ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que navegam levemente nessas águas. Os textos são de autoria de Luís Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. Esse parentesco ocorre pela parte das raízes da mãe do autor deste blog, Maria José Gomes Peixoto Freire, neta de Maria Clara de Magalhães Fontoura, trineta de Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, descendente do Capitão-Mor Bento Freire do Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra, dos quais descende a mãe de Nísia Floresta, Antonia Clara Freire. Essas informações são encontradas no livro "Os Troncos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti, um dos maiores genealogistas brasileiros. O referido livro pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de crônicas, artigos, fotos poemas, etc. O autor ministra palestras e pode ser convidado através do e-mail: luiscarlosfreire.freire@yahoo.com.br. Fone: 99827.8517 - É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA. OBS. Só publico comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone, pois repudio anonimato.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Yayá Paiva: a freira que não conheceu convento


Antonia Emília de Paiva é o nome de batismo de “Yayá Paiva”, nascida aos 13 de junho de 1883, no Engenho Descanso, em Papary (hoje Nísia Floresta) e falecida no mesmo local aos 11 de agosto de 1970, aos 87 anos. O nome Yayá é uma corruptela de “sinhá”, como eram chamadas as moças de família, também denominadas “sinhazinha”. Falava-se também “nhá”, depois passou a ser somente “Yayá”. Interessante é que mesmo idosa ela conservou a denominação “Yayá”, e isso se explica pelo fato de ter se conservado virgem e solteira até sua morte.
Caminho percorrido por Yayá Paiva em sua época - A mata ao lado era o sítio onde moravam suas primas (hoa é o "Camarão do Olavo")
Contam que desde pequena ela acalentava o sonho de ser ser freira. No engenho Descanso, ainda criança, debruçava-se rezando por horas a fio na capela, onde ficava um oratório de tamanho descomunal, feito de madeira de lei. Esse ambiente era rodeado de imagens sacras, folheadas a ouro, cuidado por sua mãe e suas tias. Nesse local ela passava horas limpando-o, perfumando-o, colocando flores e entoando cânticos católicos com devoção surpreendente para uma criança.
Ainda adolescente pediu ao pai para enviá-la para um convento, pois tinha pura convicção que nascera para servir a Deus como freira. Mas, para sua decepção, ele negou-lhe o pedido e disse-lhe que assim que ela se tornasse mais adulta deveria casar-se.
Aspecto da Praça de Nísia Floresta no tempo de Yayá Paiva
Yayá Paiva tinha uma dimensão de fé tão extraordinária que, embora não gostara do que ouvira, não se ofendera com a posição do pai. Recolheu-se como virgem e permaneceu solteira até o dia de sua morte. Seu espírito era tão elevado que não quis trazer discórdias para o lar onde vivia. 
Mas a partir do dia em que o pai recusou o seu pedido, ela prometeu a si que enquanto tivesse vida a dedicaria totalmente as coisas de Deus. Escolheu ser freira por dentro, pois sentira o chamado Divino desde a infância. A partir de então deixou de usar roupas estampadas, com babados e rendas, típicas das moças de sua idade, e passou a costurar os seus próprios vestidos de fazenda azul claro, lisos, sem qualquer ornamento. O único enfeite, se assim pode-se dizer, era uma gola arredondada, dividida ao meio. Todos tinham manga comprida e caimento até o tornozelo. Usava cabelo em coque, sapato preto, baixo, e como único ornamento um terço e um crucifixo de madeira que trazia no corpo.
Aspecto da Praça de Nísia Floresta no tempo de Yayá Paiva
A julgar pelas vestes, era mais freira que muitas freiras modernas, cujo hábito é algo desnecessário. Sua imagem impactava. Era inconfundível. Havia uma santidade a julgar pelo porte, pela "indumentária", pelo olhar, pelos modos como se relacionava com as pessoas.
Yayá Paiva não teve uma biografia extensa nem tão pouco divulgada a ponto de serem publicados em livro ou na internet – pelo menos até o momento. Era uma dona de casa, pessoa comum, mas nem por isso deixou de ser uma mulher extraordinária, como veremos adiante.
