumas crianças que entraram para rezar o terço.
Questionado pelas crianças sobre o que fazia ali daquele jeito, desconversou, dizendo que estava prostrado em oração.
Olhou o Santíssimo, fez o sinal da cruz e saiu com ar contemplativo, caminhando lentamente no mais profundo silencioso. LUIS CARLOS FREIRE

Mensagem de Natal

Aproxima-se o Natal e o Ano Novo.

Cartões viajam pelos Continentes
Levando palavras...
Mensagens vão e vêm.
Lembremos que o mais importante
É sentirmos e vivermos as palavras
Impressas nos cartões.
Vivenciar as palavras significa
Praticar o que está no papel,
Pois não adianta apenas vaticinar.
É necessário vivência e testemunho.
Costumamos desejar fartura,
Mas nem sempre olhamos para aqueles
Que há tempo aguardam um simples
Prato de arroz com feijão,
Num contrastante cenário da
Ceia farta de nossas casas.
Normalmente escrevemos sobre paz,
Mas não fazemos nada para que
Nossos vizinhos sejam felizes.
Falamos de solidariedade, mas permanecemos
Inertes diante da dor física ou psicológica
De muitos de nossos irmãos.
Muitas vezes omitimos até mesmo
Uma palavra de conforto diante da
Carência de tantos.
Muitas vezes de um próprio
Companheiro de trabalho.
Refletimos sobre um Ano Novo feliz,
Mas não fazemos por onde a paz
Estar em nossos próprios lares.
Escrevemos sobre justiça, mas nos silenciamos
Diante daqueles que promovem a injustiça.
É bom que nesse Natal pensemos em tudo isso,
Pois os atos são muito mais importantes que palavras.
Muitas delas se esvaem ao vento.
Já os atos... os atos dignificam.
A culminância do Natal é o Amor.
O dia 25 de dezembro serve para
Lembrarmos do amor.
Lembremos de Jesus Cristo.
E que o Papai Noel seja apenas um incremento folclórico.


