ANTES DE LER É BOM SABER...

Este blog - criado em 2008 - não é jornalístico, embora contenha alguns conteúdos que navegam levemente nessas águas. Os textos são de autoria de Luís Carlos Freire, o qual descende do mesmo tronco genealógico da escritora Nísia Floresta. Esse parentesco ocorre pela parte das raízes da mãe do autor deste blog, Maria José Gomes Peixoto Freire, neta de Maria Clara de Magalhães Fontoura, trineta de Maria Jucunda de Magalhães Fontoura, descendente do Capitão-Mor Bento Freire do Revoredo e Mônica da Rocha Bezerra, dos quais descende a mãe de Nísia Floresta, Antonia Clara Freire. Essas informações são encontradas no livro "Os Troncos de Goianinha", de autoria de Ormuz Barbalho Simonetti, um dos maiores genealogistas brasileiros. O referido livro pode ser pesquisado no Museu Nísia Floresta, no centro da cidade. Luís Carlos Freire é especialista na obra de Nísia Floresta, membro da Comissão Norte-Riograndense de Folclore, sócio da Sociedade Científica de Estudos da Arte e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Possui trabalhos científicos sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, publicados nos anais da SBPC, Semana de Humanidade, Congressos etc. É autor de 'História do Município de Nísia Floresta', 'Cultura Popular em Nísia Floresta', 'A linguagem Popular em Nísia Floresta', dentre inúmeros trabalhos na área de história, lendas, costumes, tradições etc. Uma pequena parte das referidas obras ainda não estão concluídas, mas o autor entendeu ser útil disponibilizá-la neste blog, enquanto as conclui. Algumas são inéditas. O acesso permite aos interessados terem ao menos uma boa noção daquilo que buscam, até porque existem situações em que certos assuntos não são encontrados nem na internet nem em outro lugar. Algumas pesquisas são fruto de longos estudos, alguns até extensos e aprofundados, pesquisados em arquivos de Natal, Recife, Salvador e na Biblioteca Nacional no RJ. O autor estuda a história e a cultura popular da Região Metropolitana do Natal. Esse detalhe permitirá ao leitor encontrar informações históricas sobre a intelectual Nísia Floresta Brasileira Augusta, sobre o município homônimo, situado na Região Metropolitana de Natal/RN, além de lendas, crônicas, artigos, reproduções de reportagens de interesse nacional, fotos poesias, etc. É PERMITIDO COPIAR TEXTOS DESTE BLOG, DESDE QUE A AUTORIA SEJA MENCIONADA. OBS. Só publico comentários que contenham nome completo, e-mail e telefone, pois repudio anonimato.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

ESTAÇÃO FERROVIÁRIA "PAPARY" “THE GREAT WESTERN OF BRAZIL RAILWAY COMPANY LIMITED” OS BASTIDORES DA HISTÓRIA


Por muitos anos essa locomotiva atravessou as terras nisiaflorestenses e mipibuenses entre Natal Nova Cruz e depois  o estado da Paraíba. (Créd. L.A.C.. 

Abeleza da Estação "PAPARY" chama a atenção de quem passa


LUÍS CARLOS FREIRE
Nísia Floresta – RN – 2003/2010

INTRODUÇÃO

     Em 2003 veiculou-se no programa “Conversando com José Maria, da FM Executivo, 87,9 - emissora de rádio comunitária de Nísia Floresta - discussões sobre o prédio da Estação "PAPARY". Questionavam se o mesmo pertencia a esse município ou a São José de Mipibu. Houve um burburinho e diversos ouvintes telefonaram para o programa para externar suas opiniões.
    Diversos professores e alunos indagavam-me sobre o caso, tendo em vista pesquisas que desenvolvo ao longo de vinte anos sobre a intelectual Nísia Floresta e o município homônimo - o que naturalmente acaba me envolvendo com a história de São José de Mipibu e região, pois é impossível pesquisar sem contextualizar. Quem pesquisa sabe que durante as "garimpagens" se depara com documentos sobre vários municípios.
    No dia 19 de agosto de 1996 fui procurado por um jornalista do Diário de Natal.O objetivo era fazer uma reportagem sobre o assunto. Eu havia reunido um interessante acervo, tendo realizado pesquisas na Superintendência da Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA), em Recife, no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, em Natal, no Arquivo Público do Natal, na biblioteca particular do Dr. Protásio de Melo, Enélio Petrovich e nos livros integrantes da minha própria biblioteca. Forneci as informações necessárias ao jornalista, mas a reportagem nunca foi publicada e o assunto dissipou-se.
    Infelizmente não é muito comum ao município conservar documentos antigos, livros, fotos, papéis avulsos, jornais, bem como não existem nativos que tenham realizado trabalhos de história oral nas últimas décadas. Somado a isso lastimemos sobre o acervo da Prefeitura Municipal de Nísia Floresta, incinerado na década de 1960, alegando-se tratar-se de "papéis velhos", e sua quase completa destruição entre 2003 e 2004, quando esfacelaram o arquivo e, como se não bastasse, uma infiltração destruiu documentos do final do século XVIII e XIX, conforme vi. Tais fatos fizeram com que eu - e inúmeros pesquisadores, inclusive o renomado Dr. Erich Geimeiner - encontrasse um grau maior de dificuldade na busca de elucidação de lacunas históricas.

    Também pesquisei nos arquivos da Igreja Matriz de Santana e São Joaquim e no Cartório de São José de Mipibu - entre 1993 a 1998 - embora assuntos de outra natureza. Deparei-me com livros manuscritos e jornais que eram verdadeiros tesouros, mas, no que se refere à igreja, voltei no local algum tempo depois e já não existiam vários deles. Alguns estavam deteriorados, mas jamais deveriam ter sido descartados. Recordo-me que ainda levei o assunto ao departamento de História da UFRN - no LABRE, tendo falado com a coordenadora do curso sobre a preciosidade dos acervos de ambos os municípios e sua fragilidade. Muito tempo depois um grupo de estagiários dessa instituição veio fazer uma espécie de levantamento, limpeza e restauração dessas peças, mas Nísia Floresta nunca os recebeu.
    A presente pesquisa, disponibilizada no meu blog "nisiaflorestaporluiscarlosfreire" - desde 2009 - solicitada pelo diretor do Jornal O Alerta, contém informações raras, garimpadas ao longo dos meus estudos sobre Nísia Floresta, inclusive também inseri material que foi fruto de História Oral, iniciado em 1993, no qual entrevistei pessoas de mais de 80 anos - muitas hoje falecidas. Esse pequeno opúsculo em nenhum momento pretende esgotar o assunto. Pelo contrário, é apenas uma breve contribuição à História, a qual deve ser ampliada por quem queira. 