O que chama a atenção sobre essa mulher é a dimensão do seu amor às coisas de Deus, revelada através de sua relação com a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Sua fé inquebrantável nessa santa padroeira do município de Nísia Floresta. 
Yayá Paiva deixava o engenho Descanso, propriedade rural, situada a 1 km do centro da cidade, aos primeiros raios de sol e passava o dia na Matriz, zelando do templo. Ou com chuva ou com sol. Ela trazia comida e muitas vezes retornava à noite para casa. Como era moça de posses, pagava os consertos necessários à igreja, sejam imagens, bancos, janelas, sino, portas, enfim tudo o que ela constatava ter necessidade de reforma. Quando a obra era cara buscava apoio de famílias ricas de Natal e angariava fundos para arcar com as despesas.
Casarão onde moravam parentes de Yayá Paiva (era uma granja cujo quintal era permeado de árvores frutíferas e flores de todos os tipos)
Contam as pessoas mais antigas que por diversas vezes trancaram-na na Matriz, imaginando que ela não estivesse mais ali. Sorte dela que possuía a cópia da chave e aparecia de uma hora para outra abrindo o templo de dentro para fora, surpreendendo a todos que não imaginavam que ela se demorasse tanto por ali. Uma vez ela desequilibrou-se das escadarias da torre e caiu, assustando a todos, mas levantou-se intacta, surpreendendo quem presenciou, conforme contou-me d. Maria do Carmo Bezerra Dias, em 1994.
Alguns fiéis a ajudavam nos afazeres da igreja, mas ninguém se demorava tanto no local quanto ela. Muitas vezes passava um dia inteiro nos andares do altar-mor, passando pano úmido para tirar a poeira e colocando vasos com flores naturais, retiradas do engenho Descanso e da residência de seus familiares, no centro da cidade, onde morava sua irmã Roseira. 
Sua abnegação era tão singular que toda vez que ia a Natal comprava essências perfumadas, misturando-a à água dos vasos de flores para perfumar o altar-mor. Para ela o espaço onde se encontrava o Santíssimo era ambiente santo, divinizado, portanto tudo deveria ser feito para embelezá-lo, dando-lhe vida. Era freguesa fiel dos empórios e armazéns da Ribeira, cujos donos confiavam em seus bilhetes levados por seu “Bambão”, de 74 anos, o qual era rapaz na época e prestou muito serviço para a dedicada beata: "É favor entregar ao portador, duas peças de linho branco e um frasco de alfazema".
Padre Rui Miranda conviveu todo a sua gestão auxiliado por yayá Paiva (fotografia feita em 2006, ocasião em que o entrevistei, poucos anos de ele falecer).
Ela embalava centenárias porcelanas e peças de prata da igreja e levava para o engenho para limpá-las minuciosamente. “As peças voltavam tão brilhantes que pareciam novas”, disse o senhor Bambão .Contam que em sua época não existia sequer um canto da igreja onde repousasse poeira, pois nem o sótão escapava dos seus cuidados. 
Câmara Cascudo escreveu que “entrar na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó era como entrar no céu”. Acredita-se que essas palavras se devam ao fato de ele ter testemunhado, em suas pesquisas na igreja, o zelo perfeccionista que Yayá Paiva. 
Todos os padres que assumiam a paróquia tinham por ela respeito desmedido, pois viam a dimensão da sua fé e seu amor para as coisas de Deus e daquele templo. Ela era diferente, não arrastava para si o ranço típico das beatas que impõem o seu bel querer aos sacerdotes. As celebrações e os eventos da igreja, sejam quais fossem tinham a suas mãos como orientadora, ajudante ou a própria executante, sempre de forma serena. Essa aura de respeitabilidade fazia com que muitos sacerdotes vissem-na como conselheira e jamais tomavam certas medidas sem ouvi-la.
Contou-me uma prima dela, de 100 anos, falecida em 2010, por nome Yolanda, que nenhum padre visitava a cidade de Nísia Floresta sem antes passar pelo engenho Descanso para prestigiar Yayá Paiva. A amizade que ela mantinha com religiosos era ampla a ponto de o Arcebispo da Paraiba, D. Adaucto A. de Miranda Henriques visitá-la eventualmente, inclusive sempre mantinha correspondência com ela. Muitas vezes enviava dinheiro sem que ela pedisse, pois sabia que o destino era a Matriz de Nossa Senhora do Ó.
Cartão escrito por Dom Adaucto A. de Miranda Henriques, Arcebispo de João Pessoa, dirigido a Yayá Paiva em 1961