ÚLTIMA MORADA

(Crônica: Cemitério de Nísia Floresta) 1993

O cemitério de Nísia Floresta – de frontispício belíssimo – tem peculiaridades que o difere da maioria dos demais por esse Brasil afora. Nem por isso vem a ser exceção, mas que é adorável a tônica que o conduz dos dias de finados, é!
Nas cidades antigas os cemitérios convivem abraçados com igrejas e praças. O que não ocorre nas cidades modernas, as quais reservam área distanciada do centro da cidade.
Em lugares como Nísia Floresta as pessoas se habituam, desde pequenas, a enxergar aquele espaço como o quintal da casa, o vizinho ou o simples monumento no meio do caminho. Transitam com tanta frequência defronte ao cemitério que se esquecem da mãe, do avô, do amigo que ali estão sepultados.
Ao lado do cemitério de Nísia Floresta fica a delegacia, na qual os 'errados' são trancafiados e soltos a cada momento. Mas dentro do cemitério a história é outra. Quem for trancafiado numa cova daquela não sai mais.
Contou-me alguém que, certa vez, um bêbado levado aos pés do juiz o incomodou tanto com conversas altas e truncadas, que o magistrado lhe disse: "Meu senhor, cala a boca senão eu mando lhe prender agora mesmo!" O infeliz, nas suas divagações, respondeu-lhe: "Mas eu me solto logo! Quero ver se eu prender o senhor. O senhor não sai nunca mais!".
O juiz, transtornado com o cabimento disse-lhe: "quem o senhor pensa que é, seu cabra atrevido? O bêbado respondeu: "eu sou o coveiro da cidade!".
Em Nísia Floresta as pessoas parecem não ter medo de alma penada. Tem gente que fica no degrau do cemitério até altas horas, conversando. Umas até namorando. Dizem que num tempo mais remoto já foi visto gente fazendo gente sobre uma sepultura. Com certeza muita alma ficou ali, quietinha, brechando!
Não existe alegria maior que o dia de finados no cemitério de Nísia Floresta. Parece uma festa, alíás é uma festa. Dia em que as pessoas vão rezar, orar e reverenciar os seus familiares que partiram desta para outra.
É um fervilhado de gente pelas aléias que dá medo. Os mortos recebem presentes em forma de coroas com flores de papel crepom, de plástico, de pano e os de melhor situação, levam-nas naturais. Uns ofertam terços, orações escritas em papel, vasos para colocar flores, imagens de santos, cartões de santos etc. Não há falecido que não receba ao menos um souvenier.
Os mortos pobrezinhos recebem vela no Cruzeiro. Vela colocada ali já se sabe que é para toda a população almática do local. Não há como se intristecer e dizer que foi esquecido!
Os comerciantes informais – nada bobos – instalam no lado de fora barracas para venda desses produtos e – nada desprevenidos – vendem caixas de fósforo e isqueiro. Outros vendem lanches, afinal os vivos não comem velas. O mundo é dos mais espertos!
Nas próprias catatumbas é possível encontrar mortos que – quando vivos – vendiam burundangas alí na frente. Certamente nunca imaginaram que um dia seriam o mortinho homenageado.
Antigamente os sacerdotes católicos celebravam duas missas na capelinha existente no centro do cemitério – construída em 1954. Uma pela manhã. Outra pela tarde. A multidão, imprensada, formava um só corpo. Os mais velhos se sentavam nos túmulos, devido ao desconforto do terreno, pois não existem mais aléias. Apenas a central. Esse costume acabou. E os evangélicos perceberam!
Outro desconforto do cemiterio é o infernal calor promovido pelas velas, as quais já são acendidas nas próprias que ali mesmo vão falecendo, numa sucessão interminável. Tem gente que numa juntada só acende de uma vez as oito velas do pacote.
O sol escaldante perde para as fornalhas ali expostas. As amálgamas de parafina escorrem como rios. Vi gente gritar de dor ao pisar nas veias quentes que preenchem os sulcos entre os túmulos. Certamente algumas almas se sentem no inferno no finados.
Aquela quentura toda, misturada com essências de flores dá ao local um cheiro que eu chamaria de 'cheiro de morte'. Cheiro esquisito!
Lembro-me de ter visto uma família num espécie de ritual interessantíssimo, onde alguns conversavam com o morto. Tem muitos que entram e saem do local totalmente compenetrados, numa verdadeira devoção. Ela e o seu morto. Algumas pessoas cismam de chorar um choro de lobo ao luar. E nem sempre por morte recente. Uns dão esses espetáculos há muito tempo.
Normalmente os visitantes ficam ao lado do túmulo, sentados nele ou em pé, por horas a fio. Ali vão passando os amigos vivos e as conversas vão surgindo numa diversidade incomum. Lembram do morto, narram episódios vividos junto a ele, coisa que ele falava etc. Há um princípio de emoção e logo é dada uma guinada no contexto, surgindo conversas e risadas,
Antigos compadres se reencontram. Gente de Natal e de outras cidades aparecem e fazem festa com os velhos conhecidos. A algazarra é tanta que a feira de São José de Mipibu perde feio em termos do vozerio. Não faltam gargalhadas. É um ruge-ruge de gente se esbarrando uma na outra.
Às vezes o ambiente chega ao ápice, lembrando mais uma galhofança desembestada. Creio que as almas mais recatadas se incomodam com a fuzarca. Mas preferem ficar quietas, afinal é só aquele dia!
À noite é a vez dos crentes – ou melhor – dos evangélicos. E não poderia ser diferente, afinal crente também morre. Ali, em meio às pregações direcionadas aos que ainda não "bateram as botas", fluem reflexões sobre arrependimento, fim dos tempos e, como não são bobos, as cantadas para que os que ainda 'não aceitaram a Jesus o façam ali mesmo'. Suponho que as almas que em vida haviam aceitado o diabo, se mordem de arrependimento!
O furdunço é grande! É gente saindo. É gente entrando. Mãe procurando filho. Namorado em busca da namorada. Gente paquerando. Grito de fulano chamando beltrano. Há momentos em que os vivitantes até se esquecem dos seus mortos e dão mais atenção aos vivos. Enfim é uma festa!
Tenham certeza que muitos aniversários e festanças com comes e bebes por aí perdem feio para o dia de finados em Nísia Floresta.