O INÍCIO 

    Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, e depois visconde, foi o responsável pela construção da primeira ferrovia brasileira através de uma concessão dada pelo príncipe regente D. Pedro II. A ferrovia era conhecida por Estrada de Ferro Petrópolis ou Estrada de Ferro Mauá. A estação ferroviária localizada no Centro do Rio de Janeiro hoje leva o nome de Barão de Mauá.
    A primeira viagem de um trem em terras brasileiras deu-se no dia 30 de abril de 1854, puxado pela famosa locomotiva "Baronesa". O veículo percorreu a distância de 14 Km entre o Porto de Estrela, situado ao fundo da Baía da Guanabara e a localidade de Raiz da Serra, em direção à cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro.     
    Se compararmos a velocidade como o progresso - em suas diversas nuanças - ocorria no Brasil, podemos afirmar que a Província do Rio Grande do Norte não ficou tão atrasada com relação a construção de ferrovias. Até porque muitas outras províncias foram receber esse moderníssimo meio de transporte - à época - muito tempo depois dos potiguares. Sabemos que os ingleses, autores dos primeiros modelos de locomotivas, foram os responsáveis por sua instalação principalmente no Nordeste do Brasil, o que explica a suntuosidade inglesa vista na Estação "PAPARY" e a empresa construtora denominada “THE GREAT WESTERN OF BRAZIL RAILWAY COMPANY LIMITED". A semente burocrática desse empreendimento foi lançada no solo potiguar em 1873, ou seja, dezenove anos após a "Baronesa", como veremos abaixo.
    A ferrovia que passa pela Estação “PAPARY” teve sua história iniciada no dia 1º de outubro de 1878, data em que começaram as obras. O Presidente da Província do Rio Grande do Norte, João Capistrano Bandeira de Melo Filho autorizado pela Lei Provincial nº 682, de 8 de agosto de 1873, mandou contratar uma empresa para construir uma ferrovia que sairia da Província de Natal com destino a Vila de Nova Cruz.
    O Presidente da Província abriu concorrência de prazo suficiente para a apresentação de propostas. A partir de 1873 foram promulgados vários decretos; ocorreram várias prorrogações e muitos aditivos, se demorando sete anos para a sua inauguração.
    A Lei Provincial nº 682, de 8 de agosto de 1873 concedia os direitos e a de 2 de julho de 1874 assinava-se o contrato com Cícero de Pontes, Luiz Pedro Drago, José de Sá Bezerra e Francisco Manuel da Cunha Júnior. A Estrada teve a garantia de juros de 7% sobre o capital máximo de 6.000:000$ pela Lei Imperial nº 2.450, de 24 de setembro de 1873, e Decreto 5.977, de 20 de fevereiro de 1875, referendado pelo Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, sendo conselheiro José Fernandes da Costa Pereira Júnior. 
    Curiosamente, a primeira notícia sobre o assunto ocorreu no Correio do Norte, órgão do Partido Conservador, publicado no Rio de Janeiro, aos 12 de dezembro de 1877, sob a direção do padre João Manuel de Carvalho, dedicado aos interesses do Rio Grande do Norte, cujo texto segue abaixo, ipsis literis: “Estrada de Ferro do Natal a Nova Cruz – Por Decreto nº 6.614, de 4 de julho deste ano (1877), foram aprovados os Estatutos da Companhia da Estrada de Ferro do Natal a Nova Cruz, devidamente organizada em Londres, autorizando-a a funcionar no Brasil. Este ato do Governo Imperial vem confirmar a convicção em que nos achamos de que ninguém se revela mais sincero do que ele no empenho de favorecer essas empresas, que devem trazer o engrandecimento e prosperidade ao país. A Província do Rio Grande do Norte é testemunha dos esforços que os concessionários dessa estrada têm empregado para torná-la uma feliz realidade. “Na província se acha uma comissão de engenheiros ingleses que vieram de Londres com o único fim, de procederem os estudos definitivos que já devem estar em via de conclusão”.
    A 20 de outubro e a 6 de novembro de 1877 o Presidente Nicolau Tolentino de Carvalho concedeu prorrogação e modificações contratuais. Os contratantes eram os mesmos, exceto José de Sá Bezerra e Luiz Pedro Drago que tinham vendido sua parte ao padre João Manuel de Carvalho e a Manuel Pedro Drago.
    Outros decretos alteravam disposições e fixavam em 5496:052$544 o capital garantido e davam prazo de cinco anos para a conclusão das obras. Finalmente outro decreto imperial (“nº 7.084, de 16 de novembro de 1878) autoriza a transferência do primitivo privilégio à IMPERIAL BRAZILIAN NATAL AND NOVA CRUZ RAILWAY COMPANY LIMITED”.
    No dia 1º de outubro de 1878, o engenheiro inglês Jason Rigby fez o serviço inicial no lugar denominado “Nau Refoles”, conforme registrou o vice-presidente Bezerra Montenegro. 
    Em 1880 o Presidente Rodrigo Lobato Marcondes Machado inaugurou os trabalhos e o primeiro deslocamento da locomotiva sobre os trilhos. À ocasião houve uma grande festividade que contou com diversas autoridades civis, militares e eclesiásticas do Estado, além de inúmeros ingleses, aclamados por uma multidão.
    No dia 28 de setembro de 1881 foi inaugurado o primeiro trecho, passando pelas Estações Pitimbu (12 Km), Cajupiranga (12,140Km), São José de Mipibu (37,850 Km) e “PAPARY” (48,800Km).
    Como podemos perceber, o trecho inicial compreendia três estações, inclusive a de São José de Mipibu. Esse assunto trataremos mais adiante. O segundo trecho foi entregue ao público no dia 31 de outubro de 1882, compreendendo a Estação “PAPARY” a Lagoa de Montanhas, com as estações de Sapé, Trairi (45, 150Km de Natal), Baldun (52, 920Km), Estivas (60Km), Goianninha (63, 500Km), Penha (80, 300 Km), Piquiri (86, 700 km), Curimataú (Pedro velho: 92 Km) e Lagoa de Montanhas (101, 800 Km).
    O terceiro trecho a ser inaugurado foi da Lagoa de Montanhas a Nova Cruz, no dia 10 de abril de 1883, numa extensão de 18, 800 Km. De natal a Nova Cruz contavam 120,600 Km. O preço por 1 km de linha construída, entre 1881 a 1883 era de 43:421$920.
    No dia 6 de agosto de 1901 a “GREAT WESTERN OF BRAZIL RAILWAY COMPANY LIMITED” arrendou várias ferrovias, entre elas a “NATAL AND NOVA CRUZ”. No contrato estava implícito a construção do trecho entre Nova Cruz, no estado do Rio Grande do Norte, a Independência (Conde d’Eu antigo: Guarabira), no estado da Paraíba, que era o ponto terminal, compreendendo uma distância de 50 Km, pago em títulos de 4% valor nominal da libra 170.000. A “GREAT WESTERN OF BRAZIL RAILWAY COMPANY LIMITED” construiu o trecho inaugurando-o no dia 1º de janeiro de 1904. Esse contrato foi revisto a 28 de julho de 1907.
          Até a década de trinta a Estação "PAPARY" era a mais movimentada do Rio Grande do Norte no desembarque de açucar. O Decreto-Lei nº 1.475, de 3 de agosto de 1939, ordenou a encampação da “GREAT WESTERN OF BRAZIL RAILWAY COMPANY LIMITED” (1901-1939) no trecho norte-riograndense, sendo entregue à ESTRADA DE FERRO CENTRAL DO RIO GRANDE DO NORTE, em 5 de novembro do mesmo ano. 
    Ao ser entregue à ESTRADA DE FERRO CENTRAL DO RIO GRANDE DO NORTE, a Estação “PAPARY” foi transformada em um posto de abastecimento de locomotivas. Com o advento das máquinas a diesel, a mesma foi desativada como posto de abastecimento, passando então a licenciar trens de passageiros e de transportes de cana-de-açúcar, para a Usina Estiva. 
    A Lei nº 1.155, de 12 de junho de 1950 mudou seu nome para ESTRADA DE FERRO SAMPAIO CORREIA, permanecendo até 1957, ocasião em que foi criada a REDE FERROVIÁRIA FEDERAL SOCIEDADEANÔNIMA - RFFSA, exatamente no dia16 de março de 1957, através da Lei n.º 3.115. A RFFSA tinha como finalidade administrar, explorar, conservar, reequipar, ampliar e melhorar o tráfego das estradas de ferro da União a ela incorporadas, servindo as regiões Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste e Sul, inclusive atravessou o país. Aos de 7 de dezembro de 1999, por intermédio do Decreto n. 3.277, o Governo Federal dissolveu, liquidou e extinguiu a Rede Ferroviária Federal S.A. - RFFSA, baseado na Resolução n.º 12, de 11 de novembro de 1999 do Conselho Nacional de Desestatização. 
    A Estação “PAPARY” foi utilizada durante muitos anos como posto telegráfico, de onde comunicava-se com Natal, Nova Cruz, Goianinha e Canguaretama. De 1976 a 1981 funcionou também o desembarque de açúcar, tendo encerrado o transporte de passageiros em meado de 1976. 
    Em 1981 foi totalmente desativada. O prédio, em desuso, foi invadido por uma família humilde que ali residiu até 1994.

CARACTERÍSTICAS ARQUITETÔNICAS E TOMBAMENTO


    A Estação “PAPARI”, pela suntuosidade, sempre mereceu destaque. Trata-se de uma edificação majestosa, de inspiração neoclássica, construída em alvenaria de grandes tijolos. Apresenta partido de planta retangular, desenvolvido em um único pavimento.   
    A fachada principal do prédio, emoldurada por cunhais e cornija, foi concebida simetricamente. Apresenta frontão triangular com um óculo central vazado, com função decorativa. Possui duas portas centrais ladeadas por outras duas mais estreitas e duas janelas, as quais imitam as portas dos trens. Todas as esquadrias são de madeira, com bandeiras fixas, e estão assentadas em vãos de arcos ogivais.
    O prédio apresenta cobertura de quatro águas, arrematada por platibanda inspirada nos castelos medievais. Internamente o edifício sofreu algumas modificações, como a construção de paredes divisórias, a substituição do piso original por ladrilhos hidráulicos e a instalação de uma marquise (espécie de mão-francesa). Sobre esse último detalhe o arquiteto Paulo Heider Feijó fez uma denúncia junto ao Ministério Público de Nísia Floresta, alegando que originalmente o prédio não possuia tal detalhe. Na realidade o gestor tinha outro objetivo sobre esse anexo, como veremos adiante. Houve polêmica, pois outras pessoas diziam o contrário.
O ALERTA divulgou a polêmica sobre a marquise

        Sua estrutura é marcada por elementos simbólicos da arqutetura antiga como o frontão e a simetria. Possui uma simbologia gótica nos arcos e envasaduras, cujo cimo é completado por uma sequência de redentados que forma o retângulo de toda a estrutura. Complementando essa plástica despontam suas amélias e cunhais lembrando os pontos de vigia dos castelos medievais.     
     No lado oeste da Estação “PAPARY” está instalada uma imensa “caixa d’água”, de ferro, a qual servia de reservatório para abastecimento das locomotivas a vapor. Em sua base lê-se “Ransomes & Rapier London”, empresa inglesa construtora de locomotivas e assessórios para estações ferroviárias como também a maior parte dos giradores de locomotivas. A localização dessa caixa d'água junto aos trilhos, facilitava abastecer a locomotiva no início ou no final das manobras para o retorno do trem. Atualmente a Estação “PAPARY” é tombada pelo Patrimônio Histórico Estadual, desde 6 de dezembro de 1984.

SIMBOLOGIA DO PRÉDIO

    O prédio onde funcionou a Estação "PAPARY" trata-se de uma das raras edificações ferroviárias que conservaram suas características originais. Essa edificação possui grande importância e simbologia, pois além de ser um exemplar raro na história das ferrovias brasileiras, foi o instrumento que propulsionou  a economia e o desenvolvimento de toda essa região nesse período áureo.
    Imagine uma época na qual a "Maria Fumaça" e, depois, o trem eram os mais velozes meios de transporte que se podiam contar. Não há como negar as importâncias que esses veículos tiveram na vida de todos, sejam os próprios trabalhadores da ferrovia e do prédio, comerciantes, donos de engenhos, políticos, cacheiros viajantes, vendedores ambulantes, viajantes, estudantes, enfim não há quem não tenha se servido dos préstimos dessa instituição, a qual era um verdadeiro formigueiro.
    O prédio da Estação "PAPARY" era o ponto de chegada de todo tipo de novidade. Ali desembarcavam mercadorias que abasteciam o comércio de toda a região: tecidos, aviamentos, roupas, cofres, chapéus, sapatos, louças, porcelanas, querosene, móveis, cereais, estivas, materiais de construção etc. Muitas dessas mercadorias vinham de Recife, por sua vez, oriundas de São Paulo. Outras chegavam pelo Porto de Natal e para ali eram escoadas.
    Muitas famílias aguardaram seus filhos, vindos da Capital Federal, da Bahia ou  de Recife, onde estudavam. Políticos potiguares foram recepcionados ali, sob salva de fogos e ao som da banda de música do mestre Betlhein e, depois, Tonheca Dantas.
    De seus vagões desceram pelotões de policiais, enviados pelo governador da província, a pedido do Cel. José de Araújo para conter os ânimos dos que faziam oposição ao seu governo. Enfim, a estação "PAPARY", berço de tantos acontecimentos, sobreviveu intacta às intempéries do tempo. Restou ilesa ao gosto asqueroso que muitos ainda nutrem de destruir o patrimônio público.
     No blog acima citado você poderá conhecer a história da professora Maria do Carmo Bezerra Dias, conhecida como “dona Marinha”, falecida aos 107 anos. Pobre, viúva e abandonada pelo pai, teve na Estação "PAPARY" o lugar onde tirou o sustento da sua família. Diariamente fazia o percurso à pé, com um tabuleiro, do centro de Nísia Floresta até a estação. Ali passava o dia vendendo bolo, café, cuscuz, tapioca, doces e pamonha. Foi uma forma inteligente de “ganhar a vida”, pois o fluxo de pessoas era grande, diferente do centro de Nísia Floresta. Assim como “dona Mariinha”, outros nativos também sobreviveram nesse ofício.

O MUSEU QUE VIROU RESTAURANTE

    Em 1995 fui procurado pelo então prefeito de Nísia Floresta, George Ney Ferreira, o qual disse-me que tinha intenção de restaurar o referido prédio e transformá-lo num museu. Ele deu-me carta branca para que eu montasse uma equipe para viabilizar o que dissesse respeito à constituição do museu, a qual a reconheceria oficialmente e daria todo o apoio para a instalação da referida proposta. 
SURPRESA: O restaurante - que ficaria do lado do prédio - conforme proposta original - tomou o lugar do Museu

    Dessa forma - além de mim - convidei Hélio de Oliveira (Museólogo da FJA), Maria das Graças Lucena de Medeiros (Presidente do NEPAM-UFRN - onde pesquisei muito), Diva Cunha Pereira de Macedo, Françoise Dominique Valéry (Cônsul Honorária da França) e Dr. Diógenes da Cunha Lima. Tivemos reuniões na UFRN e na Fundação José Augusto. No dia 6 de março de 1995 foi oficialmente constituida a "Comissão de Implantação do Museu da Mulher Norte-Riograndense", através da portaria n. 045/95, assinada pelo referido gestor.