Cartão escrito por Dom Adaucto A. de Miranda Henriques, Arcebispo de João Pessoa, dirigido a Yayá Paiva em 1961
Muitos religiosos serviam-se dos aposentos do Engenho Descanso quando vinham para eventos na Matriz. Quando D. Perdigão visitou Papari, passou por ali.
A imponente casa do engenho Descanso, onde vivia a sua família, possuía tamanho incomum, arquitetura singular, avarandada, alicerces altos com escadarias em meia-lua, dezenas de janelas e portas de cedro. Seu espaço interno era altamente luxuoso, repleto de mobílias de jacarandá, cedro, pau-brasil e outras madeiras de lei, elegantemente talhadas pelos mais experientes carpinteiros.
As salas, amplas, eram decoradas com tapetes finos, consoles, namoradeiras, sofás, vasos de porcelana e quadros com retratos de familiares e santos. A cozinha, de tamanho surpreendente, era espaço onde se preparavam as mais deliciosas comidas, bolos, pães, licores, sucos e doces da culinária local. Até mesmo a comida dos funcionários do engenho era preparada ali.   Nenhum visitante deixava o local sem receber exemplares das iguarias ali preparadas pela mãe, pelas tias e irmãs de Yayá Paiva, as quais eram mulheres prendadas, educadas nos moldes tradicionais como bem nos conta Gilberto Freyre. Além de dominar a arte da culinária, bordavam e costuravam divinamente - contou-me d. Yolanda.
Aspecto de Nísia Floresta no tempo de Yayá Paiva
Yayá Paiva tinha voz mansa, falava baixo e jamais proferia palavras torpes, nem costumava ofender as pessoas, mesmo as que a desagradavam. Sua morte deu-se por causas naturais. Foi sepultada no cemitério local e depois de algum tempo seus restos mortais foram trasladados para a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó, onde encontram-se sepultados. Certamente ela foi devolvida para o local impregnado por sua aura, tendo em vista uma dedicação nunca vista. 
Anos se passaram e a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó nunca mais teve uma beata que zelasse daquele templo com tal abnegação. Estava sempre observando o que necessitasse manutenção. Era literalmente beata, guia dos padres, metódica, mulher cristã, referência em fé. 
A história de Yayá Paiva é um exemplo de fé e doação. É muito interessante refletirmos sobre a sua decisão de ser freira. Ela não teve apoio do pai, o qual proibiu-a de realizar o sonho, mas o seu altruísmo e espírito cristão autênticos fê-la agir com admirável sabedoria. Yayá Paiva não demonstrou revolta, não se indispôs com o pai, não demonstrou a mais sutil insistência. Sabia que acaso se rebelasse, criaria problemas maiores no ambiente familiar.
A solução foi a obediência. E essa obediência não foi mais que uma sábia estratégia. Se refletirmos bem, ela era freira por dentro, e mesmo contrária à vontade do pai, tornou-se freira por fora a partir do momento que abraçou a missão com Deus. Para coroar de êxito a sua vontade de ser freira, escolheu uma indumentária que em nada diferia de uma freira tradicional. Em outras palavras: ela sempre foi freira.
Supõe-se que Yayá Paiva tenha sido uma mulher muito infeliz – a julgar pela posição de seu pai – mas ao refletirmos melhor fica claro que ocorreu o contrário: ela foi muito feliz. Talvez uma das pessoas mais felizes que poderíamos conhecer, pois dedicou toda a sua vida a Deus. Essa foi a sua única vontade.                                                  Por Luís Carlos Freire (escrito entre 1992 - 2010)

segunda-feira, 10 de julho de 2017

"Seu Aparício"

Para o Seu Aparício nem tudo carecia nome batismal
Tudos estavam certos para ele
De dizer que uma miríade de insetos chiava, dizia:
- Esse magote de bicho fica aí aos zimbolé zuano os ouvido da gente
...
Um dia colhi essas frases de sua árvore:
- Esse menino, pegue aquilo acolá e mi dê
- Meu bichim, venha cá
- Vô mi adeitar um poco
- Dona minina, o que a sinhora quer?
...
- Tô cuma dô isquisita no meu estambo
Minhã vô aplantá uns feijãozim di corda
- Tô cuma agonia nas tripa, parece que tem um sino bateno
- Uma veizi eu peguei téti quandi pisei um prego véi inferrujado
- Alumeia aqui pra mim, meu fii
- Ais veis eu sinto umas facada aqui no pé da barriga, uma dô fina
- Asmanheci com os espinhaço doendo que só
Intonci qué dizé que u minino adueceu?
- Fulano tá cum cançu
- A meu saber ela não tá em casa
- Parece que levei uma paulada nos quarto
- Não põe muito sar no de cumê, não, viu!
...
Os filhos e netos rezavam na cartilha do Seu Aparício
(Inté inovavam)
- Tudo bem, coisinha?
- Seu coisinha, o qui o sinhô qué?
- Tira esse breguesso daí!
...
Seu Aparício conhecia a voz do mundo por experiência
Não por ciência.
Dizia:
- O burro martelava
- O gato gemia
- A galinha gritava
- O sapo piava
...
Olhava para o céu e dizia:
- O céu tá talhado, é chão molhado!
...
Qualquer coisa era coisa
Quando faltava verbo, coisar resolvia.
Se Aparício tinha partes com Camôes
Ou com o galegos português?

terça-feira, 4 de julho de 2017

Estrada boiadeira

A cidade era cortada por uma rodovia
Quando ia-se a Campo Grande via-se um resto de estrada do lado esquerdo
Igual que contorno.
Dava dó daquele caminho órfão
Sem pedras
Sem piche
Sem placas de sinalização
Sem viajantes...
Nem bêbados andarilhavam ali
Às vezes desaparecia de mato
Reaparecendo adiante, acanhada,
Depois se desprezava de rio
Mas possuía algo importante:
Sabia impor-se,
Mesmo manchada de árvores, resistia.
Enquanto meu corpo viajava de carro
Meus olhos viajavam dela,
Percorrendo-a
Num verdadeiro esconde-esconde.
Por que tanta curiosidade?
Meu pai disse que era a antiga estrada boiadeira
(Onde passaram as comitivas dos desbravadores do Mato Grosso no século XVI).
Igual as telas de Hercules Florence.
Caminho do gado tocado a berrante para São Paulo
Caminho dos carros de boi transportando pessoas e víveres
Para Campo Grande, Cuiabá e Corumbá...
Caminho da Carmelita trazida do Paraguai por Manoel da Costa Lima.
O fiapo de estrada tinha modos de desprezo
Por isso fascinava
Estradas boiadeiras são partes do corpo do Mato Grosso do Sul
São bondosas
Saudosistas
Nunca mataram animais silvestres
Muitas voltaram a ser veredas
Substituídas pelas serpentes de piche.
Tudo o que é bonito fica feio por último.