Documento original da portaria de nomeação das pessoas voluntárias

    A proposta original era evidenciar com maior destaque a imagem de Nísia Floresta, reconstruir um mobiliário de época, garantir uma biblioteca com as obras de autoras potiguares, inclusive toda a obra de Nísia Floresta e completar o ambiente com imagens de mulheres norte-riograndenses que se destacaram na história, além de recursos áudio-visuais. À ocasião todos os integrantes da Comissão passaram a ter uma função na construção da proposta museológica - todos de forma voluntária.

O JORNAL, do meu primo João Maria Freire anunciou o fato em primeira mão
Em seguida a Tribuna do Norte e Diário de Natal divulgaram o acontecimento

E assim - com recursos da Prefeitura Municipal de Nísia Floresta - iniciou-se a restauração, a qual preservou quase todas as suas características originais. Os trabalhos foram acompanhados pela Fundação José Augusto – FJA, sob os cuidados do arquiteto Paulo Heider Forte Feijó. À época houve polêmica, pois alguns alegavam que a marquise que foi projetada sobre a plataforma de embarque e desembarque de passageiros (uma espécie de “mão francesa") descaracterizava o prédio. Porém os pedreiros afirmavam que sob o reboco retirado ficou evidenciada a sua existência nod dois lados.
    Aproximando-se o final da restauração os contatos com o referido gestor passaram a ficar impossíveis. Logo veio a explicação para essa dificuldade de contato: o prédio, totalmente reformado, foi entregue a um empresário, o qual montou ali um restaurante especializado em camarão, cuja inauguração configurou um acontecimento político, conforme se percebe nos registros fotográficos de época.


    Todos nós, integrantes da Comissão de Criaçãodo Museu, ficamos constrangidos com a mudança súbita da proposta de restauração, até porque o referido projeto cultural era esperado com ansiedade pelo Estado e fora notícia em diversos jornais.
    Contatado o prefeito, o mesmo disse que poderíamos utilizar o espaço da "Bilheteria", proposta inviável diante do projeto original, idealizado para ocupar todas as dependências. A proposta do restaurante estava inclusa, mas o gestor cederia para algum comerciante um anexo ao lado, fora do prédio (conforme foi construído), uma espécie de "praça de alimentação".
 Resultado: tudo foi abortado, haja vista que a bilheteria é um espaço minúsculo.
    Há poucos anos fui procurado pela equipe do DN Educação - Diário de Natal, para contribuir com um Caderno Especial sobre a intelectual Nísia Floresta, em parceria com o Projeto Memória. Os jornalistas mesclaram o legado de Nísia Floresta com seu patrimônio material. Dentre os depoimentos referentes à Estação "PAPARY", fiquei sem entender quando li um depoimento dos proprietários do referido restaurante dizendo que "compraram o prédio". 
A jornalista Angélica Timbó - residente em Nísia leva a denúncia ao Ministro da Cultura
Complemento da reportagem acima


Essa informação esdrúxula só faz engrossar o caldo do desrespeito à nossa história, pois pois trata-se de uma edificação federal, a qual jamais pode ser vendida, e sim doada a órgãos públicos unicamente para fins educacionais/culturais, mediante um projeto e as políticas públicas pertinentes. Os nisiaflorestenses até hoje não entendem essa patuscada.

“O FENÔMENO PÓS-REFORMA”
  
A tradição diz que "o que não é visto não é lembrado" - nem considerado. Após a restauração a esquecida e despercebida Estação “PAPARY” adquiriu uma beleza singular, em contraste com a aparência anterior de um casarão mal-assombrado e "invisível". A imponente edificação, em estilo inglês, emoldurada por paisagem rural e um conjunto de casarios simples, personificava uma poesia bucólica. Quem passava era atraído pela suntuosidade do prédio recém-restaurado. Era impossível ignorar tanta beleza.
O prédio chama atenção por sua beleza

O advento da reforma e o “troféu turístico" que ressurgiu das cinzas tal qual a Fênix - frente ao cenário antes despercebido - despertou cobiças. A partir daí, o prédio que não era visto por quase ninguém, fez surgir as discussões sobre os limites geográficos de ambos os municípios. Todos queriam ser donos.
    Os nisiaflorestenses vislumbravam nele o local ideal para as instalações do Memorial Nísia Floresta, mesmo após o fracassado projeto. Porém, algumas autoridades mipibuenses, embora poucas e de forma sutil, passaram a questionar o assunto, tendo como base estar construído antes da linha ferroviária - que é “marco divisório dos municípios”. O entrave provocou a imprensa, como me referi na introdução deste trabalho, mas nunca veiculou-se sequer uma nota. Atualmente o prédio está envolto entre árvores e arbustos, como se quisessem que ele novamente não fosse percebido.
    Olhando as partes laterais vê-se em alto relevo o nome Estação “PAPARY”, que é o antigo nome do município, como sabemos. A inscrição “PAPARY”, em letras garrafais, anunciava que aquela era a parada da Vila de Papari. O trem parava trazendo pessoas, malas, mercadorias e os malotes dos Correios para Papari. Tudo seguia para o centro da vila, sob os lombos dos jumentos, cavalos, nos carros-de-boi e mesmo a pé, tendo em vista a proximidade.

ESTAÇÃO SÃO JOSÉ DE MIPIBU - MAZAPA


         Diz também a tradição que muitos só dão valor a algo quando o perdem. A Estação São José de Mipibu, conhecida como Estação "MIPIBU", infelizmente hoje está resumida a menos que ruínas. O alicerce, ainda visível, está coberto por “sarsa”, como denominam os nativos, uma planta silvestre, cujas folhas são semelhantes as da batata-doce. Fica no início da estrada de terra que vai para a lagoa do Bom Fim (antiga lagoa “Puxi”), exatamente à direita, na entrada para a Mazapa.
    Em 2007 ainda existia o exemplar de um anexo da Estação "MIPIBU" em perfeito estado de conservação, inclusive com características análogas às da Estação “PAPARY”. Mas, em meado desse mesmo ano, um grupo de moradores da localidade o derrubou, alegando ser esconderijo de marginais.


O único resquício considerável da Estação foi - pasmem! - demolido em 2007


    O referido anexo era o almoxarifado da Estação "MIPIBU" e abrigo para o "trole", um mecanismo movido a força humana, adaptado aos trilhos, usado pelos trabalhadores que faziam a manutenção em todo o seu curso.
    A Estação "MIPIBU", tal qual a "PAPARY", era o ponto de embarque e desembarque de passageiros e mercadorias, oriundas de Natal, de Guarabira, na Paraíba, muitas provenientes de Recife. Tais produtos abasteciam o rico e próspero comércio mipibuense. Ali também desciam retirantes da seca, ávidos por uma vida melhor e autoridades que vinham para eventos, destacando-se inúmeros políticos que eram recebidos com grandes festividades. Tal estação era cercada por algumas bodegas, cujos comerciantes dependiam do fluxo de passageiros que passavam por ali.
    Infelizmente, apesar de vasculhar ambientes afins, não encontrei "explicações" para o que costumo denominar de mais um "crime histórico" que foi a demolição da Estação "MIPIBU". Tanto a Estação "MIPIBU" quanto a Estação “PAPARY” enquanto prédios distintos, têm grande significado para a história e a cultura de toda essa região. Por falta de conhecimentos das autoridades mipibuenses faltou-lhes o cuidado de tê-la preservado, pois hoje restaurada com certeza abrigaria um espaço cultural.

O TRILHO RETIRADO

     A ideia de "pertencimento" é algo muito subjetiva, pois qualquer pessoa, povo, cidade, estado, instituição etc pode sentir-se proprietário de algo que não precisa necessariamente estar dentro das raias geográficas. Existe atualmente o conceito de Geografia humana, a qual alarga mais a compreensão dessa posse. As coisas nos pertencem enquanto construtores - e zeladores - de patrimônios. Reconhecemos esse pertencimento quando existe zelo, manutenção, restauração etc. As coisas nos pertencem quando nós pertencemos a elas. Pertencemos a elas quando nos doamos a elas. Por isso, no caso da Estação "PAPARY" entra o fator bom-senso, o dever moral e ético, e a questão histórica.
    Refletir sobre o direito de propriedade e usufruto do prédio da Estação “PAPARY” - se acaso for para uma instância superior - é uma questão que está na alçada da Justiça, na qual deve ser levado em conta o bom-senso decorrente de fatores que analisaremos ao longo deste estudo. Nesse caso valo-me de estudos de Le Goff. É conveniente lembrar-se de detalhes de extrema importância e pouco conhecidos. 
    Refiro-me ao trilho que existia do lado Norte, o qual foi retirado. Como podemos constatar, a Estação “PAPARY” possui dois lados exatamente iguais. O lado Norte (que faz fundos com o rio Mipibu), também possuía um trilho anexado ao trilho atual. Ele servia para deslizar outra “Maria Fumaça” (locomotiva) para fazer o retorno, ou desviar outra que seguiria para Natal ou Nova Cruz/Guarabira. As portas do lado Norte - exatamente iguais - tinham a mesma função das frontais, ou seja, embarcar ou desembarcar passageiros ou mercadorias. Significa dizer que o prédio da Estação PAPARY ficava como um "sanduíche" em meio a dois trilhos.
    Para que o leitor entenda melhor, imagine um trem vindo de Natal. Ele parava defronte a estação e tinha a parte da frente desengatada (locomotiva). Essa parte deslizava para o outro lado da Estação PAPARY através dos referidos trilhos - hoje inexistentes - retomava a linha de origem e era engatada novamente no que seria a parte traseira do trem (a sequência de vagões), a qual passava a ser a frente. E assim o trem voltava para Natal.
    A SAMPAIO CORREIA retirou o trilho do lado norte assim que passou a operar com apenas uma locomotiva e quando encerrou o ciclo de viagens que vinha somente até a Estação "PAPARY". As viagens passaram a ser apenas Natal/Paraíba. A empresa, despretensiosamente cometeu um dano geográfico. E o nó-górdio reside exatamente nesse detalhe, pois tornou invisível o marco divisório evidenciado na delimitação, que é exatamente o trilho. 
    Uma maneira de evitar esse equívoco é recolocar os trilhos originais apenas para a questão visual, até porque o que não é visto não é lembrado e tampouco reconhecido, embora, como já foi dito, há muita subjetividade nisso.    
    Na realidade é necessário o bom senso dos cidadãos de ambos os municípios, principalmente porque hoje existe uma residência (um pequeno sítio) no lado oeste da Estação “PAPARY”, o que impede a reinstalação da linha naquele trecho.
    Acaso haja compreensão das autoridades envolvidas, no sentido de recolocar os trilhos, cabe desapropriar o sítio ou repensar outra forma de definir os marcos.
    Um exemplo nesses moldes é a "Capela do Século", situada na Mazapa, em Nísia Floresta, exatamente defronte a linha férrea, há poucos metros de onde existiu a Estação São José de Mipibu.Trata-se de um marco construído durante a virada do século XIX para o século XX, conforme nos conta Cascudo. Quem a restaurou? Quem zela? Quem a mantém?
    Trata-se de um elemento do patrimônio material de grande valor histórico e que Nísia Floresta mal sabe da sua existência. Em 1992 levei um grupo de alunos nisiaflorestenses para conhecê-la, os quais ficaram surpresos.
    Outra detalhe: São José de Mipibu já teve sua geografia muito modificada ao longo dos séculos. Em 1852 a Vila Imperial de Papari foi emancipada, desmembrando-se da Freguesia de São José de Mipibu, através da Lei nº 242, de 18 de fevereiro. No dia 3 de setembro de 1874 o governador da província promulgou a lei nº 712 determinando os limites, cujo texto segue abaixo, ipsis literis: “A lei nº 712, de 3 do mesmo mez – determinou que os limites da freguezia de São José de Mipibu com os da de Papari fossem os seguintes: ao sul principiando do rio denominado Mipibú pela estrada que vae para a província de Pernambuco até o corredor dos engenhos Ribeiro e Porteiras, dahí seguindo em frente pela estrada do Urucará até o rio do mesmo nome. Ao norte do rio Mipibú, seguirá a divisão em linha reta até a estrada que segue da estrada de São José para Pirangi, dahi pela mesma estrada atravessando os alcançuz até o mesmo Pirangi a sahir na gameleira grande, ficando ao norte da linha o sítio Jardim, e pelos demais logares subsistindo a antiga direção com a freguezia de Natal.”
    A transcrição acima mostra um marco divisório pouco conhecido, embora não seja mais o mesmo - óbvio. Evidenciei-o apenas  em caráter de reflexão diante do que expus mediante as ideias de Le Goff.

COMPLEXO HISTÓRICO/CULTURAL - UM OLHAR PARA AS RAÍZES  NO SÉCULO XXI

    O prédio onde funcionou a Estação "PAPARY", pelo contexto que você está acabando de ler, tem know-how para sediar um complexo histórico/cultural. Poderia-se fazer um projeto arquitetônico com grande valorização para o aspecto paisagístico, levando-se em conta elementos da cultura nordestina típicos de nossa região. Delimitaria-se uma extensa área no entorno do prédio, faria-se os aterros necessários calçando-a com cantaria ou um tipo de pré-moldado combinando com o ambiente.
    Plantaria-se dezenas de pau-brasil e ipês, equilibrando a vegetação com plantas ornamentais representativas. Faria-se uma réplica de um engenho, numa evocação a São José de Mipibu, berço de inúmeros engenhos. Restauraria-se o poço que existia do lado (inclusive a vertente está em perfeito estado). Faria-se um projeto em parceria com o Governo Federal, restaurando-se uma locomotiva para deixá-la exposta nos trilhos originais, protegida por um galpão feito de forma que se harmonizasse com o contexto. Essa peça poderia ser conseguida em Recife e junto dela montaria-se um mini-museu paralelo cujo acervo, conseguido na Superintendência da RFFSA, contaria a história das ferrovias do Rio Grande do Norte.
    Construiria-se toda uma estrutura imitando casas-de-taipa nas quais alojaria-se artesãos e comerciantes para venda do artesanato mipibuense e nisiaflorestense, além de comidas típicas. Teria-se mulheres rendeiras e labirinteiras pruduzindo in loco seus trabalhos. Faria-se uma casa de farinha e um engenho de melado para funcionar apenas no período do veraneio. Isso permitiaria ao turista e ao nosso próprio povo - que vê destruída a sua cultura - o resgate das raízes nordestinas. Ali poderia-se adquirir desde iguarias mais primitivas como rapadura, melado, beju, tapioca, grude, pecado-maneiro, farinha, sucos da terra, a uma gastronomia contemporânea à base de camarão, siri, aratu, caranguejo peixes e afins.
    Esse espaço também seria polo de exibições de artistas locais e de outras regiões - priorizando-se as raízes nordestinas. Manifestações da cultura popular como o Boi-de-reis, o Pastoril, o Coco-de-roda e o Pirão-bem-mole de Nísia Floresta, e o Coco-de-roda de São José de Mipibu seriam atrações fixas, dentro de uma política pública organizada, com mestres ensinando as danças e a confecção de roupas e instrumentos musicais utilizados.
    Construiria-se um complexo semelhante a um balneário e todos os elementos integrantes desse espaço seguiriam uma linha rústica. Enfim, daria-se a esse espaço uma dignidade visionária.     
    Esse projeto seria feito numa parceria encabeçada entre o poder público de São José de Mipibu e Nísia Floresta, com apoio de instituições especializadas em patrocínio desse tipo de projeto, em nível estadual e federal.
    O prédio, especificamente, seria uma espécie de museu ou memorial para abrigar as histórias de São José de Mipibu e Nísia Floresta, com fotos, livros, ferramentas, instrumentos, acervos e objetos pessoais dos personagens evocados, dando destaque às figuras de Nísia Floresta e o Barão de Mipibu.
    Teria-se um anfiteatro com exibições pré-divulgadas de peças teatrais contando a história de Nísia Floresta e do Barão de Mipibu (especificamente) e outras histórias locais.
    Mais que direcionar uma visão apenas para um museu, esse complexo seria um pólo que convergeria amplamente a cultura genuína da região, sendo referência para estudos nacionais e internacionais com uma fluente produção audio-visual, fotográfica e oficinas. 
    O êxito desse projeto implicaria em fortes investimentos no que se refere a divulgação, uma política de turismo contínua e providências. Até porque a poucos metros desse prédio tem uma galeria do esgoto de São José de Mipibu desaguando no rio Mipibu, que por sua vez deságua na lagoa Papari, a qual está seriamente prejudicada.

CONCLUSÃO

    É improcedente afirmar que a Estação de Mipibu é a Estação “PAPARY”, conforme já ouvi, pois, como foi exposto, a Estação Mipibu e o anexo lateral foram criminosamente demolidos. Se a Estação "PAPARY" fosse a Mipibu, as letras garrafais moldadas em sua parede anunciariam "MIPIBU". Como já foi exposto, o fato de terem retirado o trilho de retorno transmite a idéia de que o marco divisório é o atual trilho.
    Diante dessas considerações entendo que a Estação “PAPARY”, mesmo que não tenha os trilhos recolocados, e mesmo que as letras garrafais “PAPARY” sejam arrancadas, é parte integrante do patrimônio histórico/estimativo de Nísia Floresta.
    A Câmara Municipal de Nísia Floresta - que com certeza lerá este estudo - tem um dívida moral com a Estação "PAPARY" e com o patrimônio nisiaflorestense de modo geral. Cabe à mesma a idealização de um projeto que reja a questão de restauração e manutenção  do patrimônio tangível e intangível nisiaflorestense de modo geral. Há anos proponho em vão essa medida simples.
    No tocante à Estação "PAPARY", resta às autoridades devolver-lhe o direito de cediar um ponto de cultura, um museu ou memorial. Até porque trata-se de uma edificação restaurada com recursos oriundos de Nísia Floresta - conforme documentos comprobatórios disponíveis. Quem tem o direito de usufruir o prédio nessa concepção histórico/cultural é o povo e não uma empresa particular. E, mais que isso, trata-se de um prédio federal, que não pode ser vendido (como nunca foi). Sobre o "drible" da reforma do museu que se tornou restaurante, cabe ao responsável os esclarecimentos pertinentes.

CURIOSIDADES

Na gestão de João Lourenço Neto consegui sensibilizá-lo acerca da nova tentativa de retomarmos o projeto - houve os primeiros passos mas o projeto que se apresenta superior à cultura e à história - personificado em forma de um mero restaurante  - parece superior.

     - A locomotiva "Baronesa", por seu importante papel, como pioneira, constitui pedaço da história do ferroviarismo brasileiro. Foi construída em 1852 por Willian Fair Bairns & Sons, em Manchester, Inglaterra, fazendo, atualmente, parte do acervo do Centro de Preservação da História Ferroviária, situado no bairro de Engenho de Dentro, na cidade do Rio de Janeiro.


    - Quando da Proclamação da República, em 1889, já existiam no Brasil cerca de dez mil quilômetros de ferrovias, mas foi no início do século 20 que se deu um grande passo no desenvolvimento das ferrovias, tendo sido construídos entre 1911 e 1916 mais cinco mil quilômetros de linhas férreas. A expansão ferroviária do início do século 20 trouxe então desenvolvimento econômico e social para inúmeros municípios do interior brasileiro.

    - A única linha de passageiros que ainda preserva serviços diários de longa distância, com relativo conforto, liga Belo Horizonte, em Minas Gerais, a Vitória, no Espírito Santo. Os serviços ferroviários de passageiros ficaram restritos aos subúrbios nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Maceió, João Pessoa, Natal, Recife, Fortaleza e Teresina. Entretanto, ainda existem algumas ferrovias que servem ao turístico como a Curitiba-Paranaguá, Paraná; a Campinas-Jaguariúna, São Paulo e a linha urbana do Memorial do Imigrante, também em São Paulo. 

- Hoje é sabido que o transporte ferroviário é o mais ecológico e social existente. Isso porque, além de transportar o maior número possível de carga e pessoas, a construção de estradas de ferro causa menos danos ao meio ambiente que a construção de rodovias.

- As ferrovias não compactam e impermeabilizam solos e, mesmo suas locomotivas sendo a diesel, poluem menos que a quantidade de veículos que trafegam por rodovias. Seja transportando carga ou pessoas, o trem é um transporte seguro, confortável e custo menor por quilômetro transportado. 

REFERÊNCIAS

    As cópias de documentos avulsos, a documentação original e os registros de História Oral utilizados para a construção deste documento encontram-se no acervo particular de Luís Carlos Freire.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

NÍSIA FLORESTA MAIS UMA VEZ PERDE O SELO UNICEF

Por Luis Carlos Freire

Em 2006 fiz parte da Comissão de Avaliação do Selo UNICEF, através do Escritório de Representação deste órgão no Ceará. Éramos quatro apreciadores de um vasto material enviado pela maioria dos 167 municípios potiguares.