Borboletas azuis

As meninas da minha época pegavam o pó de arroz da irmã mais velha às escondidas
Esse cosmético era cor de rosa ou cor da pele
Muito tempo depois surgiu o que chamavam sombra para os olhos
Se naquela época tivessem me consultado
Teriam ficado famosas como pioneiras da sombra azul
É que sou o inventor desse produto
Minha especialidade era o pó cintilante azul
Descobri-o por acaso
(Assim como Niépce descobriu a fotografia)
Foi passeando pelas matas quando vi um panapaná de borboletas azuis em estado de procriação
(Verdadeira cortina dependurada nas árvores)
O chão estava atapetado das que morreram
Recolhi uma porção para apreciá-las
Depois de muitas análises
Minha mão ficou azul cintilante
Igualzinho a Arquimedes surgiu a ideia
Obviamente não foi de fazer pó compacto, nem sombra para olhos.
Então enxerguei o descobrimento pelos olhos da pintura
Enchi uma lata de extrato de tomate Elefante só com asas
Não confunda minhas palavras
Não é que o elefante tinha asas
Elefante era a marca do produto
Enchi a lata com asas de borboletas
Pisei até virar pó
Nunca vi uma cor tão atraente
Igual a Césio
Era cintilante e de comportamento pastoso, embora seco
Eu usava para dar poesia aos meus desenhos
Depois invernizava com cola de vidro mole
Com certeza as meninas teriam ficado famosas como precursoras da sombra azul
(Juro que passaria a patente para elas)
Quem sabe teriam se projetado internacionalmente como inventoras da sombra azul cintilante para olhos.
Quem sabe as maiorais da perfumaria internacional as tivesse descoberto.
Com certeza aquelas meninas seriam milionárias.

Escrever

Escrever é palavra de raiz latinha
Vem de escre, que significa escrita
ver, que significa olhar (com curiosidade!)
É por esse estado de coisa que existe o ditado
"Tem que ver para crer",
Penso mais composto dizer
"Tem que ver para escrever".
Algumas poesias jorram sons
Guinchos de macacos
Murmúrios de rios
Rajadas de vento...
Mas os alfarrábios contam que predominam as silenciosas.
Poesia é olhamento
Quando digo que as joaninhas viveram estágio de crocodilos
Não falo surrealismos
Falo verdadeirismos
Testemunhei as larvas saindo dos ovinhos
(Foi no corgo Guaçu)
Depois de algumas horas descrocodilizaram,
Metamorfoseando-se em joaninhas
Flagrei o escaravelho carregando carniça para aninhar seus ovos
Encontrei zigue-zigues descapsulando-se iguais aos pernilongos
Deparei-me com o ninho de serpentes iguaizinhas às minhocas
Por isso proclamo:
"Tem que ver para escrever"
Quando escrevo
Falo o que vi
(Inspiração é mero assessório)
A escrita é escrava da visão.
Poesia é visão escrita
Exige olhos apurados,
(às vezes traduzem imagens guardadas dentro de nós).
Gaviões têm estigmatismo diante dos poetas.
Certo dia um doutor falava a uma gigantesca plateia,
O poeta escrevia sobre a aranha que tecia rede na cortina
Rabiscava o que via
Desescutava o palestrante entretido com poesia em tecimento.
Não é regra entendimento por escutação
Nem por ascultação
E sim por visão.
Resumindo os explicamentos:
Para o poeta a sonoridade é relativa
Uma pedra pode falar mais que mil gralhas
Mil gralhas podem guardar mais silêncios que todas as pedras
Dependerá da visagem do poeta
Escrever tem esses conformes.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Vidro mole


Havia nobreza naquela árvore:
Escorria vidro
Vidro mole igual a mel de abelha
Depois vitrificava
(Isso quer dizer endurecia)
Não igual ao que Trimálquio conta em Satiricon
Mas ao ponto pedra.
Uns homens sabidos chegados de Ponta Porã
Inventaram dizer
Resina, âmbar, pez...
Era muito cientificoso o palavreado
Eu preferia acreditar na vizinha alemã:
Aquilo é choro de árvore
Como sempre fui descobridor
Descobri que mergulhando o vidro na água
Magicava verniz
Magicava cola
Tudo eu colava com vidro mole
Tudo eu envernizava com vidro mole
Tornei-me amolecedor de vidros na temporada das pipas
Como disse Lavoisier
Na natureza, tudo que é mole, endurece, e depois amolece...
E se quiser reendurece.