Fomos capacitados de forma que devíamos analisar uma multiplicidade de tópicos, cuja pontuação maior ia par

a aquilo que fosse realmente comprovado, ou seja, que o objeto analisado fosse comum ao município.
Na versão daquele ano uma série de tópicos deviam ser evidenciados sob forma de fotografias, CD's, DVD's, documentos escritos, cópias de artigos em jornais, matérias jornalísticas que porventura reforçassem o que estava sendo apresentado, mapas etc.
O objetivo era sentir a veracidade da realidade do município que postulava o selo, pois tudo seria checado posteriormente.
Lembro-me que fiquei ansioso, aguardando o material que chegaria de Nísia Floresta e São José de Mipibu.
Eram muitos envelopes. Alguns imensos.
Mossoró mandou tudo numa caixa de madeira artesanalmente feita.
Parnamirim enviou até camisetas, CD’s de hinos, eventos, incontáveis fotos…
Diversas cidades, como Bodó e Ipanguaçu, municípios simples, mandaram um material excepcional.
Muito tempo depois fui dar uma formação para professores nesses dois lugares - durante a semana pedagógica - (coisa que em Nísia Floresta a SEMEC local proporciona todo dia (desculpe a ironia) e fui recepcionado de forma que vi a veracidade de tudo.
Foi emocionante! Não se tratava de maquiagem, conforme vi numa versão do Selo Unicef, algum tempo depois, em Nísia Floresta.
Mas, voltando á Comissão de valiação, e Nísia Floresta?
Os demais integrantes da Comissão diziam: “Luis Carlos está ansioso para receber o material de N|ísia Floresta!”.
Para minha decepção, não veio nada. Nem de São José de Mipibu.
Parece piegas, mas é muito triste!
Reconheço que algumas pessoas até podem achar que digo isso por questão de política partidária, mas não!
É uma questão de indignação mesmo (quando a gente perde essa capacidade, tudo bem, mas eu a tenho demais).
Indignação de cidadão nisiaflorestense que sou.
O pior é que muitos dos meus conterrâneos ficam calados, sem manisfestar opinião, sem sugerir, sem criticar…
E essa atitude soa como permissividade.
Alguns poderiam perguntar-me "O que você tem feito para ajudar Nísia Floresta a receber o Selo Unicef"?
A minha resposta é: "Olhem para a história da educação, da cultura, da política - a própria História em si.
Minha casa sempre foi um lugar de recepção de nisiaflorestenses e gente de todo o Brasil e mesmo do exterior, os quais requerem materiais sobre todos esses temas.
Sempre me servi da generosidade intelectual, pois assim aprendi.
Mas voltando ao que interessa...
Quisera Nísia Floresta receber o Selo Unicef para ver a guinada, mas uma coisa é certa: O UNICEF não aceita maquiagem, coisa montada "para inglês ver".
Eles querem saber se aquilo que apresentam como benefício à sociedade – em especial às crianças e aos adolescentes – é real, ou seja, o povo está habituado.
Só isso!
Agora eu lhe pergunto? É difícil fazer isso?
Não!
Basta querer.
Nísia tem tudo para isso.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

CARTA DA LAGOA PAPARY AOS NISIAFLORESTENSES


CARTA DA LAGOA PAPARY AOS NISIAFLORESTENSES

Por Luis Carlos Freire 


Nísia Floresta, 10 de janeiro de 2010


Eu, LAGOA PAPARY, brasileira, natural de Papary, Rio Grande do Norte, casada com os nativos, domiciliada no Porto, em Morrinhos, Tororomba, Oitizeiro, Georgino Avelino, Currais e Genipapeiro, 
dirijo-me respeitosamente até você, nisiaflorestense para pedir-lhe socorro.
Prefiro começar falando da minha origem. Você sabia que o meu nome original é PARAGUAÇU. Significa “MAR IMENSO” em nossa língua materna. Nem precisa perguntar o porquê. Eu já fui maior do que sou atualmente.
Sou filha da Lagoa do Bonfim, que se chamava “PUXI”. Mas prefiro não traduzir essa palavra condenada pelos capuchinhos. Sempre fui encorpada. Nasci no seio de uma família imensa. Tenho muitas irmãs, Papeba, Papebinha, Ferreira Grande, Ferreirinha, Urubu, Escura, Lagoa Seca, Carcará, Arituba, Cavalos, Pium, Amarela, Ilhota Lodo, Sítio, Dourada, Alcaçuz, Tacho, Jabuti, Hiola, Redonda e Redondinha, Carnaúba, Teixeira, Anjos, Custódia dos Negros e Peixe, embora algumas são adotivas.
Tenho vários primos em forma de pequenos rios no centro da cidade, no Porto, na Ilha, na Boacica, em Pirangi, Alcaçus, Pium, Cururu, na Hortigranjeira, enfim estou indiretamente em todo o município.
Sobre a minha idade, prefiro não dizer, mas só para dar uma pista, eu já existia muito antes de os índios chegarem por aqui. Já fiz a alegria de muito índio e índia que viviam nas minhas matas ciliares, pescavam, andavam de canoas e se banhavam em minhas águas.
Das minhas entranhas saíam infindáveis peixes de quase trinta quilos. Fui berço de milhares de goiamuns, carangueijo-sá, siri, camarão, inclusive Pitu, dentre uma vasta micro-fauna.
Sou a lendária lagoa Papary, d’antes Paraguaçu. Sou o amplo reservatório das águas do Trairí, berço das águas oriundas do inverno sertanejo, onde pequenos riachos correm dos tabuleiros arenosos, dando origem a essa imensidão de águas que se interligam com outras lagoas e rios, como o velho Cururu que desembocam no mar.
Desde que os portugueses começaram a andar por esses rincões meu nome original, Paraguaçu, passou a ser documentado na história. Começou pela cartografia de Marc Grave em meados da década de 1640. E antes disso eu já era conhecida em Portugal. O tempo passou e, em 1810, o famoso viajante inglês, Henry Koster, visitou-me quando minhas águas chegavam até o Porto.
Em seu livro “Viagem ao Nordeste do Brasil” ele relata que ficou encantado quando viu os pescadores chegando com as canoas abarrotadas de peixe, me comparado ao Mercado de Billingsgate, na Inglaterra, por minhas águas piscosas. Fui cantada em prosa e verso por autor anônimo que me dedicou bela poesia centenária, evocando a lenda de Jacy e Guaracy; citada por inúmeros viajantes europeus em documentos antiquíssimos.
Sempre fui considerada deslumbrante, misteriosa e acolhedora. Essa lenda, “do arco da velha”, nasceu quando passaram a me chamar de Papary, e aos poucos esqueceram que fui Paraguaçu. Se você não a conhece veja a letra:

Contava-se em Papari
A lenda de uma sereia;
Era a história de Jaci,
Jovem tapuia da aldeia.

Jaci formosa e catita,

Filha do chefe Aribó
Era a índia mais bonita
Do Vale do Capió.

Amava com amor ardente

Guaracy jovem guerreiro,
Cujo peito igualmente
Nasceu um afeto primeiro

Sozinho na solidão

Guaracy vagava a toa,
Ora ao redor da Caiçara,
Ora ao redor da lagoa.

Certa vez quando pescava

Tentando esquecer as mágoas,
Ouviu que perto cantava
A voz de Jaci nas águas.

A delirar, Guaracy.

Na lagoa mergulhou
Seguiu a voz de Jaci
E a tona não mais voltou.

Hoje esta lenda triste

Quem se dispõe a cantar
Vê quanto mistério existe
Entre a lagoa e o mar.