Os ofaiés-xavantes


A praça Jan inchava de bugres aos finais de semana
Tinha gente velha e nova
Até criança
Atavessavam o dia versejando língua estranha
Dialeto magnífico
Tenho que aquelas palavras são ensinadas pela mata
Pois tinham sons de bichos
De ventos,
De árvores
De rios
Certa vez eu comia um doce de abóbora
(Daqueles em formato de coração)
Um bugrezinho aproximou-se e disse:
Comendo quero doça dá
Estranhei a macarronice verbal e dei-lhe a iguaria.
Ele falou mais com os olhos e gestos que com palavras
Eu tinha curiosidades igual aos Villas Boas
Curiosidade de saber indiologias
Mas os mais velhos eram arredios
Não gostavam de conversar com gente branca
Gente não índia
Eu sempre dava um jeito de aproximar-me para ouvir o incompreensível
Era uma fala verde
Silvestre
Parecia palavra de bicho
Conversa de índio traz a mata para perto
E os céus nublam de pássaros
Às vezes a pronúncia de uma vogal parece saída da língua pregada no céu da boca
Outrora parece vinda dos canglores da garganta
Uma rouquidão estranha
Às vezes era gutural grave, rápido
A praça passava o dia desfrutando índio
Já quando a tarde dava sinais de desaparecer
Eles também desapareciam
Na estrada do Sapé
Comiam mandioca com caititu e abóbora com coelho do mato. 

Lagartas verdes


Tinta verde verdadeira é prodígio de lagartas
Depois de anos de suspeitas
Descobri todo o processo:
Vem precisamente das lagartas verdes
Não sei se elas desaparecem as árvores ou as árvores desaparecem elas
Mas é fácil encontrá-las
Basta ver grãos de tinta no chão
Há uma máquina dentro delas
O fabricamento se dá assim:
Eis que primeiro elas escolhem bem as folhas
(Tem que ser novinhas)
Depois passeiam a refeição
Carece percorrimento de árvores
Rastejamento
Subimento e descimendo do meio do corpo
Assim ocorre o transformamento de folha em tintura
Quando estufam de cheias, descomem tudo
A tinta sai por um buraquinho no final da lagarta
São grãozinhos secos concentrados
( Miniatura de grão de cabrito)
Basta misturar na água
Um pincel aquarelecerá paisagem no papel.
Beleza mesmo é depois de passar verniz de vidro mole


Sossego


Ela caminhava lenta
Era lesmática e desprovida de fala
Negra azeviche
Gorda roliça
Cabelo avolumados
Dedos das mãos e pés grossos como linguiças
Tais quais os negros de Portinari
Lábios acentuados a tomar boa parte do queixo
Nariz amplo
Bunda ao estilo das tribos Khoisa
Pernas batatudas das baianas subideiras de ladeira da Bahia
Parecia não ter reflexos.
Olhava as coisas como não as enxergasse
Havia desprezo em seu olhar
(Serenidade estranha).
Sua lentidão incomodava;
Morava num pequeno casebre de madeira.
Alguns meninos faziam-lhe troça
Atiçados por sua indiferença
Talvez quisessem ouvir a voz que ela transformou em silêncio
Ou queriam ouvir xingamentos.
Ela nunca revidou,
Não fazia mal a uma formiga
Por isso irritasse a tantos;
Era dessas que nascem com os parafusos mentais muito apertados
Não fosse pelo exotismo
Seria invisível
Embora vista apenas para pilhérias
Sossego morreu igualzinho que morrem as lesmas.