É uma estória triste, não? Pelo jeito foi escrita no período do Romantismo. Guardo lembranças lindas, tristes e algumas aterrorizantes. Ainda me recordo quando vi, em silêncio, Jacob Rabbi passar por essas veredas. Logo após a Chacina de Cunhaú, vi quando seu grupo passou por aqui, rumo a Barra de Tabatinga para a segunda chacina. Poucos nisiaflorestenses sabem desse episódio histórico. Era noite de lua cheia e as sombras asquerosas daqueles assassinos ainda tocaram-me entre os juncos.
Testemunhei homens brancos de olhos azuis cortando uma linda espécie que existia em abundância por essas matas ciliares. Lembro-me de um dia que só dessa região saíram 40 navios franceses repletos de pau-brasil.
Sempre fui muito limpa. A própria fauna aquática que existia em mim se encarregava dessa limpeza. Minhas águas sempre foram puras e cristalinas. Às vezes eu ficava turva, pois a Caiçara que tanto me amava, me abraçava por completo, deixando-me ora salgada, ora doce, ora salobra.
Sabe o que significa Caiçara? Não?!! Para que todos entendam precisamos nos reportar ao descobrimento do Brasil: Quando os portugueses chegaram ao Nordeste encontraram o nativo indígena e, através de uniões amorosas, se misturaram. Tempos depois, veio o africano e mais um ingrediente étnico-cultural entrou na mistura. Nasciam os caiçaras, uma população tradicional intimamente ligada à natureza e seus ciclos, que trabalhavam para o sustento cultivando roças, extraindo frutos e lançando-se à caça e à pesca.
A palavra “caiçara” tem origem tupi-guarani. “Caa” significa pau, mato; “içara” quer dizer armadilha. Caiçara é um tipo de proteção feita de galhos e varas que os índios usavam em volta de suas casas ou para pescar. Com o tempo, a palavra passou a ser usada para identificar o povo litorâneo, mas hoje ninguém se recorda mais disso. Os homens parecem interessados em outras coisas.
Minhas águas sempre atraíram galinha d’água, pinto d’água, marreco, xexéu, rolinha, galo de campina, bem-te-vi, tetéu, sabiá, concrix, carcará, lavadeiras, gavião e tantas outras aves. Saciei a sede de muito tatu, tijuaçu, jacaré, cotia, coelho-do-mato, preá-do-mato, raposa, guaxinim, timbu e tantos outros animais. Era uma riqueza. Isso parecia o pantanal.
Mas, continuando o que eu falava, sempre dei alegria aos nativos. Das minhas águas saiam incontáveis centenas de quilos de peixes e camarões durante a festa dos Pescadores, em setembro. O pessoal do Porto fazia barracas, havia celebrações, festa social com muito forró original. As casas eram todas de palha. Tinha até o famoso dízimo-do-peixe. Foi um tempo que deixou saudades.
Durante incontáveis invernos sempre recebi as águas do sertão. Essas águas trouxeram lentamente muita terra que foi me assoreando aos poucos. Em 1974 houve uma enchente que ficou na lembrança de muita gente. A famosa “cheia de 74”. A força das águas rompeu a BR 101, nas proximidades de São José de Mipibu, deslizando em mim toneladas de barro que elevava a pista.
Existia uma barragem em Georgino Avelino. Ela também se rompeu me enchendo de barro e entulhos. A partir daí nunca mais fui a mesma, embora ainda não era poluída por dejetos. Antes eu era interligada com os rios de toda a região de Currais a Genipapeiro, chegando rente à estrada de acesso a tais distritos. Mas fui me reduzindo e me distanciei do Porto, principalmente. Muita área que era só água hoje está tomada por aninga, pasta e aguapé. Todo o meu leito está cheio de terra vinda de outros rios e de algumas cidades potiguares, pois como suas margens estão desmatadas essas terras ficam soltas e a cada chuva deslizam para os rios até o ponto final, que, por ironia, antes de chegar ao mar, sou eu. Num dos meus pontos mais fundos formou-se um câncer em forma de um gigantesco banco de areia, maior que um campo de futebol. Parece uma ilha vulcânica.
Minha micro-fauna e flora aquática estão quase totalmente destruídas devido a essas agressões. Os meus plânctons nem se fala. É por isso que não tenho mais gerado tantos peixes e crustáceos como antes, pois essa fauna se alimenta da minha micro flora e fauna. A vegetação do mangue é minha verdadeira muralha de proteção, muito antes da mata ciliar. Mas, ao longo dos anos vem sendo cortada para a construção de casas de taipa dos próprios nativos, além de outras finalidades.
Eu pensava que com o advento da alvenaria isso se acabaria, mas agora apareceram os viveiros e minhas margens mais parece um descampado. O pouco que restava desse micro-ecossistema está morrendo lentamente devido aos produtos químicos que estão usando. Estão jogando um líquido esquisito nas minhas margens e ele mata tudo que é vivo, seja animal ou vegetal. Em fração de segundos os lambarizinhos sobem e apodrecem por ali mesmo. Minhas imediações fedem como o Tietê. Pelo que vejo, se os fatos continuarem como estão, serei tal qual esse rio paulista.
Se minhas margens ficarem savanizadas estará decretada a minha morte e as consequências serão catastróficas para todos. E lembre-se que meu caso é mais grave, pois estou sobre os aquíferos Aluvião e Barreiras, um dos maiores do Rio Grande do Norte. Isso entra na sua cabeça?! Você já analisou a gravidade?!
Confesso que estou muito triste, pois ouço muitas lamúrias, principalmente de pescadores, de pessoas aficionadas por ecologia, mas ninguém age. Onde estão as autoridades, onde estão os amantes da natureza, os estudantes de ecologia, de turismo, enfim as camadas pensantes do meu município?!
Para quem tem memória curta, lembro que sou aquela que matou a fome dos seus antepassados, numa época em que tudo era mais difícil. Quando não existia Bolsa Família, nem aposentadoria tão fácil como atualmente. Sou aquela que representou a única fonte de alimentação da sua família, numa casa de taipa ou de palha. Lembra-se?!
Sou aquela que enchia os cestos de peixe, pitu e carangueijo para os seus avós e pais, os quais chegavam em casa felizes, entregavam o fruto da pesca às esposas. Estas se sentavam nos batentes das portas ou mesmo no chão, junto das bacias repletas do pão de cada dia para prepará-los.
À noite a mesa era farta. Do fogão de lenha saia bem quentinho inhame, fruta-pão, batata assada, macaxeira acompanhada de peixe frito ou assado, camarão, caranguejo, goiamum, siri, café e muita fartura. Tudo isso regado à família unida, certa de que minhas fontes eram inesgotáveis.
Existiam nativos que montavam pequenas barracas cobertas de palha ao lado das estradas de acesso às praias e passavam a vender variados pratos à base de camarão no alho e óleo, no molho, feito vatapá, e isso fez a fama, a ponto de futuramente surgirem restaurantes simples, mas com grande movimentação. Os famosos “camarão de fulano”... ”Camarão de Sicrano”...
Toda tardinha os pescadores juntavam o fruto da pesca e bem cedo saiam para Natal. Passavam o dia gritando pelas ruas: Olha o camarão! o peixe! o siri! o goiamum! o caranguejo! E isso deu ao município de Nísia Floresta a alcunha de “Terra do Camarão!” Esse contexto deu origem à tradição que permite até hoje as pessoas de outras localidades virem para cá apreciar tal iguaria. Era muita fartura e riqueza, tanto nas águas quanto na agricultura. Mas mesmo assim os nativos eram simples demais. O progresso era uma coisa distante. Ir a Natal consistia numa aventura! A própria capital era lugar sem muita novidade.
A maior alegria das famílias era se reunir nos finais de semana para banharem-se em minhas águas e passear de canoa. As árvores ao meu redor era um verdadeiro parque de diversão. Normalmente as famílias chegavam ao amanhecer e passavam o dia ao sabor de água de pote e “liguento”. Eles eram felizes e não sabiam. Hoje quem entra em minhas águas sai se coçando e fica com a pele irritada. E tem muitos pescadores com sérias doenças de pele.
Lembro-me de uma época em que coisas comuns como um chinelo ou um pão eram grandes novidades em Nísia Floresta. Hoje todos parecem ricos. Estou cercada de parabólicas. O curioso é que exatamente muitos daqueles cujos bisavós, avós e pais se alimentaram do que eu tanto produzia, esqueceram-se do imenso valor que me davam. Hoje talvez eu não represente nada, pois talvez estejam ganhando muito dinheiro e não saibam mais o que é a fome.
Isso me incomoda, pois sempre dei sem exigir nada em troca. Hoje pareço ser a personificação da velha frase: “É cuspir no prato que comeu!”.
O tempo passou. As coisas foram se modernizando. Hoje os pescadores têm seguro. Acho que somente eu estou desamparada, sem aposentadoria, seguro, Bolsa Família... E ainda querem me fazer de fossa!
Hoje recebo esgoto, os dejetos e as águas servidas do meu velho amigo “Mipibu”, outra vítima de ingratidão. Esse famoso rio de linda história, verdadeiro tesouro encravado em resquício de mata atlântica, agoniza. Esquecem as autoridades que da sua fonte vem a água que abastece toda a cidade de São José do Mipibu.
Na realidade o rio não tem culpa, pois ele deságua em minhas águas cumprindo a sua missão natural. Mas foram das mãos humanas que saíram as galerias subterrâneas de concreto, oriundas de São José de Mipibu, as quais desembocam nele.
Os pescadores nisiaflorestenses não têm do que viver. É muito triste ver meu povo passando necessidade. É apavorante saber que homens e mulheres veem o sol nascer e se pôr acompanhados por uma garrafa de cachaça. Talvez eles se anestesiem para não ver a paisagem triste da minha agonia e da a sua própria miséria.
Em Nísia Floresta já começa a aparecer consumidores de crack, maconha e outras drogas. Existem distritos que margeiam minhas águas com pontos de drogas. Vejo tudo isso com lágrimas nos olhos, pois não posso fazer nada.
Não pense que sou exagerada, mas os problemas sociais como esses e outras mazelas decorrem da minha decadência. A minha ruína significa a amplitude da miserabilidade em todos os seus aspectos no meu município.
Volto a perguntar: onde estão as autoridades mipibuenses, nisiaflorestenses e natalenses que em pleno século XXI, em plena Àrea de Proteção Ambiental, em pleno solo onde existe o Instituto Chico Mendes, em plena Mata Atlântica, não enxergam os atentados que sofro diariamente e os danos sociais decorrentes disso?!
Será que enxergar e acabar com isso compete meramente às autoridades mipibuenses e nisiaflorestenses?!
E você, o que pensa disso?!
Aguardo a sua ação, afinal ainda é tempo, mas se você demorar eu morrerei, pois eu própria não posso fazer nada por mim.
Aí será tarde e seus filhos e netos não me conhecerão!
Mas lembre-se: a minha morte significará muitas mortes!!!
Um grande abraço!

Lagoa Papary

sábado, 24 de novembro de 2012



BREVE HISTÓRICO DA PROFESSORA APARECIDA BASÍLIO

         Por Luis Carlos Freire 

Podemos encontrar uma explicação bem fácil para entendermos a história da professora Aparecida Sales servindo-nos da Santa Bíblia Sagrada, quando ela traz as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando Ele diz  “Vinde a mim as criancinhas!”.
Essa comparação se justifica no fato de a referida professora ter vivido a maior parte da sua vida cercada de crianças, na condição de professora do ensino infantil.
Essa história começou no ano de 1982, quando sua amiga de infância, Soledade Araújo, conhecida como “Suli”, reconhecendo o seu potencial, apresentou-a à professora Terezinha Leite, a qual era secretária do ex-prefeito Almir da Silva Leite, ambos falecidos.
Nessa época existia um programa do Governo Federal denominado MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização, que era voltado para a alfabetização de adolescentes e adultos, numa política educacional exatamente igual ao EJA que conhecemos atualmente.
Esse programa, criado em 1967, ocorria por meio de convênios com entidades públicas ou privadas. Foi extinto em 1985, e substituído pela Fundação Educar, desativada no Governo Collor de Melo, em 1990.
O MOBRAL existiu sob forte influência da Ditadura Militar, cuja professora Aparecida vivenciou seu auge no governo do Presidente João Figueiredo, que era Major do Exército Brasileiro.
A Prefeitura Municipal de Nísia Floresta, na pessoa do prefeito Almir da Silva Leite, estabeleceu esse convênio, conseguindo que ele também fosse destinado às crianças de Nísia Floresta, numa atitude inédita
A professora Terezinha, encantada com o dinamismo da professora Aparecida, encaminhou-a à Secretaria Estadual de Educação, submetendo a professora Aparecida a um treinamento de 15 dias, cuja professora realizou com sucesso.
Em seguida ela retornou para o município já para começar a trabalhar como professora de uma turma de crianças com idades entre 4 a 5 anos, cujos pais estavam ansiosos para ver funcionar, pois se tratava de um momento histórico, afinal era a primeira vez que a pré-escola funcionaria em Nísia Floresta.
Naquela ocasião a senhora Lurdinha Guerra, coordenadora do Mobral, enviou um documento ao prefeito Almir Leite, o qual dizia: “Comunico que o trabalho do MOBRAL do RN foi contemplado com um prêmio internacional da UNESCO, e agradeço pelo apoio recebido do município de Nísia Floresta, o qual contribuiu para essa grandiosa vitória”,
Naquela época não existiam tantos programas educacionais como hoje. Os recursos eram escassos e tudo acontecia com grandes dificuldades.
E foi assim que ela começou, pois o prédio destinado às aulas – o Centro Pastoral Isabel Gondim – não tinha a mínima infra-estrutura. Não havia água encanada, nem móveis. Mas Aparecida não fez disso um problema. Reuniu todos os pais, expôs os problemas e recebeu apoio de todos.
A partir daí passaram a ocorrer várias reuniões. Todas muito proveitosas e com resultados surpreendentes.
Naquela época as pessoas demonstravam um maior grau de voluntariado, pois, sem nenhuma reclamação, todos abraçaram a causa com muito amor.
Cada pai trouxe o que podia: filtro para água, um fogão de lata movido a carvão, bacias, vassouras etc. Resolveram o problema da água, conseguindo improvisar uma mangueira que vinha da CAERN.
Houve o acordo para cada criança trazer um prato, um copo, uma colher e o seu lanche.
Como a turma era grande foi decidido que cada dia uma mãe daria expediente como auxiliar, numa espécie de estagiária. Posteriormente os próprios pais decidiram que uma das mães, a senhora Adélia (hoje falecida) ficaria de forma fixa, e seria remunerada pelos demais pais, os quais fariam uma cota mensal. Infelizmente, devido às condições financeiras dos pais, eles findavam não conseguindo pagá-la todos os meses.
Interessante era que a senhora Adélia, mãe da aluna Janiere, jamais fez qualquer juízo de valor dessa situação, pois nunca faltava e trabalhava com grande dedicação, sempre alegre, extrovertida e atenciosa com as crianças.
         Ao contrário do Regime Militar que vigorava na época, a professora Aparecida, de forma bastante democrática, pediu que os pais sugerissem nomes para a escola, a qual foi denominada “Chapeuzinho Vermelho”.
         Para obter melhores resultados a professora Aparecida serviu-se de uma criatividade fora do comum, mas, sem quere, acabou se tornando uma espécie de precursora no uso de materiais reaproveitáveis – tão na moda atualmente -  pois, de forma lúdica, servia-se de tudo o que poderia ser jogado no lixo: caixas de ovos, latas de conservas, vasilhames de margarina, palitos de fósforos, caixas de papelão, tampinhas de garrafa, sementes, macarrão, cola de goma e outros materiais.
         A Praça Coronel José de Araújo, que na época não tinha o modelo atual, passou a ser praticamente uma extensão do Centro Pastoral Isabel Gondim, pois ali as crianças passavam horas a fio, cantando músicas educativas, canções tradicionais do folclore brasileiro, e várias músicas inventadas pela própria professora. Uma das atividades que as crianças adoravam era desenhar na areia com pequenos gravetos.
         Com o passar do tempo os pais perceberam os avanços no aprendizado dos alunos e resolveram investir mais. Desse modo conseguiram mesinhas e bancos para as crianças e para a professora, baldes e panelas grandes, um armário e um fogão à gás.
         Os pais eram muito dedicados e participativos. Não mediam esforços para fazer festas com direito a escolha do rei e da rainha, com venda de votos e comes-e-bebes. Toda a arrecadação das festinhas eram revertidas em prol do patrimônio da escolinha.
         Um dos reis dessas festinhas foi José Roberto, e uma das rainhas foi Clézia de Araújo, a Nildinha, que reside atualmente em São Paulo.
         A escolinha “Chapeuzinho Vermelho” era uma escola feliz, amada e respeitada por todos.
         Certo dia uma encomenda dos Correios mudou a história dessa escola. Várias caixas chegaram, destinadas pelo Ministério da Educação.
         Ao serem abertas a professora Aparecida foi às lágrimas. Eram materiais didáticos e pedagógicos: cola, papel ofício, lápis de cor, giz de cera, lápis grafite, régua, borracha, tinta guache, massa de modelar, pincéis, papel crepom, tesoura, barbante, pegador, livrinhos de historinhas e diversos jogos educativos.
Foi um presente que emocionou a todos e foi notícia na cidade inteira. A alegria das crianças não tinha fim. Era vista no brilho dos olhos de cada um, os quais recebiam o material como se fosse algo do outro mundo, com um valor inestimável. Havia um zelo especial por parte da escola, dos alunos e dos pais.
No decorrer da existência dessa escolinha tão feliz o seu funcionamento deu-se em outros prédios, como a casa de força, na rua da Bica, a qual abrigava o velho motor desativado, que por muitos anos abasteceu de energia elétrica todo o município.
Depois foi para o prédio onde atualmente funciona a Secretaria Municipal de Ação Social. Posteriormente funcionou numa sala cedida pela Escola Municipal Yayá Paiva.
Durante toda a trajetória educacional da professora Aparecida ela teve o senhor Almir da Silva Leite como seu grande incentivador e apoiador. O ex-prefeito sempre visitava a escola para saber se tudo caminhava bem, pois tinha uma atenção especial às crianças.
Muitas vezes tirava dinheiro do seu próprio bolso para arcar com despesas da instituição e sempre apoiou todos os eventos dessa escola.
Um dia, tocado pelas constantes improvisações e mudanças de prédio, resolveu empreender todos os esforços possíveis para reverter esse quadro. Foi ao Governo do estado. Viajou a Brasília e conseguiu um grande presente cujos pais não acreditavam: a escola teria prédio próprio.
E foi assim que, onde atualmente se encontra o prédio da Escola Municipal Maria Dolores Regina de Macedo Leite, foi erguido um prédio que recebeu o nome Escola “Chapeuzinho Vermelho”.
A alegria se redobrou durante muito tempo nessa instituição. E nessa escola, juntamente com as crianças que Deus lhe enviou, ela encerrou suas atividades, sendo aposentada  no ano de ...............
Desde muito tempo a professora Aparecida sonhou reunir seus alunos para esse que é um dos mais importantes da sua vida, pois ela não viu outro lugar mais especial para agradecer a Deus e a Virgem Maria como a casa de Deus. A casa de Nossa Senhora do Ó. Ela agradece a essas divindades por ter coroado de êxito a sua missão de educadora. Num tempo que as coisas não eram tão abundantes como hoje, mas que o amor das famílias e as bênçãos do Céu sempre estiveram, ao seu favor, fazendo com que tudo desse certo.
Aparecida Basílio, essa nisiaflorestense abnegada, foi a primeira professora do ensino infantil de Nísia Floresta e será sempre lembrada por sua trajetória de amor à educação.
Que Deus possa abençoá-la juntamente com todos os seus ex-alunos e com os pais dos mesmos, pois foram peças importantíssimas para o sucesso da sua trajetória.
Quando Jesus disse “Vinde a mim as criancinhas”, à luz da exegese bíblica, ele quis dizer: “que todos os adultos amparem as crianças e as ensinem o caminho do cristianismo, que é o caminho do amor. Protejam as crianças e eduque-as para que o mundo seja cada vez melhor. Nunca deixem uma criança desamparada”.
Foi com esse entendimento que a professora Aparecida Basílio trabalho a vida inteira.
É por isso que Nísia Floresta deve a essa professora o seu respeito e a sua gratidão, pois a missão de educadora é uma das mais lindas, mas não deixa de ser uma das mais árduas. E não existe profissional que não tenha passado pelas mãos de um professor.

CARTA ABERTA DA LAGOA PAPARY AOS NISIAFLORESTENSES

CARTA ABERTA DA LAGOA PAPARY AOS NISIAFLORESTENSES

Nísia Floresta, 10 de março de 2012

Por Luis Carlos Freire

Eu, LAGOA PAPARY, brasileira, natural de Papary, Rio Grande do Norte, casada com os nativos, domiciliada no Porto, em Morrinhos, Tororomba, Oitizeiro, Georgino Avelino, Currais e Genipapeiro, dirijo-me respeitosamente até você, nisiaflorestense para pedir-lhe socorro.
Prefiro começar falando da minha origem. Você sabia que o meu nome 
original é PARAGUAÇU. Significa “MAR IMENSO” em nossa língua materna. Nem precisa perguntar o porquê. Eu já fui maior do que sou atualmente.
Sou filha da Lagoa do Bonfim, que se chamava “PUXI”. Mas prefiro não traduzir essa palavra condenada pelos capuchinhos. Sempre fui encorpada. Nasci no seio de uma família imensa. Tenho muitas irmãs, Papeba, Papebinha, Ferreira Grande, Ferreirinha, Urubu, Escura, Lagoa Seca, Carcará, Arituba, Cavalos, Pium, Amarela, Ilhota Lodo, Sítio, Dourada, Alcaçuz, Tacho, Jabuti, Hiola, Redonda e Redondinha, Carnaúba, Teixeira, Anjos, Custódia dos Negros e Peixe, embora algumas são adotivas.
Tenho vários primos em forma de pequenos rios no centro da cidade, no Porto, na Ilha, na Boacica, em Pirangi, Alcaçus, Pium, Cururu, na Hortigranjeira, enfim estou indiretamente em todo o município.
Sobre a minha idade, prefiro não dizer, mas só para dar uma pista, eu já existia muito antes de os índios chegarem por aqui. Já fiz a alegria de muito índio e índia que viviam nas minhas matas ciliares, pescavam, andavam de canoas e se banhavam em minhas águas.
Das minhas entranhas saíam infindáveis peixes de quase trinta quilos. Fui berço de milhares de goiamuns, carangueijo-sá, siri, camarão, inclusive Pitu, dentre uma vasta micro-fauna.
Sou a lendária lagoa Papary, d’antes Paraguaçu. Sou o amplo reservatório das águas do Trairí, berço das águas oriundas do inverno sertanejo, onde pequenos riachos correm dos tabuleiros arenosos, dando origem a essa imensidão de águas que se interligam com outras lagoas e rios, como o velho Cururu que desembocam no mar.
Desde que os portugueses começaram a andar por esses rincões meu nome original, Paraguaçu, passou a ser documentado na história. Começou pela cartografia de Marc Grave em meados da década de 1640. E antes disso eu já era conhecida em Portugal. O tempo passou e, em 1810, o famoso viajante inglês, Henry Koster, visitou-me quando minhas águas chegavam até o Porto.
Em seu livro “Viagem ao Nordeste do Brasil” ele relata que ficou encantado quando viu os pescadores chegando com as canoas abarrotadas de peixe, me comparado ao Mercado de Billingsgate, na Inglaterra, por minhas águas piscosas. Fui cantada em prosa e verso por autor anônimo que me dedicou bela poesia centenária, evocando a lenda de Jacy e Guaracy; citada por inúmeros viajantes europeus em documentos antiquíssimos.
Sempre fui considerada deslumbrante, misteriosa e acolhedora. Essa lenda, “do arco da velha”, nasceu quando passaram a me chamar de Papary, e aos poucos esqueceram que fui Paraguaçu. Se você não a conhece veja a letra:

Contava-se em Papari
A lenda de uma sereia;
Era a história de Jaci,
Jovem tapuia da aldeia.

Jaci formosa e catita,
Filha do chefe Aribó
Era a índia mais bonita
Do Vale do Capió.

Amava com amor ardente
Guaracy jovem guerreiro,
Cujo peito igualmente
Nasceu um afeto primeiro

Sozinho na solidão
Guaracy vagava a toa,
Ora ao redor da Caiçara,
Ora ao redor da lagoa.

Certa vez quando pescava
Tentando esquecer as mágoas,
Ouviu que perto cantava
A voz de Jaci nas águas.

A delirar, Guaracy.
Na lagoa mergulhou
Seguiu a voz de Jaci
E a tona não mais voltou.

Hoje esta lenda triste
Quem se dispõe a cantar
Vê quanto mistério existe
Entre a lagoa e o mar.