Engenho Pavilhão - Nísia Floresta


Apesar de anos de pesquisa não encontrei nada de substancial sobre o Engenho Pavilhão. Conheci-o em 1992, vislumbrando explorá-lo no documentário sobre Nísia Floresta Brasileira Augusta (ela nasceria ali). À ocasião falei apenas com os funcionários, os quais eram de outra cidade e nada sabiam.
Câmara Cascudo conta-nos que até os fins do século XIX o Vale do Capió era berço de casarões esplêndidos, onde ocorriam bailes e festas imponentes, aos sons de modinhas de piano ao vivo e a famosa banda do mestre Bethlein. Ele não cita o Descanso, mas o Pavilhão. Isso pode causar estranhamento no leitor, afinal a Casa Grande do Descanso era única. Sua arquitetura destoava de tudo o que existia nas imediações. Não há como compará-lo à casa que hoje se vê no Pavilhão, mas vamos as explicações. Na realidade ele se referiu a diversos casarões que antes se espraiavam na área do Capió, inclusive precisamos tentar dirimir a geografia atual para entender. Um desses engenhos era o da família Oliveira, que ficava exatamente onde hoje se situa a atual Prefeitura Municipal. Havia outro nos fundos do restaurante Gâmberi, pertencente a família Sousa, onde nasceu o ex-governador Antonio de Sousa (nesse mesmo blog você pode encontrar interessantes informações sobre ele).
 A casa atual do Engenho Pavilhão (como se vê na fotografia) não é a casa referida por Cascudo, pois foi demolida. Contou-me o Sr. Pedro de Araújo (in memorian), neto do Coronel José de Araújo, que era um casarão de extrema beleza. "Eu ia com papai no Pavilhão e via o casarão, já estava ficando feio, mas só pela pintura. Era muito bonito, quase do tamanho do Descanso", depois eles demoliram". A casa atual traz no seu frontão o ano de 1937, certamente quando foi construída.
O Engenho Pavilhão pertencia a Trajano Leocádio de Medeiros Murta, inclusive a leitura que fiz se refere não exatamente ao Pavilhão, mas a esse personagem de certo destaque na história potiguar, inclusive foi vereador em São José de Mipibu.
Um detalhe curioso diz respeito a morte de um de seus filhos quando criança. O enterro chamou a atenção dos paparienses, pois ele mandou fazer uma charola (espécie de andor) e a criança foi colocada em pé. Ele mandou enfeitá-la como se fosse um anjo e o vestiu com um chambre de renda. Desse modo o enterro percorreu as principais ruas da cidade, deixando todos perplexos. 
Engenho Pavilhão em 2003, última vez que o visitei. Na fotografia aparecem Marcos Moura Freire (meu primo) e Fídias Freire (meu filho)
Conversando com o Sr. Isaac Newton de Carvalho, em 2008, ele disse-me que o Engenho Pavilhão, no que ser refere ao período que se encontra nas mãos de sua família, não há notícias de documentos ou fotografias que tragam alguma informação significativa. Tudo o que se sabe vem de boca, dito pelos mais velhos. Sabe "de ouvir dizer".
Contou-me que "Naquela época as pessoas não se importavam em escrever, em fazer fotografias... era algo difícil. Tanto eu quanto os meus irmãos não sabemos nada sobre o Pavilhão".
O sr. Newton, como é mais conhecido, nasceu aos 9 de outubro de 1940. É filho de Lourival de Carvalho (nascido em 1913) e neto de Joaquim Januário de Carvalho (provavelmente falecido em 1939, segundo o sr. Newton). "Quando eu nasci, vovô já havia morrido, morreu bem velho, inclusive foi desses que foram tentar a vida no Amazonas. Foi lá que ele conheceu minha avó Maria Mércia de Carvalho e a trouxe para cá. Mamãe contava que ele mandava comprar ferramentas e coisas de fazenda na loja 'Galvão Mesquita', na Ribeira", explicou-me.
O sr. Lourival foi homenageado pelo ex-prefeito George Ney Ferreira em sua primeira gestão. Houve a instalação de um busto na Praça dos Velhos, ao lado da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Ó. Curiosamente a peça foi retirada na gestão da ex-prefeita Camila Ferreira, sobrinha de George Ney.
Segundo o Sr. Newton, o busto foi deixado numa secretaria, como sucata, mas alguns populares o avisaram e ele o retirou e o guardou no Pavilhão.
Desconheço os méritos do Sr. Lourival no que se refere a ser contemplado com um busto na praça, mas, desde que houve a homenagem, a atitude de "desomenageá-lo" soa como desrespeito à sua memória. Creio que os louros venham do fato de ele ter sido um antigo morador e colaborado com o desenvolvimento do município enquanto gerador de emprego em sua propriedade, fato significativo num lugar sem perspectiva alguma até pouco tempo. Isso é suposição minha, pois nunca procurei saber a razão da homenagem. Fica aqui essa acanhada contribuição sobre o Engenho Pavilhão, aguardando outras informações.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Matame