É uma estória triste, não? Pelo jeito foi escrita no período do Romantismo. Guardo lembranças lindas, tristes e algumas aterrorizantes. Ainda me recordo quando vi, em silêncio, Jacob Rabbi passar por essas veredas. Logo após a Chacina de Cunhaú, vi quando seu grupo passou por aqui, rumo a Barra de Tabatinga para a segunda chacina. Poucos nisiaflorestenses sabem desse episódio histórico. Era noite de lua cheia e as sombras asquerosas daqueles assassinos ainda tocaram-me entre os juncos.
Testemunhei homens brancos de olhos azuis cortando uma linda espécie que existia em abundância por essas matas ciliares. Lembro-me de um dia que só dessa região saíram 40 navios franceses repletos de pau-brasil.
Sempre fui muito limpa. A própria fauna aquática que existia em mim se encarregava dessa limpeza. Minhas águas sempre foram puras e cristalinas. Às vezes eu ficava turva, pois a Caiçara que tanto me amava, me abraçava por completo, deixando-me ora salgada, ora doce, ora salobra.
Sabe o que significa Caiçara? Não?!! Para que todos entendam precisamos nos reportar ao descobrimento do Brasil: Quando os portugueses chegaram ao Nordeste encontraram o nativo indígena e, através de uniões amorosas, se misturaram. Tempos depois, veio o africano e mais um ingrediente étnico-cultural entrou na mistura. Nasciam os caiçaras, uma população tradicional intimamente ligada à natureza e seus ciclos, que trabalhavam para o sustento cultivando roças, extraindo frutos e lançando-se à caça e à pesca.
A palavra “caiçara” tem origem tupi-guarani. “Caa” significa pau, mato; “içara” quer dizer armadilha. Caiçara é um tipo de proteção feita de galhos e varas que os índios usavam em volta de suas casas ou para pescar. Com o tempo, a palavra passou a ser usada para identificar o povo litorâneo, mas hoje ninguém se recorda mais disso. Os homens parecem interessados em outras coisas.
Minhas águas sempre atraíram galinha d’água, pinto d’água, marreco, xexéu, rolinha, galo de campina, bem-te-vi, tetéu, sabiá, concrix, carcará, lavadeiras, gavião e tantas outras aves. Saciei a sede de muito tatu, tijuaçu, jacaré, cotia, coelho-do-mato, preá-do-mato, raposa, guaxinim, timbu e tantos outros animais. Era uma riqueza. Isso parecia o pantanal.
Mas, continuando o que eu falava, sempre dei alegria aos nativos. Das minhas águas saiam incontáveis centenas de quilos de peixes e camarões durante a festa dos Pescadores, em setembro. O pessoal do Porto fazia barracas, havia celebrações, festa social com muito forró original. As casas eram todas de palha. Tinha até o famoso dízimo-do-peixe. Foi um tempo que deixou saudades.
Durante incontáveis invernos sempre recebi as águas do sertão. Essas águas trouxeram lentamente muita terra que foi me assoreando aos poucos. Em 1974 houve uma enchente que ficou na lembrança de muita gente. A famosa “cheia de 74”. A força das águas rompeu a BR 101, nas proximidades de São José de Mipibu, deslizando em mim toneladas de barro que elevava a pista.
Existia uma barragem em Georgino Avelino. Ela também se rompeu me enchendo de barro e entulhos. A partir daí nunca mais fui a mesma, embora ainda não era poluída por dejetos. Antes eu era interligada com os rios de toda a região de Currais a Genipapeiro, chegando rente à estrada de acesso a tais distritos. Mas fui me reduzindo e me distanciei do Porto, principalmente. Muita área que era só água hoje está tomada por aninga, pasta e aguapé. Todo o meu leito está cheio de terra vinda de outros rios e de algumas cidades potiguares, pois como suas margens estão desmatadas essas terras ficam soltas e a cada chuva deslizam para os rios até o ponto final, que, por ironia, antes de chegar ao mar, sou eu. Num dos meus pontos mais fundos formou-se um câncer em forma de um gigantesco banco de areia, maior que um campo de futebol. Parece uma ilha vulcânica.
Minha micro-fauna e flora aquática estão quase totalmente destruídas devido a essas agressões. Os meus plânctons nem se fala. É por isso que não tenho mais gerado tantos peixes e crustáceos como antes, pois essa fauna se alimenta da minha micro flora e fauna. A vegetação do mangue é minha verdadeira muralha de proteção, muito antes da mata ciliar. Mas, ao longo dos anos vem sendo cortada para a construção de casas de taipa dos próprios nativos, além de outras finalidades.
Eu pensava que com o advento da alvenaria isso se acabaria, mas agora apareceram os viveiros e minhas margens mais parece um descampado. O pouco que restava desse micro-ecossistema está morrendo lentamente devido aos produtos químicos que estão usando. Estão jogando um líquido esquisito nas minhas margens e ele mata tudo que é vivo, seja animal ou vegetal. Em fração de segundos os lambarizinhos sobem e apodrecem por ali mesmo. Minhas imediações fedem como o Tietê. Pelo que vejo, se os fatos continuarem como estão, serei tal qual esse rio paulista.
Se minhas margens ficarem savanizadas estará decretada a minha morte e as consequências serão catastróficas para todos. E lembre-se que meu caso é mais grave, pois estou sobre os aquíferos Aluvião e Barreiras, um dos maiores do Rio Grande do Norte. Isso entra na sua cabeça?! Você já analisou a gravidade?!
Confesso que estou muito triste, pois ouço muitas lamúrias, principalmente de pescadores, de pessoas aficionadas por ecologia, mas ninguém age. Onde estão as autoridades, onde estão os amantes da natureza, os estudantes de ecologia, de turismo, enfim as camadas pensantes do meu município?!
Para quem tem memória curta, lembro que sou aquela que matou a fome dos seus antepassados, numa época em que tudo era mais difícil. Quando não existia Bolsa Família, nem aposentadoria tão fácil como atualmente. Sou aquela que representou a única fonte de alimentação da sua família, numa casa de taipa ou de palha. Lembra-se?!
Sou aquela que enchia os cestos de peixe, pitu e carangueijo para os seus avós e pais, os quais chegavam em casa felizes, entregavam o fruto da pesca às esposas. Estas se sentavam nos batentes das portas ou mesmo no chão, junto das bacias repletas do pão de cada dia para prepará-los.
À noite a mesa era farta. Do fogão de lenha saia bem quentinho inhame, fruta-pão, batata assada, macaxeira acompanhada de peixe frito ou assado, camarão, caranguejo, goiamum, siri, café e muita fartura. Tudo isso regado à família unida, certa de que minhas fontes eram inesgotáveis.
Existiam nativos que montavam pequenas barracas cobertas de palha ao lado das estradas de acesso às praias e passavam a vender variados pratos à base de camarão no alho e óleo, no molho, feito vatapá, e isso fez a fama, a ponto de futuramente surgirem restaurantes simples, mas com grande movimentação. Os famosos “camarão de fulano”... ”Camarão de Sicrano”...
Toda tardinha os pescadores juntavam o fruto da pesca e bem cedo saiam para Natal. Passavam o dia gritando pelas ruas: Olha o camarão! o peixe! o siri! o goiamum! o caranguejo! E isso deu ao município de Nísia Floresta a alcunha de “Terra do Camarão!” Esse contexto deu origem à tradição que permite até hoje as pessoas de outras localidades virem para cá apreciar tal iguaria. Era muita fartura e riqueza, tanto nas águas quanto na agricultura. Mas mesmo assim os nativos eram simples demais. O progresso era uma coisa distante. Ir a Natal consistia numa aventura! A própria capital era lugar sem muita novidade.
A maior alegria das famílias era se reunir nos finais de semana para banharem-se em minhas águas e passear de canoa. As árvores ao meu redor era um verdadeiro parque de diversão. Normalmente as famílias chegavam ao amanhecer e passavam o dia ao sabor de água de pote e “liguento”. Eles eram felizes e não sabiam. Hoje quem entra em minhas águas sai se coçando e fica com a pele irritada. E tem muitos pescadores com sérias doenças de pele.
Lembro-me de uma época em que coisas comuns como um chinelo ou um pão eram grandes novidades em Nísia Floresta. Hoje todos parecem ricos. Estou cercada de parabólicas. O curioso é que exatamente muitos daqueles cujos bisavós, avós e pais se alimentaram do que eu tanto produzia, esqueceram-se do imenso valor que me davam. Hoje talvez eu não represente nada, pois talvez estejam ganhando muito dinheiro e não saibam mais o que é a fome.
Isso me incomoda, pois sempre dei sem exigir nada em troca. Hoje pareço ser a personificação da velha frase: “É cuspir no prato que comeu!”.
O tempo passou. As coisas foram se modernizando. Hoje os pescadores têm seguro. Acho que somente eu estou desamparada, sem aposentadoria, seguro, Bolsa Família... E ainda querem me fazer de fossa!
Hoje recebo esgoto, os dejetos e as águas servidas do meu velho amigo “Mipibu”, outra vítima de ingratidão. Esse famoso rio de linda história, verdadeiro tesouro encravado em resquício de mata atlântica, agoniza. Esquecem as autoridades que da sua fonte vem a água que abastece toda a cidade de São José do Mipibu.
Na realidade o rio não tem culpa, pois ele deságua em minhas águas cumprindo a sua missão natural. Mas foram das mãos humanas que saíram as galerias subterrâneas de concreto, oriundas de São José de Mipibu, as quais desembocam nele.
Os pescadores nisiaflorestenses não têm do que viver. É muito triste ver meu povo passando necessidade. É apavorante saber que homens e mulheres veem o sol nascer e se pôr acompanhados por uma garrafa de cachaça. Talvez eles se anestesiem para não ver a paisagem triste da minha agonia e da a sua própria miséria.
Em Nísia Floresta já começa a aparecer consumidores de crack, maconha e outras drogas. Existem distritos que margeiam minhas águas com pontos de drogas. Vejo tudo isso com lágrimas nos olhos, pois não posso fazer nada.
Não pense que sou exagerada, mas os problemas sociais como esses e outras mazelas decorrem da minha decadência. A minha ruína significa a amplitude da miserabilidade em todos os seus aspectos no meu município.
Volto a perguntar: onde estão as autoridades mipibuenses, nisiaflorestenses e natalenses que em pleno século XXI, em plena Àrea de Proteção Ambiental, em pleno solo onde existe o Instituto Chico Mendes, em plena Mata Atlântica, não enxergam os atentados que sofro diariamente e os danos sociais decorrentes disso?!
Será que enxergar e acabar com isso compete meramente às autoridades mipibuenses e nisiaflorestenses?!
E você, o que pensa disso?!
Aguardo a sua ação, afinal ainda é tempo, mas se você demorar eu morrerei, pois eu própria não posso fazer nada por mim.
Aí será tarde e seus filhos e netos não me conhecerão!
Mas lembre-se: a minha morte significará muitas mortes!!!
Um grande abraço!

Lagoa Papary