Quando estive o menino que não sou agora apenas por fora
Tinha propensão às matas.
O magnetismo selvagem sugavame de modo matame
Embrenhando-me em seus desígnios
Tinha de guia um gato que nunca descompareceu de mim
Portando meu senso de direção felino não tinha apegos geográficos.
A experiência do silêncio quebrado unicamente por voz animal ou minhas pisadas alçava-me a estado de bicho.
Os eflúvios silvestres, o murmúrio dos rios...
Tudo tinha estado de mim
É indescritível o encantamento.
Havia um mimetismo
Como se as árvores e os bichos fossem minha pele.
Nunca fui desrecebido.
Havia inexistência de medo
Havia supremacia de coragem despercebida.
Se real a tese espírita, fui bugre.
Fascinava-me as frutas e flores estranhas
Os sabores e perfumes inesquecíveis e inexplicáveis.
As melhores floriculturas desconheciam os buquês exóticos, saídos de arbustos, árvores e trepadeiras.
A mata tem coisas de realezas
Os bandos de seriemas atravessando o riacho Sapê, os coelhos saltitantes, talvez tentando assustar-me...
E a onça que saltou da ingazeira e vestiu-se com as águas do rio Pardo?
O coração desse bugre-menino saltou pela boca
Não de medo
Mas de encanto excelso.
Um dia encontrei serpentes recém-nascidas num toco podre de jequitibá.
Lembravam minhocas entrelaçadas.
Pareciam adultas pela destreza que serpenteavam o corpo
Coisa de instintos.
Muito lindo os botes sorrateiros.
As linguinhas vermelhinhas aprendendo a cheirar e sentir o perigo.
Corri riscos quando afaguei os filhotes de gato do mato sibilando iguais às onças.
Creio ser um deles que entrou dentro de mim.
Os guinchos dos macacos ensurdeciam...
Nesses empreendimentos silvestres confundia meu habitat
Desaparecia de mim as urbanidades...
Logo surgia o estirão arenoso depois das cercas de aroeira
Sabia a estrada de Bataguassu a Uerê.
Era seguir a linha pintada com as cores do por do céu
Reaparecia distante a urbanidade ao compasso dos passos ligeiros
Escutando o chamado maternal que não precisava de voz.



segunda-feira, 19 de junho de 2017

Instigação à poesia

O tiê-sangue trila canção magnífica na grimpa do pequizeiro
A lesma babeja a calçada
O beija-flor inquieta as flores
A formiga teimosa carrega o louva-deus
O mandarová sofrega no tronco da perobeira
A joaninha mata a sede na bromélia
Abelhinhas miúdas perfumam o jardim
Um panapaná de borboletas azulece o cenário
O cachorro d'água cavouca a terra
Meu Deus!
Ficam essas coisinhas miúdas atiçando poesia cá nessa cabeça de vento